Tenho cada vez mais admiração por este homem, o Cristina (como era conhecido na sua companhia, a CCAÇ 3546) que foi para a Guiné, casado, pai de uma filha de três anos, e que mal sabia ler e escrever... Que a vida foi-lhe madrasta e a sua meninice acabou cedo: aos onze anos já trabalhava no duro, para o "pai e patrão" (ainda vivo, com 89 anos)...
Foi a Goretti que foi a sua professora, em casa e no monte, no meio do gado que ele guardava, ainda antes do tempo da recruta (que ele fez em Viseu, no RI 14, vd. foto ao lado, à direita), ensinando-lhe as letras suficientes para ele ler os aerogramas e as cartas, sofridas e apaixonadas, que ela lhe mandaria depois, de Figueira de Cavaleiros, para o Ultramar (para onde quer que ele fosse, Angola, Guiné ou Moçambique), e para de volta ele lhe contar, a ela (e só a ela), os seus segredos e sofrimentos, sem necessidade de partilhar a sua vida íntima com mais ninguém (e nomeadamente os camaradas que tinham andado da escola)...
É uma grande lição de amor!!! E foi a mesma Goretti, a Maria Goretti, quem o incentivou, dez anos depois de regressar da Guiné, a meter-se no negócio do pão: afinal, ele tinha sido o melhor padeiro do leste... Por que é que não haveria de montar a sua empresa, em vez de andar à jorna ?!
Continuação da publicação do álbum fotográfico de Jacinto Cristina (Sold At Inf, CCAÇ 3546, 1972/74) (*).
Guiné-Bissau > Região de Bafatá > Ponte Caium > Dois monumentos de homeagem aos bravos de Caium, construídos presumivelmente em 1975: (i) Memorial aos mortos da CCAÇ 3546 (1972/74): "Honra e Glória: Fur Mil Cardoso, 1º Cabo Torrão, Sold Gonçalves, Fernandes, Santos, Sold AP Dani Silva. 3º Gr Comb, Fantasmas e Lestos (?). Guiné- 72/74"; (ii) "Nem só de pão vive o home. Guiné, 1972-1974".
Recorde-se o trajecto do Jacinto Cristina e dos seus camaradas: (i) o Cristina fez a recruta no RI 14, em Viseu, e a especialidade no RI 2, Abrantes; (ii) Foi mibilizado para a Guiné, como Sold At Inf, da CCAÇ 3546; (iii) esta subunidade pertencia ao BCAÇ 3883, mobilizado pelo RI 2; (iv) A CSS estava sediada em Piche; (v) O comandante era o Ten Cor Inf Manuel António Dantas; (vi) O comandante da CCAÇ 3546 era o Cap QEO José Carlos Duarte Ferreira; (vii) As outras companhias do BCAÇ 3883 era a CCAÇ 3544 (Buruntuma e Piche; teve dois comandantes: Cap Mil Inf Luís Manuel Teixeira Neves de Carvalho; Cap Mil Inf José Carlos Guerra Nunes) e a CCAÇ 3445 (Canquelifá e Piche; comandante, Cap Mil Inf Fernando Peixinho de Cristo); (ix) estas quatro subunidades partiram para a Guiné de avião, o comando e a CCS/BCAÇ 3883, em 19/3/1972; a CCAÇ 3544, a 20; a CCAÇ 3545, a 22; e a CCAÇ 3546 a 23; (x) Regressaram a casa, de avião, em Junho de 1974.
Fotos: © Eduardo Campos (2010) / Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné. Todos os direitos reservados.
O mais espantoso foi que, quando eu cheguei lá a casa, em Figueira de Cavaleiros, por volta das 16h de ontem, sábado, e lhe dei as duas fotos do Eduardo Campos, o Jacinto comentou, logo de rajada:
- Mas é o mê forno!...
Há dois monumentos que se conservam na ponte de Caium, mandados erigir por alguém da CCAÇ 3546 que terá sido empresário na Guiné-Bissau, depois da independência... O Jacinto diz que poderá ser um ex-furriel do 1º Gr Comb. Um desses monumentos é uma simples base de pedra, encimada pelo forno de Caium, que pura e simplesmente terá sido cirurgicamente "removido" e "trasladado" do sítio onde estava originalmente... E nessa pedra pode ler-se a melhor homenagem que alguém poderia fazer aos heróis de Caium: "Nem só de pão vive o homem. 72-74"...
O Cristrina agradece, emocionado, ao Eduardo Campos as fotos que ele lhe mandou, bem como ao "mais velho" Luís Borrega, pelos comentários que deixou no blogue...
Ferreira do Alentejo > Figueira de Cavaleiros > 25 de Setembro de 2010 > Jantar em casa do Jacinto Cristina (aqui à esquerda, seguido da sua filha Cristrina, do seu genro, o médico Rui Silva, meu ex-aluno e grande amigo, e eu próprio, brindando aos nossos felizes encontros).
Ferreira do Alentejo > Figueira de Cavaleiros > 25 de Setembro de 2010 > Jantar em casa do Jacinto (aqui ao lado da esposa, Maria Goretti; em segundo plano, a filha única do casal, Cristina, que tinha 3 anos quando o pai foi mobilizado para a Guiné, em 1972, e que rezava todos os dias por ele...
Ferreira do Alentejo > Figueira de Cavaleiros > 25 de Setembro de 2010 > Jantar em casa do Jacinto > O famoso arroz de lebre à moda da Maria Goretti... (Só falta o gosto e o cheiro, para completar a foto).
Ferreira do Alentejo > Figueira de Cavaleiros > 25 de Setembro de 2010 > Jantar em casa do Jacinto > Até à última gota de... uísque. Buchanan's, from Scotland, for the Portuguese Armed Forces... with love... Esta foi comprada em Bissau, em Junho de 1974, e aberta no nosso primeiro encontro, na festa de anos da Cristina, em Março passado.
Fotos: © Luís Graça (2010) / Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné. Todos os direitos reservados.
Guiné > Zona Leste > Região de Gabu > Piche > CCAÇ3546 (Piche, Ponte Caium e Camajabá, 1972 / 1974) > Destacamento da Ponte do Rio Caium > Da direita para a esquerda: Jacinto, Alexandre (Trms, natural de Peniche), Rocha (condutor, algarvio) e Santiago (1º cabo, atirador, estavana na cantina, onde havia uma arca a petróleo, pelo que, apesar de tudo, não faltava a cerveja, a coca-cola e a fanta, estupidamente geladinhos)... Na ponte, estava o 3º Gr Combate (c. 30 elementos).
Guiné > Zona Leste > Região de Gabu > Piche > CCAÇ3546 (Piche, Ponte Caium e Camajabá, 1972 / 1974) > Destacamento da Ponte do Rio Caium, 3º Gr Comb, 1973/74 > O "campo da bola", no lado esquerdo da ponte, no sentido Piche/Buruntuma... Um bocado da lala que circundava as margens do Rio Caium...
Guiné > Zona Leste > Região de Gabu > Piche > CCAÇ3546 (Piche, Ponte Caium e Camajabá, 1972 / 1974) > Destacamento da Ponte do Rio Caium, 3º Gr Comb, 1973/74 > Da esquerda para a direita, quatro bons amigos: JacintoCristina, Rocha, Sobral (amigalhaço do Jacinto, hoje residente no Cercal do Alentejo, Santiago do Cacém) e um quarto camarada que o Jacinto não conseguiu identificar (seria alguém de rendição inidvidual, proveniente de outra companhia)...
Estão vestidos, dois, "para a fotografia"... Da ponte não se podia ir a lado nenhum, por razões de segurança: afinal, estava-se a escassos quilómetros da fronteira com a Guiné-Conacri onde o PAIGC gozava de total liberdade de movimentos; por outro lado, verdadeiramente não havia onde ir ... A sul da ponte do Rio Caium corria o Rio Coli, que servia de fronteira, e de que o Caium era um afluente... A nordeste da ponte, havia uma aldeia fula, a cerca de 3 quilómetros... Ele não se lembra do nome: pela carta de Piche, verifica-se haver (pelo menos antes da guerra) duas tabancas a nordeste da ponte: uma mais próxima, Temanco (Malã Dalassi): e outra mais acima, Sinchã Mádi Maudô.
O Jacinto nunca lá foi a Temanco (julgo que seja esta a tabanca em causa), sobretudo depois de um conflito, na ponte, com uma lavadeira e, por tabela, com o régulo, conflito esse que deu origem a um processo disciplinar, que foi "limpo" com a chegada do novo Governador Geral e Com-Chefe, em meados de 1973, o Bettencourt Rodrigues... (A solução salomónica a que se chegou foi: a lavadeira pagou 250 pesos por uns calções de banho que levaram sumiço (e que nem eram dele,era de um furriel); ele, Cristina, teve que pagar 200 pesos por um brinco da lavadeira, que ele partiu ou amolgou...).
O Jacinto e o Sobral tinham uma máquina fotográfica comprada a meias (...por 500 escudos, em 2ª mão, a um rapaz de Grândola, da companhia de Canquelifá)... O tenente (dos serviços gerais) de Piche, da CCS do batalhão, é que revelava as fotos... O Jacinto e o Sobral revendiam-nas, salvo erro, a três escudos por foto ("metade era lucro", confessa)... Maduro e responsável, com mulher e filha na Metrópole à espera dele, o Cristina não era homem para gostar o pré, logo no primeiro dia, em bebedeiras de cerveja... "Andava sempre com um conto no bolso", mas sabia gastar com conta, peso e medida...
fotos: © Jacinto Cristina (2010) / Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné. Todos os direitos reservados
[Fotos digitalizadas, editadas e legendadas por L.G.]
(*) Último poste da série > 25 de Setembro de 2010 > Guiné 63/74 - P7036: Álbum fotográfico de Jacinto Cristina, o padeiro da Ponte Caium, 3º Gr Comb da CCAÇ 3546, 1972/74 (2): Os tempos livres de um caiumense...
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Nota de L.G.:
(*) Último poste da série > 25 de Setembro de 2010 > Guiné 63/74 - P7036: Álbum fotográfico de Jacinto Cristina, o padeiro da Ponte Caium, 3º Gr Comb da CCAÇ 3546, 1972/74 (2): Os tempos livres de um caiumense...







13 comentários:
Luís ontem no regresso de uma visita a Castro Verde e devido o transito estar interrompido por motivo de obras recuperação da ponte em Santa Margarida do Sado, passei próximo de Figueira de Cavaleiros.
Bebi um café em Canhestros que fica a poucos km.de Figueira de Cavaleiros.
Mas não tive coragem de interromper o teu repasto arroz de lebre.
Um abraço.
Colaço.
Caro Luís
Fiquei sensibilizado pelas palavras amigas do Jacinto Cristina para a "Velhice". A bianda com estilhaços de lebre da "Mulher Grande", devia estar um espanto, malandrinho e tudo...só faltava o aroma, depois o pão alentejano "à Moda de Caium", regado com aquele nectar alentejano, frutoso e aromático à uva. Foi um almoço seguramente de 5estrelas.
Abraço do tamanho do Corubal(não digo Caium pois o rio era pequeno)
Luís Borrega
Luís
Desculpa no comentário anterior escrevi almoço, quando deveria ter
escrito jantar.
O Jacinto faz referência à tabanca perto da P.Caium que ficava a 2-3 Kms, também tal como ele nunca lá fui.
Abraço
Luís Borrega
Colaço:
Tem piada, fui dormir a Serpa e no regresso a Lisboa tive de fazer o desvio para a IP8 / A2, passando por Canhestros, já que a ponte de Santa Margarida do Sado está em obras (IP 8)...
Como o Alentejo está a mudar, são quilómetros de oliveiras... O mais assustador é a desertificação (humana)... Para a próxima, faz uma visita ao Jacinto e leve um pão... Ele estava feliz e radiante çpor ver as suas fotos e histórias da Ponte Caium, no blogue... Para a próxima já quer juntar mais malta do tempo dele...
Segundo a carta de Piche, havia - pelo menos antes da guerra - duas tabancas, a nordeste da ponte: Temanco (Malã Dalassi)e Sinchã Mádi Maudô...
Luis
Acabo de chegar de Évora,local onde este ano se concentrou o pessoal da minha Companhia.
Andei três dias percorrendo o Alentejo e tu tão perto, mas pelo que vi das fotos da ementa, deves ter ficado feliz pelo Colaço não ter coragem de interromper e eu não saber onde te encontravas!!!!!!!!!!
Este espaço continua a surpreender-me com histórias fantásticas que vão surgindo com frequência.
Como é possível eu tirar uma foto, pensando que seria uma simples referência relacionada a C CAÇ 3546e afinal era o que (resta do forno) do Jacinto? O que importa é que a ignorância do fotografo propocionou ao Jacinto uma legria muito grande e eu que tenho alguma responsabilidade,por isso mesmo e á distância compartilho contigo a mesma alegria.
Para ti Luis e Jacinto uma Abraço.
Eduardo Campos
Eduardo:
De facto, também a mim não me ocorreu que a legenda "nem só do pão vive o homem", na base do monumento pudesse estar associada, fisica e simbolicamente, ao célebre forno de cozer o pão, e que o Jacinto reconheceu de imediato:
- Mas é o mê forno!
Não imaginas a alegria do camarada!... Sei que já andou a mostrar as tuas fotos a amigos e familiares...
É uma história bonita, com um efeito de halo que tu prolongaste... Tudo começou, de resto, com outra fotografia, a do Henrique Castro...
Um dia teremos de lá ir, todos juntos, comer o pão que o nosso camarada ainda, por enquanto, vai fazendo todos os dias... Mas tem já um dos braços incapacitados, devido a uma lesão grave... Tem um sobrinho, ajudante...Está com 60 anos, um dia destes via ter que se reformar... Chegou a vender 500, 600, 700 pães por dia... Hoje o negócio decaiu, por mudança de hábitos alimentares e maior concorrência...
Ontem (em Caium) como hoje (em Figueira de Cavaleiros) o nosso padeiro trabalha de noite e dorme de dia... para que o pão não falte à mesa da gente.
Caros camaradas
Esta história e as suas envolventes são daquelas coisas que nos fazem bem, provam como este Blogue é útil, pelo menos para aqueles que previlegiam a amizade, o companheirismo, a solidariedade.
Quanto à frase que se encontra do lado esquerdo e não totalmente visível é "Fantasmas do Leste".
Um abraço
Hélder S.
Estou de acordo contigo, Hélder, a missão do nosso blogue, é apenas essa, a de fazer bem aquem fez a guerra e a sofreu, independemente do lado da barricada em que se estava... Não estamos a concorrer com ninguém, nem contra ninguém, apenas contra o tempo... Porque o relógio biológico, esse, não perdoa...
"Fantasmas do leste": não tenho certeza se era o lema da CCAÇ 3546, se era apenas o do 3º Gr Comb (que esteve na Ponte Caium mais tempo). Inclino-me mais para a primeira hipótese.
Mas tu que foste utente (quantas vezes ?)da Ponte Caium, diz-me lá quais são as tuas recordações, mesmo fugazes, desse lugar que ficava mais ou menios a menos enter Piche e Buruntuma ?!
Estou de acordo contigo, Hélder, a missão do nosso blogue, é apenas essa, a de fazer bem aquem fez a guerra e a sofreu, independemente do lado da barricada em que se estava... Não estamos a concorrer com ninguém, nem contra ninguém, apenas contra o tempo... Porque o relógio biológico, esse, não perdoa...
"Fantasmas do leste": não tenho certeza se era o lema da CCAÇ 3546, se era apenas o do 3º Gr Comb (que esteve na Ponte Caium mais tempo). Inclino-me mais para a primeira hipótese.
Mas tu que foste utente (quantas vezes ?)da Ponte Caium, diz-me lá quais são as tuas recordações, mesmo fugazes, desse lugar que ficava mais ou menios a menos enter Piche e Buruntuma ?!
Luís Borrega, comfirmas que a tabanca mais próxima era Temanco ? E que era fula ?
Caro Luís Graça
Na carta militar da Guiné que eu possuo,a tabanca vem como Temanco (Malà Delassil), possívelmente mudaram de Malà Delassil para Temanco. Quanto à etnia eram fulas de certeza.
Mantenhas para Bó
Luís Borrega
No face book para a ccaç 3546 é apontada a divisa "nobreza no dever". Mas pode não estar correcto.
Abraço,
Carlos Cordeiro
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