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sexta-feira, 19 de junho de 2026

Guiné 61/74 - P28114: Documentos (64): A Última Operação: Retirada Final – Ordem nº 1/74: Retirada da Guiné em 15 de outubro de 1974 (Luís Gonçalves Vaz, filho do Cor Cav CEM Henrique Gonçalves Vaz (Barcelos, 1922- Braga, 2001), último Chefe do Estado-Maior do CTIG, 1973/74),



Cabeçalho da Ordem de Operações nº 1/74.  O documento foi desclassificado em 2017. “Documento cedido pela Biblioteca Central da Marinha - Arquivo Histórico
 


Luís Gonçalves Vaz, grão-tabanueiro nº 530
filho do Cor Cav CEM Henrique Gonçalves
Vaz (Barcelos, 1922- Braga, 2001)
(último Chefe do Estado-Maior
do CTIG, 1973/74, e, a partir de 26 de agosto
 de 1974, ​ foi também o chefe do 
Estado-Maior 
do Comando Unificado 
no TO da Guiné)

Introdução: A Memória e o Documento — Revisitando o 15 de outubro de 1974

Ao longo das últimas décadas, a narrativa sobre a presença portuguesa na Guiné tem sido construída, por um lado, pelo depoimento vivido daqueles que ali serviram e, por outro, pelo silêncio, muitas vezes imposto, dos documentos que só agora começam a ser plenamente integrados na historiografia pública com a sua "Desclassificação" nos vários Arquivos Portugueses.

Este artigo propõe uma revisitação necessária à data de 15 de outubro de 1974 — o marco derradeiro da retirada das tropas portuguesas do CTIG. 

Se, em 2012 (data do meu último artigo sobre a Retirada Final da Guiné) (*), a abordagem a este momento histórico dependia essencialmente da memória oral e do relato pessoal, hoje, o distanciamento temporal e 
o acesso a fontes primárias de natureza confidencial já "desclassificadas", permitem-nos um olhar clínico e rigoroso.

Através do cruzamento inédito entre a Ordem de Operações nº 1/74 do Comando Unificado — documento que traçou, com precisão técnica e logística, o complexo movimento de retirada por via marítima entre os dias 14 e 15 de outubro — e os testemunhos diretos, nomeadamente do meu falecido pai, cor cav CEM Henrique Gonçalves Vaz, último Chefe do Estado-Maior do Comando Unificado na Guiné, e a perspetiva, no terreno, do meu primo marinheiro radiotelegrafista Manuel Beleza Ferraz, procura-se aqui não apenas narrar, mas documentar a mecânica da descolonização nesta Colónia Portuguesa.

Mais do que o relato de um fim, este artigo pretende ser um exercício de rigor histórico: confrontar o plano operacional com a realidade humana da partida. Ao alinhar a "Ordem de Operações" com a "ordem dos afetos e da vivência", este trabalho oferece aos amigos e camaradas da Guiné   e aos demais leitores do nosso blogue uma nova leitura sobre o desfecho de uma missão que marcou, definitivamente, a história de Portugal e da Guiné.

Um grande Abraço

Braga, 08/06/2026

Luís Beleza Vaz

(Tabanqueiro nº 530 e filho do último CEM/CTIG)



O navio Uíge no porto de Bissau em 28 de outubro de 1969 a descarregar material de guerra



A Última Operação> Retirada Final – Ordem  nº 1/74: Retirada da Guiné em 15 de outubro de 1974

por Luís Gonçalves Vaz 


MISSÃO: Efectuar a Retirada Final das NT (nossas tropas) da Ilha de Bissau garantindo o seu embarque via marítima para a Metrópole com a maior discrição, dignidade e segurança.

 A Ordem de Operações nº 1/74 foi um documento estratégico de alto nível, emitido pelo então Comando-Chefe das Forças Armadas da Guiné (CCFAG), que definiu as fases, os meios logísticos (navios, transportes aéreos, etc), as responsabilidades de segurança e os itinerários de retirada (**).

Como já apresentei aqui no blogue,  no poste P9535, de 26 de fevereiro de 2012, um artigo sobre a “Retirada Final” da Guiné (*), resolvi agora, e com recurso à consulta do Fundo Coloredo do Arquivo Histórico da Marinha, nomeadamente à consulta da Ordem de Operações nº 1 de 1974,  BCM (Biblioteca Central da Marinha)(Pasta 179), Diretiva de 9 de outubro de 1974 do Comandante-Chefe aos Comandantes dos três Ramos das Forças Armadas no TO  da Guiné, realizar um artigo com mais detalhe sobre esta última operação militar, comandada pelo Comodoro Vicente de Almeida d ́Eça, que foi o Comandante do Comando da Defesa Marítima da Guiné entre 4 de janeiro de 1974 e 28 de outubro de 1974, bem como o Comandante da Força Naval que transportou os últimos efetivos portugueses ali estacionados.

A referência à Ordem de Operações nº  1/74 como o plano mestre para a retirada final de cerca de 2.500 militares (os últimos contingentes que permaneceram em Bissau e noutros pontos fulcrais nesta altura do mês de outubro), reflete o culminar da transição negociada entre o Comando-Chefe português, liderado à época por Carlos Fabião, e o PAIGC.

Depois de de lermos a Ordem de Operações nº 1/74, percebe-se que esta retirada não foi apenas um "ir embora", pois exigiu a catalogação e o transporte de material de guerra, a coordenação com a Força Aérea e a Marinha (especialmente o papel dos navios de transporte, como o Uíge, que figura nas memórias fotográficas da época como o símbolo do final da presença portuguesa) e a manutenção de um cessar-fogo rigoroso que evitasse incidentes durante a desocupação das posições.

A emissão desta ordem de operações, o "Ponto Final" da nossa Colónia da Guiné, foi o instrumento que permitiu que o processo, iniciado com o Acordo de Argel assinado em 26 de agosto de 1974, se concretizasse. O facto de ser a "nº 1/74" sublinha que se tratou da primeira e decisiva operação de desmobilização total e encerramento de um Teatro de Operações, após décadas de guerra.

Esta ordem representa, na prática, um "roteiro" para o fim da Guerra Colonial na Guiné, marcando a passagem de um estado de beligerância para a transferência de soberania, consolidando assim a retirada das tropas que, em outubro de 1974, aguardavam nas docas de Bissau a sua partida definitiva para a Metrópole.

Este documento é, sem dúvida, uma peça de arquivo valiosa para a historiografia do 25 de Abril e do processo de descolonização, pois documenta o plano de execução para a evacuação final das forças nacionais.


A fragata “Comandante Roberto Ivens” foi o navio-chefe onde se coordenou toda a operação e onde 
embarcou o Comandante da FO27 (Força de Combate 27), o comodoro Vicente Almeida d'Eça (foto: cortesia de Navios da Armada, página do Facebook (Do Livro da Fabrica das Naus de Fernando Oliveira aos nossos dias. Viva a Briosa).

Ao falarmos na Ordem de Operações nº  1/74 e no rigor técnico da retirada, tocamos num ponto que muitas vezes é ignorado, o papel crucial da Marinha de Guerra Portuguesa, quer durante o conflito neste TO, quer na logística de desocupação desta Colónia. 



Capitão-de-Fragata (em 1966),  Vicente Almeida d' Eça (1918-2018) 
Fotografia gentilmente  cedida pela Biblioteca Central 
da Marinha - Arquivo Histórico

Enquanto a narrativa política se foca no 25 de Abril e nas negociações, a execução prática da retirada, especialmente a retirada final em quinze de 
outubro de 1974, foi uma operação logística de uma complexidade técnica monumental, quase exclusivamente conduzida pelos meios navais.

O rigor técnico mencionado nesta Ordem de operações, decorre de vários fatores que ela teve de acautelar, nomeadamente:

  • A Logística de Transporte: retirar 2.500 militares não significava apenas embarcá-los. Implicava transportar armamento pesado, equipamento de comunicações, arquivos confidenciais e material de intendência. A Marinha organizou o "Comboio da Descolonização",                                                                  onde o NRP Uíge e o NRP  Niassa  foram as peças-chave.
  •  Segurança e Cessar-Fogo: a Ordem de Operações Nº 1/74 tinha de prever a manutenção de um perímetro de segurança em Bissau até ao último segundo; o rigor era vital para evitar incidentes que pudessem degenerar em confrontos armados no momento da transição, o que exigia uma coordenação minuciosa entre as guarnições dos navios, os fuzileiros em terra e os postos de comando conforme  relato no artigo da Retirada Final,   em 14 e 15 de outubro  de 1974 (Luís Gonçalves Vaz / Manuel Beleza Ferraz) (*);
  • “Segundo o ex-marinheiro radiotelegrafista, Manuel Beleza Ferraz, os navios que se encontravam a realizar a 'segurança de rectaguarda'  mais próxima às tropas que iriam retirar-se para os navios ao largo no Rio Geba, eram a LFG Órion e a LFG Lira.
Encontravam-se também ao largo em missão de Segurança um patrulha (NRP Cuanza) e o navio NRP Comandante Roberto Ivens, este último a comandar as operações navais desta missão de “Retirada Final”. 

No próprio navio Uíge estava montado discretamente um dispositivo de segurança pronto a abrir fogo, caso o PAIGC se lembrasse de abrir alguma hostilidade contra o último pessoal militar a abandonar a Guiné, com algumas metralhadoras HK-21, além de todos os militares estarem armados com as suas G3 e as respectivas munições.


Guiné-Bissau > 15 de outubro de 1974 > A LFG Lira, depois de abandonar o Rio Geba na Guiné, a escoltar os T/T Uíge e Niassa até águas internacionais. Foto do álbum do marinheiro radiotelegrafista 812/70 Manuel Beleza Ferraz.

Foto (e legenda): © Manuel Beleza Ferraz (2012). Todos os direitos reservados. (Edição e legendagem: Bogue Luís Graça & Camaradas da Guiné)


Após o “Arriar da Bandeira Portuguesa”, as tropas portuguesas dos três Ramos das Forças
Armadas, presentes na referida cerimónia, logo de seguida foram transportadas em zebros e
LDM (lanchas de desembarque médias) para o navio Uíge, que os aguardava no meio do Rio
Geba, a cerca de 400 metros afastados do cais, onde se encontrava já com as máquinas em pleno funcionamento ("pairavam") por razões de segurança.




Guiné > Bissau > c. out 1974 > Lancha de Fiscalização Grande (LFG) Lira, atracada na ponte-cais, poucos dias antes da “retirada final” em 15 de Outubro de 1974. Foto do álbum do marinheiro radiotelegrafista 812/70 Manuel Beleza Ferraz.


Fotos (e legendas): © Manuel Beleza Ferraz (2012). Todos os direitos reservados. (Edição e legendagem: Bogue Luís Graça & Camaradas da Guiné)


O ex-Marinheiro Radiotelegrafista, Manuel Beleza Ferraz, fonte destes testemunhos históricos, aqui relatados, informou-me ainda de que as ordens vindas do Comando Naval, com apenas 24 horas de antecedência, foram entregues em mão aos comandantes das duas LFG (Orion e Lira) e do patrulha Cuanza, presentes ao largo do cais, no caso do seu navio, o patrulha Lira, recebeu directamente o seu Comandante, 1º tenente Martins Soares.

Como tal, os comandantes destes três navios que constituíam nesse dia, a “força naval” em frente ao cais de Bissau, receberam ordens expressas “para se posicionarem em postos de combate”, com todas as peças Bofors de 40mm, devidamente municiadas e preparadas para realizarem fogo, como apoio de retaguarda à retirada das nossas tropas, de terra para os navios, nomeadamente o Uíge.”

Na secção "Situação" desta “Ordem de Operações”, é descrito o planeamento da retirada marítima de aproximadamente 2.500 militares das Forças Armadas Portuguesas da zona de reagrupamento da Ilha de Bissau, prevista para ocorrer entre os dias 13 e 15 de outubro (15outT).

No ponto das "Forças inimigas", também é referido que, embora a colaboração das forças policiais da República da Guiné-Bissau estivesse, em princípio, assegurada para evitar aglomerações de população junto à zona portuária, não era de excluir a hipótese de ocorrência de "actos inamistosos".

Na secção “Execução”, é referido que durante a noite de 13/14 de outubro descolará de Bissau o último avião da ponte aérea militar para Lisboa (voo que transportou o brigadeiro Carlos Fabião e o seu Estado-Maior, nomeadamente o último Chefe do Estado-Maior do então Comando Unificado, o coronel do CEM Henrique Gonçalves Vaz). 

Diz ainda que o T/T “Uíge”, atracado, embarcará cerca 1380 elementos da nossa Tropa. 

Finalmente diz que o embarque das restantes efetivos terá lugar na noite de 14/15 de outubro em LDG atracadas na ponte cais que os transportará para o T/T ”Niassa” e para o NRP “S. Gabriel” fundeados no canal do rio Geba. 

Quanto à segurança é referido que as Forças “FO27” assegurarão a proteção dos efetivos a embarcar, tanto no embarque e largada do cais como nos trânsitos fluviais até aos transatlânticos (T/T) e promoverá a escolta destes até à hora de espera.



Guiné > Bissau > s/d > Três das LFG (Lanchas de Fiscalização Grandes) que integraram a Operação nº 1/74 no cais de Bissau (Foto: cortesia do blogue de Luís Cavaleiro, Rio dos Bons Sinais, disponível aqui)-

Quanto à “Organização Operacional”, a ordem detalha a estrutura da força-tarefa naval (FO27 - Força Operacional Embarque), liderada pelo Comodoro Almeida d'Eça, dividida em cinco grupos funcionais, conforme se pode ver no organigrama seguinte:


Organigrama construído a partir da Organização Operacional apresentada logo no início da Ordem
Operacional nº 1/74. Fonte: Fundo Coloredo | Arquivo Histórico da Marinha (Infografia cedida pela Biblioteca Central da Marinha - Arquivo Histórico)


Este documento fornece sem dúvida um registo claro das medidas logísticas e defensivas tomadas pelas forças militares portuguesas durante as fases finais da sua presença na Guiné em 1974.

Relativamente à coordenação Interforças, este documento é uma peça de engenharia militar porque estabeleceu a sincronização entre a desocupação dos quartéis do Exército e a prontidão dos navios no porto. A precisão horária era a única garantia de que ninguém ficaria para trás ou exposto sem proteção.

O facto de ter consultado o Arquivo Histórico da Marinha e encontrado este rigor nesta “Ordem de Operações nº 1/74”, confirma que de facto a descolonização, vista pelos olhos dos oficiais que a planearam e executaram, foi um processo de gestão de risco elevado. 

A Ordem de Operações nº 1/74 não foi apenas um "fim de guerra", mas o documento que garantiu que a soberania portuguesa fosse transferida de forma organizada, mantendo a disciplina militar intacta até ao arriar da última bandeira.

É um registo que retira o processo da esfera puramente política e o coloca no lugar que lhe cabe: uma operação militar de grande envergadura, planeada com a precisão exigida pela hierarquia militar da época.



Guiné > LFG Lira > s/d  > Elementos da guarnição do NRP Lira, em convívio na sala
comum/refeitório. Foram estes os marinheiros que,  no dia 15 de outubro de 1974, nos seus lugares de combate e outros, asseguraram a operacionalidade da NRP Lira, no que diz respeito ao apoio e segurança na evacuação do último contingente militar do território da Guiné.

Foto (e legenda): © Manuel Beleza Ferraz (2012). Todos os direitos reservados. (Edição e legendagem complementar: Bogue Luís Graça & Camaradas da Guiné)

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Embora os "tiros" tenham parado, a missão militar continuou sob um rigor técnico extremo, de forma que esta "Operação nº 1/74" foi, na prática, a operação de logística militar mais complexa da história recente de Portugal, pois exigia que os militares mantivessem a disciplina, a hierarquia e a segurança enquanto o território sob os seus pés deixava de ser português.

Em suma, esta última operação na Guiné foi, tecnicamente, uma operação de combate defensivo em contexto de paz armada. Os elementos que consegui recolher, desde depoimentos à análise deste documento histórico (a Ordem de Operações nº 1/74), confirmam que não houve desleixo na sua preparação, pois:
  • a manutenção de perímetros de segurança com tropas de infantaria e fuzileiros, prontos para responder, foi o que impediu o vácuo de poder que, noutros cenários mundiais de descolonização, levou a massacres;
  • o apoio naval: as lanchas de desembarque com metralhadoras prontas não eram apenas um dispositivo de transporte; eram plataformas de fogo de cobertura; o  facto de a Marinha ter mantido esse poder de fogo visível e operante foi o fator dissuasor que garantiu que nenhum grupo se sentisse tentado a atacar as colunas de retirada; 
  • a "não-violência" como sucesso militar: um dos maiores erros históricos é pensar que "não houve combates" porque "não houve guerra"; o sucesso real foi que não houve combates precisamente porque a força portuguesa se manteve capaz de combater; se a prontidão não estivesse ao mais alto nível, a operação teria sido um alvo fácil.

A Ordem nº 1/74 não foi uma "entrega", foi uma manobra de extração realizada sob condições de combate potencial. Esta foi talvez a operação de maior sucesso de toda a presença portuguesa na Guiné, não por ter conquistado território, mas por ter garantido a integridade física de todos os seus homens.


Fonte: Luís Gonçalves
Vaz (2024)
Conclusão: foi o planeamento rigoroso da Marinha, em cumprimento da Ordem de Operações nº 1/74 emitida pelo Comandante-Chefe (mas planeada pelo seu Estado-Maior), em sintonia com a prontidão das unidades em terra que permitiu que o regresso das nossas tropas fosse feito sem
baixas.

Este regresso não foi um ato de desistência, foi o último ato de uma força que, até ao último segundo, soube manter-se coesa, profissional e preparada para o pior cenário.

Braga, 08/06/2026
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Luís Beleza Vaz
Grão-Tabanqueiro nº  e filho do último CEM/CTIG, cor cav Henrique Gonçalves Vaz (Barcelos, 1922 - Braga, 2001; foto à direita)


Anexo > Cabeçalho da Ordem de Operações nº 1/74
 (publicado no topo deste poste). O documento foi desclassificado ~
em 2017. “Documento cedido pela Biblioteca Central 

(Revisão / fixação de texto: LG)

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Notas do editor LG:

(*) Vd.  postes de:



(**) Último poste da série > 2 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27786: Documentos (63): A retirada de Madina do Boé: a jangada - Parte II (Cálculo das dimensões e lotação, com a ajuda das fotos e da IA)

Guiné 61/74 - P28113: Parabéns a você (2496): Adão Cruz, ex-Alf Mil Médico da CCAÇ 1547/BCAÇ 1887 (Canquelifá e Bigene, 1966/68) e Tibério Borges, ex-Alf Mil Inf da CCAÇ 2726 (Cacine, Cameconde, Gadamael e Bedanda, 1970/72)


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Nota do editor

Último post da série de 17 de junho de 2026 > Guiné 61/74 - P28105: Parabéns a você (2495): Juvenal Amado, ex-1.º Cabo Condutor Auto Rodas da CCS/BCAÇ 3872 (Galomaro, 1971/74)

quinta-feira, 18 de junho de 2026

Guiné 61/74 - P28112: Tabanca da Diáspora Lusófona (40): quantos portugueses e lusodescendentes há no mundo (e em especial no "Novo Mundo") ? E qual o universos dos lusófonos ? Teremos mais de 30 milhões de portugueses e lusodescententes e c. 3 centenas de milhões de lusófonos - Parte I









Prompt original e composição editorial: Luís Graça.

Imagem:  Vilma e João (2018)

Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.


1. João e Vilma, desta vez consegui fintar os "filtros" do ChatGPT, a IA americana que é tão ciosa da vossa privacidade... Disse-lhe: "Faz-me lá um 'boneco' ('cartoon', bem humorado), tendo como cenário a Tabanca da Diáspora Lusófona (que pertence ao universo da Tabanca Grande, a mãe de todas as tabancas).... Tem sede (simbólica) em Queens, Nova Iorque... O régulo é o conhecido luso-americano João Crisóstomo, figura pública, ativista social, etc., secretariado pela luso-eslovena-americana Vilma Kracun... 

"Bom, a Tabanca  devia estar cheia, a abarrotar... Mas não, são só  por enquanto meia dúzia de bravos camaradas, de ascendência portuguesa, dispersos, pelo 'Novo Mundo' (Canadá, EUA, Brasil...), África, Ásia, Austrália... E, claro,  Europa, o "Velho Mundo" (por excelência), que se está a tornar cada mais xenófobo e racista, para desventura nossa"... 

EUA > Nova Iorque > Mineola > 2018 > Vilma Kracun Crisóstomo e João Crisóstomo, na Parada alusiva ao Dia de Portugal, em Mineola, NY, 10 de junho de 2018. A Vilma é de origem eslovena, naturalizada americana, portuguesa de coração.



 O régulo João Crisóstomo  muito tem feito, de megafone e telefone em punho, para convocar as "ovelhas tresmalhadas deste grande rebanho" (sem ofensa para ninguém, afinal, somos todos do reino "animal", da classe dos "mamíferos", com lã ou sem lã, antes de sermos "primatas" (ordem) e depois "humanos" (género Homo, espécie H. sapiens).

Diáspora lusófona,  dizes tu ?!... O Portugal europeu representa hoje uma fração muito pequena (pouco mais de 3%) do universo global de "quem sente, pensa e fala em português", da luso-guineense Tita Pipoka ao escritor moçambicano Mia Couto (que ainda não ganhou o Prémio Nobel da Literatura só porque é...africano branco, isto é, aos olhos dos suecos tem o pecado original de ser filho de... colonialistas).

A nossa língua há muito que deixou de nos "pertencer", a nós, portugueses europeus (pese embora alguns chauvinistas, puristas, colonialistas, supremacistas e outros "istas", que sobraram dos escombros do "império", e que se consideram "donos e senhores da língua portuguesa"...).  

Entendamo-nos, e sem querer ferir as suscetibilidades, muito menos os "pergaminhos" de ninguém: o português há muito que não é  "exclusivamente europeu",   tornou-se um idioma verdadeiramente pluricontinental, atlântico, global...A culpa foi dos que não deram ouvidos ao "velho do Restelo" (*). 

2. Para quem não sabe, o português é a língua oficial de 9 países espalhados por quatro continentes: Europa, América, África e Ásia. E é falado em todos os continentes, incluindo o Círculo Polar Ártico (pelo Zé Belo e as suas renas).
Estes países formam a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP)
  • Europa: Portugal
  • América: Brasil
  • África: Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Guiné Equatorial, Moçambique e São Tomé e Príncipe
  • Ásia: Timor-Leste.
Além destes países, o português também possui o estatuto de língua oficial na Região Administrativa Especial de Macau, na China. 
 Atualmente, estima-se que existam cerca de 290 a 300 milhões de lusófonos em todo o mundo. É a quarta língua materna mais falada no planeta (atrás do mandarim, do inglês e do espanhol) e a mais falada no Hemisfério Sul.
Mas antes de apresentarmos o retrato estatístico atualizado e o "mapa" desta nossa vasta pátria geopolítica e cultural, respondamos à pergunta: 

(i) quantos portugueses e descendentes de portugueses há no mundo, e nomeadamente no "Novo Mundo" (Brasil, Canadá, EUA, Venezuela, etc.)? Claro que nem todos falam o português... 

(ii) a outra pergunta é: quantos lusófonos há no mundo ? 

Com a ajuda de 3 ferramentas de IA e outras fontes disponíveis na Net (Wikipedia, Observatório da Emigração, etc.) , vamos tentar responder, aproximadamente,  a estas duas perguntas, suscitadas  em parte pelas imagens que nos chegam, pela televisão (que eu não vejo, só espreito), por estes dias em que está a decorrer o Campeonato do Mundo de Futebol (11 de junho - 19 de julho) no "Novo Mundo" (EUA, Canadá e México). 

Para teres teres informação mais detalhada, camarada, consulta o Observatório da Emigração  (Centro de Investigação e Estudos de Sociologia (CIES) | ISCTE | Instituto Universitário de Lisboa)

3. Diz o ChatGPT, que "é impossível dar um número exato, porque depende muito da definição de 'descendente de portugueses'. Se contarmos apenas filhos e netos de emigrantes recentes, o total é relativamente reduzido; se incluirmos pessoas com qualquer ascendência portuguesa, especialmente no Brasil, os valores tornam-se enormes."

E faz a seguinte estimativa  estimativa aproximada:
  • Brasil: entre 80 e mais de 150 milhões de pessoas terão alguma ascendência portuguesa, dependendo dos critérios utilizados;
  • muitos historiadores consideram que a esmagadora maioria da população brasileira possui pelo menos alguma herança portuguesa devido aos séculos de colonização e miscigenação;
  • Estados Unidos: cerca de 1,3 a 1,5 milhões de pessoas identificam-se como portuguesas ou luso-descendentes;
  • Canadá: aproximadamente 500 mil a 600 mil luso-descendentes;
  • Venezuela: as estimativas variam bastante, mas apontam para algumas centenas de milhares de pessoas de origem portuguesa.

Conclusão do ChatGPT (que dá importância ao critério da ancestralidade): no conjunto das Américas ("Novo Mundo"), "uma estimativa prudente situa o número de portugueses e descendentes de portugueses em mais de 85 milhões de pessoas, sendo que o Brasil representa de longe a maior parcela. Dependendo da definição de “descendente”, esse total pode ser significativamente superior".

Desde quando existe esta presença, perguntamos nós?

Resposta da ferramenta de IA: 

A presença portuguesa na América remonta ao início do século XVI:

1500: chegada da expedição de Pedro Álvares Cabral ao território que viria a ser o Brasil.

  • Séc. XVI a XVIII: colonização intensa do Brasil, com sucessivas vagas de povoadores portugueses vindos do continente, dos Açores e da Madeira.
  • Séc. XVIII: o ciclo do ouro em Minas Gerais atraiu dezenas de milhares de emigrantes portugueses.
  • Séc. XIX e XX: grandes vagas migratórias dirigiram-se não só ao Brasil, mas também aos Estados Unidos, Canadá, Venezuela, Argentina e Uruguai, impulsionadas por razões económicas e sociais.

Assim, "a presença portuguesa na América tem mais de 500 anos de história, e a sua influência demográfica e cultural é particularmente marcante no Brasil, onde moldou profundamente a língua, as instituições e a composição da população". 

4. O Gemini/Google é mais restritivo na estimativa, mas confirma ou complementa a informação anterior, baseando-se sobretudo nos censos e outras fontes demográficas:

A presença portuguesa nas Américas é vasta, profunda e recua aos primórdios da própria chegada dos europeus ao "Novo Mundo". Se contabilizarmos tanto os cidadãos nascidos em Portugal (emigrantes de primeira geração) como os seus descendentes diretos e indiretos (várias gerações que mantêm ou declaram essa ancestralidade), os números variam significativamente dependendo do critério estatístico e do país.

Estima-se que existam hoje mais de 7,5 milhões de portugueses e lusodescendentes espalhados pelo continente americano, com o Brasil, os Estados Unidos e o Canadá a concentrarem a esmagadora maioria.

Distribuição Atual nas Américas (estimativas)

  • Brasil (aproximadamente 5 milhões)

O Brasil é o maior reduto da lusofonia e da diáspora no mundo.

Nacionais e descendentes diretos: estima-se em cerca de 5 milhões o número de pessoas que são cidadãos portugueses ou descendentes até à 3ª geração.

Ancestralidade geral: se recuarmos mais no tempo, a esmagadora maioria da população brasileira (particularmente nos estados do Sudeste e Sul) possui algum grau de ascendência portuguesa profunda, embora muitos já não se identifiquem estatisticamente como "lusodescendentes", mas sim puramente como brasileiros.

  • Estados Unidos (c. 1,45 milhões)

Segundo os dados consolidados do Censo norte-americano, existem cerca de 1,45 milhões de cidadãos que declaram formalmente a sua ancestralidade portuguesa ("Portuguese Americans").

Distribuição: A maior comunidade em números absolutos reside na Califórnia (mais de 300 mil), seguida de perto por Massachusetts (cerca de 265 mil) e pela Flórida (cerca de 90 mil). Em termos de densidade, o pequeno estado de Rhode Island lidera, onde quase 7% a 8% da população tem origens lusas.

  • Canadá (c. 450 mil a 480 mil)

Uma comunidade muito sólida, concentrada maioritariamente na província do Ontário (sobretudo em Toronto) e no Quebeque (Montreal). A grande maioria tem raízes profundas no arquipélago dos Açores.

  • Venezuela e resto da América Latina (Cerca de 400 mil a 500 mil)

A Venezuela acolheu uma das maiores vagas de emigração portuguesa na segunda metade do século XX (sobretudo oriunda da ilha da Madeira). Embora a crise política e económica do país tenha levado muitos a regressar ou a reemigrar, estima-se que a comunidade (entre cidadãos e lusodescendentes) ainda ronde as 300.000 a 400.000 pessoas.

Há ainda núcleos históricos de dimensão relevante na Argentina (cerca de 40.000) e no Chile.

Desde quando? (As vagas históricas da migração transatlântica)

A cronologia da fixação portuguesa nas Américas divide-se em momentos muito distintos:

  • Séc. XVI:  a fixação pioneira

No Brasil: começa imediatamente após a chegada de Pedro Álvares Cabral em 1500, intensificando-se a partir de 1530 com a criação das Capitanias Hereditárias e a necessidade de povoar o território face às ameaças francesas e holandesas.

Na América do Norte: embora navegadores como João Rodrigues Cabrilho tenham explorado a costa da Califórnia ao serviço de Espanha em 1542, a fixação foi residual nesta época.

  • Séc. XVII e XVIII: o ouro e as primeiras minorias

Brasil: o século XVIII (com o ciclo do ouro em Minas Gerais) provocou a primeira grande vaga migratória em massa de Portugal para o Brasil. Cerca de 600 mil portugueses, sobretudo do Minho e do Norte, cruzaram o Atlântico.

América do Norte: surge a fixação de pequenas comunidades de judeus sefarditas de origem portuguesa que, fugindo da Inquisição (via Holanda), se estabeleceram em locais como Nova Amesterdão (atual Nova Iorque) e Newport (Rhode Island), fundando as primeiras sinagogas do país.

  • Séc. XIX: a pesca da baleia e a emigração organizada

EUA: A partir de meados do século XIX, os navios baleeiros da Nova Inglaterra (New Bedford) recrutavam tripulações nos Açores e na Madeira. Muitos destes homens fixaram-se na Costa Leste ou seguiram para a Califórnia durante a "febre do ouro" de 1849, estabelecendo-se mais tarde na agricultura e na pecuária leiteira (no Central Valley).

Brasil: com a independência do Brasil (1822) e o fim gradual do tráfico de escravos, o país continuou a atrair centenas de milhares de camponeses e operários portugueses para as cidades (Rio de Janeiro e São Paulo) e para as plantações de café.

  • Séc. XX: o "boom" moderno e os refugiados do vulcão do Faial

Canadá e EUA: a emigração para o Canadá começou formalmente de forma organizada em 1953 (com a chegada do navio Saturnia). Nos EUA, a imigração açoriana ganhou um impulso gigante após a erupção do Vulcão dos Capelinhos (Faial, 1957/58), que levou à aprovação do "Azores Refugee Act" pelo governo americano, facilitando a entrada de milhares de famílias.

Venezuela: entre as décadas de 1950 e 1970, o forte crescimento económico do país atraiu milhares de portugueses (com forte incidência da Madeira), que se dedicaram ao comércio, panificação e construção civil.

Conclusão da Gemini / Google:

"Essa teia secular faz com que a presença portuguesa nas Américas hoje seja tanto uma herança histórica profunda (fundacional em países como o Brasil) como uma realidade associativa e cultural muito viva e influente nas estruturas sociais e económicas dos EUA e do Canadá."

5. Vejamos o que nos diz a francesa Vibe / Mistral, valente concorrente europeia das "gigantes tecnológicas" norte-americanas

Luís, aqui tens uma síntese clara e documentada sobre a presença portuguesa e de descendentes nas Américas:

Números atuais (2026):
  • Estados Unidos: cerca de 1,3 milhões de pessoas identificam-se como portugueses ou luso-descendentes, com maior concentração em Massachusetts, Califórnia, Rhode Island, Nova Jérsia e Flórida, destes, 22,49% ainda fala português em casa, além do inglês;
  • Brasil: entre 500 mil e 700 mil portugueses migraram para o Brasil durante o período colonial (1500–1822);
  • entre 1500 e 1820, estimam-se 605.000 portugueses emigrados para as Américas, tornando Portugal o segundo maior emissor europeu de migrantes para o continente, atrás apenas da Grã-Bretanha.

Total global (diáspora): estima-se que existam quase 5 milhões de portugueses e luso-descendentes espalhados pelo mundo, somando cerca de 15 milhões de pessoas (incluindo os residentes em Portugal).

O Observatório da Emigração ( do COES - ISCTE) vai mais longe: 

Em 2026, o total de portugueses e luso-descendentes no mundo é estimado em 31,2 milhões (observatorioemigracao.pt).

Histórico da migração

Início: a presença portuguesa nas Américas remonta ao século XVI, com os primeiros fluxos significativos para o Brasil logo após 1500. 

Entre 1500 e 1820, 605.000 portugueses emigraram para as Américas, principalmente para o Brasil, mas também para os EUA (ex.: caça à baleia nos Açores, plantações de cana-de-açúcar no Havai, indústria têxtil em Massachusetts)

Fases principais:

  • 1500–1820: migração para o Brasil colonial (500–700 mil).
  • 1800–1870: caça à baleia (Açores → Nova Inglaterra, Califórnia, Havai).
  • 1870–1920: Trabalho em plantações (Havai), indústria têxtil (Massachusetts, Rhode Island) e agricultura (Califórnia).
  • 1920–1950: Diminuição da emigração.
  • Pós-1950: Retomada com o "Azorean Refugee Act" (após erupção do vulcão dos Capelinhos, Faial).

Destinos e integração:

  • EUA: a comunidade luso-americana é hoje mais dispersa, com crescimento em estados como Flórida, Texas e Geórgia; os lusodescendentes que falam português têm nível de escolaridade superior à média americana (40% com ensino superior) e trabalham mais em áreas técnicas e de consultoria;
  • Brasil: os portugueses foram um dos principais grupos formadores da população brasileira, ao lado de ameríndios e africanos; a  migração foi especialmente intensa nos séc. XVIII e XIX, com picos durante a exploração do ouro e do café.

Nota da Vibe/Mistral: Os números totais para as Américas (Norte, Central e Sul) não estão consolidados num único estudo, mas somando as estimativas para os EUA (1,3M) e Brasil (descendentes de 500–700 mil migrantes coloniais + migrações posteriores), é seguro afirmar que há vários milhões de luso-descendentes nas Américas, com origem na migração que começou há mais de 500 anos. (**)

 (Pesquisa: LG + IA (ChaGPT / Open AI | Gemini / Google | Vibe Mistral AI)
(Condensação, revisão / fixação de texto, negritos, links_ LG)

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Notas do editor LG:

(*) Vd. poste de 18 de junho de 2026 > Guiné 61/74 - P28110: Humor de caserna (275): E se os portugueses nunca tivessem chegado ao Brasil?

(**) Último poste da série > 5 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27704 Tabanca da Diáspora Lusófona (39): (In)confidências: fui para Montariol, em 1954, com 10 anos, pela mão do João Maria Maçarico (n. 1937), e para a tropa aos 19, em 1964... (João Crisóstomo, Nova Iorque)

Guiné 61/74 - P28111: Ser solidário (296): Bilhete-postal que vai dando notícias sobre a "viagem" da campanha de recolha de fundos para construir uma escola na aldeia de Sincha Alfa - Guiné-Bissau (21): Etnia Mandinga (Renato Brito)

1. Mensagem do nosso amigo Renato Brito, voluntário, que na Guiné-Bissau integra um projecto de construção de uma escola na aldeia de Sincha Alfa, com data de 16 de Junho de 2026:

Boa noite Carlos Vinhal,
Espero tudo bem consigo.

Partilho a “cartolina” que divulga o próximo evento da campanha de angariação de fundos para construir uma escola na Guiné-Bissau.

No dia 26 de junho faremos a apresentação do projeto no Centro Cultural Est Ovest na cidade de Merano - Itália. Uma boa oportunidade para dar a conhecer como se vive na Guiné-Bissau a um público jovem. Aqui o site: https://ostwest.it/

O documentário presente na “cartolina” faz parte de uma série organizada pela BBC que conta a História da África na perspectiva das suas raízes. Possível aceder aos 20 episódios nesta página do site do projeto:
https://sostegnoguineabissau.weebly.com/pubblicazioni/historia-geral-de-africa

Cumprimentos,
Renato


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Nota do editor

Último post da série de 26 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27774: Ser solidário (295): Bilhete-postal que vai dando notícias sobre a "viagem" da campanha de recolha de fundos para construir uma escola na aldeia de Sincha Alfa - Guiné-Bissau (20): Moringa (Nené Badadji em crioulo), é um alimento presente na gastronomia de todos os grupos étnicos do país (Renato Brito)

Guiné 61/74 - P28110: Humor de caserna (275): E se os portugueses nunca tivessem chegado ao Brasil?





Prompt original e composição editorial: Luís Graça.

 Imagem: A Primeira Missa no Brasil, 1860. Museu Nacional de Belas Artes, Brasil. Imagem do domínio público. Cortesia de Wikipédia.

Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.


1. E se os portugueses de Quatrocentos tivessem dado ouvidos ao "velho do Restelo" ? 

Nunca teriam descoberto o "caminho marítimo para a Índia"...
Nunca teriam aberto a "autoestrada" para o Novo Mundo...
Nunca teriam conhecido o "Cabo das Tormentas"... 
Nem nunca o teriam rebatizado como "Cabo da Boa Esperança"...
Nunca teriam chegado ao Japão, ao Brasil, à Califórnia, à Austrália... 
Nem o  pobre do Camões  teria sonhado sequer escrever "Os Lusíadas"...

E o nosso el-rei Dom João II ?  Esse, nunca teria seria o "Príncipe Perfeito"
E muito menos o Dom Manuel I,  a ter reinado, seria  o "Venturoso...

Nem eu nunca teria ido passar umas "férias" à Guiné, à pala do Estado...

Nem, por  certo, teria havido a República, o Estado Novo, o 25 de Abril...
Nem sei se Portugal ainda existiria hoje... 
(era mais provável que fosse uma província do Reino das Hespanhas
e os portugueses falassem "portunhol")...

Esta é a uma "caricatura" da  história que  não se escreveu... 
Foram os portugueses os primeiros a dobraram o "Cabo das Tormentas"
e chegarem  a "Porto Seguro" no Novo Mundo...
Mas bem poderiam ter sido outros!...

Bom,  é um facto que há muito mais gente no mundo a falar português 
do que os portugueses de Portugal...
(aqui, o Portugal europeu representa só 3% do universo dos falantes lusófonos).

Mal ou bem, caros leitores,  é a história, a nossa história...

PS - E eu, e eu, e nós, e nós... o que é que fazemos aqui, neste blogue ?!


A Primeira Missa no Brasil, 1860. Museu Nacional de Belas Artes, Brasil. Imagem do domínio público. Cortesia de Wikipédia.

A obra prima do pintor académico Victor Meirelles de Lima (Nossa Senhora do Desterro, atual Florianópolis, 1832 — Rio de Janeiro, 1903).  A tela é um hino ao ecumenismo, ao retratar a chegada pacífica da armada de Álvares Cabral a Porto Seguro, no sul da bahía, e a celebração da primeira missa, no Novo Mundo, assistida pelos habitantes locais, tupiniquins, pertencentes á nação tupi... Os descendentes dessas hstóricas testemunhas da chegada dos portugueses ao Novo Mundo não deverão ultrapassar hoje um milhar...

"A primeira missa no Brasil foi celebrada por Dom Frei Henrique de Coimbra no dia 26 de abril de 1500, um domingo, na praia da Coroa Vermelha, em Santa Cruz Cabrália, no litoral sul da Bahia. Foi um marco para o inicio da história do Brasil e descrita por Pero Vaz de Caminha na carta que enviou ao rei de Portugal, D. Manuel I (1469-1521), dando conta da chegada ao Brasil, então Ilha de Vera Cruz, pela armada de Pedro Álvares Cabral que se dirigia à Índia" (Fonte: Wukipédia).
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Nota do editor LG:

Último poste da série > 17 de junho de 2026 > Guiné 61/74 - P28107: Humor de caserna (274): O pé de Salazar e o de Eusébio: "uma boa história para eu contar aos rapazes" (Cilinha) (excerto da sua biografia, por Sílvia Espírito-Santo)

quarta-feira, 17 de junho de 2026

Guiné 61/74 - P28109: Agenda Cultural (894): Lançamento do livro "Um percurso pela história e pelos sabores da Guiné-Bissau", de M. Margarida Pereira-Müller, dia 23 de Junho de 2026, pelas 18h00, na Galeria ArteGraça, Rua da Graça, 27-29, Lisboa


Boa tarde!
É com enorme prazer que convido para o lançamento do meu mais recente livro: "Um percurso pela história e pelos sabores da Guiné-Bissau".

Esta obra é um convite para viajar através da rica herança histórica e cultural da Guiné-Bissau, desvendando os segredos e as tradições que moldam a sua gastronomia única. Infra uma apresentação da obra.

A apresentação terá lugar no próximo dia 23 de junho, às 18h00, na Galeria ArteGraça (Rua da Graça, nº 27-29, Lisboa).

Se necessitarem de mais informações, estou à vossa disposição.

Conto com a vossa presença!

Com os meus melhores cumprimentos,
M. Margarida Pereira-Müller

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Nota do editor

Último post da série de 13 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P28016: Agenda Cultural (893): Convite para a apresentação do meu 12.º livro, tendo este como tema o AVC, a levar a efeito no próximo dia 16 de Maio de 2026, sábado, pelas 15h00, na Casa do Alentejo, Rua das Portas de Santo Antão, 58, Lisboa (José Saúde)

Guiné 61/74 - P28108: Historiografia da presença portuguesa em África (531): A Província da Guiné Portuguesa - Boletim Oficial da Colónia da Guiné Portuguesa, 1974, até ao 25 de Abril (90) (Mário Beja Santos)

Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf
CMDT Pel Caç Nat 52

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 19 de Dezembro de 2025:

Queridos amigos,
Despeço-me de uma pesquisa que bate um século do Boletim Oficial que começou por se chamar Boletim Official de Cabo Verde e da Costa da Guiné e acabou como Boletim Oficial da Província da Guiné. Em 1977, num livro intitulado "África, a Vitória Traída", publicado pela Intervenção, colaboraram quatro generais: J. da Luz Cunha, Kaúlza de Arriaga, Bethencourt Rodrigues e Silvino Silvério Marques. No que toca ao último Governador do Estado Novo na Guiné, ele irá elencar a realização do V Congresso do Povo, a visita do Ministro do Ultramar, os êxitos do setor da educação onde existia uma população de cerca 61.000 alunos com 2200 professores (56.000 alunos pertenciam ao ensino primário e cerca de 75% de professores eram militares ou seus familiares), os serviços de Saúde funcionavam com 82 médicos (dos quais 4 civis), mantinham-se em construção as estradas Jugudul-Bambadinca, Piche-Buruntuma, Catió-Cufar e Aldeia Formosa-Buba; havia graves problemas com o abastecimento e o preço do arroz. Falando como Comandante-Chefe, dirá: "Em março de 1974, o esforço do inimigo exercia-se sobre as guarnições militares do canto nordeste da Guiné (região de Canquelifá) e do sul, em especial Jemberém, Gadamael e Bedanda, materializando-se por prolongadas e sucessivas flagelações, conseguindo por vezes tiros ajustados." Quanto a quem estava a ganhar a guerra, dirá nim. Recorde-se que a 24 de abril escreveu aos seus superiores: "Chegámos à exaustão dos meios".

Um abraço do
Mário



Província da Guiné Portuguesa
Boletim Oficial da Guiné, 1974, até ao 25 de abril (90)


Mário Beja Santos

Faz-se aqui referência aos primeiros quatro meses que antecedem o fim do Estado Novo. No Boletim n.º 1, de 2 de janeiro, o Governador concede medalhas de ouro de assiduidade ao Dr. José Mendes Moreira e ao administrador João Batista Godinho Gomes. José Mendes Moreira foi um administrador colonial que fez carreira de investigação e participou em missões nacionais e internacionais. Colaborou com o Boletim Cultural da Guiné Portuguesa desde 1946, logo no n.º 1 publicou o Breve Ensaio Etnográfico acerca dos Bijagós. Em 1948, o Centro de Estudos da Guiné Portuguesa publica uma das suas obras mais relevantes, os Fulas do Gabu.

No Boletim n.º 4, de 22 de janeiro, publica-se o reforço dos orçamentos privativos da Força Aérea, das Forças Terrestres e das Forças Navais a operar na Guiné. No Boletim n.º 5, de 29 de janeiro, o Ministério da Defesa determina que o Comandante da Zona Aérea de Cabo Verde e Guiné seja um oficial do quadro de pilotos aviadores com o posto de brigadeiro. No Boletim Oficial n.º 8, de 19 de fevereiro, há um Despacho a criar um posto escolar na povoação de Sare Chicamo, regulado de Mancrosse, concelho de Bafatá, o pretexto era a necessidade de continuar a dar às povoações os indispensáveis meios de acesso à educação.

A exploração de petróleo continuava na berlinda. No Boletim Oficial n.º 9, de 26 de fevereiro, a Repartição Provincial de Serviços de Geologia e Minas, na pessoa no Engenheiro Geólogo a exercer as funções de chefe de serviços, António Pedro de Carvalho Daun e Lorena Santos torna publico que a firma Texas Pacific Oil Company of Portugal Inc., com sede em Dallas, pretende requerer uma concessão para a prospeção, pesquisa, desenvolvimento e exploração de hidrocarbonetos sólidos, líquidos e gasosos, e apresentam-se as delimitações do requerimento, eram prospeções a 200 metros de profundidade. O respetivo edital vem publicado no Boletim Oficial n.º 10, de 5 de março, Mas também temos notícias da Esso Exploration Guiné Inc. No Suplemento ao Boletim Oficial n.º 10, de 7 de março, noticia-se a convocatória de uma Assembleia Geral Ordinária a ter lugar em Lisboa em 29 de março, com os pontos habituais de discussão do Relatório, Balanço e Contas do Conselho de Administração e do parecer do Conselho Fiscal, seguindo-se eleições dos órgãos sociais. Encontra-se no Boletim Oficial n.º 11, de 12 de março, uma referência a Francisco José Fadul, que virá a ser primeiro-ministro da Guiné-Bissau. É um Despacho da Repartição Provincial dos Serviços de Educação, Francisco José Fadul, habilitado pela frequência do 2.º ano de Direito é nomeado professor eventual na Escola Preparatória do Marechal Carmona.

No Suplemento ao Boletim Oficial n.º 12, de 22 de março, temos notícia de que a crise petrolífera de 1973 chegou à Guiné. O Governador manda publicar um Despacho que diz o seguinte:
“Considerando a necessidade de serem revistos os preços de venda dos combustíveis, fixados por Despacho de 1 de julho de 1963, face ao novo condicionalismo resultante do aumento de custos na origem, e no sentido de ser evitada tanto quanto possível uma repercussão altista na indústria e nos transportes, determina-se que passem a vigorar a partir de 1 de Abril próximo os seguintes preços na comercialização da gasolina super, gasolina normal e petróleo:
Preço de venda ao público:
Em Bissau:
Gasolina super – 9$20/litro
Gasolina normal – 8$60/litro
Petróleo – 4$95/litro
Em relação à distribuição para o interior mantém-se as zonas actualmente fixadas bem como os respectivos diferenciais de transporte que deverão acrescer aos preços estabelecidos para Bissau.”


Nesse mesmo dia e neste mesmo Suplemento temos notícia de que a Companhia Industrial de Cervejas e Refrigerantes da Guiné entrara em funcionamento e a fabricar cerveja, tanto para as Forças Armadas como para o público. O público tinha ao seu dispor as marcas Cristal e Sagres. Em 25 de março haveria cerveja da CICER.

No Boletim Oficial n.º 14, de 2 de abril, o Governador louva um oficial, o Tenente-Coronel de Artilharia João Manuel do Carmo de Sousa Teles, que desempenhara durante cerca de quinze meses as funções de Delegado de Governo no Chão Manjaco, tendo-se evidenciado pelas suas altas qualidades de competência, dedicação, inteligência, dinamismo e bom-senso. No Boletim Oficial n.º 16, de 16 de abril, publica-se um Despacho dos Ministérios do Ultramar e da Economia, prende-se com a produção e comercialização do amendoim, estabelecem-se preços de 6$92 FOB/Kg para o amendoim descascado destinado à Metrópole. No Boletim Oficial n.º 17, datado de 23 de abril, o Governador convoca a Assembleia Legislativa para uma reunião a realizar no dia 30 do corrente, pelas 16:30 horas, na Sala das Sessões do Palácio do Governo, a fim de tomar conhecimento e emitir parecer sobre as conclusões aprovadas no V Congresso do Povo.

E assim chegámos ao 25 de abril. No 2.º Suplemento do Boletim Oficial n.º 17, datado de 27 de abril, publica-se um comunicado da Junta de Salvação Nacional:
“Por deliberação do Movimento das Forças Armadas na Província da Guiné confirmado pela Junta de Salvação Nacional faz-se saber o seguinte:
1. Assume as funções de Encarregado do Governo da Província da Guiné, o Tenente-Coronel Engenheiro António Eduardo Domingos Mateus da Silva, com os poderes e atribuições previstos nas leis anteriores;
2. Mantém-se nas funções de Secretário-Geral o Inspetor Superior da Administração Ultramarina Dr. Guilherme Libânio Pires.”


Aqui finda a pesquisa que efetuei sobre um século do Boletim Oficial desde os tempos do Boletim Official de Cabo Verde e da Costa da Guiné até ao 25 de abril. Vou verificar se ainda há alguma informação de relevo no Boletim Oficial deste ano, que se publicou até setembro.


O General Bethencourt Rodrigues durante a visita que fez às obras do asfaltamento entre Buba e a Aldeia Formosa. Imagem retirada dos Arquivos da RTP
Visita do Ministro do Ultramar à Guiné em janeiro de 1974
Dança Nalu
Rapazes Felupes
Fula a cavalo

No ano de 1974 já não se publicou o Boletim Cultural da Guiné Portuguesa, daí ter andando a respigar imagens de números de boletins de anos anteriores.
Balantas da Guiné-Bissau nas comemorações do Dia Internacional dos Povos Indígenas
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Nota do editor

Último post da série de 10 de junho de 2026 > Guiné 61/74 - P28088: Historiografia da presença portuguesa em África (530): A Província da Guiné Portuguesa - Boletim Oficial da Colónia da Guiné Portuguesa, 1973 (89) (Mário Beja Santos)

Guiné 61/74 - P28107: Humor de caserna (274): O pé de Salazar e o de Eusébio: "uma boa história para eu contar aos rapazes" (Cilinha) (excerto da sua biografia, por Sílvia Espírito-Santo)


Prompt original e composição editorial: Luís Graça.

Texto e fotos: Sílvia Es+írito-Santo

Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.




Cartaz de propaganda do MNF - Movimento Nacional Feminino. In: Presença, nº 2, 1964. pág. 15. (Reproduzido, com a devida vénia, do livro de Silvia Espírito-Santo, "Cecília Supico Pinto: o rosto do movimento nacional feminino”. Lisboa: A Esfera do Livro, 2008, pág. 145)


1. Do cap. VIII ("Na retaguarda da guerra"), do livro supracitado (a única biografia académica que conhecemos da presidente do MNF), tomamos a liberdade de reproduzir o seguinte excerto, sobre "os artistas que animaram a guerra"(pp. 143-146):

 [Cilinha] incentivou o desporto. promovendo jogos de futebol entre unidades militares (...). Deu voz ao jovem Eusébio, então uma estrela emergente do 'desporto nacional' (...). Levou a música, o futebol e a cultura ao mato, sem nunca se esquecer de promover Salazar  junto dos militares ou das populações. Ela foi a ponte entre Salazar e África, entre os militares e o ditador.

Em 1964, nas vésperas de partir para Angola, fui ao Forte [de Santo António da Barra, em São João do Estoril, Cascais], despedir-me do Dr. Salazar e vi que tinha partido um pé. Quando indaguei da sua saúde, respondeu-me:

−  Oh!, menina O meu pé não tem importância nenhuma, agora se fosse o do Eusébio, aí sim, aí é que podia ser um desastre nacional!

− Ora aí está uma boa história para eu contar aos rapazes, eles vão gostar de saber  que o Sr. Dr. também está a torcer pela nossa equipa (...) [Em itálico, no original]  

Foram histórias como esta que Cilinha levou na bagagem" (pág. 144). (...)

(Revisão / fixação de texto: LG)


2. Comentário do editor LG:

Isto é humor do melhor: não sei o que mais apreciar,  se a "falsa modéstia" de Salazar, se  a "grande lata" da Cilinha...  Os três já morreram. Em pleno Campeonato Mundial de Futebol (2026), é justo recordar o "nosso grande Eusébio", que também foi soldado, como nós... mas teve a sorte de não ir parar à Guiné... O António Simões, outro dos "Magriços",  teve de pagar 150 contos a um caramelo, o Ivo,  para não ir à guerra, e poder estar presente no Campeonato Mundial de Futebol de 1966 (na Inglaterra)...


Foto nº "42. Oliveira Salazar apreciava a alegria e frontalidade de Cecília Supico Pinto que o considerava 'um verdadeiro príncipe'. Foi uma das últimas pessoas a vê-lo com vida (Arquivo do Diário de Notícias)". (Reproduzida, com a devida vénia, do livro supracitado.)
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Nota do editor LG:

Último poste da série > 13 de junho de 2026 > Guiné 61/74 - P28095: Humor de caserna (273): Ao Tony, vocalista da banda "Os Bambas D'Incas", com votos de que ainda continue vivo, e romântico mas... "não trôpego"