Cabeçalho da Ordem de Operações nº 1/74. O documento foi desclassificado em 2017. “Documento cedido pela Biblioteca Central da Marinha - Arquivo Histórico”
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Luís Gonçalves Vaz, grão-tabanueiro nº 530 filho do Cor Cav CEM Henrique Gonçalves Vaz (Barcelos, 1922- Braga, 2001) (último Chefe do Estado-Maior do CTIG, 1973/74, e, a partir de 26 de agosto de 1974, foi também o chefe do Estado-Maior do Comando Unificado no TO da Guiné) |
Introdução: A Memória e o Documento — Revisitando o 15 de outubro de 1974
Ao longo das últimas décadas, a narrativa sobre a presença portuguesa na Guiné tem sido construída, por um lado, pelo depoimento vivido daqueles que ali serviram e, por outro, pelo silêncio, muitas vezes imposto, dos documentos que só agora começam a ser plenamente integrados na historiografia pública com a sua "Desclassificação" nos vários Arquivos Portugueses.
Este artigo propõe uma revisitação necessária à data de 15 de outubro de 1974 — o marco derradeiro da retirada das tropas portuguesas do CTIG.
Se, em 2012 (data do meu último artigo sobre a Retirada Final da Guiné) (*), a abordagem a este momento histórico dependia essencialmente da memória oral e do relato pessoal, hoje, o distanciamento temporal e
o acesso a fontes primárias de natureza confidencial já "desclassificadas", permitem-nos um olhar clínico e rigoroso.
Através do cruzamento inédito entre a Ordem de Operações nº 1/74 do Comando Unificado — documento que traçou, com precisão técnica e logística, o complexo movimento de retirada por via marítima entre os dias 14 e 15 de outubro — e os testemunhos diretos, nomeadamente do meu falecido pai, cor cav CEM Henrique Gonçalves Vaz, último Chefe do Estado-Maior do Comando Unificado na Guiné, e a perspetiva, no terreno, do meu primo marinheiro radiotelegrafista Manuel Beleza Ferraz, procura-se aqui não apenas narrar, mas documentar a mecânica da descolonização nesta Colónia Portuguesa.
Mais do que o relato de um fim, este artigo pretende ser um exercício de rigor histórico: confrontar o plano operacional com a realidade humana da partida. Ao alinhar a "Ordem de Operações" com a "ordem dos afetos e da vivência", este trabalho oferece aos amigos e camaradas da Guiné e aos demais leitores do nosso blogue uma nova leitura sobre o desfecho de uma missão que marcou, definitivamente, a história de Portugal e da Guiné.
Um grande Abraço
Braga, 08/06/2026
Luís Beleza Vaz
(Tabanqueiro nº 530 e filho do último CEM/CTIG)
(foto: cortesia do blogue Restos de Coleção > 20 de setembro de 2015 > Paquete "Uíge" )
A Última Operação> Retirada Final – Ordem nº 1/74: Retirada da Guiné em 15 de outubro de 1974
por Luís Gonçalves Vaz
MISSÃO: Efectuar a Retirada Final das NT (nossas tropas) da Ilha de Bissau garantindo o seu embarque via marítima para a Metrópole com a maior discrição, dignidade e segurança.
A Ordem de Operações nº 1/74 foi um documento estratégico de alto nível, emitido pelo então Comando-Chefe das Forças Armadas da Guiné (CCFAG), que definiu as fases, os meios logísticos (navios, transportes aéreos, etc), as responsabilidades de segurança e os itinerários de retirada (**).
Como já apresentei aqui no blogue, no poste P9535, de 26 de fevereiro de 2012, um artigo sobre a “Retirada Final” da Guiné (*), resolvi agora, e com recurso à consulta do Fundo Coloredo do Arquivo Histórico da Marinha, nomeadamente à consulta da Ordem de Operações nº 1 de 1974, BCM (Biblioteca Central da Marinha)(Pasta 179), Diretiva de 9 de outubro de 1974 do Comandante-Chefe aos Comandantes dos três Ramos das Forças Armadas no TO da Guiné, realizar um artigo com mais detalhe sobre esta última operação militar, comandada pelo Comodoro Vicente de Almeida d ́Eça, que foi o Comandante do Comando da Defesa Marítima da Guiné entre 4 de janeiro de 1974 e 28 de outubro de 1974, bem como o Comandante da Força Naval que transportou os últimos efetivos portugueses ali estacionados.
A referência à Ordem de Operações nº 1/74 como o plano mestre para a retirada final de cerca de 2.500 militares (os últimos contingentes que permaneceram em Bissau e noutros pontos fulcrais nesta altura do mês de outubro), reflete o culminar da transição negociada entre o Comando-Chefe português, liderado à época por Carlos Fabião, e o PAIGC.
Depois de de lermos a Ordem de Operações nº 1/74, percebe-se que esta retirada não foi apenas um "ir embora", pois exigiu a catalogação e o transporte de material de guerra, a coordenação com a Força Aérea e a Marinha (especialmente o papel dos navios de transporte, como o Uíge, que figura nas memórias fotográficas da época como o símbolo do final da presença portuguesa) e a manutenção de um cessar-fogo rigoroso que evitasse incidentes durante a desocupação das posições.
A emissão desta ordem de operações, o "Ponto Final" da nossa Colónia da Guiné, foi o instrumento que permitiu que o processo, iniciado com o Acordo de Argel assinado em 26 de agosto de 1974, se concretizasse. O facto de ser a "nº 1/74" sublinha que se tratou da primeira e decisiva operação de desmobilização total e encerramento de um Teatro de Operações, após décadas de guerra.
Esta ordem representa, na prática, um "roteiro" para o fim da Guerra Colonial na Guiné, marcando a passagem de um estado de beligerância para a transferência de soberania, consolidando assim a retirada das tropas que, em outubro de 1974, aguardavam nas docas de Bissau a sua partida definitiva para a Metrópole.
Este documento é, sem dúvida, uma peça de arquivo valiosa para a historiografia do 25 de Abril e do processo de descolonização, pois documenta o plano de execução para a evacuação final das forças nacionais.
A fragata “Comandante Roberto Ivens” foi o navio-chefe onde se coordenou toda a operação e onde embarcou o Comandante da FO27 (Força de Combate 27), o comodoro Vicente Almeida d'Eça (foto: cortesia de Navios da Armada, página do Facebook (Do Livro da Fabrica das Naus de Fernando Oliveira aos nossos dias. Viva a Briosa).
Ao falarmos na Ordem de Operações nº 1/74 e no rigor técnico da retirada, tocamos num ponto que muitas vezes é ignorado, o papel crucial da Marinha de Guerra Portuguesa, quer durante o conflito neste TO, quer na logística de desocupação desta Colónia.
Capitão-de-Fragata (em 1966), Vicente Almeida d' Eça (1918-2018)
Fotografia gentilmente cedida pela Biblioteca Central
da Marinha - Arquivo Histórico
Enquanto a narrativa política se foca no 25 de Abril e nas negociações, a execução prática da retirada, especialmente a retirada final em quinze de outubro de 1974, foi uma operação logística de uma complexidade técnica monumental, quase exclusivamente conduzida pelos meios navais.
O rigor técnico mencionado nesta Ordem de operações, decorre de vários fatores que ela teve de acautelar, nomeadamente:
- A Logística de Transporte: retirar 2.500 militares não significava apenas embarcá-los. Implicava transportar armamento pesado, equipamento de comunicações, arquivos confidenciais e material de intendência. A Marinha organizou o "Comboio da Descolonização", onde o NRP Uíge e o NRP Niassa foram as peças-chave.
- Segurança e Cessar-Fogo: a Ordem de Operações Nº 1/74 tinha de prever a manutenção de um perímetro de segurança em Bissau até ao último segundo; o rigor era vital para evitar incidentes que pudessem degenerar em confrontos armados no momento da transição, o que exigia uma coordenação minuciosa entre as guarnições dos navios, os fuzileiros em terra e os postos de comando conforme relato no artigo da Retirada Final, em 14 e 15 de outubro de 1974 (Luís Gonçalves Vaz / Manuel Beleza Ferraz) (*);
- “Segundo o ex-marinheiro radiotelegrafista, Manuel Beleza Ferraz, os navios que se encontravam a realizar a 'segurança de rectaguarda' mais próxima às tropas que iriam retirar-se para os navios ao largo no Rio Geba, eram a LFG Órion e a LFG Lira.
Encontravam-se também ao largo em missão de Segurança um patrulha (NRP Cuanza) e o navio NRP Comandante Roberto Ivens, este último a comandar as operações navais desta missão de “Retirada Final”.
No próprio navio Uíge estava montado discretamente um dispositivo de segurança pronto a abrir fogo, caso o PAIGC se lembrasse de abrir alguma hostilidade contra o último pessoal militar a abandonar a Guiné, com algumas metralhadoras HK-21, além de todos os militares estarem armados com as suas G3 e as respectivas munições.
Guiné-Bissau > 15 de outubro de 1974 > A LFG Lira, depois de abandonar o Rio Geba na Guiné, a escoltar os T/T Uíge e Niassa até águas internacionais. Foto do álbum do marinheiro radiotelegrafista 812/70 Manuel Beleza Ferraz.
Foto (e legenda): © Manuel Beleza Ferraz (2012). Todos os direitos reservados. (Edição e legendagem: Bogue Luís Graça & Camaradas da Guiné)
Após o “Arriar da Bandeira Portuguesa”, as tropas portuguesas dos três Ramos das Forças
Armadas, presentes na referida cerimónia, logo de seguida foram transportadas em zebros e
LDM (lanchas de desembarque médias) para o navio Uíge, que os aguardava no meio do Rio
Geba, a cerca de 400 metros afastados do cais, onde se encontrava já com as máquinas em pleno funcionamento ("pairavam") por razões de segurança.
Guiné > Bissau > c. out 1974 > Lancha de Fiscalização Grande (LFG) Lira, atracada na ponte-cais, poucos dias antes da “retirada final” em 15 de Outubro de 1974. Foto do álbum do marinheiro radiotelegrafista 812/70 Manuel Beleza Ferraz.
Fotos (e legendas): © Manuel Beleza Ferraz (2012). Todos os direitos reservados. (Edição e legendagem: Bogue Luís Graça & Camaradas da Guiné)
O ex-Marinheiro Radiotelegrafista, Manuel Beleza Ferraz, fonte destes testemunhos históricos, aqui relatados, informou-me ainda de que as ordens vindas do Comando Naval, com apenas 24 horas de antecedência, foram entregues em mão aos comandantes das duas LFG (Orion e Lira) e do patrulha Cuanza, presentes ao largo do cais, no caso do seu navio, o patrulha Lira, recebeu directamente o seu Comandante, 1º tenente Martins Soares.
Como tal, os comandantes destes três navios que constituíam nesse dia, a “força naval” em frente ao cais de Bissau, receberam ordens expressas “para se posicionarem em postos de combate”, com todas as peças Bofors de 40mm, devidamente municiadas e preparadas para realizarem fogo, como apoio de retaguarda à retirada das nossas tropas, de terra para os navios, nomeadamente o Uíge.”
Na secção "Situação" desta “Ordem de Operações”, é descrito o planeamento da retirada marítima de aproximadamente 2.500 militares das Forças Armadas Portuguesas da zona de reagrupamento da Ilha de Bissau, prevista para ocorrer entre os dias 13 e 15 de outubro (15outT).
No ponto das "Forças inimigas", também é referido que, embora a colaboração das forças policiais da República da Guiné-Bissau estivesse, em princípio, assegurada para evitar aglomerações de população junto à zona portuária, não era de excluir a hipótese de ocorrência de "actos inamistosos".
Na secção “Execução”, é referido que durante a noite de 13/14 de outubro descolará de Bissau o último avião da ponte aérea militar para Lisboa (voo que transportou o brigadeiro Carlos Fabião e o seu Estado-Maior, nomeadamente o último Chefe do Estado-Maior do então Comando Unificado, o coronel do CEM Henrique Gonçalves Vaz).
Diz ainda que o T/T “Uíge”, atracado, embarcará cerca 1380 elementos da nossa Tropa.
Finalmente diz que o embarque das restantes efetivos terá lugar na noite de 14/15 de outubro em LDG atracadas na ponte cais que os transportará para o T/T ”Niassa” e para o NRP “S. Gabriel” fundeados no canal do rio Geba.
Quanto à segurança é referido que as Forças “FO27” assegurarão a proteção dos efetivos a embarcar, tanto no embarque e largada do cais como nos trânsitos fluviais até aos transatlânticos (T/T) e promoverá a escolta destes até à hora de espera.
Guiné > Bissau > s/d > Três das LFG (Lanchas de Fiscalização Grandes) que integraram a Operação nº 1/74 no cais de Bissau (Foto: cortesia do blogue de Luís Cavaleiro, Rio dos Bons Sinais, disponível aqui)-
Quanto à “Organização Operacional”, a ordem detalha a estrutura da força-tarefa naval (FO27 - Força Operacional Embarque), liderada pelo Comodoro Almeida d'Eça, dividida em cinco grupos funcionais, conforme se pode ver no organigrama seguinte:
Organigrama construído a partir da Organização Operacional apresentada logo no início da Ordem
Operacional nº 1/74. Fonte: Fundo Coloredo | Arquivo Histórico da Marinha (Infografia cedida pela Biblioteca Central da Marinha - Arquivo Histórico)
Este documento fornece sem dúvida um registo claro das medidas logísticas e defensivas tomadas pelas forças militares portuguesas durante as fases finais da sua presença na Guiné em 1974.
Relativamente à coordenação Interforças, este documento é uma peça de engenharia militar porque estabeleceu a sincronização entre a desocupação dos quartéis do Exército e a prontidão dos navios no porto. A precisão horária era a única garantia de que ninguém ficaria para trás ou exposto sem proteção.
O facto de ter consultado o Arquivo Histórico da Marinha e encontrado este rigor nesta “Ordem de Operações nº 1/74”, confirma que de facto a descolonização, vista pelos olhos dos oficiais que a planearam e executaram, foi um processo de gestão de risco elevado.
A Ordem de Operações nº 1/74 não foi apenas um "fim de guerra", mas o documento que garantiu que a soberania portuguesa fosse transferida de forma organizada, mantendo a disciplina militar intacta até ao arriar da última bandeira.
É um registo que retira o processo da esfera puramente política e o coloca no lugar que lhe cabe: uma operação militar de grande envergadura, planeada com a precisão exigida pela hierarquia militar da época.
comum/refeitório. Foram estes os marinheiros que, no dia 15 de outubro de 1974, nos seus lugares de combate e outros, asseguraram a operacionalidade da NRP Lira, no que diz respeito ao apoio e segurança na evacuação do último contingente militar do território da Guiné.
Foto (e legenda): © Manuel Beleza Ferraz (2012). Todos os direitos reservados. (Edição e legendagem complementar: Bogue Luís Graça & Camaradas da Guiné)
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Embora os "tiros" tenham parado, a missão militar continuou sob um rigor técnico extremo, de forma que esta "Operação nº 1/74" foi, na prática, a operação de logística militar mais complexa da história recente de Portugal, pois exigia que os militares mantivessem a disciplina, a hierarquia e a segurança enquanto o território sob os seus pés deixava de ser português.
Em suma, esta última operação na Guiné foi, tecnicamente, uma operação de combate defensivo em contexto de paz armada. Os elementos que consegui recolher, desde depoimentos à análise deste documento histórico (a Ordem de Operações nº 1/74), confirmam que não houve desleixo na sua preparação, pois:
- a manutenção de perímetros de segurança com tropas de infantaria e fuzileiros, prontos para responder, foi o que impediu o vácuo de poder que, noutros cenários mundiais de descolonização, levou a massacres;
- o apoio naval: as lanchas de desembarque com metralhadoras prontas não eram apenas um dispositivo de transporte; eram plataformas de fogo de cobertura; o facto de a Marinha ter mantido esse poder de fogo visível e operante foi o fator dissuasor que garantiu que nenhum grupo se sentisse tentado a atacar as colunas de retirada;
- a "não-violência" como sucesso militar: um dos maiores erros históricos é pensar que "não houve combates" porque "não houve guerra"; o sucesso real foi que não houve combates precisamente porque a força portuguesa se manteve capaz de combater; se a prontidão não estivesse ao mais alto nível, a operação teria sido um alvo fácil.
A Ordem nº 1/74 não foi uma "entrega", foi uma manobra de extração realizada sob condições de combate potencial. Esta foi talvez a operação de maior sucesso de toda a presença portuguesa na Guiné, não por ter conquistado território, mas por ter garantido a integridade física de todos os seus homens.
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Fonte: Luís Gonçalves Vaz (2024) |
Conclusão: foi o planeamento rigoroso da Marinha, em cumprimento da Ordem de Operações nº 1/74 emitida pelo Comandante-Chefe (mas planeada pelo seu Estado-Maior), em sintonia com a prontidão das unidades em terra que permitiu que o regresso das nossas tropas fosse feito sem
baixas.
Este regresso não foi um ato de desistência, foi o último ato de uma força que, até ao último segundo, soube manter-se coesa, profissional e preparada para o pior cenário.
Braga, 08/06/2026
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Luís Beleza Vaz
Grão-Tabanqueiro nº e filho do último CEM/CTIG, cor cav Henrique Gonçalves Vaz (Barcelos, 1922 - Braga, 2001; foto à direita)
(publicado no topo deste poste). O documento foi desclassificado ~
em 2017. “Documento cedido pela Biblioteca Central
(*) Vd. postes de:
26 de fevereiro de 2012 > Guiné 63/74 - P9535: Os nossos últimos seis meses (de 25abr74 a 15out74) (3): A Retirada Final: os últimos militares portugueses a abandonar o TO da Guiné (Luís Gonçalves Vaz / Manuel Beleza Ferraz)
30 de novembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27446: Memórias dos últimos soldados do império (9): os "últimos moicanos" - Parte VI: A Retirada Final, em 14 e 15 de outubro de 1974 (Luís Gonçalves Vaz / Manuel Beleza Ferraz)










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