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quarta-feira, 25 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27857: Humor de caserna (251): O anedotário da Spinolândia (XXIII): "Não me tomem por periquito, car*lho, que de guerra venho eu farto" (ten cor Polidoro Monteiro, cmdt, BCAÇ 2861, Bissorã, e depois BART 2917, Bambadinca, 1970/72)

Guiné > Zona Leste > Sector L1 > Bambadinca > BART 2917 (1970/72) > Centro de Instrução de Milícias > Da esquerda para a direita, em segundo plano, ten cor Polidoro Monteiro (comdt do BART 2917), gen Spínola e alf mil  Paulo Santiago (todos de óculos de sol).

Foto (e legenda): © Paulo Santiago (2006). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


Guiné >  Região do Oio > Bissorã > BCAÇ 2861 (1969/70) > 1970 > "À esquerda o alferes graduado  capelão Augusto Batista, à direita o ten cor inf Polidoro Monteiro (já falecido), cmdt do batalhão. Foto tirada em  dia de festa balanta,,, Por detrás,  a Casa Gardete, do comnerciante José Gardete Correia,m pai dio médico e deputado pelo círculo da Guiné Manuel Gardete Correia. No primeiro andar da Casa, então utilizada como quartos dos oficiais, a senhora que está à varanda era a esposa do capitão, comandante da CCS.

Foto (e legenda): © Armando Pires (2009). 
Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


Guiné > Zona Leste > Sector L1 > Bambadinca > Mato Cão > O ten Cor Polidoro Monteiro, último comandante do BART 2917, o alf mil médico Vilar e o alf mim at inf Paulo Santiago, instrutor de milícias, com um pequeno crocodilo  do rio Geba... O Polidoro Mondeira exibe a sua inconfundível faca de mato I(assinalada a amarelo)

Foto tirada em novembro ou dezembro de 1971 no Mato Cão, após ocupação da zona com vista à construção de um destacamento, encarregue de proteger a navegação no Geba Estreito e impedir as infiltrações na guerrilha no reordenamento de Nhabijões, um enorme conjunto de tabancas de população balanta e mandinga tradicionalmente "sob duplo controlo".

Foto: © Paulo Santiago (2006). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. O último comandante do BART 2917 (Bambadinca, 1970/72), João Polidoro Monteiro, infelizmente já falecido, merece ser aqui destacado, na série Humor de Caserna, subsérie O Anedotário da Spinolândia,  por ter ficado na  na nossa memória, pela sua liderança, pela sua personalidade, pelas histórias que deles se contavam, pela interação que teve com alguns de nós, malta da CCS/BART 2917, e subunidades de quadrícula, além da CCAÇ 12, Pel Caç Nat 53...

Eis alguma informação adicional sobre este oficial superior, conhecido como spinolista convicto, disciplinador, mas próximos dos soldados , justiceiro (deu uma porrada ao médico do batalhão!), grande operacional,  caçador... e garanhão que, na parada ou na caserna, fazia gala de usar o calão da tropa.  Nem todas as histórias se podem contar em público, mas aqui vão algumas, honrando a sua memória. (Tem duas dezenas de referências no nosso blogue; faleceu em 27 de dezembro de 2003.)


Armando Pires,
Monte Real, 2014
1. Armando Pires (ex-fur mil enf da CCS/BCAÇ 2861, Bula e Bissorã, 1969/70)

O ten cor João Polidoro Monteiro [JMP] veio, em 1970, diretamente de Moçambique, onde comandava a Guarda Fiscal, para Bissorã, comandar o meu batalhão, o BCAÇ 2861, em substituíção do ten cor César Cardoso da Silva.  

Em dezembro de 1970,  o BCAÇ 2861 regressou a Portugal, terminada a comissão. Foi nessa altura que JPM foi comandar o BART 2917, com sede em Bambadinca.

(...) Estou a vê-lo, ao Polidoro, galões reluzentes sobre um camuflado acabadinho de saír do Casão Militar, olhos protegidos pelas lentes escuras de uns inevitáveis Ray-Ban, pingalim tremelicando na mão direita, voz forte e decidida advertindo a força em parada:

 Não me tomem por periquito, que de guerra venho eu farto.

Depois, a ordem que obrigava todos os militares a andarem devidamente fardados e ataviados quando não em serviço (???).

Se esta não fosse já um mimo, a cereja em cima do bolo veio de seguida. Íamos fazer exercícios de protecção ao aquartelamento. Poupo-vos ao relato e consequências, embora fossem de ir às lágrimas.

Já mais tarimbado na função, o Paulo Santiago, ex-comandante do Pel Caç Nat 53, aqui nos relatos da Tabanca Grande mostra-o, ao Polidoro, numa foto  tirada nas margens do Geba, ali no Mato Cão, exibindo um magnífico troféu de caça.

Com a mais respeitosa vénia ao Santiago, recoloco aqui a tal foto, ao lado de uma outra tirada por mim, em Bissorã, pedindo-lhes que descubram a semelhança. 

Hum!!! Já viram? Reparem outra vez… olhem bem… não deram por ela?... 

É a Faca de Mato, caramba! Ali, sempre pendurada no ombro direito.


´
David Guimarães,
Guiné-Bissau, 2001

2. David Guimarães (ex-fur mil art Art Minas e Armadilhas, CART 2716/BART 2917, Xitole, 1970/72)

(...) A CART 3492 (Xitole, Janeiro de 1972/Março de 1974) foi exactamente a Companhia que rendeu a CART 2716 a que eu pertenci e fomos nós que fizemos a sobreposição...

(...) Um dia o Comandante do BART 2917, já na sobreposição, apareceu no Xitole. O Luís Graça e o Humberto Reis conheciam-no. Era o ten-cor Polidoro Monteiro... Conto-vos uma peripécia passada com ele.

Perguntava eu, bem perfilado, ao Polidoro Monteiro:

 Meu comandante, a nossa missão é ir ensinar o caminho a esta gente...Proponho que ensinemos o início dos caminhos por onde passamos tantas vezes....

Resposta:

− Vai-te f*der, seu car*lho, quero que lhes ensinem a toca....

Deu em riso, como é evidente....

O Polidoro Monteiro foi o único tenente-coronel que usava arma e eventualmente percorria um pedaço de caminhos connosco... Gostava muito de passear no Xitole, pois de manhã gostava de ir até Cussilinta, ao banho, no Corubal,  e à noite ir à caça às lebres que iam para junto da mancarra (amendoím], na Tabanca de Cambessé, à guarda do aquartelamento do Xitole....

Sempre vi nele um bom militar e era da inteira confiança de Spínola.... Aliás ele era tenente-coronel de infantaria e foi colocado por Spínola em Bambadinca para ir comandar o BART 2917, em substituição do  ten-cor art Magalhães Filipe, que era o comandante inicial do Batalhão (...).

A gota de água para retirar o comando ao Magalhães Filipe foi a operação na Ponta do Inglês onde morreu aquela secção do Cunha [da CART 2716, do Xime]... 

Quem merecia a porrada  [o maj art Anjos de Carvalho, 2º cmdt do BART 2917, já falecido]... acabou por não a apanhar (...).

Ainda sobre o Polidoro Monteiro... Um dia ele manda um rádio para o Xime com a seguinte nota: 

"Dois pelotões formados às 5.30 para sair com CMDT" (...).

 O Polidoro Monteiro chama o condutor de dia e percorre,  sem qualquer escolta,  aquele caminho de Bambadinca ao Xime, a alta velocidade... 

Resultado: 10 dias de prisão para o alferes que exercia as funções de 2º Comandante, e 10 de detenção para outro alferes... É que eles nunca se fiaram que àquela hora ele aparecesse lá e como tal não estavam prontos como ele mandara....

Luís Graça e Humberto Reis: vocês já não estavam lá, creio, mas que isto se passou, passou... O Polidoro era assim, um bom comandante, a nível operacional... Dizia quantas asneiras havia no dicionário... Muito operacional mas bom sujeito... Vocês conheceram-no ainda (...).



Paulo Santiago,
Pombal, 2007
3. Paulo Santiago  (ex-al mil at inf, cmdt do Pel Caç Nat 53, Saltinho, 1970/72)

 (...) Acontece,algumas vezes, aparecerem postes que mexem comigo. Precisando:  emocionam-me. É o caso de hoje, com este poste do camarada Armando Pires,que entrou, em grande forma, para a Tabanca. 

Não é por causa da foto, onde apareço abrindo a boca do anfíbio bicharoco; não, o que me tocou mais fundo foi a recordação do Polidoro, pessoa que nunca mais encontrei após a minha saída de Bambadinca. 

Todos sabeis, já o escrevi várias vezes, o ten-cor Polidoro Monteiro foi talvez o  oficial superior, melhor dizendo,  foi o único oficial superior que me mereceu respeito, e conheci vários. 

Estes vários que conheci, majores, tenentes-coronéis, quando íam ao Saltinho (é um exemplo) utilizavam o heli, nada de ir em colunas, havia o pó e outras merdas mais complicadas... E aqui começa a diferença... Conheci o Polidoro, não em Bambadinca, conheci-o (e também ao Vacas de Carvalho)... no Saltinho, onde chegaram e de onde partiram numa coluna com o trajecto  Bambadinca-Mansambo-Xitole-Saltinho e depois o trajecto inverso. 

Não sei a razão, mas em Bambadinca, havia, como dizer?, uma certa cumplicidade entre mim e o Polidoro.  Entendíamo-nos muito bem, já o mesmo não acontecia com o 2º comandante, o [major art] Anjos de Carvalho, um militar emproado, bom para andar na parada, esperando ver um militar com menos atavio, ou que se esquecesse da continência, para de imediato lhe foder a vida.

Agora a foto. Quem era o comandante de batalhão que se metia num sintex e descia o Geba Estreito até Mato Cão? Só o Polidoro...e ficou lá a dormir nos buracos com o pessoal do Pel Caç Nat  63. 

Aquela faca no ombro direito, de que fala o Armando, é sua imagem de marca, julgo que nunca vi o Polidoro com outra farda que não fosse o camuflado, raramente com galões, contrariamente ao 2º comandante que sempre vi de calções, meia alta e respectivos galões.

Agora vou "entrar" com o Armando quando cita aquela apresentação do Polidoro ("Não me tomem por periquito que de guerra venho eu farto").  

Oh Armando,  não terá sido assim: 

− Car*lho..., não me tomem por periquito que de guerra venho eu farto ?!

Ou assim: 

− Não me tomem por piriquito, car*lho..., de guerra venho farto ?!

Agora, ainda a propósito da foto, reparem no outro personagem, o alf mil médico Vilar, ja "completamente apanhado" na altura (e hoje... psiquiatra). Olhem para a arma que ele segura: é uma carabina de caça 22...Não é que ele lhe acoplou aquela imensa baioneta (comprada na Feira da Ladra) de uma Kropatschek ?! (...)


4. Comentário do editor LG:

Companhias de quadrícula do BART 2917 (Bambadinca, Setor L1, maio de 1970/março de 1972, ) (comandado por ten cor art Domingos Magalhães Filipe,  e depois por ten cor inf João Polidoro Monteiro):

(i) CART 2714, sita em Mansambo (Cap art José Manuel da Silva Agordela); 

(ii) CART 2715, sita no Xime (Cap art Vitor Manuel Amaro dos Santos, 1944-2014; alf mil  art José Fernando de Andrade Rodrigues;  cap art Gualberto Magno Passos Marques; cap inf Artur Bernardino Fontes Monteiro; cap inf  José Domingos Ferros de Azevedo)

(iii) CART 2716, sita no Xitole (Cap mil art Francisco Manuel Espinha de Almeida) (...).

(Seleção, revisão / fixação de texto: LG)
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Nota do editor LG:

Guiné 61/74 - P27856: Historiografia da presença portuguesa em África (522): A Província da Guiné Portuguesa - Boletim Oficial da Colónia da Guiné Portuguesa, 1964, 2.º semestre (80) (Mário Beja Santos)

Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf
CMDT Pel Caç Nat 52

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 3 de Outubro de 2025:

Queridos amigos,
O Boletim Oficial é um documento de leitura obrigatória para qualquer investigador que esteja focado na criação da colónia a partir da sua desanexação de Cabo Verde, o que aconteceu em 1879. Comecei este meu trabalho anos antes, considerei que era indispensável entender o significado dessa união Cabo Verde e Costa da Guiné, era assim que se tratava a Pequena Senegâmbia, convém não esquecer que Honório Pereira Barreto escreveu a sua memorável Memória sobre o Estado Actual da Senegâmbia Portuguesa em 1843. Agora que estamos em pleno conflito armado, o Boletim Oficial dá-nos a possibilidade de visualizar a extensão dos serviços, o funcionamento um tanto fictício do sistema económico e financeiro. E descobre-se que a Guiné tem um herói, o regedor de Porto Gole, Abna Na Onça, tanto quanto nos é dado a perceber é o primeiro bravo nascido na Guiné que enfrenta destemidamente as forças do PAIGC.

Um abraço do
Mário



Província da Guiné Portuguesa
Boletim Oficial da Guiné, 1964, 2.º semestre (80)


Mário Beja Santos

Este ano de 1964 regista uma continuidade de reforço de verbas, concessões de crédito, orçamentos suplementares, é a cortina de fumo para não dar notoriedade à desarticulação económica e aos tumultos demográficos que alteraram radicalmente a vida das populações principalmente no Sul, na região do Corubal, no Centro-Norte, com especial incidência na região do Morés. Deixaram de ser transitáveis eixos como Jugudul-Bafatá e Bissorã-Mansabá-Bafatá, o que exigiu o recurso aos transportes marítimos e aéreos, o porto de Bambadinca será fulcral para o abastecimento do Leste. Cresce o número de funcionários, que tanto podem ser professores, como médicos e enfermeiros. Descobre-se que há um herói guineense, virá a ser condecorado e mais tarde abatido por forças do PAIGC, Abna Na Onça. Tirando este destaque e a notícia de que é necessário importar muito arroz, o Boletim Oficial está discretamente longe da guerra.

No Boletim Oficial n.º 26, de 27 de junho, é aprovado o Estatuto do Corpo de Polícia de Segurança Pública da Guiné. Estamos agora em julho, no Boletim Oficial n.º 28, de 13 desse mês, pelo Decreto n.º 45785, reorganiza-se a atual Missão Permanente de Estudo e Combate à Doença do Sono e outras Endemias que passa a designar-se Missão de Combate às Tripanossomíases da Guiné, com duas finalidades: o combate e a profilaxia da doença do sono e o combate e profilaxia das tripanossomíases animais.

Abna Na Onça é o nome de um valente guerreiro que surge pela primeira vez no Boletim Oficial n.º 31, de 1 de agosto. Veja-se o teor das Portarias emanadas da Repartição Provincial dos Serviços de Administração Civil:
“Na madrugada do dia 4 de julho do corrente ano, o alferes de 2.ª linha e regedor de Porto Gole, Abna Na Onça, chefiando uma força de polícia administrativa atacou e destruiu um acampamento ilegal perto da povoação de Dembel.
Já no regresso à povoação de Porto Gole, conduzindo dezoito prisioneiros capturados no acampamento referido, a coluna que comandava foi surpreendida pelo inimigo, sendo duramente atingida pelo fogo desencadeado pelos terroristas emboscados.

Abna Na Onça enfrentou com valentia os assaltantes, conseguindo, embora bastante ferido, continuar a comandar os seus homens.
Demonstrou, o alferes de 2.ª linha Abna Na Onça, ter espírito de iniciativa, perfeito conhecimento dos seus deveres, dinamismo e patriotismo ao planear e pôr em execução a ação punitiva contra o acampamento ilegal de Dembel, cujo objectivo foi atingido, com êxito absoluto.
Demonstrou, igualmente, possuir qualidades de comando, autoridade, espírito de sacrifício e valentia quando da emboscada que sofreu.”

Foi promovido ao posto de tenente de 2.ª linha.

Segundo louvor:
“O 1.º Pelotão da Companhia da Polícia Administrativa, em serviço na área do Posto Administrativo do Porto Gole, levou efeito na madrugada de 4 do corrente, sob o comando do alferes de 2.ª linha e regedor Abna Na Onça, uma acção de polícia na região de Dembel, onde destruiu um acampamento terrorista.
Nesta operação incendiou dezoito barracas ilegais e grande quantidade de arroz. Abateu dois elementos terroristas e fez dezoito prisioneiros.

No regresso, suportou duro combate com um inimigo numeroso e fortemente armado que, emboscado, usufruía assim de enormes vantagens.
Todos os elementos do referido pelotão bateram-se com galhardia, demonstrando assim o seu alto grau de eficiência, disciplina e valentia.”

Conferiu-se louvor ao 1.º Pelotão pelos méritos demonstrados.

Terceiro louvor:
“Na emboscada sofrida pelo 1.º Pelotão da Companhia da Polícia Administrativa em serviço na área do posto administrativo de Porto Gole, na madrugada do dia 4 do corrente mês, quando regressava àquele posto, após ter efetuado com êxito um ataque ao acampamento terrorista, destacaram-se pela sua bravura, serenidade e espírito de iniciativa, os guardas Souleimane Seidi, João Fernandes, Armando Papo Seco e Amadu Bari.”
Pelos seus atos meritórios os quatro foram louvados.

Quarto louvor:
"No decurso da expedição conduzida com êxito pelo regedor Abna Na Onça, no combate que se travou entre a força da Ordem e os bandoleiros, os guardas António Gomes, Assalifam Té, Mussá Seidi e Aliu Baldé combateram até ao limite das suas forças, esvaindo-se em sangue dos ferimentos sofridos, caindo mortalmente."
Considerando ser justo dar público conhecimento da heroicidade destes guardas, eles foram louvados a título póstumo.

No Boletim Oficial n.º 45, de 7 de novembro, surge-nos o Diploma Legislativo n.º 1816:
“O imposto é um dever social de todo o cidadão para a satisfação de encargos do Estado no desenvolvimento das diferentes actividades de que todos beneficiam. Há determinadas isenções que não se justificam, em especial dos que exercem actividades remuneradas, que têm a restrita obrigação de contribuir para a colectividade. A partir de 1 de janeiro de 1965 todos os salários dos servidores do Estado, qualquer que seja o seu quantitativo, são passíveis de imposto de proventos.”

O Boletim Oficial n.º 48, de 28 de novembro, anuncia uma situação de graves irregularidades, e o Governador Arnaldo Schulz profere Despacho:
“Tendo alguns membros da direcção da Cooperativa dos Funcionários Públicos da Guiné solicitado ao Governo da província um inquérito às contas da referida Cooperativa, e, tendo esse inquérito revelado graves irregularidades que põem em risco o capital em giro, e um completo alheamento das suas funções por parte do Conselho Fiscal;
Considerando o importante papel de regulador de preços dos géneros de primeira necessidade desempenhado pela Cooperativa dos Funcionários Públicos junto do mercado local e as elevadas somas investidas na mesma, pelo Estado, sob a forma de subsídios, que precisam ser de melhor forma acauteladas;
Considerando ainda que a maior parte dos membros da direção eleita para o ano em curso pediu já a sua demissão; manda o Governador que a direcção da Cooperativa fique durante o período mínimo de dois anos a cargo de uma comissão administrativa.”

O Governador escolheu para presidente da referida comissão o Dr. Artur Augusto da Silva.

No Boletim Oficial n.º 50, de 16 de dezembro, temos o texto da Portaria n.º 1687. É designado o dia 17 de dezembro para a abertura das operações de comercialização da mancarra em toda a província, estabelecendo-se os preços de compra ao produtor e ao intermediário.

O Boletim Oficial n.º 52, de 26 de dezembro, publica um aviso referente à unificação das carreiras regulares de transportes coletivos de passageiros entre Bissau-Safim porto e Bula-João Landim, o concessionário por cinco anos é António Brites Palma.

No Suplemento do Boletim Oficial n.º 52, com data de 29 de dezembro, temos a Portaria n.º 1694 em que, a propósito da necessidade de promover a importação de arroz para o abastecimento público e impedir que o preço de venda desse arroz não ultrapasse o limite da tabela em vigor para o corrente ano, é autorizada a isenção de direitos até quinhentas toneladas de arroz de origem nacional.

Arnaldo Schulz, Governador e Comandante-Chefe da Guiné, numa alocução televisiva em fevereiro em 1968, em breve regressará a Lisboa, fez uma comissão de quatro anos.
Imagem extraída do filme Anos de Guerra – Guiné 1963-1974, realização de José Barahona, https://www.youtube.com/watch?v=mfSwSzRl9bM
Mancebo Felupe com um dos seus penteados característicos: cabelo empastado em azeite de palma e lama, formando uma carapuça, guarnecida de discos metálicos em cruz; no topo, um carro vazio de linha
Dançarino com a máscara Nimba
Rapariga Felupe com a dentadura limada
Armadura do tubarão serra
Mulher Pajadinca

Estas cinco imagens foram retiradas de números da Revista do Centro Cultural da Guiné Portuguesa, 1964

(continua)

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Nota do editor

Último post da série de 18 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27834: Historiografia da presença portuguesa em África (521): A Província da Guiné Portuguesa - Boletim Oficial da Colónia da Guiné Portuguesa, 1964, 1.º semestre (79) (Mário Beja Santos)

Guiné 61/74 - P27855: Esposas de militares no mato (3): Bissorã, em 1964/66 e em 1973/74


Guiné > Região do Óio > Bissorã > c. 1973/74 > Maria Dulcinea (Ni), esposa do nosso camarada Henrique Cerqueira, que esteve com o marido e o filho Miguel  em Bissorã, de outubro de 1973 a junho  de 1974 (*). [O Henrique Cerqueira foi fur mil, 3.ª CCAÇ / BCAÇ 4610/72, e  CCAÇ 13, Biambe e Bissorã, 1972/74]


Guiné > Região do Óio > Bissorã > c. 1973/74 > Miguel, o filho do Henrique Cerqueira, e da Maria Dulcinea (Ni),  com a filha de um capitão da CCS, no quintal da casa dos Cerqueira.


Guiné > Região do Óio > Mansoa > c. 1973/74 > Miguel, a Maria Dulcinea (Ni), de costas, com a esposa de um outro militar de Bissorã, também de costas, em visita a Mansoa.

Fotos (e legendas); ©  Maria Dulcinea (Ni) / Henrique Cerqueira  (2011), Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]

 

Guiné > Região do Oio > Bissorã > CCS/BCAÇ 2861 (Bula e Bissorã, 1969/70) > Vista aérea (parcial): centro de Bissorã, onde se situava a Casa Gardete (8), o melhor edifício da povoação, sede de circunscrição (concelho).

Legendas [Armando Pires]:

1 – Caserna da CCAÇ 2444, e,  depois, da CCAÇ 13 | 2 – Sede da Administração de Bissorã |  3 – Enfermaria civil | 4 – Messe de oficiais | 5 – Secretaria da CCS BCAÇ 2861, Transmissões e espaldões de morteiros | 6 – Casernas e refeitório da CCS | 7 – Quartos de sargentos da CCS e bar | 8 – Secretaria do comando do batalhão no r/c e quartos dos oficiais no 1º andar !  14 – Campo de futebol.

Foto: Cortesia da página do © Carlos Fortunato : CCAÇ 13, Leões Negros >  Guiné - Bissorã  [Edição: LG /AP]


1. Continuação da nossa volta à procura de esposas de militares no mato (*) (e,  na Guiné, o mato era à saída de Bissau: Safim, Nhacra, Mansoa...), 

De Bissau a Mansoa já eram 60 km por estrada alcatroada, mas a partir daí começava o temível Óio. Em Bissorã estávamos no coração do Oio. 

Temos referências a esposas de militares em 1964/66 e em 1973/74 em Bissorã... Mas sabemos que também havia, no tempo do BCAÇ 2861 (1969/70), pelo menos a esposa do comandante da CCS, e que vivia na Casa Gardete.

O Armando Pires (que faz anos na sexta feira) pode fornecer-nos informação adicional, já pertencia a este BCAÇ 2861.  Bissorã era sede de circunscrição e uma povoação importante. Havia comerciantes libaneses. E, portanto, senhoras libanesas. Era também a terra de um filho ilustre da Guiné, o médico (e deputado pela Guiné na Assemnleia Nacional) Manuel Gardete Correia.


(i) Rogério Cardoso (ex-fur mil, CART 643/BART 645, Bissorã, 1964/66; tem mais de 6 dezenas de referências no nosso blogue, que integra desde dezembro de 2009; é membro também da Tabanca da Linha):

(...) Em 1964 e 1965 a Cart 643, "Águias Negras", estava sediada em Bissorã. O seu 1.º sargento,  de nome Rogério Meireles, estava acompanhado da mulher e de uma filha de pouca idade, residia numa pequena casa fora do aquartelamento. 

Acabou ao fim de um ano deixar de pertencer à companhia  por ter problemas de estômago, e deste modo foi embora com a família. Digo de passagem que foi o melhor que ele fez, pois, quando de alguns ataques noturnos, aquelas pobres sofriam bastante. 

Também o furriel vagomestre mandou ir a mulher, que chegou a Bissau no dia seguinte a ele ter sido ferido, mas sem gravidade. 

Ele ao fim de uns meses também mandou a mulher de regresso, pelas mesmas razões do anterior caso.


(ii) Carlos Alberto Fraga (foi alf mil na 3.ª CCAÇ/BCAÇ 4612/72, em Mansoa, na segunda metade do ano de 1973; foi adjunto, num curto período de 4 meses, até finais de 1973, do cap José Manuel Salgado Martins, indo depois ele próprio comandar, como capitão, uma companhia em Moçambique, a seguir ao 25 de abril de 1974; tem 26 referências no nosso blogue, que integra desde 2013)

 (...)  eu estive em Mansoa e quando lá estive não havia familiares de militares, embora me dissessem que em tempos esteve lá um casal (um alferes miliciano e mulher). 

Mansoa era uma zona bem protegida com várias companhias, etc, etc. Mas, em Bissorã, cerca de 30 kms a Norte, um local menos defendido do que Mansoa, aí havia familiares de um oficial superior. (...)


(iii) Maria Dulcinea (Ni) (esposa do Henrique Cerqueira, ex-fur mil, 3.ª CCAÇ / BCAÇ 4610/72, e  CCAÇ 13, Biambe e Bissorã, 1972/74; tem cerca de 3 de dezenas de referências no blogue, que integra desde 2011; não temos notícias do casal há muito, vai daqui um alfabravo para eles e para o Miguel que já deve ter c. 55 anos e, felizmente, não ter nenhumas recordações dos ataques do PAIGC)

(...) Quando chegamos a Bissorã e entro na nossa 'Casa' fiquei espantada pois estava decorada com assentos dum carocha, as camas eram da tropa, tínhamos um frigorífico a petróleo, a casa de banho eram dois bidões de chapa. 

Tínhamos chuveiro pois o Henrique conseguiu ir buscar água bem longe (daí a explicação do seu estado de magreza pois que arranjou casa, fez uma abrigo, decorou a casa e sempre fazendo a sua actividade militar, porque na CCAÇ 13 não se mandriava).

Quanto à nossa alimentação, foi organizada do seguinte modo: as refeições dos adultos vinham duma espécie de restaurante ("O Labinas") que tinha um acordo com a tropa, mas as refeições do nosso Miguel era eu que as confeccionava com artigos comprados na messe e outros sempre que possível na população.

Entretanto eu e o Henrique tirámos a carta de condução no mesmo dia em Bissau. Não pensem que nos facilitaram a vida, não, pelo contrário, foram bem exigentes no exame em Bissau.

Para além de ter tido um Natal muito especial em 1973, com pinheirinho (uma folha de palmeira enfeitada), rabanadas e aletria, tudo isto foi enviado pela família da metrópole. Mas o que mais gostei foi ter partilhado esse Natal com outros soldados que invadiram a nossa casa que até se esqueceram que havia algures por ali uma guerra.

Entretanto veio o 25 de Abril, e tive a oportunidade de ir cumprimentar o pessoal do PAIGC ainda no seu estado de combatentes inimigos. 

Uns dias antes os "patifes" tinham-nos bombardeado com foguetões, porque pareciam não estarem satisfeitos com o susto que me pregaram em dezembro, ao infligirem-nos um bruto ataque que foi o meu baptismo de fogo.  (...)

Em junho [de 1974] regresso a Portugal com o Miguel, e em julho regressa o Henrique, e uma vez mais fui ter com ele a Lisboa ao RALIS onde foi (fomos) definitivamente desmobilizado[s].

(...) Antes de acabar, lembro que em Bissorã viviam mais senhoras, esposas de militares, ou seja, dum soldado, dum furriel e de um capitão que tinha uma menina linda de quem vou tomar a liberdade de publicar a foto, junta com o meu Miguelito. (...) (**)

(Seleção, fixação/revisão de tempo: LG)

Guiné 61/74 - P27854: Parabéns a você (2468): Rui Silva, ex-2.º Sarg Mil da CCAÇ 816 (Bissorã, Olossato e Mansoa, 1965/67)

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Nota do editor

Último post da série de 17 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27829: Parabéns a você (2467): José Maria Monteiro, ex-Marinheiro Radiotelegrafista - LFP Bellatrix e Comando Naval da Guiné, 1969/72 e Ramiro Figueira, ex-Alf Mil Op Especiais da 2.ª CART/BART 6520/72 (Nova Sintra, 1972/74)

terça-feira, 24 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27853: (De)Caras (246): Memórias do meu braço direito no Pel Caç Nat 52, em Missirá e Bambadinca: O Furriel João Manuel Sousa Pires (Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52)

Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf
CMDT Pel Caç Nat 52

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 5 de Setembro de 2025:

Queridos amigos,
Foi mais um reencontro, moramos em ruas paralelas, ambas a desaguar na Avenida de Roma ou no Campo Pequeno. Encontramo-nos muitas vezes na rua, sempre com promessas de reencontro, desta vez aconteceu, pedi-lhe para trazer os seus álbuns e que me desse licença para tirar algumas imagens, falei-lhe do blogue, ele é assumidamente info excluído, prometi-lhe que no dia da publicação lhe iria telefonar, ele encontraria uma solução para ver as imagens. Devo-lhe imenso, como explico no texto, foi de uma dedicação sem limites, confessou-me que fez muitas vezes um esforço enorme para não se zangar com a minha hiperatividade, com tantas obras nos quartéis de Missirá e Finete, emboscadas e aquelas malditas viagens quase diárias a Mato de Cão. Agora somos octogenários, um tanto especiais, não falámos das maleitas, mas das lembranças da Guiné.

Um abraço do
Mário



Memórias do meu braço direito no PEL CAÇ NAT 52, em Missirá e Bambadinca:
O Furriel João Manuel Sousa Pires


Mário Beja Santos

Quando cheguei a Missirá e Finete, em 4 de agosto de 1968, os meus colaboradores diretos no Pelotão de nativos eram os Furriéis Saiegh e Ferreira, estavam de partida até ao final do ano. No ano seguinte, a conta-gotas, chegaram os furriéis Sousa Pires, Luís Casanova e Pina.

Depois de muitas promessas para encontros prometidos, em 4 de setembro de 2025 houve nova troca de recordações ao vivo, antes pedi-lhe para trazer os seus álbuns e licença para fotografar algumas imagens, o que me foi concedido.

Voltei a dizer em João Sousa Pires que lhe estava profundamente grato, dera-me uma ótima colaboração, apoiara-me em momentos decisivos, por exemplo, contava sempre com ele para as contas e pagamentos, a burocracia dos autos de abate, a resposta expediente, até as escalas de serviço. Nunca esqueci o apoio indefetível que me deu quando caí na cama e o médico do Batalhão, David Payne Pereira, determinou que eu ficasse vários dias no estaleiro, socorri-me do Sousa Pires para mandar correio à família; também ele me apoiou do princípio ao fim quando me foi aplicada uma pena de dois dias de prisão simples, esbracejei junto de todas as instituições militares possíveis, isto independentemente de, na data em que era punido, o comandante do Agrupamento de Bafatá me louvava e me dava como exemplo pela mentalidade ofensiva e de liderança das forças a meu cargo.

O João Sousa Pires desembarcou em Bissau em setembro de 1968, foi colocado temporariamente na CCS do Quartel-general, deram-lhe trabalho no Serviço Postal Militar, só mais tarde é que foi despachado para o regulado do Cuor, começou aí uma cooperação que forjou a minha estima e elevada consideração pelo apoio que dele recebi.

Só nesta conversa é que me apercebi que ele estivera mobilizado para Moçambique, nas marchas finais, numa noite escura como breu espetou-se no arame farpado de uma propriedade rústica, estatelou-se e fraturou o ombro, hospitalização no Porto, regresso a Tavira e daqui mobilização para a Guiné. Fez-me companhia em Bambadinca até qualquer coisa como junho de 1970, foi então destacado para a secretaria do BART 2917, eu regressei em agosto e ele em outubro. Foi com maior satisfação que lhe redigi um louvor que lhe foi dado pelo Comandante do Batalhão.

Fotografei algumas imagens alusivas aos nossos tempos, tenho muito orgulho que fiquem no blogue:

Este era o nosso balneário primitivo, espaço tenebroso, aquelas chapas afiadas ensanguentaram muita gente, meses depois o Batalhão de Engenharia forneceu um novo conjunto de bidões e mandou material para renovarmos o balneário, entretanto chegou sanita e criou-se um espaço sanitário que acabou com a degradação da fossa. Quando fui castigado com dois dias de prisão simples, bem aleguei, mostrando cópias da documentação que mandava para Bambadinca, que pedia materiais para renovar o quartel, grande parte dos abrigos estavam podres, nada feito. Foi preciso haver a destruição de 19 de março de 1969 e eu ter ido a Bissau para fazer uma operação que me permitiu uma conversa com o Capitão Rui Gamito e o Alferes Emílio Rosa, ganhei uma carrada de materiais e duas grandes amizades, entre os benefícios veio o novo balneário.
Este espaço era conhecido pelo nome pomposo de parada, por detrás do Sousa Pires estava o abrigo do morteiro 81 e as suas granadas encaixotadas, era aqui que eu trabalhava nas noites de flagelação auxiliado pelo Cabo António da Silva Queirós, ele metia uma braçadeira resistente às altas temperaturas e ali estávamos até a força do PAIGC nos deixar em paz.
Não escolhi esta fotografia por mero acaso. O Sousa Pires pousou para a fotografia no limite do porto de Bambadinca o que permite ver ao fundo uma canoa no Geba a caminho da bolanha de Finete, havia depois um caminho acidentado com cerca de quatro quilómetros, enchíamos o burrinho (Unimog 411) com os nossos haveres, primeira paragem Finete, dezasseis quilómetros depois Missirá. Quando voltei pela primeira vez a Missirá, vinte anos depois, tinham encerrado aquele caminho, tudo se resolvera com uma ponte a atravessar até Bambadinca, chegava-se a Finete de autocarro, mota, bicicleta, automóvel, camião, mas nada de atravessar a bolanha de Finete.
Não é a primeira vez que aqui se publica esta imagem, não escondo que me comovo profundamente quando a revejo. É dia de Natal de 1969, no ano anterior, nesse mesmo dia, vivi a festa mais emocionante que a vida me proporcionou, irrepetível. Neste ano estamos na ponte do rio Undunduma, um dos sítios mais horríveis pelas condições deploráveis, pelos riscos de ali estar sem os meios de defesa combatíveis. Fui tomar banho ao rio, chegou o condutor com a comida e também se foi molhar, é ele que está à direita. Estes são os meus fiéis companheiros, Sousa Pires está no centro, o Alferes encolheu-se, não se quer mostrar em cuecas, exibe despudoradamente a patorra de quem calça 45, feliz pela companhia, tristonho na relembrança, a generalidade destes homens já partiu para as estrelinhas, mas eles só morrerão quando deles não se falar, por isso deixei o nome de todos eles escrito num dos meus livros.
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Nota do editor

Último post da série de 22 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27845: (De)Caras (245): cap inf Carlos Alberto Cardoso, cmdt, CCS/BCAÇ 1933 (Nova Lamego e S. Domingos, 1967/69): levou a esposa, tal como pelo menos três outros oficiais

Guiné 61/74 - P27852: Efemérides (384): Foi há 10 anos que morreu (de verdade) o nosso querido "morto-vivo", o António da Silva Batista (1950-2016), ex-sold at inf da CCAÇ 3490 (Saltinho, 1972), natural da Maia

António da Silva Baptista (1950-2016)

Foto: © João Santiago ( 2007). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


Foto reproduzida por Beja Santos no seu poste P14454, de 10 de abril de 2015. A fonte provável é o artigo "Desaparecido em combate", de Duarte Dias Fortunato, publicado na revista da GNR, "Pela lei e pela grei", nº de abril de 2000 (*) 

[Na altura, o Fortunato era soldado de infantaria da GNR e prestava serviço no Posto Territorial de Quiaios, na Figueira de Foz; o António da Silva Batista é o último a contar da direita, de bigode, e o Fortunato o terceiro.]


Maia > Moreira > Cemitério local > Foto do Jornal de Notícias, edição de 18 de setembro de 1974, mostrando o soldado António da Silva Batista, a visitar a sua própria campa, depois do regresso do cativeiro. O título da notícia do jornal era: "Morto-vivo depôs flores na sua campa". Na lápide pode ler-se: "À memória de António da Silva Batista. Faleceu em combate na província da Guiné em 17-4-1972".

A foto, de má qualidade, foi feita pelo nosso camarada Álvaro Basto, com o seu telemóvel, na Biblioteca Pública Municipal do Porto, e remetida ao Paulo Santiago. O Álvaro Basto, ex-fur mil enf da CART 3492 (Xitole, 1971/734), mora em Leça do Balio, Matosinhos.

Foto: © Álvaro Basto (2007). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]

Cópia da 2.ª via da caderneta militar do António da Silva Baptista (1950-2016)... Documento emitido a 4 de Junho de 1987 (!), treze anos depois do seu regresso a casa, vindo do cativeiro...


Maia > 21 de Julho de 2007 > O encontro com o António da Silva Batista (ao centro); à esquerda, o Álvaro Basto, ex-fur mil enf da CART 3492 (Xitole, 1971/74) ; à direita, o Paulo Santiago (ex-alf mil, cmdt do Pel Caç Nat 53, Saltinho, 1970/72). Foto do João Santiago, filho do Paulo.

Foto: © João Santiago ( 2007). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]

1. Fez ontem  dez anos que morreu, pela segunda (e derradeira) vez, o António da Silva Baptista, o nosso querido "morto-vivo" (1950-2016). Era natural de Crestins, Moreira da Maia. (*)

Recorde-se que o António da Silva Batista, ex-sold at inf da CCAÇ 3490, Saltinho, 1972, foi dado como morto na terrível emboscada do dia 17 de abril de 1972, em Quirafo, junto ao Corubal... Viria a ser libertado pelo PAIGC em 14 de setembro de 1974, em Aldeia Formosa, ele mais 6 camaradas por troca com 35 guerrilheiros do PAIGC (**).

A sua história teve alguma triste notoriedade, até mediática, pelo insólito. A RTP, por ex., no seu programa "Memórias da Revolução", chamou-lhe o "soldado morto-vivo" (alcunha que foi dada pelos jornais do Nporte), e associou-o às efemérides de setembro de 1974 (mès do seu regresso do cativeiro):

(...) O soldado António Silva Baptista, combatente na Guiné-Bissau durante a Guerra Colonial, no seguimento de um ataque do Partido Africano para a Independência da Guiné Bissau (PAIGC) a tropas portuguesas, foi dado morto pelas autoridades portuguesas, tendo a sua família realizado um funeral em sua memória.

 Em boa verdade, António Silva Baptista foi prisioneiro do PAIGC, tendo sido libertado em setembro de 1974. Esta história, devido à sua natureza caricata, alcançou bastante notoriedade em Portugal. (...)

Temos uma meia centena de dezenas referências  ao nosso camarada que nos deixou em 2016.

O nosso pobre camarada morreu, de facto, duas vezes, tendo sido "vítima de um processo kafkiano": 

(i) primeiro, morreu, não fisicamente, mas militar e socialmente; 

(ii) depois, roubaram-lhe a memória, roubaram-lhe os dias e as noites que passou no cativeiro!

(iii) o exército ao fim de vários "ressustcitou-o" e deu-lhe um novo BI...mas levou tempo a pagar-lhe as pensões a que tinha direito!

 
De facto, a vida do António da Silva Baptista é um daqueles relatos que transcendem o individual e se tornam parte da memória coletiva, especialmente num período tão conturbado como o pós-Guerra Colonial e o "verão quente de 1975".

A forma como a sua história foi apropriada pela literatura de cordel, vendida nas feiras e romarias, mostra como o drama humano se transforma em lenda, misturando dor, resiliência e até um certo "humor trágico-marítimo", tão ao nosso gosto... E para mais ao som festivaleiro de um acordeão (*).

É fascinante (e comovente) pensar que, enquanto era dado como morto e até enterrado, numa cova funda do cemitério da sua terra, na Maia, ele estava vivo, incomunicável, prisioneiro do PAIGC, em Conacri e depois no Boé, acabando em setembro de 1974 por regressar para visitar a sua própria campa. Macabro, insólito, miserável!

Essa dualidade entre a morte simbólica e a vida real é um tema poderoso (quase shakespeariano, se quisermos armar ao pingarelho, citando uma referência erudita!) e reflete bem as contradições da guerra e do pós-guerra.

2. Dez anos passaram sobre a morte definitiva (!) de António da Silva Baptista, mas a sua história continua a ecoar como uma das mais singulares, e também mais inquietantes, da guerra na Guiné. 

De facto, não é apenas a história de um homem que sobreviveu ao doloroso cativeiro: é a história de alguém a quem a própria sociedade declarou morto antes do tempo, e a quem o exército "escamoteou" a identidade (e o "patacão" que lhe era devido).

Na emboscada de 17 de abril de 1972, em Quirafo, junto ao Corubal, perdeu-se o rasto de um jovem soldado da CCAÇ 3490. Para o exército, para a burocracia militar, para a comunidade e para a família que aguardava notícias, a conclusão foi rápida: morto em combate. Houve luto, houve funeral (por troca com os restos mortais do António Ferreira!), houve uma campa aberta na sua terra, Moreira, Maia.

Assim terminou oficialmente a vida de António da Silva Baptista, pelo menos no papel.

Mas, enquanto o seu nome era inscrito na lista dos mortos, ele continuava vivo. Prisioneiro do PAIGC, primeiro em Conacri e depois no Boé (e depois novamente para lá fronteira), viveu dois anos e tal de silêncio, dor e invisibilidade. Esse hiato, esses dias e noites apagados da cronologia oficial, são talvez a parte mais dramática da sua história: não apenas o sofrimento do cativeiro, mas o facto de ter sido apagado da vida civil e militar, como se tivesse deixado de existir.

Graças ao nosso blogue (e sobretudo à persistência e às diligências de camaradas nosso como o Álvaro Basto, o Paulo Santiago, outros como a malta da Tabanca de Matosinhos),  foi possível ajudar a recuperar a dignidade e a honra de um camarada nosso que conheceu o inferno na terra (a emboscada do Quirafo, o massacre dos camaradas, os tiros de misericórida na nuca, a morte anunciada, a prisão, o pelotão de fuzilamento, a libertação, o regresso ao outro mundo, a visita à sua própria campa, o pesadelo kafkiano da peluda, a recuperação do BI, a atribuição das pensões, etc....).

Quando regressou, em setembro de 1974, já depois do 25 de Abril, trouxe consigo um paradoxo quase literário, próprio de um "romance do absurdo": o homem que regressou para visitar a própria campa (!). 

Poucas imagens dizem tanto sobre a guerra colonial e sobre o caos do tempo que se seguiu. A realidade, por vezes, escreve histórias que parecem saídas de um romance de Kafka ou de uma peça de  Shakespeare... 

O Batista foi um homem vivo que teve de provar que não estava morto!

Talvez por isso a sua história tenha corrido feiras e romarias, transformada em literatura de cordel e cantada ao som de acordeão. O povo tem esse modo peculiar de lidar com o drama: mistura a tragédia com o espanto, a dor com uma ponta de humor trágico. Assim foi perpetuada  a figura do “morto-vivo” (como os jornais do Norte o chamaram, a que a própria televisão retomaria mais tarde).

Mas por detrás do "faits-divers", da "anedota popular" que deu dinheiro a ganhar a feirantes,  havia um homem real, um camarada que carregou o peso de uma vida interrompida duas vezes: primeiro quando o deram como morto; depois quando, regressado, teve de reconstruir a sua identidade e a sua memória.

Recordá-lo hoje é mais do que recordar um episódio insólito. É lembrar um dos muitos destinos improváveis que a guerra produziu: vidas suspensas, histórias mal contadas, homens que ficaram presos entre a história oficial e a memória vivida (e sofrida).

E talvez seja por isso que a história de António da Silva Baptista continua a tocar-nos e é hoje tema desta efeméride (***): porque nos lembra que, às vezes, a guerra não mata apenas os corpos, também pode matar, ou tentar matar, a própria existência de um homem, naquilo que ele tem de mais precioso: a "alma", a identidade, a memória...

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Notas do editor LG:

(*) Vd. poste de 23 de março de 201 > Guiné 63/74 - P15894: In Memoriam (247): António da Silva Batista (1950-2016)... A segunda morte (esta definitiva!) de um camarada a quem carinhosamente chamávamos o "morto-vivo do Quirafo". O funeral é amanhã, às 15h45, na igreja de Santa Cruz do Bispo, Matosinhos

(**) Vd. postes de:

29 de março de 2016 > Guiné 63/74 - P15911: (Ex)citações (306): A propósito da última troca de prisioneiros, em Aldeia Formosa, no dia 14 de setembro de 1974....Prisioneiros, não, "retidos pelo IN"...

11 de dezembro de 2011 > Guiné 63/74 - P9181: Troca dos últimos prisioneiros: 35 guerrilheiros do PAIGC e 7 militares portugueses (III Parte) (Luís Gonçalves Vaz)

22 de julho de 2007 > Guiné 63/74 - P1983: Prisioneiro do PAIGC: António da Silva Batista, ex-Sold At Inf, CCAÇ 3490 / BCAÇ 3872 (1) (Álvaro Basto / João e Paulo Santiago)



(***) Último poste da série > 14 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27734: Efemérides (383): O dia 14 de Fevereiro é para mim mais que "o Dia dos Namorados”, é o ‘Dia da Amizade” (João Crisóstomo, ex-Alf Mil Inf)

Guiné 61/74 - P27851: Esposas de militares no mato (2): Bambadinca, ao tempo do BART 2917 - Parte II

 

Guiné > Zona Leste > Bafatá > "Foto tirada no dia 30 de Março de 1971 em Bafatá, onde o grupo foi jantar, para celebrar os meus 24 anos. Na foto, e da esquerda para a direita temos:
  • Leão Lopes (de perfil) (ex-fur mil, BENG 447) e ex-esposa Lucília
  • Benjamim Durães (ex-fur mil , CCS/ BART 2917);
  • Fernando Cunha (soldado, condutor do Comandante do BART 2917);
  • Rogério Ribeiro (1º cabo enfermeiro, CCS/BART 2917);
  • Braga Gonçalves  (ex-alf cav, CCS/BCAÇ 2917) e ex-esposa Cecília
  • Isabel e o marido José Coelho (furriel enfermeiro, CCS/BART 2917); e
  • 1º cabo José Brás (condutor do 2º Cmdt)

O Leão Lopes era de Cabo Verde, ex-fur mil, BENG 447 (e hoje figura pública no seu país, ex-ministro da cultura, deputado,  escritor, pintor, cineasta, presidente da OGN Atelier Mar, professor universitário, etc., segundo refere o Benjamim Durães no poste P4399 (*).

O José Alexandre Pereira Braga Gonçalves, ex-alf mil cav, não fazia parte originalmente do BART 2917, tendo vindo de Bissu, para subtituir o tenente SGE Armindo Torres Teixeira, Chefe da Secretaria do BART 2917 (que foi em 18 jan 71  para Bissau).

Foto (e legenda): © Benjamim Durães (2009). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné] 


1. Em Bambadinca, ao tempo do BART 2917 (1970/72), e da CCAÇ 12 (1969/73, mudar-se-ia depois para o Xime no 1º trimestre de 1973) sempre houve senhoras, esposas de militares, a residir no aquartelamento, que estava separado das duas tabancas, Bambadinca  e Bambadincazinho (reordenamento) por um perímetro de arame farpado.  Pertencia à circunscrição (e mais tarde concelho) de Bafatá. 

Era um posto administrativo importante. Em 1968 teria 2 mil almas. Hoje deve 15 ou 20 vezes mais. 

Tinha escola primária (4 classes), e casa para a professora (que era de origem cabo-verdiana, a D. Violete Aires da Silva). Tinha capela, que servia uma pequena comunidade cristã. 

Havia pelo menos 3 estabelecimentos comerciais (Casa Gouveia, Rendeiro e José Maria). Tinha mercado (indígena) e fontenário público (a nascnte de água era a um escasso quilómetro). Havia ainda estação dos CTT. Era possível ligar para Portugal, embora as ligações fossem morosoas. 

Tinha uma pista de aviação, mais tarde alargada para os T-6. Tinha estrada alcatroada (para o Xime, a sudoeste; e Bafatá e Nova Lamego, a nordeste), e ligação, por estrada terra batida para o sul (Mansambo,  Xitole e Saltinho). 

A escola e o edifício do posto administrativo, bem com as respetivas casas de habitação, ficavam dentro do perímetro militar. Tal como o Depósito de Água.

O aquartelamento possuia, desde 1968, boas instalações, construídas pelo BENG 447, no que diz respeito a edifícios de comando, messes e dormitórios para oficiais e sargentos. Tinha uma posição privilegiada num promontório, situado entre o rio Geba, a norte, e a bolanha de Bambadinca a sudeste

Era um dos melhores sítios, no interior da Guiné, para se viver, só superado talvez por Mansoa (mais próximo de Bissau, a 60 km, por estrada alcatroada) e seguramente por  Bafatá (segunda cidade da província, uma cidadezinha colonial, encantadora,  segura, limpa, cuidada, em 1969/71, conhecida por "Princesa do Geba"). 

Havia colunas todos os dias de Bambabinca para Bafatá, a 30 km. Nesse tempo, nunca houve nenhuma emboscada ou mina na estrada Bambadinca- Bafatá.

Bambadinca, além de sede de batalhão, tinha um destacamento de intendência e outro do BENG 447. Estava em curso, em Nhabijões, a construção do maior ou de um dos maiores reordenamentos da provincia. 

Era a porta de entrada no Leste. O seu porto fluvial, complementando o do Xime, era vital para o abastecimento do Leste. Havia ligações diárias entre o Xime e Bissau, de "barco turra".

Com a chegada da CCAÇ 2590/CCAÇ 12, em 18 de junho de 1969, Bambadinca tornou-se uma terra segura. O último (e único) ataque ocorrera em 28/5/1969, como resposta  á Op Lança Afiada (8-18 mar 1969).

De acordo com a legenda da foto acima, no 1º trimestre de 1971, Bambadinca teria a viver lá quatro esposas de militares: as 3 senhoras acima mencionadas mais a esposa do of op info major inf Barros e Basto. 

A Helena, mulher do alf mil Carlão, já havia regressado a Portugal em 17 de março de 1971, com o marido e os demais camaradas da CCAÇ 12.

Provavelmente o mais ilustre dos ex-militares que aparecem na foto acima, datada de Bafatá, 30 de março de 1971, é o Leãoo Lopes, na altura fur mil BENG 447, e entretanto figura pública na sua terra, Cabo Verde.

Escreveu ele, em resposta a um mail do Benjamim Durães, de 19/5/2009, com o convite para o 4º Encontro-Convívio da CCS do BART 2917, a realizar no ano seguinte, em Coruche, no dia 27 de março:

Leão Lopes

Caro Durães,

Ainda me visto de Leão Lopes, apenas isso. Mas o ex-camarada de Bambadinca envaidece-me e é uma grande honra responder por ele.

Não imaginas a emoção que ainda sinto por este reencontro. Já ninguém poderá duvidar que eu também lá estive. Vocês existem e a memória colectiva também. Eu próprio duvidei por vezes desta parte da minha história, quando alguns episódios vividos se confundiam com uma projecção ficcional não tendo por perto quem mos pudesse reavivar, corrigir, confirmar.

Imagina que eu me lembro sempre do nosso capelão Arsénio Puim, do dia em que a PIDE o levou, da minha / nossa revolta. E como eu gostaria de o reencontrar para lhe dar o abraço que não pude dar-lhe nesse dia. A PIDE tinha-me levado antes o Joãozinho e mais outros dos melhores operários nativos que eu tive no destacamento de engenharia. Destes nunca mais soube.

Há alguns anos estive em Bambadinca e, nas ruínas do que foi nosso quartel, encontrei Mariana, a nossa lavadeira, que me avivou na memória muita coisa difusa e talvez esquecida. Por exemplo, que eu pintei o retrato de um camarada. Quem seria?

Sim, lembro-me de alguns de vocês. De ti, do Braga Gonçalves, do Coelho, do Brás. Lembro-me do Vinagre, de Coruche (?) com quem fiz algumas traquinices,  inventando coisas para driblar o tempo. Chegamos a ser sócios numa moto e nunca contei a ninguém que por um triz teriam hoje que me juntar aos homenageados no minuto de silêncio dos vossos encontros. Sabem dele?

Ainda canto Zeca Afonso e as músicas popularizadas por Adriano Correia de Oliveira que nos ajudavam a resistir e a manter a moral acima de tudo.

As minhas condolências pelo Rebelo.

Parabéns a Luís Graça pelo blog. Um belíssima iniciativa, um belo slogan, um esforço de trabalho imenso.

Um dia destes, numa das minhas passagens por Portugal, tentarei abraçar-vos. Muito obrigado pela fotografia e por me teres procurado e achado.

Até breve, Leão Lopes


Guiné > Zona Leste > Sector L1 > Bambadinca > 1970 > Espectacular vista aérea do aquartelamento, tirada no sentido leste-oeste, ou seja, do lado da grande bolanha de Bambadinca.

Foto do arquivo de Humberto Reis (ex-Fur Mil Op Esp, CCAÇ 12, Bambadinca, 1969/71)

Foto: © Humberto Reis (2006).  Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné] 

Legenda:  do lado esquerdo da imagem, para oeste, era a pista de aviação (1) e o cruzamento das estradas para Nhabijões (a oeste), o Xime (a sudoeste) e Mansambo e Xitole (a sudeste). Vê-se ainda uma nesga do heliporto (2) e o campo de futebol (3).

A CCAÇ 12 começou também a construir um campo de futebol de salão (4), com cimento roubado à engenharia,  nas colunas logísticas para o Xitole.De acordo com a fotografia, em frente, pode ver-se o conjunto de edifícios em U: constituía o complexo do comando do batalhão (5) e as instalações de oficiais (6) e sargentos (8), para além da messe e bar dos oficiais (8) e dos sargentos (9).

Apesar do apartheid (leia-se: segregação socio spacial) que vigorava, não só na sede dos batalhões, como em muitas unidades de quadrícula, uns e outros, oficiais e sargentos, tinham uma cozinha comum (19).

Do lado direito, ao fundo, a menos de um quilómetro corria o Rio Geba, o chamado Geba Estreito, entre o Xime e Bafatá. O aquartelamento de Bambadinca situava-se numa pequena elevação de terreno, sobranceira a uma extensa bolanha (a leste). 

São visíveis as valas de protecção (22), abertas ao longo do perímetro do aquartelamento que era todo, ele, cercado de arame farpado e de holofotes (24). A luz eléctrica era produzida por gerador... Junto ao arame farpado, ficavam vários abrigos (26), o espaldão de morteiro (23), o abrigo da metralhadora pesada Browning (25).

 Em 1969/71, na altura em que lá estivemos, ainda não havia artilharia (obuses 14).

A caserna das praças da CCS (11) ficava do lado oeste, junto ao campo de futebol (3). Julgava-se que o pessoal do pelotão de morteiros e/ou do pelotão Daimler ficava instalado no edifício (12), que ficava do outro lado da parada, em frente ao edifício em U. Mais à direita, situava-se a capela (13) e a secretaria da CCAÇ 12 (14). Creio que por detrás ficava o refeitório das praças.

Em frente havia um complexo de edifícios de que é possível identificar o depósito de engenharia (15) e as oficinas auto (16); à esquerda da secretaria, eram as oficinas de rádio (17). 

Do lado leste do aquartelamento, tínhamos o armazém de víveres (20), a parada e os memoriais (18), a escola primária antiga (19) e depósito da água (de que se vê apenas uma nesga). 

Ainda mais para a direita o edifício dos correios, a casa do administrador de posto, e outras instalações que chegaram a ser utilizadas por camaradas nossos que trouxeram as esposas para Bambadinca (foi o caso, por exemplo, do Alf Mil Carlão, nosso camarada da CCAÇ 12, e mais tarde, o major BB, o Fur Mil Leão Lopes, do BENG 447, o Fur Mil Enf Coelho, da CCS/BART 2917).

Esta reconstituição foi feita pelo Humberto Reis, completada por mim (LG) e pelo ex-1º cabo cripto GG (Gabriel Gonçalves), todos os très da CCAª 12 (1969/71).


3. Comentário do editor LG:

 Apesar do nosso amável convite (*), o Leão Lopes nunca chegou a responder-nos, por isso, e com pena nossa,  não integra a nossa Tabanca Grande, onde "todos cabemos com tudo o que nos une e até com o que nos pode separar"... 

Não sei se ele já está reformado.  Mas como artista total que é (escritor, pintor, cineasta), não deve estar parado. Se por acaso o Leão Lopes nos ler, fica a saber que o convite continua de pé. 

Sentir-nos-íamos honrados e sobretudo felizes com a tua presenção,  Leão Lopes. E irias engrossar a presença dos amigos e camaradas da Guiné, que são filhos de Cabo Verde. Já temos malguns, mas não tantos quantos gostaríamos.

Na verdade, tínhamos uma saudável curiosidade em saber como era, para ti,  trabalhar em Bambadinca, em 1970/72, no destacamento do BENG 447 e,  ao mesmo tempo,  viver, um pouco à parte da tropa, sendo  casado (na altura com a Lucília) (**). Mantenhas.
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Notas do editor  L.G.: