domingo, 11 de fevereiro de 2024

Guiné 61/74 - P25158: Blogpoesia (797): "Mãos de hoje que foram de sempre", por Adão Cruz, ex-Alf Mil Médico da CCAÇ 1547 / BCAÇ 1887 (Canquelifá e Bigene, 1966/68)


MÃOS DE HOJE QUE FORAM DE SEMPRE

Na noite que já não é mais noite de madrugadas perpassa em doce silêncio por entre os dedos dormentes uma brisa dolente esquecendo as mãos na paz adormecida.

Por entre os frágeis dedos de quietude e silêncio perpassa agora em suave melancolia o magro regato da secura da vida arrastando em seu leito rugoso a triste canção de um tempo sem cor nem movimento.

O lento gesto do abrir destas mãos de tantos anos vividas cai agora em pesado silêncio por entre as malhas da sombra no impiedoso vazio das mãos cheias de nada.

Foi-se embora a madrugada das manhãs perdidas no tempo em que o sol sorria por entre os sonhos e as mãos cantavam a força da vida como ondas do mar entre os dedos frementes.

No penoso abrir e fechar de mãos deste plangente gesto do fim do dia feito canção de tão gélido silêncio apenas a saudade se aninha no fundo escuro para morrer sozinha.

Adão Cruz

____________

Nota do editor

Último poste da série de 28 DE JANEIRO DE 2024 > Guiné 61/74 - P25116: Blogpoesia (796): "A Mensagem que deixaste", por Adão Cruz, ex-Alf Mil Médico da CCAÇ 1547 / BCAÇ 1887 (Canquelifá e Bigene, 1966/68)

2 comentários:

Eduardo Estrela disse...

Mãos que transmitem por gestos de escrita a força do coração e da alma.

Bela prosa poética!!

Obrigado pela partilha Dr. Adão Cruz
Abraço
Eduardo Estrela

António J. P. Costa disse...

Olá Camarada

Boa prosa poética!
É a primeira vez que vejo um médico observar a morte de alguém que se vai extinguindo.
Observação com detalhe, atenção e reconstituindo a a ventura daquelas mãos.
Já observei como leigo, as mãos dos que se aninham como podem no Curry Cabral...

Um Ab. e bem hajas
António J. P. Costa