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segunda-feira, 23 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27848: Esposas de militares no mato (1): Bambadinca, ao tempo do BART 2917 (1970-72) - Parte I



Guiné > Zona Leste > Sector L1 > Bambadinca > CCS/BART 2917 (1970/72) > Festa de anos do 1º Srgt Fernando Brito. Convívio no bar de sargentos, em meados de 1970: ainda estávamos em "lua de mel", os "velhinhos" da CCAÇ 12, e os "piras" do BART 2917, aqui representados pelo 2º Comandante, maj art José António Anjos de Carvalho, sempre fardado, sempre "militarista", amante do fado de Coimbra (já falecido, no posto de cor art ref), e o 1º srgt art Fernando Brito (1932-2014) (falecido no posto de major, depois de ter feito a Escola Central de Sargentos)...

Foto: © Vitor Raposeiro (2009). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. Eram pouco os sítios, fora de Bissau, no mato, no interior da Guiné, onde viveram esposas (e nalguns casos filhos) de militares metropolitanos, oficiais e sargentos, do QP ou milicianos.

 A maior parte malta que respondeu a um inquérito nosso "on line", em 2016, nunca esteve com familiares de militares, europeus, em quartéis do mato (*).

Como exceções, fora da capital, Bissau, poderíamos citar, na Zona Oeste, Mansoa, Teixeira Pinto, São Domingos, Farim,  talvez Bula; e na zona leste, Bambadinca, Bafatá, Nova Lamego...

Comecemos por Bambadinca, no início da década de 1970. Estamos  em plena Spinolândia. 

O Comandante-Chefe já tinha posto "um par de patins", nos pés do ten-cor art Domingos Magalhães Filipe, de alcunha o "Nord Atlas"  ("um bom homem, mas que de guerra efectivamente só deveria saber o que vinha nos livros", escreveu o David Guimrães, há mais de 20 anos). 

O Magalhães Filipe foi comandante do BART 2917, de 15/11/69 a 12/11/70, sendo substituído nessas funções pelo 2º comandante, o maj art José António Anjos de Carvalho (desde 12/11/70 a 2/2/71). Por fim Spínola nomeou como comandante do BART 2917  o ten cor inf João Polidoro Monteiro (até ao fim da comissão, em 27/3/72).

O maj art Anjos de Carvalho não deixou saudades a ninguém, bem pelo contrário: os graduados da CCAÇ 12, que nos renderam em março de 1971, chamavam-lhe o "Alma Negra", e parodiaram-no, usando uma canção tradicional, que a Amália Rodrigues imortalizou ("Tiro-Liro-Liro") (**):

"Cá em cima está o tiro-liro-liro, / cá em baixo está o tiro-liro-ló / Juntaram-se os dois à esquina / A tocar a concertina, a dançar o solidó"... 

Passou a ser o hino da CCAÇ 12, cantarolado até à exaustão nos convívios anuais... Era uma cantiga de escárnio e maldizer, em que o visado era o 2º comandante do BART 2917, o então major art Anjos de Carvalho: tinha um gosto, dizem que compulsivo, por comandar operações "by air", ou seja, através do PCV - Posto de Comand0 Volante, em DO-27... (Estamos a falar do tempo antes dos Strela...).


2. Voltando à foto acima, do Vitor Raposeiro (que é de Setúbal e vive lá. mas de quem há muito não temos notícias), e agora destacando as senhoras: 
  • à direita do Brito, a Helena, mulher do alf mil at inf António Manuel Carlão, do 2º Gr Comb da CCAÇ 12 (o casal vivia em Fão, Esposende); (o Carlão que veio do CSM, já faleceu) (***):
  •  à direita do Anjos de Carvalho, a esposa do major art, Jorge Vieira de Barros e Bastos (mais familiarmente conhecido por Bê Bê, era o major de operações do comando do BART 2917; mais tarde cor art ref);
  •  e à sua direita, a Isabel, a esposa do José Alberto Coelho, o fur mil enf da CCS/BART 2917 (o casal vive hoje, ou vivia até há uns anos, em Beja). 

Analisando a foto do Vitor Raposeiro, não há dúvida que se tratou da festa de anos do nosso Primeiro Brito (tem uma chupeta pendurada ao peito, brincadeira da malta...). Também me parecia que esta festa, na messe de sargentos, não podia ter sido o jantar de Natal, ou coisa parecida: nessa altura, no final do ano, as relações com o major art Anjos de Carvalho, a três meses de acabar a nossa comissão, eram muito tensas ( por causa da Op Abencerragem Candente, e outras chatices). A CCAÇ 12, como companhia de intervenção, africana, estava adida ao comando do setor L1.

O 1º Brito era de facto um "grande senhor 1º sargento", e que mantinha com a malta da CCAÇ 12  (os furrieis milicianos) uma "relação muito especial"... 
Este jantar terá ocorrido nos  primeiros tempos, após a chegada do BART 2917 (em finais de maio de 1970) a Bambadinca,  vindo  render o BCAÇ 2852 (1968/70)... 

3. Na altura, eram estas, se não erramos, as únicas três senhoras, brancas,  que existiam no quartel de Bambadinca (não contando com a senhora professora do ensino primária, cabo-verdiana, que raramente era vista, mas que vivia dentro das nossas instalações militares, no edifício da escola, a dona Violete da Silva Aires;  nem me consta que alguma vez tivesse sido convidada para a messe de oficiais ou convivido com as outras senhoras)...

Os militares guineenses, do recrutamento local (da CCAÇ 12 e outras subunidades, como os Pel Caç Nat que estiveram connosco) (cerca de 270 militares) em geral eram casados e tinham consigo as famílias mas fora do arame farpado, vivendo em Bambadinca ou em Bambadincazinho.

4. No tempo do BCAÇ 2852, e até ao ataque a Bambadinca, em 28/5/1969, julgo que  terão chegado a lá estar três senhoras, pelo menos: 
  • e creio que também  a esposa do médico, David Payne (mais tarde psiquiatra, já falecido).

O Torcato Mendonça confirma

"Bambadinca era uma maravilha para nós [CART 2339, "Os Viriatos", Mansambo, 1968/69]. Vivia-se lá um clima de tranquilidade e de bom convívio. Para isso contribuía o Comandante e vários militares. Como a segurança era boa, estavam lá as esposas do comandante, do médico e do tenente da secretaria".


 5. Comentário do editor LG:

Na decisão de levar ou não levar a família para o teatro de operações, deviam pesar muitos fatores... 

Não era uma decisão fácil, no final da década de 1960, nove anos depois de ter começado a guerra colonial... Sobretudo para os militares do quadro, alguns já com 2 ou 3 comissões de serviço no ultramar.

É verdade, dirão alguns,  que foi a "vida" que escolheram, os oficiais e os sargentos dos três  ramos das forças armadas portuguesas... 

Por razões logísticas, de segurança, de saúde, de isolamento, etc., era mais difícil aos militares do exército levarem, para o mato, as famílias, as esposas sem filhos ou as esposas com filhos... 

No caso dos oficiais superiores, era diferente: tinham direito a alojamento em Bissau,  os filhos podiam frequentar o liceu, havia aerporto, hospital, lojas, resuarantes, havia, enfim, um arremedo de civilização...

Nos aquartelamentos do mato, dependia da companhia (CCS ou unidade de quadrícula, região, localidade, acessibilidade, instalações, segurança relativa,  transportes, logística, habitação, etc.). 

Não me lembro de ver famílias de militares, não guineenses, nas unidades de quadrícula do BCAÇ 2852 e do BART 2917, no setor L1: Xime, Mansambo, Xitole, Saltinho (que depois passa para o setor L5)... Muito menos em destacamentos onde as condições hoteleiras eram deploráveis ou inexistentes (Fá Mandinga, Missirá...). Era de todo impensável alguma senhora viver nestes "resorts"...

Para os jovens furriéis e alferes, do QP ou milicianos,  "just married", acabados de casar, ou que casavam a meio da comissão, ainda sem filhos, era uma decisão aparentemente mais fácil, lógica e natural, mas não isenta de riscos, sobretudo se o militar fosse um operacional..

Também não terá havido muitos "operacionais" com as esposas no TO da Guiné, mesmo em Bissau (por ex, tropas especiais).

Apesar da "milicianização" e "africanização" da guerra ( nos 3 TO),  ninguém estava à espera que aquele conflito  pudesse  durar 11/12/13/14 anos...

Sobretudo entre os militares de carreira, ninguém estava preparado para estar muitos anos longe da mulher e dos filhos (e com estes a crescer)... Ou de adiar a decisão de ter filhos.

Mas esse foi o cenário em que viveram muitas famílias portuguesas ao longo dos séculos, desde os "Descobrimentos": uma viagem de ida e volta à Índia podia demorar 1 e tal  / 2 anos...

Faltam-nos testemunhos dos homens e mulheres que cresceram com os pais, militares, em comissões de serviço em África... 

Salazar, que não era casado nem tinha filhos, nunca poderia saber avaliar os custos (emocionais, afetivos, de saúde, etc.) que a "guerra do ultramar" ou "guerra de África" ou "guerra colonial" (como se queira chamar) também teve para os militares  e as suas famílias, os homens (e as mulheres) que a fizeram (e a sofreram)...
____________



(***) Vd. poste de 15 de julho de 2024 > Guiné 61/74 - P25744: In Memoriam (507): António Carlão (Mirandela, 1947 - Esposende, 2018), ex-alf mil at inf, CCÇ 2590 / CCAÇ 12 (Contuboel e Bambadina, 1969/71) (Jorge Alvarenga, amigo da família)

6 comentários:

Tabanca Grande Luís Graça disse...

Dizer que os oficiais superiores tinham apoio na obtenção de alojamento em Bissau..., bom é uma afirmação que faço por minha conta e risco. Tenho falado com poucos, ultimamente com o cor inf ref Mário Arada Pinheiro, que foi colaborador próximo de Spínola. Teve lá a esposa e a filha, que frequentava o liceu (é hoje médica). O Mário Arada tinha uma casa (vivenda) em Santa Luzia, paredes meias com o Pilão. Também não devia ser fácil arranjar alojamento fora do QG/CTIG e outros quartéis. Julgo que no QG havia bangalôs para as famílias de oficiais. Mas no mato (Bambadinca já era mato...) era seguramente difícil ou impossível arranjar uma casa decente, com exceção talvez de Bafatá...

Tabanca Grande Luís Graça disse...

Por outro lado, naquela época, esposa só de "papel passado"... Ainda não havia o reconhecimento das uniões de facto. Por outro lado, devia ser de todo improvável um soldado ou um cabo querer e poder levar a "sua cara" metade para o mato...

Tabanca Grande Luís Graça disse...

A tropa tinha NEP para tudo... Estas situações deviam estar regulamentadas.

Tabanca Grande Luís Graça disse...

O Paulo Santiago diz-me que no final da guerra (1973/74) terá havido uma senhora, no Saltinho, esposa de um capitão. E, ao que parece, também no Xitole. A siotuação militar melhorou no sector L1, com a retirada de vários bigrupos do PAIGC durante a guerra dos 3 G.

Paulo Santiago disse...

Penso que a história já foi contada,se não foi,segue uma versão.
Não conheci a dama,apenas o protagonista.
Um AlfMil de Secretariado,filho de um abastado industrial do norte,andava tristonho por Bissau,onde estava colocado a cumprir a comissão.Para o animar,o pai contrata com uma profissional acompanhamento para o filho no tempo restante da missão.Parece que o rapaz não era certo,apanha uma porrada,é transferido para Bambadinca. A rapariga também foi.
Perto do posto médico,havia uma casita que estava desocupada e foi dispensada ao casal.Um posto de sentinela,tinha uma panorâmica para um quarto da "moradia"e diziam que era melhor que ler o Kamasutra. Uma noite o sentinela tanto se excitou que deu um tiro.
Acabou-se o espectáculo.O AlfMil teve de enviar a acompanhante para o Porto,cidade onde ela exercia a profissão antes da "missão" na GB.

Tabanca Grande Luís Graça disse...

Não vamos fulanizar. Há mais histórias. Mas podemos perguntar se a presença feminina ajudou a humanizar o ambiente de tropa e até a elevar o moral da rapaziada.