segunda-feira, 19 de junho de 2023

Guiné 61/74 - P24414: Recordando o Amadu Bailo Djaló (Bafatá, 1940 - Lisboa, 2015), um luso-guineense com duas pátrias amadas, um valoroso combatente, um homem sábio, um bom muçulmano; Parte XXX: A guerra pela população (pp. 204-206)


Guiné > Região do Oio > Farim > Aproximação à pista de Farim. Foto de Carlos Silva, ex-fur mil, CCAÇ 2548/BCAÇ 2879 (Jumbembem, 1969/71) (publicada, a preto e branco, no livro, na pág. 205)

Guiné > Região do Oio > Farim > O rio Cacheu em Farim.  Foto de Carlos Silva, ex-fur mil, (publicada, a preto e branco, no livro, na pág. 204)


Guiné > Região do Oio > Farim > O rio Cacheu em Farim.  Foto de Carlos Silva (publicada, a preto e branco, na pág. 206)

Fotos (e legendas): © Carlos Silva (2010). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



Capa do livro do Amadu Bailo Djaló,
"Guineense, Comando, Português: I Volume:
Comandos Africanos, 1964 - 1974",
Lisboa, Associação de Comandos,
2010, 229 pp, + fotos, edição esgotada.



O autor, em Bafatá, sua terra natal,
por volta de meados de 1966.
(Foto reproduzida no livro, na pág. 149


Síntese das partes anteriores:

(i) o autor, nascido em Bafatá, de pais oriundos da Guiné Conacri, começou a recruta, como voluntário, em 4 de janeiro de 1962, no Centro de Instrução Militar (CIM) de Bolama;

(ii) esteve depois no CICA/BAC, em Bissau, onde tirou a especialidade de soldado condutor autorrodas;

(iii) passou por Bedanda, 4ª CCaç (futura CCAÇ 6), e depois Farim, 1ª CCAÇ (futura CCAÇ 3), como sold cond auto;

(iv) regressou entretanto à CCS/QG, e alistou-se no Gr Cmds "Os Fantasmas", comandado pelo alf mil 'cmd' Maurício Saraiva, de outubro de 1964 a maio de 1965;

(v) em junho de 1965, fez a escola de cabos em Bissau, foi promovido a 1º cabo condutor, em 2 de janeiro de 1966;

(vi) voltou aos Comandos do CTIG, integrando-se desta vez no Gr Cmds "Os Centuriões", do alf mil 'cmd' Luís Rainha e do 1º cabo 'cmd' Júlio Costa Abreu (que vive atualmente em Amesterdão);

(vii) depois da última saída do Grupo, Op Virgínia, 24/25 de abril de 1966, na fronteira do Senegal, Amadu foi transferido, a seu pedido, por razões familitares, para Bafatá, sua terra natal, para o BCAV 757;

(viii) ficou em Bafatá até final de 1969, altura em que foi selecionado para integrar a 1ª CCmds Africanos, que será comandada pelo seu amigo João Bacar Djaló (Cacine, Catió, 1929 - Tite, 1971)

(ix) depois da formação da companhia (que terminou em meados de 1970), o Amadu Djaló, com 30 anos, integra uma das unidades de elite do CTIG; a 1ª CCmds Africanos, em julho, vai para a região de Gabu, Bajocunda e Pirada, fazendo incursões no Senegal e em setembro anda por Paunca: aqui ouve as previsões agoirentas de um adivinho;

(x) em finais de outubro de 1970, começam os preparativos da invasão anfíbia de Conacri (Op Mar Verde, 22 de novembro de 1970), na qual ele participaçou, com toda 1ª CCmds, sob o comando do cap graduado comando João Bacar Jaló (pp. 168-183);

(xi) a narrativa é retomada depois do regresso de Conacri, por pouco tempo, a Fá Mandinga, em dezembro de 1970; a companhia é destacada para Cacine [3 pelotões para reforço temporário das guarnições de Gandembel e Guileje, entre dez 1970 e jan 1971]; Amadu Djaló estava de licença de casamento (15 dias), para logo a seguir ser ferido em Jababá Biafada, sector de Tite, em fevereiro de 1971;

(xii) supersticioso, ouve a "profecia" de um velho adivinho que tem "um recado de Deus (...) para dar ao capitão João Bacar Jaló"; este sonha com a sua própria morte, que vai ocorrer no sector de Tite, perto da tabanca de Jufá, em 16 de abril de 1971 (versão contada ao autor pelo soldado 'comando' Abdulai Djaló Cula, texto em itálico no livro, pp.192-195) ,

(xiii) é entretanto transferido para a 2ª CCmds Africanos, agora em formação; 1ª fase de instrução, em Fá Mandinga , sector L1, de 24 de abril a fins de julho de 1971.

(xiv) o final da instrução realizou.se no subsector do Xitole, regulado do Corunal, cim uma incursão ao mítico Galo Corubal.

(xv) com a 2ª CCmds, comandada por Zacarias Saiegh, participa, em outubro e novembro de 1971, participa em duas acções, uma na zona de Bissum Naga e outra na área de Farim.



1. Continuação da publicação das memórias do Amadu Djaló (Bafatá, 1940-Lisboa, 2015), a partir do manuscrito, digital, do seu livro "Guineense, Comando, Português: I Volume: Comandos Africanos, 1964 - 1974" (Lisboa, Associação de Comandos, 2010, 229 pp, + fotos, edição esgotada) (*).

O nosso  camarada e amigo Virgínio Briote, o editor literário ou "copydesk" desta obra,  facultou-nos uma cópia digital. O Amadu Djaló, membro da Tabanca Grande, desde 2010, tem cerca de nove dezenas de referências no nosso blogue.



Recordando o Amadu Bailo Djaló (Bafatá, 1940 - Lisboa, 2015), um luso-guineense com duas pátrias amadas, um valoroso combatente, um homem sábio, um bom muçulmano:


Parte XXX:  A guerra pela populaçãpo (pp. 204-206)


Depois de várias saídas, a nossa companhia comandada pelo Tenente Zacarias Saiegh, partiu para Bissau, com a missão de executar duas acções, uma na zona de Bissum Naga[1] e outra na área de Farim.

Na zona de Bissum Naga, tivemos contacto com o PAIGC por duas vezes. Num dia, um dos nossos grupos, junto ao rio, capturou armas e granadas ao PAIGC. No dia seguinte, outro grupo nosso foi apanhado pelo IN, quando estava numa fonte a transportar água[2] e teve um ferido.

Duas companhias incompletas, a 1ª e a 2ªCCmds, comandadas também pelo Saiegh, embarcaram de avião para Farim, onde chegámos às 11h00. Depois, seguimos, a pé, da pista para o cais, onde ficámos até cerca das 16h00.

Entrámos para uma embarcação comercial e partimos, como quem ia para Binta[3]. A meio do rio, o barco encostou à margem esquerda, amarrámo-nos às árvores e saltámos para terra. Depois de reagrupados, rumámos na direcção de Oio Tiligi[4]. Entrámos na mata, fizemos um alto para comer qualquer coisa e mudamos para um local onde pernoitámos.

Logo de manhã, bem cedo, dirigimo-nos para a zona onde tinham sido referenciados acampamentos do PAIGC.

A certa altura, não muito longe desses locais, ouvimos barulho de vozes e tomámos as disposições para o assalto. Não sabíamos se era pessoal armado ou só população. Como os sons das vozes vinham de vários locais, separámos o nosso pessoal.

Fomo-nos aproximando na direcção das vozes, deparámos com barracas com população civil e, sem dar um tiro, recuperámos as cerca de trinta pessoas que encontrámos.

Em marcha rápida saímos do local, com o objectivo de evitar contacto armado, uma vez que tínhamos entre nós crianças, velhos e mulheres. Sabíamos que eles conheciam a zona melhor que nós e mantivemos o ritmo da marcha até encontrarmos um local que nos pareceu relativamente seguro para dormir um pouco. 

Como estávamos no mês do Ramadão demos às pessoas a nossa ração de combate para quebrarem o jejum.

Ao romper da aurora dirigimo-nos para a margem do rio Cacheu e, depois de muito andar, avistámos o barco, que estava encostado a umas árvores, numa zona em que o rio faz uma curva. Não foi fácil meter toda a gente na embarcação mas conseguimos.

Chegámos ao cais de Farim, entre as 15 e as 16h00 e apresentámo-nos no comando do batalhão[5]. Um capitão disse que quem tivesse onde dormir que podia ir e regressar no dia seguinte, aí pelas oito horas.

Eu e mais alguns colegas fomos para o bairro de Sinchã, onde a maioria dos moradores era da minha etnia. Não estavam à nossa espera e não tinham condições para nos dar comer e alojamento mas nada nos faltou e dormimos bem até de manhã.

No dia seguinte, conforme estava determinado, encontrámo-nos na pista à espera dos aviões que chegaram por volta das 09h00[6].

(Continua)
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Notas do autor e/ou do editor literário (VB):

[1] Nota do editor: a cerca de 17km a norte de Binar.

[2] Nota do editor: esta acção na zona de Bissum Naga, executada pelas 1ª e 2ª CCmds, foi elaborada pelo COE, comandado pelo Major Almeida Bruno, e decorreu entre 18/22 Outubro 1971 na mata do Choquemone.

[3] Nota do editor: destacamento da CArt 3358.

[4] Tiligi, palavra mandinga que significa pôr-do-sol.

[5] Nota do editor: BArt 3844.

[6] Nota do editor: acção no Tancroal (rio Jagali, Ganturé-Cacheu), sector de Farim, comandada pelo Major Almeida Bruno, entre 29 Outubro/01 Novembro 1971.

[Seleção / Revisão e fixação de texto /  Subtítulo / Negritos:  LG]
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7 comentários:

Tabanca Grande Luís Graça disse...

Apreciei o gesto (solidário) do Amadu e camaradas, partilhando a sua ração de combate com a população resgatada ao controlo do PAIGC...Comento:

(i) os comandos africanos tinham direito a ração de combate (o que não acontecia com as praças da CCAç 12, "desarranchadas");

(ii) essa ração tinha que ser específica ou "especial", já que uma boa parte deles, comandos, eram muçulmanos e não comiam carne de porco e produtos derivados (como salsichas, chouriço, presunto, etc.).

Estava-se no Ramadão... E um homem em jejum tinha que continuar a combater...

Virgínio Briote, tens algo a acrescentar sobre este assunto da "racão especial" para comando africano e muçulmano ?

Eduardo Estrela disse...

Boa tarde Luís!
Os meus/nossos companheiros e camaradas da CCaç 14, tinham ração de combate quando havia saídas para o mato, o que acontecia de 6 em 6 dias, por períodos de 48 horas. A ração era a tipo E e como estavam desarranchados tinham que a pagar. Como bons muçulmanos, pois eram da etnia mandinga, não comiam porco, pelo que tínhamos que ser solidários e trocar as nossas sardinhas com a carne, de modo a salvaguardar os princípios do Profeta. Houve até uma situação extremamente desagradável, quando descobrimos que o 1. sargento da companhia facturava tipo E especial e fornecia aos homens a normal.
Viajar pela imagens e pelas memórias. Farim!!!!
Aqui esteve o meu grupo de combate, integrado na 2549 comandada pelo capitão Vasco Lourenço. Alinhei na interdição do corredor de Lamel, durante o mês de Dezembro de 1970 e foi muito duro. 16 mortos em mês e meio foi o que o PAIGC nos provocou. Duma emboscada à coluna da minha companhia em 30 de Dezembro resultaram 7 mortos. Daquela pista saí em finais de Março de 1971, num Nord Atlas rumo a Bissau ,onde embarquei no Manuel Alfredo a caminho de Lisboa, incrédulo, digo bem incrédulo, por regressar aparentemente inteiro.
Abraço fraterno
Eduardo Estrela

Valdemar Silva disse...

Interessante esse pormenor das rações de combate aos soldados desarranchados e muçulmanos.
Não me recordo se os nossos soldados fulas da CART11 pagavam as rações de combate quando assim acontecia nas saídas para operações de mais de dois dias.
Também trocavam connosco sua rações por causa da carne de porco, incluindo a bisnaga do queijo que diziam ser de leite de porca.
Mas havia uma grande margem nas trocas, não satisfazendo todos, eles eram cerca de 30 e nós cerca de 10 cristãos.

Valdemar Queiroz

Anónimo disse...

No meu tempo, entre Jun65 e Set66, as ops dos grsCmds eram curtas, de 1 a 2 dias. Quando tínhamos que levar alimentação nunca optámos por rações de combate. Levávamos um prego e uma lata de sumo de fruta, quase sempre de ananás. Os nossos Camaradas Africanos escolhiam os alimentos sólidos que queriam. Não me lembro de qualquer problema com a alimentação. Julgo que estavam todos desarranchados. E os quadros europeus estavam todos desarranchados, só em Jan66, com a saída do cap Rubim e a entrada do cap Garcia Leandro é que houve alterações. O cap
Leandro criou uma messe e sugeriu que era conveniente tomarmos as refeições em conjunto com todo o pessoaL O que fizémos com gosto.

V. Briote

Tabanca Grande Luís Graça disse...

É espantosa a (in)capacidade de a nossa máquina de guerra se adaptar a novas situações.

A mais dramática foi talvez a entrada dos Strela nos céus da Guiné, em março de 1973. A FAP, passada a surpresa inicial, deu a "volta ao texto"...

Já a Intendência não conseguiu produzir e distribuir rações de combate para combatentes muçulmanos.. Eram 13 mil em meados de 1973 os soldados do recrutamento local no CTIG (incluindo milícias)...

Não me lembro de as praças da CCAÇ 12 levarem rações de combate para o mato. Eu partilhava ou dava as minhas... Lembro-me, sim, de ver os nossos soldados com um punhado de arroz cozido, atado num lenço...

Claro, eram desarranchados...

Valdemar Silva disse...

Caro V. Briote

"E os quadros europeus estavam todos desarranchados.... 1966"

Então quando é que na Guiné foi considerada todo o território como zona de combate?
Em 1969 todos os militares do capitão ao soldado comiam do rancho, não havia desarranchados entre os militares metropolitanos.
Havia sim, em alguns aquartelamentos "messes" de oficiais e sargentos com a mesma verba o gêneros do rancho geral mas só de instalações/refeitório à parte.
Não sei como funcionava em Bissau.

Saúde da boa
Valdemar Queiroz

Gil disse...

Quando estive enm Cuntima na CCav 489 é claro que estávamos todos arranchados. Comíamos, praças, sargentos e oficiais, todos do mesmo rancho.
Nos Cmds, em Brá, a situação alterou-se. Estávamos todos arranchados ao Batalhão que lá estava. Pouco tempo depois de acabarmos o curso resolvemos, oficiais e sargentos, deixar de almoçar e jantar em Brá. Quando estava em Bissau, eu e mais alguns Camaradas comíamos no hotel Portugal ou no Solar dos 10, que julgo que ainda se chamava "O Fonseca".
Depois, como disse atrás, com a entrada do cap Garcia Leandro passámos todos (p pessoal dos Cmds) a fazermos as nossas refeições em Brá.

V Briote
CCav489 e CªCmds do CTIG