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domingo, 16 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28263: Contos mural ao fundo (Luís Graça) (46): Muita hontra e pouca glória...

















Prompt
original e composição editorial: Luís Graça.
Imagens e texto: Arquivo do Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné | Luís Graça (2026)
Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.


Muita honra e pouca glória...

por Luís Graça


A pátria fora-lhe ingrata. Falava dela como se fosse uma mãe. Que abria o regaço. Que acolhia "filhos e enteados" . No meio da confusão. Dos tiros, dos golpes de Estado, das greves, das revoluções, das guerras.  Uma mãe nem sempre atenta, serena, lúcida, justa. Metendo por vezes todos no mesmo saco, "os bons e os maus". 

E continuava o seu solilóquio: mãe que retribuía com amor, com bonomia, com "benesses e tabefes", os sacrifícios que faziam por ela. Incluindo o supremo sacrifício da vida. Até à última gota de sangue.

 Sim, jurara perante  a "nossa bandeira verde-rubra", mesmo sendo "monárquico" ... Rituais que hoje se perderam, já não havia serviço militar obrigatório,  juramento de bandeira... Nem verdadeiro patriotismo.  Podiam julgá-lo antiquado mas ele ainda dava valor a esses símbolos. E  "à palavra dada".

Fora educado por professores e capelães, desde o Colégio Militar à Escola do Exército,  segunda a velha máxima: "É doce morrer pela pátria!"...

Doce ?!... Diziam  que sim mas era coisa que a  "alegre mocidade"  do seu tempo não levava muito a sério.  Aos 10, 15,  20 anos ninguém pensava na morte.

−  "Dulce et decorum est pro patria mori"... É a divisa do brasão de armas da Academia Militar que sucedeu á Escola do Exército...

− Ah!,  sim, doce e honroso  −  repetiu o coronel com um sorriso amargo. 

−  Teríamos  que saber o que pensam os mortos de todas as guerras.

−  Não pensam nada, meu caro.

E quis mostrar este ponto de vista com a sua experiência,  justamente de antigo combatente da "guerra de África".

A... , oitenta e tal  anos. Feitas as contas por alto   devia ter nascido por volta de 1933 ou 32. "Monárquico mas liberal",  por tradição familiar. Alentejano do Alto Alentejo (fazia questão de frisar).  Descendente do Visconde de V...

Coronel de cavalaria, tirocinado,  na situação da reforma. Cruz de guerra de terceira classe por feitos em combate no teatro de operações da Guiné. Viúvo, pai de um filho,  avô de dois  netos (que ele mal conhecia) . 

− O primeiro soldado que vi morrer na Guiné, e logo  nos meus braços,  só me balbuciou entre golfadas de sangue: 'Ai, meu ca...pi...tão, ... qu' eu... es...tou  fo...di...do! '

Hoje, concluia o coronel, havia várias formas de morte para um antigo combatente.  Tudo menos doce e honroso. A sua (e da sua geração) era  também a da amargura,  da ingratidão,  do abandono e do esquecimento. 

Falava de si e dos seus homens que "morreram para nada"  e que iam morrendo todos os dias,  um pouco por toda a parte, em Portugal, na diáspora lusófona, na Guiné, em Angola,  em Moçambique e por aí fora.

- Sinto-me  órfão da Pátria!... Sofro de  claustrofobia... Afinal fui criado no Portugal do Minho a Tiimor.

 O seu filho (o único que tinha) nunca o compreendera nem aceitara a sua opção de vida,  a carreira militar. Pouco conviveu com ele.  Fizera-lhe falta o pai nos anos mais decisivos da formação da sua personalidade. 

Quando o filho nasceu, em 1958, estava o pai  em Goa na sua primeira comissão de serviço no Ultramar.  Como alferes. Faria mais três comissões, duas como capitão  e outra como  como major.

E quando o filho  arranjou uma bolsa de estudo em 1976 para  ir frequentar uma  universidade nos EUA, o pai tinha acabado de regressar de  Moçambique, uns meses antes. (Fora um dos "últimos soldados do império", fez questão de lembrar, já com o posto de major, desempenhando funções de oficial de informações e operações, num batalhão,  cargo em que já não saía para o mato.)

O filho acabou por ficar lá, nos EUA. "Até hoje" .  E lá casara "com uma americana, rica,  de origem nipónica" . 

Tinha um grande desgosto: os seus netos não falavam português. Tinham  vindo a Portugal todos juntos uma única vez,  por ocasião da morte da mãe, sogra e avó. 

− Eu era um estranho para eles... E, como  pai,  fiquei com a certeza de que tinha perdido o meu único filho para sempre. 

De facto, não voltaria a visitar o pai  em  Portugal. Foi ele que os foi visitar à Califórnia. Os netos nada sabiam sobre Portugal, um pequeno país que  ficava completamente fora do seu radar, dos seus interesses e das suas  preocupações. 

E confirmava o seu pessimismo com o facto de,  a partir de 1975,  "termos ficado reduzidos à geografia do início do século XV, antes da conquista de Ceuta em 1415".

 Agora o que mais lhe gostava era sobretudo a solidão da viuvez e da velhice. Uma vez por ano juntava-se aos "seus rapazes",  com quem lutara na Guiné durante mais de 2 anos (contando com o tempo  inicial de formação da companhia, em Estremoz).

Adorava a sua "família militar"  com  quase  o mesmo amor que tinha pela sua família biológica. 

−  Juntos chorámos os nossos mortos e cuidámos  dos nossos feridos.

Faziam um encontro anual todos os anos desde o início de 90 mas, duas décadas depois, faltava-lhe já o ânimo e as pernas começavam a claudicar, obrigando-o a arranjar desculpas de mau pagador para não comparecer. Invocava a saúde ou a falta dela, "cada vez mais remendada".

Confidenciou-te que, sobretudo, não queria perder o seu orgulho, a sua dignidade,  a sua pose de "oficial e cavalheiro"  que sempre cultivara. Já não se gostava de se ver ao espelho. E muito menos fardado. LP

 Não me leve  a mal  se lhe disser que sempre tive sorte com as mulheres... 

−  Não de todo, coronel. Como se costuma dizer, a sorte dá muito trabalho.

Mas o contrário não era  verdadeiro : as mulheres nunca terão tido sorte com ele .  Casou tarde, não teve um casamento feliz e enviuvou cedo.

Gabava-se de nesse tempo de nunca ter dado uma "porrada"  em nenhum dos seus homens. Soubera sempre resolver os conflitos,  mesmo os mais graves,  do foro disciplinar, com frontalidade e bom senso,  contrariamente à tradição da sua arma, a cavalaria. Tinha camaradas que ainda usavam, na Guiné, o "murro da ordem" para prevenir males maiores.

  Mais valia um bom  murro nos queixos do que uma nódoa na caderneta, achavam eles. E se calhar, pensando bem, hoje, até teriam  razão.

E lembrava-se de uma situação, grave, em que, passados mais de quarenta anos, reconhecia  que agira mal. Um dos seus cabos fora acusado de violar a sobrinha do régulo e comandante do pelotão de milícias.  Era a rapariga mais linda da tabanca. 

O então capitão fez tudo o que sabia e podia para que a "bronca" não chegasse aos ouvidos do general Spínola, o "Homem Grande de Bissau". O cabo era um dos seus melhores homens como operacional e inclusive tinha chegado a ser proposto como candidato ao Prémio Governador da Guiné.   

− Tive uma conversa séria com ele... Comecei por lhe enumerar as virtudes , acabando nos defeitos e na "borrada" que lhe ia estragar o resto da vida.... Acabou por  dar-se como culpado, com a desculpa esfarrapada de que "ela era linda de morrer" e que "um homem não era de pau"...Além disso, era a sua lavadeira e teria havido livre consentimento...  Encostei-o à parede: "Põe-te no teu lugar: e se ela fosse tua irmã ?"... Não tugiu nem mugiu...

O então capitão castigou o cabo,  obrigando-o a pagar uma reparação à família da bajuda, uma vaca que lhe custou um mês de pré. E retirou-lhe, obviamente,  a candidatura ao Prémio Governador da Guiné... 

Ao régulo calou-lhe a boca com a oferta, por parte da companhia, de uns valentes sacos de arroz para  o pelotão de milícias. Fora-lhe sempre leal. Soube mais tarde que também ele fora, infelizmente, fuzilado pelo PAIGC. 

- Quanto ao cabo, ficámos amigos para a vida.

 Na sua  casa em Oeiras, aonde ele te convidara um dia para te mostrar o seu  "velho  álbum das glórias", ficarás a conhecer um pouco melhor a sua história de vida e a sua origem sociofamíliar.

Sim,  fora preparado para defender a pátria numa época em que o patriotismo ainda estava na ordem do dia. Tinha treze anos quando a II Guerra mundial  acabara. "Lá em casa eram todos anglófilos" . Depois veio a Guerra Fria,  passaram todos  a ser anticomunistas. 

Era da geração do "Deus, Pátria e Família". A "Santissima Trindade" do Estado Novo. Nunca fora homem (nem miliitar) de ligar à política.  Nem nunca questionara o beco sem saída da guerra em África. 

- Infelizmente, só sabia obedecer aos meus superiores hierárquicos...

Por outro lado, a sua família sempre fora de proprietários e militares, que serviram três regimes (Monarquia constitucional, República e Estado Novo).  

No passado tinham chegado a ser grandes produtores de trigo e cortiça.  Mas  eram sempre mais os filhos e as filhas  do que as mães. Para os descendentes do Visconde de V... , a solução de vida terá sido "Coimbra, o seminário e a carreira de armas".

Gostava de falar do passado da família paterna, mas havia ali uma relação de amor-ódio ancestral   que tu não te achavas no direito de  esmiuçar, nas conversas que mantiveras com ele antes da pandemia. Uma das ocupações do coronel  era então a da reconstituição da árvore genealógica da família.

Tinha especial prazer em falar do "passado de luz e sombra" (sic)  do Visconde de V..., o patriarca da família, onde começava a "primeira geração": dali  para trás não se sabia mais nada, havia o "silêncio dos arquivos" , restava apenas uma fita de seda azul, "sinal de exposto" na Misericórdia de Lisboa. 

Mas tivera sorte, esse enjeitado, para viver e sobreviver numa época  tão conturbada como a das invasões francesas, a da fuga da corte para o Brasil,  a do fim da sociedade senhorial, e a das guerras civis liberais.

Na casa oitocentista  de Paço d' Arcos, de piso térreo, ainda estava dependurado da parede, um mau quadro, a  óleo,  com o retrato do futuro Visconde. Daqueles que ainda se encomendavam a pintores académicos antes da  chegada do "daguerreótipo". Ostentava já alguns sinais de riqueza, os  botões dos punhos de renda e o relógio de bolso, com um grosso cordão, tudo em ouro de lei.

Havia enriquecido o seu património com a compra em leilão de "bens de mão morta" . Ninguém sabia como, ainda jovem,  conseguira arranjar os "cabedais, para poder licitar uma tão vasta propriedade no Alto Alentejo. Foi dos primeiros a modernizar um latifúndio que até então só dava "caça e sobro".  

Sabe-se que fora um bravo soldado de Dom Pedro IV e correligionário de Dona Maria II. Ter-se-á afastado da política com a Patuleia, onde foi um feroz opositor dos Cabrais. Foi nobilitado já no tempo de Dom Luís. Filantropo, abriu uma escola na sede do concelho, no Alto Alentejo,  ainda antes das escolas do Conde Ferreira.  

 O coronel falava com mais conhecimento de causa da 4ª geração, do seu avô , que era bisneto do Visconde, e que terá sido um dos que mais ajudaram a delapidar o património familiar, com o vício do jogo, das amantes e dos cavalos.

− O meu pai, nascido uns anos antes  da República, não teve outro remédio se não seguir a tropa. E eu, idem, aspas...

Fez questão de ir buscar uma garrafa de uísque velho, uma preciosidade ainda do tempo da Guiné. Agora raramente bebia. Era para abrir na festa dos  90 anos. Com o seu filho e netos. Se lá chegasse... Mas já não tinha qualquer esperança de que eles se quisessem associar a essa efeméride, e ter a maçada de vir de propósito, de tão longe, da Califórnia.

− O que vale um herói da Pátria aos 90 anos ?!... Se nem sequer a família mais próxima se lembra dele ?!

Fizeste um "tchim-tchim" com o dono da casa, cada um longe de imaginar que aquele seria o seu último encontro. Umas semanas depois veio a pandemia e o confinamento... E o coronel  A...,  morreria uns meses depois. Ia fazer 87 anos. Ainda se falaram ao telefone. Recordas as suas últimas palavras:

− Fui de cavalaria mas nunca gostei de cavalos... Fui spinolista, na Guiné,   por conveniência mas também  por convicção... Fui partidário da sua política "Por uma Guiné Melhor"... O senhor marechal, que eu conheci em Angola, já coronel, fez o favor de ser meu amigo, deu-me apoio a nível moral,  operacional e logístico. Visitou-me duas vezes, na Guiné. Não esqueço esses favores.  Como não esqueço o seu papel no 25 de Abril.

Como não esquecera a cena, caricata, do general Spínola escangalhado a rir (o que era raro nele), e a chamar-lhe  "grande nabo" quando ele, ingenuamente, lhe contou que tivera uma queda desastrada e desastrosa  de cavalo na escola prática de Santarém. 

 Sou coronel tirocinado mas  fiquei às portas do generalato.  Desconheço as razões. Mas considero-me injustiçado. Nunca fui militar político. 

E esclareceu-te que no 25 de Abril ("notícia completamente inesperada", recebida no norte de Moçambique) estivera "de bico calado", à espera que a ordem regressasse aos quartéis, depois de restituída a liberdade aos portugueses.

 Como regressa sempre. O meu pai esteve envolvido  no 28 de maio de 1926. Ainda  era um jovem cadete imberbe. E arrependeu-se. Não beneficiou nada com isso. O golpe de Estado acabou por ir contras as suas ideias de monárquico liberal. Mas eu sempre me considerei um simples servidor da Pátria, como o Salgueiro Maia, a quem cheguei a dar instrução, e a quem não posso deixar de bater a pala, mesmo que eu não tenha aderido ao Movimento.... Pela sua coragem (e que eu não tive) e pelo seu papel na História.  E a minha vida resume-se a isso, tal como a dele, que também foi mal tratado: Muita honra e pouca glória!...

Luís Graça, 2026

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Nota do editor LG:

Último poste da série > 3 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28236: Contos com mural ao fundo (Luís Graça) (45): O último candando

1 comentário:

antonio Graça de Abreu disse...

Excelente texto.

Antonio Graça de Abreu