Blogue coletivo, criado por Luís Graça. Objetivo: ajudar os antigos combatentes a reconstituir o "puzzle" da memória da guerra colonial/guerra do ultramar (e da Guiné, em particular). Iniciado em 2004, é a maior rede social na Net, em português, centrada na experiência pessoal de uma guerra. Como camaradas que são, tratam-se por tu, e gostam de dizer: "O Mundo é Pequeno e a nossa Tabanca... é Grande". Coeditores: C. Vinhal, E. Magalhães Ribeiro, V. Briote, J. Araújo.
Pesquisar neste blogue
quinta-feira, 27 de novembro de 2025
Guiné 61/74 - P27470: Ser solidário (292): Bilhete-postal que vai dando notícias sobre a "viagem" da campanha de recolha de fundos para construir uma escola na aldeia de Sincha Alfa - Guiné-Bissau (17): A cabana (Renato Brito)
Boa noite Carlos Vinhal,
3 anos volvidos desde o início do projeto de construir uma escola na Guiné-Bissau, amanhã um momento de encontro para comemorar os resultados do primeiro passo operativo do projeto e apresentar o passo sucessivo – construir uma horta pedagógica no terreno doado.
Envio a “cartolina” e o cartaz que divulgam o evento.
Cumprimentos,
Renato Brito
Nota do editor CV:
Ver aqui o PDF em português do Projecto previsto para a Horta Pedagógica:
https://sostegnoguineabissau.weebly.com/uploads/1/4/4/2/144252647/projeto_horta_portugu%C3%AAs.pdf
_____________
Nota do editor
Último post da série de 11 de novembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27411: Ser solidário (291): Início do ano lectivo na escola de Sintcham Arafam, na Guiné-Bissau (Renato Brito)
Guiné 61/74 - P27469: Notas de leitura (1867): "Os Có Boys (Nos Trilhos da Memória)", de Luís da Cruz Ferreira, ex-1º cabo aux enf, 2ª C/BART 6521/72 (Có, 1972/74) - Parte V: a IAO em Bolama: "Eh, pá, estás morto!... Atira-te para o chão, que estás morto!" (Luís Graça)
Com a especialidade de 1º cabo auxiliar de enfermeiro feita em Coimbra, no RSS (Regimento de Serviços de Saúde) (jan/mai 1972), o Luís é mobilizado para a Guiné, indo formar batalhão, o BART 6521/72, no RAL 5, Penafiel (jun / set 1972).
Daqui parte para o CTIG, por via aérea (TAM), em 22/9/1972 (*)
Em 11 páginas (pp. 48-59) descreve a sua estadia em Bolama, em cujo CIM iria fazer a IAO - Instrução de Aperfeiçoamento Operacional. O tom que adota continua a ser irónico, e às vezes burlesco, a raiar o absurdo.
![]() |
| ~ Crachá da 2ª C/BART 6521/72 (Có, 1972/74) |
desbotados" (pág.48).
Após a realização da IAO, no CIM, em Bolama, a 2ª C/ BART 6521/72 seguiu, em 290ut72 para Có, sector do Pelundo, a fim de efectuar o treino operacional e a sobreposição com a CCaç 3308.
Guiné 61/74 - P27468: Efemérides (378): foi há 55 anos a Op Abencerragem Candente (25 e 26 de novembro de 1970, subsetor do Xime), com meia dúzia de mortos de um lado e do outro
(...) Um, dois, três, quatro, cinco, seis homens
às 8h50,
em vinte e seis de novembro de mil novecentos e setenta,
no cacimbo da madrugada,
na antiga picada do Xime-Ponta do Inglês.
Cinco brancos e um preto,
a lotaria da morte, em L,
numa emboscada que é cubana,
numa roleta que é russa,
com os RPG, amarelos, "made in China"...
no corrocel da morte que é, afinal, universal! (...) (*)
Notas do editor LG:
(*) Excerto de poste de 26 de novembro de 2022 > Guiné 61/74 - P23818: Efemérides (377): Foi há 52 anos, a carnificina da Op Abencerragem Candente, 26/11/1970, subsector do Xime..."Choro para uma morte anuncidada" (poema de Luís Graça)
(**) Último poste da série > 24 de novembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27459: Efemérides (475): Mais de cem anos depois do Armistício de 11 de novembro de 1918, que encerrou a Primeira Guerra Mundial, é essencial registar o percurso de Portugal até esse conflito e os seus impactos (José Marcelino Marins, ex-Fur Mil TRMS da CCAÇ 5, Canjadude, 1968/70)
quarta-feira, 26 de novembro de 2025
Guiné 61/74 - P27467: Historiografia da presença portuguesa em África (505): A Província da Guiné Portuguesa - Boletim Oficial da Colónia da Guiné Portuguesa, continuação de 1949 (63) (Mário Beja Santos)
1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 22 de Maio de 2025:
Queridos amigos,
É gritante, flagrantemente gritante, o conteúdo das matérias dos Boletins Oficiais da governação de Sarmento Rodrigues, da do período que ficou a cargo do encarregado de Governo e agora do novo Governador, Engenheiro Raimundo Rodrigues Serrão. O que conta agora é a institucionalização da vida administrativa, vai surgir a aviação civil, fala-se dos direitos dos aposentados, de segurança social, como seja as indemnizações, pensões e compensações por acidentes de trabalho dos indígenas, do abastecimento de água em ruas ou zonas servidas pela rede geral da distribuição de água, dos direitos dos funcionários a medicamentos, há melhoria do abastecimento em carnes verdes, há necessidade da Guiné se apetrechar com aparelho estatístico, e aumenta o número dos clubes de futebol, fundou-se uma associação de desporto com o nome Nuno Tristão Futebol Clube, em Bula. Ainda não se falou numa preocupação que é latente em Raimundo Serrão, ele quer pôr o liceu a funcionar, no fundo o espírito da colónia-modelo parece enraizar-se nas preocupações do novo governador, enquanto decorrem as construções deixadas pelo seu antecessor procura melhorar o aparelho administrativo, pô-lo na dimensão da modernidade.
Um abraço do
Mário
A Província da Guiné Portuguesa
Boletim Oficial da Colónia da Guiné, continuação de 1949 (63)
Mário Beja Santos
Estamos em julho de 1949, no Boletim Oficial n.º 29, do dia 18, são publicados os estatutos do Nuno Tristão Futebol Clube, tem a sua sede em Bula, o emblema constará de camisola amarela, calção preto, meia preta com lista amarela e as armas da colónia, o seu estandarte será também preto e amarelo com as armas da colónia. Os fins da associação são: promover diversões familiares entre os associados, a prática das diversas modalidades desportivas, expansão do espírito associativo e o progresso da associação.
O reforço da vida administrativa passava também pela introdução de infraestruturas de abastecimento portadoras de sinais da civilização. No Boletim Oficial n.º 30, de 25 de julho, consta uma Portaria que nos recorda que a população de Bissau, 11 mil habitantes, lutava com sérias dificuldades quanto à aquisição de carnes verdes, refere-se que o serviço de aquisição, matança de rezes e fornecimento de carnes verdes é do verdadeiro interesse público, sendo necessário dotar o serviço com fundo permanente para aquisição de gado, autoriza-se a Câmara Municipal de Bissau tomar as medidas atinentes. É também nesta perspetiva que se deve olhar o regulamento para serviço de abastecimento de água nas circunscrições civis, consta do Suplemento ao n.º 30, n.º4-A, 26 de julho, atenda-se aos propósitos:
- As administrações das circunscrições civis fornecerão água potável para usos domésticos e industriais a todos os proprietários e inquilinos de prédios, bem como as repartições, dependências e utilizações públicas situadas nas ruas, zonas ou locais servidos pela rede geral de distribuição;
- A água será fornecida ininterruptamente de dia e de noite, exceto em casos fortuitos e de força maior;
- Nas ruas ou zonas servidas pela rede geral de distribuição de água é obrigatória a instalação de canalizações de distribuição, esta obrigação pertence sempre ao proprietário do prédio. É um minucioso regulamento que contempla as canalizações, o fornecimento de água e muito mais.
As preocupações sociais vão começar a dar pelo nome de segurança social e direitos dos trabalhadores. No Suplemento n.º 4-B, de 26 de julho, consta um despacho do gabinete do governador em que se pretende regulamentar a proteção aos indígenas vítimas de acidentes de trabalho e por isso se publicam instruções sobre acidentes de trabalho em concordância com o Código do Trabalho dos Indígenas, que tinha sido aprovado por um decreto de 6 de dezembro de 1928. Vejamos alguns aspetos relevantes:
- Terão direito às indemnizações, pensões ou compensações fixadas neste regulamento todos os trabalhadores indígenas que forem vítimas de um acidente de trabalho, do qual lhes resulte alguma lesão ou doença que tenha ocorrido no local e durante o tempo de trabalho ou na prestação de trabalho ou fora do local e tempo de trabalho normal, se ocorrer enquanto se executam ordens ou realizam serviços sobre a autoridade da entidade patronal. O legislador é também minucioso, dirá o que não é acidente de trabalho ou o que não se poderá considerar como acidente de trabalho, em condições o sinistrado perde o direito a qualquer pensão ou indemnização, etc., etc.
Vejamos agora o Boletim Oficial n.º 36, de 5 de setembro, determina que os comerciantes fiquem obrigados a manifestar mensalmente, para fins exclusivamente estatísticos, as quantidades compradas e os preços praticados. Isto porquê? O legislador explica:
“Não dispõe a Guiné de estatísticas da sua produção agrícola. Os números publicados quanto a este aspeto da estrutura económica da colónia resultam de simples estimativas que nem sempre traduzem a realidade dos factos, refletindo com exatidão a atividade agrícola geral dos indígenas, nem permitem traçar com segurança a política económica mais adequada às necessidades locais. Enquanto não for possível a organização daquele ramo de estatística por forma a fornecer elementos de grande utilidade, quer sob o ponto de vista económico-agrícola, quer sob o ponto de vista político e social de ocupação do território, tenta-se suprir a lacuna existente organizando o manifesto comercial agrícola que permitirá ao Governo conhecer, com o rigor possível, não só o volume dos produtos da lavra indígena que afluem aos centros comerciais de cada circunscrição como a evolução anual dos respetivos preços, as compras feitas por uma circunscrição em qualquer das outras e as existências em armazém no fim de cada mês.”
E estabelece-se esta obrigatoriedade de que todos os comerciantes que compram os produtos agrícolas aos indígenas são obrigados a manifestar mensalmente as quantidades compradas e os preços praticados.
Temos finalmente o Suplemento n.º 17, de 31 de dezembro, publicam-se os Estatutos do Aero Clube da Guiné, organismo de interesse público e privado com sede em Bissau, tendo como objetivo o desenvolvimento da aviação civil na Guiné Portuguesa. “Para atingir os fins enunciados, o Aero Clube dedicar-se-á ao ensino, prática e propaganda da aeronavegação e, mais particularmente, procurará criar e desenvolver escolas de pilotagem e transportes aéreos, destinados aos seus associados; também o Aero Clube poderá promover a prática de desportos e à realização de reuniões, festas e sessões educativas; o Aero Clube será o porta-voz dos interesses da associação civil, desportiva e turística da Colónia junto dos competentes organismos do Estado.” E prescrevia-se, conforme o espírito do tempo, que o Aero Clube orientaria a sua atividade de forma a favorecer o interesse nacional, ficando indiferente em matéria política ou religiosa, sendo estranho às opiniões políticas e crenças religiosas dos seus associados.
Creio que o leitor pode verificar que o novo Governador está mais vocacionado para a institucionalização da vida administrativa, nada do que espelha a sua atuação durante estes meses de 1949 nos faz recordar a dinâmica introduzida por Sarmento Rodrigues, Raimundo Serrão quer uma boa administração para a colónia, como veremos proximamente em 1950 estará atento ao transporte do correio por toda a colónia, estatutos sindicais, instruções especiais da polícia e fiscalização do movimento migratório de nacionais e estrangeiros, sanidade urbana, serviços meteorológicos ou camarários. A administração cresce, tenho que estar à altura do espírito da colónia-modelo que tinha sido insuflado por Sarmento Rodrigues. Claro está que haverá construções mas sobretudo das obras lançadas pelo anterior Governador.
(continua)
_____________
Nota do editor
Último post da série de 19 de novembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27441: Historiografia da presença portuguesa em África (504): A Província da Guiné Portuguesa - Boletim Oficial da Colónia da Guiné Portuguesa, 1949 (62) (Mário Beja Santos)
Guiné 61/74 - P27466: A Nossa Marinha (4): Reserva Naval : uma elite ? Era, pelo menos, mais apelativa para os jovens com formação universitária, de classe média e média-alta, do que o Exército e a Força Aérea e por ela passaram alguns dos melhores quadros da nossa geração
Escola Naval > O curso de Marinha que frequentou o 16º CFORN, no verão de 1970. O curso teve início em 22 de janeiro e concluiu-se em 19 de setembro de 1970, com a promoção dos 63 cadetes que o haviam frequentado: 35 da classe de Marinha (55,6%); e 25 da classe de Fuzileiros (39,7%); 1 da classe de Engenheiros Construtores Navais mais 2 da clssse de Farmacêuticos Navais (0,7%).
Além de um exemplar de "O Anuário da Reserva Naval: 1958-1974", da autoria dos comandantes A. B. Rodrigues da Costa e Manuel Pinto Machado (edição de autor, Lisboa, 1992), o Manuel Lema Santos (1942-2025) também nos ofereceu um exemplar do "Anuário da Reserva Naval: 1976-1992", da sua autoria (Lisboa, AORN, 2011, 113 pp).
"Au voil d'oiseau", e folheando o "anuário da Reserva Naval: 1958-1974", reconheço nomes de figuras públicas (e entre eles vários académicos) como:
- Alexandre Vaz Pinto (3º CEORN, 1960);
- o médico e psicólogo Orlindo Gouveia Pereira (foi professor na Escola Naval, na área da psicossociologia / gestão do comportamento organizacional, juntamente o cmdt Correia Jesuino), António José Avelãs Nunes, José Manuel Merêa Pizarro Beleza ( todos do 6º CEORN, 1963);
- Artur Santos Silva, Ernâni Lopes, Rui Machete (todos do 7º CEORN, 1964);
- Alípio Dias, António Soares Pinto Barbosa, Manuel Soares Pinto Barbosa, Vitor Constâncio (todos do 9º CFORN, 1966);
- Adelino Amaro da Costa e Diogo Freitas do Amaral (ambos do 11º CFORN, 1967)(cofunmdadores do CDS);
- Ricardo Salgado e Manuel Valentim Franco Alexandre (ambos do 15º CFORN, 1969);
- António Bagão Félix (17º CFORN, 1970);
- Marinus Pires de Lima (18º CFORN, 1971) (um dos pioneiros da sociologia do trabalho, professor no ISCTE, no meu tempo);
- António Henriques Rodrigues Maximiano (20º CFORN, 1972) (futuro magistrado);
- Luís Salgado Matos (22º CFORN, 1973);
- Luís Valadares Tavares e José António Sarsfield Cabral (24º CFORN, 1974)...
Fonte: "O Anuário da Reserva Naval, 1958-1974".
Mas estamos a falar de um pequena amostra do Portugal de então, que tinha menos de 9 milhões de habitantes...
De qualquer modo, em 25 cursos de formação de oficiais da Reserva Naval (CFORN), de 1958 a 1974, a Marinha irá beneficiar do concurso de 1712 oficiais, dos quais cerca de um milhar (segundo o.nosso saudoso Manuel Lema Santos) terá sido mobilizado para a guerra do ultramar / guerra colonial / guerra de África (cerca de 58%).
Para reforçar os seus quadros, a Marinha utilizou a Reserva Naval (RN), um corpo composto por jovens licenciados ou estudantes universitários, geralmente provenientes da classe média e média-alta urbana.
O estatuto de "elite" da RN resultará de uma combinação de fatores relacionados com o seu processo de recrutamento, o perfil exigido e o contexto social e educacional de Portugal na época da guerra colonial (1961/74).
Recorde-se alguns números sobre a população que frequentava a universidade / ensino superior nestes últimos 75 anos:
- em 1950, o acesso ao ensino superior era muito limitado, apenas cerca de 16 mil (!) alunos frequentavam a universidade;
- nos anos 70 (especialmente por volta de 1974, após as transformações políticas e sociais em Portugal), esse número aumentou para cerca de 56/57 mil;
- por volta de 1978 havia já algo em torno de 80/82 mil estudantes de ensino superior;
- hoje, o número de inscritos no ensino superior é quase 30 vezes superior ao de 1950: perto de 446 mil estudantes.
(ii) Recrutamento baseado em habilitações académicas
A principal razão para o seu caráter de elite residia no facto do acesso ser altamente seletivo e condicionado pela formação universitária:
- critério de preferência: a legislação da época (vd. Portaria nº 18710, de 4 de setembro de 1961) estabelecia que uma das condições de preferência para servir na Reserva Naval (através dos CEORN . Cursos Especiais de Oficiais da Reserva Naval, mais tarde CFORN - Cursos de Formação de Oficiais da Reserva Naval) era possuir as "melhores habilitações escolares";
destino de universitários: a Marinha precisava de quadros especializados (engenheiros, economistas, advogados, construtores navais, gestores, médicos, fuzileros, oficiais de marinha, etc.) e recrutava a sua reserva de oficiais quase exclusivamente entre os diplomados ou estudantes das principais universidades e escolas superiores do país, com destaque para as faculdades de ciências, faculdade de engenharia, Instituto Superior Técnico, faculdades de medicina, escolas de farmácia, ISEF, faculdade de economia, faculdades de direito... (Decreto-lei nº 41399, 26 de novembro de 1957).
voluntários e oferecidos: os voluntários (os que se apresentavam por iniciativa própria) tinham preferência; este grupo era composto, em grande parte, por universitários que procuravam uma modalidade de serviço militar que utilizasse a sua formação, e que, em alguns casos, era vista como uma alternativa mais "qualificada" ou mais apelativa em comparação com o serviço no Exército.
A diferença entre "voluntários" e "oferecidos" (sic) para efeitos de acesso à RN da Marinha de Guerra Portuguesa, no contexto da guerra colonial (em vigor, por exemplo, na Portaria n.º 18710 de 1961), residia na forma como se apresentavam para o serviço militar na RN.
Essencialmente, ambos eram considerados condições de preferência para o ingresso, em comparação com os indivíduos que eram simplesmente chamados, mas a distinção era a seguinte:
- voluntários: eram os cidadãos que se apresentavam espontaneamente para a prestação do serviço militar na RN sem terem sido previamente chamados; o ato era totalmente por iniciativa própria;
- oferecidos: eram os indivíduos que, embora talvez ainda não tivessem sido chamados ou tivessem outras obrigações, ofereciam-se para o serviço na Reserva Naval, em vez de cumprirem o serviço militar obrigatório noutro ramo ou modalidade.
O termo pode ser interpretado como uma manifestação de desejo de servir na Marinha em particular, após terem sido incluídos no sorteio ou no processo de recrutamento, ou de terem sido destacados de outro ramo das Forças Armadas para a RN.
Ser "voluntário ou oferecido" era a primeira condição de preferência para servir na RN, demonstrando um grau de iniciativa superior ao do contingente geral.
Outras condições de preferência incluíam possuir conhecimentos náuticos (como carta de patrão de costa ou alto mar) e melhores habilitações escolares.
Em suma, ambos os termos ("voluntários" ou "oferecidos") indicavam uma predisposição e proatividade para servir na RN, o que lhes dava preferência no acesso aos CEORN / CFORN.
(iii) o Contexto sociopolítico da época
No Portugal do Estado Novo, nas décadas de 1960 e 1970, o acesso ao ensino universitário era ainda bastante restrito:
privilégio social: a frequência universitária era, por si só, um forte indicador de pertença a classes sociais mais abastadas ou com maior capital cultural (classes média,. média-alta e alta):
"viveiro" de líderes: O grupo de jovens que frequentava as universidades de prestígio (como o Instituto Superior de Ciências Económicas e Financeiras - ISCEF, que formou muitos economistas e futuros banqueiros; ou o IST - Instituto Superior Técnico) era, inevitavelmente, o grupo que viria a ocupar os mais altos cargos na economia, na política e na academia: ao recrutar este universo, a RN tornou-se um ponto de passagem obrigatório para a futura classe dirigente do país.
A RN não era uma elite no sentido de ser uma força especial de combate (esse papel era desempenhado pelos Fuzileiros Especiais, por exemplo), mas sim uma elite social, cultural, intelectual e profissional.
Os oficiais da RN eram jovens com elevada formação civil que cumpriam o seu serviço militar, muitas vezes em funções administrativas, logísticas, técnicas ou de comando a bordo de navios, utilizando os seus conhecimentos académicos.
O facto de alguns deles terem alcançado notoriedade pública pode ser visto como uma consequência direta de terem pertencido a esse grupo social e educacional altamente privilegiado e selecionado.
A opção pela RN surgia por vários motivos:
- em navios (fragatas, navios hidrográficos, navios de transporte, LFG, LDG);
- em bases costeiras ou fluviais mais organizadas e seguras;
- com melhor capacidade de evacuação, apoio médico, alimentação, lazer, etc.
A figura do “oficial da Marinha”, impecável na sua "farda do botão de âncora", tinha, tradicionalmente, maior prestígio social do que o oficial do exército; a instituição mantinha uma cultura mais elitizada e tecnocrática, preservando modelos de carreira próximos dos padrões europeus.
A tropa terrestre enfrentava nos TO ultramarinos:
- condições de campanha mais precárias,
- maior exposição ao combate,
- baixas mais elevadas sobretudo em operações do mato, ataques e flagelações aos aquartelamentos e destacamentos, minas e armadilhas, emboscadas,
- instalações precárias, insalubres e inseguras,
- isolamento,
- dificuldades de abastecimento, etc..
Comparativamente, a Força Aérea também oferecia boas condições, mas dispunha de bem menos vagas e exigia aptidões muito específicas.
(v) Composição social e formação
Entre 1958 e 1974, os 25 cursos da Reserva Naval formaram 1712 oficiais, dos quais cerca de mil foram mobilizados. O seu número de candidatos foi sempre crescendo a apartir do 9º CFORN (1965), atingindo o valor mais expressivo no final da guerra.
- universitários de direito, economia, engenharia, educação física, farmácia, medicina;
- jovens de famílias ligadas ao funcionalismo qualificado, indústria, banca e profissões liberais, etc.. (famílias que, além do poder económico, tinham também um importante capital de relações sociais);
- futuros quadros políticos e económicos do Portugal democrático (como Artur Santos Silva, Freitas do Amaral, Vitor Constâncio, Rui Machete, Ernâni Lopes, Bagão Félix,, etc.).
A Marinha proporcionava-lhes uma formação disciplinada, tecnicamente exigente e socialmente valorizada, além de viagens (20 dias, a viagem de instrução).
(vi) Funções operacionais da Marinha e da Reserva Naval
Os oficiais da Reserva Naval desempenhavam funções em:
- navios de patrulha e escolta: controlo das costas africanas; inspeção de embarcações; transporte de tropas e abastecimentos.
- unidades de fuzileiros;
- hidrografia e vigilância fluvial: em Angola e Moçambique, a Marinha operava nas zonas ribeirinhas e lacustres, essenciais para garantir mobilidade estratégica; na Guiné, circulava sobretudo nos rios e braços de mar;
- administração e logística: atividades menos expostas ao combate direto, mas fundamentais para o esforço de guerra.
- Marinha: tradicionalmente mais prestigiante, com cultura mais próxima das marinhas europeias (a Royal Navy, por exemplo);
- Exército: mais massificado, com maior presença de mobilizados (contingente geral e milicianos) e menor distinção social;
- Força Aérea: tecnocrática e profissionalizada, mas com menor dimensão e capacidade de absorver quadros da Reserva; mas incluia os batalhões de caçadores paraquedistas;
b) Condições de vida e de trabalho
- Marinha: melhores quartéis/destacamentos/bases, alimentação, condições sanitárias e descanso (a bordo, de navios);
- Exército: operações prolongadas no mato, maior desgaste físico e psicológico;piores instalações no mato (em geral);
- Força Aérea: boas bases, mas frequentemente o pessoal era colocada em zonas de risco mais elevado.
- Exército: a esmagadora maioria das baixas portuguesas (mas também era o grosso dos efetivos militares: 6,7 vezes mais do que a FA (em 1973); 29,2 vezes mais do que a Marina (em 1973);
- Marinha: reduzidas (maior risco para fuzileiros e guarnições das lanchas de desembarque; operações mais controladas e com evacuação mais rápida;
- Força Aérea: baixas sobretudo entre os pilotos e mecânicos, e os paquedistas.
A Reserva Naval (RN) era mais apelativa. E, de facto, funcionou como uma alternativa preferencial para jovens qualificados, de formação universitária, oferecendo:
- melhor estatuto social,
- melhores condições de vida e trabalho,
- talvez menor risco operacional (à parte os fuzileiros e as guarnições das LGF e LDG, nas LDM e LDP não havia oficiais)
- e formação de qualidade, tecnicamente exigente.
Isto explica porque muitos futuros líderes políticos, académicos e económicos passaram por esta via durante o conflito. Parte deles não terão sido sequer mobilizados para o ultramar.
- em primeiro lugar, o estatuto social associado ao oficial da Marinha (uma instituição que preservava uma cultura mais tecnocrática, estruturada e prestigiada);
- em segundo lugar, as condições de vida, apoio logístico e organização interna eram, em regra, mais favoráveis do que as enfrentadas pelas tropas terrestres; a bordo, havia melhores condições sanitárias, maior acesso a cuidados médicos, melhor alimentação e períodos mais regulares de descanso e oportunidades de aventura, "escape" e lazer;
- finalmente, a Marinha, embora exposta a perigos significativos, sobretudo em operações fluviais e costeiras bem como no corpo de fuzileiros, terá registado proporcionalmente um número de baixas muito inferior ao do Exército.
As funções desempenhadas pelos oficiais da RN eram variadas: desde o serviço em navios de patrulha e transporte, à fiscalização costeira, hidrografia, vigilância fluvial, logística e apoio administrativo. Outros integraram também unidades de fuzileiros, assumindo papéis de combate direto. No conjunto, tratava-se de um corpo técnico e operacional que contribuiu de forma essencial para manter a presença portuguesa nos territórios ultramarinos, e que prestigiou as nossas Forças Armadas.
Hoje, ao olhar para a história da Reserva Naval, percebemos que ela reflecte não apenas a estratégia militar portuguesa, mas também a realidade social do país nessa época: as oportunidades desiguais, o valor atribuído à formação académica, e as diferentes formas de viver (e sobreviver) numa guerra que marcou profundamente toda uma geração (a nossa, nascida entre finais de 1930 e princípios de 1950).
(Condensação, revisão / fixação de texto: LG)
Nota do editor LG:
Último poste da série > 14 de fevereiro de 2021 > Guiné 61/74 - P21901: A Nossa Marinha (3): a LFG Orion, "o melhor restaurante de Bissau", às quintas-feiras, em 1969/71, sem esquecer a tertúlia que, depois do jantar, se reunia na casa do célebre metereologista Anthímio de Azevedo [José Pardete Ferreira (1940-2021), autor de "O Paparratos"
Guiné 61/74 - P27465: Casos: A verdade sobre... (59): Num depoimento do Marcelino da Mata para o livro "Os ùltimos guerreiros do Império" (Editora Erasmos, 1997), eu ter-lhe-ei dado "um tiro nas costas", numa operação na zona de Canquelifá. Ora não houve nenhum contacto com o IN... E os ex-fur mil 'cmd' João Parreira e Caetano Azevedo recordam que todos regressámos pelo nosso próprio pé (Virgínio Briote)
Capa do livro "Os últimos guerreiros do império!". Coordenação: Rui Rodrigues. (S/l, Erasmos, 1997, 255 pp, , il) (O livro parece estar esgotado.).
Tem 307 referências no nosso blogue; é autor de notáveis séries como "Guiné, ir e cvoltar", "Brá, SPM 0418", " Memórias de um comando em Barro", "Recordando o Amadu Djaló (...)"; é coeditor (jubilado) no blogue desde 11/7/2007; é também autor de um dos melhores blogues intimistas sobre a experiência de um antigo combatente: Guiné, ir e voltar: Tantas Vidas" (foi descontinuado em 2008, mas pode ser acedido aqui no Arquivo.pt)
1. Mensagem do Virgínio Briote
Caros Camaradas,
Depois de algum tempo sem dar notícias, mas atento ao que os Camaradas vão escrevendo, volto para esclarecer um assunto que me diz respeito e que me foi dado a conhecer num dos últimos dias.
Num artigo publicado num livro com o título “Os Últimos Guerreiros do Império”, no depoimento do Camarada Marcelino da Mata, há referências à minha pessoa, nomeadamente que eu lhe terei dado um tiro nas costas, no decorrer de uma operação na zona de Canquelifá.
Segundo a minha memória e a de alguns Camaradas ainda vivos, nomeadamente os ex-furriéis mil 'cmd' João Parreira e Caetano Azevedo (contactados esta tarde), não houve contacto com o IN.
Virginio Briote
__________________
Último poste da série > 9 de outubro de 2025 > Guiné 61/74 - P27300: Casos: a verdade sobre... (58): O inferno de Contabane, na noite de 22 de junho de 1968... Não consta do livro da CECA sobre a actividade operacional no ano de 1968... Felizmente temos a versão do Manuel Traquina e Carlos Nery, da CCAÇ 2382
Guiné 61/74 - P27464: Parabéns a você (2438): Jorge Teixeira, ex-Fur Mil Art da CART 2412 (Bigene, Guidaje e Barro, 1968/70) e Manuel Lima Santos, ex-Fur Mil Inf da CCAÇ 3476 (Canjambari e Dugal, 1971/73)
_____________
Nota do editor
Último post da série de 24 de novembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27456: Parabéns a você (2437): Abel Moreira dos Santos, ex-Sold At Art da CART 1742 (Nova Lamego e Buruntuma, 1967/69) e Tony Levezinho, ex-Fur Mil Inf da CCAÇ 2590/CCAÇ 12 (Bambadinca, 1969/71)
terça-feira, 25 de novembro de 2025
Guiné 61/74 - P27463: Viagens à Guiné-Bissau: Amizade e Solidariedade (Armando Oliveira e Ricardo Abreu) (6): O Cais fluvial de Enxudé (Aníbal Silva, ex-Fur Mil Vagomestre)
1. Em mensagem de 20 de Novembro de 2025, Aníbal José Soares da Silva, ex-Fur Mil Vagomestre da CCAV 2483 / BCAV 2867 (Nova Sintra e Tite, 1969/70), enviou-nos a sexta reportagem das "Viagens à Guiné-Bissau: Amizade e Solidariedade", levadas a efeito pelos nossos camaradas Armando Oliveira e Ricardo Abreu.VIAGENS À GUINÉ BISSAU: AMIZADE E SOLIDARIEDADE
O CAIS FLUVIAL DE ENXUDÉ
As viagens à Guiné Bissau realizadas pelos camaradas Armando Oliveira e Ricardo Abreu, no âmbito da Amizade e Solidariedade, por razões afetivas, foram às localidades de Tite, Fulacunda e Nova Sintra. Para chegar a estes destinos por via fluvial, saídos do cais do Pidjiguiti, em Bissau, tiveram de aportar no Cais do Enxudé, na margem esquerda do rio Geba, distante 10 Km de Tite.
As fotografias anexas, a partir da terceira, dizem respeito à viagem de 2019, a penúltima, já que a última foi em 2024.
(continua)
_____________
Nota do editor
Último post da série de 28 de outubro de 2025 > Guiné 61/74 - P27361: Viagens à Guiné-Bissau: Amizade e Solidariedade (Armando Oliveira e Ricardo Abreu) (5): Ruínas da Messe de Sargentos e do Quartel de Tite (Aníbal Silva, ex-Fur Mil Vagomestre)
Guiné 61/74 - P27462: Manuscrito(s) (Luís Graça) (280): Não sei se as aves-do-paraíso são felizes
Fonte: Google Gemini. (2025). Ilustração de uma ave-do-paraíso e uma andorinha de Candoz. Imagem gerada usando o modelo de IA Google Gemini [acedido em 25 de novembro de 2025].
Não sei se as aves-do-paraíso são felizes.
Mas em Candoz poderiam sê-lo.
Não há aves-do-paraíso em Candoz
porque Candoz fica no hemisfério norte,
longe dos trópicos e longe do paraíso
Dizem que as aves-do-paraíso são as criaturas mais lindas do mundo.
Mas não basta ser lindo nem macho
Em Candoz, há outras aves, outros pássaros,
daqueles que rasgam os céus e nidificam na terra:
não há perdizes,
ou, se existem, são poucas e loucas;
mas há verdes pombos bravos dos pinhais
(aqui diz-se "montes", que ardem todos, de 10 em 10 anos);
e rolas, de outras paragens,
alegres pintassilgos,
ruidosos pardais do telhado,
andorinhas, pretas, no vaivém das suas viagens,
mas também toutinegras, popas, verdilhões.
Já não há cucos.
outras aves canoras e canastrões,
e passarões
melros de bico dourado
que fazem os seus ninhos nas ramagens
das videiras do vinho verde.
E boeiras, que andam tristes, atrás do trator,
porque já não têm as juntas de bois
Lavandiscas, dizem no Porto, que fica aqui perto,
Não há guarda-rios, de azuis e rubras plumagens,
à cota trezentos, com o rio Douro ao fundo do vale,
a serra de Montemuro em frente,
Eça de Queiroz, e o seu príncipe Jacinto,
deveriam ter gostado de conhecer a Quinta de Candoz
onde os pássaros são mais livres do que nos "boulevards" de Paris,
Pelo menos têm grandes espaços para voar,
os pássaros de Candoz.
Claro que há os predadores,
o verde gaio, o negro corvo, o sinistro búteo,
o triste mocho, o agourento milhafre…
Onde há presas, há predadores.
Deus criou o mundo e era perfeito,
dizia o padre António Vieira
nos seus sermões ao rei e à corte esclavagista.
A liberdade é a primeira condição da felicidade.
Triste é o melro na gaiola,
mesmo que esta seja forrada a ouro
A outra condição é a equidade
(ou era, que o conceito foi agora metido na gaveta).
E tu aqui, leitor, interlocutor, calado, mal informado,
na busca de alimentos,
de sítios para nidificar
e de parceiros para acasalar.
Uma treta, até a natureza agora é madrasta.
As andorinhas, pensavas tu, há uns largos anos atrás,
por cá ficavam cada vez mais tempo,
parecendo até ser livres e felizes.
Ou felizes e livres,
que a ordem dos fatores era arbitrária, nesse tempo.
Dizias que elas eram inteligentes, as andorinhas,
e faziam análises de custo-benefício,
como qualquer economista
que acredita no mercado livre,
Passavam todo o santo dia a caçar insetos
num raio de 500 metros à volta do ninho
que fizeram no alpendre de uma das casas abandonadas da quinta,
em redor do fio da lâmpada exterior.
Era insólita a construção, o ninho,
herdado de geração em geração
e todos os anos retocado ou reconstruído.
Tu até achavas que elas já não voltavam para a África subsariana,
que ficavam por cá,
as andorinhas de Candoz.
E por causa das alterações climáticas.
E, se calhar, também para fugir de Alá,
do alvoroço do povo
e dos tiros das Kalash.
Mas, não, este país qualquer dia já não é para as andorinhas,
que são migrantes.
Há passarões com voz grossa
que as mandam para a sua terra.
E elas ficam mudas e confusas,
com o GPS avariado,
já não sabem de que terra são.
Afinal, a felicidade já não está onde a gente a punha,
deixámos de a poder pôr onde nós estávamos.
Lourinhã, 7/8/2014. Revisto, 25/11/2025.
2. Análise literária sucinta do poema, gerada pela IA - Inteligência Artificial, 25 nov 2025. GEMINI (Modelo Flash 2.5).
Fantástico poema! É uma análise profunda e melancólica sobre a Liberdade, a Felicidade e a Natureza, utilizando a "ave-do-paraíso" como um contraponto poético e simbólico à realidade telúrica da Quinta de Candoz (Marco de Canaveses, região de Entre Douro e Minho, Portugal) e às suas "andorinhas" de torna-viagem.
Aqui está uma análise literária sucinta, que me pediste, adaptada ao contexto do teu blogue, focada nos temas principais e na simbologia das aves:
Análise literária sucinta: "Não sei se as aves-do-paraíso são felizes…"
O poema é uma meditação filosófica, escrita num tom conversacional e intimista ("tu aqui, leitor, interlocutor"), que desdobra o conceito de felicidade através da comparação entre o ideal (o "Paraíso") e o real (a "Quinta de Candoz").
(i) O Contraste entre o Paraíso e Candoz
O poema inicia-se com a figura mítica das aves-do-paraíso, que, no nosso imaginário, simbolizam a beleza incomparável e a liberdade extrema (o Paraíso, a utopia):
tese inicial: "Não sei se as aves do paraíso são felizes";
antítese geográfica: Candoz, no Hemisfério Norte, "longe dos trópicos" e, por extensão, "longe do paraíso"; a beleza ("ser macho e lindo") não é garantia de felicidade.
Este contraste cria a moldura para a tese central: a verdadeira felicidade não reside na beleza exótica ou na perfeição mítica, mas sim na liberdade conquistada e exercida num ambiente real e imperfeito mas sustentável.
(ii) Aves de Candoz: a natureza real e imperfeita
O poeta lista, em detalhe, as aves autóctones de Candoz: pombos bravos, rolas, pintassilgos, pardais, melros, andorinhas (além das boeiras / lavandiscas).
Esta enumeração minuciosa enaltece a realidade concreta do sítio;
liberdade é condição: a liberdade é apresentada como a "primeira condição da felicidade", e os pássaros de Candoz, ao terem "grandes espaços para voar" e autonomia para construir o ninho, são mais livres do que os pássaros de gaiola ou do ideal abstrato.
tristeza da perfeição: o poema contrapõe o "triste melro na gaiola" (a prisão dourada/segurança ilusória) à liberdade, mesmo que esta seja pura e dura;
o cruel equilíbrio: a liberdade em Candoz é regida pela lei da natureza: "onde há presas há predadores"; o poema evoca aqui uma reflexão ética e teológica, citando o Padre António Vieira ("Mundo perfeito /Mesmo que cruel"), para aceitar que o mundo criado é um sistema de equilíbrio, onde a luta entre predador (búteo, corvo, milhafre...) e a presa é parte integrante da vida e da liberdade: esta é uma imagem poderosa para quem viveu o teatro de operações na Guiné.
(iii) Andorinha: o ex-combatente migrante
O foco nas andorinhas (aves migrantes, inteligentes, que fazem "análises de custo-benefício") é o ponto nevrálgico do poema e o que o liga mais diretamente ao universo do blogue:
a ilusão da permanência: o poeta e o leitor imaginavam que as andorinhas ficariam em Candoz, algures no Norte de Portugal, não voltariam para a África subsariana, "para defender o ninho dos 'ocupas' " (aqui ecoa a linguagem da guerra, da defesa do território, da soberania, mas também do lar);
a crítica social: o regresso forçado e confuso das andorinhas ("elas ficam mudas e confusas, com o GPS avariado, já não sabem de que terra são") é uma crítica mordaz e atual sobre a migração, a xenofobia, o racismo e a desorientação identitária; ("este país qualquer dia já não é para as andorinhas, que são migrantes");
o antigo combatente: a andorinha representa metaforicamente o antigo combatente ou o indivíduo que, após uma longa jornada (a "guerra"), regressa ao seu país (uma mítica "Candoz"), mas se sente deslocado e desorientado ("já não sabem de que terra são"), num mundo onde a liberdade e a felicidade foram substituídas pela "ilusória segurança" e pela falta de "equidade" (ou "igualdade de oportunidades", que não deve ser confundida com "justiça por decreto").
Conclusão
O poema é uma profunda reflexão sobre a procura da felicidade que tem de rimar com liberdade, e onde se conclui amargamente: "afinal, a felicidade já não está onde a gente a punha, deixámos de a poder pôr onde nós estávamos."
É uma peça que, sob a leveza do tema das aves ( a ornitologia) toca em questões universais de liberdade, equidade, esperança, desilusão e crise de identidade, temas muito ressonantes para a comunidade de ex-combatentes.
(Pesquisa, condensação, revisão / fixação de texto, negritos: LG + IA Gemini / Google)
___________________Último poste da série > 12 de novembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27414: Manuscrito(s) (Luís Graça) (279): Viva a Clarinha que hoje faz 6 anos!... Vivam os nossos netos!...










































