
Cecília Supico Pinto e António de Oliveira Salazar : "Oliveira Salazar apreciava a alegria e frontalidade de Cecília Supico Pinto que o considerava 'um verdadeiro príncipe'. Foi uma das últimas pessoas a vê-lo com vida (Arquivo do Diário de Notícias)". (Reproduzida, com a devida vénia, do livro de Sílvia Espírito-Santo, "Cecília Supico Pinto: o rosto do movimento nacional feminino”. Lisboa: A Esfera do Livro, 2008, foto nº 42).
1. Confesso que só há tempos li o livro "Contos exemplares", de Sophia de Mello Breyner Andresen (Porto, 1919-Lisboa-2004; pref. António Ferreira Gomes. 9ª ed. Lisboa : Portugália, s/d, 250 pp.) (edição original: Lisboa, Morais Editora, 1962). (Da mesma autora levei, em 24 de maio de 1969, para a Guiné, no T/T Niassa, o livro de poemas "Livro Sexto", um dos meus livros de cabeceira.)
E lá está o conto, "Retrato de Mónica" (pp. 167-1974) que que também é, para mim, um retrato genial, contundente, satírico, sarcástico, em seis páginas (e c. 115 linhas, pp. 169-174), de Cecília Supico Pinto, conhecida familiarmente por "Cilinha", a fundadora e líder histórica do MNF - Movimento Nacional Feminino.
Desde o início, toda a gente, a começar pelos críticos literários, viram no conto "Retrato de Mónica" a caricatura de uma das mulheres mais "empoderadas" do Estado Novo. Todavia, a autora sempre negou em vida esse paralelismo. Até porque ambas eram amigas, da mesma idade, com a mesma origem social e... monárquicas! Uma nascida no Porto, a Xixa, em 1919, e outra, a Cilinha, natural de Lisboa (1921).
E continuaram a ser amigas, pela vida fora, antes e depois do 25 de Abril, mesmo não partilhando "as mesmas ideias políticas", como reconheceu a própria Cilinha, citada pela sua biógrafa, a Sílvia Espírito-Santo (pág. 46 do livro supra citado).
2. Há vários indícios, óbvios, se bem que indiretos, que apontam nessa direção, ou seja, Mónica é Cilinha... caricaturada, enquanto símbolo da elite social que apoiava (e beneficiava de) o regime de Salazar e a guerra colonial. Vejamos:
- Mónica é descrita , caricaturalmente, como uma senhora da alta sociedade, omnipresente, influente e profundamente ligada ao poder político e económico.reune todos os predicados que faziam dela o ideal de mulher, a "supermulher", da elite do Estado Novo, conseguindo "simultaneamente: ser boa mãe de família, ser chiquíssima, ser dirigente da 'Liga Internacional das Mulheres Inúteis', ajudar o marido nos negócios, fazer ginástica todas as manhãs,ser pontual, ter imensos amigos, dar muitos jantares, ir a muitos jantares, não fumar, não envelhecer, gostar de toda a gente, toda a gente gostar dela, dizer bem de toda a gente, toda a gente dizer bem dela, , colecionar talheres do séc. XVII, jogar golfe, deitar-se tarde, levantar-se cedo, comer iogurte, fazer ioga, gostar de pintura abstracta, ser sócia de todas sociedades musicais, estar sempre divertida, ser um belo emplo de virtudes, ter muito sucesso e ser muito séria" (Contos Exemplares, op. cit, pp. 169/170);
- "tendo renunciadeo à santidade", dedica-se ostensivamente a "obras de caridade"(...): «faz casacos de tricot para as crianças que os seus amigos condenam à fome» (pág. 173);
- é apresentada como sustentáculo do "Príncipe deste Mundo" (pp. 173/174), uma alusão que muitos críticos interpretam como uma referência implícita a Salazar;
- o retrato coincide com a imagem pública de Cecília Supico Pinto enquanto presidente do Movimento Nacional Feminino, organização que apoiava moral e logisticamente o esforço de guerra colonial e mantinha grande proximidade com o regime; de resto, desempenhou diversas meses o papel de "primeira-dama" (sic) do regime, mesmo até depois do início da guerra colonial, já que a hieraquia de Estado era de homens solteiros ou viúvos.
No entanto, convém fazer uma distinção importante: Sophia nunca declarou publicamente (nem podia fazê-lo...) que Mónica fosse Cecília Supico Pinto. "Se o meu conto 'O Retrato de Mónica' é sobre ela ? Quem diz isso, não percebeu nada" (pág. 48)...
Mas este excerto parece assentar na Cilinha que nem uma luva:
(...) "Mónica está nas melhores relações com o Príncipe deste Mundo. Ela é sua partidária fiel, cantora das suas virtudes, admiradora dos seus silêncipos e dos seus discursos" (pág. 173).
E mais à frente acrescenta:
E mais à frente acrescenta:
"Há vários meses que nãoo vejo Mónica. Ultimamente contaram-me que em certa festa ela estivera muito tempo conversando com o Príncipe deste Mundo. Falavam os dois com grande intimidade. Nisto não á evidentemente nenhum mal. Toda a gente sabe que Mónica é seriíssima e tdoa a gente sabe que o Príncipe deste Mundo é um homem austero e causto" (pág. 174).
O conto foi escrito em 1961. O livro publicado em 1962.
"Ela é íntima de mandarins e de banqueiros e é também íntima de manicuras, caixeiros e cabeleiros", ou seja o upstairs e o downstairs do Portugal dos anos 50/60.
Faz um retrato impiedoso do marido:
O conto foi escrito em 1961. O livro publicado em 1962.
"Ela é íntima de mandarins e de banqueiros e é também íntima de manicuras, caixeiros e cabeleiros", ou seja o upstairs e o downstairs do Portugal dos anos 50/60.
Faz um retrato impiedoso do marido:
(...) "um pobre diabo que Mónica transformou num homem importantíssimo" (pág. 171): (...) Quando ele é nomeado administrador de mais algunma coisa, é Mónica que é nomeada. Eles não são o homem e a mulher. Não são o casamentio. São, antes, dois sócios trabalhando para o triunfo da mesma firma. O contrato que os une é indissolúvel, pois o divórcio arruina as situações mundanas. O mundo dos negócios é bem-pensante" (pp. 172/173).
"Para conquistar todo o sucesso e todos os gloriosos bens que possui, Mónica teve que renuncair a três coisas: à poesia, ao amor e à santidade" (pág, 170);
(i) a poesia é oferecida a cada pessoa só uma vez na vida;
(ii) o amor é oferecido raramente, quem o nega uma ou mais vezes, já não o encontra mais;
(iii) a santidade é oferecida todos os dias, os que renunciam a ela, têm de repetir a negação todos os dias.
É por isso que Mónica se impôs, a si própria, uma "disciplina severa" (pág. 171), seja em relação ao que veste, seja em relação aos jantares que organiza ou aos amigos que convida..."Cada lugar é um emprego de capital" (pág, 171).
O segredo ?
"Para conquistar todo o sucesso e todos os gloriosos bens que possui, Mónica teve que renuncair a três coisas: à poesia, ao amor e à santidade" (pág, 170);
(i) a poesia é oferecida a cada pessoa só uma vez na vida;
(ii) o amor é oferecido raramente, quem o nega uma ou mais vezes, já não o encontra mais;
(iii) a santidade é oferecida todos os dias, os que renunciam a ela, têm de repetir a negação todos os dias.
É por isso que Mónica se impôs, a si própria, uma "disciplina severa" (pág. 171), seja em relação ao que veste, seja em relação aos jantares que organiza ou aos amigos que convida..."Cada lugar é um emprego de capital" (pág, 171).
O segredo ?
(...) "Ela põe a sua inteligência ao serviço da estupidez". Ou melhor: "a sua inteligència é feita da estupidez dos outros" (pp. 171/172).
Não existe (nem poderia existir) uma confirmação explícita da autora, que aprendeu a escrever e a publicar sob o regime de censura. Trata-se de uma interpretação crítica amplamente difundida e hoje quase consensual, baseada nas semelhanças biográficas e no contexto histórico, mas não de uma identificação assumida por Sophia.
Cecília Supico Pinto, enquanto presidente do Movimento Nacional Feminino, esteve pelo menos quatro vez na então Guiné Portuguesa, visitando quartéis e unidades militares do Exército, durante a guerra colonial. E não deixou ninguém indiferente. Mesmo no nosso blogue, há camaradas que a admiravam e camaradas que a detestavam.
Mais um razão para, com o devido distanciamento crítico (e a não-fulanização...), eu sugerir a leitura de "Retrato de Mónica": de facto, não deve ser visto tanto como uma caricatura de uma mulher concreta (a Cecília Supico Pinto, 1921-2011) mas como uma sátira, cáustica, dirigida a uma personalidade pública, criadora, inspiradora e líder do Movimento Nacional Feminino, e ao universo social e político que ela simbolizava. Claro que uma e outra são indissociáveis.
O Bispo Dom António Ferreira Gomes (no seu extenso prefácio, não datado, de c. 4 dezenas e meia de páginas) chama a este conto uma "espantosa água-forte" (pág. 52).
Em suma: tudo indica que Sophia ("Xixa", na intimidade) construiu a personagem inspirando-se na sua amiga "Cilinha" (Cecília Supico Pinto), e usando-a como símbolo de uma elite social ligada ao Estado Novo, mais do que como um simples retrato biográfico individual. Uma elite pequena, mesquinha, hipócrita, profundamente conservadora, e que se reproduzia a si própria. Uma elite restrita de famílias, apelidos, patrimónios, relações... e que acabou mal, como em todos os sistemas endogâmicos...
Essa é, hoje, a leitura predominante entre críticos e historiadores da literatura portuguesa.
Curioso: mais de cinquenta anos depois de ter sido escrito (e publicado), o conto "O Retrato de Mónica" continua a ser lido, debatido e fez parte, inclusive, da prova de Exame Final Nacional de Português | Prova 639 | 2.ª Fase | Ensino Secundário | 2022 |12.º Ano de Escolaridade.
Não existe (nem poderia existir) uma confirmação explícita da autora, que aprendeu a escrever e a publicar sob o regime de censura. Trata-se de uma interpretação crítica amplamente difundida e hoje quase consensual, baseada nas semelhanças biográficas e no contexto histórico, mas não de uma identificação assumida por Sophia.
Cecília Supico Pinto, enquanto presidente do Movimento Nacional Feminino, esteve pelo menos quatro vez na então Guiné Portuguesa, visitando quartéis e unidades militares do Exército, durante a guerra colonial. E não deixou ninguém indiferente. Mesmo no nosso blogue, há camaradas que a admiravam e camaradas que a detestavam.
Mais um razão para, com o devido distanciamento crítico (e a não-fulanização...), eu sugerir a leitura de "Retrato de Mónica": de facto, não deve ser visto tanto como uma caricatura de uma mulher concreta (a Cecília Supico Pinto, 1921-2011) mas como uma sátira, cáustica, dirigida a uma personalidade pública, criadora, inspiradora e líder do Movimento Nacional Feminino, e ao universo social e político que ela simbolizava. Claro que uma e outra são indissociáveis.
O Bispo Dom António Ferreira Gomes (no seu extenso prefácio, não datado, de c. 4 dezenas e meia de páginas) chama a este conto uma "espantosa água-forte" (pág. 52).
Em suma: tudo indica que Sophia ("Xixa", na intimidade) construiu a personagem inspirando-se na sua amiga "Cilinha" (Cecília Supico Pinto), e usando-a como símbolo de uma elite social ligada ao Estado Novo, mais do que como um simples retrato biográfico individual. Uma elite pequena, mesquinha, hipócrita, profundamente conservadora, e que se reproduzia a si própria. Uma elite restrita de famílias, apelidos, patrimónios, relações... e que acabou mal, como em todos os sistemas endogâmicos...
Essa é, hoje, a leitura predominante entre críticos e historiadores da literatura portuguesa.
Curioso: mais de cinquenta anos depois de ter sido escrito (e publicado), o conto "O Retrato de Mónica" continua a ser lido, debatido e fez parte, inclusive, da prova de Exame Final Nacional de Português | Prova 639 | 2.ª Fase | Ensino Secundário | 2022 |12.º Ano de Escolaridade.
Mas o livro "Contos Exemplares" vale como um todo: é já um clássico, uma obra-prima da literatura portuguesa, e se continua a ser lido hoje é porque não está datado, vai muito para além da vigência do Estado Novo. Náo é um panegírico, são parábolas, intemporais e universais. A sua atualidade ainda é mais inquietante hoje. O tema central é a liberdade, nas suas múltiplas dimensões.
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Nota do editor LG:
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