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quarta-feira, 15 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28185: Historiografia da presença portuguesa em África (535): A Guiné vista por estrangeiros - I: A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard (3): Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 28 de Janeiro de 2026:

Queridos amigos,
Encontro aspetos surpreendentes nesta viagem do chefe da missão francesa à primeira demarcação das fronteiras da recém-criada província da Guiné. Considero esta narrativa da melhor utilidade e sugiro a sua comparação com a do Tenente da Armada Real Costa Oliveira, chefe da missão portuguesa, já aqui publicada. Brosselard saiu de Bolama, que descreveu com detalhe, promete encontrar-se com Costa Oliveira em Kandiafara, no dia 12 de fevereiro, entretanto encontra-se com o rei dos Nalus, uma narrativa espantosa, e irá dar-nos seguidamente um retrato da visita que faz ao rio Nuno, dizendo erradamente que foi descoberto por Nuno Tristão em 1447 (Nuno Tristão foi assassinado no rio Gâmbia, norte da Grande Senegâmbia, nunca chegou a terras da Guiné e por conseguinte não podia ter chegado ao rio Nuno).

Um abraço do
Mário



A Guiné vista por estrangeiros - 1:
A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard (3)
Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette


Mário Beja Santos

A narrativa do Capitão Henri Brosselard é relevante na medida em que exprime o ponto de vista do chefe da missão francesa à primeira demarcação das fronteiras da recém-criada Guiné portuguesa, uma narrativa que deve ser aferida com a do Tenente da Armada-Real Costa Oliveira, chefe da missão portuguesa, esta aqui já publicada no blogue e que irá reaparecer no meu livro Guiné Bilhete de Identidade Tomo II.

Henri Brosselard descreveu Bolama, onde se veio a encontrar com Costa Oliveira, procurou organizar os aprovisionamentos para a expedição, irão ser expedidos para Bissau, combinou com Costa Oliveira encontro em Kandiafara em 12 de fevereiro, por se supor estar situada na vizinhança da linha fronteiriça. É aqui que recomeço o texto de Brosselard.

Entretanto o Aviso Dakar veio fundear diante de Bolama, em 4 de fevereiro. A comissão francesa tomou mediatamente as suas posições para o embarque de pessoal e bagagens. No dia seguinte partimos para o rio Nuno.

Depois dos trâmites alfandegários, o Dakar passou o entreposto de Bel-Air e acabou por fundear no entreposto de Samiah. Desembarcámos e instalámo-nos na feitoria que pertence à Casa Blanchard, fomos amavelmente recebidos nesta propriedade fortificada.

Informado da nossa chega ao rio Nuno, o rei dos Nalus veio fazer-nos uma visita em Samiah. No dia seguinte, acompanhado dos meus oficiais, visitei o rei Dinah na sua residência. O palácio real é uma residência notável, situa-se à beira do rio, a povoação terá 600 habitantes. Desembarcámos sem dificuldade, havia maré-alta. O rei sabia fazer as honras da hospitalidade, revelava uma compostura europeia.

Atravessámos três filas de paliçadas e postigos de vigia bem defendidos, caminhámos à direita e à esquerda por muros altos que envolvem as casas das pessoas importantes do círculo real e penetrámos no reduto onde se encontram as cinco habitações reais, quatro das quais tinham a forma aproximada de casas europeias, as paredes são em adobe e a cobertura em palha, muito espessa; uma casa maior tinha forma circular, era o salão de receção, contiguo estava o quarto onde o rei dorme e toma as suas refeições. Ficámos na varanda onde os músicos manejavam os balafons e cantavam em homenagem aos hospedes do rei.

Após um compasso de espera, passámos ao salão, tinha uma mesa e cadeiras, um certo conforto europeu, e uma limpeza admirável, serviam cerveja e limonada como refresco. O quarto do rei Dinah, contiguo ao salão de receção, estava mobilado com um conforto que nos surpreendeu. Amplo, coberto com um teto, as paredes forradas com esteiras, uma grande cama no meio, coberta com mosquiteiro, aqui e ali cadeiras estofadas; nas paredes, havia gravuras francesas e inglesas, espelhos deslumbrantes e garridos, um relógio de cuco e a dar horas! No toucador, todo o necessário em porcelana e cristal; ali perto um cofre-forte contendo o tesouro e os arquivos do reino; é ali que está preciosamente guardado o Tratado passado em nome da França com o predecessor de Dinah. Uma outra habitação está reservada a morada das mulheres. Dinah apresentou-as com orgulho, se bem que elas sejam pouco prendadas pela beleza.

No pátio desta casa os escravos pilam o milho miúdo. Inútil dizer que estes escravos são mulheres, porque em África um indígena sentir-se-ia desonrado se fosse condenado a este género de trabalho. A quarta casa continha os abastecimentos de arroz e milho, bem como o local reservado aos estábulos. Dinah tem um cavalo, aliás possante e raro, e quase desconhecido nesta costa de África. Enfim, a quinta casa composta pela sala da Justiça e as prisões. Atravessando o pátio, o rei mostra-nos os poços onde o seu pessoal se abastece de água; vemos seguidamente a cisterna. É Dinah quem guarda a chave do cadeado da cisterna para se precatar de qualquer tentativa de envenenamento.

Na sua imaginação bárbara, Youra, o predecessor de Dinah, tinha inventado suplícios que inspiravam terror a todo o povo. Um desses suplícios, que ainda se praticava há pouco tempo, consistia em prender o supliciado no momento da maré-baixa a um porte no rio; quando subiam as águas, o infeliz via pouco a pouco a água chegar à boca que ele se esforçava por fechar, o nível da água, entretanto subia, invadia as narinas provocando uma asfixia lenta.

Dinah Salifou tinha sucedido ao seu tio Youra, conforme o costume que rege os direitos da sucessão. O filho mais velho de um irmão de Youra, um certo Tocha, primo direto de Dinah procura contrabalançar o prestígio do rei e ganhou adeptos que parecem ser em grande número entre os chefes Nalus. A influência moral de Tocha supõe-se ser mais forte que a do primo e Dinah, sem o apoio que lhe dá França, estaria provavelmente há muito tempo destronado. Os dois primos detestam-se, admite-se que pode haver atentados de um contra o outro (e o Capitão Brosselard conta duas histórias de tentativas dos primos em matarem-se).

Voltando ao relato na primeira pessoa, o Capitão Brosselard, que tinha curiosidade em ver frente-a-frente os dois, convidou-os a almoçar no mesmo dia em Samiah. No dia aprazado, perto das dez horas os cânticos barulhentos dos músicos que marcam a cadência aos remadores anunciaram a chegada da embarcação real, no mastro flutuavam as cores francesas. Dinah veste com aparato, traz uma espécie de estola de veludo coberta de bordados a fio de ouro; avança com passadas comedidas, com a gravidade que convém a um grande rei. Tocha chega por sua vez; o seu primo apresenta-o e expõe os laços de parentesco existentes.

Na sala de jantar cada um toma o lugar à mesa. Dinah senta-se no lugar de honra, à sua frente senta-se o Tenente Clerc, com o qual Dinah conversa em inglês. O rei tem boa figura, tem o aspeto de um europeu bem-educado, maneja com facilidade a faca e o garfo. Tocha é mais hesitante, antes de levar a comida à boca observa os seus vizinhos para os imitar. Na conversação, Dinah, por cortesia com o chefe da missão, recorda factos agradáveis sobre o General Faidherbe quando ele foi Governador do Senegal; são lhe dadas notícias do general, o rei mostra satisfação em voltar a vê-lo se puder visitar a exposição em 1889.

Durante este período em que a minha coluna está imobilizada em Samiah para recrutar carregadores, tive o prazer de percorrer o rio Nuno e de recolher informações sobre a situação presente e o passado deste rio.

É com esta descrição que iniciaremos o texto seguinte.


Praia de Bolama: Porto Beaver, desenho de Th. Weber, segundo uma fotografia
Territórios franceses da Senegâmbia e do Sudão, com destaque para a Guiné Portuguesa
Capitão Henri Brosselard, gravura de Thiriat, segundo uma fotografia
Carregadores e guias, desenho de E. Ronjat, segundo uma fotografia
Ataque de abelhas, desenho de Th. Weber, segundo uma fotografia
O rio Grande do Geba, desenho de P. Langlois, segundo uma fotografia
Interior do estabelecimento comercial Maurel e Prom em Bolama, desenho de Taylor, segundo uma fotografia
Carta do território francês do Casamansa e distrito do Cacheu, feita pelo Capitão Henri Brosselard, dá perfeitamente para ver a região do Casamansa que detinha presença portuguesa, com sede em Ziguinchor, e que nos foi surripiada pela Convenção Luso-Francesa de 12 de maio de 1886. A República do Senegal vive em permanência a rebelião do Casamansa, por razões fortemente étnicas, os povos do Casamansa, Djolas, não querem pertencer ao Senegal.
Uma das muitas imagens da Exposição Universal de Paris de 1889, referida na conversa entre o rei dos Nalus e o Capitão Henri Brosselard

(continua)
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Nota do editor

Último post da série de 8 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28164: Historiografia da presença portuguesa em África (534): A Guiné vista por estrangeiros - I: A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard (2): Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette (Mário Beja Santos)

Guiné 61/74 - P28184: Bom dia desde Bissau (Patrício Ribeiro) (70): A "Mona Lisa" de Ancamona, Bubaque, Bijagós

 




Foto nº 1 , 1A, 1B






Foto nº 2, 2A e 2B






Foto nº 3, 3A, 3B


Guiné-Bissau > Arquipélago dos Bijagós > Ilha de Bubaque > Tabanca de Ancamona > Sábado, 11 de julho de 2026 > c. 14:43 > A responsável da associação local


Fotos (e legendas): © Patrício Ribeiro (2026). Todos os direitos reservados, [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné ]



1. Fotos enviadas pelo Patrício Ribeiro, que chegou a Bubaque, no dia 10, por volta das 13:55. Apanhou muita chuva. Devido à lentidão da Net, manda-nos sempre uma foto de cada vez.


Data - 12/7/2026, c. 19:34

Assunto - Tabanca de Ancamona


Luís: Na casa onde me recolhi da chuva. A responsável da associação local. Foto que merece uma pintura. Um Picasso. Escolhe a que entenderes

Mantenhas
Patrício RibeiroImpar Lda


2. Comentário do editor LG:


Bendito dia de chuva, Patrício. 
Bendita chuva.
Há momentos felizes para um fotógrafo, 
ambulante, errante, vagabundo, como tu. 
As três fotos da "Madona" de Ancamona são de antologia. 
Podiam ser um Picasso, um Vermeer, um Da Vinci. 
É, doravante, a tua "Mona Lisa" de Ancamona. 
Tira uma cópia em papel, 
e para a próxima vez entrega-lhe, à senhora. 
É um pedido meu. 
É uma mulher bijagó de uma beleza serena mas enignática. 
Uma matriarca, uma  mulher de fibra, quiçá, descendente te de rainha. 
A beleza humana tem mistérios 
que não se decifram logo a um primeiro olhar... 
Não sei o que mais admirar:
se o seu rosto,
os seus olhos, 
os seus lábios, 
a sua pose, 
as suas mãos cruzadas sobre o ventre,
o seu peito liso, 
os seus braços possantes, 
a sua saia tradicional, 
a sua t-shirt molhada, colada ao corpo, 
a sua postura serena de camponesa face à chuva 
que cai com força no tempo dela... 
e que a obriga a ficar em casa...  

Mil e uma legendas se podiam acrescentar. 
Mas há fotos que valem por mil palavras.
Confesso que fiquei literalmente fascinado, 
ao ponto de há duas horas, desde as cinco e meia, 
que estou aqui a editar as tuas fotos para este poste... 
É a tua (e a minha, a nossa) homenagem às mulheres bijagós, guineenses. 
(Nunca fui aos Bijagós,
 tens de tirar mais fotos por mim 
e por aqueles de nós que nunca foram a Bubaque.)

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terça-feira, 14 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28183: Tabanca Grande (583): Eduardo Manuel Vieira de Brito de Azevedo, ex-Alf Mil Inf do GA 7, 1973/74, grão-tabanqueiro n.º 917

1. Mensagem enviada ao editor Luís Graça em 25 de Junho de 2026, pelo camarada e novo amigo da Tabanca Grande, Eduardo Manuel Vieira de Brito Azevedo, ex-Alf Mil Inf, que fez a sua comissão de serviço no GA 7 entre Dezembro de 1973 e Setembro de 1974:

Caro camarada Luís Graça,
Na sequência da troca de mensagens sobre o assunto com o meu ex-cunhado Luís Vaz, e agradecendo desde já a disponibilidade que me concedes para integrar o Blogue que criaste e diriges, seguem abaixo e em anexo os elementos solicitados.

Desde já, o meu muito obrigado e uma saudação muito especial aos camaradas da Tabanca.
Eduardo


Alf Mil Inf Eduardo Manuel Vieira de Brito de Azevedo

Nota biográfica:

- Eduardo Manuel Vieira de Brito de Azevedo;
- Alf. Mil. de Inf. (Nº Mecº. 05074273);
- Nascido a 15 de junho de 1952 em Angra do Heroísmo, onde reside;
- Cumpriu serviço militar no GA7, Guiné-Bissau, de dezembro de 1973 a setembro de 1974;
- É doutorado em Ciências Atmosféricas e Prof. Jubilado da Univ. dos Açores;
- É Project Manager e investigador na “Eastern North Atlantic (ENA) Atmospheric Observatory”, uma infraestrutura científica financiada pelo DOE dos EUA e operada pelo Los Álamos National Laboratory;
- É membro da Academia de Marinha, Director do Observatório do Ambiente dos Açores e Comendador da Ordem da Instrução Pública.

Foto actual do nosso amigo Eduardo Manuel Vieira de Brito de Azevedo

2. Comentário do editor CV:

Caro Eduardo Azevedo,
Em nome do editor Luís Graça, demais colaboradores permanentes e tertúlia em geral, estou a receber-te e a dar-te as boas-vindas à tertúlia. Vais ocupar o simbólico lugar 917 da nossa tertúlia, equivalente ao número de camaradas (mortos e vivos) constantes nas nossa listagem.

A maioria da tertúlia deste blogue é composta por antigos combatentes da Guiné, militares do Quadro Permanente, amigos da Guiné-Bissau e combatentes de outros TOs, como foi o caso do Carlos Cordeiro, Furriel Miliciano em Angola nos anos de 1969/70/71, infelizmente já falecido, também ele professor na Universidade dos Açores.

Como tinha uma filha residente na cidade do Porto, vinha aqui muitas vezes pelo que acabei por conhecê-lo pessoalmente. Sempre que era possível combinávamos um encontro. Nas comemorações do Dia 10 de Junho, comemorado aqui em 2017, quis desfilar a meu lado. Sendo irmão do malogrado Capitão Paraquedista João Costa Cordeiro, falecido num estúpido acidente durante um salto de treino na Guiné, quis fazer parte da nossa tertúlia onde tem participação activa. Infelizmente uma doença grave levou-o prematuramente.

É da praxe pedirmos aos novos elementos da tertúlia a sua colaboração para a feitura da nossa memória colectiva, aquela que queremos escrita na primeira pessoa, nós próprios.

A tua permanência na Guiné coincidiu com o fim do império e a entrega das então províncias ultramarinas aos respectivos povos, pelo que nós, os mais velhos, temos uma particular curiosidade em saber como cada um de vós viveu esse período. Aceitamos memórias escritas e fotografadas. Contamos contigo.

Pessoalmente tenho uma admiração particular pelos compatriotas insulares, nem melhores nem piores, mas diferentes, porque o mar nunca foi um obstáculo para poderem alcançar uma vida melhor, em qualquer ponto de Portugal ou na diáspora. Tenho contacto permanente com o camarada José da Câmara, um compatriota das Flores emigrado nos Estados Unidos. Também o conheço pessoalmente apesar da distância que nos separa. Fez de mim seu mano e da sua família nossa família adoptiva.

Fui para a Guiné integrado numa companhia madeirense, a CART 2732, e curiosamente fomos substituídos em Mansabá por uma companhia açoriana, a CCAÇ 2753. O Estado português proporcionou-me umas férias pagas, com tudo incluído, na Madeira, antes da ida para a Guiné. Posso dizer que estou grato à vida por me ter proporcionado bons amigos medeirenses e açorianos, que apesar de longe estão tão perto de mim.

Despeço-me, deixando-te um abraço e os votos de saúde.
O camarada e novo amigo
Carlos Vinhal

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Nota do editor

Último post da série de 14 de junho de 2026 > Guiné 61/74 - P28097: Tabanca Grande (582): Isaías Teles, superintendente da PSP, na situação da reforma, grão-tabanqueiro nº 915: uma viagem em 2018 para ir "partir mantenhas" com o régulo e as gentes do Saltinho

Guiné 61/74 - P28182: Notas de leitura (1939): Prefácio de António Vilar ao livro "3x44: Abel e Caim em Contrapé", de António Carvalho (Porto: eVida, 2026, 287 pp.)




O lançamento do livro do António Carvalho, em Medas, Gondomar, foi uma das primeias atividades da recém-criada Fundação Hermínia Vilar Ribeiro (FHVR).


1. O António Vilar, presidente do conselho de administração da Fundação HVR, fez questão de escrever e assinar o prefácio da obra. Eis o texto que nos chegou, por mão do nosso camarada António Carvalho:

Apresentação

Só duas palavras…

ou três, talvez, no sentido de, além de agradecer o honroso convite do Autor deste livro, o Sr. António Carvalho, amigo e vizinho de há décadas, para prefaciar este seu livro dizer também, o quão valioso é este seu novo escrito para divulgar o passado recente desta terra, Medas (Gondomar), debruçada sobre o majestoso rio Douro, a cerca de 20 kms do Porto, mas tão esquecida nas suas generosas gentes e no seu contributo sacrificado para o bem-estar de outros (as minas , a carqueja…).

António Carvalho é alguém do povo, de vida simples, mas com um coração voltado profundamente para a sua terra, os seus costumes, dramas e as histórias que a marcaram no passado recente, com o que vai contribuindo para a pôr no mapa de uma região e de um país que, tantas vezes, começa e acaba na Capital, nas capitais deste mundo onde o Poder e o dinheiro são os deuses de serviço. Medas também é Portugal e não tem medo de existir. 

Obrigado, António Carvalho, por nos legar as memórias desta terra e dos seus cidadãos e sobre como eles caminharam entre as maiores dificuldades sociais e societais e…a Esperança, num tempo que é, hoje, não de transição, mas de rutura, mas em que não podemos deixar de lutar por um Mundo melhor.

O livro que singelamente ora prefacio, nasceu, creio bem, de uma curiosidade inabalável do seu Autor, da sua vontade indomável de serviço aos outros e, inequivocamente, da sua necessidade de deixar escrita a voz dos seus antepassados (e contemporâneos), nas suas aspirações e desventuras, para que o tempo não se cale para sempre.

O tema do livro, que também bebe da rica imaginação do Autor, não é apenas o passado, antes, se entrelaça com o presente (e o futuro?) no que revela da natureza humana. “O que é já foi e o que há-de ser também já foi” (Ecclesiastes. 3:15).

Na aparente simplicidade (culta) da narrativa, encontramos a Vida a pulsar, feita de alegrias e de tristezas, de entrelinhas , de silêncios, de partidas e de regressos infindos. Com a devida vénia direi que, às vezes, me veio à ideia, o grande Camilo Castelo Branco, enquanto parava, na leitura, de algumas passagens da escrita de António Carvalho. Terei razão?

Não sei, mas os conflitos humanos, os dilemas morais, as emoções e paixões do quotidiano humano não são muito diferentes. É a Vida.

Com este seu novo livro, António Carvalho deixa uma herança que há-de preservar Medas na história do país profundo, a qual há-de continuar a falar quando o tempo já não se lembrar de nós. (**)

António Vilar, Julho 2026

(Revisão / fixação de texto, negritos: LG)

2. Comentário do editor LG:

António Vilar é uma figura de referência da advocacia portuguesa e europeia. Nasceu no Porto em 1952. Exerce a profissão em regime liberal desde 1978 com escritório no Porto. Formou-se na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra. É igualmente uma figura de referência na social-democracia portuguesa, com intervenção pública e intelectual marcante. Discreto, mas frontal,  tem, também, um notável percurso académico e obra publicada.

Instituiu recentemente a Fundação Hermínia Vilar Ribeiro com sede na Quinta do Carreiro, Estivada, Medas, Gondomar,  com o o objetivo de promover a solidariedade social, com especial atenção para: (i) longevidade e envelhecimento ativo; (ii) diálogo intergeracional; (iii) atividades culturais e de lazer que entrelaçam memórias, costumes e contemporaneidade

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Nota do editor LG:

(*) Poste anterior da série > 13 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28180: Notas de leitura (1938): "Furriel não é Nome de Pai, Os filhos que os militares portugueses deixaram na Guerra Colonial", de Catarina Gomes; Tinta da China, 2016 (4) (Mário Beja Santos)

(**) Vd. postes anteriores: 
 

12 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28176: Notas de leitura (1936): "3x44: Abel e Caim em Contrapé", de António Carvalho (Porto: eVida, 2026, 287 pp.): dois continentes, dois destinos (Luís Graça)

Guiné 61/74 - P28181: Ser solidário (298): Nô Sidadi, Nô Futuru: sistemas fotovoltaicos instalados nos furos de Bala e de Doubala, trazem a milagrosa água ao Gabú: notícias da Impar Lda e do IMVF - Instituto Marquês de Valle Flôr


Foto nº 1 > Obras de instalação de sistemas de energia solar no furo de Doubala na cidade de Gabú, a cargo da Impar Lda  (Parece-nos descortinar uma trabalhadora, guineense, em segundo lugar, a contar da esquerda para a direita.)


Foto nº 2 > A equipa (incluindo o pessoal da Impar Lda) envolvido nas obras de instalação de sistemas de energia solar no furo de Doubala na cidade de Gabú. Todos usam vestuário de trabalho (menos as botas de biqueira de aço...). Só o "patrão" (o segundo a contar da esquerda) não usa capacete protetor...


Foto nº 3 > Grupo técnico (o Patrício Ribeiro é o primeiro da direita) junto ao novo sistema fotovoltaico no furo de Bada


Foto nº 4 > O Patrício Ribeiro, em segundo plano, em reunião de trabalho com a sua equipa  


Foto nº 5 > O principal depósito de água da cidade



Foto nº  5 > A alegria dos "djubis", refrescando-se com a água que cai do depósito

Guiné- Bissau > Região  de Gabu > Gabu > c. Junho / julho de 2026


1. Excertos (texto e fotos), reproduzidos com a devida vénia, da página da fundação para o desenvolvimento e cooperação,  portuguesa, o IMVF - Instituto Marquês  de Valle Flor.

 Desta vez foi possível apanhar o nosso amigo e camarada Patrício Ribeiro em ação, ele que é habitualmente discreto (para não dizer avesso a mostrar-se), nunca de resto nos falando diretamente das obras a cargo da sua empresa, a Impar Lda, de que foi fundador e diretor técnico. À beira de fazer 80 anos, praticamente quase todos passados em África (Angola e Guiné-Bissau), é ele um exemplo extraordinário de vida ativa, proativa e saudável. Que os bons irãs o protejam.


Quanto ao  IMVF - Instituto Marquês  de Valle Flor, é de referir a sua origem e o seu currículo na área da cooperação e desenvolvimento:


(i) foi fundado em 1951 como instituição privada de utilidade pública, por Maria do Carmo Dias Constantino Ferreira Pinto, Marquesa de Valle Flôr (1872-1952), para perpetuar a memória do marido e do filho (1.º e 2.º Marqueses de Valle Flôr);

(ii) a fortuna da família foi construída em São Tomé e Príncipe , onde José Luís Constantino Dias (1.º Marquês) se tornou um grande empresário de cacau (nasceu em Murça, 1855 e morreu em Bad Nauheim, Alemanha, em 1932): foi nobilitado pelo rei Dom Carlos I; visconde (1890), conde e  marquês (1907);

(iii) o objetivo inicial era apoiar e promover a investigação científica e o desenvolvimento, com foco em doenças tropicais e assistência social em São Tomé e Príncipe;

(iv) a transição para ONGD ocorreu em 1988, com o início formal da sua atividade em São Tomé e Príncipe;

(v)  expandiu-se nos anos 90 para outros países de língua portuguesa (Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Timor-Leste) e, mais recentemente, para África e América Latina;

(vi) atua em 10 áreas-chave (saúde, educação, água e saneamento, desenvolvimento rural, segurança alimentar, agricultura, igualdade de género, ecoturismo, comércio justo, etc.);

(vii) já implementou mais de 160 projetos em 10 países desde 1988, com destaque para a CPLP (Comunidade dos Países de Língua Portuguesa)

(viii) o projeto "Nô Sidadi, Nô futuro"  (a nossa cidade, o nosso futuro) insere-se no âmbito da "Requalificação de Infraestruturas Sociais nas Cidades de Bafatá e Gabú": (...) partindo de um contexto governamental, administrativo e estrutural frágil, a Guiné-Bissau enfrenta diversos desafios de desenvolvimento, particularmente no que se refere às infraestruturas e serviços básicos 'inadequados, insuficientes ou inexistentes' "; este projeto, financiado pelo Fundo para a Estabilização e o Desenvolvimento Regional nas Regiões Frágeis da CEDEAO (FRSD), "vem dar resposta a problemas específicos da Guiné-Bissau: o acesso limitado a água potável, a degradação das infraestruturas dos Hospitais Regionais de Bafatá e Gabú e e as dificuldades na governação local das regiões".



26 Jun 2026


Depois de mais de dois meses sem abastecimento de água, milhares de habitantes da cidade de Gabú voltaram a ter acesso a este serviço essencial. A retoma do fornecimento foi possível graças à entrada em funcionamento do novo sistema fotovoltaico instalado no furo de Bada, no âmbito do projeto Nô Sidadi, Nô Futuru.

Com a instalação de um sistema de energia solar, o abastecimento de água passou a ser assegurado através de uma solução mais sustentável, eficiente e resiliente, eliminando a dependência de combustível e reduzindo significativamente o risco de interrupção da água.

Com capacidade para bombear cerca de 13 metros cúbicos de água por hora utilizando exclusivamente energia solar, a nova infraestrutura alimenta o principal reservatório da cidade, contribuindo para uma maior regularidade no abastecimento e para a redução dos custos operacionais do sistema.

Antes da entrada em funcionamento, a coordenação do projeto validou a conformidade técnica da instalação e autorizou o início da operação. Este momento assinalou a conclusão de uma intervenção considerada determinante para reforçar o acesso à água numa das principais cidades do leste da Guiné-Bissau.

O regresso da água foi celebrado pela comunidade num momento carregado de simbolismo. Numa cerimónia realizada junto às infraestruturas do sistema, procedeu-se assim à abertura solene da válvula de água, assinalando o restabelecimento do abastecimento à população.

Paralelamente, mantém-se os trabalhos de instalação de um segundo sistema fotovoltaico no furo de Doubala, que permitirá reforçar a capacidade de produção e distribuição de água para a cidade.

No âmbito do Plano de Envolvimento das Partes Interessadas (PEPI), foram organizadas visitas comunitárias às duas infraestruturas, envolvendo representantes das comunidades locais, autoridades regionais, instituições dos setores da água e energia, organizações da sociedade civil e outros atores relevantes.

Estas visitas permitiram aos participantes:

  • conhecer de perto os investimentos realizados, 
  • compreender o funcionamento dos sistemas solares instalados
  •  e acompanhar a evolução das obras. 

As equipas técnicas apresentaram as diferentes componentes das infraestruturas, explicaram os benefícios esperados para o abastecimento de água e responderam às questões colocadas.

As visitas incluíram ainda momentos de diálogo e partilha, durante os quais foram recolhidas preocupações, sugestões e expectativas das comunidades relativamente aos investimentos em curso. Esta abordagem participativa procura reforçar o envolvimento das populações e promover a apropriação local das infraestruturas, contribuindo para a sua sustentabilidade a longo prazo.

As intervenções integram-se no projeto Nô Sidadi, Nô Futuru, financiado pela CEDEAO (Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental), através do BMZ (Bundesministerium für wirtschaftliche Zusammenarbeit und Entwicklung) e do KfW Development Bank, e implementado pelo IMVF, com assistência técnica do GFA Consulting Group.

 (Seleção, revisão / fixação de texto, negritos, título: LG)

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Nota do editor LG:

Último poste da série > 9 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28167: Ser solidário (297): Bilhete-postal que vai dando notícias sobre a "viagem" da campanha de recolha de fundos para construir uma escola na aldeia de Sincha Alfa - Guiné-Bissau (22): Modelo educatico tradicional (Renato Brito)

segunda-feira, 13 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28180: Notas de leitura (1938): "Furriel não é Nome de Pai, Os filhos que os militares portugueses deixaram na Guerra Colonial", de Catarina Gomes; Tinta da China, 2016 (4) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 16 de Fevereiro de 2026:

Queridos amigos,
Catarina Gomes escreveu um livro de referência. Já nos chamara a atenção com outra obra Pai, Tiveste Medo? - sobre a forma como a experiência da Guerra Colonial chegou à geração de portugueses filhos de ex-combatentes. A primeira edição desta obra está associada a uma série documental Filhos de Tuga (RTP 1). Tudo começou em 2013 quando, em termos jornalísticos, ela partiu para a Guiné-Bissau para contar esta história no jornal Público, os filhos deixados para trás. Foi procurada por muitíssima gente. O testemunho de Fernando Hedgar da Silva, a associação que ele criou destes filhos de tuga estimularam a continuar a sua investigação, percorreu os três países onde houvera guerra, e aqui temos a história do movimento da Guiné, obra deste Fernando, a espantosa história de Óscar de Albuquerque e a sua tia Filomena, a mana Emília, a incansável Rosa Monteiro que tinha imensas saudades do pai sem nunca o ter conhecido. Sim, obra de referência, vale a pena confiar em futuras investigações sobre estas crianças que ficaram em África, filhas de pais desconhecidos.

Um abraço do
Mário



Filhos do inimigo, restos dos portugueses, seres humanos à procura de identidade – 4

Mário Beja Santos

A 1.ª edição de "Furriel não é Nome de Pai, os filhos que os militares portugueses deixaram na Guerra Colonial", de Catarina Gomes, data de 2016, a escritora e investigadora foi-se afeiçoando a este tema e esta terceira edição, já publicada em 2026, está substancialmente aumentada, mantém um vigoroso discurso narrativo, muitas vezes pungente, é uma tocante viagem à dignidade humana naqueles territórios onde houve Guerra Colonial e apareceram meninos e meninas tantas vezes repudiados, sujeitos às mais ignóbeis humilhações e que não desistem de lutar pelo direito à identidade.

Não sei se o leitor se recorda que suspendemos esta viagem contando a história de Celestina e o seu irmão gémeo Celestino, filhos de um major reformado que andou por Bambadinca, que até contou à mulher que aqui teve um “deslize”, os gémeos entraram em contacto com a mana branca, de nome Emília, esta vai dando conta das suas diligências em auxiliar os manos guineenses à mãe, Sara Martins Prado. Este nosso major fez várias comissões acompanhado pela mulher e as filhas, mas na comissão na Guiné-Bissau esteve sozinho, e a autora aproveita a circunstância para falar destes militares que tinham encontros com as lavadeiras ou combinavam com outras mulheres idas à tabanca.

Dentro do quartel era tudo difícil para as praças, dormiam em casernas lotadas de homens, os furriéis acomodavam-se em quartos de quatro homens, só de capitão para cima é que tinham quarto privativo. O pai de Emília fora um desses privilegiados. O nosso major reformado, confrontado por Emília, encolheu os ombros. “O pai aceitou falar com o dito Celestino ao telefone, mas percebeu pouco ou nada do que lhe dizia o homem guineense que afirmava ser seu filho. O pai está muito surdo, mesmo com aparelho, passou o telefone à Emília. Mas o filho distante agarrou-se àquele número de telemóvel que agora o aproximava do pai, e passou a ligar com uma insistência que, em vez de os aproximar, os afastou.”

Será Emília quem se encarregará de ir ajudando os irmãos, enviando dinheiro ou roupas. A conclusão é de que aquele pai via a relação da filha com os gémeos de lá, mas não queria falar de afetos ou reconciliação, no fundo uma história com um final como muitas outras.

Catarina Gomes dedica um capítulo aos chamados pais procuráveis, isto é, tomando como verdadeiras as histórias dos filhos, ela procurava os pais putativos para dizer que aqueles filhos existiam, e tentaria apurar se estes pais desejavam saber deles. A primeira dificuldade a superar era localizar os pais com as informações dos filhos, as pesquisas nem sempre são frutíferas, para a investigadora os resultados são mais amargos que agridoces. É neste contexto que ela pega num caso que obteve um grande tantã mediático, a viagem de António Bento que viveu uma relação amorosa com Esperança em Luvuei, leste de Angola, quarenta anos depois viajou para se encontrar com o filho, é um relato emocionante até chegar ao encontro com o seu filho Jorge Paulo Bento, conhecido entre familiares e amigos como o Pula ou o Branco; em Luena, o filho é membro da polícia de intervenção rápida, António Bento fala com os superiores dos filhos, conhece a nora e os netos e depois chega o filho, ele fora mandado de avioneta militar de Luanda para vir conhecer aquele pai, ressuma uma ternura neste encontro, nos abraços e nas lágrimas.

“António veio dizer-lhe a sua data de nascimento, 15 de janeiro de 1975, veio dizer-lhe que nasceu na enfermaria do quartel português e não em casa. Jorge gostou muito de ouvir do pai que o pai gostou da mãe, no livro que António escreveu propositadamente para o filho vem escrito que a mãe esperança é a mulher que eu amei. António diz-lhe que queria muito dar um abraço a Esperança, ‘agradecer-lhe por te ter criado sozinha’. O pai veio dizer-lhe o nome dos seus avós, Maria José Carita Reisinho e Júlio da Graça Bento, que estão na certidão de nascimento que vai usar para registar o nome do seu pai. Veio mostrar-lhe fotos de uma mãe jovem que ele não conhecia, numa delas apontou-lhe para a barriga, dizendo: ‘tu estavas aqui’.”

Se o leitor estiver interessado em conhecer mais pormenores da história, consulte o site https://acervo.publico.pt/sociedade/noticia/quem-e-o-filho-que-antonio-deixou-na-guerra-1699039.

Catarina Gomes fala-nos de Rosa que tinha saudades do pai que não conhecera, o que dele sabia resumia-se ao seu apelido, Monteiro, que ela usa; o pai fora militar em Metangula, no norte de Moçambique, de 1967 a 1968 (Rosa nasceu a 22 de maio de 1968). Metangula era porto militar colonial, dali partiam as lanchas da marinha portuguesa. Há fotografias da mãe tiradas pelo pai, Fátima Ndala com t-shirt de algodão justa ao corpo, mini saia de pregas em tecido de padrão escocês, sapatos claros estilo sabrinas. Rosa vai mostrando tudo a Catarina, queria mesmo apresentar-lhe dezenas de filhos de marinheiros portugueses da base naval de Metangula, é uma das histórias mais emocionantes pela persistência em conhecer o pai, socorrendo-se das redes sociais, até se chegar ao momento culminante de vir a saber que o pai falecera com 67 anos, ela não desfalece, insiste em contactar o irmão branco, este não quer comunicação, a irmã, a mesma coisa, Rosa guarda um álbum completíssimo com a sua família portuguesa, espero que o leitor não perca este capítulo intitulado Saudades do Pai Monteiro.

A investigadora vai colecionando histórias, ouvindo resignações, tomando nota de palavras associadas àquele tipo de relacionamento espúrio e que ganham valor complexo, tais como namoro, conversa, casamento, marido, esposa, e algo mais, matéria que merece a maior reflexão:
“Mal termino de escrever sobre estas mães, vêm-me à mente estes pais acidentais, homens que se deslocavam em bando à procura de mulher, uma qualquer, saídos de um Portugal das décadas de 1960 e 1970, em que as mulheres se queriam virgens até ao casamento, em que as famílias protegiam a castidade das filhas, em que para muitas famílias as filhas terem relações sexuais antes da noite de núpcias significava ‘desgraçarem-se’. Elas deviam vestir-se decentemente, prescreviam-se saias a ¾, das pernas apenas podiam revelar-se os tornozelos.
Longe deste Portugal, tais jovens, a maioria vindos de aldeias, encontravam-se, pela primeira vez, fora do país, num estrangeiro em que havia mulheres que não usavam sutiãs, nem saiotes e combinações, apresentando-se ao mundo estranhamente despidas. Eles podiam até assistir ao mais íntimo dos rituais: o banho.
Aportaram num mundo com uma moral às avessas.”


De uma dignidade sem mágoa do início ao fim, esta investigação aborda um dos maiores tabus entre os militares portugueses, as crianças que ficaram para trás quando terminou o conflito e que andam há anos à procura de uma identidade perdida, e onde não deixa de ser chocante a indiferença do Estado português para reconhecer a dimensão desta realidade.
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Notas do editor:

Vd. post de 6 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28161: Notas de leitura (1934): "Furriel não é Nome de Pai, Os filhos que os militares portugueses deixaram na Guerra Colonial", de Catarina Gomes; Tinta da China, 2016 (3) (Mário Beja Santos)

Último post da série de 12 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28177: Notas de leitura (1937): "3x44: Abel e Caim em Contrapé", de António Carvalho (Porto: eVida, 2026, 287 pp.): "O gerúndio famoso sempre existiu no português do Brasil e, pasmem, foi nos navios, diretamente do português europeu para a América." (Angélica Lima, escritora e ediucadora brasileira)

Guiné 61/74 - P28179: Humor de caserna (279): Uff, primeiro que minha voz chegasse, dos CTT de Bambadinca, na Spinolândia, à Lourinhã, a 4 mil km de distância!...(Luís Graça)

















Prompting e orientação editorial: Luís Graça
Imagens: Arquivo do Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné
Geração gráfica assistida por IA:
Google (2026). Gemini (versão de 13 de julho de 2026) [Grande modelo de linguagem].



1. A maior parte de nós (talvez 4 em cada 5) nunca telefonou para casa, quando esteve ao serviço da Pátria na Guiné... Telefonar era um luxo. A maior parte da malta, sobretudo os da "província",  ainda não tinha telefónico fixo em casa... E depois era um exercício "penoso e moroso", além de caro, tentar ligar do mato para Portugal... Para um SOS, mais valia um telegrama ou até uma aerograma: era muito mais barato!" (*).

Em nunca sequer tentei ligar em 22 meses de "desterro". Mas estou a tentar reconstituir o meu "circuito de voz", se por acaso tivesse querido telefonar dos CTT de Bambadinca para os meus pais na Lourinhã... 

Com a ajuda da IA, e depois de muitas "calinadas" de parte a parte, lá chegámos a esta BD  que resulta de várias versões, colagens e emendas... A IA nunca contou com a sabotagem dos postos telegráficos por parte do partido do senhor engenheiro Amílcar Cabral, que era agrónomo mas devia perceber alguma coisa de telegrafia e telefonia com fios (de cobre), proque os mandou cortar... Eu, pela minha parte, que não sou engenheiro nem muito menos percebo de transmissões, estava piamente convencido de que em 1969 havia cabos submarinos  a ligar a Guiné à nossa terra (à beira-mar plantada). Fiz confusão, o meu pai é que foi para o Mindelo, Cabo Verde, em 1941, para guardar os cabos submarinos...(**)

Em 1969, não havia nenhum cabo submarino ligado à Guiné, nem telegráfico, nem muito menos coaxial.

O cabo submarino que existia em Bolama,  lançado em 1893 pela companhia britânica West African Telegraph Company,já tinha sido abandonado e desativado décadas antes (o tráfego comercial de cabos telegráficos para aquela zona da costa africana foi sendo progressivamente desligado à medida que as estações de rádio entraram em cena na primeira metade do século XX). E cabos coaxiais submarinos na Guiné?|... Nunca existiram até ao fim da guerra.

O circuito histórico exato de 1969 era o seguinte: as comunicações de Bambadinca para a Lourinhã dependiam a 100% da via aérea (rádio) na sua primeira e mais longa etapa.

O verdadeiro percurso daquela chamada era este:

~
A antena de rádio mais alta de Bambadinca, c. 1969/70.
Vista aérea
Foto: Humbert Reis / Arquivo do Blogue Luís Graça
& Camaradas da Guiné
i)  O salto local (Bambadinca ➔ Bissau)


Como os postes telegráficos da rede civil terrestre tinham sido cortados e sabotados pelo PAIGC logo no início do conflito, o posto dos CTT de Bambadinca dependia de um posto emissor de rádio HF (instalado no quartel, dentro do perímetro de arame farpado, pior razóes de segurança)

A minha voz saía de Bambadinca pelo éter e era captada em Bissau pela estação central dos CTT.



(ii) O grande salto transatlântico (Bissau ➔ Lisboa via Rádio Marconi)

Aqui entra  a  tecnologia da época. A central de Bissau não injetava nada num cabo submarino. O sinal era retransmitido por potentes emissores de onda curta (HF) da Companhia Portuguesa Rádio Marconi (CPRM) instalados na Guiné.

A minha voz viajava por propagação ionosférica;  as ondas de rádio subiam, batiam na ionosfera (a camada alta da atmosfera), faziam ricochete e voltavam a descer, cruzando os 4 mil quilómetros de distância em frações de segundo até serem captadas pelas gigantescas antenas de receção da Marconi em Portugal (como a mítica Estação de Receção de Alfragide ou de Vendas Novas).

(iii) A rede terrestre (Lisboa ➔ Lourinhã)

Só quando o sinal de rádio vindo de Bissau aterrava nas antenas da Marconi em Portugal Continental é que ele era transformado em sinal elétrico de linha telefónica:

A Marconi passava a chamada para a rede dos CTT em Lisboa.

A partir de Lisboa, a chamada seguia pelos cabos aéreos de cobre ou feixes hertzianos terrestres nacionais, subindo pela Estremadura até chegar à central manual dos CTT da Lourinhã, onde a telefonista finalmente completava a ligação para o destinatário.

2. Porque é que era tão difícil e instável a ligação Guiné-Portugal ?   Uma verdadeira "lotaria"!

Não havia a estabilidade de um cabo submarino debaixo de água. Dependia-se inteiramente do estado do tempo e da atividade solar. Se a ionosfera estivesse instável, a chamada "caía", o ruído estático tapava a voz e os operadores tinham de ficar horas à espera que a frequência "abrisse".

Havia pouquíssimos canais de rádio disponíveis na Marconi para o tráfego civil/militar simultâneo, o que gerava as célebres listas de espera de dias nos postos dos CTT do mato.

Afinal, o único fio que nos unia, a nós militares,  à metrópole era, ironicamente, invisível e passava pelas ondas de rádio (e não por nenhum cabo submarino, como alguns de nós pensávamos).

(Pesquisa: LG + Fundação Portuguesa das Comunicações + IA (Gemini / Google)
Condensaçáo, revisã / fixação de texto, negritos: LG)

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Notas do editor LG.:

(*) Último poste da série > 4 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28155: Humor de caserna (278): Na Spinolândia, namorar não era proibido... o preço da chamada telefónica para a metrópole é que era proibitivo!... Que o diga o Humberto Reis, o nosso "cartógrafo" e "ranger" (que está agora no "estaleiro", e a quem desejamos rápida recuperação)

(**) Em 1941,  diz a IA/Google, os cabos submarinos amarrados na zona do Mindelo (ilha de São Vicente, Cabo Verde) pertenciam a duas empresas principais: a Western Telegraph Company (de capital britânico) e a Italcable (de capital italiano). 

A ilha assumiu grande importância geoestratégica durante a Segunda Guerra Mundial devido à sua infraestrutura de comunicações: (i) Cabos Britânicos: eram os mais antigos e numerosos, sendo perados pela Western Telegraph Company: aziam as conexões cruciais do Império Britânico ligando Portugal continental (Carcavelos), Madeira, Brasil, e a costa ocidental de África;  (ii) Cabos Italianos: operados pela Italcable, cabos ligavam a Itália à América do Sul, passando por Cabo Verde (com amarração na praia da Matiota).