Mensagem do Paulo Santiago, de 25/03/2008
Após a leitura do P2679, escrito pelo camarada Mexia Alves, existem algumas questões que importa esclarecer. Comecemos pela frase A guerra da Guiné estava perdida.
Vou socorrer-me do livro Contra-Insurreição em África, de John P.Cann, oficial-aviador da Marinha norte-americana.
Cito da pág 255 do livro referido.
Numa análise final, enquanto Portugal lutava numa campanha imaginativa a fim de conservar as suas colónias numa época anti-colonial, não havia fibra militar que conseguisse superar o problema político da legitimidade de Portugal em África.
Devido a esta circunstância, Portugal perdeu a guerra e finalmente as suas colónias, apesar dos enormes sacrifícios feitos (…)
Em 1970, o General Spínola refreara o ímpeto do PAIGC e originara um impasse através de uma liderança enérgica e do seu progama social 'Uma Guiné Melhor'.
Este impasse começou a desaparecer em 1973, à medida que o exército compreendia que a solução política necessária não estava à vista (…) as forças militares não poderiam pôr fim à guerra.
Nenhuma espécie de campanha imaginativa conseguiria fazê-lo. O general Spínola e todas as forças armadas portuguesas estavam cientes deste facto. Contudo, os líderes políticos de Portugal permaneceram sem visão e afastados da realidade.
No post anunciado acima vem também a frase A política fez a guerra, a política acabou a guerra, e esta é a verdade.
Concordo com a primeira parte, foram de facto os políticos, a partir do Terreiro do Paço, que 'fizeram' a guerra, mas não foram eles que a acabaram, e volto ao livro referido, pág.256:
Administrou (o exército) habilmente a utilização das vidas e dos bens. Quando os políticos não conseguiram providenciar o necessário apoio complementar, foi o exército que interveio a 25 de Abril de 1974 e ofereceu a solução política que não só libertou as colónias mas libertou também Portugal e tornou possível a transição para a democracia.
Penso que não está a haver um endeusamento do PAIGC e um apoucamento das Forças Armadas Portuguesas, estas com os poucos meios disponiveis bateram-se arduamente sempre à espera da solução política que nunca apareceu.
Para terminar, façam o julgamento, pondo de um lado o Cor Coutinho e Lima que retirou de Guiledje, levando 800 pessoas, militares e civis, do outro o Cor Castro Lemos e o Lourenço que mandaram para o matadouro (Paulo Malu dixit) do Quirafo os militares, milícias e civis que nós sabemos.
Abraço
Paulo Santiago
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Fixação de texto da responsabilidades de vb.
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2 comentários:
Amigo Paulo Santiago, estou de acordo com o que adiantas, tanto no que escreves como dos textos de que socorres. É claro que já não deviam haver confusões do tipo das que ainda vão aparecendo e que motivam a tua intervenção mas como elas por vezes se manifestam é sembre bom que aclarem as coisas.
Hélder Sousa
Meu caro amigo Paulo Santiago
Quando eu digo, «A política fez a guerra, a política acabou a guerra», repara que não estou a dizer os "politicos", mas sim a "politica", (que aliás tu referes, quando dizes «solução política»), para diferenciar exactamente aquilo que dizes, ou seja, que não foram as Forças Armadas que perderam a guerra.
O que eu digo ainda é que a frase tantas vezes repetida de que a "guerra da Guiné estava perdida", no sentido militar, é uma frase que não corresponde à verdade e é baseada apenas em três ou quatro acções bem desenvolvidas pelo PAIGC, quer militarmente, quer como propaganda, mas não constituem minimamente o todo da guerra.
Se nos quisermos lembrar por exemplo da guerra civil, infelizmente acontecida em Angola depois da independência, veremos que a dada altura a maior parte dos analistas dava como certa uma vitória da UNITA, o que afinal não veio a acontecer, e tantos mais exemplos que poderemos citar em tantas guerras infelizmente acontecidas na humanidade.
Atenção que com isto eu não estou a fazer a apologia da guerra! Acabou, ainda bem que acabou, não deveria ter acontecido, e é importante que se faça o encontro entre povos e que se possam ajudar mutuamente.
Quando me refiro ao "endeusamento" e "apoucamento", refiro-me a que, volto a repetir na minha opinião, alguns textos pareciam transmitir de um lado um PAIGC vencedor, inteligente, a fazer tudo bem feito e do outro lado umas Forças Armadas, derrotadas, desesperadas e sem rumo.
Poderei estar a exagerar, mas sei que muita gente o sentiu assim e o que eu quis dizer foi que, para haver um verdadeiro encontro entre povos não se pode adquirir "poses" de vencedor e atitudes de "vencido".
Agora, ó meu amigo Paulo Santiago, que raio de comparação entre a decisão da retirada do Guiledge e a decisão que levou à emboscada do Quirafo!
Abraço amigo do
Joaquim Mexia Alves
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