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segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27738: Notas de leitura (1896): "Amílcar Cabral O Africano que Abalou o Império", por José Alvarez, Âncora Editora, 2025 (2) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 1 de Setembro de 2025:

Queridos amigos,
Aqui se relata como Amílcar Cabral, terminado o seu curso de Agronomia, requereu trabalho para a Guiné e foi colocado na granja de Pessubé, trabalho que inicia em setembro de 1952, ganhará rapidamente alguma notoriedade com o seu Boletim Informativo, segue-se o recenseamento agrícola, há muito pedido pela FAO, no romance de José Alvarez dá-se como seguro que Cabral foi demitido pelo Governador Mello e Alvim, não há documentos concludentes e correspondência de Cabral para os amigos nada indicia, Cabral e a mulher estavam fortemente afetados pela malária, isto de acordo com o parecer da Junta Médica. De regresso a Lisboa, empregos não faltam ao engenheiro podólogo. Veremos a seguir como se vai abrir um período internacional de reuniões dos nacionalistas africanos, em Tunes, em 1960, é anunciado pela primeira vez a existência do PAI, mais tarde transformado em PAIGC. E veremos também como a polícia política no Estado Novo vai colhendo informações sobre o ativismo de Cabral. Assim ele irá preparar a saída de Portugal, de Paris seguirá para Conacri. Houvera entretanto em 1959 uma reunião em Bissau, o movimento nacionalista estabelecera os trâmites para a sua organização, Rafael Barbosa ia encaminhando os jovens para Conacri, aqui Cabral iria criar uma escola para lhes dar os rudimentos da formação ideológica, de Conacri partiriam para Nanquim, China, regressariam já com o espírito de guerrilheiros.

Um abraço do
Mário



O primeiro romance histórico sobre a vida e obra de Amílcar Cabral – 2

Mário Beja Santos

No prefácio deste romance histórico, o General Pedro de Pezarat Correia apresenta a obra de José Alvarez [na foto à direita] do seguinte modo:
“É um ensaio biográfico porque o tema é a vida de Amílcar Cabral, sustentada por uma exaustiva investigação de fontes primárias e resultando na caracterização de uma personalidade que, creio, é retratada com justíssima fidelidade. É um romance porque nessa vida sobressai a acidentada e apaixonada vida amorosa de Cabral, traduzida em dois casamentos dominados pelo empenhamento ideológico e político do próprio e das suas companheiras e, por isso, terminados em tragédias. E é ficção histórica porque tratando-se da descrição de um percurso político, de uma época e das suas circunstâncias, da formação e liderança do PAIGC, do envolvimento frentista com os movimentos de libertação das outras colónias portuguesas numa luta comum contra a ditadura colonial, onde se cruzam personagens reais e em situações reais, toda ela é enriquecida com a óbvia imaginação criativa do autor na descrição e reprodução de cenários, da tensão nas reuniões, dos diálogos ideologicamente discordantes, do ambiente na clandestinidade, do risco iminente nas zonas de guerra, da precariedade nos países de acolhimento no estrangeiro, das cumplicidades e traições que ali se cruzam.”


Em síntese, um romance histórico. Vimos alguns elementos preponderantes da vida de Amílcar entre 1924 e 1951, o agrónomo distinto continua a reunir-se com nacionalistas de outras colónias na Rua Actor Vale, n.º 37, reuniões de grande entusiasmo e contestação aos processos colonialistas em curso. Morreu Juvenal Cabral, envia um telegrama ao seu irmão Luís: “Ciente dolorosa fatalidade unidos lutaremos”. Maria Helena é o seu arimo, casam em 20 de dezembro de 1951, após a cerimónia civil, na companhia de amigos como Mário de Andrade e Alda Espírito Santo foram almoçar bacalhau no Café Colonial, na Avenida Almirante Reis.

Refere o autor:
“Amílcar decidiu realizar o estágio para acabar o curso, pelo que ficou em Lisboa a desenvolver o seu projeto no Instituto Superior de Agronomia e na Estação Agronómica Nacional do Alentejo. Passou bastante tempo em Cuba e na Vidigueira em trabalhos de campo, sob a orientação do professor Botelho da Costa (…) Em 1952, terminou o projeto com a classificação de 18 valores. Foi um ano importante para Amílcar, em que se formou e a sua mulher apareceu grávida. Optou pela Guiné. Amílcar sentia que tinha uma missão cumprida. O contacto com outros estudantes das colónias na Casa dos Estudantes do Império fê-lo acreditar que podia ser útil na luta pela emancipação do homem negro e da terra africana. Teve a honestidade, de ao longo do namoro com Maria Helena, lhe mostrar que essa era a sua missão, apesar dela o ter contrariado e rompido a relação, por mais de uma vez.”


Em setembro de 1952, Cabral tem emprego na Guiné, passa por Cabo Verde para visitar a família, foi contratado pela Repartição Provincial dos Serviços Agrícolas e Florestais da Guiné Portuguesa, como Adjunto do Chefe da Repartição Provincial. Instala-se na granja do Pessubé, Mária Helena ainda ficou em Lisboa a acabar a tese, chegou dois meses depois. Informa a mulher que vão viver no meio de quatrocentos hectares de campo, Amílcar pensa em tudo para o conforto da mulher. Criou um Boletim Informativo para divulgar as atividades da granja, tudo redigido para compreensão de destinatários rurais. Irá planificar o Recenseamento Agrícola da Guiné Portuguesa, que se efetivará em 1953, irá percorrer grande parte da colónia, muitas vezes acompanhado da mulher. Continua a jogar futebol, no romance Amílcar irá encontrar Nino Vieira e Aristides Pereira, conversa para estabelecer relação. Fala-se na chegada de novo governador, um homem da Armada, Diogo Mello e Alvim.

É durante um repasto que Cabral comenta que Salazar queria implementar a produção da mancarra, fazer dela o principal produto exportador. Mas os solos já apresentavam alguma erosão, a degradação ir-se-ia acentuar. Fala-se da política na terra, nas condições sub-humanas em que têm sido feitas as estradas, e Amílcar conversando com Aristides Pereira sugere que se forme uma agremiação desportiva, a ideia parece ter pernas para andar, há um grave óbice, a agremiação seria só para negros. Clara Schwarz ensina francês a Amílcar, este seria delegado do Governo português à Conferência Arachide-Mils em Bambey, no centro oeste do Senegal.

Chega o irmão de Amílcar a Bissau, Luís, irá trabalhar na Casa Gouveia. Nasce a filha mais velha do casal, Iva Maria, a avó, Iva Pinhel Évora, ajuda Maria Helena. Começam as operações de recenseamento, tarefa enorme. Em Bissau, o casal que se passara a relacionar com uma farmacêutica que estivera presa em Caxias e obrigada a vir para a Guiné, Sofia Pombo, é convidada para uma reunião em sua casa, comparecem, entre outros, Aristides Pereira, Fernando Fortes, Luís Cabral, Júlio Almeida, debatem-se os ares de independência que sopram em África. No final desse ano de 1953, Cabral e a sua equipa começaram o recenseamento no sul da Guiné.

No início de 1954 chega Mello e Alvim, estão elaborados os estatutos da associação, há discussão na medida em que Cabral inicialmente não devia assinar. Maria Helena começa a ter crises de malária. Dá-se o encontro entre o novo governador e Amílcar, conversa bastante cordial, Cabral faz a crítica à cultura da mancarra, o governador promete visitar a granja de Pessubé. Dentro do romance surge a notícia que Mello e Alvim iria demitir Cabral das suas funções na Estação Agrária e que a sua autorização de residência na Guiné ser-lhe-ia retirada, nova conversa entre o governador e Cabral, dera-se a rutura, Cabral pede para partir para Lisboa o quanto antes, alega que vai aceitar o lugar de assistente do professor Baeta Neves, na cadeira de Entomologia Agrária. De acordo com a historiografia e com a correspondência de Amílcar Cabral na época para vários amigos, não há qualquer menção à demissão por razões políticas, no casal vão ocorrendo sucessivas crises de paludismo.

O casal e a filha regressam a Lisboa, estamos em 18 de dezembro de 1955, Cabral começa a procurar emprego, o professor Botelho da Costa pede-lhe um estudo sobre o cultivo da cana-de-açúcar na Guiné, foi igualmente integrado em vários trabalhos conotados com o estudo de solos. Fala-se no regresso à Guiné, Maria Helena está profundamente reticente. Cabral recebe nova proposta de trabalho, propõem-lhe que seja diretor da Brigada de Estudos Agrológicos da Companhia de Açúcar de Angola. Chegam notícias da Guiné de que há prisões de nacionalistas.

Estamos chegados a setembro de 1956 e à realização da discutível reunião da fundação do PAI. José Ferreira de Lacerda estaria na origem da fundação de um novo partido, o Movimento de Libertação da Guiné, constituía-se em Bissau um grupo de oposição, Cabral via toda esta movimentação com pouco agrado, dizendo que “eram burgueses que se moviam pelos interesses de classe, interessados na ascensão dentro da sociedade colonial e não pelos negros da Guiné, povo anónimo multiétnico. Apoiavam-se em homens fortes como armador de pesca Eugénio Peralta e comerciantes endinheirados como Manuel Spencer e Fernando Lima”; e o autor escreve que Amílcar Cabral aproveitou a sua estadia em Angola para voar até Bissau em 18 de setembro de 1956 (este evento é fortemente contestado pelo historiador guineense Julião Soares Sousa).
Café Colonial, Avenida Almirante Reis n.º 24, aqui se festejou o almoço do casamento de Maria Helena e Amílcar Cabral, a pedido de vários nacionalistas africanos comeu-se uma bacalhauzada, 1951
Maria Helena, Amílcar Cabral e a segunda filha do casal, Ana Luísa

(continua)
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Notas do editor

Vd. post de 9 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27718: Notas de leitura (1894): "Amílcar Cabral O Africano que Abalou o Império", por José Alvarez, Âncora Editora, 2025 (1) (Mário Beja Santos)

Último post da série de 13 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27732: Notas de leitura (1895): "Portugal em África depois de 1851 (Subsídios para a História)", pelo Marquês do Lavradio; edição da Agência Geral das Colónias, 1936 (2) (Mário Beja Santos)

Guiné 61/74 - P27737: Documentos (55): A retiradada de Madina do Boé: a largura e a profundidade do rio Corubal em Cheche, medidas por uma ferramenta de IA, a partir de uma fotografia do Patrício Ribeiro, de 18/06/2018






Guiné-Bissau > Região do Boé > Rio Corubal > 30 de junho de 2018 > Rampa de acesso, na margem direita... Lavadeiras e canoas no rio. Veja-se a cor da água, esverdeada, na época das chuvas. 

Em 6/2/1969, o destacamento de Cheche ficava do outro lado, na margem sul (ou esquerda). E não havia rampa nenhuma... Segundo a análise técnica destas fotos, com a ajuda de uma ferramenta de IA (ChatGPT), teríamos as seguintes medidas deste troço do rio, em 30/6/2018:

Largura: ~150 metros | Profundidade no centro do canal: ~5 metros | Profundidade junto às margens: 0,5–2 metros

Em 6/2/1969, no auge da época seca, a profundidade deveria ser um povo menor, bem como a largura.

Foto (e legenda): © Patrício Ribeiro (2018) Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]

) 

 1. Com base nesta foto do Patrício Ribeiro, Guiné-Bissau, 18 de junho de 2018, "cambança" do Rio Corubal,  perguntámos a "menina IA" (do ChatGPT / Opena AI) qual  será a largura e a profundidade  aqui, nessa passagem entre as duas margens. Estamos na margem norte (direita). Do outro lado era o Cheche, de má memórisa, para sempre associado ao desastre das NT em 6/2/1969.

domingo, 15 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27736: Os 50 anos da indepedência de Cabo Verde (21): os cubanos que o Amílcar Cabral (i) quis "esconder"; (ii) queria que fossem "escurinhos, como ele; e, mais difícil, (iii) que "não morressem nem se deixassem apanhar" como o Peralta - Parte I


Instituição: Fundação Mário Soares e Maria Barroso | Pasta: 05222.000.243 | Título: Fernando de Andrade com um grupo de guerrilheiros do PAIGC e internacionalistas cubanosn| Assunto: Fernando de Andrade [irmão de Lucette de Andrade, esposa do Luís Cabral] com um grupo de guerrilheiros do PAIGC e grupo de internacionalistas cubanos | Data: 1963 - 1973  |  Fundo: DAC - Documentos Amílcar Cabral | Tipo Documental: Fotografia.

(1963-1973), "Fernando de Andrade com um grupo de guerrilheiros do PAIGC e internacionalistas cubanos", Fundação Mário Soares / DAC - Documentos Amílcar Cabral, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_43457 (2026-2-14)


Guiné > Alegadamente Região do Boé  > 1968 > Amílcar Cabral revistando as suas tropas

Fotograma do filme "Madina Boe" (Cuba, 1968, 38'), do realizador José Massip (1926-2014), obtido a partir da função "print screening" do teclado do PC e da visualização de um resumo, em vídeo (28' 22'') , disponibilizado no You Tube, na conta "José Massip Isalgué". O documentário foi carregado no You Tube no dia da morte do cineasta (ocorrida em Havana, em 9/2/2014). 

O documentário chama-se "Amílcar Cabral" (e pode ser aqui visualizado) (Imagem reproduzida com a devida vénia).


1. O jornalista Júlio Montezinho publicou no "Expresso das Ilhas" (Praia, ilha de Santiago, Cabo Verde), edição nº 1260, de 21 de janeiro de 2026, um interessante  artigo sobre a participação dos cubanos, ao lado do PAIGC, na luta pela independência da Guiné e Cabo Verde (*)... 

Não diz muito mais do que aquilo que a gente já aqui sabia. Por exemplo, não diz quanto cubanos passaram pelo território da Guiné (não terão chegado a meio  milhar),  nem quantos morreram ou foram gravemente feridos (menos de duas dezenas) (**).

Alguns de nós, pelo contrário, começaram a entrar na paranoia de ver cubanos por todo o lado. Às centenas, aos milhares, uma invasão (!) (**)... "Brancos, que só podiam ser cubanos"... Mas não, o Amílcar Cabral não queria "brancos", queria "escurinhos", como ele... Lá tinha as suas razões... Ele,  que nunca foi um grande "cobói", terá acolhido,  porventura um pouco a contragosto, a ajuda dos "bons escoteiros cubanos"... Afinal Cuba dava lições ao mundo em matérias como a guerra de guerrilha... E o PAIGC tinha que aprender com os mestres. 

Enfim, ainda há muitos "mitos" para desmontar. 

Em todo o caso, munca foram particularmemnte queridos os cubanos que, achávamos nós,  nada tinham a ver com aquela guerra (nem com aquela terra). "Dor de corno" ?!...Se calhar, mas alguns cubanos diziam tinham lá antepassados que foram escravizados.

 Bom, sorte, sorte, apesar de tudo, teve o "capitão Peralta" a quem os páras do BCP 12 salvaram a vida, depois de gravemente ferido numa emboscada (Op Jove, corredor de Guileje, em 18 e novembro de 1969). 

O Peralta que, não tendo morrido, acabou por ser uma peça fora do baralho, que veio estragar o arranjinho entre o Amílcar Cabral e o Fidel Castro... E estes dois, que depois se tornaram amigalhaços, lá tiveram que arranjar uma desculpa de mau pagador para a presença, no corredor de Guileje, a milhares de quilómetros de casa (mais de 7 mil), daquele "ovelha tresmalhada".

Afinal, éramos todos bons rapazes, mas o Amílcar Cabral nunca chegou a pagar em vida  os favores que devia aos cubanos, mandando por exemplo os "seus balantas" para Cuba, para ir cortar cana de açucar na altura dela... Amor com amor se paga, diz o provérbio popular português.

Enfim, tem algum interesse em sabermos, pelo menos, como  é que eles, os cubanos, 500 anos depois, voltaram à  Guiné à procura das suas origens... (Esse era um dos argumentos utilizados pelo Cabral para justificar a sua presença em África.)

Vamos fazer, em dois postes,  uma síntese e análise crítica do  artigo cujo original está disponível "on line", aqui: País: A outra face da luta na Guiné (I) - A presença cubana na Guiné-Bissau que o PAIGC quis esconder | Por Jorge Montezinho, | Expresso das Ilhas, 25 jan 2026 9:14


A. Síntese: o papel de Cuba na luta do PAIGC


(i) Contexto e motivações

  • Autonomia cubana: ao contrário de outros apoiantes do PAIGC (como a URSS, a China ou até a Suécia), Cuba terá agido por iniciativa própria, motivada pela visão de 'Che' Guevara  do "internacionalismo proletário" e da da "luta contra o imperialismo ", pelo empenho pessoal de Fidel Castro e pelo interesse estratégico de Cuba  na África subsaariana como "laboratório revolucionário". 
  • Os contactos com o PAIGC remontam a 1963, mas a "ajuda cubana" só se  materializou  após a viagem de Guevara à África em 1964-65.
  • Primeiros contactos: em agosto de 1963, o PAIGC pediu formação militar e política para cinco combatentes, em Cuba; não se sabe ao certo se houve resposta, nem se esses cinco militantes chegaram a ir a Cuba (quanto mais fosse para provar um "Mojito", um "Daiquiri" ou uma "Cuba Libre"...).
  • Foi preciso esperar ano e meio para que, a partir da reunião entre o 'Che' Guevara e o Amílcar Cabral, em 12 de janeiro de 1965, em Conacri, se desse o início da "cooperação efetiva"entre o PAIGC e Cuba.
  • Em janeiro de 1966, Cabral, que gostava muito de viajar,  foi pela primeira vez a Cuba (não é "á Cuba", no Baixo Alentejo), chefiando a delegação do PAIGG  na  Conferência Tricontinental em Havana.
  • Após aqueles intermináveis discursos panfletários do Fidel Cabral (supomos que o do Amílcar Cabral fosse mais curto e comedido, até  para compensar), o Cabral e Castro foram "tabaquear o caso", como dizem os alentejamos: lá tiveram uma conversa (longa, claro...), a que apenas assistiu o Oscar Oramas,  na altura um alto funcionário do Ministério das Relações Exteriores, mais tarde embaixador de Cuba em Conacri (, de resto, um homem afável, que eu irei conhecer, em Bissau, em março de 2008).  

(ii) A ajuda cubana: logística, militar e humana

  • Em maio de 1965, o navio "Uvero" levou a primeira remessa de ajuda cubana: armas (cerca de 60 caixas), alimentos e medicamentos a Conacri, cumprindo a promessa do 'Che' a Cabral.
  • Em 6 junho de 1966, chegam 31 "voluntários" cubanos, além de charutos, açúcar mascavado e outros mimos ( a revolução também se faz com estas coisas que fazem bem a alma).
  • Desses trinta e um, (i) onze eram especialistas em artilharia; (ii) oito motoristas; (iii) um mecânico; (iv) dez médicos (sete cirurgiões e três de clínica geral); e (v) um oficial de inteligência, o tenente Aurelio Ricard (Artemio), que era o líder do grupo.
  • Não sabemos (o jornalista cabo-verdiano não satisfaz a nossa curiosidade), quantos eram "brancos" e quantos eram "mais escurinhos", de acordo com as recomendações do Amílcar Cabral. A maior parte dos médicos seriam "brancos", mas quem sabe dessa parte é o Jorge Araújo, que é o nosso especialista em "internacionalistas cubanos":   teve, inclusive,  um duelo de morte, no Xime, com um deles  (já aqui contou essa história).
  • A missão mlitar cubana, sediada em Conacri (claro, não podia ser em Dacar, muito menos no Fiofioli...), reportava diretamente a Havana e era liderada por Víctor Dreke (veterano da guerrilha no Congo).
  • Além de formação de guerrilheiros, os cubanos passaram a participar em missões de combate e a fornecer apoio logístico e médico.
  • O grupo reportava diretamente à inteligência cubana em Havana, e em particular a Ulisses Estrada, chefe da Direcção 5 da DGI, que abrangia a África e a Ásia (um veterano, negro, da Sierra Maestra, que depois irá lutar ao lado de Domingos Ramos, no Leste da Guiné; estaria ao lado dele, segundo me confidenciou, em Bissau, em 2008, quando o Domingos Ramos foi mortalmente ferido em 11 de novembro de 1966, no ataque a Madina do Boé, ataque que redundou num enorme desaire para o PAIGC).
  • Apesar da ajuda, que foi bem vinda, Cabral  (que era pobre mas não era mal agradecido e sobretudo era inteligente)  fez questão de restringir o número de cubanos a 5 ou 6 dezenas de cada vez: tratava-se de preservar a autonomia do PAIGC, e não ferir o orgulho dos seus "cabra-matchu", como o 'Nino' Vieiria.
  • Aém disso, preferia "negros ou mulatos escuros para que se misturassem com o seu povo" (sic) (por favor, não venham agora acusar o Cabral de "racista": depois de morto, não se pode defender).
  • A presença cubana foi "mantida em segredo" (sic), a pedido do próprio PAIGC; em 1966 estava em curso uma grande operação contra Madina do Boé: foi adiada para 11 de novembro, no início da época seca; 350 combatentes do PAIGC atacaram o aquartelamento português com a intenção de dar cabo dos "tugas" e libertar  definitivamente o Boé; o PAIGC acabou por sofrer pesadas baixas; morreu o comandante Domingos Ramos (já aqui contámos como foi).
  • “A morte de Ramos foi um golpe duro”, lembrou um líder do PAIGC; issso levou Castro à acção; o líder cubano “sugeriu que fizessemos mais para ajudar”, recordou Oramas, “e Amílcar aceitou com grande prazer a nossa oferta de aumentar a ajuda”.
  • Castro convocou Dreke [Víctor Emilio Dreke Cruz, ex-comandante das Forças Armadas Revolucionárias Cubanas] que, desde que regressara do Zaire, chefiava o departamento que treinava os cubanos que iam para as missões militares no exterior e os estrangeiros que vinham a Cuba. Fidel confiou a Dreke "o comando da missão militar na Guiné’”. Castro também insistiu para que Dreke levasse alguns dos homens que estiveram com Dreke no Zaire, “os melhores”.
  • "Em fevereiro de 1967, comunicados militares portugueses começaram a mencionar que conselheiros cubanos estavam a operar com os guerrilheiros, e um mês depois a CIA, que estava á  coca, escreveu que 'pelo menos 60 cubanos... treinavam o PAIGC' ", escreveu o autor do artigo, Júlio Montezinho.
  • "Em fevereiro de 1967, Dreke voou para Conacri com Pablito Mena (outro veterano do Zaire) e Reynaldo Batista. Dreke era um comandante, membro do Comité Central e um homem que conhecia África e a guerra de guerrilha"; além disso, inspirava enorme confiança e respeito, diz o jornalista cabo-verdiano.
  • "Aprendemos muito com Moya [nome de guerra de Dreke]”, disse Arafam Mané, um comandante do PAIGC (recordam-se ? o puto biafada que deitou fogo ao capim, em Tite, em 23 de janeiro de 1963.). “Moya foi um líder excepcional”, disse o ex-presidente da Guiné-Bissau, Nino Vieira, por sua vez.
  • Os cubanos, por seu turno, ficaram impressionados com o empenhamento e a disciplina do PAIGC. “Tivemos uma experiência realmente amarga no Zaire e encontrámos algo completamente diferente na Guiné-Bissau”, observou Dreke.


(iii) Impacto estratégico e simbólico
  • Formação e especialização: os cubanos foram "cruciais" no treino dos combatentes do PAIGC, em áreas-chave como artilharia, minagem e uso de armas sofisticadas (ex.: RPG ou bazucas, canhões sem recuo, morteiros, antiaéreas); a sua presença, por outro lado, elevou o moral dos combatentes do PAIGC, que viam neles aliados dispostos a partilhar sacrifícios ( incluindo o da própria vida).
  • "Com o passar do tempo, os combatentes do PAIGC assumiram o papel de artilheiros, mas os chefes de bateria — aqueles que faziam os cálculos e dirigiam os artilheiros — foram, até ao fim, quase sempre cubanos", escreve o jornalista do "Expresso das Ilhas". (Não sei se o Manecas Santos concorda com esta "boca".)
  • Adaptação à estratégia de Cabral: embora preferissem táticas mais agressivas, os "cabra-matchu" cubanos respeitaram a estratégia de desgaste de Cabral, evitando confrontos diretos com os "tugas" que pudessem causar baixas elevadas (e a ira dos irãs).
  • "O estilo de Amílcar Cabral 'não era necessariamente o nosso',  comentou Enrique Montero, que chefiou a Missão Militar Cubana em 1969-70. Embora Cabral mantivesse um controlo rígido sobre a estratégia militar, passava a maior parte do tempo fora do país, em Conacri ou a viajar à procura de apoio estrangeiro. Ora, as actividades diplomáticas de Cabral mantinham-no afastado da linha da frente. Cabral não dirigia pessoalmente as operações militares. “Isto preocupava-nos”, explicou Dreke. 'A nossa formação e a nossa experiência ensinaram-nos que o líder tinha de estar na linha da frente.' "(diz Julio Montezinho)
  • Cinema e propaganda: Cuba vai usar entao o  a arma do cinema (vd. o documentário "Madina de Boé", de José Massip) para construir a imagem de um Cabral como um verdadeiro comandante,  um "cabra-matchu", um  líder presente na  linha da frente de batalha, mesmo que apenas... para russo  e cubano ver ( com a censura, era impossível  o filme passar nos nossos ecrãs). Isso ajudou a legitimar o PAIGC perante críticas internas e externas.
  • "Os cubanos tentaram disfarçar o facto com cinema. Um ano depois do primeiro contingente militar cubano ter chegado à Guiné-Bissau, chegou a primeira equipa de cinema, liderada pelo realizador Jose Massip. Massip realizou o filme Madina de Boé. O filme destaca-se por ser um dos poucos filmes em torno da luta de libertação em que Amílcar Cabral está, aparentemente, presente nas zonas libertadas. Convivendo com a população e os militares, Cabral enverga uma farda militar, partilhando a iconografia de outros líderes revolucionários da época."
  • "O líder do PAIGC voltaria a ser filmado por Massip em 1971 e desta rodagem permanece um diário do realizador. Em "Los Dias del Kankouran", Massip desvenda que Cabral lhe pediu para ser filmado no 'matu', para contornar críticas de que era alvo: a de se estar a transformar num intelectual urbano, baseado em Conacri, que não se expunha aos riscos da luta armada. Porém, o 'matu' onde Cabral foi filmado não era nas zonas libertadas, como a narrativa fílmica deveria conduzir o espectador a “ver”, mas sim o aquartelamento militar cubano em Kandiafara, território da República da Guiné. O cinema cubano colaborou na construção de uma imagem de Cabral como chefe de guerra".

(iv) O  caso Peralta e o segredo cubano

  • Captura e negação: em 1969, o capitão cubano Pedro Rodríguez Peralta foi capturado pelos portugueses,
  • Cabral negou a sua participação militar, como lhe convinha, descrevendo-o como um "visitante" dos médicos cubanos; ou seja, o rapaz veio em viagem turística, mas sem passaporte nem visto dos "tugas".
  • Portugal (leia-se, o Governo de Marcelo Caetano) usou a captura para provar o envolvimento estrangeiro. Mas Cuba manteve o bico calado.
  • Libertação tardia: Peralta só foi libertado uns meses depois do 25 de Abril de 1974,  apesar de tentativas, goradas, de troca com um "espião" dos EUA;
  • O caso ilustra a política de negação do PAIGC e o respeito de Cuba por essa posição, que também lhe convinha.
(Continua)

(Pesquisa, condensação, fixação / revisão de texto, negritos: LG)
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Notas do editor LG:

(*) Último poste da série > 3 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27698: Os 50 anos da independência de Cabo Verde (20): E se tivesse havido um referendo em 1975 ? (Adriano Miranda Lima, cor inf ref, mindelense, que bebeu a água do Madeiral, a viver na diáspora desde 1963, e atualmente em Tomar)

(**) Vd. poste de 13 de outubro de 2024 > Guiné 61/74 - P26041: A nossa guerra em números (26): Aceitemos, provisoriamente, o número (oficioso) de 437 "internacionalistas cubanos" que terão combatido ao lado do PAIGC, "de 1966 a 1975"

sábado, 14 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27735: Os nossos seres, saberes e lazeres (722): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (243): Paula Rego na sala de espelhos, harmonia e disrupção, justiça e iniquidade - 2 (Mário Beja Santos)

Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf
CMDT Pel Caç Nat 52

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 9 de Fevereiro de 2026:

Queridos amigos,
Aqui se volta a falar da exposição A Coleção da Casa das Histórias Paula Rego com a coleção da artista, visitável até 15 de março. Retiro observações da curadora Catarina Alfaro: "Ao longo da sua carreira, usou o desenho e a pintura para gerar um universo artístico tão disruptivo quanto belo, abordando temáticas que ecoam na vida de cada cidadão na contemporaneidade. Da projeção de tradições e dinâmicas familiares ao papel da mulher em cada época histórica, de contos e mitos à liberdade e à desigualdade, a artista luso-britânica produziu obras artísticas dotadas de integridade, harmonia e esplendor. Pelas diferentes salas passa-se em revista a vida da artista, obras que permitem uma visão panorâmica da sua evolução técnica e estilística, destaca-se o sentido transgressor e a necessidade de desafiar não só os restritos códigos morais vigentes à época, mas sobretudo a opressão sexual das mulheres; nas distintas fases da sua produção artística, os contos tradicionais e os contos de fadas serão sempre uma fonte fértil para o desenvolvimento do seu trabalho criativo (...) Esta exposição não ficaria completa sem que, na sua última sala, se desse uma especial atenção à construção das personagens femininas que se destacam na sua obra pela imponência física e expressividade emocional. Evidenciam-se três obras de uma série dedicada à depressão psicológica, em que a artista capta o sentimento de compreensão, construindo imagens ferozes de solidão e de sofrimento humano."

Um abraço do
Mário



Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (243):
Paula Rego na sala de espelhos, harmonia e disrupção, justiça e iniquidade - 2

Mário Beja Santos

“Pintar é uma maneira de se lidar com a realidade, com o mundo de todos os dias, pois a pintar absorve-se tudo quanto há.”
Paula Rego


Estão patentes na Casa das Histórias Paula Rego, em Cascais, duas exposições de arromba: uma, em que a coleção da artista parece entrar numa sala de espelhos, a coleção do Museu irá desdobrar-se pelos temas dominantes e transversais à sua obra; outra, a obra de Paula Rego é apresentada através da lente da moda e do vestuário, introduzindo pela primeira vez o guarda-roupa do seu estúdio num diálogo com as obras que lhe correspondem. Vastidão de leituras, justifica que se vá faseando o que o leitor pode visitar até 15 de março, asseguro-lhe que não se arrependerá de ir contemplar Paula Rego em corpo inteiro, entrando mesmo nos bastidores onde os adereços patentes podem ajudar a descodificar este carrossel de emoções, de encontros e desencontros e de uma grande fiabilidade na defesa de causas e desmontagem de tabus.
Na continuação da visita, vale a pena focar o exemplo do trabalho de Paula Rego nos chamados primeiros anos. Entre 1952 e 1956 ela teve a sua formação numa reputada instituição londrina, a Slade School of Fine Art. Experiência que ela considerou traumática, com aspetos entusiasmantes. No entanto, o ensino aí praticado tinha como base a aula de desenho à vista. Recebeu um conselho do diretor da instituição, “ir pintando o que ia cá dentro na cabeça”. É um período fértil, vai projetar nas suas artes plásticas o protagonismo das mulheres, não faltará um carácter assumidamente político à ditadura que ocorre em Portugal, explora a arte figurativa, como se pode ver neste retrato do seu pai.

Fotografia correspondente aos primeiros anos como pintora
Paula Rego, Retrato de José Figueiroa Rego, 1954-55

Uma outra dimensão que a artista explorou e continuará a explorar até ao fim da sua vida prende-se com imagens familiares e enredos ficcionais: contos de fadas como Capuchinho Vermelho, romance A Relíquia de Eça de Queirós, são obras que ganham um novo sentido com elementos e histórias que apenas à artista dizem respeito. O mesmo acontece quando ela evoca as memórias de infância e o contexto familiar, também a rememoração é um tema de referência no seu desenho e pintura, caso das figuras maternais e imagens femininas familiares.
Paula Rego, sem título, 2001
Paula Rego, Encontro com Adélia, 2013, da série “A Relíquia”

Passado o período de afirmação, Paula Rego na exploração de múltiplos domínios dará imensa atenção aos contos tradicionais e contos de fadas. A sua arte pictórica nessa fase envolve histórias violentas e cruéis, esta aproximação sistemática aos contos de fadas e aos contos populares leva-a a estabelecer como plano de trabalho quer essas histórias como modos de composição onde não falta o enredo cénico, um embate entre uma arte aparentemente ingénua e a presença de grupos que aparentam estar em ensaios, gerando no espetador um aturdimento entre o indivíduo, um pequeno grupo e a tentativa de entendimento do quadro geral – qualquer coisa como um inconsciente coletivo, um ponto alto da psicanálise.
Paula Rego, O Ensaio, 1989

Na viragem do século vemos que as personagens femininas criadas pela artista se destacam pela sua imponência física e emocional. Os corpos revelam vivências e emoções, entram imediatamente no olho do espectador, numa série de obras em que criou poderosas imagens que exploram a dimensão paradoxal da depressão psicológica, podemos ver que são registos pessoais de expressão física do sofrimento associado à depressão. Algo que a artista vivenciou: “Em 2007 passei por uma depressão particularmente profunda; tentei encontrar a saída através do desenho e fiz estas obras.”
Paula Rego, Três, 2007, da série “Depressão”
Paula Rego, da série “Depressão”, 2007

A rememoração da infância pesa enormemente em todo o seu trabalho. Um exemplo pode ser dado numa série de gravuras intitulada As pranchas curvas, seis águas-fortes e águas-tintas, tem a ver com um poema do poeta francês Yves Bonnefoy. As imagens criadas a partir desta narrativa poética põe no centro uma criança sozinha no mundo que deposita num estranho, um barqueiro, as suas esperanças. A artista estabelece paralelismo entre a narrativa de Bonnefoy, histórias de figuras religiosas e episódios da sua história pessoal. São também imagens que revelam a esperança na salvação das crianças que procuram um destino diferente no outro lado do rio, auxiliadas na sua travessia por intrépidos barqueiros, estes parecem ser uma espécie de entidades mágicas.
Paula Rego, Manobrando o barco, 2009

Se no início da sua carreira, Paula Rego escolheu motivos políticos declarados, como a denuncia da ditadura salazarista, a partir dos anos 1990 ela começa a encenar no seu estúdio histórias num processo onde não falta uma dimensão espetacular. Em 2008, ela exprime pela primeira vez a sua vontade de expor um conjunto de desenhos com as respetivas cenografias. Isto acontece num momento coincidente com a sua plena maturidade artística, alcançada em Carga Humana, obra que assume a mesma escala das suas grandiosas pinturas a pastel.
Paula Rego, Carga Humana, 2007, um tríptico sobre o tráfico humano

Vamos agora despedir-nos desta primeira exposição e antes de entrar noutra intitulada O vestuário na obra de Paula Rego, sento-me confortavelmente num banco diante de uma imensa tapeçaria intitulada Batalha de Alcácer-Quibir, obra datada de 1966, aqui se mostra um pormenor da parte central da obra. Mas que projeto foi este?
Pormenor central da tapeçaria Batalha de Alcácer-Quibir.

Esta tapeçaria foi produzida na sequência de uma encomenda para um hotel no Algarve, mas acabou por não ser adquirida pelo dono da obra. Paula Rego apropriou-se de diversos meios técnicos e tradições: o uso da linha e da agulha intermedeia-se com a sobreposição de formas, devedora da imaginação e da intuição, mantendo-se a violência da utilização da tesoura e o rasgar apressado dos retalhos como elemento comum à prática da pintura-colagem. A artista inscreve no tema escolhido intenções de denúncia da demência da guerra, nem se poupa a histeria, esboçada no grito de guerra de uma fisionomia que se assemelha a um típico galo de Barcelos. Há faixas vermelhas a representar sangue que jorra de uma ferida mortal. É um trabalho singularíssimo, um itinerário que Paula Rego não voltou a trilhar. E vamos agora para a exposição O vestuário na obra de Paula Rego.

(continua)

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Nota do editor

Último post da série de 7 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27712: Os nossos seres, saberes e lazeres (721): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (242): Paula Rego na sala de espelhos, harmonia e disrupção, justiça e iniquidade -1 (Mário Beja Santos)

Guiné 61/74 - P27734: Efemérides (383): O dia 14 de Fevereiro é para mim mais que "o Dia dos Namorados”, é o ‘Dia da Amizade” (João Crisóstomo, ex-Alf Mil Inf)

1. Mensagem de 12 de Fevereiro de 2026 do nosso camarada João Crisóstomo, colaborador permanente, ex-Alf Mil Inf da CCAÇ 1439 (Enxalé, Porto Gole e Missirá, 1965/67); relações externas na diáspora lusófona; natural de Torres Vedras; luso-americano que vive em Nova Iorque desde 1977; ativista social, conhecido por causas como Foz Côa, Timor Leste, Aristides Sousa Mendes:

Caro Luís Graca,

O dia 14 de Fevereiro é para mim mais que "o dia dos namorados”, é o ‘Dia da amizade”: uma ocasião para contactar os meus amigos, fomentar amizades presentes ou mesmo passadas que precisam de ser alimentadas para não caírem no esquecimento. Amigos e boas amizades são o melhor que a vida me tem proporcionado; e eu quero que eles saibam da minha satisfação em os ter como amigos e da minha gratidão pela amizade que me têm concedido.

Com isto em mente, tentando contactar os nossos camaradas, fiz dezenas de telefonemas para os quatro cantos do mundo, da Holanda ao Canadá, mas mais uma vez com pouco sucesso que, parece, poucos são os que ainda apanham o telefone. Mas mesmo assim valeu a pena: se de alguns já só consegui saber notícias através de familiares, com outros foi uma alegria falar "ao vivo” com o Freitas na ilha da Madeira, o Henrique Matos no Algarve e alguns outros que me deram o prazer de dois minutos para, relembrando coisas, matar as muitas saudades dos tempos em que vivemos juntos. De outros, como do Cherno Baldé, recebi uma resposta que me encheu de alegria. Até o seu número de telefone me enviou! Se ir novamente à Guiné-Bissau não me parece ser mais possível concretizar, vou pelo menos tentar falar com ele um dia destes.

Se quiseres aproveitar algo disto (cortando e editando como achares pertinente)… que este é acima de tudo para "dar sinal de vida" e enviar aos nossos camaradas o abraço virtual que não posso dar pessoalmente. A todos os que lerem este… de coração um grande abraço.

Aliás parece-me que esta esta idéia de chamar “Dia da Amizade” a este dia não é de todo despropositado: "Thank you very much for your kind message in anticipation of February 14, as the Day of friendship”, foi parte da resposta do Sr. Arcebispo Gabriele Caccia, Representante do Vaticano nas Nações Unidas, a quem eu enviei uma mensagem. O facto de Sua Excelência mencionar "February 14, as the “Day of friendship” foi para mim quase um "reconhecimento oficial”…

No que pessoalmente nos diz respeito… não nos podemos queixar: embora sem a força e energia que no passado nos tem proporcionado eventos de maior amplitude, continuamos fazendo o que está ao nosso alcance. Como te disse,  a Vilma e eu fomos no dia 10 ajudar a celebrar (embora com alguma antecipação) o que eu chamo "Dia da Amizade” em vez de ‘dia dos namorados” para abranger toda a gente, mesmo que não tenham nenhuns “valentinos" nas suas vidas, aos “seniors" da nossa rua.

Entre as muitas fotos/memórias lá apostadas nas paredes, encontrei esta foto que junto, tirada em 2018 no dia em que, com o Rui Chamusco que cá estava na ocasião, fomos celebrar o Natal desse ano. As outras fotos foram tiradas neste dia. Como podes ver, a Vilma foi imediatamente absorvida e dominada pelo seu espírito de artista, e sentando-se numa das mesas juntou-se logo aos “seniors" que neste dia participavam numa sessão de arte dedicada à pintura…

Bom, já chega por hoje. Vou tentar mais alguns telefones…
Para ti, Alice, e teus queridos um bem apertado…
dos João e Vilma

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Nota do editor

Último post da série de 24 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27667: Efemérides (382): Conforme noticiado oportunamente, os nossos amigos e camaradas, Luís Graça e José Marcelino Martins, foram agraciados, respectivamente, com a Medalha de Honra ao Mérito da Liga dos Combatentes (grau Ouro) e Medalha de Honra ao Mérito (grau Prata), durante as Cerimónias comemorativas do 107.º aniversário do Armístício da Grande Guerra e 51.º aniversário do fim da Guerra do Ultramar