Pesquisar neste blogue

sábado, 20 de junho de 2026

Guiné 61/74 - P28117: Os nossos seres, saberes e lazeres (737): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (258): Uma amostra do País das Águias, a Albânia entre Tirana e Butrint/Saranda - 3 (Mário Beja Santos)

Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf
CMDT Pel Caç Nat 52

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 21 de Maio de 2026:

Queridos amigos,
Não se pode ficar insensível e até estupefacto perante a diversidade que este país, de menor dimensão que a Bélgica ou a Guiné-Bissau, revela: praias deslumbrantes, rincões históricos que a UNESCO consagrou Património da Humanidade, a majestade dos Alpes albaneses, bordejando sobretudo a Macedónia do Norte, lagos paradisíacos, uma gastronomia que é a sua encruzilhada histórica, onde prepondera o legado dos turcos otomanos, a vibração de Tirana, com os seus arranha céus de novíssima geração, a Grande Mesquita e a esplendorosa igreja ortodoxa; as suas ruínas, caso de Butrint, estão ali vestígios do mundo greco-romano, helenistico, bizantino, veneziano e otomano; belas igrejas, e até o imprevisto de vermos um busto de alguém que foi cônsul grego numa cidade albanesa e que recebeu o Prémio Nobel da Literatura. É o que pretendo partilhar nestes dez dias em que viajei em transportes coletivos a admirar montanhas e a visitar um inesquecível património edificável, sem esquecer que os albaneses, que têm em todos os seus edifícios oficiais ao lado da sua bandeira nacional o pavilhão da União Europeia, mostram o que foi uma história de horrores, cerca de 150 anos de polícia política.

Um abraço do
Mário



Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (258):
Uma amostra do País das Águias, a Albânia entre Tirana e Butrint/Saranda - 3


Mário Beja Santos

Era um projeto antigo, visitar a Albânia, desconheço praticamente a península balcânica, por razões da minha profissão estivera três dias em Sófia, guardo a recordação da ida ao Museu Nacional, deslumbrei-me com o ouro da Trácia; é verdade que nas redondezas andei pela Grécia, na mira dos seus vestígios esplendorosos como berço das civilizações europeias; também andei pelo Montenegro e Croácia, passeio começou por Belgrado, muito me impressionou os primeiros 14Km de Belgrado em direção ao sul, parecia que tinha havido uma explosão nuclear, eram composições ferroviárias umas atrás das outras, deveria ser o rescaldo da desagregação da Jugoslávia, ficaram sem préstimo todos aqueles comboios.

A curiosidade da Albânia era aquele exótico regime montado em 1944, ali se consolidara um partido marxista-leninista-estalinista, com um permanente quadro obsessivo da invasão jugoslava, da extrema amizade à União Soviética chegara-se ao corte de relações, a Albânia mantinha-se estalinista, a seguir chegaram os chineses, bem-vindos ao princípio também mandados embora quando chegou a Revolução Cultural. E esta Albânia instituiu a psicose da invasão e o terror da guerra nuclear, assim se construíram 175 mil bunkers, bem disseminados por todo o país.


E chegou-me esta revista às mãos, uma reportagem com toda a sua carga de sedução: uma Albânia que fazia parte da Ilíria, que viu chegar gregos, romanos, conviveu com o período helenístico, por ali andaram venezianos, mais de quatro séculos da presença de turcos otomanos, quando este império se desagregou a Albânia constituiu-se como república, teve depois uma efémera monarquia (o rei Zog I), sofreu a invasão italiana, quando a Itália capitulou entraram os alemães, nessa altura já havia um forte movimento de resistência que tinha como parceiro principal os comunistas capitaneados por Enver Hoxha, começou aí a ditadura depois da libertação em finais de 1944 que durou até 1991, quando se esbarrondou o projeto totalitário.

O que este número da revista Geo tinha de atrativo era a referência a estes deslumbrantes vestígios antigos, os seus povoados incrustados nas montanhas (quase 70% da Albânia é montanha e floresta, tem mesmo uma região alpina), as suas águas transparentes do mar Jónico, o êxtase dos seus cânticos polifónicos que perpetuam a tradição musical do sul, uma capital efervescente em permanente mutação, o seu Património Mundial em lugares como Gjirokastër e Butrint, a presença de residências em estilo otomano, igrejas ortodoxas, católicas e muçulmanas, as três religiões convivem em tolerância na Albânia. E há o mistério da Ilíria, os ancestrais da Albânia. Um grande enigma: não há nenhum documento escrito da presença deste povo, seriam indo-europeus repartidos a partir do século III a. C. do Danúbio ao Epiro, passando pela atual Croácia. Os albaneses atribuem a sua língua aos ilírios, é uma língua singularíssima, não encaixa nos grandes grupos etnolinguísticos europeus. Com tal História e tais enigmas, como resistir a fazer-lhes uma visita?

Este manual ajudou-me imenso, deu-me dicas para organizar uma incursão de dez dias, conhecer os seus rudimentos históricos, a forma económica de viajar, o que ver e até o que comer.
Por uso e costume, regresso com brochuras, bilhetes de entrada em monumentos, enfim a tralha do turista. Todos os anos abro uns sacos de plástico, revejo o conteúdo referente àquela viagem, encho-me de coragem e deito para o balde, no cubículo dos papéis e cartões. Agora vou guardar o que trouxe da Albânia por mais uns tempos, nem que seja só para recordar aqui no blog os dias felizes e intensos que vivi.
Convém que o leitor olhe para este pequeno território mais pequeno que a Bélgica e a Guiné-Bissau, para acompanhar a minha incursão que começa em Tirana, apanhei depois uma candonga para visitar de raspão Pogradec, isto para admirar o lago Ohrid, um feitiço da natureza, tendo montanhas da Macedónia do Norte como pano de fundo; ao fim da tarde nova viagem de candonga até Korçë, pasmou-me a vida cosmopolita; daqui segui para Përmet, esperavam-me boas surpresas, aqui falhou o programa de ir visitar as águas borbulhantes como temos na região das Furnas, na ilha de São Miguel; a etapa seguinte foi Gjirokastër, que me assombrou; nova candonga até Sarandë, ali à beira do mar Jónico, a escassos quilómetros da ilha de Corfu, belas praias e um inesquecível Património da Humanidade em Butrint; chegara a hora de regressar, longa viagem de candonga até Tirana, mais visitas dentro e fora, e depois o regresso. Tudo contado e multiplicado, andei exclusivamente entre a capital e a região sul, o resto fica para a próxima viagem.
Cheguei a Tirana já passava da meia-noite, viagem de autocarro até ao centro, arrastei o trólei a olhar o Google Maps, já passava das duas e meia da manhã quando ferrei no sono. Refeito e alimentado, cambiei para o centro desta cidade que tem mais de meio milhão de habitantes. Foi uma pequena povoação até ao século XVII, depois ganhou um novo estatuto e após as guerras balcânicas em 1912-1913, proclamada a República, o novo regime decretou Tirana como capital permanente. Com o triunfo do regime comunista, assistiu-se à demolição de muitos edifícios históricos, bazares e igrejas. Depois das primeiras eleições que tiveram lugar em 1992, Tirana tem vindo a assistir a um boom na construção e turismo. Comecei o passeio pela sua praça histórica, fui mirar a estátua de Skanderbeg, o herói fundacional albanês que lutou contra os turcos otomanos e conseguiu congregar os clãs albaneses. Na outra imagem temos um pormenor da praça mostrando arquitetura arrojada e vemos hasteada a bandeira nacional, tecido vermelho com a águia bicéfala.
Esta é a entrada de um dos monumentos de visita obrigatória na capital, o BUNK’ART II, um bunker imenso, fazia parte do Ministério do Interior, servia hipoteticamente para proteger o Ministro e o seu círculo do caso de haver uma invasão ou explosão nuclear. Com advento da democracia, aproveitaram-se estes corredores subterrâneos para mostrar um pouco da história dos serviços de segurança albaneses desde a independência, e mostrar os horrores praticados por esta polícia secreta, a SIGURIMI. Temos aqui uma exposição permanente em que ao longo destes túneis vemos conhecendo a repressão e os horrores praticados pela polícia política, antes e com o regime comunista. O que vemos nesta imagem é uma listagem de políticos e líderes religiosos mandados executar o regime. Importa não esquecer que Enver Hoxha decretou em 1967 a Albânia como um país ateu, podemos pensar nas perseguições e campos de concentração para punir as dissidências.
Imagens alusivas à repressão em tempos de monarquia, na segunda imagem podemos ver o rei Zog I, que começou por ser republicano.
Um dos muitos corredores do BUNK’ART II, agora é um museu de diferentes tiranias
Mapa que mostra a localização do sistema prisional albanês em Enver Hoxha
Instalação alusiva ao delírio totalitário e persecutório do regime Enver Hoxha
Este era o quarto destinado ao Ministro do Interior, tinha as instalações ultrablindadas
Não deixa de nos emocionar esta história da solidariedade albanesa com gente perseguida, nomeadamente com os judeus gregos que fugiram às detenções dos nazis. Temos aqui a fotografia de reconhecimento de alguém como Justo entre as Nações, por ter albergado judeus dos alemães, arriscando a vida.
Imagem do que seria uma camarata prisional dos tempos do comunismo

(continua)
_____________

Nota do editor

Último post da série de 13 de junho de 2026 > Guiné 61/74 - P28096: Os nossos seres, saberes e lazeres (736): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (257): Uma amostra do País das Águias, a Albânia entre Tirana e Butrint/Saranda - 2 (Mário Beja Santos)

Guiné 61/74 - P28116: Parabéns a você (2497): Cherno Baldé, Gestor de Projectos, amigo Grã-Tabanqueiro da Guiné-Bissau

_____________

Nota do editor

Último post da série de 19 de junho de 2026 > Guiné 61/74 - P28113: Parabéns a você (2496): Adão Cruz, ex-Alf Mil Médico da CCAÇ 1547/BCAÇ 1887 (Canquelifá e Bigene, 1966/68) e Tibério Borges, ex-Alf Mil Inf da CCAÇ 2726 (Cacine, Cameconde, Gadamael e Bedanda, 1970/72)

sexta-feira, 19 de junho de 2026

Guiné 61/74 - P28115: Notas de leitura (1929): A biografia de um combatente: O que experimentei na guerra da Guiné e como continuo a estudar a sua História (4): VII - A Viagem do Tangomau e VIII - As investigações sobre a Senegâmbia e algo mais (Mário Beja Santos)

CONGRESSO INTERNACIONAL
DAS GUERRAS AO PÓS-25 DE ABRIL
Os Militares em Territórios em Conflito
Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa
De 2 a 4 de abril de 2025


A biografia de um combatente:
O que experimentei na guerra da Guiné e como continuo a estudar a sua História

Mário Beja Santos

VII - A Viagem do Tangomau

Este é o título do livro que escrevi, autobiográfico, onde conto a minha preparação militar, as unidades que percorri antes de partir para a Guiné, relato a minha vida na comissão militar com as populações de Missirá e Finete e depois na intervenção junto do batalhão de Bambadinca; no regresso dei instrução em Mafra, fiz os meus estudos académicos, tornei-me funcionário público, um técnico da política dos consumidores; por esse facto foi me pedido para fazer cooperação na Guiné, experiência por um lado aliciante por outro profundamente dececionante por se ter revelado que a administração guineense e os seus governantes eram incapazes de assumir a responsabilidade que lhes cabia no protocolo entre dois países. Isto passou-se em 1991, e como vos disse atrás, em 2006 passei a devotar-me à escrita sobre temas guineenses.

Ainda hoje sinto uma profunda comoção quando releio o que escrevi em "A Viagem do Tangomau". Desembarco em Bissau de madrugada, logo me encheu as narinas aquele cheiro específico que eu dizia no passado que era um misto de morangos apodrecidos e de terra capinada, não senhor, como me recordou o Sr. Sabino, o motorista da Embaixada de Portugal na Guiné-Bissau, neste cheiro penetrante há gafanhotos mortos e a goma das acácias floridas. Na manhã seguinte, saí da pensão e dirigi-me às ruínas do Palácio Presidencial, era um verdadeiro escombro, subi a escadaria até ao salão de festas, tudo enegrecido pelo incêndio, portas roubadas, vidros partidos; tomei uma bica no Café Império, uma boa pastelaria, com ressonância às guloseimas portuguesas; desci a Avenida Amílcar Cabral, subi à Pensão Central, fui dar um beijinho à avó Berta, que se deslocava com o seu andarilho, ficou combinado no dia seguinte que lá ia almoçar o prato guineense que mais aprecio, o pitche-patche de ostras. Apresentei-me na Embaixada, depois de ter trocado dinheiro no Bissau-Velho. Já tinha à minha espera uma série de pessoas para lhes entregar as encomendas recebidas em Lisboa, havia ainda uma ronda de telefonemas para convocar vários destinatários a quem devia entregar camisas, perfumes, volumoso correio. Conversa com o Embaixador, afabilíssimo, iremos almoçar à Pensão Central. E à tarde tenho pela frente viagens por bairros ínvios, esconsos e labirínticos: Bairro Militar, Bairro Bissaque, Bairro Missirá, Bairro Quelelé. A visita mais demorada será no Bairro Missirá à Maria Fausta, a mulher do meu querido amigo Abdu.

Jantei no Bissau-Velho com Patrício Ribeiro, o empresário que trabalhada desde há muito na Guiné, passou gente conhecida. No dia seguinte fui entregar todas as cartas da então Guiné Portuguesa, obra dos serviços geográficos do exército, conversei com alguns investigadores, deliciei-me com o pitche-patche, a avó Berta muito zangada por eu não ter ficado lá a dormir, tive que lhe dar a minha palavra de honra que no regresso da viagem aos sítios onde combatera e depois de me despedir dos meus antigos soldados, regressaria a Bissau e lá dormiria.

Não posso cansar-vos com esta narrativa da viagem, o Sr. Sabino levou-me a Bambadinca, pelo caminho não escondeu que se sentia muito intrigado, deste a independência que era motorista da Embaixada, nunca lhe tinha aparecido pela frente a missão de levar um ex-combatente a ir ver os seus antigos soldados. Como disse, fiquei em Santa Helena, num sítio chamado Bairro Joli, um ponto alto com uma vista deslumbrante sobre a outra margem do rio Geba, ali sentado o meu olhar percorria Finete a Mato de Cão. Visitei demoradamente Missirá, escuso de dizer que houve choradeira, fui até Gambiel, aí se passou uma das maiores surpresas, tinha combinado com um motociclista, de nome Alasana Sori, originário da Guiné-Conacri o serviço diário, ele condutor eu passageiro, revelou-se um condutor exímio, chegados a Gambiel, vejo alguém a avançar para mim e a dizer-me tu és o nosso alferes, eu sou o Ieró Baldé, do pelotão de milícias de Missirá, nunca te esqueci. Vamos os dois de mão dada até ao palmar de Gambiel, era no tempo da guerra um verdadeiro Éden, cometeu-se o crime de cortar o rio, abateram-se as palmeiras, desfez-se o encanto daquela natureza prodigiosa. Para não vos cansar mais, digo-vos que vi praticamente tudo o que tinha sonhado rever: Bambadinca, Xitole, Finete, Enxalé, Madina e Belel, Canturé, do Xime fui até à Ponta do Inglês, foi aqui que descobri que me faltava visitar vários acampamentos do PAIGC que se estendiam do rio Corubal até ao Xitole, nas matas de Fiofioli, Mina e Corubal. E há o inesquecível almoço com os meus bravos, pedi para que se fizesse folaré, carne com costela de vaca, muitos legumes, muita batata inglesa, muito molho, um fartote de laranjadas, pedi uma sobremesa de talhadas de papaia e bolos de amendoim, tomei a palavra para lhes agradecer a lealdade que tinham tido para comigo, toda aquela dedicação que eu guardava como um sentimento, eles ficariam na minha vida como um dos acontecimentos mais extraordinários da minha existência.

Assim decorreu a viagem do Tangomau, no final de 2010, foi como que uma catarse, a viagem da despedida tinha também outros significados, uma verdadeira reconciliação. E de 2010 até ao presente essa reconciliação traduziu-se numa torrente de escrita.



VIII - As investigações sobre a Senegâmbia e algo mais

De vez em quando, ainda em plena atividade ou já com o estatuto de reformado, nas obras de ficção também imiscuí a Guiné. Quando escrevi "Um Escafandrista nas Nuvens", a história do romancista de romances de amor para seniores entre os 60 e os 90 anos, aparecia um almoço com os bravos do pelotão, o protagonista, o escritor Gil Santiago, preparara uma bacalhauzada para todos os seus soldados residentes em Lisboa e nos arredores, festa rija, com muitas recordações e promessas de reencontro, no fundo era a minha realidade a superar a ficção, dos oito presentes já partiram sete, só me resta o Abudu, que conheci em Missirá em criança, está hoje na casa dos 60 anos; no romance a "Rua do Eclipse", a trama passa pela relação de dois cinquentões que se encontraram em Bruxelas, ele como técnico português ela como intérprete belga, toda a comissão militar dele na Guiné é descrita num livro feito de correspondência a dois.

Em cooperação, escrevi "Da Guiné Portuguesa à Guiné-Bissau: um roteiro", tomei gosto em frequentar bibliotecas e arquivos, quase que acampei na biblioteca da Sociedade de Geografia de Lisboa, e também na biblioteca do CIDAC, esta depositária de documentação fundamental para estudar a luta da independência e a governação de Luís de Cabral, escrevi então "História(s) da Guiné Portuguesa e da Guiné-Bissau", fiquei-me por 2014, tinha tomado posse o Presidente da República que cumpriu completamente o seu mandato, José Mário Vaz; passei um ano no então Arquivo Histórico do Banco Nacional Ultramarino, os relatórios dos chefes de delegação que recebiam instruções para, em termos sigilosos, e depois de elencarem os problemas económicos e financeiros da região fazerem uma apreciação da situação política, escrevi "Os Cronistas Desconhecidos do Canal do Geba". Num alfarrabista encontrei um livro de um poeta popular, antigo combatente da Guiné, ali fizera comissão entre 1963 e 1965, a sua lírica galvanizou-me e deu-me a ideia de escrever um livro que ia respondendo taco a taco às suas itinerâncias desde a recruta à passagem à disponibilidade, de novo aproveitei referências da imensa literatura produzida sobre aquela guerra, desde romance, conto, novela, poesia, memórias, e nesta parceria foi dado à estampa "Nunca Digas Adeus às Armas".

Para pôr termo a esta viagem sobre as minhas investigações, lancei-me num projeto ambicioso, de que estou a meio: elaborar, por seriação diacrónica, do século XV ao século XX, um género de antologia com textos uns que se podem classificar como determinantes ou incontornáveis, outros possuidores de raro vigor testemunhal, sobre a presença portuguesa desde o tempo em que os navegadores e cartógrafos portugueses denominavam a região por nomes vagos, inconclusivos e até bizarros, como Etiópia Menor, Rios da Guiné de Cabo Verde, Terra dos Negros, Grande Senegâmbia, Pequena Senegâmbia, Alta Senegâmbia – este termo Senegâmbia foi usado e abusado até ao século XIX, sobretudo para referir um vasto território da costa ocidental africana entre o Cabo Verde continental e a Serra Leoa.

Não escondo que se trata de um trabalho laborioso, neste momento já está publicado o Tomo I intitulado"A Presença Portuguesa na Senegâmbia", trabalho agora no Tomo II "Da Pequena Senegâmbia à Guiné Portuguesa". Quero relevar que muitos dos meus apontamentos sobre esta matéria ou vou publicando no blog Luís Graça e Camaradas da Guiné, sem margem para dúvida, o blog mais influente para ex-combatentes na então Guiné Portuguesa, o seu acervo fotográfico é único no país e que encerra uma miríade de testemunhos de incalculável valor.

Espero continuar a estudar e investigar, da análise que faço à multiplicidade de investigações que se fazem sobre a Guiné, detetei a existência de duas lacunas: puro desconhecimento do Boletim Oficial dos últimos cem anos da colónia; e continuar a não se saber quem e quando, ao nível de olhares estrangeiros, se pronunciou sobre a Guiné desde a época que antecedeu a convenção luso-francesa de 12 de maio de 1886 até ao período anterior às lutas pela independência.

Não me sinto capaz de me abalançar com um Tomo III de "Guiné, Bilhete de Identidade", continuam por preencher graves lacunas respeitantes às governações de Vasco Rodrigues e Arnaldo Schulz, (só deste último era mais que devida uma tese de doutoramento) e falta o enquadramento de política externa, parece saber-se tudo das relações do Estado Novo com os seus aliados e as suas tomadas de posição nas Nações Unidas, mas ninguém se interroga como e porquê usávamos armamento e munições do Estado de Israel (que teve inicialmente uma posição benevolente com o colonialismo português) e porque razões o Estado Novo manteve relações diplomáticas ao nível de Embaixada com Cuba, quando estes cediam apoio técnico e preparação militar ao PAIGC e, mais tarde tropas e armamento ao MPLA, antes e durante a guerra civil de Angola. São estudos indispensáveis para dimensionar a história militar da Guiné do lado português e a natureza de relações internacionais que eram camufladas ou puramente omitidas à opinião pública.

Muito obrigado pela vossa atenção e estou pronto para responder às vossas interpelações e comentários.

_____________

Notas do editor:

Vd. posts anteriores de:

8 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P28001: Notas de leitura (1920): A biografia de um combatente: O que experimentei na guerra da Guiné e como continuo a estudar a sua História (1): I - À guisa de apresentação do ex-combatente e II - Foi assim que cheguei ao Cuor (Mário Beja Santos)

15 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P28022: Notas de leitura (1923): A biografia de um combatente: O que experimentei na guerra da Guiné e como continuo a estudar a sua História (2): III - O que eu sei da guerra que estou a travar e IV - O conhecimento da morte, Missirá devastada, o desafio de lhe dar nova vida (Mário Beja Santos)
e
12 de junho de 2026 > Guiné 61/74 - P28093: Notas de leitura (1927): A biografia de um combatente: O que experimentei na guerra da Guiné e como continuo a estudar a sua História (3): V - Depois do Cuor, seguiu-se a intervenção em Bambadinca e VI - O primeiro regresso à Guiné, 1990/1991, o início da escrita (Mário Beja Santos)

Último post da série de 15 de junho de 2026 > Guiné 61/74 - P28102: Notas de leitura (1928): "Coragem, Altruísmo e Fé", por Rosalina Coelho Vaqueiro; Chiado Books, 2025 (2) (Mário Beja Santos)

Guiné 61/74 - P28114: Documentos (64): A Última Operação: Retirada Final – Ordem nº 1/74: Retirada da Guiné em 15 de outubro de 1974 (Luís Gonçalves Vaz, filho do Cor Cav CEM Henrique Gonçalves Vaz (Barcelos, 1922- Braga, 2001), último Chefe do Estado-Maior do CTIG, 1973/74),



Cabeçalho da Ordem de Operações nº 1/74.  O documento foi desclassificado em 2017. “Documento cedido pela Biblioteca Central da Marinha - Arquivo Histórico
 


Luís Gonçalves Vaz, grão-tabanueiro nº 530
filho do Cor Cav CEM Henrique Gonçalves
Vaz (Barcelos, 1922- Braga, 2001)
(último Chefe do Estado-Maior
do CTIG, 1973/74, e, a partir de 26 de agosto
 de 1974, ​ foi também o chefe do 
Estado-Maior 
do Comando Unificado 
no TO da Guiné)

Introdução: A Memória e o Documento — Revisitando o 15 de outubro de 1974

Ao longo das últimas décadas, a narrativa sobre a presença portuguesa na Guiné tem sido construída, por um lado, pelo depoimento vivido daqueles que ali serviram e, por outro, pelo silêncio, muitas vezes imposto, dos documentos que só agora começam a ser plenamente integrados na historiografia pública com a sua "Desclassificação" nos vários Arquivos Portugueses.

Este artigo propõe uma revisitação necessária à data de 15 de outubro de 1974 — o marco derradeiro da retirada das tropas portuguesas do CTIG. 

Se, em 2012 (data do meu último artigo sobre a Retirada Final da Guiné) (*), a abordagem a este momento histórico dependia essencialmente da memória oral e do relato pessoal, hoje, o distanciamento temporal e 
o acesso a fontes primárias de natureza confidencial já "desclassificadas", permitem-nos um olhar clínico e rigoroso.

Através do cruzamento inédito entre a Ordem de Operações nº 1/74 do Comando Unificado — documento que traçou, com precisão técnica e logística, o complexo movimento de retirada por via marítima entre os dias 14 e 15 de outubro — e os testemunhos diretos, nomeadamente do meu falecido pai, cor cav CEM Henrique Gonçalves Vaz, último Chefe do Estado-Maior do Comando Unificado na Guiné, e a perspetiva, no terreno, do meu primo marinheiro radiotelegrafista Manuel Beleza Ferraz, procura-se aqui não apenas narrar, mas documentar a mecânica da descolonização nesta Colónia Portuguesa.

Mais do que o relato de um fim, este artigo pretende ser um exercício de rigor histórico: confrontar o plano operacional com a realidade humana da partida. Ao alinhar a "Ordem de Operações" com a "ordem dos afetos e da vivência", este trabalho oferece aos amigos e camaradas da Guiné   e aos demais leitores do nosso blogue uma nova leitura sobre o desfecho de uma missão que marcou, definitivamente, a história de Portugal e da Guiné.

Um grande Abraço

Braga, 08/06/2026

Luís Beleza Vaz

(Tabanqueiro nº 530 e filho do último CEM/CTIG)



O navio Uíge no porto de Bissau em 28 de outubro de 1969 a descarregar material de guerra



A Última Operação> Retirada Final – Ordem  nº 1/74: Retirada da Guiné em 15 de outubro de 1974

por Luís Gonçalves Vaz 


MISSÃO: Efectuar a Retirada Final das NT (nossas tropas) da Ilha de Bissau garantindo o seu embarque via marítima para a Metrópole com a maior discrição, dignidade e segurança.

 A Ordem de Operações nº 1/74 foi um documento estratégico de alto nível, emitido pelo então Comando-Chefe das Forças Armadas da Guiné (CCFAG), que definiu as fases, os meios logísticos (navios, transportes aéreos, etc), as responsabilidades de segurança e os itinerários de retirada (**).

Como já apresentei aqui no blogue,  no poste P9535, de 26 de fevereiro de 2012, um artigo sobre a “Retirada Final” da Guiné (*), resolvi agora, e com recurso à consulta do Fundo Coloredo do Arquivo Histórico da Marinha, nomeadamente à consulta da Ordem de Operações nº 1 de 1974,  BCM (Biblioteca Central da Marinha)(Pasta 179), Diretiva de 9 de outubro de 1974 do Comandante-Chefe aos Comandantes dos três Ramos das Forças Armadas no TO  da Guiné, realizar um artigo com mais detalhe sobre esta última operação militar, comandada pelo Comodoro Vicente de Almeida d ́Eça, que foi o Comandante do Comando da Defesa Marítima da Guiné entre 4 de janeiro de 1974 e 28 de outubro de 1974, bem como o Comandante da Força Naval que transportou os últimos efetivos portugueses ali estacionados.

A referência à Ordem de Operações nº  1/74 como o plano mestre para a retirada final de cerca de 2.500 militares (os últimos contingentes que permaneceram em Bissau e noutros pontos fulcrais nesta altura do mês de outubro), reflete o culminar da transição negociada entre o Comando-Chefe português, liderado à época por Carlos Fabião, e o PAIGC.

Depois de de lermos a Ordem de Operações nº 1/74, percebe-se que esta retirada não foi apenas um "ir embora", pois exigiu a catalogação e o transporte de material de guerra, a coordenação com a Força Aérea e a Marinha (especialmente o papel dos navios de transporte, como o Uíge, que figura nas memórias fotográficas da época como o símbolo do final da presença portuguesa) e a manutenção de um cessar-fogo rigoroso que evitasse incidentes durante a desocupação das posições.

A emissão desta ordem de operações, o "Ponto Final" da nossa Colónia da Guiné, foi o instrumento que permitiu que o processo, iniciado com o Acordo de Argel assinado em 26 de agosto de 1974, se concretizasse. O facto de ser a "nº 1/74" sublinha que se tratou da primeira e decisiva operação de desmobilização total e encerramento de um Teatro de Operações, após décadas de guerra.

Esta ordem representa, na prática, um "roteiro" para o fim da Guerra Colonial na Guiné, marcando a passagem de um estado de beligerância para a transferência de soberania, consolidando assim a retirada das tropas que, em outubro de 1974, aguardavam nas docas de Bissau a sua partida definitiva para a Metrópole.

Este documento é, sem dúvida, uma peça de arquivo valiosa para a historiografia do 25 de Abril e do processo de descolonização, pois documenta o plano de execução para a evacuação final das forças nacionais.


A fragata “Comandante Roberto Ivens” foi o navio-chefe onde se coordenou toda a operação e onde 
embarcou o Comandante da FO27 (Força de Combate 27), o comodoro Vicente Almeida d'Eça (foto: cortesia de Navios da Armada, página do Facebook (Do Livro da Fabrica das Naus de Fernando Oliveira aos nossos dias. Viva a Briosa).

Ao falarmos na Ordem de Operações nº  1/74 e no rigor técnico da retirada, tocamos num ponto que muitas vezes é ignorado, o papel crucial da Marinha de Guerra Portuguesa, quer durante o conflito neste TO, quer na logística de desocupação desta Colónia. 



Capitão-de-Fragata (em 1966),  Vicente Almeida d' Eça (1918-2018) 
Fotografia gentilmente  cedida pela Biblioteca Central 
da Marinha - Arquivo Histórico

Enquanto a narrativa política se foca no 25 de Abril e nas negociações, a execução prática da retirada, especialmente a retirada final em quinze de 
outubro de 1974, foi uma operação logística de uma complexidade técnica monumental, quase exclusivamente conduzida pelos meios navais.

O rigor técnico mencionado nesta Ordem de operações, decorre de vários fatores que ela teve de acautelar, nomeadamente:

  • A Logística de Transporte: retirar 2.500 militares não significava apenas embarcá-los. Implicava transportar armamento pesado, equipamento de comunicações, arquivos confidenciais e material de intendência. A Marinha organizou o "Comboio da Descolonização",                                                                  onde o NRP Uíge e o NRP  Niassa  foram as peças-chave.
  •  Segurança e Cessar-Fogo: a Ordem de Operações Nº 1/74 tinha de prever a manutenção de um perímetro de segurança em Bissau até ao último segundo; o rigor era vital para evitar incidentes que pudessem degenerar em confrontos armados no momento da transição, o que exigia uma coordenação minuciosa entre as guarnições dos navios, os fuzileiros em terra e os postos de comando conforme  relato no artigo da Retirada Final,   em 14 e 15 de outubro  de 1974 (Luís Gonçalves Vaz / Manuel Beleza Ferraz) (*);
  • “Segundo o ex-marinheiro radiotelegrafista, Manuel Beleza Ferraz, os navios que se encontravam a realizar a 'segurança de rectaguarda'  mais próxima às tropas que iriam retirar-se para os navios ao largo no Rio Geba, eram a LFG Órion e a LFG Lira.
Encontravam-se também ao largo em missão de Segurança um patrulha (NRP Cuanza) e o navio NRP Comandante Roberto Ivens, este último a comandar as operações navais desta missão de “Retirada Final”. 

No próprio navio Uíge estava montado discretamente um dispositivo de segurança pronto a abrir fogo, caso o PAIGC se lembrasse de abrir alguma hostilidade contra o último pessoal militar a abandonar a Guiné, com algumas metralhadoras HK-21, além de todos os militares estarem armados com as suas G3 e as respectivas munições.


Guiné-Bissau > 15 de outubro de 1974 > A LFG Lira, depois de abandonar o Rio Geba na Guiné, a escoltar os T/T Uíge e Niassa até águas internacionais. Foto do álbum do marinheiro radiotelegrafista 812/70 Manuel Beleza Ferraz.

Foto (e legenda): © Manuel Beleza Ferraz (2012). Todos os direitos reservados. (Edição e legendagem: Bogue Luís Graça & Camaradas da Guiné)


Após o “Arriar da Bandeira Portuguesa”, as tropas portuguesas dos três Ramos das Forças
Armadas, presentes na referida cerimónia, logo de seguida foram transportadas em zebros e
LDM (lanchas de desembarque médias) para o navio Uíge, que os aguardava no meio do Rio
Geba, a cerca de 400 metros afastados do cais, onde se encontrava já com as máquinas em pleno funcionamento ("pairavam") por razões de segurança.




Guiné > Bissau > c. out 1974 > Lancha de Fiscalização Grande (LFG) Lira, atracada na ponte-cais, poucos dias antes da “retirada final” em 15 de Outubro de 1974. Foto do álbum do marinheiro radiotelegrafista 812/70 Manuel Beleza Ferraz.


Fotos (e legendas): © Manuel Beleza Ferraz (2012). Todos os direitos reservados. (Edição e legendagem: Bogue Luís Graça & Camaradas da Guiné)


O ex-Marinheiro Radiotelegrafista, Manuel Beleza Ferraz, fonte destes testemunhos históricos, aqui relatados, informou-me ainda de que as ordens vindas do Comando Naval, com apenas 24 horas de antecedência, foram entregues em mão aos comandantes das duas LFG (Orion e Lira) e do patrulha Cuanza, presentes ao largo do cais, no caso do seu navio, o patrulha Lira, recebeu directamente o seu Comandante, 1º tenente Martins Soares.

Como tal, os comandantes destes três navios que constituíam nesse dia, a “força naval” em frente ao cais de Bissau, receberam ordens expressas “para se posicionarem em postos de combate”, com todas as peças Bofors de 40mm, devidamente municiadas e preparadas para realizarem fogo, como apoio de retaguarda à retirada das nossas tropas, de terra para os navios, nomeadamente o Uíge.”

Na secção "Situação" desta “Ordem de Operações”, é descrito o planeamento da retirada marítima de aproximadamente 2.500 militares das Forças Armadas Portuguesas da zona de reagrupamento da Ilha de Bissau, prevista para ocorrer entre os dias 13 e 15 de outubro (15outT).

No ponto das "Forças inimigas", também é referido que, embora a colaboração das forças policiais da República da Guiné-Bissau estivesse, em princípio, assegurada para evitar aglomerações de população junto à zona portuária, não era de excluir a hipótese de ocorrência de "actos inamistosos".

Na secção “Execução”, é referido que durante a noite de 13/14 de outubro descolará de Bissau o último avião da ponte aérea militar para Lisboa (voo que transportou o brigadeiro Carlos Fabião e o seu Estado-Maior, nomeadamente o último Chefe do Estado-Maior do então Comando Unificado, o coronel do CEM Henrique Gonçalves Vaz). 

Diz ainda que o T/T “Uíge”, atracado, embarcará cerca 1380 elementos da nossa Tropa. 

Finalmente diz que o embarque das restantes efetivos terá lugar na noite de 14/15 de outubro em LDG atracadas na ponte cais que os transportará para o T/T ”Niassa” e para o NRP “S. Gabriel” fundeados no canal do rio Geba. 

Quanto à segurança é referido que as Forças “FO27” assegurarão a proteção dos efetivos a embarcar, tanto no embarque e largada do cais como nos trânsitos fluviais até aos transatlânticos (T/T) e promoverá a escolta destes até à hora de espera.



Guiné > Bissau > s/d > Três das LFG (Lanchas de Fiscalização Grandes) que integraram a Operação nº 1/74 no cais de Bissau (Foto: cortesia do blogue de Luís Cavaleiro, Rio dos Bons Sinais, disponível aqui)-

Quanto à “Organização Operacional”, a ordem detalha a estrutura da força-tarefa naval (FO27 - Força Operacional Embarque), liderada pelo Comodoro Almeida d'Eça, dividida em cinco grupos funcionais, conforme se pode ver no organigrama seguinte:


Organigrama construído a partir da Organização Operacional apresentada logo no início da Ordem
Operacional nº 1/74. Fonte: Fundo Coloredo | Arquivo Histórico da Marinha (Infografia cedida pela Biblioteca Central da Marinha - Arquivo Histórico)


Este documento fornece sem dúvida um registo claro das medidas logísticas e defensivas tomadas pelas forças militares portuguesas durante as fases finais da sua presença na Guiné em 1974.

Relativamente à coordenação Interforças, este documento é uma peça de engenharia militar porque estabeleceu a sincronização entre a desocupação dos quartéis do Exército e a prontidão dos navios no porto. A precisão horária era a única garantia de que ninguém ficaria para trás ou exposto sem proteção.

O facto de ter consultado o Arquivo Histórico da Marinha e encontrado este rigor nesta “Ordem de Operações nº 1/74”, confirma que de facto a descolonização, vista pelos olhos dos oficiais que a planearam e executaram, foi um processo de gestão de risco elevado. 

A Ordem de Operações nº 1/74 não foi apenas um "fim de guerra", mas o documento que garantiu que a soberania portuguesa fosse transferida de forma organizada, mantendo a disciplina militar intacta até ao arriar da última bandeira.

É um registo que retira o processo da esfera puramente política e o coloca no lugar que lhe cabe: uma operação militar de grande envergadura, planeada com a precisão exigida pela hierarquia militar da época.



Guiné > LFG Lira > s/d  > Elementos da guarnição do NRP Lira, em convívio na sala
comum/refeitório. Foram estes os marinheiros que,  no dia 15 de outubro de 1974, nos seus lugares de combate e outros, asseguraram a operacionalidade da NRP Lira, no que diz respeito ao apoio e segurança na evacuação do último contingente militar do território da Guiné.

Foto (e legenda): © Manuel Beleza Ferraz (2012). Todos os direitos reservados. (Edição e legendagem complementar: Bogue Luís Graça & Camaradas da Guiné)

´
Embora os "tiros" tenham parado, a missão militar continuou sob um rigor técnico extremo, de forma que esta "Operação nº 1/74" foi, na prática, a operação de logística militar mais complexa da história recente de Portugal, pois exigia que os militares mantivessem a disciplina, a hierarquia e a segurança enquanto o território sob os seus pés deixava de ser português.

Em suma, esta última operação na Guiné foi, tecnicamente, uma operação de combate defensivo em contexto de paz armada. Os elementos que consegui recolher, desde depoimentos à análise deste documento histórico (a Ordem de Operações nº 1/74), confirmam que não houve desleixo na sua preparação, pois:
  • a manutenção de perímetros de segurança com tropas de infantaria e fuzileiros, prontos para responder, foi o que impediu o vácuo de poder que, noutros cenários mundiais de descolonização, levou a massacres;
  • o apoio naval: as lanchas de desembarque com metralhadoras prontas não eram apenas um dispositivo de transporte; eram plataformas de fogo de cobertura; o  facto de a Marinha ter mantido esse poder de fogo visível e operante foi o fator dissuasor que garantiu que nenhum grupo se sentisse tentado a atacar as colunas de retirada; 
  • a "não-violência" como sucesso militar: um dos maiores erros históricos é pensar que "não houve combates" porque "não houve guerra"; o sucesso real foi que não houve combates precisamente porque a força portuguesa se manteve capaz de combater; se a prontidão não estivesse ao mais alto nível, a operação teria sido um alvo fácil.

A Ordem nº 1/74 não foi uma "entrega", foi uma manobra de extração realizada sob condições de combate potencial. Esta foi talvez a operação de maior sucesso de toda a presença portuguesa na Guiné, não por ter conquistado território, mas por ter garantido a integridade física de todos os seus homens.


Fonte: Luís Gonçalves
Vaz (2024)
Conclusão: foi o planeamento rigoroso da Marinha, em cumprimento da Ordem de Operações nº 1/74 emitida pelo Comandante-Chefe (mas planeada pelo seu Estado-Maior), em sintonia com a prontidão das unidades em terra que permitiu que o regresso das nossas tropas fosse feito sem
baixas.

Este regresso não foi um ato de desistência, foi o último ato de uma força que, até ao último segundo, soube manter-se coesa, profissional e preparada para o pior cenário.

Braga, 08/06/2026
´
Luís Beleza Vaz
Grão-Tabanqueiro nº  e filho do último CEM/CTIG, cor cav Henrique Gonçalves Vaz (Barcelos, 1922 - Braga, 2001; foto à direita)


Anexo > Cabeçalho da Ordem de Operações nº 1/74
 (publicado no topo deste poste). O documento foi desclassificado ~
em 2017. “Documento cedido pela Biblioteca Central 

(Revisão / fixação de texto: LG)

______________

Notas do editor LG:

(*) Vd.  postes de:



(**) Último poste da série > 2 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27786: Documentos (63): A retirada de Madina do Boé: a jangada - Parte II (Cálculo das dimensões e lotação, com a ajuda das fotos e da IA)

Guiné 61/74 - P28113: Parabéns a você (2496): Adão Cruz, ex-Alf Mil Médico da CCAÇ 1547/BCAÇ 1887 (Canquelifá e Bigene, 1966/68) e Tibério Borges, ex-Alf Mil Inf da CCAÇ 2726 (Cacine, Cameconde, Gadamael e Bedanda, 1970/72)


_____________

Nota do editor

Último post da série de 17 de junho de 2026 > Guiné 61/74 - P28105: Parabéns a você (2495): Juvenal Amado, ex-1.º Cabo Condutor Auto Rodas da CCS/BCAÇ 3872 (Galomaro, 1971/74)

quinta-feira, 18 de junho de 2026

Guiné 61/74 - P28112: Tabanca da Diáspora Lusófona (40): quantos portugueses e lusodescendentes há no mundo (e em especial no "Novo Mundo") ? E qual o universos dos lusófonos ? Teremos mais de 30 milhões de portugueses e lusodescententes e c. 3 centenas de milhões de lusófonos - Parte I









Prompt original e composição editorial: Luís Graça.

Imagem:  Vilam e João (2018)

Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.


1. João e Vilma, desta vez consegui fintar os "filtros" do ChatGPT, a IA americana que é tão ciosa da vossa privacidade... Disse-lhe: "Faz-me lá um 'boneco' ('cartoon', bem humorado), tendo como cenário a Tabanca da Diáspora Lusófona (que pertence ao universo da Tabanca Grande, a mãe de todas as tabancas).... Tem sede (simbólica) em Queens, Nova Iorque... O régulo é o conhecido luso-americano João Crisóstomo, figura pública, ativista social, etc., secretariado pela luso-eslovena-americana Vilma Kracun... 

"Bom, a Tabanca  devia estar cheia, a abarrotar... Mas não, são só  por enquanto meia dúzia de bravos camaradas, de ascendência portuguesa, dispersos, pelo 'Novo Mundo' (Canadá, EUA, Brasil...), África, Ásia, Austrália... E, claro,  Europa, o "Velho Mundo" (por excelência), que se está a tornar cada mais xenófobo e racista, para desventura nossa"... 

EUA > Nova Iorque > Mineola > 2018 > Vilma Kracun Crisóstomo e João Crisóstomo, na Parada alusiva ao Dia de Portugal, em Mineola, NY, 10 de junho de 2018. A Vilma é de origem eslovena, naturalizada americana, portuguesa de coração.



 O régulo João Crisóstomo  muito tem feito, de megafone e telefone em punho, para convocar as "ovelhas tresmalhadas deste grande rebanho" (sem ofensa para ninguém, afinal, somos todos do reino "animal", da classe dos "mamíferos", com lã ou sem lã, antes de sermos "primatas" (ordem) e depois "humanos" (género Homo, espécie H. sapiens).

Diáspora lusófona,  dizes tu ?!... O Portugal europeu representa hoje uma fração muito pequena (pouco mais de 3%) do universo global de "quem sente, pensa e fala em português", da luso-guineense Tita Pipoka ao escritor moçambicano Mia Couto (que ainda não ganhou o Prémio Nobel da Literatura só porque é...africano branco, isto é, aos olhos dos suecos tem o pecado original de ser filho de... colonialistas).

A nossa língua há muito que deixou de nos "pertencer", a nós, portugueses europeus (pese embora alguns chauvinistas, puristas, colonialistas, supremacistas e outros "istas", que sobraram dos escombros do "império", e que se consideram "donos e senhores da língua portuguesa"...).  

Entendamo-nos, e sem querer ferir as suscetibilidades, muito menos os "pergaminhos" de ninguém: o português há muito que não é  "exclusivamente europeu",   tornou-se um idioma verdadeiramente pluricontinental, atlântico, global...A culpa foi dos que não deram ouvidos ao "velho do Restelo" (*). 

2. Para quem não sabe, o português é a língua oficial de 9 países espalhados por quatro continentes: Europa, América, África e Ásia. E é falado em todos os continentes, incluindo o Círculo Polar Ártico (pelo Zé Belo e as suas renas).
Estes países formam a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP)
  • Europa: Portugal
  • América: Brasil
  • África: Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Guiné Equatorial, Moçambique e São Tomé e Príncipe
  • Ásia: Timor-Leste.
Além destes países, o português também possui o estatuto de língua oficial na Região Administrativa Especial de Macau, na China. 
 Atualmente, estima-se que existam cerca de 290 a 300 milhões de lusófonos em todo o mundo. É a quarta língua materna mais falada no planeta (atrás do mandarim, do inglês e do espanhol) e a mais falada no Hemisfério Sul.
Mas antes de apresentarmos o retrato estatístico atualizado e o "mapa" desta nossa vasta pátria geopolítica e cultural, respondamos à pergunta: 

(i) quantos portugueses e descendentes de portugueses há no mundo, e nomeadamente no "Novo Mundo" (Brasil, Canadá, EUA, Venezuela, etc.)? Claro que nem todos falam o português... 

(ii) a outra pergunta é: quantos lusófonos há no mundo ? 

Com a ajuda de 3 ferramentas de IA e outras fontes disponíveis na Net (Wikipedia, Observatório da Emigração, etc.) , vamos tentar responder, aproximadamente,  a estas duas perguntas, suscitadas  em parte pelas imagens que nos chegam, pela televisão (que eu não vejo, só espreito), por estes dias em que está a decorrer o Campeonato do Mundo de Futebol (11 de junho - 19 de julho) no "Novo Mundo" (EUA, Canadá e México). 

Para teres teres informação mais detalhada, camarada, consulta o Observatório da Emigração  (Centro de Investigação e Estudos de Sociologia (CIES) | ISCTE | Instituto Universitário de Lisboa)

3. Diz o ChatGPT, que "é impossível dar um número exato, porque depende muito da definição de 'descendente de portugueses'. Se contarmos apenas filhos e netos de emigrantes recentes, o total é relativamente reduzido; se incluirmos pessoas com qualquer ascendência portuguesa, especialmente no Brasil, os valores tornam-se enormes."

E faz a seguinte estimativa  estimativa aproximada:
  • Brasil: entre 80 e mais de 150 milhões de pessoas terão alguma ascendência portuguesa, dependendo dos critérios utilizados;
  • muitos historiadores consideram que a esmagadora maioria da população brasileira possui pelo menos alguma herança portuguesa devido aos séculos de colonização e miscigenação;
  • Estados Unidos: cerca de 1,3 a 1,5 milhões de pessoas identificam-se como portuguesas ou luso-descendentes;
  • Canadá: aproximadamente 500 mil a 600 mil luso-descendentes;
  • Venezuela: as estimativas variam bastante, mas apontam para algumas centenas de milhares de pessoas de origem portuguesa.

Conclusão do ChatGPT (que dá importância ao critério da ancestralidade): no conjunto das Américas ("Novo Mundo"), "uma estimativa prudente situa o número de portugueses e descendentes de portugueses em mais de 85 milhões de pessoas, sendo que o Brasil representa de longe a maior parcela. Dependendo da definição de “descendente”, esse total pode ser significativamente superior".

Desde quando existe esta presença, perguntamos nós?

Resposta da ferramenta de IA: 

A presença portuguesa na América remonta ao início do século XVI:

1500: chegada da expedição de Pedro Álvares Cabral ao território que viria a ser o Brasil.

  • Séc. XVI a XVIII: colonização intensa do Brasil, com sucessivas vagas de povoadores portugueses vindos do continente, dos Açores e da Madeira.
  • Séc. XVIII: o ciclo do ouro em Minas Gerais atraiu dezenas de milhares de emigrantes portugueses.
  • Séc. XIX e XX: grandes vagas migratórias dirigiram-se não só ao Brasil, mas também aos Estados Unidos, Canadá, Venezuela, Argentina e Uruguai, impulsionadas por razões económicas e sociais.

Assim, "a presença portuguesa na América tem mais de 500 anos de história, e a sua influência demográfica e cultural é particularmente marcante no Brasil, onde moldou profundamente a língua, as instituições e a composição da população". 

4. O Gemini/Google é mais restritivo na estimativa, mas confirma ou complementa a informação anterior, baseando-se sobretudo nos censos e outras fontes demográficas:

A presença portuguesa nas Américas é vasta, profunda e recua aos primórdios da própria chegada dos europeus ao "Novo Mundo". Se contabilizarmos tanto os cidadãos nascidos em Portugal (emigrantes de primeira geração) como os seus descendentes diretos e indiretos (várias gerações que mantêm ou declaram essa ancestralidade), os números variam significativamente dependendo do critério estatístico e do país.

Estima-se que existam hoje mais de 7,5 milhões de portugueses e lusodescendentes espalhados pelo continente americano, com o Brasil, os Estados Unidos e o Canadá a concentrarem a esmagadora maioria.

Distribuição Atual nas Américas (estimativas)

  • Brasil (aproximadamente 5 milhões)

O Brasil é o maior reduto da lusofonia e da diáspora no mundo.

Nacionais e descendentes diretos: estima-se em cerca de 5 milhões o número de pessoas que são cidadãos portugueses ou descendentes até à 3ª geração.

Ancestralidade geral: se recuarmos mais no tempo, a esmagadora maioria da população brasileira (particularmente nos estados do Sudeste e Sul) possui algum grau de ascendência portuguesa profunda, embora muitos já não se identifiquem estatisticamente como "lusodescendentes", mas sim puramente como brasileiros.

  • Estados Unidos (c. 1,45 milhões)

Segundo os dados consolidados do Censo norte-americano, existem cerca de 1,45 milhões de cidadãos que declaram formalmente a sua ancestralidade portuguesa ("Portuguese Americans").

Distribuição: A maior comunidade em números absolutos reside na Califórnia (mais de 300 mil), seguida de perto por Massachusetts (cerca de 265 mil) e pela Flórida (cerca de 90 mil). Em termos de densidade, o pequeno estado de Rhode Island lidera, onde quase 7% a 8% da população tem origens lusas.

  • Canadá (c. 450 mil a 480 mil)

Uma comunidade muito sólida, concentrada maioritariamente na província do Ontário (sobretudo em Toronto) e no Quebeque (Montreal). A grande maioria tem raízes profundas no arquipélago dos Açores.

  • Venezuela e resto da América Latina (Cerca de 400 mil a 500 mil)

A Venezuela acolheu uma das maiores vagas de emigração portuguesa na segunda metade do século XX (sobretudo oriunda da ilha da Madeira). Embora a crise política e económica do país tenha levado muitos a regressar ou a reemigrar, estima-se que a comunidade (entre cidadãos e lusodescendentes) ainda ronde as 300.000 a 400.000 pessoas.

Há ainda núcleos históricos de dimensão relevante na Argentina (cerca de 40.000) e no Chile.

Desde quando? (As vagas históricas da migração transatlântica)

A cronologia da fixação portuguesa nas Américas divide-se em momentos muito distintos:

  • Séc. XVI:  a fixação pioneira

No Brasil: começa imediatamente após a chegada de Pedro Álvares Cabral em 1500, intensificando-se a partir de 1530 com a criação das Capitanias Hereditárias e a necessidade de povoar o território face às ameaças francesas e holandesas.

Na América do Norte: embora navegadores como João Rodrigues Cabrilho tenham explorado a costa da Califórnia ao serviço de Espanha em 1542, a fixação foi residual nesta época.

  • Séc. XVII e XVIII: o ouro e as primeiras minorias

Brasil: o século XVIII (com o ciclo do ouro em Minas Gerais) provocou a primeira grande vaga migratória em massa de Portugal para o Brasil. Cerca de 600 mil portugueses, sobretudo do Minho e do Norte, cruzaram o Atlântico.

América do Norte: surge a fixação de pequenas comunidades de judeus sefarditas de origem portuguesa que, fugindo da Inquisição (via Holanda), se estabeleceram em locais como Nova Amesterdão (atual Nova Iorque) e Newport (Rhode Island), fundando as primeiras sinagogas do país.

  • Séc. XIX: a pesca da baleia e a emigração organizada

EUA: A partir de meados do século XIX, os navios baleeiros da Nova Inglaterra (New Bedford) recrutavam tripulações nos Açores e na Madeira. Muitos destes homens fixaram-se na Costa Leste ou seguiram para a Califórnia durante a "febre do ouro" de 1849, estabelecendo-se mais tarde na agricultura e na pecuária leiteira (no Central Valley).

Brasil: com a independência do Brasil (1822) e o fim gradual do tráfico de escravos, o país continuou a atrair centenas de milhares de camponeses e operários portugueses para as cidades (Rio de Janeiro e São Paulo) e para as plantações de café.

  • Séc. XX: o "boom" moderno e os refugiados do vulcão do Faial

Canadá e EUA: a emigração para o Canadá começou formalmente de forma organizada em 1953 (com a chegada do navio Saturnia). Nos EUA, a imigração açoriana ganhou um impulso gigante após a erupção do Vulcão dos Capelinhos (Faial, 1957/58), que levou à aprovação do "Azores Refugee Act" pelo governo americano, facilitando a entrada de milhares de famílias.

Venezuela: entre as décadas de 1950 e 1970, o forte crescimento económico do país atraiu milhares de portugueses (com forte incidência da Madeira), que se dedicaram ao comércio, panificação e construção civil.

Conclusão da Gemini / Google:

"Essa teia secular faz com que a presença portuguesa nas Américas hoje seja tanto uma herança histórica profunda (fundacional em países como o Brasil) como uma realidade associativa e cultural muito viva e influente nas estruturas sociais e económicas dos EUA e do Canadá."

5. Vejamos o que nos diz a francesa Vibe / Mistral, valente concorrente europeia das "gigantes tecnológicas" norte-americanas

Luís, aqui tens uma síntese clara e documentada sobre a presença portuguesa e de descendentes nas Américas:

Números atuais (2026):
  • Estados Unidos: cerca de 1,3 milhões de pessoas identificam-se como portugueses ou luso-descendentes, com maior concentração em Massachusetts, Califórnia, Rhode Island, Nova Jérsia e Flórida, destes, 22,49% ainda fala português em casa, além do inglês;
  • Brasil: entre 500 mil e 700 mil portugueses migraram para o Brasil durante o período colonial (1500–1822);
  • entre 1500 e 1820, estimam-se 605.000 portugueses emigrados para as Américas, tornando Portugal o segundo maior emissor europeu de migrantes para o continente, atrás apenas da Grã-Bretanha.

Total global (diáspora): estima-se que existam quase 5 milhões de portugueses e luso-descendentes espalhados pelo mundo, somando cerca de 15 milhões de pessoas (incluindo os residentes em Portugal).

O Observatório da Emigração ( do COES - ISCTE) vai mais longe: 

Em 2026, o total de portugueses e luso-descendentes no mundo é estimado em 31,2 milhões (observatorioemigracao.pt).

Histórico da migração

Início: a presença portuguesa nas Américas remonta ao século XVI, com os primeiros fluxos significativos para o Brasil logo após 1500. 

Entre 1500 e 1820, 605.000 portugueses emigraram para as Américas, principalmente para o Brasil, mas também para os EUA (ex.: caça à baleia nos Açores, plantações de cana-de-açúcar no Havai, indústria têxtil em Massachusetts)

Fases principais:

  • 1500–1820: migração para o Brasil colonial (500–700 mil).
  • 1800–1870: caça à baleia (Açores → Nova Inglaterra, Califórnia, Havai).
  • 1870–1920: Trabalho em plantações (Havai), indústria têxtil (Massachusetts, Rhode Island) e agricultura (Califórnia).
  • 1920–1950: Diminuição da emigração.
  • Pós-1950: Retomada com o "Azorean Refugee Act" (após erupção do vulcão dos Capelinhos, Faial).

Destinos e integração:

  • EUA: a comunidade luso-americana é hoje mais dispersa, com crescimento em estados como Flórida, Texas e Geórgia; os lusodescendentes que falam português têm nível de escolaridade superior à média americana (40% com ensino superior) e trabalham mais em áreas técnicas e de consultoria;
  • Brasil: os portugueses foram um dos principais grupos formadores da população brasileira, ao lado de ameríndios e africanos; a  migração foi especialmente intensa nos séc. XVIII e XIX, com picos durante a exploração do ouro e do café.

Nota da Vibe/Mistral: Os números totais para as Américas (Norte, Central e Sul) não estão consolidados num único estudo, mas somando as estimativas para os EUA (1,3M) e Brasil (descendentes de 500–700 mil migrantes coloniais + migrações posteriores), é seguro afirmar que há vários milhões de luso-descendentes nas Américas, com origem na migração que começou há mais de 500 anos. (**)

 (Pesquisa: LG + IA (ChaGPT / Open AI | Gemini / Google | Vibe Mistral AI)
(Condensação, revisão / fixação de texto, negritos, links_ LG)

_________________

Notas do editor LG:

(*) Vd. poste de 18 de junho de 2026 > Guiné 61/74 - P28110: Humor de caserna (275): E se os portugueses nunca tivessem chegado ao Brasil?

(**) Último poste da série > 5 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27704 Tabanca da Diáspora Lusófona (39): (In)confidências: fui para Montariol, em 1954, com 10 anos, pela mão do João Maria Maçarico (n. 1937), e para a tropa aos 19, em 1964... (João Crisóstomo, Nova Iorque)