Pesquisar neste blogue

terça-feira, 3 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27788: Coisas & loisas do nosso tempo de meninos e moços (39): A rapariga "Singer Plano Inclinado" com quem a malta gostava de dançar, nos bailes do Greco, em Coimbra (Rui Felício, 1944-2026)


Fonte: Imagens e texto: Página do Facebook do nosso saudoso camarada Rui Felício (1944-2026)  > 5 de dezembro de 2025



Ilustração de Rui Borges (com a devida vénia...), um dos antigos condiscípulos e amigos do Rui Felício, da Turma A do 6.º Ano (1960/ 61), do Liceu D. João III, Coimbra. Também ele seguiu direito e, se não erramos, é magistrado aposentado, vivendo em Lisboa (tem página no Facebook, aqui). Também ele é um antigo combatente, tendo estado em Angola, BCAÇ 1875 (1966/68). Além de poeta e ilustrador de talento (tardio?).


1. Mais um microconto nostálgico do nosso Rui Felício (1944-2026). Uma  pequena obra-prima. Título: "Nos Bailes do Greco"... 

Por uma rápida pesquisa na Net, descobri que o "Greco", em Coimbra, era uma associação ou um grupo de amigos, da geração dos "baby-boomers", que adorava dançar e tinha o culto do Elvis Presley... 

Foi lá que o nosso  Rui Felício terá conhecida a rapariga "Singer Plano Inclinado" com quem a malta gostava de dançar... Dou esse título a esta pequena história.  É uma pequena homenagem ao Rui e à sua/nossa geração que fez a guerra e a paz.


A rapariga "Singer Plano Inclinado" com quem a malta gostava de dançar,
no bailes do Greco

por Rui Felício (1944-2026)

Ela colava o corpo ao par com quem dançava mas o rosto e o pescoço encaixavam no pescoço do parceiro, desviando a cara, quase torcendo o resto do corpo para obviar tal postura.

Havia naquela altura um reclame a uma máquina de costura que inventara uma revolucionária forma de costurar e que consistia em alinhavar o tecido de forma inclinada sem necessidade de o retirar para esse efeito.

Era a famosa Singer Plano Inclinado!

A tal moça com quem a malta gostava de dançar, tomou tal “slogan” como alcunha. E a malta avisava:

 Na próxima música sou eu quem vai dançar com a “Singer Plano Inclinado”, ouviram ?!

Rui Felício


(Revisão / fixação de texto, título: LG)

2. Comentário do editor LG

Quando parte alguém da nossa Tabanca Grande, como o Rui Felício, que carregava memórias tão densas do leste da Guiné, a começar pelo desastre do Cheche de que ele foi um dos sobreviventes (mas em que perdeu mais de 1/3 dos seus homens),  deixa sempre um vazio que só as histórias conseguem, em parte, preencher.

Este "microconto" do Rui Felício não são mais do que meia dúzia de linhas,  é verdade, mas é uma pequena joia de observação social e humor de época. Quando o li, na sua página do Facebook, o que me cativou logo  foi  a capacidade  do Rui em transformar um detalhe (digamos técnico ou comercial,  da sua época da adolescência, a publicidade à máquina de costura Singer) numa metáfora comportamental.

Ele não descreve um passo de dança, reconstitui um atitude. Que delícia este contraste, que ironia (sem ser sarcasmo!), na descrição da rapariga, sem nome, que "colava o corpo" mas "desviava o rosto"... nos bailes do Greco!...  (Noutras terra, como a minha,  seria o baile dos Bombeiros.)

É o esboço do retrato dos tabus da nossa sociedade, ainda muito conservadora, a dos finais dos anos 50 / princípios dos ano 60, em que à proximidade física permitida pela dança, num baile público, se contrapunha  a reserva (o tal "plano inclinado") que ajudava a manter  o conveniente decoro e a distância emocional dos dançarinos.

O texto funciona como uma espécie de  "cápsula do tempo". O uso da alcunha "Singer Plano Inclinado" revela muito sobre o espírito daquela juventude coimbrã, nada e criada na cidade dos lentes, a querer romper as "muralhas" dos usos e costumes impostos pela moral vigente em matérias de relações homem (atrevido) - mulher (recatada).

Por um lado, é de destacar a criatividade da "malta" daquele tempo, a forma como se transformavam marcas e slogans em gíria grupal,  demonstra uma cumplicidade geracional muito forte. 

A "Singer Plano Inclinado" é, pois,  um portento de  humor pícaro: é uma observação brejeira,  malandra, mas ao mesmo tempo respeitosa e nostálgica. O Rui consegue, mais uma vez, ser visual sem ser vulgar, muito menos cruel.

E, por fim, é fascinante pensar que um homem que viveu o trauma da guerra colonial e da perda de um filho, em plena idade adulta (o Nuno Felício tinha 38 anos e trabalhava na Antena 1, em 2013, como jornalista)  tenha conseguido preservar esta leveza para contar histórias do ainda seu tempo de "menino & moço". Para o Rui foi talvez a forma, que ele encontrou,  de celebrar a vida que continuava, apesar de tudo.
_______________

Nota do editor LG:

Último poste da série > 28 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27780: Coisas & loisas do nosso tempo de meninos e moços (38): O Fígaro, um dos cromos do Liceu D. João III, em Coimbra (Rui Felício, 1944-2026)

segunda-feira, 2 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27787: Notas de leitura (1901): "Amílcar Cabral O Africano que Abalou o Império", por José Alvarez, Âncora Editora, 2025 (4) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 9 de Setembro de 2025:

Queridos amigos,
Começo por dar uma explicação. Era bem possível fazer uma recensão num só texto da obra de José Alvarez. Irei fazê-lo posteriormente por outros canais. Tenho procurado no blogue incitar para a leitura das obras, seja qual for o seu nível de qualidade. Acontece que estamos perante o primeiro romance histórico de Amílcar Cabral, trata-se de um romance entremeado de muitíssimos factos já aqui versados, José Alvarez procede à ficção na construção de diálogos entre Amílcar Cabral e a sua primeira mulher e nas reuniões políticas, sobretudo ao nível do PAIGC, mas também conversas com diplomatas, jornalistas e outros. Entendi que prestaria melhor serviço aos confrades destacando aspetos relevantes da trama histórica, deixando-lhes a surpresa de lerem o enredo ficcional construído por José Alvarez. Cabral nessa fase, entre 1962 e 1964, é não só a figura preponderante e inultrapassável dentro do PAIGC, é ideólogo, estratega, diplomata, germina da sua ação ser o construtor da nação guineense, tal como aconteceu. Acho que valeu a pena dar-vos nota do que achei por bem na extensão destas recensões.

Um abraço do
Mário



O primeiro romance histórico sobre a vida e obra de Amílcar Cabral – 4

Mário Beja Santos

O romance histórico de José Alvarez remete-nos agora para a instalação de direção do PAIGC em Conacri, estamos em 1961, também Maria Helena chega à capital da Guiné-Conacri com a filha mais velha. Em casa de Hugo Azancot Meneses há uma reunião de amigos, estão presentes Viriato da Cruz e Mário Pinto Andrade, entre outros, temas como os outros partidos nacionalistas vêm à baila, Amílcar andava inquieto com as atividades do Movimento de Libertação da Guiné, maioritariamente constituído por Manjacos residentes no Senegal, tinham em julho cortado linhas telefónicas perto de S. Domingos, atacado o aquartelamento desta povoação, também Susana e Varela, procedido a vandalizações e roubos. 

O armamento chegava ao PAIGC a conta-gotas, Sékou Touré pouco facilitava, havia obsessão de que viessem armas para golpes de Estado internos. É nessa altura que se encontra o expediente de, a partir de Marrocos, vir armamento em caixotes com indicação de medicamentos.

Amílcar procede a um périplo internacional, primeiro Casablanca, aí vai decorrer a I Conferência das Organizações Nacionalistas das Colónias Portuguesas - CONCP, isto em abril, já em Conacri encontrara-se com um agente dos serviços secretos checos; em setembro, Amílcar volta a escrever ao Presidente da Assembleia Geral da ONU, toca sempre na tecla da liquidação pacífica do colonialismo português; Maria Helena é professora liceal em Conacri. A CONCP tem o seu secretariado em Rabat. A Conacri, chegam cada vez mais guineenses para se juntar em prol de lutar pela Independência, é criado O Lar dos Combatentes. Maria Helena vai adoecendo, Amílcar sugere que ela e a filha vão para Rabat, é uma conversa que decorre sob grande tensão.

Vamos agora conhecer a faceta do estratega militar, reunião de quadros em Conacri, repartição de responsabilidades envolvendo quem tinha frequentado a academia de Nanquim, caso de Rui Djassi, Osvaldo Vieira, Chico Té, Manuel Saturnino Costa, Constantino Teixeira, Vitorino Costa, entre outros. Já estavam mais de 25 quadros em formação na Checoslováquia e 5 na URSS. Maria Helena e a filha partem para Rabat, Rafael Barbosa e outros são presos em Bissau.

Amílcar falou na Comissão da ONU sobre os territórios ocupados por Portugal, nas reuniões vem sempre a referência à falta de armamento e começam as insinuações de que os cabo-verdianos preferem Conacri para fugir à luta armada. 

De 1962 para 1963 acontecem modificações políticas de tomo na Argélia, chegam políticos portugueses a Rabat, como Piteira Santos e Adolfo Ayala. Nasce a segunda filha de Maria Helena e Amílcar, a filha mais velha vai estudar para Moscovo.

Em 1963, a FLING – Frente de Libertação e Independência Nacional da Guiné estabeleceu contacto com o Governo português, procurava-se uma solução pacífica para o futuro da Guiné. Benjamim Pinto Bull será recebido por Salazar, transmite-lhe uma proposta de autonomia gradual que culminaria com a eventual independência, de forma a permitir a formação de quadros e a crescente ocupação dos lugares-chave da administração por naturais da Guiné. 

É nisto que se sucede um grave incidente com o desembarque das caixas com armamento disfarçado de medicamentos, uma das caixas desfaz-se em pleno porto, Sékou Touré não está para os ajustes, manda prender a direção do PAIGC, Amílcar andava pelo estrangeiro, competir-lhe-á sanar o incidente.

Em 23 de janeiro de 1963, um grupo de guerrilheiros comandado por Arafam Mané ataca o quartel de Tite, estava dado o sinal de que o PAIGC desencadeara as hostilidades, são emitidas notícias nas emissoras de Conacri, Dakar e Brazzaville, dois meses depois, na região de Catió, combatentes do PAIGC apoderaram-se de duas barcaças a motor, Arouca e Mirandela, pertencentes à Casa Gouveia e à Sociedade Policial Ultramarina. 

Amílcar desloca-se a Moscovo, os soviéticos pretendem conhecer o seu programa, fazem perguntas sobre Cabo Verde, as promessas de apoio ficam por enquanto no ar. Dá-se uma reunião de quadros em Dakar, a união de Guiné a Cabo Verde é um dos principais temas de discussão, Amílcar propõe que era absolutamente necessário avançar com a insubordinação de Cabo Verde, mas é reticente quanto a um quadro de violência, sugere a infiltração, cabe a Pedro Pires o recrutamento e preparação política dos combatentes, mas curiosamente pondera-se a escolha de um local de desembarque, confia-se muito na ajuda cubana.

Salazar, afinal, não dá qualquer prova de querer dialogar com a FLING; nas reuniões de quadros, Cabral é confrontado com sérias tensões entre os quadros militares e políticos nas diferentes frentes, é nessa altura que se pondera a criação da Lei da Justiça Militar, é mais do que tempo para preparar uma reunião em território da Guiné para apreciar o relacionamento entre as chefias militares e as políticas, que virá a ocorrer em Cassacá, exatamente no tempo em que decorre na ilha do Como a Operação Tridente. Surge o hino do PAIGC, os versos são de Cabral.

E estamos chegados à reunião de Cassacá que culminará em congresso. Meio ano depois daquele ataque a Tite, a presença do PAIGC era uma realidade, particularmente no sul. O general Venâncio Deslandes tinha observado ainda em 1963 que cerca de uma quinta parte do território mantinha-se em sublevação, e as populações na sua quase totalidade deslocadas. 

O Governador e Comandante-chefe, Vasco Rodrigues e o Brigadeiro Louro de Sousa, tinham opiniões divergentes quanto ao andamento de obstar a progressão da guerrilha, em Lisboa decidira-se reforçar os efetivos militares na Guiné de cinco para dez mil homens. Louro de Sousa delineou uma enorme operação militar, a Tridente, para recuperar a ilha do Como, operação de grande envergadura, um efetivo militar de cerca de setecentos homens, com o apoio da Força Aérea e da Marinha, operação duríssima, os guerrilheiros do PAIGC transferem-se taticamente para outro território, o comandante em terra, Fernando Cavaleiro, percorre a ilha a pé.

Em território continental, em Cassacá, começa a reunião a 13 de fevereiro. Amílcar anuncia várias medidas na mobilização e organização de forças na luta armada, são criadas as FARP – Forças Armadas Revolucionárias do Povo, bem como a formação de quadros militares especiais. Inevitavelmente, teria que ser discutida a deterioração da população devido a comportamentos prevaricadores de quadros militares, foram identificados e desarmados os prevaricadores, mais tarde julgados e alguns deles executados. 

Dois meses após o final da operação Tridente, ainda existe numa ponta da ilha do Como um destacamento de tropa portuguesa, em Cachil, mas o PAIGC voltou a manifestar-se, flagelando regularmente essa Unidade.

Também atendendo ao desentendimento entre o Governador e o Comandante-chefe, o Governo português toma a decisão de juntar os dois cargos de uma única pessoa, é escolhido o Brigadeiro Arnaldo Schultz, chega à Guiné em maio de 1964, e com a promessa que faz publicamente de acabar em meses com a guerrilha.

Amílcar Cabral numa das suas intervenções no Congresso de Cassacá, 13 a 17 de fevereiro de 1964
O Bureau Político do PAIGC eleito no Congresso de Cassacá. Da esquerda para a direita: Nino Vieira, Chico Té, Rui Djassi, Aristides Pereira, Chucho ou Constantino Teixeira, Amílcar Cabral, Domingos Ramos, Luís Cabral e Osvaldo Vieira.

(continua)

_____________

Notas do editor:

Vd. post de 23 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27764: Notas de leitura (1899): "Amílcar Cabral O Africano que Abalou o Império", por José Alvarez, Âncora Editora, 2025 (3) (Mário Beja Santos)

Último post da série de 27 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27778: Notas de leitura (1900): "Portugal em África depois de 1851 (Subsídios para a História)", pelo Marquês do Lavradio; edição da Agência Geral das Colónias, 1936 (4) (Mário Beja Santos)

Guiné 61/74 - P27786: Documentos (63): A retirada de Madina do Boé: a jangada - Parte II (Cálculo das dimensões e lotação, com a ajuda das fotos e da IA)


Foto nº 1 > Guiné > Zona leste > Região de Gabu > s/l > s/d > Foto, rara, preciosa, do Eduardo Figueiredo (ou Eduardo M. M. Figueiredo), ex-alf mil op esp / ranger, cmdt, Pel Rec Inf / CCS/BCAÇ 1933 (Nova Lamego e São Domingos, 1967/69). Deve ter sido tirada em Nova Lamego, no início de 1968, quando a CCAÇ 1790 / BCAÇ 1933 passou a assumir a responsabilidade do subsetor de Madina ddo Boé.

Foto alojada em Aveiro e Cultura > Arquivo Digital (e aqui reproduzida com a devida vénia) (*).

Foto: © Eduardo Figueiredo (2019). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem: Luís Graça & Camaradas da Guiné]


Foto nº 2 > Guiné > Zona leste > Região de Gabu > s/l > s/d > Foto tirada possivelmente em Nova Lamego ou em Canjadude. Parte traseira de uma GMC, sem tejadilho (vd. foto nº 1),  que transporta uma das enormes canoas que irá servir para montar a fatídica jangada que estará na origem do desastre de Cheche em 6/2/1969. Foto   do álbum do  José Martins (ex-fur mil trms, CCAÇ 5, Canjadude, 1968/70).  


Foto nº 3 > Guiné > Zona leste > Região de Gabu > Cheche > A jangada que fez a travessia do rio Corubal, na retirada de Madina do Boé, Op Mabecos Bravios > s/d > c. 5 ou 6 de fevereiro de 1969. Foto: Cortesia do AHM

Infografia: Blogue Luís Graça & Canaradas da Guiné (2026)



Foto nº 4 > Guiné > Zona leste > Região de Gabu > Cheche > A jangada que fez a travessia do rio Corubal, na retirada de Madina do Boé, Op Mabecos Bravios > s/d > c. 5 ou 6 de fevereiro de 1969.


Foto nº  5 > 
Guiné > Zona Leste > Rio Corubal > Cheche > 5 ou 6 de Fevereiro de 1969 > Op Mabecos Bravios > Entrada e saída de viaturas, da CCAÇ 1790, a unidade de quadrícula de Madina do Boé, na famigerada jangada que fazia a travessia do rio entre as margens sul e norte... 

A última viagem, na manhã de 6/2/1969,  seria fatal para 46 militares portugueses (das CCAÇ 1790 e 2405) e 1 civil... Foi o maior desastre do género, no TO da Guiné.

Fonte: Fotos nºs 3, 4 e  5 > Imagens do Arquivo Histórico-Ultramarino (AHM).  In: Carlos de Matos Gomes e Aniceto Afonso – Os Anos da Guerra Colonial – Vol 10: 1969 – Acreditar na vitória. Matosinhos: QuidNovi. 2009. pag, 23 ( Com a devida vénia...). (**)
 

1. A jangada que esteve na origem no desastre do Cheche, em 6/2/1969, na travessia do Rio Corubal, era constituída por um estrado de madeira assente em três enormes canoas (troncos de árvores escavados), como as das fotos (nºs 1 e 2) que se acima se reproduz.

Era rebocada por um "sintex" com motor fora de bordo, conduzido por um sargento da marinha (Foto nº 3)... Estamos em plena época seca, o rio não terá mais de 140/150 metros de largura. 

A jangada teria uma capacidade máxima de 10 toneladas, e estava preparada para transportar homens e viaturas (Fotos nºs 4 e 5)... De 5 para 6 de fevereiro, transportou dezenas viaturas e centenas de homens (c. 500)... A última, da parte da manhã, foi fatal. Morreram 47 homens. 

Na última travessia levava 4 grupos de combate (2 da CCAÇ 2405 e 2 da CCAÇ 1790), ou seja, para cima de uma centena de homens equipados. 

Pedimos a três ferramentas de IA (Le Chat Mistral,  ChatGPT e Perplexity) para calcular, com base nas imagens (fotos nºs 1, 2, e 3): 

(i) as dimensões da janagada (comprimento, largura e altura);

 e (ii) o número de militares poderia levar em condições normais de segurança, na travessia daquele troço do rio Corubal, na manhã de 6/2/1969


A. Estimativa da IA / Le Chat Mistral

Luís, as imagem que partilhaste  (fotos nºs 1, 2, e 3) mostram um sistema de jangada militar usado para transporte de viaturas e tropas, semelhante ao descrito no desastre do Cheche. Para responder às tuas questões, vou basear-me em estimativas técnicas e históricas, tendo em conta a capacidade de carga e as dimensões típicas de jangadas deste tipo.

(i) Cálculo do comprimento e largura da Jangada

Assunções:

  • a jangada era constituída por três canoas gigantes, cada uma com capacidade para suportar parte do peso total;
  • a capacidade máxima da jangada era de 10 toneladas;
  • cada canoa teria, em média, um comprimento entre 10 a 15 metros e uma largura entre 1 a 1.5 metros (dimensões típicas para canoas grandes usadas em rios).

Estrutura da jangada:

  • as três canoas seriam colocadas lado a lado, com um estrado de madeira por cima para distribuir o peso;
  • comprimento da jangada: seria aproximadamente igual ao comprimento das canoas (12 a 15. inferido pela necessidade de suportar três canoas de comprimento igual à jangada e pela capacidade de carga de um camião Mercedes da época);
  • largura total da jangada:  seria a soma das larguras das três canoas, mais algum espaço entre elas para estabilidade (entre 4 a 5 metros, para acomodar três canoas lado a lado e permitir estabilidade com 100-120 homens ou 10 toneladas de carga);
  • altura: cerca de 0.8 a 1.2 metros (incluindo o parapeito lateral com postes e cordas para segurança).
Superfície: Entre 48 a 75 metros quadrados (comprimento × largura).

Capacidade e normas de segurança_
  • carga máxima: 10 toneladas ou 100-120 homens (considerando o peso médio de um homem equipado na época, cerca de 80-100 kg).
  • norma de segurança: 50-60 homens (para garantir estabilidade e evitar sobrecarga).

Notas adicionais: a estrutura da jangada, assente em três canoas, sugere uma distribuição equilibrada de peso e uma construção robusta para suportar cargas pesadas. O parapeito lateral (com postes e cordas) era essencial para evitar quedas, especialmente em águas agitadas.

Observações (fotos nºs 1 e 2): Luís, pela imagem e pela tua descrição, é claro que a canoa transportada na GMC era significativamente mais longa do que a própria viatura. 

Sobre o transporte na GMC sem tejadilho: o facto de a GMC ir sem tejadilho facilitava o transporte de cargas longas, como esta canoa, que claramente excedia o comprimento da viatura.

Equilíbrio e segurança: o transporte de uma canoa deste tamanho numa GMC exigiria precauções adicionais para evitar desequilíbrios, como amarração cuidadosa e possivelmente apoio na parte central da canoa.

Contexto prático: este tipo de transporte era comum em operações logísticas militares, especialmente em zonas onde não existiam infraestruturas adequadas para movimentar embarcações de grande porte.

A canoa, com este comprimento, seria ideal para servir de base a uma jangada como a que mencionaste anteriormente, garantindo estabilidade e capacidade de carga.

B. Estimativa da IA / ChatGPT

Pela foto nº 1, vê-se duas das três canoas gigantes que suportavam o estrado da jangada. 

Podemos fazer uma estimativa dimensional usando como referência os camiões militares (do tipo GMC CCKW 2½-ton),  muito usados pelo Exército Português na Guiné.

(i) Referência dimensional

Uma GMC CCKW tem aproximadamente: comprimento: 6,4 m | largura: 2,3 m | altura ao tejadilho: ~2,8 m

As canoas parecem ter sensivelmente o dobro do comprimento do camião, ligeiramente mais (Fotos nºs 1 e 2).

(ii) Comprimento das canoas

Comparando visualmente: cada canoa ≈ 11 a 13 metros de comprimento | Uma estimativa razoável: ≈ 12 metros

(iii) Largura da jangada

A jangada assentava em três canoas paralelas.  Se cada canoa tivesse: 
  • largura útil ~1,2 a 1,5 m; 
  • com espaçamento estrutural entre elas (~0,5 m entre cascos);
então a largura total seria aproximadamente: 1,5 + 0,5 + 1,5 + 0,5 + 1,5 ≈ 5,5 a 6 metros

Largura estimada da jangada: 5 a 6 metros.  

(iv) Dimensões prováveis da jangada: Medida (valor aproximado)
  • Comprimento 11–13 metros
  • Largura 5–6 metros
  • Área útil ~60–70 m²

(v) Número de militares em condições normais de segurança

Assunções: cada militar, com equipamento, pesaria cerca de 100 kg.
  • A capacidade máxima de 10 toneladas (10.000 kg) deve ser dividida pelo peso médio por militar para garantir segurança.

Cálculo:

  • 10.000 kg / 100 kg por militar = 100 militares.

Condições de Segurança:

  • para garantir estabilidade e segurança, é comum não exceder 70-80% da capacidade máxima em jangadas deste tipo;
  • nº seguro de militares: 70 a 80 militares por viagem.
(vi) Observações Finais
  • A jangada que adornou (não afundou) transportava mais de 100 homens, o que excedia claramente o limite de segurança, especialmente se não estivesse a transportar viaturas.
  • A sobrecarga, combinada com possíveis correntes ou instabilidade no rio, terá contribuído para o desastre.
C. Estimativa da IA / Perplexity:

A própria documentação militar indica que a jangada de Cheche, à data da Op Mabecos Bravios, era uma plataforma de madeira assente em três grandes canoas escavadas em troncos, e que se estimava suportar cerca de 10 toneladas, sendo a lotação de segurança fixada em 50–60 homens por travessia (segundo o comandante da operação, cor inf Hélio Felgas).

(i) Dimensões prováveis da jangada

Não há, até hoje, qualquer fonte que dê medidas formais (em metros) da jangada usada no desastre, apenas descrições construtivas e da capacidade em peso. A partir dessas descrições e das fotografias de Cheche (jangada de três canoas com GMC ou Unimog em cima), os veteranos e o comando da operação referem:​

Plataforma “grande, segura e larga”, capaz de levar 1 viatura tática carregada (GMC ≈ 5–7 t) mais homens, ou 2 viaturas ligeiras, sem exceder 10 t de carga total.​

Estrado a cerca de 1 metro acima da linha de água quando descarregado.​

Três canoas do tipo mostrado nas tuas fotos: troncos escavados com cerca de 7–9 m de comprimento e 0,9–1,1 m de boca máxima, que na prática obrigam a um estrado de comprimento semelhante (≈ 7–9 m) e largura da ordem de 3–3,5 m para cobrir as três.

Isto permite, com todas as reservas, uma ordem de grandeza plausível:
  • comprimento útil do estrado: aproximadamente 7–9 metros, para caber uma GMC de combate ou dois Unimog deitados no sentido longitudinal;
  • largura: aproximadamente 3–3,5 metros, suficiente para a via de rodagem de uma viatura (≈ 2,3 m) com guarda‑costas laterais;
  • altura total acima da água, jangada vazia: cerca de 1 metro (estrado) mais 0,5–0,8 m de borda livre das canoas, pelo que o conjunto teria algo como 1,5–1,8 m de “perfil” visto de lado.​
Estas são estimativas compatíveis com o que se vê nas imagens e com a necessidade de transportar viaturas pesadas; não têm, porém, valor de “medida oficial”.

(ii) Capacidade segura em homens

Sobre a lotação, aqui as fontes são claras:
  • o comandante tático ou operacional da travessia (alf mil Diniz) operava com a regra de “no máximo 60 homens (2 pelotões)” por viagem, o que é explicitamente designado como “lotação de segurança”;
  • o  alf mil da CCAÇ 2405, Rui Felício (1944-2026), confirma que essa limitação era respeitada “dezenas de vezes ao longo da noite” e que na última viagem a jangada seguiu com “o dobro da sua capacidade”, porque um oficial de patente superior  ordenou o embarque dos quatro grupos de combate que restavam na margem.​

Outro testemunho (Paulo Raposo, também alf mil da CCAÇ 2405) ) concretiza: na última travessia seguiram 2 grupos da CCAÇ 2405, mais 2 grupos da CCAÇ 1790 (incluindo milícias); ele estima cerca de 120 homens, o que, a 70 kg por homem, corresponde a 10–11 toneladas só em pessoal, sem contar armamento e munições.

Assim, para responder às tuas duas perguntas:
  • dimensões: só podem ser dadas como intervalos plausíveis, da ordem de 7–9 m de comprimento, 3–3,5 m de largura e cerca de 1,5–1,8 m de altura total, estrado incluído, com o piso a cerca de 1 m acima da água quando sem carga;
  • nº de militares em segurança: os próprios responsáveis da época fixaram a lotação segura da jangada entre 50 e 60 homens armados e equipados, valor que foi claramente ultrapassado na travessia de 6/2/1969, quando embarcaram mais de uma centena de militares, facto apontado, de forma praticamente unânime, como causa direta do afundamento.

Em síntese: 
  • a jangada tinha dimensões suficientes para o transporte de viaturas;
  • mas a “engenharia de campo” feita na época fixou prudencialmente o limite em 10 toneladas ou 50–60 homens; 
  • ao embarcar 4 grupos de combate, a carga humana e o armamento ultrapassaram esse limite em cerca do dobro, destruindo a margem de estabilidade que as três canoas  podiam oferecer naquele troço do Corubal.

(Continua)

(Pesquisa: LG + IA | Condensação, revisão / fixação de texto: LG)

___________

Notas do editor LG:

(**)  Vd. poste de 22 de fevereiro de 2010 > Guiné 63/74 - P5866: Ainda o desastre de Cheche, em 6 de Fevereiro de 1969 (5): uma versão historiográfica (?) (Luis Graça)

Guiné 61/74 - P27785: Documentos (62): A retirada de Madina do Boé: a jangada - Parte I (Eduardo Figueiredo, ex-alf mil op esp, Pel Rec Inf, CCS/BCAÇ 1933, Nova Lamego e São Domingos, 1967/69)


Foto nº 1 > Guiné > Zona Leste > Região de Gabu > Nova Lamego > s/d > A legenda, sucinta, só diz "Eduardo Figueiredo, 19 ??. Guiné - Rio Corubal - Desastre"... A legenda deve ser da responsabilidade do coordenador, Henrique Oliveira. deste projeto comunitário, Aveiro e Cultura > Arquivo Digital, alojado na página do Agrupamento de Escolas José Estêvão (AEJE).   
 
Vejamos a legenda mais detalhada, da responsabilidade do autor da foto, Eduardo Figueiredo:

"A história é bem conhecida, mas esta foto não. Trata-se das duas canoas gigantes sobre as quais se construiu a famigerada jangada que se virou na retirada de Madina do Boé da nossa Companhia de 1790 do meu Batalhão 1933.

Acontece que foi o meu pelotão (Reconhecimento e Informações-Ranger) quem fez a segurança no abate, construção e transporte (aqui na foto), até à margem do Corubal, para se construir a nova jangada para a cambança e seguir para Madina do Boé.

Continuo adepto da versão do desastre que vivi. A jangada trazia uma GMC carregada ao centro e filas de pessoal de cada lado. Escutaram-se rajadas de metralhadora dum lado. Esta era uma tropa causticada com ataques, em parte devido à proximidade com a fronteira, mas também devido à muito discutível escolha do local para o aquartelamento.

Ao ouvir os tiros, quem estava do lado donde pareciam vir, correu a refugiar-se do outro lado, atrás da GMC. Gerou-se um desequilíbrio na jangada, a GMC deslizou para o lado mais pesado, e a jangada virou-se. Deus tenha na sua paz os meus camaradas que lá morreram (e os que lá ficaram)."

(Esta versão não corresponde à de quem viu e viveu o acontecimento, no Cheche, em 6/2/1969, como o Hilário Peixeiro, o Paulo Raposo, o Rui Felício, ou o José Aparício, testemunhos já anteriormente publicados. O Eduardo Figueiredo não estava lá. LG)



Foto nº 2 > Bissau > 1968 > "Quando o batalhão do Eduardo Figueiredo (E. F.) mudou de Nova Lamego para S. Domingos, houve um ou dois dias de permanência em Bissau. A pedido de E. F., sua mãe deu uma festa no terraço… Da esquerda  para a direita: Eduardo Figueiredo, de pé; à direita, o furriel Assis, primo do Assis Pacheco, que está em Lisboa num Banco; à esquerda, o Barros, hoje Professor de teatro em Almada. Era um pelotão Pel Rec Inf, ou seja, de Rangers de Lamego."


Foto nº 3 > Guiné  > Bissau > 15/10/1968> "Pátio da casa do autor da fotografia, em Bissau"


Foto nº 4 > Guiné > Bissau > 15/10/1968> Bissau > "Ilhéu do Rei, ao fundo"


Foto nº 5> Guiné > Bissau > 15/10/1968 > Bissau > "O porto velho chamado Pjiguiti, que foi o sítio onde ocorreu a 1ª revolta dos estivadores, já relacionada com a agitação que antecedeu a guerra colonial"

Fotos alojadas em Aveiro e Cultura > Arquivo Digital (e aqui reproduzidas com a devida vénia).

Fotos (e legendas): © Eduardo Figueiredo (2019). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. A jangada que esteve na origem do desastre do Cheche, no rio Corubal, na antiga Guiné Portuguesa, em 6/2/1969, era constituída por um estrado assente em "três canoas gigantes"... A anterior era assente só em duas canoas... Possivelmente essas canoas seriam as duas  que a foto mostra.

A foto, rara, preciosa, é do Eduardo Figueiredo (ou Eduardo M. M.  Figueiredo), ex-alf mil op esp / ranger, cmdt, Pel Rec Inf / CCS/BCAÇ 1933 (Nova Lamego e São Domingos, 1967/69), que o nosso camarada Virgílio Teixeira deve ter conhecido, já que ele foi chefe do Conselho Administrativo do Comando daquele batalhão. Portanto, estiveram juntos em Nova Lamego e em São Domingos, ele e o Eduardo.  E terão vindo e regressado juntos, no mesmo navio T/T.

Não temos um exemplar, aqui à mão, da História da Unidade para confirmar o seu nome e o seu posto  mas sabemos que o Eduardo Figueiredo tinha casa em Bissau, e deixou-se fotografar com alguns camaradas do seu Pel Rec Inf, na sua casa, ou casa de sua  mãe em Bissau (Foto nº 2) (pela imagem vê-se que é alferes),

Nessa época, os Pel Rec Inf, que faziam parte das CCS (Companhias de Comando e Serviço) eram estruturas leves, com um alferes miliciano, 2 fur mil, 5 primeiros cabos e 5 soldados (com a especialidade Exploradores e Observadores), num total de 13 elementos.

A data da foto nº 2 deve ser de fevereiro de 1968, quando o BCAÇ 1933 regressou a Bissau, vindo de Nova Lamego, para ir, um mês e tal depois, assumir a responsabilidade do setor de São Domingos, na Zona Oeste.  

As restantes fotos de Bissau (fotos nºs, 3, 4 e 5) têm já data posterior (15/10/1968).

Em conclusão, em 6/2/1969, aquando do desastre do Cheche, tanto o Eduardo Figueiredo como o seu Pel Rec Inf / CSS / BCAÇ 1933 já há estavam em São Domingos há mais de 10 meses. 


2. Sabemos, pela ficha de unidade, que o  BCAÇ 1933 chegou a Bissau no princípio de outubro de 1967  (tendo regressado a casa em agosto de 1969, depois de terminada a comissão de serviço).

(i) após sobreposição com o BCav 1915 assumiu, em 110ut67, a responsabilidade do Sector L3, com sede em Nova Lamego e abrangendo os subsectores de Bajocunda, Buruntuma, Canquelifá, Piche, Pirada, Madina do Boé e Nova Lamego;

(ii) de 230ut67 a 04Dez67, foi criado o subsector temporário de Canjadude, a fim de incrementar o patrulhamento e contacto com as populações daquela área;

(iii) desenvolveu intensa actividade de patrulhamento da fronteira, do controlo dos itinerários, de melhoramento das condições de defesa dos aquartelamentos e de tabancas em autodefesa e de acções ofensivas sobre os grupos inimigos infiltrados na área;

(iv) em 21Fev68, foi rendido no sector pelo BCaç 2835, recolhendo a Bissau, onde se manteve aguardando colocação:

(v) em 02Abr68, rendendo o BCaç 1894, assumiu a responsabilidade do Sector O1-B, a partir de 040ut68, designado Sector O6, com sede em S. Domingos e abrangendo os subsectores de Ingoré, Susana, S. Domingos e Barro, este foi transferido para o COP 3 em 01Set68;

(vi) nesta situação desenvolveu intensa actividade operacional de patrulhamento, emboscada e acções ofensivas sobre as linhas de infiltração inimigas de Campada, Barraca e Canja, executando ainda acções ofensivas com vista a impedir a instalação de bases inimigas, promovendo e coordenando a autodefesa
das populações e da acção psicossocial e garantindo o controlo e segurança dos itinerários;

(vii) em 01Ag069, o batalhão foi rendido no sector pelo BCav 2876, recolhendo a Bissau para  embarque.

3. Entretanto, a CCaç 1790 (comandada pelo cap inf José Ponces de Carvalho Aparício) seguiu imediatamente para Fá Mandinga, onde realizou o treino operacional na região de Xitole, sob orientação do BCaç 1888, sendo-lhe atribuída a missão de força de reserva do Comando-Chefe, de 270ut67 a 16Nov67, tendo actuado em operações nas regiões de Sinchã Jobel e Caresse, em reforço do BCav 1905 e na região de Poidom, em reforço do BCaç 1888. 

Em 16Nov67, passou a força de reserva do CTIG, com sede em Bolama e depois em Bissau, tendo realizado outras operações na região de Poidom, em reforço do BCaç 1888 e na região de Porto Gole, em reforço do BCaç 1912.

Em 08Jan68, assumiu a responsabilidade do subsector de Madina do Boé, com um destacamento em Béli, de 09Fev68 a 15Jun68, inicialmente na dependência do seu batalhão ( o BCAÇ 1933) e depois do BCaç 2835.

Em 06Fev69, após extinção do subsector de Madina do Boé em 04Fev69, com a consequente evacuação do aquartelamento, foi colocada em Nova Lamego, onde substituiu a CCaç 2403 na função de intervenção e reserva do sector do mesmo BCaç 2835, com vista à realização de patrulhamentos, escoltas, acções ofensivas e reforço da guarnição da respectiva zona de acção, após o que
recolheu, transitoriamente, a Bissau, em 20Abri69.

Em 07Mai69, rendendo a CArt 1744, assumiu a responsabilidade do subsector de S. Domingos, integrando-se no dispositivo e manobra do seu batalhão.

Em 01Ag069, foi rendida pela CCav 2539 e recolheu seguidamente a Bissau, a fim de aguardar o embarque de regresso.


4. A data da foto nº 1 só pode ser de inícios de janeiro de 1968 ou do 1.º trimestre desse ano, quando a CCAÇ 1790 / BCAÇ 1933 passou a assumir a responsabilidade do subsetor de Madina do Boé (com um destacamento em Béli). 

Nessa altura, sim, a jangada do Cheche assentava em duas canoas. Seria mandada fazer uma  nova jangada, assente em 3 canoas (semelhantes às da foto nº 1),  para efeitos da retirada de Madina do Boé (Op Mabecos Bravios).  E foi essa jangada que causou   (ou esteve na origem de) o desastre do Cheche em 6/2/1969.

De qualquer modo, a foto nº 1 dá-nos uma ideia do comprimento e largura das canoas usadas para construir as duas jangadas do Cheche. A última, composta por 3 canoas,  com capacidade carga de 10 toneladas, segundo o testemunho do comandante da Op Mabecos Bravios. Vamos submeter a uma ferramenta de IA a foto nº 1  para fazer esses cálculos: 
  • (i) comprimento e largura da última jangada;
  •  e (ii) nº de militares que poderia levar em condições normais de segurança, na travessia daquele troço do rio Corubal que não teria mais de 140/150 metros de largo, no tempo seco (fevereiro de 1969).
(Continua)

(Revisão / fixação de texto, negritos, título: LG)
_______________

Nota do editor LG:

domingo, 1 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27784: Agenda Cultural (884): Lançamento do livro "AVC – Acidente Vascular Cerebral - Viagem ao Mundo dos Sobreviventes", da autoria de José Saúde, dia 3 de Março de 2026, pelas 18 horas, na Biblioteca Municipal de Beja José Saramago


1. O nosso Camarada José Saúde, ex-Fur Mil Op Esp/RANGER da CCS do BART 6523 (Nova Lamego, Gabu) - 1973/74, enviou-nos a seguinte mensagem.


Convite aos camaradas

 

Camaradas,

Longe vão os tempos das nossas “viagens” pelas picadas na Guiné, ou de trilhos enigmáticos, onde, como jovens militares enviados para as frentes de combate, desbravámos misteriosos matos, sendo a incerteza do momento constante sempre uma incógnita.

 

 

Hoje, postados em idades já avançadas, outros “conflitos” mexem com egos que, nesta fase da vida, somos simplesmente contemplados, mas que jamais havíamos admitido. Mexer com o tema AVC – Acidente Vascular Cerebral – é tão-só receber uma acidentada notícia que parecia estar tão longe de nós.

 


Mas, como humanos, somos meras pessoas em que o confronto com esta realidade – AVC – é demasiado frágil. “AVC Viagem ao Mundo dos Sobreviventes” é o meu 12º livro, o qual será oficialmente apresentado ao público no dia 3 de março, 2026, 18h00, na Biblioteca Municipal de Beja José Saramago, Edições Colibri, onde para além da tarde cultural temos também uma parte musical, com o cantor Luís Lameira e com os Cantadores do Desassossego de Beja    

Espero vós, camaradas.

Um abraço,  

José Saúde

Fur Mil Op Esp/RANGER da CCS do BART 6523

____________

Nota de M.R.:

Vd. último poste da série de 14 de maio de 2025 > Guiné 61/74 - P26799: Agenda Cultural (883 ): "Livros a Oeste | Festival do Leitor", Lourinhã, 13 a 17 de maio de 2025: a 13ª edição está a decorrer, sob o lema "A História é Uma Encruzilhada"

Guiné 61/74 - P27783: Coisas & loisas do nosso tempo de meninos e moços (39): O meu gato Gatafunho (José António Paradela, 1937-2023)


Teria feito 88 anos no passado
dia 30 de outubro. Nasceu em
Ílhavo em 1937. Morreu no hospital,
em Aveiro, em 21 de fevereiro
 de 2023. Membro da nossa
Tabanca Grande. Fez a tropa
na marinha de guerra 
e antes, 
aos 17 anos, 
na pesca do
 bacalhau, 
seguindo os passos
dos seus avoengos. Arquiteto, 
urbanista, escritor (pseudónimo
literário: Ábio de Lápara)

À memória de José António Paradela (1937-2023):

Meu querido, os teus escritos 
continuam a surpreender-nos.

Que ternura este poema
sobre o teu gato da infância.

E, com ele, ressuscitas
o pátio onde cresceste, 
e a tua mágica “rua suspensa dos olhos”.

As saudades destes 3 anos pesam, 
mas a (re)descoberta
 das tuas singularidades 
continua a emocionar-nos.

Matilde & família.

Costa Nova, 21 de fevereiro de 2026


EM PEQUENO 

EU TINHA UM GATO (*)


Em pequeno eu tinha um gato,
Fofo gatinho amarelo
A quem fazia carícias,
Passando a mão p’lo pelo.

Fofo gato, Gatafunho
O nome com que viveu,
Adotado à nascença,
Nos anos em que foi meu.

Com ele aprendi o R,
No ronronar satisfeito,
Quando à noitinha dormia,
Deitado sobre o meu peito.

Felis Catus, meu filósofo
Da vida como ela é,
Em se sentindo carente,
Vinha roçar no meu pé.

E quando a fome apertava,
Lá no pátio da ti Cila (**),
Esperava por ela às quatro,
No seu regresso da vila.

Senhora certa da Praça,
Mãe de filhos e de gatos,
No esmalte da sua taça
Carrega peixes baratos.

E o meu gato amarelo,
Pelas quatro horas da tarde
Boceja e lambe o pelo,
Sabe que a Cila não tarda.

Correndo então beco fora,
Entoando o seu miau,
Na taça só via agora
Prenúncios de carapau.

Três carapaus e cabozes
Que sobraram do leilão,
E que eram, tantas vezes,
A primeira refeição.

Assim cresceu o meu gato
No fim dos anos quarenta,
Tinha eu então nove anos
E tinha ele noventa.

Sábio bicho de bigode,
Rei de gatas e de muros,
Que encheu enquanto pôde
Os meus sonhos mais maduros.

Sete vidas e um império,
Sete fôlegos de aventura,
Fugaz sombra de mistério
Que inda hoje perdura.

Na clara mansão da Lua,
Em um janeiro gelado,
Uma gata lá da rua
Mudou de vez o seu fado.

E o meu gatinho amarelo,
Gato que alguém me ofereceu,
Um dia partiu de casa
E nunca mais apareceu.

José Paradela | Costa Nova | Agosto de 2005

Publicado no Ilhavense, jornal centenário, 15 de fevereiro de 2026, pág. 22
_______________

Notas do editor LG:

(*) Último poste da série > 28 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27780: Coisas & loisas do nosso tempo de meninos e moços (38): O Fígaro, um dos cromos do Liceu D. João III, em Coimbra (Rui Felício, 1944-2026)

Guiné 61/74 - P27782: Parabéns a você (2464): Vilma Crisóstomo, Amiga Grã-Tabanqueira, esposa do nosso amigo e camarada João Crisóstomo

_____________

Nota do editor

Último post da série de 27 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27775: Parabéns a você (2463): Luís Cardoso Moreira, ex-Alf Mil Sapador Inf da CCS/BART 2917 e BENG 447 (Bambadinca, Nhabijões e Bissau, 1970/72)

sábado, 28 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27781: Os nossos seres, saberes e lazeres (724): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (245): O Palácio Biester, de romantismo inconfundível, envolvido por um par de sonho - 1 (Mário Beja Santos)

Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf
CMDT Pel Caç Nat 52

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 21 de Janeiro de 2026:

Queridos amigos,
Depois de longos e cuidados restauros e obras de conservação, o Parque e o Palácio Biester abrem-se ao público no seu espantoso desenho em declives, obra de um célebre paisagista francês, François Nogré, que organizou espaço com uma série de patamares com diferentes vistas para o Palácio, as espécies arbóreas como a Nogueira-do-Japão, faias, plátanos e camélias e fetos arbóreos asseguram o jogo de cores quase caleidoscópico, e lá no cimo vemos um Palácio romântico, faz boa parentela com outro património próximo, a Quinta da Regaleira, os cabalistas e esotéricos têm muito aqui para se entreter, basta pensar na Capela templária e na Câmara Iniciática. O Palácio destaca-se pelo seu ecletismo e exuberância, revela o bom gosto da época em toda a sua magnificência, como continuaremos a ver seguidamente.

Um abraço do
Mário



Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (245):
O Palácio Biester, de romantismo inconfundível, envolvido por um par de sonho - 1


Mário Beja Santos

Quem gosta de obras românticas de grande aparato, o Palácio Biester, que alguns tratam por chalé, satisfaz plenamente os aficionados mais exigentes. O Palácio está no ponto alto de um Parque de indiscutível beleza. Era, para a época, uma proeza paisagística, uma conceção com um elevadíssimo grau de dificuldade, com espaços que aparecem designados no mapa que se oferece ao visitante com nomes tais como Cascata das Camélias, Ponte dos Fetos Australianos, Passeio Bordallo Pinheiro, Largo dos Fetos Australianos ou Tanque dos Plátanos. As espécies que encontramos no parque são, em alguma medida, transversais às existentes no Parque da Pena, constituindo-se por uma grande variedade de exemplares exóticos importados dos quatro cantos do mundo; desde as espécies cameleiras com origem na China e no Japão, às faias verdes e vermelhas da Europa Central, até aos fetos da Austrália e aos abetos norte americanos. Para ser sincero, não se pode dissociar a obra romântica do Palácio dos esplendores que oferece o Parque. É possível comprar na receção um volume com a história do Palácio e dos seus proprietários, encontrei um site que talvez tenha utilidade para o leitor: https://serradesintra.net/chalet-biester/, poderá mesmo ver o ator Johnny Deep, no filme a Nona Porta, que teve filmagens no Palácio de Biester.
A Cascata dos Plátanos, junto da receção do Palácio Biester
Uma nogueira-do-Japão, uma árvore que, apesar do seu nome comum em português mencionar o Japão, é na verdade nativa da China, onde se pensou que poderia estar em vias de extinção. Com mais de 200 milhões de anos, trata-se da espécie arbórea mais antiga do planeta, o que faz com que os seus exemplares sejam muito presados pela cultura de diferentes civilizações. Com tonalidades que se manifestam desde os verdes até a um espantoso amarelo-açafão, pela altura do outono. À época, foi uma adição rara escolhida por François Nogré para o Parque Biester, que dela possui dois exímios espécimes com dimensões generosas.
Entrada do Palácio de Biester
Para se chegar aqui saiu-se do comboio em Sintra, atravessou-se a vila, havia que pôr-me ao caminho da Estrada Nova da Rainha, o Palácio Biester antecede a Quinta da Regaleira. Entra-se no parque, depois da bilheteira temos a cascata dos Plátanos e começa um sinuoso percurso até se chegar ao cimo, ao Palácio. Não se resistiu a fotografá-lo cá de baixo. É na verdade um chalé romântico, nem se sonha o que há no seu interior de neogótico, vê-se à vista desarmada que é construção dos fins do século XIX, tem uma traça eclética e exuberante, os seus alçados são francamente elegantes, o famoso arquiteto José Luís Monteiro foi feliz nesta construção cheia de harmonia.
Estamos no rés-de-chão, há por aqui inúmera beleza, na biblioteca, na sala de música, na sala de estar e no salão de festas; a escadaria principal é de cortar o fôlego. Quem mandou construir não se poupou a despesas, escolheu artistas consagrados. Olhe-se para a beleza deste teto, obra de Luigi Manini, um famoso cenógrafo do teatro de São Carlos, decorador reputado.
Um pormenor da biblioteca, uma das mais peculiares salas do Palácio, aqui se albergava o acervo literário, servia de sala de leitura e consulta de documentos e agenda
É impressionante a qualidade do trabalho dos revestimentos, a ambiência neogótica, uma bela lareira azulejada, convém recordar que andou por aqui Rafael Bordalo Pinheiro, além de genial caricaturista possuía a célebre fábrica de cerâmica nas Caldas da Rainha. Este é um pormenor do salão de festas, sala dedicada a celebrações e bailes, a divisão foi claramente projetada a pensar no tempo mais invernoso.
A sala de refeições, atenda-se ao requinte das decorações das paredes
Podia ser uma pintura, mas não é. De um dos quartos, teve-se muita sorte na hora e na luz, até parece que o Castelo dos Mouros emerge de um eriçado mundo vegetal e parece estar ao alcance da mão, ilusão da ótica, o arquiteto concebeu o edifício dispondo no rés-de-chão a área social, ou seja, a sala de estar, o salão de festas e a sala de música, não falta mesmo um espaço privado que é a biblioteca, e dispôs no primeiro andar os quartos e a capela, as varandas e janelas parece que foram talhadas para um grande espetáculo cénico.
O que se avista desta varanda é esplendoroso, de um lado a vila, do outro um património um tanto afim, a Quinta da Regaleira, os cabalistas e esotéricos aqui procuram câmaras iniciáticas, códigos templários, simbologias por decifrar.

(continua)

_____________

Nota do editor

Último post da série de 21 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27759: Os nossos seres, saberes e lazeres (723): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (244): Paula Rego, o guarda-roupa do seu estúdio num diálogo com as obras que lhe correspondem - 3 (Mário Beja Santos)