Pesquisar neste blogue

quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

Guiné 61/74 - P27655: Os 50 anos da independência de Cabo Verde (16): Quando Hitler e Churchill cobiçaram o Porto Grande, Mindelo, São Vicente, que Salazar mandou transformar em fortaleza do Atlântico Médio (Texto: Memórias d'Mindel, página do Facebook de Luís Leite Monteiro) - Parte I






Cabo Verde > Ilha de São Vicente > Mindelo  c. 1941/45 > A defesa do Porto Grande
 

1. O nosso amigo Nelson Herbert, jornalista reformado da VOA - Voice of America, nascido em Bissau, de pais cabo-verdianos, membro da nossa Tabanca Grande, sabe do grande amor que temos por Cabo Verde, em geral, e pelo Mindelo, em particular. Acabou de nos dar ontem, às 21h30, a informação sobre esta publicação, que interessa aos nossos leitores e a alguns de nós, mais em particular. 

Ele sabe bem porquê: o pai dele, o Armando Lopes (1920-2018);  o pai do Hélder Sousa, o Ângelo Ferreira de Sousa (1921-2001); o pai do Luís Dias, o Porfírio Dias (1919-1988); o pai do Augusto Silva Santos, o Feliciano Delfim Santos (1922-1989); o meu pai,  Luís Henriques  (1920-2012) eram todos veteranos da II Guerra Mundial, expedicionários em Cabo Verde, a quem neste blogue tratamos com a ternura da expressão “Meu pai, meu velho, meu camarada”… 

São apenas cinco dos seis e mil tal homens que poderiam ter todos morrido ou sido aprisionados, se o arquipélago  (Sal e São Vicente, não era preciso mais...) tivesse sido invadido. Hitler e Mussolini, de um lado, e os Aliados, do outro, sabiam do valor estratégico do Sal e de São Vicente. 

Mas não foi apenas o arquipélago de Cabo Verde (São Vicente, Santo Antão e Sal) onde estiveram expedicionários... As ilhas atlânticas (Madeira, Açores e Cabo Verde) tiveram (e continuam a ter) uma posição privilegiada nas "autoestradas do  Atlântico". 

Para além dos 6500 para Cabo Verde, Salazar mandou mais 30 mil homens para os Açores e mil para a Madeira. Portugal fez na altura um brutal esforço de guerra (em homens, material, meios logísticos e financeiros), que é desconhecido ou mal conhecido de todos nós (portugueses e cabo-verdianos).

2. Com a devida vénia, transcreve-se então a postagem do Facebook Memórias d'Mindelo > 20 de janeiro de 2026, 16h56, de resto ilustrada com fotos também do nosso blogue (as três primeiras que reproduzimos acima, agora reeditadas por nós). 

O autor do blogue é Lucas Leite Monteiro (LLM), "alfacinha" por nascimento,   "mindelense" por paixão, também conhecido como jovem empresário agrícola (Projeto Ecofarm Cabo Verde, em Ribeira Grande de Santo Antão, onde os seus avós tinham propriedades, e onde faz agora produção orgânica de frutas e legumes).

A sua página Memórias d'Mindel tem 9 mil seguidores, e está a caminho de um milhão de visualizações:

(...) Chegamos a um marco que nos enche de orgulho. Mais do que um número, estes 9000 seguidores representam 9000 guardiões da nossa memória coletiva.
Através de cada fotografia antiga, cada história partilhada e cada recordação de infância, mantemos viva a chama da "Morabeza" e a elegância histórica da nossa cidade do Monte Cara.

​A nossa página cresce porque o amor por São Vicente não tem limites. É um privilégio ver como estas imagens unem gerações, desde os que viram estas ruas crescer até aos mais novos que hoje as descobrem através da "Memórias d'Mindel"

Ao unir gerações, garante que o "sentir" mindelense não se perde no tempo, transformando a saudade de uns na herança de outros.

 (...) O que este marco representa:
  • Ponte geracional: o diálogo entre os mais velhos (os guardiões da memória) e os novos (os continuadores da história).
  • Alcance global: a diáspora cabo-verdiana, espalhada pelo mundo, encontra na nossa página um "regresso a casa" diário.
  • Preservação viva: a história de Mindelo deixa de estar apenas no imaginário e passa a estar na palma da mão de todos.(...)

3.  Facebook Memórias d' Mindelo > 20 de janeiro de 2026, 16h56, 

MEMÓRIAS BÉLICAS II

O Porto Grande na Mira do Mundo: Mindelo e a Segunda Guerra (1939-1945) - 1ª Parte
Houve um tempo em que o destino do mundo, jogado entre mapas de generais e gabinetes de guerra em Londres e Berlim, passava obrigatoriamente pelas águas azuis da nossa baía.

Entre 1939 e 1945, o Mindelo não era apenas a cidade-porto; era a sentinela do Atlântico Médio, um "porta-aviões" de pedra que tanto Aliados como o Eixo desejavam controlar a todo o custo.

​A fortaleza de São Vicente

​Enquanto a Europa ardia, Mindelo militarizava-se. Portugal, sob a neutralidade vigilante de Salazar, sabia que o Porto Grande era o seu bem mais precioso e, simultaneamente, o mais perigoso. Para desencorajar invasões, a ilha transformou-se: a sede militar mudou-se da Praia para o Mindelo e as nossas encostas ganharam "dentes" de aço.

​Quem hoje sobe à Ponta João Ribeiro ou ao Morro Branco ainda encontra as cicatrizes dessa época. Ali foram instaladas baterias de artilharia pesada (peças de 150mm) prontas para fustigar qualquer navio que ousasse entrar no canal sem autorização. 

No Lazareto, as metralhadoras antiaéreas apontavam ao céu, temendo que os aviões da Luftwaffe ou da Royal Navy transformassem o nosso porto num cenário de bombardeamento.

​Entre a "Alacrity" e a "Felix"

​O que poucos sabiam na altura, é que estivemos por um fio. O Mindelo esteve na mira de dois planos secretos de invasão:

• ​A Operação Alacrity: 

Os ingleses, liderados por Churchill, tinham planos prontos para ocupar o Porto Grande à força se sentissem que a neutralidade portuguesa vacilava.

• ​A Operação Félix: 

O plano de Hitler que previa tomar Cabo Verde para fechar as rotas de abastecimento que vinham do Sul.

​O Mindelo viveu esses anos num estado de "blackout" constante, com as luzes da cidade apagadas à noite para não servir de guia aos submarinos ("U-Boats") que rondavam as nossas águas, caçando comboios de mantimentos.

​O Pão e a Espada

​Para a memória coletiva do povo de Soncente, porém, a guerra não trouxe apenas canhões; trouxe a "Crise". 

Enquanto o Porto Grande fervilhava de navios de guerra e batalhões expedicionários vindos da Metrópole, a população enfrentava a fome severa de 41-43. O contraste era cruel: o porto estava cheio de importância estratégica, mas os estômagos estavam vazios pelo bloqueio das rotas comerciais.

​Os soldados expedicionários, que enchiam as ruas do Mindelo, trouxeram novas dinâmicas, amores de guerra e histórias de além-mar, mas também partilharam a escassez de um tempo em que o horizonte, em vez de trazer o pão, trazia o medo do perscópio de um submarino.

O quotidiano militar no Mindelo

​A chegada de milhares de soldados de Portugal continental (os "expedicionários") alterou completamente a dinâmica da cidade:
  • ​Mão de obra: os soldados ajudaram em infraestruturas, mas também pressionaram o já escasso stock de alimentos;
  • ​Vigilância: o Porto Grande passou a ter patrulhas constantes e o uso de luzes na cidade era estritamente controlado para evitar ser um alvo fácil à noite ("blackout").

​Um legado de silêncio

​Hoje, as ruínas das baterias militares são monumentos ao silêncio. Lembram-nos de que o Mindelo já foi o centro de um xadrez global.

Lembrar a Segunda Guerra no Mindelo é honrar a resiliência de um povo que, isolado no meio do oceano, viu o mundo passar pela sua baía e sobreviveu para contar a história.

Fotos: Cabo Verde Postcard/ Luís Graça & Camaradas da Guiné 61/74

Texto/Pesquisa: Memórias d'Mindel (LLM)

​As principais referências bibliográficas para estas informações são:

António Leão Correia e Silva: Um dos maiores historiadores de Cabo Verde, obra - Nos Tempos do Porto Grande.

Daniel A. Pereira: Pelos seus estudos sobre a história política e diplomática de Cabo Verde.

Arquivos Militares de Portugal: Relatos sobre o envio das Forças Expedicionárias (1941-1945) para São Vicente.

Planos de Guerra (Aliados e Eixo): Documentos desclassificados sobre a Operação Alacrity (Inglaterra/EUA) e a Operação Felix (Alemanha), que comprovam o interesse estratégico no Porto Grande.

(Seleção, revisão/fixação de texto: LG, com a devida vénia, e os parabéns ao autor)
_______________

Nota editor LG: 

17 de novembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27433: Os 50 anos da independência de Cabo Verde (15): recordações do meu tempo de menino e moço (Carlos Filipe Gonçalves, ex-fur mil amanuense, CefInt / QG / CTIG, Bissau, 1973/74)

Guiné 61/74 - P27654: Parabéns a você (2453): João Graça, médico psiquiatra, amigo Grã-Tabanqueiro que visitou e fez voluntariado em 2009 na Guiné-Bissau. É filho da nossa amiga Alice Carneiro e do nosso editor Luís Graça

_____________

Nota do editor

Último post da série de 8 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27614: Parabéns a você (2452): António Murta, ex-Alf Mil Inf MA da 2.ª CCAÇ/BCAÇ 4513/72 (Aldeia Formosa, Nhala e Buba, 1073/74)

terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Guiné 61/74 - P27653: Blogoterapia (315): A Saudade (Joaquim Mexia Alves, ex-Alf Mil Op Especiais)

Joaquim Mexia Alves, ex-Alf Mil Op Especiais
CART 3492/BART 3873, Xitole/Ponte dos Fulas; CMDT do Pel Caç Nat 52, Ponte Rio Undunduma, Mato Cão e CCAÇ 15, Mansoa, 1971/73:

1. Mensagem do nosso camarigo Joaquim Mexia Alves, com data de 19 de Janeiro de 2026:


A SAUDADE

A saudade é coisa boa, mas que ao mesmo tempo faz doer o coração.

 Acho que só nós Portugueses sabemos bem o que é a saudade.

Claro que outros povos sentem talvez a mesma coisa, só não conseguiram foi dar-lhe um nome onde tudo coubesse, como a nossa saudade.

Na nossa saudade cabe tudo.

Cabe o sentimento de ausência, a força do amor, a ternura do momento, o carinho experimentado, a alegria do conhecimento, a intimidade da amizade, a força da entrega, a presença invisível, a lágrima que é chorada, o sorriso do reencontro, a delicadeza da memória, a tristeza do não estar, o silêncio da recordação, a vida que foi vivida, a partida, a chegada, o abraço interminável, o não saber, o existir, o viver, o tudo e o nada, o ter presente quem está ausente.

Realmente a saudade é um sentimento muito Português, porque só os Portugueses partem e chegam sem nunca saírem de Portugal.

Marinha Grande, 19 de Janeiro de 2026
Joaquim Mexia Alves


********************

Comentário do editor CV:

Esperando não estar a invadir a privacidade do nosso camarigo Joaquim Mexia Alves, deixo aqui a nota de que faleceu hoje o seu mano António, antigo combatente em Angola.
Há pouco mais de um mês tinha falecido o seu mano mais velho, João, Oficial Piloto Aviador na década de 50 do século passado.

Nesta hora de provação, deixo ao Joaquim, em nome da tertúlia, um abraço solidário e as nossas condolências, que ele fará o favor de fazer chegar a toda a família.

_____________

Nota do editor

Último post da série de 30 de julho de 2024 > Guiné 61/74 - P25793: Blogoterapia (314): Conversas improváveis sobre a guerra (Joaquim Mexia Alves, ex-Alf Mil Op Especiais)

Guiné 61/74 - P27652: Antologia (100): Uma caçada ao elefante em... Canjambari há mais de 100 anos (Conto publicado em "O Mundo Português", em 1936, da autoria de Artur Augusto Silva, 1912-1983)






In:  O Mundo Portuguès, nº 28, abril de 1936, pp. 185-187




Artur Augusto Silva
(1912-1983)
2. O João Schwarz da Silva, nosso grão-tabanqueiro, irmão mais velho do Pepito (1949-2012), tem sido o guardião das memórias da sua família, do lado paterno (Artur Augusto Silva, 1912-1983) como do lado materno (Clara Schwarz, 1915-2016).

Veja-se o seu blogue:

https://des-gens-interessants.blogspot.com

Foi daqui se tomámos a liberdade de "recuperar" e divulgar  um interessante conto de caça.  Diz o filho João que terá sido provavelmente o seu primeiro conto.

Em abril de 1936 Artur publica na revista “O Mundo Português” o que foi provavelmente o seu primeiro conto, "Abdulai, o Caçador”, "no qual revela um pouco da sua infância em Farim"...


São memórias de há mais de 100 anos, época em que ainda apareciam, no norte da Guiné,
elefantes solitários, que causavam estragos nas plantações dos mandingas.

A antiga página do João continua aqui disponível, em arquivo morto, no Arquivo.pt:



3. Quanto à revista "O Mundo Portuguès", acrescente-se o seguinte:

(i)  foi um importante órgão de propaganda colonial e cultural do Estado Novo em Portugal;

(ii)  fundada por Augusto Cunha em 1934 e publicada até 1947;

(iii) sendo veículo da ideologia imperial do regime e do Secretariado da Propaganda Nacional (SPN);

(iv) dirigida por Cunha até 1947, promovia a "Política do Espírito" e a importância das colónias;

(v) contou  com textos de figuras como António Ferro, Mário de Sá-Carneiro e Fernando Pessoa:

(...) Escritor e jornalista português, Augusto Cunha (1894-1947) iniciou a sua vida literária com António Ferro, com quem escreveu o livro de versos Missal de Trovas, publicado em 1914. Dedicou-se também à prosa humorística e ao teatro, e colaborou em vários jornais e revistas, como o Domingo Ilustrado, a Ilustração Portuguesa, o Diário de Lisboa, o Diário de Notícias, o Sempre Fixe, entre muitos outros.

Amigo de António Ferro e de Mário de Sá-Carneiro desde jovem, integrou a Geração de Orpheu, da qual também fariam parte Fernando Pessoa, Almada Negreiros e Alfredo Guisado. Em 1934, Augusto Cunha fundou a revista O Mundo Português, um dos mais importantes órgãos de propaganda colonial do Estado Novo, que dirigiu até 1947. Após a sua morte, só seriam publicados mais dois números.

A edição, lançada no ano da Exposição Colonial Portuguesa do Porto, traduziu a política colonial do Estado Novo, assumindo-se como veículo de difusão da ideologia imperial do regime e da sua «Política do Espírito», conduzida pelo SPN de António Ferro.(...)

____________________

Guiné 61/74 - P27651: História de vida de um capelão militar: Horácio Fernandes / Francisco Caboz (1935-2025) - Parte V: O noviço

Convento de Montariol, Braga. Fonte: cortesia de Wikimedia Commons, imagem do domínio público



Francisco Caboz, "alter ego" de Horácio Fernandes
(Ribamar, Lourinhã, 1935 - Porto, 2025).

Será capelão militar em Catió e Bambadinca (1967/69), 
e autor do livro de cariz autobiográfico "Francisco Caboz:  a construção 
e a desconstrução de um padre" (2009)


1. Estamos a reproduzir excertos da dissertação de mestrado em ciências da educação, pela Faculdade de Psicologia e Ciências das Educação da Universidade do Porto (1995), da autoria do Horácio Fernandes, que foi nosso camarada como capelão militar no CTIG ( 1967/69). 


No capº IV daquele trabalho académico, ele narra e comenta a história de vida de Francisco Caboz,  seu "alter ego".  Trata-se, pois, de uma autobiografia, que em 30 páginas, a duas colunas,  cobre a sua infância, adolescência, juventude e idade adulta até 1972, o ano em que, aos 37 anos, regressa ao estado laical e constitui família.

Nos  quatro  postes anteriores  já publicados(*), ele fala-nos, 
sucintamente, de:

(i)  a sua terra natal,  "Arribas do Mar" [leia-se Ribamar, da Lourinhã], bem como as 3 figuras da família que o marcaram: o pai (José Fernandes Nazaré), a mãe (Elvira Neto) e o avô materno (nascido por volta de 1875/80, o sacristão da freguesia o Ti João das Velas de Santa Bárbara);

(ii) como foi criando raízes a ideia de ser padre: o avô materno, sacristão, e a professora primária acabaram por ser as pessoas que mais pesaram nessa  decisão.

(iii) a entrada no Colégio Angélico (leia-se, Seráfico, na altura Montariol, em Braga, a mais de 300 km de distância da sua terra, Ribamar, Lourinhã), e os "quatro cenários" onde se vai desenrolar a sua vida de "angélico" (ou seja, até ao 5º ano, correspondente hoje ao 9º ano de escolaridade): a camarata, o refeitório, a sala de aulas, o salão de estudo, e onde vigora o panoptismo;

(iv)   os mecanismos de vigilância dos internos e os rituais de punição por parte dos Prefeitos;

(v) o 6º ano, quando passa a ser noviço [Convento do Varatojo, Torres Vedras] .

É um trabalho relevante não só para a história da capelania castrense como também para o conhecimento do ensino confessional ministrado em seminários diocesanos e regulares, onde se formava o clero católico no Estado Novo.

2. Temos de fazer aqui, entretanto, uma "viagem no tempo e no espaço"  e reconstituir sumariamente os passos do percurso formativo no nosso Horácio, para se perceber melhor o seu texto autobiográfico.


Antes do 25 de Abril de 1974 (e até á reforma de 1967), a formação de um padre franciscano em Portugal (Província Portuguesa da Ordem dos Frades Menores) seguia um modelo tradicional e rigoroso, estruturado em ciclos que podiam durar entre 12 a 14 anos. 

Este percurso levava o postulante desde a infância ou adolescência até à ordenação sacerdotal. No caso do Horácio, vai de 1946 (já com 11 anos feitos, em 15 de setembro) até agosto de 1959 (Missa Nova) (aos 23 anos, ia fazer 24).

Aqui estão as etapas e os conventos/seminários por onde ele passou:

(i) Seminário Menor (Ensino Secundário) > 
Montariol, Braga (de 1946 a 1951)

O percurso começava normalmente cedo, com rapazes de 10 a 12 anos. (O Horácio fez a 4ª classe do ensino primário no ano letivo de 1945/46, com 10 anos.)

O objetivo era completar o que hoje chamamos de ensino básico e secundário, com forte ênfase no Latim e Humanidades.

O principal centro era o Seminário de Montariol, em Braga: era o grande "viveiro" de vocações franciscanas no Norte do país.. O regime em vigor era o de internato, pura e duro, com uma rígida disciplina monástica, farda própria e um foco muito grande na formação do caráter e no reforço da vocação.

(ii) Noviciado (Ano probatório) > 
Convento do Varatojo, Torres Vedras (1951/52)

Após concluir os estudos liceais (5º ano, em 1951), o jovem Horácio entrou no Noviciado (6º ano, 1951/52).

 Este era o ano mais importante da vida espiritual, dedicado ao silêncio, à oração e ao estudo da Regra de São Francisco. Era aqui que o jovem recebia o hábito castanho e o cordão (ainda sem nós ou com nós simples).

O noviciado era feito no histórico Convento de Varatojo, conhecido como o "Seminário Apostólico". Ficava a escassos quilómetros (18 km) da sua terra natal. 

Ao fim de um ano, se aprovado, o noviço fazia os Votos Temporários (Pobreza, Castidade e Obediência). 

(iii) Filosofia (Estudos Maiores I) > Coristado > Convento
 de São Francisco, Leiria (de 1952 a 1955,  dos 17  aos 19 anos).

Após o noviciado, o Horácio passou  ao coristado, ou seja ao início dos estudos superiores. 

A Filosofia (geralmente 3 anos) era o alicerce intelectual antes da Teologia. O centro de estudos de Filosofia funcionava predominantemente no Convento de São Francisco de Leiria, mais aberto como instituição e organização, e ponto de passagem obrigatório para Fátima. 

Nesta fase, os frades eram conhecidos como "Coristas": a sua obrigação principal, além do estudo, era a oração do Ofício Divino no coro da igreja.  O Horácio esteve aqui até ao 9º ano. 

(iv) Teologia (Estudos Maiores II) > 
Convento da Luz, Carnide, Lisboa

A última etapa antes da ordenação sacerdotes  eram os 4 anos de Teologia (do 10º ao 13º anos). 

Durante este período, o frade fazia a sua Profissão Solene, tornando-se membro definitivo da Ordem. O curso de Teologia funcionava no Convento da Luz, em Carnide, Lisboa.


3. É uma história de vida, pungente, sofrida,  bem dura, em tempos muito difíceis (antes, durante e depois da II Guerra Mundial), que merece ser conhecida dos nossos leitores. 

O Horácio nasceu em 1935. Em 1945/46, completou a 4a. classe e seguiu para o seminário menor dos franciscanos (o colégio seráfico, a que ele chama angélico), em Montariol.

A maior parte de nós, que nasceu já 10 ou mais anos depois do Horácio, ainda se reconhece nesta narrativa autobiográfica  

Foi a partir deste trabalho académico que, 14 anos depois, ele publicaria o seu livro de memórias "Francisco Caboz: a construção e a desconstrução de um padre" [Porto: Papiro Editora, 2009, 185, (7) pp. ISBN 978-989-636-446-5].(O livro está esgotado.) (Vd. foto capa à direita.)

O nosso camarada e amigo Horácio Fernandes faleceu, recentemente, em novembro de 2025, aos 90 anos.

O Horácio Fernandes seria ordenado padre em 1959,  antes de completar os 24 anos.  Lembro-me de ter ido à sua Missa Nova, em 15 de agosto de 1959. 

Foi depois alferes graduado capelão, em rendição individual, no BART 1913 (Catió, setembro de 1967 - maio de 1969) e no BCAÇ 2852 (Bambadinca, no 2º semestre de 1969), tendo terminado a sua comissão no HM 241 com uma crise de paludismo. Chegaria ao CTIG com 32 anos, regressaria com 34.

Andou ainda na marinha mercante (transporte de tropas e navios petroleiros), como capelão, até deixar o sacerdócio em 1972, antes de completar os 37 anos. 

Casou, passou a viver no Porto. Teve 3 filhos. Estava reformado da Inspeção Geral de Educação onde trabalhou 25 anos na zona norte. Em 2006 doutorou-se em ciências da educação pela Universidade de Salamanca, Espanha. 

Reencontrei-o por volta de 2015, na Tabanca de Porto Dinheiro. Ainda somos parentes, pelo lado paterno: as nossas bisavós,  paternas, nascidas na década de 1860, eram irmãs, e pertenciam ao clã dos Maçaricos (Ribamar, Lourinhã).

A história de vida do Horácio é a de muitos de nós, que fizemos o percurso clássico de mobilidade social através da educação, num Portugal rural e pobre dos anos 40/50/60.  



História de vida de um capelão militar: Horácio Fernandes / Francisco Caboz (1935-2025) - Parte V:  O noviço

por Horácio Fernandes


4.1.3. Rituais de interiorização do 'habitus'

Na igreja, ainda sonâmbulos, os angélicos recitavam de cor as orações da manhã e ouviam, todos encolhidos, uma leitura do «Jovem Piedoso», lida com voz solene, que lhes servia de meditação. 

Seguiam-se 15 minutos de joelhos, em que o pensamento voava para longe, sem querer concentrar-se, ou então deitava a cabeça no banco, até que o Prefeito, no melhor dos casos, o obrigava a ficar de pé, de castigo.

Seguia-se a «Santa Missa». Quem não comungava era «marcado» pelo Prefeito, ou seus acólitos e ficava suspeito de andar em pecado. 

Para repor a legalidade simbólica das consciências havia sempre um confessor de serviço, de entre os nomeados pelo Provincial, para atender os angélicos (...).

O bom Angélico confessava-se pelo menos todos os 8 dias e ia ao quarto do Director Espiritual, também expressamente designado, pelo menos uma vez por semana. Podia não ter nada para lhe dizer, mas era obrigado a fazê-lo (...).

Mas os rituais de interiorização dominavam também os tempos extra-estudo, porque não havia tempos livres. «O ócio é o inimigo da alma», repetiam os Directores Espirituais. 

Para as grandes festas litúrgicas, ou do Santo Patrono, havia uma representação teatral, onde procuravam inculcar nos angélicos as aprendizagens do dia a dia: 

  • a sacralidade das hierarquias, 
  • o cumprimento da lei de Deus, 
  • a fidelidade à vocação, 
  • a supremacia das vidas consagradas a Deus, 
  • a imitação dos santos, 
  • a missão heróica dos missionários, 
  • o castigo dos pecadores 
  • e o perdão aos arrependidos
{Alvorada Missionária, Braga, 1946)

- 117 - 

Antecedendo as férias do Natal, Carnaval, Páscoa e férias grandes havia o retiro espiritual. O Director Espiritual ou outro padre fazia as palestras de manhã e à noite e os recreios eram em silêncio. 

No Carnaval redobrava-se as orações e os sacrifícios pela conversão dos pecadores que ofendiam Nosso Senhor com os seus desvarios carnavalescos. Competia aos eleitos de Deus fazer-Lhe companhia nesses dias, porque era muito ofendido.

- 118 - 

4.1.3. A conselho do meu Director Espiritual,  tinha um caderninho, onde apontava os defeitos que havia de corrigir, as boas acções a praticar e os sacrifícios que devia fazer para conseguir progressos na vida espiritual. Cada semana, tinha de lhe relatar tudo o que me acontecia e fazia. 

Em troca, era aconselhado a como combater as tentações da carne e os maus pensamentos, mortificando o corpo e rezando muitas jaculatórias, suportando a dor e passando voluntariamente horas sem falar nos recreios, para conseguir ganhar a virtude do silêncio. 

Para conseguir a virtude da pureza, nos ferrvores dos meus 12, 13 e 14 anos, cheguei a usar cintas entrelaçadas de espinhos de roseira, ou tabuinhas com pregos, por debaixo das roupas, para afastar os «maus movimentos» e ser puro. 

Ser puro como o Santo Patrono dos Angélicos, que, como diziam os livros que o Director Espiritual recomendava, quando o assaltou o pensamento de casar, tirou as vestes e lançou-se à neve, fez uns bonecos e disse: «Eis aí os teus filhos e mulher, trata deles»; e assim lhe passou à tentação. Com estes e outros exemplos espirituais, procurava permanecer «puro», como os anjos do céu. 

'Nas férias do Natal, Carnaval e Páscoa era permitido requisitar livros, devidamente selecionados, como os de Madame Ségur, que falavam de meninas dos Colégios bem comportadas e acabavam por ir para freiras, Contos Missionários, Aventuras de Júlio Verne, e montes de livros de santos.

 Lembro-me que já quase sabia de cor as aventuras de Júlio Verne que li várias vezes, durante os cinco anos.

Ajudar às missas devidamente fardado e pertencer às Associações Religiosas da instituição também era uma obrigação. Pouco mais servia, do que nas festas dos santos patronos e procissões irmos atrás do estandarte. 

- 117 - 

Outro momento solene era o exame de consciência. Todas as noites, antes de deitar o Prefeito interrogava em voz solene as consciências dos rapazes que não excediam os 16 anos: «o machado está lançado à raiz da tua vocação», começava ele, «teme os inimigos que rondam o teu coração». 

Seguia-se uma torrente de perguntas a que o Angélico respondia, em silêncio, questionando se teve maus pensamentos e quantas vezes, se os consentiu, se tinha alguma amizade particular com os colegas, percorrendo um a um todos os pontos do Regulamento. 

Terminava por um apelo ao arrependimento e um propósito firme de sermos fiéis ao chamamento de Deus, sob pena de trairmos a sua predilecção.

- 118 - 

4.2. Os rituais de interiorização tiveram o seu auge no 6º ano [, no Convento do Varatojo, Torres Vedras], em que o panoptismo foi reforçado. 

A maior parte do tempo era consagrado ao estudo da Regra e Constituições, Cerimonial Doméstico e Ordenações Peculiares da Instituição.

 O clima de silêncio permanente, a meditação o retiro espiritual, a autoflagelação, as práticas rituais de subordinação simbólica, a clausura efectiva predispunham a pessoa à renúncia obrigatória das subjectividades e aniquilamento do 'self'.

Ao Angélico, durante o Colégio, procuravam inculcar o 'habitus', através de uma praxis ritualizada e uma prática discursiva, Ao noviço, vestiam mesmo o hábito, a túnica e o «caparão» (6), seu símbolo, procurando integrá-lo na «família» simbólica da instituição. Era a tentativa de impor uma identidade colectiva, construída por espaços próprios e um poder teocrático.

______________

Nota do autor:

(6) Pequeno rectângulo de pano, seguro ao hábito que servia para distinguir os noviços dos outros professos.

- 118 - 


4.2. O noviço

O Noviciado foi o meu ano de transição para o Coristado de Filosofia e Teologia. 

Tido como ano probatório, aí entrei aos 16 anos. A cerimónia da tomada de hábito foi impressionante. Deitámo-nos nos degraus do altar, o coro rezou as ladainhas a implorar a todos os santos e santas a protecção e só depois nos despiram o «homem velho",  simbolizado no fato preto que trazíamos e nos vestiram de «homem novo», com o hábito. 

Assistiram os meus pais e muita gente de Arribas do Mar. No claustro, houve uns breves momentos para uma fotografia com os pais e amigos, mas nem houve tempo para conversar Tive de recolher ao convento, onde não podiam entrar pessoas estranhas.

Depois de cinco anos, via-me livre dos Prefeitos, mas caía na alçada dos Mestres e de toda a comunidade com votos solenes, que faziam a minha avaliação, todos os trimestres, com feijões pretos e brancos depositados numa urna. Contavam-se e conforme tivesse mais pretos ou mais brancos, assim era rejeitado ou podia continuar. No fim, ainda tinha de beijar os pés aos que me tinham avaliado.

Completamente afastado do contacto das outras pessoas, inclusive os outros padres do convento e familiares,  encerraram-me na parte mais alta do convento à chave. 

Só podia sair para o coro, defendido do resto da igreja por altas grades, refeitório, ou mata, em formatura,  de cabeça baixa, mãos nas mangas e devidamente fardados, pés descalços com sandálias de inverno ou verão, cordão à cinta, túnica de pano grosseiro hábito e cuecas ou ceroulas. Calças eram proibidas, e o reforço da roupa só por doença e com licença expressa dos superiores;

As sextas feiras participava na confissão pública dos pecados e a respectiva penitência. Era o chamado capítulo de culpas, na sala capitular. 

- 118 - 

Ora um ritual, em que todos de joelhos, excepto os padres, porque esses ajoelhavam só no fim e apenas pediam perdão dos seus pecados a Deus, confessavam um pecado e recebiam a admoestação do Superior e a penitência.

O que mais me custou, para além do isolamento, foi o ritual das «disciplinas» às sextas-feiras. Nos meus verdes 16 anos, lá ia para o meio do corredor, com as «disciplinas» confeccionadas por mim, na mão. 

Apagavam-se as luzes e ao som do salmo Miserere mei Deus começava a autoflagelar-me. Parecia que o salmo nunca mais acabava e, na Sexta- feira Santa,  era repetido três vezes. Gomo estava distante dos outros noviços, cerca de um metro,  percebia perfeitamente quem batia com mais força.

Havia um colega meu, candidato a irmão leigo, que era um caso singular: mais avançado em idade, pois tinha sido sargento na tropa, batia com um cinto que se ouvia muito ao longe, enquanto pedia a Deus perdão dos seus pecados em voz alta, desafinando do resto do coro. Durante a noite não dormia na cela e, de manhã, encontrávamo-lo muitas vezes deitado, debaixo do altar da capelinha do Noviciado, porque tinha medo do diabo que o perseguia.

Da minha parte, convencido de que era o eleito de Deus para salvar o mundo pecador, cumpria o que me mandavam, sem regatear, como se pode observar num artigo que escrevi para a revista do Noviciado {Vita Abscondita, Ano VII, 1952, n.° 6).

As ocupações, para além do estudo da Regra e Constituições, era ouvir duas vezes por dia as palestras dos Mestres sobre como dominar «o irmão asno» - o corpo. 

Enfadonha e ritualmente ouvíamos repetir como os santos manejavam as armas brancas da oração, as ligeiras e pesadas das jaculatórias e sacrifícios. As aprendizagens propriamente ditas consistiam em confeccionar coroas angélicas em silêncio, ou falando baixinho, aprender os cerimoniais conventuais e fazer «disciplinas».

Outros rituais eram, depois do almoço, o prandium ou a sesta, ou em sua substituição estar recolhido na cela; caela mihí coelum (a cela é o meu céu). 

À noite, antes de deitar, entoava-se mais um responso pelas «benditas almas do purgatório» e aspergia-se as celas com água benta, não viesse o demónio trazer maus pensamentos, durante o sono.

Os únicos móveis da minha cela eram: uma mesa nua, uma cama de ferro e um armário de pinho, para pendurar os dois hábitos: um de trabalho e outro das festas.

As celas ficavam alinhadas num largo corredor, com a particularidade de dispor de um orifício, por onde o Mestre ou o vice - Mestre dos noviços podiam espreitar, para ver o que se passava lá dentro. Aliás, era expressamente proibido fechar a cela à chave.

O ritual das punições era agora mais requintado: os Mestres não me batiam, mas mandavam-me à culpa com um objecto ao pescoço, no caso de se ter partido alguma coisa, mesmo sem querer. Eu só fui uma vez à culpa sozinho. Acompanhado, ia todas as semanas, ou porque o Mestre mandava, mesmo sem motivo, ou por ser apanhado a falar.

Durante algum tempo fui destacado para regar as flores, sob a jurisdição de um padre mais velho, que não podia já com o regador. Tirava a água do tanque e fazia o que ele me mandava. Um dia, no Verão, não resisti. Apanhei o padre distraído, tirei num instante o hábito e mergulhei no tanque. 

- 119 - 

Se a comunidade religiosa era já um microcosmos, dentro do macrocosmos social, o Noviciado era um permanente retiro espiritual, em que os actores sociais representavam ao vivo os papéis de reconstrução dos modelos simbólicos do século XIII. 

Os cenários eram apropriados: 

  • convento do século XV [Convento do Varatojo, Torres Vedras]cuja arquitectura está de costas voltadas para a pequena povoação que lhe deu o nome, 
  • paredes grossas e lajedos do gasto pavimento, ligados a estórias de penitentes, 
  • estatuária simbólica cultivando as representações da morte, 
  • azulejaria dissuasora dos apreciadores dos prazeres quotidianos.

Todos os rituais terminavam com orações pelos benfeitores, que davam a esmolas e a sustentação dos frades, em troca das súplicas e sufrágios, para terem descanso no antiquotidiano. 

Os mais lembrados eram geralmente famílias abastadas e devotas que se lá iam confessar e tinham os padres, como amigos da família. Se tinham capela em casa, dispunham ainda desse mesmo padre, ou outro, que aos domingos lá ia celebrar missa. 

Era um bom conluio, entre os grandes da terra e os administradores do céu. Era frequente o Mestre, confidente dessas famílias, pedir aos noviços orações e sacrifícios para que os seus clientes fossem bem sucedidos!

Mas a colheita de dádivas para sustentar os frades, não se ficava por aqui. Pelas aldeias próximas, andava um «irmão» a mendigar para os frades pobrezinhos. 

Francisco, por vezes, sabendo das dificuldades da sua família, questionava-se porque pediam os frades, se comiam melhor que as famílias remediadas. Ainda não lhe tinham inculcado o mito do pobre de espírito, o antídoto que serve para tranquilizar as consciências dos ricos.

- 119 - 

 Explicavam que era uma ocasião do povo devoto do Santo Patrono mostrar a sua generosidade e beneficiar das orações da comunidade. 

Habituado a aceitar e não raciocinar, resignou-me mais uma vez à lógica do sistema. Estava mesmo entusiasmado a imitar o Santo Patrono. A semente tinha caído em bom terreno {Vita Abscondita, 1952, n°6).

Foi com certeza esta resignação que ditou a sua escolha para os votos simples de 'pobreza voluntária, obediência inteira e castidade perpétua', em 15/08/52.

 Dos 14 noviços clérigos que iniciaram o Noviciado, só 10 transitaram para o Coristado no ano 1952  [, no Convento de São Francisco, em Leiria] (Livro de Registos de Admissões e Livro de Registo de Profissões Simples, 1952).

 - 120 - 

Foi rápido, mas ao chegar ao pé do padre, este interpelou-me por ter a cabeça molhada e ter demorado muito. Não valeu de nada desculpar-me. Foi fazer queixa ao Mestre. A partir daqui, houve uma série de rituais até ser castigado.

Primeiro tive de me dirigir ao Mestre e, de joelhos, cumprir o ritual, dizendo: peço me dê penitência por amor de Deus. Ouvi um ralhete e fui mandado à 'culpa'. 

Depois, antes de ir para o refeitório, tive de me ajoelhar novamente a pedir perdão ao Mestre, dizendo "perdoe-me a penitência por amor de Deus".

 Não me perdoou, mas tive de lhe beijar, na mesma, a mão. Finalmente, fui à Guia ao refeitório e substítuiram-me no serviço de regar as flores, passando agora os os tempos de trabalho fechado a fazer terços e «disciplinas».

No dia combinado, no refeitório, de joelhos, perante toda a comunidade, disse a fórmula ritual:

"Digo a Deus a minha Culpa, a vossa Paternidade e a iodos os frades e irmãos por todas as faltas e negligências, sobretudo por ter tomado banho no tanque. Pelo que, peço a Deus perdão e avós, Padre, a penitência". 

Seguiu-se o sermão pelo padre Superior e a penitência que consistiu em rezar uns quantos Padre-Nossos e Avé Marias pelos benfeitores e beijar ôs pés a toda a comunidade. :

Para cumprir a penitência, arrastei-me por debaixo das mesa para beijar os pés a todos os frades Alguns, sobretudo os que trabalhavam na quinta e com os pés mais sujos taparam-nos com o hábito, mas os mais observantes esticavam-nos mesmo bem.

- 120 - 

(Continua)

Fonte: Excertos da dissertação de mestrado do Horácio Neto Fernandes, "Francisco Caboz: do angélico ao trânsfuga, uma autobiografia". Porto: Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto. 1995, pp. 117-120 (A dissertação, orientada pelo Prof Doutor Stephen R. Stoer, já falecido, está aqui disponível em formato pdf).

(Seleção, revisão / fixação de texto, parênteses retos, bold, itálicos, título: LG)
_________________

Nota do editor LG:

(*) Vd. postes anteriores: 



17 de janeiro de 2026 Guiné 61/74 - P27642: História de vida de um capelão militar: Horácio Fernandes / Francisco Caboz (1935-2025) - Parte IV: Vigiar e punir

segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

Guiné 61/74 - P27650: Notas de leitura (1887): "Soldadó", de Carlos Vale Ferraz; Editorial Notícias, 1997 (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 29 de Julho de 2025:

Queridos amigos,
Nunca entendi este discreto silêncio dos editores de Carlos Vale Ferraz face a esta extraordinária narrativa publicada em 1997 pela Editorial Notícias. É uma tragicomédia como não há outra na literatura da guerra colonial, numa atmosfera que prima pelo grotesco, onde sobressai a teatralidade de figuras únicas desta literatura, um recém-comandante chegado a um temível destacamento de guerra, analisa-se o processo que poderá levar à condecoração de um soldado básico multifuncional, de cangalheiro a fiel de armazém e guarda-costas de prostitutas, assomam o Capitão Gorgulho, veio castigado, o Majorué, o oficial de Operações mais divertido de toda esta literatura, um Segundo-Comandante pouco dado à inteligência, o anarca Capitão Baltazar, um Capelão cheio de latinório, mas com muitas culpas no cartório quanto a sexo escondido e respetivas doenças. Soldadó merecia sair da sombra e voltar ao nosso convívio, aquela instituição militar já não existe e muito bem podia ter acontecido naquela guerra colonial o que aqui se conta com a verve de humor que nos faz rir a bandeiras despregadas.

Um abraço do
Mário



Soldadó, uma das obras mais belas de Carlos Vale Ferraz

Mário Beja Santos

Dedicado “Aos que gostam de mim”, a obra Soldadó, de Carlos Vale Ferraz foi publicada em 1997 pela Editorial Notícias. Penitencio-me de ter sido avaro na recensão dediquei a esta mirabolante, herética e apoplética narrativa. Sou levado a concluir que ler o livro para fazer a recensão tem a nobre exigência de a ele voltarmos com a memória arrefecida, é este um desses flagrantes casos em que se retoma a leitura, surgem revérberos caleidoscópios, novos ângulos, outro sentido das frases, uma maior subtileza para as mensagens que correm na estrada principal. Soldadó não era o livro humorístico, do bota-abaixo, de corrosivas caricaturas da instituição militar. Bem vistas as coisas, este soldado bronco, de obediência e fidelidade caninas, o mais improvável dos heróis, toda aquela atmosfera teatral em que vai decorrer a inquirição que poderá permitir a condecoração do Soldadó, revela o talento e a verve cáustica do escritor que põe em causa os consagrados valores da guerra colonial perfilhados pelo Estado Novo. Vamos aos factos.

Ele chama-se Fergusino do Ó, vem de um lugar ermo do Nordeste Transmontano, descoberto pela GNR quando andou a percorrer itinerários para o censo de 1960. Não é atirador Infante, cavaleiro ou artilheiro, é um soldado básico, pau para toda a obra, suficientemente ajustável para agir como cangalheiro, sacristão, fiel de armazém, projecionista de filmes pornográficos, guarda-costas daquelas meninas que vêm episodicamente minorar a vida agreste dos militares em Mueleka (será Mueda?).

Iremos conhecer a sua história tudo contado em ambiente fechado onde protagonizam figuras ímpares da literatura da guerra colonial: o recém-chegado Comandante, um vigoroso Tenente-Coronel de Infantaria a quem o cabelo cortado à americana, rapado dos lados nivelado no topo com qualquer máquina da família dos aparadores de relva, assemelhava a um boxeur retirado dos ringues; o Segundo-Comandante, um major pacato e gorducho, responsável pelos assuntos administrativos, cujo verdadeiro nome ninguém sabia e a quem todos tratavam por Segundo, o nosso Segundo, uma criatura apagada, de estômago atazanado por uma úlcera, sujeitando-se a uma dieta rigorosa, tinha fama de pouco dotado de inteligência; o narrador das diligências sobre a vida e obra do Soldadó, o Capitão Gorgulho, um inofensivo professor primário, de pernas curtas, braços compridos e peludos, viera punido para Mueleka, mas não parecia nada incomodado com a punição que o retirara do honroso posto à frente de tropas em campanha; a inesquecível figura do major de Operações, Majorué, um primor nos dichotes, nos comentários com vitriolo, ninguém lhe leva a palma. Outros surgirão, como o Capelão e o Alferes do Pelotão de Intendência.

Que pretende contar o Capitão Gorgulho de tudo quanto se sabe sobre o Soldadó? Veio de Cabeça Seca, quando chegou ao Regimento de Infantaria 13, havendo falta de espaço das casas quadriculadas dos mapas de registo passou a ser Soldado do Ó e depois Soldadó. À primeira vista, parecia destinado a ser atirador, o pior foi quando lhe puseram uma arma nas mãos, andou hilariante a disparar rajadas, todos se puseram de acordo que ele devia ser afastado do convívio com as armas de fogo, foi reclassificado como soldado básico. Veio a convocatória para a guerra, o assunto parecia tê-lo deixado indiferente. Também se faz uma reflexão sobre a tentativa de civilizar aquela gente de Cabeça Seca, enviou-se um padre, um bom homem que não foi bem-sucedido nas intempestivas discussões com o feiticeiro da terra, no fundo as gentes de Cabeça Seca tomavam como mau agoiro a presença de estranhos no seu seio.

E também se conta o cerimonial da partida do contingente militar no cais de Alcântara, vale a pena tomar nota do que escreve o autor:
“A magalagem pendurada nos bordos do Niassa era mais que moscas em boca de cão morto e cá em baixo juntava-se uma multidão de paisanos maior que um tapete de formigas carregadeiras dentro de um açucareiro. Acenavam desesperadamente aos militares embarcados e estes respondiam desensofridos, como se tivessem esquecido alguma coisa muito importante em terra, saltavam e guinchavam, demonstrando uma incompreensível raiva de condenados, ali conduzidos presos por uma corda.”


O recém-chegado comandante vai de assombro em assombro, faz perguntas aos outros oficiais, recebe respostas calmas e aparentemente sustentáveis. É nisto que bate à porta um Capitão, o Capitão Baltazar, fala-se do trabalho do Soldadó na sua atividade de cangalheiro. O Capitão Baltazar solta um prolongado uivo, o Majorué anuncia que ele está apanhado pelo clima, o comandante anda lívido com todos estes disparates que presencia.

O Segundo-Comandante elogia as atividades do Soldadó como cangalheiro:
“A princípio custara-lhe um pouco desenrascar-se, porque os corpos apareciam todos desengonçados das minas e outros vinham já muito rijos e era preciso dobrar-lhes os membros à força, mas com boa vontade tudo se resolvia. Ultimamente até os lavava para limpar o sangue e a pólvora, preferia os mortos pequeninos, para caberem nas urnas logo à primeira e de cara composta. No cemitério, enterrou dois mortos de cova, em beliche, para poupar espaço e trabalho.”


Entra em cena o Alferes do Pelotão de Intendência, era o responsável pelo Soldadó. Estamos já em Mueleka, foram contadas todas as peripécias da viagem, é nisto que o Majorué se revela desabrido com o Capelão e denuncia-o pelas suas piruetas sexuais, deixa o Capelão encavacado. O Alferes continua a sua apreciação das atividades do Soldadó, era doido por guardar armamento, incapaz de desperdícios, recolhia dos falecidos ouro e prata, notas e moedas. E, imprevistamente, acontece o seu feito heroico, o Comandante Militar e a sua comitiva vieram visitar Mueleka, é durante a visita que acontece um vendaval de fogo, prontamente o Soldadó, a peito descoberto, despejou os carregadores da espingarda, mais as fitas disponíveis na metralhadora, contra a orla da mata à sua frente, só parou depois de ter sido ferido por um estilhaço, o Soldadó será o único ferido daquela estranhíssima refrega, o General entendeu que se devia fazer o reconhecimento, a sua comitiva estava ansiosa por partir, ninguém gostara daquele inesperado tiroteio, e o recém-chegado Comandante fica ainda mais atónito quando se descobre que todo aquele foguetório tinha sido operação montada dentro de Mueleka.

O Alferes da Intendência, encarregado de organizar o processo do Soldadó herói descobre um facto estarrecedor: o Soldadó está há quatro anos em Mueleka, mais uma história difícil de descalçar a bota.

Não é nada conveniente contar como tudo acabou, quem faz recensões não é desmancha prazeres, se houver mistificação e mentira em todo aquele feito heroico era necessário levá-lo a bom porto. Foi o que aconteceu, dentro de alguns anos o povo de Cabeça Seca erguerá um monumento a esse militar de sublime comportamento.

Se é verdade que falta a Soldadó a dimensão de Nó Cego, a obra-prima de Carlos Vale Ferraz, porventura a mais importante obra de toda a literatura da guerra colonial, reconheça-se que esta tragicomédia devia ser reeditada, é uma narrativa de arromba.
Carlos Vale Ferraz, pseudónimo literário do Coronel Carlos de Matos Gomes (1946-2025)
_____________

Nota do editor

Último post da série de 16 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27639: Notas de leitura (1886): Notas soltas sobre a renovação do nacionalismo imperial português (Mário Beja Santos)

Guiné 61/74 - P27649: O nosso blogue em números (112): Em 20 anos, estamos a cminho dos 110 mil comentários... Em 2025, publicámos 3,6 comentários por poste... Nos 19 primeiros dias de janeiro de 2026, já vamos em 6, em média, o que é encorajador



Infografia: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2026)

1. Prosseguindo a nossa "prestação de contas" relativamente à atividade bloguística do ano que agora findou (*) ... (Diga-se, de passagem, que "prestar contas" não é uma coisa que muita gente faça, de livre vontade.)

 Em 2025 publicámos 1257 postes e  4580 comentários. O que dá uma média de 3,64 comentários por poste, ums décimas acima do ano anterior (3,57).  Arredondandando, dá 3,6 (Gráfico nº 7).

Se analisarmos a evolução dos últimos dez anos (2016-2025), verificamos que:

  • atingimos os 4,9 comentários por poste em 2019 (antes da pandemia) e em 2023;
  • o valor mais baixo (3,2) foi em 2017.
Recorde-se, tivemos que reeintroduzir, com pena nossa, em 13 de setembro de 2024, a moderação ou triagem dos comentários (**), devido à ocorrência reiterada de casos de "ciberbullying", ameaças e insultos...

A medida, temporária, fpoi levantada no início do novo novo de 2026. Em 19 dias e 45 postes, o número de comentários já subiu, em média, para os 6. O que é encorajador.

2. Convém, entretanto, lembrar, mais uma vez, que estas "médias", como todas as médias estatísticas, podem ser "enganadoras": 

  • há postes sem um único comentário,
  • a maior parte tem um, dois ou três;
  • às vezes podem ter meia dúzia, ou até 10;
  • outros podem ter, muito excecionalmente, algumas dezenas. 

Tudo depende do tema, do conteúdo, do interesse, do autor, da ilustração fotográfica, etc.

Há, naturalmente, postes mais "polémicos" ou mais "interessantes" ou até mais "apaixonantes" do que outros. Tudo depende do assunto e da sua abordagem. Ou até do autor. Os postes,  com pontos de vista menos "consensuais",  podem originar mais comentários, às vezes "marginais"  (ou sejam, à margem do assunto ou tema principal).

Em todo o caso, sabemos que "ler e comentar dá muito trabalho"...  Por isso,     quem cá. merece tanmbém as nossas palmas...


3. Recorde-se que qualquer leitor (mesmo não registado no Blogger ou sem conta no Google), pode comentar como "anónimo"... As nossas regras exigem, no entanto, que no final da mensagem deixe o seu nome e apelido (como é conhecido dentro ou fora da Tabanca Grande).

 O ideal é usar a conta do Google (basta só criar uma conta, o que é gratuito): quase toda a gente, hoje em dia, tem um endereço de @gmail, por exemplo...

Os comentários dão mais vida, mais pica, mais cor, mais graça, mas também mais pluralismo, mais participação, mais autenticidade, mais verdade, mais representatividade, ao nosso blogue!...

E são a prova de que estamos vivos e somos capazes de conviver com as as memórias, as nossas emoções, as nossas contradições, os nossos lutos, os nossos fantasmas, as nossas limitações de informação e conhecimento, as nossas lacunas, etc.!...


 É bom recordar que há um limite de cerca de 4 mil carateres, incluindo espaços, por comentário, qualquer coisa como cerca de página e meia de texto, em formato A4; mas podem desdobrar-se os comentários,  publicando-se uma primeira parte e depois a continuação. De qualquer modo, o Blogger dá essa indicaão quando se excede o limite de carateres.

Por outro lado, uma parte desses comentários pode dar (e tem dado) origem a postes, por iniciativa em geral dos editores mas também, nalguns casos, por sugestão dos autores.

Por outro lado, alguns camaradas nossos continuam a queixar-se de perderem, às vezes, extensos comentários, certamente por terem tocado numa tecla errada... Nestes casos, é preferível escrever o texto, mais extensos,  em
 word ou txt, à parte e no fim, fazer "copy & paste"... O mesmo se aplicar ao correio eletrónico...

É mais seguro proceder deste modo (ficar sempre com uma cópia de mensagens ou comentários extensos).

Excecionalmente, pode haver um ou outro comentário que é eliminado (à posteriori, por violação das nossas regras editioriais), mas não se perde, segundo guardado  na caixa do Spam.  

Fazemos os votos para que os nossos leitores continuem a aparecer a comentar os nossos postes.  

Os autores (e os editores) são os primeiros a agradecer o interesse dos comentadores. Ao fim destes anos todos estamos a caminho  dos 110 mil comentários (sem SPAM), o que é obra!
___________

Notas do editor:

 (*) Último poste da série > 1
3 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27631: O nosso blogue em números (111): E lá vamos blogando e rindo... E mais se publicaria se mais material houvera, parafraseando o Camões (Carlos Vinhal / Luís Graça / Eduardo Magalhães Ribeiro)

Guiné 61/74 - P27648: E as nossas palmas vão para... (31): O régulo Manuel Resende que conseguiu juntar 73 convívivas na festa do 16º aniversário da Magnífica Tabanca da Linha, em Algès, no passado dia 14 - Fotogaleria - Parte II


Foto nº 17  > António F. Marques e Gina (Cascais): dois históricos da Tabanca da Linha, o António cofundador; talvez o casal que mais frequentou os almoços-convívios  da Tabanca da Linha ao longo destes 16 anos (2010-2026). O Marques pertenceu à CCAÇ 2590/CCAÇ 12, (Contuboel e Bambadinca, 1969/71) . São os dois membros da Tabanca Grande.


Foto nº 18  > Luís R. Moreira e Irene (Sintra). O Luís R. Moreira ou Luís Cardoso Moreira pertenceu à CCS/ BATY 2917 (Bambadinca, 1970/72) (e depois ao BENG 447, onde acabou a comissão). Era alferes sapador. O Luís é membro da Tabanca Grande.


Foto nº 19 >  Jorge Pinto (Sintra) e António Maria Silva (Cacém): dois "magníficos" sempre presentes. (O Jorrge Pinto, ex-alf mil da 3.ª CART/BART 6520/72, Fulacunda, 1972/74, pertence à Tabanca  Grande). O António M. Silva esteve nas Operações Especiias, em Lamego (1966/67) mas nao sei se passou pelo Ultramar (tenho que esclarecer isso com ele ou ocm o régulo).


Foto nº 20 >  Humberto  Reis (Amadora)  (CCAÇ 12, Contuboel e Bambadinca, 1969/71) e   o Jorge Nunes Costa (Linda-A-Velha)


Foto nº 21 > Fernando de Jesus Sousa (Lisboa), autor do livro de memórias "Quatro rios e um destino" (2014); DFA,  é natural de Penedono, distrito de Viseu. Pertenceu à CCAÇ 6, Bedanda, 1970/71. É  membro da Tabanca Grande.


Foto nº 22  > Aspeto da mesa: faltam o António Marques, o Jorge Pinto, o António M. Silva,  Fernando Sousa e o  António Silva. As mesas são de  9/10 lugares.

 Magnífica Tabanca da Linha > Restaurante Caravela d' Ouro > Algés > 14 de janeiro de 2026 > 63º almoço-convívio > 16º aniversário > 
 

Fotos: © Manuel Resende  (2026). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. Da Amadora a Sintra, da Linda a Velha a Cascais: assim se vê a "área de influência" da Magnífica Tabanca da Linha. 

 Em 14 anos  (estamos a descontar os dois anos de pandemia), realizaram-se 63 almoços-convivios, o que dá uma média de 4,5 por ano.  

Na prática, reunimo-nos de dois em dois meses, excetuando os períodos de férias de verão e a quadra festiva de Natal e Ano  Novo e Pãscoa.

Mais uma razão para dar os parabéns a todos os Magníficos, em geral, e ao régulo, Manuel Resende, em particular.  
________________