"Prompt e orientação editorial: Luís Graça | Imagem: João Crisóstomo (2017) | Geração gráfica assistida por IA: Google (2026), Gemini (versão de 8 de julho de 2026) [Grande modelo de linguagem]. Disponível em: https://gemini.google.com/ "
1. Rui, tu que és um homem bom, ecuménico, generoso, solidário, cristão, não vais por certo concordar com a colagem, como subtítulo da tua crónica (*), do provérbio popular português "Quem parte e reparte e não fica com a melhor parte, ou é tolo ou não tem arte"...
Interpelo o Rui Chamusco, mas também podia evocar os nomes do João Crisóstomo, do Gaspar Sobral, da Glória Sobral, do Eustáquio, e tantos outros, homens e mulheres da ASTIL - Associação dos Amigos Solidários Com Timor-Leste. Por certo, que nenhum deles se revê neste provérbio dito popular português.
Muitos destes provérbios são de origem fradesca, machistas, migósinos, racistas, e portanto anticristãos... E, pelo que nos contas, Rui, o barlaque timorense não tem a ver com "trocas & baldrocas"...Há negociação, há assimetria de poder, há desigualdades, mas há intermediação, há procura de soluções mutuamente satisfatórias, há uma lógica de "win-win" (ganhas tu, ganho eu, ganhamos todos).
Se bem entendi o essencial do barlaque timorense..., aplicar esse provérbio seria ignorar completamente a lógica do sistema. O barlaque não é um negócio de soma zero ou uma partilha de bens onde um tenta passar a perna ao outro; não é a simples e tradicional "caça ao dote"; é um intrincado tecido de alianças, reciprocidade, regulação, partilha e equilíbrio social entre famílias (umane e fetosan).
Estas duas palavras em tétukm,fetosan e umane, designam categorias de parentesco essenciais na estrutura social tradicional timorense. Elas definem a relação de aliança entre duas famílias unidas pelo casamento.
- Fetosan: significa literalmente "as mulheres da casa" ou a família que recebe a esposa (os noivos/marido).
- Umane: significa a família que doa a esposa (a família da noiva).
Estas duas famílias estabelecem um vínculo de respeito e obrigações mútuas que se mantém ao longo de gerações. Quando há eventos importantes, como casamentos ou funerais, estas duas partes têm papéis rituais próprios, como a troca de gado, tecidos (tais), arroz e dinheiro, prática conhecida como barlaque).
2. Rui, este provérbio é um daqueles que, à primeira vista, parece um conselho de sabedoria popular sobre o tema da "astúcia e justiça"... Mas eu, como sociólogo, estou sempre de pé atrás, em relação à chamada "sabedoria popular" que muitas vezes esconde "minas & armadilhas" (ideológicas, morais, filosóficas, sociolinguísticas, políticas, etc.).
Que tal uma primeira análise, no sentido de o "desconstruir" ou "desmontar" ?!
(i) Vejamos a primeira camada, superfícial: a lógica do "ficar com o melhor", o melhor bocado (como acontece com os grupos de animais, predadores, dos leões aos chacais):
O provérbio sugere que quem divide algo (um bem, uma oportunidade, um recurso, uma informação, um "trunfo"...) e não consegue ficar com a melhor parte, é porque é tolo (falta de inteligência), ou não tem engenho & arte (habilidade, malícia, manha e outras ferramentas de poder). É "realismo político"...
Digamos que é, logo de caras, um elogio à esperteza (ou chico-esperteza, tão nossa, tão humana, táo universal mas também tão saloia, tão portuguesa) : quem não souber garantir a sua vantagem, o seu "bocado (ou bocadão"), num contexto de crise e escassez é merecedor de desdém (o rótulo de "tolo", "coitadinho", "atrasado mental", "pobre-diabo"...).
Primeira questão crítica: este provérbio "naturaliza" a desigualdade. Parte do falso axioma de que a vida é um jogo de soma zero, onde uns, mais fortes e espertos, ganham inevitavelmente à custa de outros, mais fracos, com menos recursos, "bagagem", "cabedais", "trunfos"...
É a eterna questão: uns nascem em berços de ouro, outros são escumalha; há os pretos e os brancos; há os que nascem para mandar e os que nascem para serem mandados; há os ricos e os pobres; os soldados e os generais; os senhores e os escravos... Nasce-se mulher ou homem, num país atrasado ou desenvolvido; nasce-se já doente ou são; inteligente ou burro; etc. Ou citando a genial quadra do genial António Aleixo, "A rica tem nome fino / A pobre tem nome grosso / A rica teve um menino / A pobre pariu um moço".
São tantos os estereótipos a estigmatizar os homens e as mulheres que habitam a nossa "aldeia global" de Timor-Leste a Portugal...
Portanto, não há espaço para a cooperação, a solidariedade ou a equidade, o trabalho em equipa, a concertação, o consenso, a partilha, o dom, valores que, a ti, Rui, que és cristão, te são tão caros. E que póes à prova em Timor-Leste, de Díli a Boebau, nas montanhas de Liquiçá. Tu e tantos outros, anónimos, da ASTIL e outros organizações.
(ii) A origem fradesca e o contexto histórico medieval
Muitos provérbios portugueses têm origem bíblica ou em sermões moralizantes da Idade Média, onde a Igreja (e os frades, em particular) usava a linguagem popular, chã, simplista, metafórica, para transmitir lições de obediência, hierarquia, resignação, submissão (e sublimação).
Este, em concreto, soa a uma justificação da fatalidade da desigualdade social, do determinismo fatalista e justiceiro..."Se Deus o marcou, é porque algum defeito lhe achou"; "Deus castiga sem pau nem pedra", etc.
"Ficar com a melhor parte" só pode ser então entendido lido como uma metáfora para justificar o poder, a aquisição e a manutenção dos lugares e do "aparelho" do poder: quem não souber manipular as regras (ou as pessoas e outros recursos) para beneficiar de privilégios, fica sempre na "mó de baixo", na cave, no piso zero do elevador social...(que neste caso só desce, não sobe para os pisos superiores).
"Não ter engenho e arte" pode ser uma crítica aos saloios, aos camponeses, aos pobres, aos marginais, aos "simples de espíríto" (leia-se: os tolos, os idiotas), que não tinham acesso à educação, à "literacia", ao domínio da língua e da cultura e, portanto, à "malícia", à "manha", necessária para subverter um sistema que os oprimia.
É irónico, aliás, que muitos destes provérbios tenham sido criados pela Igreja (/enquanto "instituição e organização" com raízes na terra e antenas no céu) que, ela própria, ficava sempre com a melhor parte: em terras, em dízimos, em poder societal: social, económico, cultural, estético e político...
(iii) O machismo e a misoginia implícitos
Se olharmos para a estrutura do provérbio, há uma associação entre "arte" e "esperteza" que, em muitos contextos, era (e ainda é) "genderizada" (associada ao "género", M/F).
Historicamente, a "arte" de negociar, de enganar ou de garantir vantagens era vista como uma qualidade "masculina", enquanto as mulheres eram incentivadas a ser passivas, obedientes, dóceis e "boas", resigando-se a não "ficar com a melhor parte", a não ter protagonismo, na casa, na rua, na cidade...
Um homem que não soubesse ser astuto era um tolo, não era um "cabra-macho", como se dizia na Guiné dos "libertadores da Pátria". Uma mulher que tentasse sê-lo era uma feiticeira, uma bruxa, uma adúltera, uma prostituta, uma "eva-serpente-tentadora" (acabando, não poucas vezes, na "fogueira", vítima dos "autos de fé" da Santa Inquisição).
Conclusão: o provérbio não só "naturaliza" a desigualdade, como vem reforçar estereótipos de género (que ainda hoje persistem, e estão a ressuscitar por todo o lado, de Portugal aos EUA).
(iv) O individualismo e o "struggle for life" (=luta pela sobrevivência)
Este provérbio bem pode ser o título de "manual de sobrevivência", um desses manuais que enchem os escaparates das livrarias das grandes superfícies, de "desenvolvimento pessoal e autoajuda", onde cada um ("chacun") se governa, olha para si, para o seu umbigo, a sua barriga, e em que o sucesso individual é medido pela capacidade de explorar, aldrabrar, submeter os outros ("Primeiro eu, segundo eu, terceiro eu, e o resto que se f*da!)...
É a lógica do "salve-se quem puder", que justifica as "bestas negras" das nossas democracias: a corrupção ("se não fores esperto, outros o serão, chegarão primeiro do que tu, como na corrida ao ouro no Faroeste, e ficarão com tudo"); a falta de solidariedade ("se partilhares, ficas sem nada"); a desconfiança generalizada ("todos querem enganar-te, então sê tu a enganar em primeiro lugar"); o dinheiro como medida de todas as coisas"; o cinismo ("Deus manda ser bom, mas não ser parvo")...
É uma mentalidade que, infelizmente, ainda hoje alimenta o clientelismo, o compadrio. o oportunismo, a ganância, a falta de coesão social, as crescentes desigualdades... em Portugal, na Europa, no Mundo globalizado. E inclusive em Timor, jovem país independente, lusófono.
(v) O anticristianismo (ou o cristão de fachada)
Querido Rui, cronista dos "usos e costumes de Timor Lorosae... À primeira vista, o provérbio parece alinhado com uma moral cristã de justiça e merecimento, que te é cara, mas, na realidade, é o oposto.
"Ficar com a melhor parte" só pode ser então entendido lido como uma metáfora para justificar o poder, a aquisição e a manutenção dos lugares e do "aparelho" do poder: quem não souber manipular as regras (ou as pessoas e outros recursos) para beneficiar de privilégios, fica sempre na "mó de baixo", na cave, no piso zero do elevador social...(que neste caso só desce, não sobe para os pisos superiores).
"Não ter engenho e arte" pode ser uma crítica aos saloios, aos camponeses, aos pobres, aos marginais, aos "simples de espíríto" (leia-se: os tolos, os idiotas), que não tinham acesso à educação, à "literacia", ao domínio da língua e da cultura e, portanto, à "malícia", à "manha", necessária para subverter um sistema que os oprimia.
É irónico, aliás, que muitos destes provérbios tenham sido criados pela Igreja (/enquanto "instituição e organização" com raízes na terra e antenas no céu) que, ela própria, ficava sempre com a melhor parte: em terras, em dízimos, em poder societal: social, económico, cultural, estético e político...
(iii) O machismo e a misoginia implícitos
Se olharmos para a estrutura do provérbio, há uma associação entre "arte" e "esperteza" que, em muitos contextos, era (e ainda é) "genderizada" (associada ao "género", M/F).
Historicamente, a "arte" de negociar, de enganar ou de garantir vantagens era vista como uma qualidade "masculina", enquanto as mulheres eram incentivadas a ser passivas, obedientes, dóceis e "boas", resigando-se a não "ficar com a melhor parte", a não ter protagonismo, na casa, na rua, na cidade...
Um homem que não soubesse ser astuto era um tolo, não era um "cabra-macho", como se dizia na Guiné dos "libertadores da Pátria". Uma mulher que tentasse sê-lo era uma feiticeira, uma bruxa, uma adúltera, uma prostituta, uma "eva-serpente-tentadora" (acabando, não poucas vezes, na "fogueira", vítima dos "autos de fé" da Santa Inquisição).
Conclusão: o provérbio não só "naturaliza" a desigualdade, como vem reforçar estereótipos de género (que ainda hoje persistem, e estão a ressuscitar por todo o lado, de Portugal aos EUA).
(iv) O individualismo e o "struggle for life" (=luta pela sobrevivência)
Este provérbio bem pode ser o título de "manual de sobrevivência", um desses manuais que enchem os escaparates das livrarias das grandes superfícies, de "desenvolvimento pessoal e autoajuda", onde cada um ("chacun") se governa, olha para si, para o seu umbigo, a sua barriga, e em que o sucesso individual é medido pela capacidade de explorar, aldrabrar, submeter os outros ("Primeiro eu, segundo eu, terceiro eu, e o resto que se f*da!)...
É a lógica do "salve-se quem puder", que justifica as "bestas negras" das nossas democracias: a corrupção ("se não fores esperto, outros o serão, chegarão primeiro do que tu, como na corrida ao ouro no Faroeste, e ficarão com tudo"); a falta de solidariedade ("se partilhares, ficas sem nada"); a desconfiança generalizada ("todos querem enganar-te, então sê tu a enganar em primeiro lugar"); o dinheiro como medida de todas as coisas"; o cinismo ("Deus manda ser bom, mas não ser parvo")...
É uma mentalidade que, infelizmente, ainda hoje alimenta o clientelismo, o compadrio. o oportunismo, a ganância, a falta de coesão social, as crescentes desigualdades... em Portugal, na Europa, no Mundo globalizado. E inclusive em Timor, jovem país independente, lusófono.
(v) O anticristianismo (ou o cristão de fachada)
Querido Rui, cronista dos "usos e costumes de Timor Lorosae... À primeira vista, o provérbio parece alinhado com uma moral cristã de justiça e merecimento, que te é cara, mas, na realidade, é o oposto.
O cristianismo (pelo menos na sua versão idealizada, no teu franciscanismo) prega: "Amar o próximo como a ti mesmo" (nada de "ficar com a melhor parte"); "É mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no Reino dos Céus" (ou seja, a acumulação e sobretudo a ostentação de riqueza, não é um valor intrinsecamente cristão)...
Mas a Igreja, como instituição e organização, usou e abusou destes provérbios para controlar as massas, dizendo-lhes: "Sê humilde, que o teu lugar é este"; "Se não tens, é porque não mereces", "A pobreza é virtuosa, mas a riqueza dos outros é sagrada", "Dar aos pobres é emprestar a Deus" (... e Deus paga-te com juros e dividendos, a ti que és rico e caridoso...), "Dou um chouriço a quem me der um porco"...
Ou seja: o provérbio é anticristão no fundo, mas cristão na forma, é uma ferramenta de mistificação, de dominação ideológica.
(vi) Alternativas: provérbios que combinam contigo, convosco Rui, João, Gaspar com a ASTIL (e connosco, aqui na Tabanca Grande)
Se queres um provérbio que reflita os teus valores (liberdade, dignidade, solidariedade, equidade), aqui ficam algumas sugestões reinterpretadas ou alternativas:
"Quem parte e reparte, e fica com a parte que cabe a cada um, esse tem arte e sabedoria." (A justiça não é ficar com o melhor, mas garantir que todos têm o suficiente.);
"A melhor parte é a que se partilha." (Um contraponto direto ao individualismo do provérbio original.);
"Quem não tem arte para partilhar, não tem arte nenhuma." (A verdadeira habilidade é criar abundância, riqueza, não escassez, e saber reparti-la, com equidade.)
(vii) Conclusão: um provérbio a "desconstruir", "desmistificar"...
Este provérbio, Rui (e demais leitores), é um espelho das contradições da sociedade portuguesa: fingimos ser humildes, mas adoramos os espertalhões, os populistas, os demagogos; fingimos ser cristãos, mas idolatramos quem "se safou", quem escapou à justiça; quem está sob as luzes da ribalta; fingimos ser solidários, mas desconfiamos de quem partilha com generosidade.
É, em suma, um manual de sobrevivência num mundo injusto, mas não um guia para o tornar melhor (ou gradualmente melhor)... (**)
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(**) Último poste da série > 9 de junho de 2026 > Guiné 61/74 - P28143: Nomadizações de um marginal-secante (Luís Graça) (9): porque é que o PAIGC nunca afundou nenhuma embarcação no rio Geba Estreito (São Belchior e Mato Cão) - Parte I
Mas a Igreja, como instituição e organização, usou e abusou destes provérbios para controlar as massas, dizendo-lhes: "Sê humilde, que o teu lugar é este"; "Se não tens, é porque não mereces", "A pobreza é virtuosa, mas a riqueza dos outros é sagrada", "Dar aos pobres é emprestar a Deus" (... e Deus paga-te com juros e dividendos, a ti que és rico e caridoso...), "Dou um chouriço a quem me der um porco"...
Ou seja: o provérbio é anticristão no fundo, mas cristão na forma, é uma ferramenta de mistificação, de dominação ideológica.
(vi) Alternativas: provérbios que combinam contigo, convosco Rui, João, Gaspar com a ASTIL (e connosco, aqui na Tabanca Grande)
Se queres um provérbio que reflita os teus valores (liberdade, dignidade, solidariedade, equidade), aqui ficam algumas sugestões reinterpretadas ou alternativas:
"Quem parte e reparte, e fica com a parte que cabe a cada um, esse tem arte e sabedoria." (A justiça não é ficar com o melhor, mas garantir que todos têm o suficiente.);
"A melhor parte é a que se partilha." (Um contraponto direto ao individualismo do provérbio original.);
"Quem não tem arte para partilhar, não tem arte nenhuma." (A verdadeira habilidade é criar abundância, riqueza, não escassez, e saber reparti-la, com equidade.)
(vii) Conclusão: um provérbio a "desconstruir", "desmistificar"...
Este provérbio, Rui (e demais leitores), é um espelho das contradições da sociedade portuguesa: fingimos ser humildes, mas adoramos os espertalhões, os populistas, os demagogos; fingimos ser cristãos, mas idolatramos quem "se safou", quem escapou à justiça; quem está sob as luzes da ribalta; fingimos ser solidários, mas desconfiamos de quem partilha com generosidade.
É, em suma, um manual de sobrevivência num mundo injusto, mas não um guia para o tornar melhor (ou gradualmente melhor)... (**)
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Notas do editor LG:
(*) Vd, poste de 8 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28163: III Viagem a Timor-Leste: 2019 (Rui Chamusco /ASTIL) - Parte X : semana de 7 a 13 de abril: Ainda sobre o "barlaque": quem parte e reparte e não leva a melhor parte, ou é tolo ou não sabe da arte ?!
(*) Vd, poste de 8 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28163: III Viagem a Timor-Leste: 2019 (Rui Chamusco /ASTIL) - Parte X : semana de 7 a 13 de abril: Ainda sobre o "barlaque": quem parte e reparte e não leva a melhor parte, ou é tolo ou não sabe da arte ?!



