Favas com peixe frito à moda de Monchique
Favas suadas à moda da "Chef" Alice
Fotos (e legendas): © Luís Graça (2026). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné].
1. Ele há sabores que estão a desaparecer, irremediavlemente, da nossa mesa, do nosso palato, da nossa gastronomia...
Conquilhas de xarém, carapaus alimados, arroz de lingueirão, ameijoas à Bulhão Pato, lapas grelhadas, berbigáo, bruxas (Scyllarus arctus), cavacos, lagosta, ouriços do mar, etc. (Costumo dizer que ainda sou do tempo em que a lagosta se vendia na praia a sete e quinhentos e o tamboril se deitava fora.)
A "ameijoa boa da Ria Formosa" estava há dias a 38 euros o quilo no mercado municipal de Portimão (e a 100 euros o quilo no restaurante). A comida é cada vez mais "internacional" e está pela hora da morte, para os "tugas".
Confesso que tenho saudades do xarém, do arroz de lingueirão, dos carapaus alimados, do charro frito. " Comida dos pobres, das tascas", dizem agora os "chefs"...
Em contrapartida, fui descobrir, no passado dia 26 de maio, em Portimão, numa tasca anexa ao mercado, uma coisa que não comia há 70 anos!... Imaginem, favas cozidas (e estas eram à moda de Monchique).
Nós éramos 4, e a senhora disse-nos que só tinha 2 doses. Lá no sentámos, enquanto frazíamos horas para ir visitar o museu de Portimão, que só abre às 14h30. E esperámos pelo almocinho, convencidos que ali também se fazia o milagre dos pães.
Não havia carapaus que chegassem, mas a senhora foi fritar umas postas de pescada e multiplicou as favas... E vinho, fresquinho, branco... só tem frisante ? Que raio de moda!...Mas, não há drama, vai-se ao vizinho do lado pedir um jarrinho... E lá foi a empregada, brasileira. (O que será do Algarve sem imigrantes ?!... Uma desventura!).
Bom, as tradicionais favas à moda da serra algarvia são primeiro cozidas e depois apuradas num molho à base da gordura dos enchidos fritos... Não são bem as da minha terra, Lourinhã, terra de boas favas...
Na minha terra, há 70 anos, havia dois tipos de pratos de favas, no tempo delas, na primavera: as cozidas e as suadas...
Lá em casa, em que a cozinheira era mesmo "chef" (desde ", menina e moça, daquelas que iam servir para casa dos "senhores de Lisboa" e formar-se na universidade da vida), comiam-se as favas cozidas com charro frito, temperadas com bom azeite (!) (charros daqueles grandes, de Peniche, dois pares a vinte e cinco "ch'tões", no verão de todas as farturas, quando eu andava na escola).
O meu pai, que era mais peixeiro do que carneiro, preferias-as cozidas, com azeite e vinagre, com peixe frito (charro, cortao às postinhas) e um bom copo de tinto. Eu sempre fui mais fã das favas suadas...com entrecosta e chouriço.
Ficam aqui estas sugestões para os vagomestres da Tabanca Grande. Mas, quanto a favas, temos que esperar por elas, no próximo ano. Que as congeladas, não devem ter graça. Nem mesmo no céu, onde a graça é plena.
Todos os anos pela primavera como 3 ou 4 pratadas de favas. E, se forem pequenas e tenrinhas, é com casca e tudo, Eu, pecador, me confesso...E nunca me ouvirão dizer o provérbio: "Favas me fartam, favas me matam"...
Durante dois anos não as comi na Guiné, nem frescas nem congeladas... Lá, por certo, o nosso vagomestre, se as tivesse, nos consolaria: é que "a fome torna doces as favas"...
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Nota do editor LG:
Último poste da série > 20 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27839: No céu não há disto: comes & bebes: sugestões dos 'vagomestres' da Tabanca Grande (51): Recordando o famoso Cozido à Portuguesa, by chef Preciosa, da Tabanca do Centro, que se reuniu pela 1ª vez em 27/01/2010
Último poste da série > 20 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27839: No céu não há disto: comes & bebes: sugestões dos 'vagomestres' da Tabanca Grande (51): Recordando o famoso Cozido à Portuguesa, by chef Preciosa, da Tabanca do Centro, que se reuniu pela 1ª vez em 27/01/2010
2 comentários:
Luís
Invocando a minha qualidade de "portimonense naturalizado por via matrimonial" (cidade onde, de momento, me encontro), venho comentar partes do teu escrito, como segue:
1 - "coquilhas de xarém" - mais correctamente o xerém é que é de conquilhas (xerém de conquilhas e não conquilhas de xerém), porque o xerém é que é o "prato-base", acrescentando-se-lhe conquilhas, berbigão, ameijoa, etc.;
2 - "ameijoas da Ria Formosa" - se estava assim na lista, é só para "turista-ver"; o mar, aqui por estas bandas, também tem ameijoa...
3 - "favas fritas à moda de Monchique" - embora tenha (além do toucinho e/ou outra carne de porco) o "necessário" e chamado "chouriço preto" que dará um "cheirinho alentejano" (de que Monchique e toda a "serra" estão mais próximos), faz-se assim em quase todo o Algarve. Uma coisa interessante é que aqui consideram as favas um "simples acompanhamento" do peixe frito e para nós, lá no norte, as favas, assim, são elas mesmas já o prato principal.
4 - "vinho frizante" - é isso mesmo: é uma "peste" por aqui, embora em dias mais quentes vá muito bem com umas "coisas "leves".
Abraço
Obrigado, Alberto, já vi que és exogâmico como eu: tu foste casar ao sul, eu ao norte...
Quanto às tuas preciosas achegas gastronómicas, só tenho que te tirar o chapéu...
Obrigado, também, pelo exemplar autografado do teu último livro. Estava na caixa do correiro da Lourinhã, há mais de três ou três semanas...Já o li, e lê-se de um fôlego. Gostei da tua "antologia". Claro que vou fazer uma not(inh)a de leitura. Aquele abraço, Luís
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