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segunda-feira, 3 de outubro de 2022

Guiné 61/74 - P23665: Notas de leitura (1502): "De África a Timor", uma bibliografia internacional crítica (1995-2011), por René Pélissier; Centro de Estudos Africanos da Universidade de Porto e Edições Húmus, 2014 (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 14 de Fevereiro de 2020:

Queridos amigos,
Pode-se criticar mas não se pode ignorar este maratonista que lê tudo quanto lhe cai às mãos sobre a história do Império Português. Ele lança, a torto e a direito, questões pertinentes. Uma delas: "Quantos livros sobre os PALOP, Timor, a Índia, Macau, aparecem anualmente em todo o mundo? Não existe um recenseamento rigoroso, mas recentemente avaliámo-los em 70 a 120 no que respeita a outras línguas sem ser o português. Quanto mais avançamos, mais nos apercebemos de quanto estamos muito aquém da realidade. Se se incluir o português, os livros novos são, todos os anos, bastante mais de 250, alguns dos quais não chegam ao conhecimento dos bibliógrafos centralizadores, senão depois das edições esgotadas".
Por vezes é pouco ou nada amável com historiadores estrangeiros que falam do nosso Império. Houve um senhor holandês que resolveu estudar os Balanta Brassa, e ele logo comenta, vitriólico: "É uma tese que ignora alegremente os melhores trabalhos de António Carreira sobre a História da Guiné".
Prometo ao leitor grandes surpresas na leitura destas recensões que foram publicadas em diversos periódicos portugueses, este octogenário historiador francês continua sem concorrência à vista, é um maratonista infatigável.

Um abraço do
Mário



René Pélissier, um globetrotter sem rival na historiografia do nosso Império

Mário Beja Santos

É um calhamaço de mais de 650 páginas, intitula-se "De África a Timor", uma bibliografia internacional crítica (1995-2011), por René Pélissier, Centro de Estudos Africanos da Universidade de Porto e Edições Húmus, 2014. Porventura o historiador francês mais dedicado aos estudos do Império Português, René Pélissier publica as suas recensões em periódicos portugueses, coligiu tudo quanto foi dado à estampa ao longo de dezasseis anos, e o resultado é impressionante, assumo que não é possível estudar qualquer parcela do Império sem ler o que ele comenta sobre as obras mais recentes, desde a ficção à historiografia. Obviamente que não há aqui condições para analisar minuciosamente esses comentários, limitamo-nos a relevar um ou outro, para despertar a atenção do leitor, seja na posição de meramente curioso ou de estudioso.

Louvo-me no que ele escreve sobre o trabalho hercúleo e dadivoso de João Loureiro. Como observa Pélissier, este colecionador de postais antigos deixa-nos documentos extraordinários, é mesmo uma coleção iconográfica que não tem concorrentes em qualquer ponto do mundo. A sua coleção de postais ultramarinos (desde os fins do século XIX até 1974-1975) aproximava-se, no dobrar do século, de dez mil exemplares.
Pélissier observa:

“Tudo é fascinante para se poder conhecer a evolução das mentalidades em mundos fechados como eram, por exemplo, as feitorias guineenses, as plantações de São Tomé, as cidades angolanas ou Díli, mesmo nos anos 1920. Que encontrará o leitor nos cinco volumes consagrados às antigas colónias africanas? Quanto a Moçambique: Lourenço Marques, o Sul do Save, a Beira, Vila Pery e Gorongoza, a Zambézia e os distritos do Norte, com tratamento temático: panoramas, edifícios públicos dos princípios do século, as ruas, os portos e os transportes, a vida religiosa e cultural, os hotéis e os entretenimentos (…). Quanto à Guiné, o historiador pode deliciar-se com as imagens de Bissau no início do século, nomeadamente as da guerra de 1908 e as da demolição da velha muralha urbana. Pode encontrar-se a estátua de Teixeira Pinto. As vistas de Bafatá cerca de 1920 permitem avaliar o crescimento da cidade desde os primórdios. Em todos estes volumes o autor dá-nos uma introdução sobre a origem dos postais. É no quinto volume, o respeitante a Angola, que expõe claramente a sua saudada época de 1970-1975, inquestionavelmente o período culminante da colonização europeia e do crescimento do país, apesar ou até por causa da guerra colonial. Refere-nos que, por comparação com o estado dramático no qual o país caiu após 1974, a Angola do fim da era colonial parecia-lhe ter sido um paraíso (…) O trabalho colossal de João Loureiro marca uma viragem capital na recolha da iconografia colonial, não só no antigo império português, mas em todas as restantes colonizações”.

Não deixa de ser perscrutante o seu olhar sobre uma obra muito apreciada nos estudos da guerra colonial, "Contra-subversão em África. Como os portugueses fizeram a guerra em África", por John P. Cann:
“Enquanto oficial superior, a sua aptidão para analisar, do exterior, a organização, a instrução e as técnicas portuguesas da luta contra a subversão (serviços de informação, operações e tropas especiais, logística, emprego das tropas locais, etc.) é incontestável. Ele retira das estatísticas portuguesas e das numerosas entrevistas com oficiais superiores, tanto na reforma como no ativo, uma certeza: tendo em conta as limitações orçamentais e demográficas com as quais se defrontaram, os seus homólogos fizeram tão bem ou melhor do que os americanos no Vietname.

Estou convencido de que este livro é e será o livro de cabeceira dos oficiais de carreira portugueses que conduziram esta guerra e dos que vieram e virão depois desta geração. Do ponto de vista técnico, trata-se de uma reabilitação positiva. O único problema é que Portugal perdeu a sua guerra exótica, tal como os americanos, os franceses e os holandeses perderam as deles, cada um deles encontrando para tal, naturalmente, uma desculpa política ou de outra natureza. Mas o que este livro, noutros domínios muito estimável, não aborda, é o essencial: estas guerras foram largamente impopulares entre os que, na metrópole ou nos Estados Unidos, eram levados, enviados, constrangidos e à força para o terreno. É sintomático que no seu texto Cann não tenha praticamente utilizado um só testemunho de um simples soldado, de suboficiais ou de oficiais subalternos para conhecer, por dentro, o moral das tropas em contato direto com a guerrilha. Ele dá-nos, por isso, uma visão que seria a que podíamos encontrar em todas as escolas dos Estados-maiores do mundo inteiro: uma visão de cima para baixo, que esquece que era em baixo que as coisas importantes se passavam. Existem centenas de artigos e de livros publicados pelos atores, tanto portugueses como africanos, que descrevem o que não encontramos nas instruções dos comandantes superiores. Em todos os exércitos em guerra, podemos constatar o mesmo fenómeno: uma dicotomia entre profissionais, mais ou menos operacionais, e aqueles que matam o tempo a tentar não morrer”
.

Devo a esta leitura de lés a lés vários benefícios, um deles ter descoberto uma comunicação da investigadora Suzanne Daveau sobre os primeiros relatos dos viajantes da África Ocidental, mais tarde falaremos deste belíssimo texto.

Guardo uma observação sobre o trabalho da crítica literária ou científica de Pélissier: “A pior crítica que se pode fazer a um historiador ou a um bibliógrafo não é estar mal informado ou ser incompetente; é ser sectário ou – o que é disso corolário – ser complacente para quem pensa como ele”.

E é bem agradável ver o historiador António Duarte Silva elogiado pelo seu incontornável trabalho "Invenção e Construção da Guiné-Bissau", Edições Almedina, 2010.

A propósito do chamado Massacre do Pidjiquiti, e sobre o que escreve Duarte Silva, destaca Pélissier:

“Parece provável, segundo o autor, que o administrador cabo-verdiano, dirigente do partido único local, a União Nacional, gerente da Casa Gouveia em Bissau, é diretamente responsável, dada a sua intransigência, pelo que se iria tornar o acontecimento fundador do nacionalismo guineense. Enquanto historiador, este administrador redimiu-se mais tarde com a publicação de vários estudos que denunciavam a inanidade da propaganda do Estado Novo; a sua especialidade tornou-se o tráfico negreiro e a resistência anticolonial à implantação portuguesa. Chamava-se António Carreira e terá sido um dos mais fecundos primeiros historiadores cabo-verdianos. Os panteões dos grandes homens locais doravante divergem conforme as origens: pode-se ser um ‘negreiro’, agente do subcolonialismo ou apenas originário do que foi, durante séculos, o terreno de caça destes auxiliares da administração portuguesa no continente. Como é que Amílcar Cabral poderia prever serenamente o futuro de um binómio Cabo Verde – Guiné em que os pastores iriam continuar a comer o seu rebanho continental? A explosão era inevitável, devido ao capital de rancores acumulado”.

Um documento magnífico, não se pode estudar o nosso Império sem conhecer estas notas, por vezes tão assanhadas, de René Pélissier.

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Nota do editor

Último poste da série de 30 de Setembro de 2022 > Guiné 61/74 - P23656: Notas de leitura (1501): "Ussu de Bissau", por Amadú Dafé; Manufactura, 2019 (2) (Mário Beja Santos)

Guiné 61/74 - P23664: Casos: a verdade sobre... (29): os fotogramas do vídeo com a visita da delegação do Movimento Nacional Feminino a Cufar, no início de fevereiro de 1966 (Mário Fitas / Sílvia Espírito-Santo / António Murta / João Crisóstomo / Joaquim Mexia Alves / Miguel Rocha)

 




Guiné > Região de Tombali > Cufar > Fevereiro de 1966 > Delegação do MNF - Movimento Nacional Feminino,  que visitou Cufar...A Cecília Supico Pinto e a Renata Cunha e Costa  terão sido acompanhas por um ou mais senhoras da delegação de Bissau (aqui na foto.  A senhora do lado esquerdo, nos fotogramas de baixo, era a mulher do cap Costa Campos, Maria da Glória (França). O casal aparece, ao que julgamos, no 1º fotograma do lado esquerdo, aqui em cima.

Fotogramas de vídeo, gentilmente cedidas pelo Mário Fitas, em 23/9/2022 


Fotos: © Mário Fitas (2022). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



Capa do livro de Sílvia Espírito-Santo, “Cecília Supico Pinto: o rosto do movimento nacional feminino”. Lisboa: A Esfera do Livro, 2008, 222 pp. 

1. M
ensagem enviada pelo nosso editor LG, com data de 23 de setembro último, à Sílvia Espirito-Santo, biógrafa  da Cecília Supico Pinto, fundadora e líder do MNF - Movimento Nacional Feminino:

Silvia: olá...Diga-me se reconhece a nossa Cilinha nestas fotos, tiradas no sul da Guiné, em fevereiro de 1966, em Cufar... Tinha então 45 anos... Nesse mesmo dia ela mais a Renata Cunha e Costa terão ido a Bedanda, onde o cap inf Aurélio Manuel Trindade (hoje tenente general reformado) era o comandante da 4ª CCAÇ (companhia de caçadores nativos, enquadrada por militares da Metrópole)...  

Estive ontem, em Algés, na Tabanca da Linha,  com o Mário Fitas, ex-fur mil de operações especiais, e voltamos a falar destas fotos, já aqui publicadas (ou outras oarecidas, fotogramas tirados de um filme de 8 mm, posteriormente digitalizado) (*)...

Pelas feições, não me parece de todo a presidente do MNF a senhora, de vestido cor de rosa,  que o Mário Fitas aponta como sendo a  Cecília Supico Pinto.

Na visita a Cufar as duas representantes do MNF estão acompanhadas da esposa  do capitão Costa Campos, comandante da CCAÇ 763, Maria da Glória (França). Será esta senhora e não a Cecília Supico Pinto que aparece nas fotos com vestido  cor de rosa ?... Preciso da reconfirmação do Mário Fitas, que conheceu bem a esposa do seu capitão.

Vou perguntar também ao Miguel Rocha, ao António Murta, ao João Crisóstomo  e ao Joaquim Mexia Alves que conheceram pessoalmente a nossa Cilinha (os três primeiros no TO da Guiné).

Boa saúde, bom trabalho. Luís Graça



2. Resposta da Sílvia Espírito-Santo, nesse mesmo dia, 23/09/2022, 22:10:

Olá,  Luís,
 
Tem razão, embora o estilo de roupa e penteado sejam os da época, nenhuma delas é a  Cecília Supico Pinto-.. Serão, com toda a certeza, senhoras da Delegação Provincial do MNF na Guiné.

Normalmente as mulheres dos altos quadros militares integravam o Movimento,  o que era bom e mau porque,  se por um lado conheciam de perto a realidade dos militares,  por outro o seu apoio era temporário uma vez que tinha a duração das comissões dos cônjuges. (Negritos nossos).
 
Sem esquecer as que usavam os galões dos maridos para se evidenciarem num meio predominantemente masculino, contribuindo apenas para os estereótipos que circulavam (e circulam ainda) sobre o MNF.

Abr amigo
Sílvia



Guiné > Região de Tombali > Nhala > 2.ª CCAÇ / BCAÇ 4513 (Aldeia Formosa, Nhala e Buba, 1973/74) >  Domingo, 10 de março de 1974 > A visita da Cilinha, aqui a despedir-se de um dos oficiais, um alferes miliciano. 

Foto (e legenda): © António Murta  (2015). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


3. Resposta de António Murta,  23/09/2022, 23:19 


Olá, Luís Graça.

Espero que estejas já recuperado, ortopedicamente falando...

Sobre as fotos, e porque conheci a Cilinha muitos anos depois [em Nhala, 10 de março de 1974], estive a consultar o livro da Sílvia Espírito-Santo, onde vi fotografias da Cilinha com a Renata Cunha e Costa em Angola em 1964. Cheguei a uma conclusão que pode não ser a correcta:

(i) a senhora da primeira foto não me parece que seja a senhora das restantes, e não é a Cilinha quase de certeza porque se percebe no seu perfil um nariz e queixo arredondados, ao contrário da Cilinha: 

(ii) nas três fotos seguintes inclino-me para que seja mesmo a Cilinha, pelo nariz e queixo alongados e, até, pela sua postura.

Sem certezas, mas com um grande abraço,
António Murta.



Guiné > Região do Cacheu > Teixeira Pinto > Destacamento de Carenque > 1973 > A Cilinha, aqui de perfil,  a "cantar o fado"... perante um grupo de soldados... (Carenque ficava a norte da ilha de Pecixe, na margem direita do Rio Mansoa.)

Espantosa foto, de antologia, de António Tavares dos Santos [, presumivelmente, fur mil, 2.ª C/BCAÇ 4615 e CCaç 19. Guidaje, 1973/74]... Cortesia da página Arquivo Digital, alojada em Agrupamento de Escolas José Estêvão, Projeto Porf 2000, Aveiro e Cultura.



Guiné > s/l > Fevereiro de 1966 > Cecília Supico Pinto, falando para um grupo de militares; em segundo plano, um dos seus "braços direitos", também elemento da comissão central do MNF, [Amélia] Renata [Henriques de Freitas] da Cunha e Costa .

Fotogramas do vídeo (6' 43'') da RTP Arquivos > 1966-02-01 > Cecília Supico Pinto visita Guiné (Com a devida vénia...)




Guiné > Região do Oio > Porto Gole > CCAÇ 1439 (1965/67) > Fevereiro de 1966 > Cecília Supico Pinto, presidente do Movimento Nacional Feminino, na sua 1ª visita à Guiné, então já com 44 anos (ia fazer 45 em 30 de maio de 1966).

Fotos (e legendas): © João Crisóstomo (2017). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


4. Resposta de João Crisostomo, 24/09/2022, 00:42

Caros camaradas,

Fiquei confuso: na minha memória ela não era tão jovem como nestas fotos ele aparece… mas, pelo sim e pelo não, fui procurar nos nossos posts e encontrei nos posts Guine 61/74- P19831 e 22258 uma foto dela em Porto Gole em 1996 ( a sua primeira visita, creio). pela cara... estilo do cabelo…mas vejam e tirem as vossas conclusões.
 
Abraço, João Crisóstomo

5. Resposta de Joaquim Mexia Alves, 24/09/2022, 10:05

Bom dia a todos

Nenhuma das Senhoras, quanto a mim,  é Cecília Supico Pinto que conheci bem.

Parece-me sem dúvida Renata Cunha e Costa que também conheci bem.

Ainda falta muito a dizer sobre o MNF que fez obra meritória e foi bastante mal tratado pelos detractores habituais.

Abraços
Joaquim Mexia Alves


Guiné > Região de Cacheu > Olossato > CCAÇ 2367/BCAÇ 2845, "Os Vampiros" (Olossato, Teixeira Pinto e Cacheu, 1968/70) >  2 de maio de 1969  > O nosso camarada Miguel Rocha, ex-alf mil inf, na altura a fazer as funções de comandante da companhia,  na recepção à presidente do Movimento Nacional Feminino, Cecília Supico Pinto  (1921-2011) (a menos de um mês do seu 48º aniversário natalício)... 

Foto (e legenda): © Miguel Rocha (2021). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


6. Resposta de Miguel José Ribeiro Rocha, 24/9/2022, 11:37

Bons dias a todos|

Decididamente nenhuma das três senhiras que aparecem nas fotos é a Cecília Supico Pinto.
A Dona Cecília tinha um rosto com traços mais angulosos e era de outra faixa etária. Quanto à senhora de vetsido rosa, é nitidamete mais nova e a sua face é muito mais arredondada.

Cumprimentos, Miguel



Fotograma nº 1


Fotograma nº 2


Fotograma nº 3


Fotograma nº 4


Fotograma nº 5

Guiné > Região de Tombali > Cufar > CCAÇ 763, Os Lassas"  (1965/67) > Fevereiro de 1966 > Visita de uma delegação do MNF. Quem seria a senhora dos fotigramas nºs 3, 4 e 5 ? Não era seguramente a Cilinha...Tem um "look" demasiado jovem para poder  ser a Cilinha, então com 44 anos...

Fotos: © Mário Fitas (2016). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]

7. Comentário do editor LG:

Depois destes depoimentos, não é dífíil chegarmos à conclusão de que, de facto,  nenhumas das semhoras, dos fotogramas enviados pelo Mário Fitas, é a Cecília Maria de Castro Pereira de Carvalho Supico Pinto. Houve aqui um lapso nas legendas, tanto por parte do Mário Fitas, como dos editores do blogue.

No início de fevereiro de 1966, a então presidente do Movimento Nacional Feminino (MNF) visitou a Guiné, pela primeira vez, acompanhada de Renata da Cunha e Costa. A RTP deu-lhe honras de telejornal.
 
Não sabemos, com detalhe, o percurso da visita... Mas sabemos que esteve na região de Tombali, em Cufar, em Catió e em Bedanda... Mas também, na região do Cacheu, em Binta, ou na região do Oio, em Porto Gole, por exemplo... 

Por ocasião da notícia da morte da ex-presidente do MNF (ocorrida em 25 de maio de 2011),  o Mário Fitas mandou-nos um conjunto de fotos (ou melhor fotogramas, extraídos de um filme de 8 mm), com a seguinte mensagem:

(...) Sem qualquer preconceito político, revelo aqui a minha admiração por uma mulher que soube conviver com os jovens soldados nos tempos da guerra (hoje velhos Combatentes).

Julgando ser de interesse para o Blogue e para a história do conflito na Guiné, anexo algumas fotos da D. Cecília Supico Pinto (com a esposa do Cap Costa Campos, comandante da CCAÇ 763) em Cufar, terra dos Lassas.

Em duas das fotos podemos vê-la acompanhada de D. Maria da Glória (França). (...)  (*).

Mais recentemente, em 23/9/2022,  o Mário enviou-nos mais imagens, do mesmo lote, as quatro que reproduzimos no início do poste em formato de pequena dimensão. 

Erradamente, publicámos, em 2011,  essas iamgens como sendo a da visita a Cufar da delegação oficial do MNF, pu seja, da Cecília Supico Pinto e da Renata Cunha e Costa, quando na realidade se trata de duas senhoras vindas de Bissau, e que estão acompanhadas da esposa do comandante de "Os Lassas", o cap Costa Campos, Maria da Glória (França) (é a primeira do lado esquerdo, nos fotogramas nºs 1 e 2).

Por outro lado, estranhávamos que a retratada nos fotogramas nºs 3, 4 e 5 fosse z Cecília Supico Pinto, "aos 44 anos, com um 'look' surpreendentemente jovem'... Na realidade não sabemos quem era esta jovem senhora, seguramente esposa de algum oficial em Bissau, da delegação provincial do MNF, e que terá acompanhado a Cecília Supico Pinto e a Renata Cunha e Costa.

Por ocasião do 9º Encontro da CCAÇ 763 (Cufar, 1965/67), realizado em 2007, em Almeirim, comemorando os 40 anos do regresso de "Os Lassas", o Mário Fitas homenageou  também a  "senhora professora, enfermeira e companheira de guerra Maria da Glória (França)", agradecendo-lhe a "doação total à CCAÇ 763", razão porque, no seu entendimento, ela devia "ser considerada como parte integrante desta Companhia". Esta senhora vivia, pois, em Cufar, na altura da visita do MNF.

Recorde-se que o  Mário Fitas foi fur mil inf op esp, CCAÇ 763, "Os Lassas", Cufar, 1965/67. E tinha por nome de guerra "Mamadu"...É  autor de: (i)  "Do Alentejo à Guiné: putos, gandulos e guerra" (inédito, 2ª versão, 201o, 99 pp.); (ii)  "Pami N Dondo, a guerrilheira", ed. de autor, Estoril, 2005, 112 pp.

Esta passagem do primeiro livro, lida agora com mais atenção, pode ajudar a esclarecer algumas das nossas dúvidas:  

(...) Como reconhecimento do seu trabalho, os Lassas recebem dias depois a visita da Sra. Presidente do Movimento Nacional Feminino, Dª. Cecília Supico Pinto, acompanhada da Presidente da delegação de Bissau daquele movimento. 

Deixaram uma máquina de projectar filmes de 8 mm, uma viola e mais uns pacotes de cigarros. (...)

No Hospital Militar [, onde entretanto é internado para uma cirururgia à hérnia], ao princípio da tarde Mamadu  
["alter ego" do autor] acordou  (...)

Na tarde seguinte, apareceram umas senhoras simpáticas do MNF, a quem Mamadu informou gostar bastante de ler, e pe­diu se lhe arranjavam “A Besta Humana”, do Émile Zola. Muitas desculpas mas não conheciam a obra, no entanto iam tratar do assunto. Até hoje não teria sido lido, se o próprio não o tivesse comprado. (...)

Neste tempo todo, desleixou um pouco a correspondên­cia. Fragilizado, como pedinte, apenas mandou um bate-e
stradas (aerograma) à Tânia, muito simples e cauteloso, a solicitar se queria ser sua madrinha de guerra. Era uma forma hábil de contornar e chegar lá. Sem problemas, podia morrer mouro porque ao SPM. 2628 nada chegou, vindo de Terras do Lado do Norte. Madrinha não haveria.  (...) (**) (Negritos nossos).

O Mário Fitas ainda não sepronunciou este equívoco, mas já me prometeu arrajar cópia do vídeo donde foram extraídos estes fotogramas.... 

De qualquer modo, aqui fica, por mor da verdade, estes esclarecimentos quer do editor, quer da biógrafa da Cilinha, quer dos camaradas que a conheceram pessoalmente, a começar pelo Joaquim Mexia Alves, cuja mãe era dirigente do MNF de Leiria (***).  Agradeço a todos a colaboração, respondendo prontamente ao meu mail. Mas os nossos leitores também têm uma palavra a dizer.
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Notas do editor:


 
(***) Último poste da série > 25 de setembro de 2021 > Guiné 61/74 - P22570: Casos: a verdade sobre... (28): a CCAÇ 1546 e o Marcelino da Mata: uma mentira colossal (Domingos Gonçalves, ex-alf mil inf, CCAÇ 1546 / BCAÇ 1887, Nova Lamego, Fá Mandinga e Binta, 1966/68)

Guiné 61/74 - P23663: Parabéns a você (2104): Hélder Valério de Sousa, ex-Fur Mil TRMS STM (Piche e Bissau, 1970/72)

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Nota do editor

Último poste da série de 29 DE SETEMBRO DE 2022 > Guiné 61/74 - P23652: Parabéns a você (2103): António Bastos, ex-1.º Cabo At Inf do Pel Caç Ind 953 (Cacheu, Farim, Canjambari e Jumbembém, 1964/66)

domingo, 2 de outubro de 2022

Guiné 61/74 - P23662 Voltamos a recuperar as antigas cartas da província portuguesa da Guiné, um dos recursos mais preciosos do nosso blogue - Parte II: De Cabuca a Fulacunda


Rosto da página pessoal de Luís Graça, socólogo, "Saúde e Trabalho", criada em 1999, e alojada, até a meados de 2022, no sítio da Escola Nacional de Saúde Pública da Universidade NOVA de Lisboa, que foi entretanto reformulada. 

A página (www.ensp.unl.pt/luis.graca) pode agora voltar a ser consultada no Arquivo.pt, da FCT - Fundação para a Ciência e Tecnologia. Foi aqui, nesta página, que começou a aventura do blogue "Luis Graça & Cmaradas da Guiné", o maior blogue em língua portuguesa criado em 2004 e mantido por antigos combatentes da guerra colonial / guerra do ulltramar na antiga colónia ou província ultramarina portuguesa  da Guiné, abarcando o período de 1961 a 1974. 


1. Estamos a recuperar as cartas (ou mapas) da Guiné,  dos Serviços Cartográficos do Exército, que estavam alojadas desde finais de 2005 na página pessoal do editor Luís Graça, cujo servidor era o da Escola Nacional de Saúde Pública / Universidade NOVA de Lisboa, e que ficaram temporariamente, indisponíveis, há alguns meses atrás.

Mais concretamente estavam alojadas numa pasta institulada " Luís Graça e Camaradas > Subsídios para a História da Guerra Colonial"...De qualquer modo, honra seja feita ao departamento de informática da ENSP/NOVA, os ficheiros da minha página foram-lhe devolvidos, represnetando 263 Mb de dados (5 mil ficheiros, 63 pastas)...

As cartas (ou mapas) da Guiné e os demais recursos da minha antiga página passam doravante a poderem ser consultadas, de novo,  "on line", no Arquivo.pt.(https://arquivo.pt):
 
O Arquivo.pt é uma poderosa infraestrutura de investigação, mantida pela FCT - Fundação para a Ciência e Tecnologia, que permite pesquisar e aceder a páginas da web arquivadas desde 1996. 

O principal objetivo é a preservação da informação publicada na Web  portiguesa para fins de investigação.

É sabido que, passado um ano, apenas 20% de um conjunto de endereços se mantêm válidos. E nada mais irritante e frustrante para os utilizadores da Net (incluindo os investigadores, das mais diversas áreas,  História, Sociologia, Linguística, etc.) do que  encontar "links quebrados".

Isto quer dizer o quê, no nosso caso  ? Que muitas nossas páginas, entusiástica e generosamente  criadas e mantidas, por antigos combatentes da guerra do ultramar / guerra colonial, deixam de aparecer e perdem-se irremediavelmente... Foi o caso de muitas páginas ou sítios que nós seguíamos e que, por essa razão, deixámos de listar no nosso blogue (já não existem ou os links estão quebrados).

Infelizmente, não sabemos se há uma inventário das páginas criadas neste domínio, sobretudo desde há duas décadas para cá. Algumas foram criadas em servidores, portais ou plataformas que permitiam o alojamento gratuito de páginas pessoais ou arquivo de fotos, e que hoje já nem sequer existem ou que passaram a cobrar pelos seus serviços: estou-me a lembrar do portal Terravista, por exemplo, onde eu comecei a publicar na Net,e onde tive uma página; ou do portal Sapo (inicialmenet criado em 1995 pelo Centro de Informática da Universidade de Aveiro); ou do Photobucket (cujas condições de subscrição forma alteradas em 2017, se não erro). Devíamos todos ter percebido, logo na altura, que neste mundo não há almoços grátis...

Daí o interesse do Arquivo.pt (que não deve ser confundido com o Internet Archive), permitindo "a preservação da informação publicada na Web portuguesa para que o conhecimento nela contido esteja acessível às nossas gerações futuras"... 

É o caso da página pessoal do nosso editor, "Saúde e Trabalho - Luís Graça", e o blogue que ele fundou e tem ajudado a manter desde 2004, "Luís Graça & Camaradas da Guiné"Para saber mais, ver aqui: Arquivo.pt.

O Arquivo.pt também tem uma página no Facebook: Arquivo.pt: pesquise páginas do passado.


2. Continuamos, entretanto, a repor as nossas preciosas cartas da Guiné (Escala 1/50 mil), por ordem alfabética, agora alojados no Arquivo.pt. É só carregar no link.

No final desta série continuarão a estar disponíveis na coluna estática do blogue, do lado esquerdo. Por enquanto esses links constinuam quebrados, bem como todos os topónimos que até agora (u até há alguns meses) usavam os links antigos, quando estavam alojados na página da ENSP/NOVA. Aqui vão os novos links, das cartas (de C a F):

Cabuca (1959) (inclui um troço do rio Corubal)

Cacheu / Sâo Domingos (1953) (Carta de Cacheu, inclui Cacheu, São Domingos, rio Cacheu, rio Grande de São Domingos, Caboiana...)

Cacine (1960) (inclui Cacine, rio Cacine, rio Cumbijã, parte do Cantanhez...)

Cacoca  / Gadamael (1954) (incluiu Cacoca, Sangonhã, Gadamael Porto, parte do Quitafine e do Cantanhez, rio Cacine e fronteira sudeste com a Guiné-Conacri)

Caiar  (Ilha de)  ( Como (Ilha do Como) (1959) (inclui as ilhas de Caiar, Como e Catunco, ainda o rio Cumbijã...)

Canchungo / Teixeira Pinto (1953) (carta de Teixeira Pinto, hoje Canchungo, inclui Teixeira Pinto,  Bassarel, Catequisse, Bachile / Churoenque...)


Catió (1956) (inclui Catió, Darsalame, rios Tombali, Pobreza, Cobade...)

Colina do Norte (1956) (incluin Fajonquito...)

Como (Ilha de) / Caiar (Ilha de) (1959): vd. 
Caiar  (Ilha de) (1959)

Contabane (1959) (incluin Saltinho, Contabane, rio Corubal...)

Contuboel (1956) (inclui Contuboel, Jabicunda, rio Geba...)

Duas Fontes (Bangacia) (1959) (inclui Galomaro...) 

Empada (1955) (Inclui Empada, rio Grande de Buba...)

Farim (1954) (inclui Farim, rio Farim, Canjambari, Bironque, Mansabá, K3 / Saliquinhedim...)

Guiné 61/74 - P23661: Companhias e outras subunidades sem representantes na Tabanca Grande (5): CCS / BCAÇ 697 (Fá Mandinga, 1964/66)


Guiné > Região de Bafatá > Setor L1 > Bambadinca > Carta de Bambadinca (1955), escala 1/50 mil (1955) > Posição relativa de Fá Mandinga, a escassa meia dúzia de quilómetros de Bambadinca, na direção de Bafatá. Ficava ma margem esquerda do rio Geba Estreito. Durante anos foi sede batalhão. E, mais tarde, centro de instrução militar: no 1º semestre de 1970, foi lá que se formou a 1ª CCmds Africanos, comandada pelo cap graduado 'comando' João Bacar Jaló. Também foi sede do Pel Caç Nat 63, ao tempo do nosso "alfero Cabarl (19609/70), antes de ser transferiodo para Missirá.


Infografia: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2014).

1. Temos escassas referências (meia dúzia) a este batalhão, o BCAÇ 697, e nenhum representante na Tabanca Grande. Foi esta unidade que ocupou a península da Ponta do Inglês, em 19 de janeiro de 1965, instalando ali uma companhia e depois um pelotão (*).

Era composta apenas por comando e CCS, sem subunidades orgânicas operacionais. Algumas companhias que atuaram sob as suas ordens ou estiveram integradas no seu dispositivo e manobra: CCAÇ 508, CCAÇ 526, CCAÇ 556, CCAÇ 818, CCAV 678, CCAÇ 1417, CCAV 1482, CCAÇ 1439... Não temos imagens do brasão e guião.


Batalhão de Caçadores n.º 697

Identificação: BCaç 697

Unidade Mob: RI 15 - Tomar

Cmdt: TCor Inf Mário Serra Dias da Costa Campos

2.° Cmdt: Maj Inf Abeilard Borges Teixeira Martins | Maj Inf João António Monteiro de Oliveira Leite

OInfOp/Adj: Cap Inf Fernando Luís Guimarães da Costa

Cmdt CCS: Cap SGE Diamantino Alves Gomes | Cap SGE Bento Marreiros

Divisa: 

Partida: Embarque em 15Ju164; desembarque em 2lJu164 | Regresso: Embarque em 27 Abr66

Síntese da Actividade Operacional


Era apenas composto de Comando e CCS. Não dispunha de subunidades operacionais orgânicas. (*)

Após breve permanência em Bissau com vista ao estudo e preparação da sua zona de acção, assumiu em 24Ago64 a responsabilidade do Sector H, então criado na zona Leste e retirado à área do BCaç 506, que a partir de 11Jan65, passou a ser designado por Sector LI, com a sede em Fá Mandinga e abrangendo os subsectores de Bambadinca e Xitole. 

Em 29Ag064, a sua zona de acção foi alargada do subsector de Enxalé, retirado à área do BArt 645. 

Em 16Abr65, foi ainda criado o subsector de Xime, com consequente remodelação dos subsectores.

Em 19Jan65, na sequência da operação Farol, procedeu à ocupação da região de Ponta do Inglês, onde foi instalada uma companhia a qual foi reduzida depois a um destacamento de nível pelotão, a partir de 16Abr65.(**)

Com as subunidades do sector e outras que lhe foram atribuídas de reforço, desenvolveu intensa actividade operacional, planeando, comandando e controlando diversas acções de patrulhamento, de reconhecimento e de recuperação das populações, instalando diversos destacamentos com forças das subunidades e das milícias.

Dentre o material capturado mais significativo, salienta-se: 2 metralhadoras ligeiras, 13 pistolas-metralhadora e 28 espingardas e munições de armas ligeiras.

Em 26Abr66, foi rendido no sector pelo BCaç 1888, recolhendo seguidamente a Bissau, a fim de efectuar o embarque de regresso.

Observações - Tem História da Unidade (Caixa nº  69 - 2ª Div/4ª  Sec., do AHM).

Fonte: Excertos de Portugal. Estado-Maior do Exército. Comissão para o Estudo das Campanhas de África, 1961-1974 [CECA] - Resenha Histórico-Militar das Campanhas de África (1961-1974). 7.º volume: Fichas das Unidades. Tomo II: Guiné. Lisboa: 2002, pp.  61/62.
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Notaa do editor:

(*) Último poste da série > 23 de setembro de 2022 > Guiné 61/74 - P23641: Companhias e outras subunidades sem representantes na Tabanca Grande (4): CCAÇ 2637, mobilizada pelo BII 18, Ponta Delgada, Açores (Teixeira Pinto, 1969/71), e a que pertenceu o fur mil enf Fernando Almeida Serrano, natural de Penamacor e futuro novo membro da Tabanca Grande

sábado, 1 de outubro de 2022

Guiné 61/74 - P23660: In Memoriam (453): Júlio Martins Pereira (1944-2022), ex-sold trms, CCAÇ 1439 (Enxalé, Missirá e Porto Gole, 1965/67)... Natural de Paredes, vivia em Valongo... Nosso grã-tabanqueiro nº 653... Nascemos no mesmo dia, 12/6/1944 e conhecemos as mesmas estações do inferno (João Crisóstomo, Nova Iorque)


Júlio Martins Pereira (1944-2022), ex-sold trms, CCAÇ 1439
(Enxalé, Missirá e Porto Gole, 1965/67). Foto: blogue A Minha Vida..



Torres Vedras > A dos Cunhados > Paradas > Associação de Desenvolvimento de Paradas >    15 de outubro de 2013 > Convívio do casal João & Vilma Crisóstomo com os parentes das famílias Crisóstomo & Crispim, bem com com os camaradas da Guiné. Na foto, do Júlio Martins Pereira, soldado de transmissões da CCAÇ 1439 (Enxalé, Porto Gole e Missirá, 1965/67): camarada de armas do João Crisóstomo, veio propositadamemte do Norte com a esposa, Elisa, para lhe dar um abraço de parabéns e recordar os tempos de Guiné... Há quase 50 anos que não se viam... 

Foto (e legenda): © Luís Graça (2013). Todos os direitos reservados [Edição: Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. Mensagem de João Crisóstomo, ex-alf mil at inf, CCAÇ 1439 (1965/69 (vive em Nova Iorque desde 1977):

Data - 1 out 2022, 06:24
Assunto - Lembrando o Julio Pereira (*)

Caro Luís Graça, e caros camaradas amigos, especialmente da CCAÇ 1439, 

A Vilma acaba de ver no Facebook que o Júlio Pereira nos deixou. Segundo depreendo foi ontem mesmo (30 de setembro).

Nem sei o que dizer, mas sabes bem como é, que ainda há dois dias estive a enviar-te os meus sentimentos pelo teu cunhado que era também um amigo muito especial para ti.

O Júlio e eu ficámos irmanados no momento do nosso dia de nascimento. Uma irmandade que ia durar até ao seu último momento e que para mim de alguma maneira vai continuar.

Nascemos no mesmo dia, 22 de Junho de 1944 e durante 20 anos não sabíamos sequer um do outro até que nos encontramos na Guiné. Que fez de nós mais irmãos ainda.

Partilhamos muitos dias difíceis, como foi o dia terrível em que a nossa companhia sofreu duas minas, a primeira das quais numa coluna comandada pelo alferes Zagalo que vinha de Missirá a Enxalé  e que ocasionou vários feridos e a morte do furriel Mano. E quando eu fui com o meu pelotão e outros que se ofereceram para ir connosco, a socorrê-los , acabámos por cair noutra mina que levou o Manuel Pacheco, o “Açoreano". 

Foi neste dia trágico, 6 de outubro de 1966, que o Júlio mostrou o que era, correndo muitos quilómetros sozinho a corta-mato até Finete e depois, já acompanhado com alguns nativos, passou o Geba e foi a Bambadinca alertar do acontecido e pedir heicópteros de evacuação a Bissau.

Depois do regresso ficamos muito tempo sem nos vermos até que soube dos vários “encontros”. E cedo reencontramo-nos. Haviam passado 43 anos. Mas a partir desse momento cultivámos uma amizade grande, que não acabou mais, alimentada não só em encontros de camaradas da Guiné, como em visitas pessoais. 

A última vez que o vi foi em sua casa, depois de ele ter sofrido um AVC. Verifiquei a sua coragem e vontade extraordinária de não se desencorajar. Teve nessa fase da sua vida a sorte de ter uma esposa e uma família formidável (quem sai aos seus não degenera! E ao fim e ao cabo, crédito ao Júlio, que se eles eram assim eles eram aquilo que ele fez deles) que lhe davam um carinho, ternura e apoio sem limites. Era comovente mesmo. 

Entre outras coisas fico-lhe muito grato também pela inspiração e exemplo que nesses momentos senti e experimentei.

Adeus, meu caro Júlio. Que o senhor recompense a tua amizade e a tua bondade; uma amizade e bondade que não vamos esquecer mais.

João e Vilma

PS - Fotos: vd. postes P22558, P12456, P12460, P15998…
 

2. Comentário do editor LG:

João, é com grande tristeza que vimos partir mais um dos nossos bravos.  O Júlio Martins Pereira, natural de Recarei, Paredes, vivia em Campo, Valongo. Apreciei muito o gesto, nobre, de vir à tua festa, em 2013, em Paradas. Foi lá que o conheci, um homem simples, afável, solidário. Infelizmente não voltei a vê-lo. 

Sei que há uns largos anos teve uns sérios problemas de saúde. Recordo que ele entrou para a Tabanca Grande em 16/12/2013, sendo o nº 635. É justo lembrar que foi condecorado com a Cruz de Guerra de 4.ª classe, no dia 10 de junho de 1968, na Avenida dos Aliados, no Porto. Com a sua morte, ficas tu como único representante da CCAÇ 1439 na Tabanca Grande. Somos cada vez menos.  

Registo a tua comovedora homenagem a este teu "mano", pela data de nascimento e pela camaradagem na CCAÇ 1439. Obrigado por me teres alertado por email e, logo a seguir, telefonado. 

Nesta hora, que é sempre difícil para todos, envio em meu nome pessoal e do resto da Tabanca Grande os meus votos de pesar pela sua perda, à esposa Elisa, aos filhos e netos, demais família e amigos e camaradas do peito, em especial os da CCAÇ 1439.

PS - A CCAÇ 1439 teve como unidade mobilizadora o BII 19 (Funchal), partiu para o CTIG em 2/8/1965 e regressou a 18/4/1967, tendo passado por Xime, Bambadinca, Enxalé, Porto Gole, Missirá, Fá Mandinga. O comandante era o cap mil inf Amândio Manuel Pires, já falecido. Alferes (milicianos): Freitas (Funchal, Madeira), João Crisóstomo (Torres Vedras, hoje a viver em Nova Iorque), Sousa (Vila Nova de Famalicão), Luís  Zagalo (Lisboa, ator de teatro, já falecido). 
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Guiné 61/74 - P23659: Os nossos seres, saberes e lazeres (528): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (70): Voltar à minha querida Bruxelas, depois da pandemia - 8 (Mário Beja Santos)

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 16 de Agosto de 2022:

Queridos amigos,
Um dia teria que ser. Não se pode andar impunemente a circular à volta de um edifício que terá sido um dos maiores do século XIX, nunca encontrar ensejo para subir tão farta escadaria e pedir licença para entrar no colosso. Não tenho termo de comparação para o Palácio de Justiça de Bruxelas, é sombrio por fora, de manhã, à tarde e à noite, sempre o conheci com andaimes em qualquer uma das faces e até na cúpula, quando falava dele aos meus amigos belgas diziam-me sempre, não percas tempo com aquela grandiosidade fria. Poelaert foi o arquiteto escolhido, gozava de fama, tinha no seu currículo a construção da Coluna do Congresso, a reconstrução do Théâtre de la Monnaie, mas não se ficava por aqui o seu prestígio. Reza a lenda que nunca apresentou os planos completos e definitivos do que pretendia construir. Morreu em 1879, o seu isolamento era total e a obra estava inacabada. O Palácio foi inaugurado em 1883, demorara cerca de 20 anos a pôr aquele gigante de pé, mas era um edifício em progresso e em progresso se mantém, quem o visita fica sempre com a sensação de que há muito mais coisas para acabar, é o lado enigmático, quase fantasmático, da visita. Tanto gostei que irei repetir, logo que regresse a esta terra bem amada.

Um abraço do
Mário



Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (70):
Voltar à minha querida Bruxelas, depois da pandemia – 8


Mário Beja Santos

No metro, a caminho de Hermann-Debroux, a estação mais próxima de Watermael-Boitsfort, recebo um telefonema de Alfons Driesen, o previsto guia para no dia seguinte percorrermos as cidades-jardim da comuna em que eu vivo, informa-me que tanto ele como o seu colega Emile Francqui estão impedidos por razões de saúde de me acompanhar, só depois de amanhã, agradeço, confirmo a minha disponibilidade e começo logo a dar voltar à cabeça para um programa de remedeio, já visitei Notre-Dame des Victoires no Sablon, Nossa Senhora do Bom Socorro, não sinto por ora grande disposição para percorrer os subterrâneos do Palácio Coudenberg, a residência de Carlos V, foi destruído por um terrível incêndio em 1731, o que resta são os vestígios arqueológicos, o mesmo ocorre de um conjunto de passeios guiados sobre o antigo porto de Bruxelas ou o museu de arquitetura. Ainda me sinto tentado por uma manhã de palestras dedicadas à família Bruegel na Biblioteca Real do Rei Alberto, um conjunto de peritos irá falar destes membros de família, logo Pieter Bruegel, o Velho, depois o jovem, e depois Jan Bruegel, o Antigo, no contexto da pintura do seu tempo em que se revelaram os génios de Bosch ou Bernard van Orley. É nisto que me passa pela cabeça ir finalmente ao Palácio de Justiça, o mais gigantesco edifício de Bruxelas, que me assombrara depois de ter lido o livro “Bruxelas, Percursos”, por François Schuiten e Christine Coste, uma edição do jornal Público com a ASA, 2011. É um guia que me acompanha sempre, nesta terra tão amada. Texto tão cativante que poderá servir para comentar as imagens a este babilónico templo da Justiça.
Não se lhe consegue escapar. Mais tarde ou mais cedo, avistamo-lo. De longe, a sua cúpula coroada e decorada a ouro serve de ponto de referência. De perto, o edifício monumental de aspeto sombrio e severo interroga-nos, inquieta-nos ou fascina-nos. O Palácio da Justiça de Bruxelas não deixa ninguém indiferente. Leopoldo I nomeou o arquiteto Joseph Poelaert, em 1861 para seu arquiteto. Durante 17 anos, Poelaert, glorificado e depois repudiado, enfrentou esta construção desmensurada, erguida sobre um canto de Marolles, tudo foi destruído à volta para implantar esta magnificência de colunas, arcos, escadarias e vestíbulos monumentais. Vou descobrir como o interior oferece um cenário fascinante. A construção continua inacabada. Fica-se especado frente a este edifício sombrio, à volta circulam elétricos e carros, o panorama que se desfruta do miradouro, ali bem perto, é de uma largueza sem paralelo, em frente ao edifício ciclópico pranta-se um monumento de homenagem aos combatentes da Primeira Guerra Mundial.
Sempre conheci o Palácio em obras, sempre com andaimes em qualquer ponto do colosso de pedra. Fiz a volta completa pelo exterior, é hora de nele penetrar, o guia usa expressões misteriosas, há imensos espaços que permanecessem inacessíveis, portas que nunca foram abertas, paredes falsas, catacumbas ainda por explorar, fala-se mesmo em símbolos maçónicos, tudo somado e multiplicado são 26.000 m2 de área, 576 divisões, 8 pátios interiores (hoje cobertos), sobem-se os degraus e entra-se neste templo desmesurado, atravessa-se o pórtico de colunas.

Tudo foi pensado para ser solene. Multiplicadas, aumentadas ou engrossadas, colunas, pilastras, cornijas, abóbadas e esculturas, temos um registo grave e grande eloquente, é uma espantosa mistura de estilos onde avulta o greco-romano, o egípcio e o mesopotâmico. A Grécia omnipresente, Roma menos, temos para ali estátuas de Cícero, Demóstenes, Sólon, um busto de Minerva, segue-se a apoteose do espaço, a Sala dos Passos Perdidos, 3.600 m2 de superfície, colocada no centro do edifício, e para quebrar a vertigem ao mastodonte temos a cúpula, 100 m acima do olhar, uma nesga de céu fictício. Aqui e acolá, passam advogados, clientes, magistrados, funcionários e visitantes como eu. Há mesmo um quiosque de jornais, no chão uma estrela de cinco pontas, com a ponta virada para o Sul, para o alto, símbolo maçónico benevolente, estrela que ilumina, luz sobre o mundo. E sobe-se para a galeria do 1º andar, há duas escadarias monumentais à escolha.
Aqui sente-se a Justiça, há tribunal criminal ou de primeira instância, Supremo Tribunal de Justiça, registo comercial, arquivo, bibliotecas, salas umas atrás das outras, viajo sem destino, já percebi que não vale a pena guiar-me pelos números das salas de julgamento, mas pode-se bisbilhotar pelas portas entreabertas enquanto avançamos pelo labirinto. Descanso e leio mais pormenores do meu percurso. À direta da Sala dos Passos Perdidos, a descida anuncia-se numa longa vaga gelada rodeada de galerias que desenham braços desnudos cada vez mais largos à medida que nos aproximamos da enorme porta de entrada. Poelaert imaginou uma praça, desafogada, nada se concretizou porque os habitantes do bairro de Marolles contestaram mais razia, aquele Palácio obrigara a que 15.000 habitantes tivessem procurado refúgio na parte baixa de Marolles ou na comuna de Saint-Gilles, tudo sem indemnização. Pode pensar-se no rancor desta população que foge de qualquer convívio com tal monstruosidade de pedra.
Enquanto por aqui me passeio, recordo que já percorri este itinerário à noite, há refletores suspensos no teto que espalham uma luz branca, fica uma atmosfera crepuscular que tornam este Palácio um cenário de cinema. Não é por acaso que aqui têm lugar filmagens. E venho para a rua lendo que há diligências oficiais para que o Palácio seja declarado património mundial. E o guia diz-nos ainda que este Palácio de Justiça é um enigma cujo corpo de delito escapa ao entendimento, à semelhança da cidade em redor. Como ele, Bruxelas cresce presa na teia das suas decisões e das suas errâncias, deslocando-se pelas partes mais cinzentas e destrutivas do seu espírito, assim como pelas mais luminosas e criativas. Concluída a visita, uma contemplação a quem deu a vida pela pátria, isto de ser antigo combatente tem muito que se lhe diga em redes de companheirismo e de solidariedades inatingíveis.
(continua)
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Nota do editor

Último poste da série de 24 DE SETEMBRO DE 2022 > Guiné 61/74 - P23642: Os nossos seres, saberes e lazeres (527): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (69): Voltar à minha querida Bruxelas, depois da pandemia - 7 (Mário Beja Santos)