terça-feira, 28 de junho de 2022

Guiné 61/74 - P23390: Depois de Canchungo, Mansoa e Cufar, 1972/74: No Espelho do Mundo (António Graça de Abreu) - Parte XXXV: Teruel, Aragão, Espanha, 2017




Teruel, Aragão, Espanha, 2017



[ António Graça de Abreu, foto à esquerda:  (i) docente universitário reformado, escritor, sinólogo (especialista em língua, literatura e história da China); (ii) natural do Porto, vive em Cascais; (iii) autor de mais de 20 títulos, entre eles, "Diário da Guiné: Lama, Sangue e Água Pura" (Lisboa: Guerra & Paz Editores, 2007, 220 pp); (iv) ex-alf mil, CAOP1, Canchungo, Mansoa e Cufar, 1972/74; (v) é membro da nossa Tabanca Grande desde 2007, tem mais de 310 referências no blogue; (vi) texto e fotos enviados em 16/6/2022 ]


Teruel, Aragão, Espanha, 2017

por António Graça de Abreu (*)


Por dentro um do outro
Caminham os amantes,
Desenham com seus pés
Novas rotas navegantes.


Jacques Plante, adaptação Dulce Pontes


Venho no meu coche de prata, subindo e descendo montes, das terras da Catalunha para as de Aragão.

Gosto do nome do burgo, Teruel, assim a modos do voltear de um passo de dança. Chego de mãos abertas na brisa do fim do Verão de 2017. A cidade suspensa em terraços a dardejar ao sol abre-me os braços, as torres mudéjar, S. Pedro, S. Martin a passear no clarão do céu, as ruelas íngremes e tortuosas a serpentear por entre o casario.

Por aqui, há dez séculos, pelejavam mouros e cristãos, Depois, castelhanos, aragoneses, franceses, espanhóis, franquistas, republicanos, todos em guerra. Quanto ódio, quanta luta, quanto sangue! Hoje, a pequena Teruel quase vazia, ocre e verde, recortada num horizonte azul, cintilando em paz nos olhos do quase entardecer.

Entro na igreja de S. Pedro. Na capela, dois túmulos, duas estátuas jacentes. São Juan Diego de Marsilla e Isabel de Segura, No distante século XIII desciam separados a encosta e encontravam-se em segredo no verde do fundo do vale, sob choupos e ulmeiros. A terra, o musgo, a erva brava eram o aconchegado leito dos amantes que adormeciam enredados em prazer e ternura, cobertos por mantas de nuvens e pedaços de céu.

Quão difícil um amor tão puro! Diego era de família nobre mas arruinada, empobrecida. Isabel era filha de poderosos, senhores de feudos em Segura e Aragão. A Diego deram cinco anos para conseguir fama e fortuna. O rapaz regressou, rico e famoso mas Isabel era agora a triste esposa de um dos fidalgos da cidade. Diego morreu de desgosto, o coração trespassado pela mágoa. No dia seguinte encontraram Isabel morta.

Hoje, sete séculos depois, na penumbra da pequena capela, dois túmulos, duas estátuas jacentes, a pedra doce onde moram os poetas, 
Juan Diego de Marsilla e Isabel de Segura, ainda de mão dada.

António Graça de Abreu
___________

Nota do editor:

(*) Último poste da série > 31 de maiode2022 > Guiné 61/74 - P23316: Depois de Canchungo, Mansoa e Cufar, 1972/74: No Espelho do Mundo (António Graça de Abreu) - Parte XXXIV: Pisa, Toscana, Itália, 2014

1 comentário:

Tabanca Grande Luís Graça disse...

É um tema universal, o dos (e)ternos amantes que a vida separa e que a morte une... Afinal, o amor é mais forte que as conveniências sociais... LG