Pesquisar neste blogue

terça-feira, 3 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27790: Nomadizações de um marginal-secante (Luís Graça) (2): Safety first? O "desastre" do Cheche na abordagem sociotécnica


Ilustração: Entropia.  Luís Graça (1999)

 

Guiné > Zona Leste > Região do Boé > Cheche > Rio Corunal > 6 de Fevereiro de 1969 > A jangada da tragédia na retirada de Madina do Boé. Foto de Paulo Raposo 

Infografia: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2026)


1. No nosso tempo de tropa, ensinaram-nos que "mais valia perder um minuto na vida do que a vida num minuto"...  Ensinaram-nos ? Bom, o termo é lisonjeiro para a generalidade dos instrutores... O exército, nesse tempo, não se preocupava muito com a pedagogia. (Que era, por defeito, aquela que já conhecíamos, de casa e da escola, a do pau e da cenoura.)

A expressão Safety First (a segurança em primeiro lugar) é uma variante deste slogan. Em muitos casos, não passa(va) de um chavão. Num país como o nosso que, na época, ficava mal na fotografia europeia da sinistralidade por todas as causas (e nomeadamente, acidentes de trabalho, de lazer e de viação).

Todavia, numa abordagem sociotécnica, deixa de ser apenas um mero slogan de cartaz, "securitário", obrigatório por lei, e que a gente pode ler nos taipais de um estaleiro da construção civil, quando passamos na rua, para se tornar um princípio estruturante da relação entre homens, tecnologia e organizações.

Em "sistemas sociotécnicos", complexos e abertos, entende-se que o desempenho organizacional (numa empresa, numa hospital, numa escola, num quartel...) depende da interdependência entre o sistema social (pessoas, formação, cultura, comunicação, relações de poder) e o sistema técnico (ferramentas, processos, máquinas).

O que é isso significa na prática ? Eis aqui os alguns dos seus  princípios:

(i) A segurança como propriedade emergente

Na abordagem sociotécnica, a segurança não é um kit, algo que se "instala" numa máquina; é uma propriedade emergente.

Não basta ter o software mais seguro ou o melhor hardware (equipamento técnico) nem mesmo o mais competente e dedicado humanware  (as pessoas, os operadores, os recursos humanos)... É preciso verificar se a cultura organizacional  não é accident-prone,  propensa ao acidente: por exemplo, se pressiona no sentido do one best way, de metas inatingíveis, de prazos impossíveis, da lógicas de custo-benefício.

O Safety First implica que a segurança surge do ajuste harmonioso entre as capacidades humanas e e as limitações técnicas, e vice-versa,  as limitações humanas e as capacidades técnicas.

(ii) O erro humano como sintoma, não como causa

A abordagem sociotécnica inverte a lógica tradicional de culpa e da dicotomia simplista erro humano / falha técnica:

  • o operador errou porque foi negligente (explicação tradicional ou de senso comum) e, portanto, deve ser admoestado ou punido;
  • o "erro" é um sintoma de um deficiente  design técnico (concepção e planeamento),  ou de uma organização do trabalho disfuncional (visão sociotécnica).
Colocar a segurança em primeiro lugar significa então "desenhar" (conceber e planear) sistemas que sejam tolerantes ao erro, onde o sistema técnico protege o humano e o humano tem autonomia para intervir no sistema técnico. Ou seja, não há determinismo tecnológico.


(iii) O equilíbrio entre eficiência e segurança (ETTO)

Existe um conceito central chamado Efficiency-Thoroughness Trade-Off (Compromisso entre Eficiência e Rigor).
  • no dia a dia das organizações, há uma tensão constante: ser rápido (eficiente, fazer depressa, com redução de custos) vs. ser cuidadoso (fazer bem, com segurança, com rigor, com qualidade);
  • Safety First em termos sociotécnicos significa que a organização valida e apoia o trabalhador quando este escolhe o rigor em detrimento da velocidade, garantindo que os incentivos financeiros ou imperativos produtivos não atropelam os protocolos de segurança.

(iv) Duas lógicas de gestão opostas:

  • Prevenção de "custos de acidentes" (diretos, indiretos e ocultos)

Na lógica sociotécnica, o custo de implementar medidas de segurança (formação, treino, redundâncias, ergonomia) é quase sempre inferior ao custo do desastre, do acidente (acarretando danos materiais e pessoais). A efetividade é medida pela continuidade operacional e a integridade da vida humana. 

 Custo: implementação de protocolos, programas de saúde, segurança  e bem-estar   

Efeito: zero acidentes, interrupções, erros,  danos (pessoais e patrimoniais).


  • Fator humano como investimento


Diferente da visão tradicional, puramente mecanicista, a análise sociotécnica entende que trabalhadores / operadores seguros e bem integrados no sistema tecnológico produzem mais e 
melhor.

Segurança psicológica: aumenta a proatividade e a detecção precoce de erros.


Ergonomia: reduz o absentismo, melhora a qualidade de trabalho, aumenta a longevidade da força de trabalho.

  • Sustentabilidade do sistema

Uma organização que negligencia a saúde e a segurança no trabalho pode ter um bom "custo-benefício" a curto prazo (economiza em equipamentos, software, pessoal de saúde e segurança no trabalho), mas não é custo-efetiva a longo prazo, pois o sistema torna-se frágil e propenso a acidentes, falhas, erros, colapsos, que podem destruir a imagem, a cultura, o clima, o moral, a reputação ou a viabilidade da empresa.

Em resumo:

Visão tradicional (Custo-Benefício):
  • segurança é um custo que reduz a margem de lucro;
  • foco no retorno financeiro imediato das medidas;
  • o erro humano é uma falha a ser punida.

Visão sociotécnica (Custo-Efetividade)
  • segurança é a base que permite ao sistema funcionar sem falhas;
  • foco na resiliência e na otimização da relação homem-máquina;
  • o erro humano é um sintoma de um sistema mal desenhado.

Resumo das Dimensões

Dimensão | O que Safety First exige
  • Técnica | Interfaces intuitivas, mecanismos de paragem de emergência, redundâncias
  • Social | Cultura de confiança e de participação onde se pode reportar falhas sem medo de ser punido 
  • Organizacional | Priorização da  segurança nas decisões de topo, não apenas ao nível operacional.

II. O "desastre" (sic)  do Cheche (6 de fevereiro de 1969) devia, nas nossas "escolas de guerra",  ser um caso de estudo,  trágico e paradigmático,  de como a falha num sistema sociotécnico sob pressão extrema conduz entropoia, à catástrofe, in limine,  à morte. 

No contexto da retirada de Madina do Boé, a segurança foi sacrificada por imperativos operacionais (e quiçá políticos), resultando na morte de 47 homens (46 militares e 1 civil) no Rio Corubal. Tudo parecia correr bem, quando se respeityaram as normas de segurança.

Analisando o evento pelo prisma sociotécnico:

(i) Sistema técnico: a jangada e o rio

O "sistema técnico" aqui era composto por um jangada improvisada, um "sintex" com motor fora de bordo e a própria geografia do Rio Corubal.

Falha de "design" (incluindo a conceção e o planeamento da operação): 

  • a jangada não foi projetada para o peso excessivo de dezenas de homens com equipamento completo, nem para a instabilidade de um rio, relativamente largo e com corrente;
  • foi feita a "olhómetro", com materiais locais (canoas...)  e aparentemente não foi testada;
  • confoiu-se na experiência dos operadores;
  • degradação técnica: a travessia do rio em Cheche ocorreu, na sequência de uma operação (Mabecos Bravios) após a retirada do quartel de Madina do Boé, em contexto e em clima de  guerra;
  • a compamhia de Madina (CCAÇ 1790) estava isolada há mais de um ano e sujeita a frequentes ataques e flagelaçóes (c. duas centenas e meia);
  • a distância  de 40 km entre Madina do Boé e Cheche foi feita sob grande stress físico e piscológico:
  • o equipamento (jangada, sintex...) estava sob esforço máximo.
O "gatilho": a inclinação da jangada fez com que a água entrasse nas canoas, eliminando a flutuabilidade e provocando o pânico (independentemente de ter havido ou não uma detonação numa das margens do rio).

(ii) Sistema social: exaustão e hierarquia

  • o fator humano estava no limite da resistência física e psicológica;
  • pressão temporal: havia uma pressa crítica para retirar a tropa da zona, eventualmente com  o receio de um ataque ou flagelação do PAIGC que, à distância, acompanharia a operação;
  • a pressa é a inimiga clássica da segurança sociotécnica (Efficiency-Thoroughness Trade-Off);
  • cadeia de comando: em sistemas de alta fiabilidade, a segurança exige que qualquer elemento possa interromper a operação se detetar perigo ou risco; este princípio é, de algum modo, incompatível com o princípio da unidade comando-controlo em vigor num exército clássico.
No Cheche, a estrutura militar rígida e a urgência da retirada impediram que o bom senso (não sobrecarregar a jangada) se sobrepusesse à ordem de ganhar tempo e de avançar.

  • pânico: sociotecnicamente, o pânico é uma resposta à quebra de confiança no sistema técnico;
  • quando a jangada adornou, o sistema social colapsou.

(iii) A falha organizacional: o Safety First inexistente

A nível macro, a decisão de abandonar Madina do Boé foi uma decisão política e estratégica de alto risco. Terão sido ponderados todos os prós e contras ?

Falta de redundância: um princípio sociotécnico essencial é a redundância (ter um plano B).

No Corubal, não havia meios de salvamento, botes pneumáticos, fuzileiros, mergulhadores, e outro pessoal da marinha (exceto o condutor do sintex),   boias, coletes salva-vidas..., coisas que hoje são elementares numa simples passeio de barco no estuário do rio Tejo,

Havia apoio aéreo, mas terá faltado um grupo de combate de paraquedistas, fuzileiros ou comandos, helitransportado,  que fizesse a cobertura e a segurança próxima dos últimos homens de infantaria  (mais de 100) a retirar.

A operação parece ter sido  do tipo "tudo ou nada"...

Invisibilidade do risco: o comando da operação, focado na logística da retirada, subestimou o perigo da travessia física (a "cambança"), tratando-a como um detalhe tático ou operacional e não como o ponto crítico (ou até o mais crítico) da missão.

Comparação sociotécnica:


Madina do Boé vs. Segurança integrada (ou vista hoje)

Elemento  | No Desastre do Cheche (1969) | Numa Operação Safety First |

  • Carga |  Excesso de peso para cumprir horário | Limites técnicos respeitados rigorosamente
  • Comunicação | Silêncio rádio e pressão de comando | "Cultura justa e responsável" (capacidade de dizer "não")
  • Equipamento | Improvisação sob stress | Certificação e redundância de meios.
  • Ambiente |  Hostil e imprevisível | Monitorização e mitigação de riscos ambientais.

O "desastre" do Cheche demonstra que, quando o sistema técnico (a jangada rebocada por sintex) é precário e o sistema social (os soldados) está exausto e sob pressão externa, qualquer pequena variação pode levar ao colapso total. 

É a negação absoluta do Safety First em prol da sobrevivência operacional, que acabou por ditar a maior tragédia da guerra colonial na Guiné. Não, não foi um acidente, "como tantos outros".  Foi um risco estatisticamente previsível, resultante de uma falha do sistema sociotécnico. Tal como o acidente de trabalho ou um "desastre" ferroviário. 
____________________

Nota do editor LG:

Último poste da série > 10 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27722: Nomadizações de um marginal-secante (Luís Graça) (1): Os desastres (do Cheche a Alcácer Quibir das Cheias de 1967 à tempestade Kristin) e a teoria do bode expiatório

11 comentários:

Tabanca Grande Luís Graça disse...

Vd. a origem da palavra "desastre"...

É fascinante como a raiz das palavras revela a visão de mundo dos nossos antepassados. No caso de "desastre", a culpa não era nossa, mas do céu, condomínio dos deuses...

Significado e Etimologia > Desastre (s.m.): "Qualquer coisa que acontece de natureza ruinosa ou angustiante; qualquer evento infeliz", especialmente uma desgraça súbita ou grande. Origem: Do francês "désastre" (séc. XVI), pelo italiano "disastro" .

Sentido literal: "Má-estrela" ou "estrela desfavorável".Composição: "dis-": prefixo pejorativo (equivalente ao português !mis-" ou "des-"), significando "mau" ou "afastado"; + "astro": do latim "astrum" e do grego "astron" ("estrela").

Termos relacionados:
Desastroso (adjetivo: que descreve algo que causa grande dano ou fracasso);

Desastrosamente (advérbio; de uma maneira que resulta em desastre):

Ill-starred (em inglês): nascido sob uma má estrela

Alusão direta à origem astrológica (ter azar ou destino infeliz).

Conexão astrológica: a palavra carrega a herança da astrologia medieval. Antigamente, grandes calamidades (pestes,. fomes, terramotos, guerras, derrotas militares) eram atribuídas à posição desfavorável dos planetas. Se o "astro" estivesse desalinhado ou em posição "sinistra", o resultado era um "des-astre".

Esta ideia de que o destino ("fado", em português, "fatum", em latim...) está escrito nas estrelas chegou até aos nossos dias em expressões como "ter boa estrela", "estrelinha da sorte"...

Fascinante o caminho das estrelas e das palavras... Em conclusão, quando escrevemos o "desastre" do Cheche, estamos a alijar a carga, a "naturalizar" o acidente, no fundo, a "lavar as nossas mãos"...

Victor Costa disse...

Luis, eu não vivi esses tempos, mas para mim, além da trajédia é uma lição de vida para recordar.
Não vou mensionar nomes, mas um dia também falarei da pessoa que fez o Requerimento, para a C.Caç.4541/72 ter acesso aos documentos do MFA. Entretanto vou registando nomes, datas e decisões tomadas, do periodo que eu vivi.

Um abraço,V.C.

Tabanca Grande Luís Graça disse...

Hélder: gostava que desses uma vista de olhos a este pposte... Tu que és engenheiro e especialista em segurança, tens por certo algo a dizer, mesmo passados mais de 57 anos sobre o "desastre" de Cheche... E mesmo não dispondo nós de toda a informação (por exemplo, o relatório que terá sido feito pelo cor cav Ferreira Cavaleiro; será que existe cópia no Arquivo Histórico-Militar ?).

Afinal, arranjou-se um bode expiatório, que era o elo mais fraco da cadeia, o ex-alf mil Dinis, da CART 2338...Felizmente, acabou ser ilibado em tribunal militar...

Mas será que algum professor da Academia Militar já usou esta "história" como estudo de caso ?

Um abração, Luís

Victor Costa disse...

Olha... Nem mais. Estas "obras de arte" que partiram de Aveiro, devem ser estudadas também pelo Clube GALITOS DE AVEIRO.

Quem sabe se os Galitos, não aumentam as suas vitórias no remo?

Anónimo disse...

Paulo Lage Raposo (by email)

terça, 3/03, 22:18


Olá Luís

Desculpa vir mais uma vez falar do desastre da jangada durante a travessia do rio Corubal.
Facilitou-se, para não deixar ninguém para trás, a jangada ia com pessoal a mais.
O mais graduado que ia na jangada era o Cap. José Aparício .

Spinola queria um culpado para proteger o seu amigo, o Cor Hélio Felgas e a ele mesmo, uma vez que Spinola tinha pretenções a ser Presidente da República .

Que venha o primeiro dizer que nunca facilitou. Quantas colunas que fizemos sem picar? Etc? Etc?

O Felício , que faleceu na semana passada, dizia que o Alf. Dinis, comandante do destacamento do Cheche, também ia na jangada.

No auto Aparício e Dinis foram dados como responsáveis do acidente.

Foi um dia tão triste para todos nós.

Acho que que não devemos andar a mexer e remexer no assunto.

Facilitou-se. Assisti a tudo, pois atravessei o rio na vez anterior.
Abraço
Alf. Raposo
Ccaç 2405

Tabanca Grande Luís Graça disse...

Paulo, obrigado pela tua resposta. E sou sensível ao teu apelo: deixemos os nossos queridos mortos em paz.

Tabanca Grande Luís Graça disse...

Este fim de semana estive em Évora, num alojamento local. E fui almoçar, no domingo, á a herdade do Freixo do Meio. Quis contactar-te mas não tenho o teu número de telemóvel. Aquando da notícia da morte do Rui, telefonei para o teu hotel da Amieira, disseram-me que agora vivias em Lisboa e iriam dar-te o meu recado. Mas não me deram, e bem, o teu número de telemóvel. Deixei o meu. Mantenhas. Luis

Tabanca Grande Luís Graça disse...

Paulo, a minha ideia é deixar arrumados, na série "Documentos", os principais depoimentos sobre a retirada de Madina do Boé. Que estavam muito dispersos no blogue.

Victor Costa disse...

O direito de opinião deve ser respeitado mas, o Estado Português obrigou-me a fazer um trato sucessivo para reconhecimento de propriedade privada ao abrigo da Lei 54/2005 (Lei Sócrates) e esteve-se marimbando para a minha opinião. Então restou-me ir procurar escrituras para os 12 Km de prateleiras do Arquivo da Universidade de Coimbra. Foram vários anos de investigação e como eu sou muito teimoso consegui, (ver documentos já publicados aqui). Aqui chegado, resta-me responder na mesma moeda, (olho por olho,dente por dente).
Vejam bem como, nem os anos conseguiram que eu dexasse de ser um "casca grossa".
Por isso, para mim o trabalho do Luis é muito bom.

Victor Costa disse...

E mais, não ligou ao Decreto de 31 de Dezembro de 1864, nem ao Art.º 380º do Código de Seabra e acabou com a Lei da àgua de 1919 e tudo isto em nome da Democracia.

Victor Costa disse...


Todos devem ter o direito de opinião.
Para mim o problema dos 47 camaradas mortos, começou em 1964 com o homem que disse acabar com a guerra em meses, ou seja o Sr. Gen. Arnaldo Schultz.
E quanto ao General Spinola, Já tenho em meu poder provas que, se ele quizesse, os Acordos de Argel não tinham sido assinados e foi a assinatura dele que ditou o seu fim, o reforço dos seus opositores, a ascenção da ala radical do MFA, a criação da P.I.M., a Constituição da 5ª Divisão do MFA e a (areia prós olhos), perdão, eu quiz dizer a maioria silenciosa que deu origem ao 11de Março de 1975 e ao PREC.
Ainda bem que foi publicado nesta casa o livro de Lenine ( Catástrofe Iminente e os Meios de a Conjurar).
O luis graça, merece a nossa admiração, porque fez um trabalho isento.