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sexta-feira, 10 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28170: Notas de leitura (1935): "Lenços Negros, Lenços Brancos", memórias na primeira pessoa de um ex-combatente octogenário: Uma breve viagem pela literatura da Guerra Colonial (Intervenção feita na apresentação do livro, na ADFA, em 30/05/2026) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 30 de Junho de 2026:

Em 30 de maio fui à ADFA apresentar o livro do Coronel Manuel Martins Lopes, foi Ajudante de Campo do Marechal Costa Gomes e devo-lhe uma profunda estima. Lá fiz a minha intervenção com um papelinho de notas, tempos depois o Coronel telefonou-me a dizer que a gravação estava péssima e que eu me desse ao cuidado de alinhavar a escrita, será feito um suplemento do jornal ELO, o órgão da ADFA, nesse dia fez-se uma homenagem ao fundador da associação. Confesso que gostei do que escrevi e estou pronto a partilhar com malta do blogue, se achares útil.

Nada mais por ora a não ser um abraço fraterno,
Mário.



"Lenços Negros, Lenços Brancos", memórias na primeira pessoa de um ex-combatente octogenário: Uma breve viagem pela literatura da Guerra Colonial

(Intervenção feita na apresentação do livro, na ADFA, em 30/05/2026)

Mário Beja Santos

Quando e como se deu um corte radical entre a literatura ultramarina e a da Guerra Colonial

A literatura da Guerra Colonial é um subgénero literário, goza da identidade, a despeito da variedade de cenário que contempla, é do senso comum as discrepâncias geográficas dos três teatros africanos. Quando comecei a refletir sobre as memórias elaboradas pelo Manuel Martins Lopes, que combateu em Angola e que depois teve uma comissão com alta responsabilidade administrativa num ponto chave de Moçambique, julguei ter utilidade em comprovar a este auditório que há um corte radical entre a literatura do antes, durante e o após a Guerra Colonial. Na literatura ultramarina há temas-chave recorrentes, seja qual for o pano de fundo da colónia africana: o deslumbramento daa floresta, amores bem ou malsucedidos, envolvendo feitiços, usos e costumes étnicos, a dura vida de trabalho, em alguns casos a denúncia esquiva do trabalho forçado, a aproximação do colono aos ambientes locais, as páginas de descrição da vida na roça, a chegada do barco a vapor… quero só lembrar "Mariazinha em África", de Fernanda de Castro, "Chuva Braba", de Manuel Lopes, "Kurika", de Henrique Galvão, e "A Estufa", de Luís Cajão. Como é óbvio, nada de minas antipessoal e anticarro, as operações para prender ou aniquilar guerrilheiros, a dor da morte dos entes queridos, a tensão permanente na vida dos destacamentos defendidos por arame farpado.

Só mais uma nota sobre a literatura ultramarina. Permitam-me que exemplifique com o caso da Guiné. Em "Estudos Ultramarinos", publicação do Instituto Superior de Estudos Ultramarinos, no seu número 3, de 1959, João Tendeiro publicou um artigo intitulado “Aspetos Marginais da Literatura na Guiné Portuguesa”. Diz o autor com a maior das clarezas:
“A Guiné não nos deu até agora um escritor nativo. No campo da ficção, as poucas obras de fundo têm sido escritas por europeus ou cabo-verdianos. É o caso dos romances e contos de Fausto Duarte e de vários contos esporádicos de Alexandre Barbosa e outros, publicados no Boletim Cultural da Guiné Portuguesa. Mário Pinto de Andrade, se quis inserir, na sua Antologia da Poesia Negra, uma produção poética representativa da Guiné, teve de recorrer a um poema de um jovem cabo-verdiano, Terêncio Anahory Silva.”

Nesta Guiné de que fala João Tendeiro o português era falado por 1157 indígenas analfabetos e escrito por 1153. A literatura que apareceu foi obra de militares ou funcionários coloniais, caso dos "Contos do Caramô", de Viriato Tadeu, os contos publicados por António Carreira, Amadeu Nogueira e outros, em o Boletim Cultural da Guiné Portuguesa. Não ficaram testemunhos do uso do crioulo. O mesmo Tendeiro observa:
“O crioulo enferma de todas as características as linguagens faladas e sem grafia independente. Quer dizer: quando transposto para a escrita fica subordinado ao idioma escrito da região. Não existe uma correspondência entre o crioulo e a ortografia portuguesa. Enquanto em Cabo Verde o crioulo assumiu o carácter de uma linguagem substituta dos idiomas nativos primitivos, enfeudada à língua portuguesa oficial, na Guiné reveste apenas o aspeto secundário língua aprendida, desempenhando entre as populações locais um papel semelhante ao dos idiomas utilizados nas relações internacionais entre os povos civilizados.”


Adiciono mais um comentário sobre a essência da trama literária ultramarina: histórias de aculturação, tratamento de fábulas e contos, em circunstância alguma põe em causa conflitos entre colonos e indígenas, operações de pacificação ou a chamada missão civilizadora portuguesa.


As diferentes fases da literatura da Guerra Colonial

Quando surgiram as primeiras obras, no início da década de 1960, ninguém supunha qual o peso da identidade e da autonomia do subgénero literário. Creio não haver contestação que entre 1961 e 1974 se impuseram incursões literárias de pendor apologético, exaltando as qualidades do soldado português, o valor da missão patriótica em defender o Ultramar, episodicamente foram surgindo romances ou contos onde veladamente, a guerra era tratada como tema incandescente. O exemplo que me parece mais flagrante foram as obras que Álvaro Guerra publicou depois de ter vindo da Guiné, onde fragmentariamente se impunham os desastres da guerra. A este escritor se deve o parágrafo que ainda hoje me comove pelo vigor da sua explosão emocional:
“Por lá chafurdei na lama das lalas, debati-me no turbilhão dos tornados, derreti-me na fornalha de um sol invisível, dissolvi-me na chuva vertical, e amei como um danado aquela terra que me injetou a febre, me secou, me expulsou a tiro. Mas nunca o preço do amor é excessivo, nem a presença da morte o pode aniquilar.”
Houve livros apreendidos pela PIDE, caso de "A Praça da Canção", de Manuel Alegre, teve a sua primeira edição em 1965, penso que o mais belo poema que se escreveu nesta literatura é "Nambuangongo, meu amor", veio publicado logo nesta edição.


Há, como não podia deixar de haver, características diferenciadas de quem escreveu sobre a Guiné, Angola ou Moçambique: são paisagens bem distintas, como distinto era o poderia militar e a capacidade de guerrilha dos diferentes nacionalistas, o que confere aos registos da escrita um quase poder intransitável. No entanto, pode argumentar-se que havia a solidão, a angústia, o fragor do fornilho, o matraquear súbito das armas pesadas e ligeiras de quem fazia a flagelação, é evidente que a perceção destes elementos ganhava um cunho universal. Mas o peso da geografia era indeclinável: 10Km na Guiné ainda hoje não são os mesmos 10Km em Angola ou Moçambique. E mais: os palcos de guerra tinham designações muito próprias, as árvores gozam de nomes próprios, havia intempéries, chuvas diluvianas, mas algo que identifica a narrativa: o crioulo, o tornado, o macaréu, a lepra, os ataques com mísseis. Ora os mísseis fazem parte da evolução da guerra, quem, por hipótese, escreveu um romance com as suas memórias baseado numa comissão militar entre 1965 e 1967, tem de se confinar ao armamento português e dos guerrilheiros da época.

Com o 25 de abril, com a liberdade de expressão, foram surgindo obras, até reedições, caso de "Tarrafo", de Armor Pires Mota, que tinha publicado as suas memórias durante a guerra no Jornal da Bairrada, nem a PIDE nem a Censura deram por nada, publicado no livro, deram conta que se falava de bombardeamentos com napalm, isto quando Portugal negava categoricamente nas Nações Unidas o seu uso em África. A grande safra literária eclode nas décadas de 1980 e 1990, impõem-se nomes, alguns vindos do passado, como Carlos de Matos Gomes, Álamo Oliveira, José Brás, António Lobo Antunes, João de Melo e surgiram mesmo grandes surpresas no virar do século, estou a pensar em "Estranha Noiva de Guerr", de Armor Pires Mota, um romance excecional que a crítica praticamente ignora.

Quando chegámos ao século XXI eram múltiplas as manifestações literárias: estudos militares, excursos históricos, reportagens, olhares da memória, visitas depois da guerra, ensaios, poesia, contos. Não é necessário fazer a contagem de tudo quanto se escreveu, o romance e as memórias superam todas as outras manifestações. Como tenho de fazer aqui uma síntese não pretendo adormecer o auditório, quero também recordar que algumas destas obras são hoje motivo de estudos universitários: é o caso de "Lugar de Massacre", de José Martins Garcia, que perto do 25 de abril pôs as letras em polvorosa, caricaturando os grandes ícones em que se constroem as mitologias militares.

Falando dos militares, independentemente do genial "Nó Cego", de Carlos Vale Ferraz, há relatos feitos por militares que se vieram revelar documentos indispensáveis, caso dos escritos de Salgueiro Maia, que esteve na operação em que se rompeu o cerco a Guidaje, torna-se percetível como o teatro de operações da Guiné estava completamente condicionado à plena iniciativa do PAIGC.

Posto isto, quero recordar a importância das investigações monográficas, dos levantamentos da literatura da Guerra Colonial feitos por João de Melo, Rui de Azevedo Teixeira e Margarida Calafate Ribeiro. Dou ainda conta que apareceram obras diarísticas, umas raramente escritas em cima da hora, outras recompiladas.

Escrevi em tempos que a despeito de uma maioritária falta de qualidade desta literatura, há parágrafos estranhados, há memórias que nenhum investigador pode enjeitar pelo poder que assumem na atmosfera da descrição da guerra, escrita por gente que combateu em terra, mar e ar.

Chegou hora de fechar o pano a esta literatura? Impossível, a obra que hoje analisamos é uma incontestável prova de vida. Finalizo esta minha cogitação antes de passar para a obra de Manuel Martins Lopes retirando um parágrafo de um livro que escrevi sobre a literatura da Guerra Colonial na Guiné intitulado "Adeus, até ao meu regresso" (a literatura dos e sobre os combatentes da guerra da Guiné), publicado pela Âncora Editora em 2012:
“Até ao lavar dos cestos, até estar vivo o último militar, há que contar com as surpresas da vindima, não há um mês em que não surja um título, um depoimento, um olhar sobre aquela guerra que se travou enquanto se caminhava na farroba de lala, entre cipós e tabás, militares acoitados atrás dos morros das formigas, a resistir à fúria das emboscadas, ou dentro dos aquartelamentos, imprecando em noites de flagelação destruidora. Este subgénero literário está muito longe de ter fechado para obras e muito menos para mudança de ramo.”

A singularidade de um itinerário: a família e o lugar, um desvio na vocação, a aprendizagem da guerra, a comandar no terreno conflitual angolano (a identidade dos lenços negros), comandante da polícia na Zambézia numa cativante operação de paz, era o tempo dos lenços brancos, e resultou.

Não vou aqui repetir o que se disse atrás sobre a natureza caleidoscópica das memórias. Há vigorosos testemunhos memoriais há décadas, mas temos de reconhecer que a memória ganha sempre o amadurecimento, graças também à distância do que foi a experiência de guerra. Voltando à Guiné, foi depois do século XX que surgiram depoimentos de grande calibre, caso do comando guineense Amadú Djaló, do fuzileiro José Talhadas ou do paraquedista Moura Calheiros, não contamos já com os documentos deixados pelo major Lobato (o mais longo cativeiro da Guerra Colonial), algumas histórias de companhias, a torna-viagem de quem combateu e volta ao lugar marcante, isto para já não falar num fenómeno relativamente novo que são as memórias dos filhos de quem combateu e que também vão querer conhecer esses pontos em que viveu o pai ou os pais.

As memórias do Coronel Martins Lopes têm a razão de ser de um itinerário único: o orgulho pela terra que o viu nascer e os valores inculcados pela família; os estudos num liceu longe de casa; a inviabilidade de satisfazer a sua vocação, o dinheiro não chegava para tudo; a ida para a Academia Militar e a confissão de que havia um indisfarçável desajustamento; em minúcia, descreve o seu desempenho angolano, a formação da lenda dos lenços negros, que gerou uma convivência que não abranda ano após ano; a mudança de Angola para Moçambique, coube-lhe na roda do destino ter os sentidos apurados para saber comunicar com os dirigentes da FRELIMO as melhores diligência para chegar à paz, que emergiu com o 25 de abril e as decisões de Lusaka. É ocioso dizer que ele não esconde o seu orgulho no vigor da reconciliação que acompanha toda a sua trama narrativa e que o leitor irá conhecer através da história de uma Bíblia apanhada durante o conflito e que agora regressou ao seu lugar. É o simbolismo de uma manifestação que acompanha toda a narrativa e que ilustra categoricamente esta caminhada dos lenços negros para os lenços brancos, a metáfora do mundo lusófono em que nos cremos todos numa irmandade de boa convivência, a da língua e a da História comum.

Parabéns ao autor e a minha profunda admiração por aqueles que o acompanharam com lenços negros e com lenços brancos.
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Nota do editor

Último post da série de 6 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28161: Notas de leitura (1934): "Furriel não é Nome de Pai, Os filhos que os militares portugueses deixaram na Guerra Colonial", de Catarina Gomes; Tinta da China, 2016 (3) (Mário Beja Santos)

Guiné 61/74 - P28169: Efemérides (398): Faz hoje 60 anos que ocorreu a trágica morte do Cap Mil Inf Rui António Nuno Romero, Comandante da CCAÇ 1565 (Artur Conceição, ex-Sold TRMS)

1. Mensagem do nosso camarada Artur Conceição (ex-Soldado TRMS da CART 730/BART 733, Bissorã, Jumbembém e Farim, 1964/66), com data de 10 de Julho de 2026:

Caríssimos camaradas, Administradores e Editores
Completam-se hoje, dia 10 de julho, 60 anos que ocorreu este trágico acontecimento.
Para o efeito que acharem por mais conveniente escrevi o texto em anexo que deixo à elevada consideração.

Um grande Abraço e votos de muita saúde.
Artur António da Conceição



Como era Jumbembem no ano de 1966

Partindo da Cidade de Farim a caminho da Fronteira com o Senegal sensivelmente a meio do caminho ficava o acampamento de Jumbembem na bifurcação com a estrada para Canjambari. Logo à chegada do lado direito ficava o campo de futebol onde os mais habilidosos da Companhia jogavam à bola. Importa recordar o mestre Gamito que a todos dava baile.

No topo do campo de futebol havia o desvio para Canjambari do lado direito e a entrada no acampamento de Jumbembem do lado esquerdo. Logo após a passagem da “Porta de Armas”, não havia porta nem cancela, do lado esquerdo estavam as instalações da “Ferrugem” e afins, e onde antes teria sido a serração de madeiras, a avaliar pela existência de muitos pedaços de serras no local. Ainda do lado esquerdo seguia-se a caserna, a cantina, o refeitório, a cozinha, as arrecadações de material e o paiol. Para o lado direito após a entrada ficava o espaço designado por parada, onde alguns condutores gostavam de fazer as suas gracinhas mesmo arriscando uma enxertia, espaço esse que tinha logo do seu lado direito os abrigos que ficavam junto à estrada. No lado a seguir ficavam as moranças de alguma população, muito reduzida, não mais de 30 moranças. Em frente ficava uma casa de habitação com telhado de quatro águas sensivelmente quadrado com varanda larga cimentada e coberta, a toda a volta da casa.

Na parte da frente da moradia voltada para a parada havia uma pequena escada para acesso à varanda da frente a partir da qual havia do lado direito a entrada para a secretaria e do lado esquerdo a entrada para o Posto Clínico. Na parte traseira da vivenda o acesso à varada era feito por um pequeno degrau, ficando do lado direito o Comando da Companhia e do lado esquerdo as Transmissões, posto de rádio e centro cripto.

A varanda lateral esquerda havia sido fechada e servia de dormitório do pessoal das Transmissões. Imediatamente a seguir à varanda traseira e do lado direito ficava uma arrecadação “irmanamente” dividida para guarda do material de Enfermagem e de Transmissões.

Em frente da varanda lateral direita ficava um terraço em cimento logo seguido da Messe e Dormitório dos Sargentos da Companhia. Foi neste pequeno terraço que vi pela primeira vez a chamada cobra minuto. Não estivera ao lado de Alferes Valdez que deu o alerta e não lhe teria dado a mínima importância. Era uma lagartixa de cor preta com cerca meio metro de comprimento e um centímetro de diâmetro. Naquele tempo ainda prevalecia a lenda, que por aquilo que hoje se conhece é muito diferente da realidade. Afinal o animal é inofensivo.

Pelo fundo das moranças havia uma bomba de balanço para tirar a água de um poço ali existente, essa bomba era a única fonte de abastecimento de água até à abertura de um furo. A partir da abertura do furo passou a haver água com fartura para todos. A bomba ficou praticamente em exclusivo para regar as hortas. As hortas ficavam junto ao ribeiro e eram pertença do Artur e dos Alentejanos entre eles me recordo apenas dos parentes Vaqueirinhos.

Do lado direito da parada havia ainda uma invocação à primeira Companhia a ocupar este espaço. Antes da Companhia 730 esteve neste mesmo local a Companhia de Cavalaria 488 pertencente ao mesmo Batalhão a que pertenceu o nosso Alferes Virgínio Briote. Batalhão de Cavalaria 490.
De pé e da esquerda para a direita, o Artur, o Norberto e o Florival. Sentados estão o Mathias e o Campos.

Entrando na estrada para Cuntima onde esteve sediada a CART 732 e logo após a passagem de um pequeno ribeiro tínhamos do lado direito a pequena bolanha de Jumbembem onde era plantado o arroz, tarefa exclusiva das mulheres grandes. Ao cimo da bolanha ficava um grande barracão que em tempos terá servido de arrecadação dos produtos agrícolas.
Arroz na bolanha de Jumbembem. Na parte mais alta cresce milho de grandes dimensões.

A seguir ao barracão do lado esquerdo e do lado direito ficava uma área agrícola de alguns hectares onde eram semeados o milho e a mancarra. Esta tarefa tinha também exclusividade dos homens grandes.
Quatro Cabos e um Soldado com ar feliz a caminho do Senegal. Da esquerda para a direita: António Morais Castela, Florival Fernandes Pires, Artur António da Conceição, Norberto (pertencia ao Pelotão de Canjambari) e o Guilherme Augusto Leal Chagas.

Continuando esta amostra de levantamento, resta apenas uma visita ao Rio de Jumbembem que por ali passa a muito curta distância do aquartelamento de Jumbembem.

Entrando na estrada com destino a Canjambari ficava a cerca 100 metros uma ponte sobre o Rio de Jumbembem ao lado da qual existia um enorme pego onde a pesca era feita à granada de mão. A montante da ponte, por falta de canas de pesca, também a pesca era feita com bala de pistola ou de G3. A perícia da pesca à bala consistia em não acertar no peixe. O deslocamento da água provocado pela bala rebentava a membrana natatória deixando o peixe a boiar. Peixe a boiar é fácil de apanhar.

O Rio de Jumbembem continuava o seu percurso em direcção a Farim onde a poucos quilómetros antes se juntava com o Rio de Canjambari. A partir desta junção o rio passa a ter a designação de Rio Cacheu.

É no cenário acima descrito que no dia dez de julho do ano de mil novecentos e sessenta e seis, pelo meio dia, aconteceu uma das muitas tragédias ocorridas ao longo dos treze anos de guerra em África.
Cap Mil Inf Rui António Nuno Romero, Comandante da CCAÇ 1565

Sobre a referida tragédia está tudo escrito nos posters 2335, 13729 e 13736. [1]

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Para terminar quero deixar duas pequenas correções ao perfil do Soldado de Transmissões Condutor Auto 2712/63, Artur António da Conceição.

Foi mobilizado pelo Regimento de Artilharia Ligeira 1 em dezembro de 1964. Embarcou com destino à Guiné a 11 de fevereiro de 1965, a bordo do Navio Timor. Chegou a Bissau a 17 de fevereiro e foi levado para o quartel de Brá onde se encontrava a CCS do Batalhão 733. Depois de ter visto passar por cima da sua cabeça o helicóptero transportando o corpo do soldado Jozé da Graça Bexiga Troncão morto em combate no Olossato durante uma operação efetuada pela CART 730 foi enviado em coluna militar para Bissorã. Mais tarde foi enviado para Jumbembem de onde regressou a Bissau em finais do mês de julho de 1966.

No início de agosto do ano de 1966, a CART 730 regressa a Lisboa deixando na Guiné, qual mãe desnaturada, seis dos seus elementos, entre eles o médico da Companhia 730, Dr. Jaime Afonso. Terá sido o Dr. Afonso, que ao dar um tiro no pé, acabou por levantar a lebre que deu origem a tal situação. O Artur foi forçado a ficar mais seis meses na Guiné, regressando a Lisboa em 14 de fevereiro do ano de 1967, tendo embarcado em Bissau a nove do mesmo mês de fevereiro. Assim sendo, o Artur esteve na Guine de 1965 a 1967 e não de 1964 a 1966 como aparece em algumas publicações.

No segundo caso, quero recordar que passados quatro meses após o regresso da Guiné o Artur ingressou nos quadros da DGTT (Direcção Geral de Transportes Terrestres) em três de julho do ano de 1967.

Durante os 36 anos que desempenhou funções públicas passou por várias categorias: foi Dactilógrafo, Operador, Programador de Aplicações, Técnico Superior de Informática, Assessor de Informática e Assessor de Informática Principal. Quando se aposentou tinha a categoria de Especialista de Informática Grau 3, nível 2, como consta da sua ficha de utente existente na Caixa Geral de Aposentações.

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Notas do editor:

[1] - Além dos posts citados pelo camarada Artur Conceição sobre a trágica morte do Capitão Rui Romero, vd. os posts de:

14 de outubro de 2014 > Guiné 63/74 - P13734: Tabanca Grande (448): Ana Romero, filha do cap mil inf Rui Romero (Portalegre, 1934 - Jumbembem, 1966)

18 de outubro de 2014 > Guiné 63/74 - P13757: Consultório militar, de José Martins (5): Processo do cap mil inf Rui Romero, no Arquivo Histórico Militar.... Algumas "dicas" para a Ana Romero
e
31 de dezembro de 2014 > Guiné 63/74 - P14100: In Memoriam (216): Rui Romero (1934-1966), cap mil inf, 1º cmdt da CCAÇ 1565 (1966/68)... Finalmente... a Verdade (Ana Romero)

Último post da série de 11 de junho de 2026 > Guiné 61/74 - P28091: Efemérides (397): Desfile Militar do Dia 10 de Junho de 1964, Dia de Camões, no Terreiro do Paço, em Lisboa (António Bastos, ex-1.º Cabo do Pel Caç Ind 953)

quinta-feira, 9 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28168: Agenda cultural (896): Apresentação do romance, da autoria do António Carvalho, "3x44: Abel e Caim em Contrapé", Fundação Hermínia Vilar Ribeiro, Medas, Gondomar, sábado, dia 11, às 15h30. Entrada livre




1. É já no sábado, dia 11 do corrente, às 15h30, que o nosso camarada António Carvalho (ou "Carvalho de Mampatá", como é mais conhecido), ex-fur mil enf, CART 6250/72 (Mampatá, 1972/74) apresenta o seu segundo livro, o romance "3x44: Abel e Caim em Contrapé" (2026) (Editora: Vida Económica).


Local: Fundação Hermínia Vilar Ribeiro | Quinta do Carreiro, Lugar da Estivada, Rua da Bicha, nº 2, Medas, 4515-386 Gondomar |

Para mais informações consultar:

www.fundacao-hvr.pt | Email: geral@fundacao-hvr.pt | tlm: 9657 567 240. A entrada é livre.

A apresentação estará a cargo de:
  • Luís Graça, sociólogo, doutor em Saúde Pública pela Universidade NOVA de Lisboa e editor do blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (representado por Jorge Castro Guedes, encenador, mestre em Artes Cénicas pela Universidade Nova de Lisboa, dramaturgo, tradutor, copywritter, e que integra o Conselho de Administração da Fundação HVR, com funções de director-coordenador no Órgão Executivo);
  • Angélica Lima (doutora em Ciências da Educação pela Universidade Federal de São Paulo, escritora, educadora e consultora cultural, natural de São Paulo, Brasil, a viver em Portugal há 10 anos).


António Carvalho
Sinopse:

3x44 – Abel e Caim em contrapé, de António Carvalho, é uma narrativa de memória, identidade e destino, profundamente ligada à terra de Medas/ Emendadas, em Gondomar, às margens do Douro. A obra recupera o passado recente de uma comunidade marcada pelo trabalho duro, pela emigração, pelas relações familiares, pela religiosidade popular, pelas desigualdades sociais e pelos dramas silenciosos de gente comum. O prefácio sublinha precisamente esse valor de preservação da memória local, ao apresentar o livro como um contributo para dar voz a uma terra “tão esquecida” e às suas gentes, costumes e dificuldades.

No centro da narrativa está Abel, personagem principal, cuja vida se cruza com a emigração para o Brasil, o regresso a Portugal, os negócios no Douro, a viuvez, a relação com a comunidade e o conflito latente com Caim. O próprio autor assume que a morte trágica de Abel foi a “mola impulsionadora” da escrita deste livro, construído entre personagens reais e verosímeis, memória e imaginação.

TEMAS CENTRAIS
A obra aborda, entre outros temas, a memória coletiva e familiar; a vida rural no Portugal profundo; a emigração portuguesa para o Brasil; o regresso, a saudade e o desenraizamento; o trabalho no rio Douro, nas minas, na carqueja, na lenha e no carvão; a condição social das comunidades pobres; a religiosidade e os códigos morais da época; os conflitos humanos, a inveja, o ressentimento, a culpa e a violência.

A viagem de Abel entre Emendadas e o Porto, feita pelo rio, permite retratar um mundo económico e social muito concreto: o transporte de carqueja, carvão, lenha, vinho e outros bens, bem como a ligação comercial entre a aldeia e a cidade. A narrativa integra ainda o contexto histórico da Segunda Guerra Mundial e do Estado Novo, mostrando como a guerra, o racionamento, a censura e a intervenção do regime afetavam a vida quotidiana e os pequenos negócios.

PORQUE DEVE LER ESTE LIVRO
Deve ler este livro porque ele é, simultaneamente, uma história de vida e um retrato de época. Através do percurso de Abel, o leitor entra num universo onde o destino individual se cruza com a história coletiva: a emigração, a pobreza, o trabalho, a família, a honra, a perda e a esperança. A obra permite compreender melhor a vida de uma comunidade ribeirinha do Douro, os seus modos de falar, trabalhar, acreditar e resistir.

É também um livro sobre a natureza humana. Como se refere na apresentação, por detrás da aparente simplicidade da narrativa surgem “alegrias e tristezas”, “partidas e regressos”, dilemas morais, paixões e conflitos humanos.

O que distingue esta obra é a forma como cruza memória local, ficção narrativa e reconstrução histórica. António Carvalho não se limita a contar uma história individual: procura preservar uma comunidade, os seus usos, os seus medos, as suas palavras, as suas tragédias e a sua dignidade.

A obra destaca-se também pela atenção ao detalhe etnográfico e social: a casa rural, o rio, os barcos, as vendas, os negócios, a igreja, o cemitério, os pobres, os emigrantes, os trabalhadores e as mulheres que sustentavam discretamente a vida familiar. Ao mesmo tempo, a oposição simbólica entre Abel e Caim dá à narrativa uma dimensão moral e universal, aproximando-a de uma reflexão sobre o bem, o mal, a inveja, a fatalidade e a fragilidade das relações humanas.

PÚBLICO-ALVO
Este livro destina-se a leitores interessados em romance histórico e memorialístico, literatura de matriz regional, história local de Gondomar e do Douro, emigração portuguesa para o Brasil, vida rural portuguesa no século XX e narrativas centradas nas comunidades do chamado “país profundo”.

É também uma obra indicada para leitores que apreciam histórias familiares, dramas humanos, retratos sociais de época e livros que preservam a memória de lugares, pessoas e modos de vida em risco de desaparecimento. (Fonte: Vida Económica) (com a devida vénia...)
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oduto "gourmet"

Guiné 61/74 - P28167: Ser solidário (297): Bilhete-postal que vai dando notícias sobre a "viagem" da campanha de recolha de fundos para construir uma escola na aldeia de Sincha Alfa - Guiné-Bissau (22): Modelo educatico tradicional (Renato Brito)

1. Mensagem do nosso amigo Renato Brito, voluntário, que na Guiné-Bissau integra um projecto de construção de uma escola na aldeia de Sincha Alfa, com data de 7 de Julho de 2026:

Bom dia Carlos Vinhal,
Espero tudo bem consigo.

Partilho a “cartolina” de mais um evento da campanha de angariação de fundos para construir uma escola na Guiné-Bissau.

Neste endereço do site é possível visualizar o documentário:
Sotigui Kouyaté, um griot no Brasil (2007)
https://sostegnoguineabissau.weebly.com/pubblicazioni/sotigui-kouyate

Cumprimentos,
Renato


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Nota do editor

Último post da série de 18 de junho de 2026 > Guiné 61/74 - P28111: Ser solidário (296): Bilhete-postal que vai dando notícias sobre a "viagem" da campanha de recolha de fundos para construir uma escola na aldeia de Sincha Alfa - Guiné-Bissau (21): Etnia Mandinga (Renato Brito)

Guiné 61/74 - P28166 Nomadizações de um marginal-secante (Luís Graça) (10): Os nossos provérbios pouco ou nada populares - Parte I: Quem parte e reparte e não fica com a melhor parte, ou é tolo, ou não tem arte







"Prompt e orientação editorial: Luís Graça | Imagem:  João Crisóstomo (2017) | Geração gráfica assistida por IA: Google (2026), Gemini (versão de 8 de julho de 2026) [Grande modelo de linguagem]. Disponível em: https://gemini.google.com/"




1. Rui, tu que és um homem bom, ecuménico, generoso, solidário, cristão, não vais por certo concordar com a colagem, como subtítulo da tua crónica (*), do provérbio popular português "Quem parte e reparte e não fica com a melhor parte, ou é tolo ou não tem arte"...

Interpelo o Rui Chamusco, mas também podia evocar os nomes do João Crisóstomo, do Gaspar Sobral, da Glória Sobral,  do Eustáquio, e tantos outros, homens e mulheres da ASTIL - Associação dos Amigos Solidários Com Timor-Leste. Por certo, que nenhum deles se revê neste provérbio dito popular português.

Muitos destes provérbios são de origem fradesca, machistas, misóginos, racistas, e portanto anticristãos... 

E, pelo que nos contas, Rui, o barlaque timorense não tem a ver com "trocas & baldrocas"...Há negociação, há assimetria de poder, há desigualdades, mas há intermediação, há procura de soluções mutuamente satisfatórias, há uma lógica de "win-win" (ganhas tu, ganho eu, ganhamos todos).

Se bem entendi o essencial do barlaque timorense..., aplicar esse provérbio seria ignorar completamente a lógica do sistema. 

O barlaque não é um negócio de soma zero ou uma partilha de bens onde um tenta passar a perna ao outro; não é a simples e tradicional "caça ao dote" como no Portugal de antigamente ( e ainda hoje, em certos grupos sociais); é um intrincado tecido de alianças, reciprocidade, regulação, partilha e equilíbrio social entre famílias (umane e fetosan).

Estas duas palavras em tétum, fetosan e umane designam categorias de parentesco essenciais na estrutura social tradicional timorense. Elas definem a relação de aliança entre duas famílias unidas pelo casamento.
  • Fetosan: significa literalmente "as mulheres da casa" ou a família que recebe a esposa (a família do noivo).
  • Umane: significa a família que "doa" a esposa (a família da noiva).
Estas duas famílias estabelecem um vínculo de respeito e obrigações mútuas que se mantém ao longo de gerações. Quando há eventos importantes, como casamentos ou funerais, estas duas partes têm papéis rituais próprios, como a troca de gado, tecidos (tais),  arroz e dinheiro (prática conhecida como barlaque).
Não se trata, pois, de "levar a melhor parte", mas sim de selar um compromisso e garantir o respeito mútuo. 

Parece haver e prevalecer uma estratégia "win-win" (ganhas tu, ganho eu), pese embora a contestação deste "construto cultural" por parte da geração mais recente, escolarizada e crítica, e nomeadamente dos que defendem a "igualdade de oportunidades" para as mulheres numa sociedade que ainda é largamente "patriarcal e falocrática".

2. Rui, este provérbio é um daqueles que, à primeira vista, parece querer dar-nos um bom conselho de sabedoria popular sobre o tema da "astúcia e justiça"... 

Mas eu, como sociólogo, estou sempre de pé atrás, em relação à chamada "sabedoria popular" que muitas vezes esconde "minas & armadilhas" (ideológicas, morais, filosóficas, sociolinguísticas, políticas, etc.).

Que tal uma primeira análise, no sentido de o "desconstruir" ou "desmontar" ?!

(i) Vejamos um primeiro nível, mais superficial: a lógica do "ficar com o melhor", o melhor bocado (como acontece com os grupos de animais, predadores, dos leões aos chacais):

O provérbio sugere que quem divide algo (um bem, uma oportunidade, um recurso, uma informação, um "trunfo"...) e não consegue ficar com a melhor parte, é porque é tolo (falta de inteligência), ou não tem engenho & arte (habilidade, malícia, manha e outras ferramentas de poder). É "realismo político"...

Digamos que é, logo de caras, um elogio à esperteza (ou chico-esperteza, tão nossa, tão humana, tão universal mas também tão saloia, tão portuguesa) : quem não souber garantir a sua vantagem, o seu "bocado (ou bocadão"),  num contexto de crise e escassez é merecedor de desdém (o rótulo de "tolo", "coitadinho", "atrasado mental", "pobre-diabo"...).

Primeira questão crítica: este provérbio "naturaliza" a desigualdade. Parte do falso axioma de que a vida é um jogo de soma zero, onde uns, mais fortes e espertos, ganham inevitavelmente à custa de outros, mais fracos, com menos recursos, "bagagem", "cabedais", "trunfos"...

É a eterna questão: uns nascem em berços de ouro, outros são escumalha; há os pretos e os brancos; há os que nascem para mandar e os que nascem para serem mandados; há os ricos e os pobres; os soldados e os generais; os senhores e os escravos... Nasce-se mulher ou homem, num país atrasado ou desenvolvido; nasce-se já doente ou são; inteligente ou burro; etc. Ou citando a genial quadra do genial António Aleixo, "A rica tem nome fino / A pobre tem nome grosso / A rica teve um menino / A pobre pariu um moço".


São tantos os estereótipos a estigmatizar os homens e as mulheres que habitam a nossa "aldeia global" de Timor-Leste a Portugal...

Portanto, não há espaço para a cooperação, a solidariedade ou a equidade, o trabalho em equipa, a concertação, o consenso, a partilha, o dom, valores que, a ti, Rui, que és cristão, te são tão caros. E que pões à prova em Timor-Leste, de Díli a Boebau, nas montanhas de Liquiçá. Tu e tantos outros, anónimos, da ASTIL e de outros organizações.


(ii) A origem fradesca e o contexto histórico medieval

Muitos provérbios portugueses têm origem bíblica ou em sermões moralizantes da Idade Média, onde a Igreja (e os frades, em particular) usava a linguagem popular, chã, simplista, metafórica, para transmitir lições de obediência, hierarquia, resignação, submissão (e sublimação). 

 Este, em concreto, soa a uma justificação da fatalidade da desigualdade social, do determinismo fatalista e justiceiro..."Se Deus o marcou, é porque algum defeito lhe achou"; "Deus castiga sem pau nem pedra", etc.

"Ficar com a melhor parte" só pode ser então entendido lido como uma metáfora para justificar o poder, a aquisição e a manutenção dos lugares e do "aparelho" do poder: quem não souber manipular as regras (ou as pessoas e outros recursos) para beneficiar de privilégios, fica sempre na "mó de baixo", na cave, no piso zero do elevador social...(que neste caso só desce, não sobe para os pisos superiores).

"Não ter engenho e arte" pode ser uma crítica aos saloios, aos camponeses, aos pobres, aos marginais, aos "simples de espírito" (leia-se: os tolos, os idiotas), que não tinham acesso à educação, à "literacia", ao domínio da língua e da cultura e, portanto, à "malícia", à "manha", necessária para subverter um sistema que os oprimia.

É irónico, aliás, que muitos destes provérbios tenham sido criados pela Igreja (/enquanto "instituição e organização" com raízes na terra e antenas no céu) que, ela própria, ficava sempre com a melhor parte: em terras, em dízimos, em poder societal: social, económico, cultural, estético e político...

(iii) O machismo e a misoginia implícitos

Se olharmos para a estrutura do provérbio, há uma associação entre "arte" e "esperteza" que, em muitos contextos, era (e ainda é) "genderizada" (do inglês "gender", género).

Historicamente, a "arte" de negociar, de enganar ou de garantir vantagens era vista como uma qualidade "masculina", enquanto as mulheres eram incentivadas a ser passivas, obedientes, dóceis e "boas", resignando-se a não "ficar com a melhor parte", a não ter protagonismo, na casa, na rua, na cidade...

Um homem que não soubesse ser astuto era um tolo, não era um "cabra-macho", como se dizia na Guiné dos "libertadores da Pátria". 

Em contrapartida, uma mulher que tentasse sê-lo,  era logo apodada de feiticeira, bruxa, adúltera, prostituta,   "eva-serpente-tentadora" (acabando, não poucas vezes, na "fogueira", vítima dos "autos de fé" da Santa Inquisição).

Conclusão: o provérbio não só "naturaliza" ( ou dessocializa)  a desigualdade, como vem reforçar estereótipos de género (que ainda hoje persistem, e estão a ressuscitar por todo o lado, de Portugal aos EUA).

(iv) O individualismo e o "struggle for life" (=luta pela sobrevivência)

Este provérbio bem pode ser o título de "manual de sobrevivência", um desses manuais que enchem os escaparates das livrarias das grandes superfícies, de "desenvolvimento pessoal e autoajuda", onde cada um ("chacun",
francês) se governa, olha para si, para o seu umbigo, a sua barriga, e em que o sucesso individual é medido pela capacidade de explorar, aldrabar, submeter os outros ("Primeiro eu, segundo eu, terceiro eu, e o resto que se f*da!")...

É a lógica do "salve-se quem puder", que justifica as "bestas negras" das nossas democracias: 

  • a corrupção ("se não fores esperto, outros o serão, chegarão primeiro do que tu, como na corrida ao ouro no Faroeste, e ficarão com tudo"); 
  • a falta de solidariedade ("se partilhares, ficas sem nada"); 
  • a desconfiança generalizada ("todos querem enganar-te, então sê tu a enganar em primeiro lugar"); 
  • o dinheiro como medida de todas as coisas"; o cinismo ("Deus manda ser bom, mas não ser parvo");
  • a inveja social, a arrogância, a estupidez, a diabolização da ciência ( e nomeadamente das ciências sociais e humanas), etc.

É uma mentalidade que, infelizmente, ainda hoje alimenta o clientelismo, o compadrio. o oportunismo, a ganância, a falta de coesão social, as crescentes desigualdades... em Portugal, na Europa, no Mundo globalizado. E inclusive em Timor, jovem país independente, lusófono.

(v) O anticristianismo (ou o cristão de fachada)

Querido Rui, cronista dos "usos e costumes de Timor Lorosae... À primeira vista, o provérbio parece alinhado com uma moral cristã de justiça e merecimento, que te é cara, mas, na realidade, é o oposto. 

O cristianismo (pelo menos na sua versão idealizada, no teu franciscanismo) prega: "Amar o próximo como a ti mesmo" (nada de "ficar com a melhor parte"); "É mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no Reino dos Céus" (ou seja, a acumulação e sobretudo a ostentação de riqueza, não é um valor intrinsecamente cristão)...

Mas a Igreja, como instituição e organização, usou e abusou destes provérbios para controlar as massas, dizendo-lhes: "Sê humilde, que o teu lugar é este"; "Se não tens, é porque não mereces", "A pobreza é virtuosa, mas a riqueza dos outros é sagrada", "Dar aos pobres é emprestar a Deus" (... e Deus paga-te com juros e dividendos, a ti que és rico e caridoso...), "Dou um chouriço a quem me der um porco"...

Ou seja: o provérbio é anticristão no fundo, mas cristão na forma, é uma ferramenta de mistificação, de dominação ideológica.

(vi) Alternativas: provérbios que combinam contigo, convosco Rui, João, Gaspar com a ASTIL (e connosco, aqui na Tabanca Grande)

Se queres um provérbio que reflita os teus valores (liberdade, dignidade, solidariedade, equidade), aqui ficam algumas sugestões reinterpretadas ou alternativas:

"Quem parte e reparte, e fica com a parte que cabe a cada um, esse tem arte e sabedoria." (A justiça não é ficar com o melhor, mas garantir que todos têm o suficiente.);

"A melhor parte é a que se partilha." (Um contraponto direto ao individualismo do provérbio original.);

"Quem não tem arte para partilhar, não tem arte nenhuma." (A verdadeira habilidade é criar abundância, riqueza, não escassez, e saber reparti-la, com equidade.)

(vii) Conclusão: um provérbio a "desconstruir", "desmistificar"...

Este provérbio, Rui (e demais leitores), é um espelho das contradições da sociedade portuguesa: 

  • fingimos ser humildes, mas adoramos os espertalhões, os populistas, os demagogos; 
  • fingimos ser cristãos, mas idolatramos quem "se safou", quem escapou à justiça,  quem está sob as luzes da ribalta;
  • fingimos ser racionais, mentalmente sãos, mas somos  bipolares, subindo aos céus em delírio com as vitórias dos nossos heróis, para logo cair nas labaredas do inferno do ressentimento, da imprecação, da demonização, quando eles falham;
  • fingimos ser solidários, mas desconfiamos, com inveja,  de quem partilha com generosidade.

É, em suma, um manual de sobrevivência num mundo injusto, mas não um guia para o tornar melhor (ou gradualmente melhor)... (**)

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(**) Último poste da série > 9 de junho de 2026 > Guiné 61/74 - P28143: Nomadizações de um marginal-secante (Luís Graça) (9): porque é que o PAIGC nunca afundou nenhuma embarcação no rio Geba Estreito (São Belchior e Mato Cão) - Parte I

Guiné 61/74 - P28165: Parabéns a você (2502): Adriano Moreira, ex-Fur Mil Enfermeiro da CART 2412 (Bigene, Binta, Guidage e Barro, 1968/70)

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Nota do editor

Último post da série de 4 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28154: Parabéns a você (2501): Jorge Ferreira, ex-Alf Mil Inf da 3.ª CCAÇ (Nova Lamego, Buruntuma e Bolama, 1961/63)

quarta-feira, 8 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28164: Historiografia da presença portuguesa em África (534): A Guiné vista por estrangeiros - I: A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard (2): Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 16 de Janeiro de 2026:

Queridos amigos,
Importa explicar ao leitor que me sinto numa fase experimental nesta tentativa de coligir importantes relatos de olhares estrangeiros sobre a Província da Guiné nascida em 1879. Estou absolutamente convencido que fazer a História da Guiné exige uma multiplicidade de relatos que se prendem com o espaço da Senegâmbia, há que ter em conta os contributos de Cabo Verde e de espaços que hoje se designam por Senegal, Guiné-Conacri, talvez mesmo a Serra Leoa. Fui atraído pela perspetiva de que na Biblioteca da Sociedade de Geografia de Lisboa se possam encontrar relatos de primeiríssima água e então este projeto teria pernas para andar, vamos confiar que há matérias palpitantes para engalanar o barco. O relato do Capitão Brosselard pareceu-me da maior utilidade e premência, Brosselard irá falar também da Senegâmbia, da terra dos Bagas e do Futa Djalon, regiões que antes de haver Província tinham bastante trato comercial com a nossa Pequena Senegâmbia. Devia esta explicação ao leitor, pois não se deve excluir que em determinado momento eu possa sentir que as fontes se secaram ou que dei com o nariz na porta.

Um abraço do
Mário



A Guiné vista por estrangeiros - I:
A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard (2):
Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette


Mário Beja Santos

Não quero induzir o leitor em falsas esperanças, peço que se tome esta iniciativa de procurar ver a Guiné pelos olhares de estrangeiros, em tempos do Terceiro Império, ou seja, a partir do último quartel do século XIX, em publicações que estejam depositadas na Biblioteca da Sociedade de Geografia de Lisboa, a título experimental. Não consigo vislumbrar se há muitos títulos interessantes que aqui se possam reportar. O tempo dirá.

Na continuação do ponto 3 que vem do anterior texto, é importante dizer que o relato do Capitão Henri Brosselard-Faidherbe me pareceu um bom ponto de partida, e espero ampliar o que ele escreve sobre a Guiné mostrando o mundo envolvente do que então se denominava por África Ocidental Francesa. Como vivemos tempos de grande imprevisibilidade, repito que vamos ver se a experiência resulta e se será possível encontrar textos de indiscutível valia. É este o aviso à navegação que faço. A publicação Le Tour du Monde era de grande qualidade e há imagens de cortar o fôlego. Quem então a dirigia tomou iniciativa de convidar Brosselard a contar o seu ponto de vista sobre a demarcação das fronteiras entre a possessão portuguesa e as francesas. O Capitão é o chefe da missão francesa parte para Bolama e interrompemos a narrativa precisamente com a descrição que ele faz da ilha e de quem a povoa. Retomando o texto anterior, damos de novo a palavra a Brosselard, não nos esqueçamos de que estamos em fevereiro de 1888.

Bolama passa por insalubre de junho a dezembro devido às chuvas que começam no fim de maio e vão até ao final de setembro, nessa época de chuvas aumenta a humidade durante as noites, o que é pernicioso para a saúde.

Os indígenas dos Bijagós são pretos rudes, mas empreendedores e navegadores intrépidos. Podemos vê-los nas suas pirogas a afrontar o mar mesmo no mau tempo. Na época do tráfico negreiro multiplicaram-se as incursões dos Bijagós no continente, pareciam piratas costeiros, raptavam os habitantes para os vender aos negreiros. No século passado vendiam de 300 a 400 cativos por ano; a sua obsessão pela aguardente levava-os mesmo a venderem-se uns aos outros. Todavia, os negreiros tinham pouco interesse nos escravos Bijagós.

Levados para o continente americano, só trabalhavam à custa de pancada, procuravam sempre fugir e acabavam por se enforcar.

As ilhas do arquipélago são muito vicejantes: a praia coberta de areia fina, as árvores chegam à beira-mar, as palmeiras e as laranjeiras formam espessas florestas. A vegetação é sempre verde. As bananeiras e laranjeiras dão frutos deliciosos. São ilhas encantadoras, mas o seu acesso ao navegador é dos mais arriscados, pois na orla marítima há muitos bancos do lodo mole, misturados de areia que as correntes deslocam muitas vezes, o que impõe imensa prudência na navegação; as correntes são numerosas e fortes, os barcos são facilmente desviados da rota ou podem mesmo naufragar. Quando um navio naufraga, surgem pirogas de todos os pontos do horizonte e a coberta do navio naufragado é tomada de assalto pelos Bijagós.

1 - As possessões portuguesas costeiras estavam dependentes da administração de Cabo Verde, do arquipélago chegava um Governador que dependia diretamente do Governador de Cabo Verde, dispunha de alguns subordinados e de uma centena de soldados, a maior parte eram indígenas de Cabo Verde.
Os portugueses ocupavam na Guiné Ziguinchor, Cacheu e Farim, Bissau e Geba. Em 1870 decidiu-se agrupar estes entrepostos em colónia autónoma. Bolama foi escolhida a Bissau como capital devido ao seu clima ser reputado como mais saudável.

Para criar recursos financeiros, estabeleceram direitos alfandegários e um ruinoso importo sobre a terra, dito imposto predial rural que imobilizou logo as tentativas agrícolas que estavam em curso em diferentes lugares devido a iniciativas de casas comerciais. A crise agrícola foi enorme, seguiu-se a crise comercial que atingiu muitos estabelecimentos franceses, que eram responsáveis por quase a totalidade do comércio da Guiné Portuguesa: Blanchard e Companhia; J.-B Pastré e Companhia; Maurel e Prom; Thiraiziot, Meinet; Oesliner de Conning. Estas casas eram as únicas a deter o monopólio da exportação, os estabelecimentos portugueses davam-lhe colaboração. A importação, salvo o tabaco que vinha da América, era essencialmente europeia. Hoje a importação diminuiu e a exportação não se dirige mais exclusivamente a Marselha, pois uma linha de vapores portuguesa serve a Guiné com um serviço regular, o que permite aos comerciantes portugueses poderem abastecer-se diretamente da metrópole. Parece à primeira vista que para eles seria mais fácil fazer concorrência ao comércio francês, já que eles estão protegidos por direitos alfandegários e municipais. Mas tal não acontece: estes comerciantes não têm um crédito suficiente para comprar as mercadorias que só são fornecidas em grandes quantidades e com obrigatoriedade de serem pagas num lapso de tempo curto; por isso os comerciantes portugueses continuam a fazer os seus negócios com as casas francesas.

2 - Apesar dos recursos de toda a natureza que a Guiné quase possui, o sistema de impostos introduzidos pela Administração arruína a colónia. Constatamos com pesar que os portugueses não parecem querer alterar esta deplorável situação. E na falta de artigos, porque não há por exemplo tabacos portugueses, encoraja-se o contrabando.

Desde a minha chegada a Bolama que me ocupei do recrutamento de transportadores. Pretendia recrutar entre 20 a 30 destes indispensáveis auxiliares. Em Bolama deparei-me com uma dificuldade intransponível para encontrar os auxiliares. O Tenente Oliveira, chefe da delegação portuguesa tinha arrebanhado ali todos os que estavam dispostos a cooperar com esta missão e dispunha já 50 carregadores, o que era ainda um número insuficiente. E punha-se, pois, procurar o aprovisionamento fora de Bolama.

Ficou decidido que a canhoneira Guadiana transportaria até Bissau os senhores Galibert e Cabral que iriam tentar recrutamento dos carregadores. Partiram a 1 e regressaram a 3, não tinham tido o menor sucesso. Decidi imediatamente que a comissão francesa deveria dirigir-se para o rio Nuno havia aqui uma maior possibilidade de arranjar transportadores que na colónia portuguesa.

Os aprovisionamentos, organizados em dois carregamentos distintos e destinados a subir mais tarde o rio Geba foram embarcados para Bissau, onde o senhor Galibert os confiou ao representante da casa Blanchard. Depois de negociar com a comissão portuguesa, acertámos o encontro em Kandiafara em 12 de fevereiro, por se supor que esta povoação estava situada na linha fronteiriça que tínhamos o propósito de determinar.


Praia de Bolama: Porto Beaver, desenho de Th. Weber, segundo uma fotografia
Territórios franceses da Senegâmbia e do Sudão, com destaque para a Guiné Portuguesa
Capitão Henri Brosselard, gravura de Thiriat, segundo uma fotografia
Carregadores e guias, desenho de E. Ronjat, segundo uma fotografia
Ataque de abelhas, desenho de Th. Weber, segundo uma fotografia
O rio Grande do Geba, desenho de P. Langlois, segundo uma fotografia
Interior do estabelecimento comercial Maurel e Prom em Bolama, desenho de Taylor, segundo uma fotografia
Carta do território francês do Casamansa e distrito do Cacheu, feita pelo Capitão Henri Brosselard, dá perfeitamente para ver a região do Casamansa que detinha presença portuguesa, com sede em Ziguinchor, e que nos foi surripiada pela Convenção Luso-Francesa de 12 de maio de 1886. A República do Senegal vive em permanência a rebelião do Casamansa, por razões fortemente étnicas, os povos do Casamansa, Djolas, não querem pertencer ao Senegal.

(continua)
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Nota do editor

Último post da série de 1 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28147: Historiografia da presença portuguesa em África (533): A Guiné vista por estrangeiros - I: A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard (1): Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette (Mário Beja Santos)

Guiné 61/74 - P28163: III Viagem a Timor-Leste: 2019 (Rui Chamusco /ASTIL) - Parte X : semana de 7 a 13 de abril: Ainda sobre o "barlaque": quem parte e reparte e não leva a melhor parte, ou é tolo ou não sabe da arte ?!







... Não, em Timor-Leste não se pode aplicar, nas negociações do barlaque, o provérbio popular português: "Quem parte e reparte, e não leva a melhor parte, ou é tolo ou não tem arte". Aplicar esse provérbio seria ignorar completamente a lógica do sistema. O barlaque não é um negócio de soma zero ou uma partilha de bens onde um tenta passar a perna ao outro; não é asimples e tradicional "caça ao dote";  é um intrincado tecido de alianças, reciprocidade, regulação, partilha e equilíbrio social entre famílias (umane e fetosan). Não se trata de "levar a melhor parte", mas sim de selar um compromisso e garantir o respeito mútuo. Parece ser uma estratégia "win-win" (ganhas tu, ganho eu), pese embora a contestação deste "construto cultural" por parte da geraçáo mais recente, escolarizada e crítica, e nomeadamente dos que defendem a "igualdade de oportunidades" para as mulheres numa sociedade que ainda é "patriarcal e falocrática"...
 
"Prompt e orientação editorial: Luís Graça | Texto e imagem: Rui Chamusco (2019) | Geração gráfica assistida por IA: Google (2026), Gemini (versão de 7 de julho de 2026) [Grande modelo de linguagem]. Disponível em: https://gemini.google.com/"


1. Continuamos a publicar e excertos das crónicas da III Viagem (2019) (*),  realizada pelo Rui Chamusco a Timor-Leste, enquanto cofundador e dirigente da ASTIL, a associação portuguesa de solidariedade com Timor Leste (ASTIL), que já montou, equipou e pôs a funcionar uma escola nas montanahs de Liquiçá (Manatti / Boebau), a Escola de São Francisco de Assis (ESFA), e faz o "apadrinhamento" de crianças em idade escolar. 

O nosso amigo (e membro da Tabanca Grande), Rui Chamusco, professor de música reformado, a viver na Lourinhã, vai a Timor Leste todos os anos desde 2016 (exceto na pandemia, 2020, 21 e 22).

São 3 dias de viagem até Díli!... Fica lá 3 ou 4 meses... Ele já tem 80 anos e há dias fez uma operação cirúrgica,delicada,   de que está a recuperar felizmente bem... Temos publicado as suas crónicas anuais no nosso blogue. 

Tem uma história de vida inspiradora. É um exemplo vivo de como a solidariedade portuguesa com Timor-Leste continua a ser concreta, persistente e transformadora, mesmo décadas após a independência (em 2002). É também um exemplo vivo, o dele e da associação que ajudou a fubdar (a ASTIL),  de amor à lusofonia. Essa história merece ser conhecido pelos nossos leitores, os amigos e camaradas da Guiné.

Lendo as suas crónicas (que ele reuniu numa brochura em pdf, com cerca de 3 centenas de páginas), ficamos a saber muito mais  sobre a história, a cultura, a geografia, a sociodemografia, a idiossincrasia daquele país, que nos é tão querido, membro da CPLP.

Já aqui publicámos excertos das crónicas da I viagem (2016), II (2018) e VI (e última) (2025). Depois da pandemia,  o Rui voltou a Timor-Leste em 2023 (IV viagem), e anos seguintes: 2024 (V viagem) e 2025 (VI viagem).

Este ano talvez lá volte, mas apenas pelo Natal, se Deus Nosso Senhor e a Senhora da Saúde o permitirem. Sem esquecer, claro, o seu mentor,  São Francisco d' Assis, que ele cita amiúde.

Além da construção, organização e funcionamento da Escola, a par do "apadrinhamento de crianças em idade escolar", a pequena ASTIL (que tem sede em Coimbra e delegação no Sabugal)  já construiu a  "casa do professor" e adquiriu uma viatura todo-o-terreno ("pick up"), indispensável para se chegar a Boebau, na montanha. Nestas crónicas de 2019, há referência a dificuldades e limitações que, felizmente, já foram superadas. Falta, finalmente, resolver o problema da colocação, definitiva, de professores de carreira. A escola continua a ser privada e inteiramente financiada pela ASTIL (e os pais dos alunos).

Em Díli costuma ficar na casa do irmão mais novo do Gaspar Sobral (outro cofumdador e dirigente da ASTIL, luso-timoresne, retornado de Angola, onde foi topógrafo), o "Eustáquio" (João de Araújo Moniz de Oliveira Sobral) (que de 1975 a 1978, andou fugido dos indonésios nas montanhas de Liquiçá, com a irmã mais nova e a mãe, tinha então 14 anos!).



Rui Chamusco, professor de música, reformado, é cofundador e líder da ASTIL - Associação dos Amigos Solidários com Timor Leste: é natural ds Malcata, Sabugal; vive na Lourinhã; é membro da Tabanca Grande, tem 70 referências no blogue; à direita, o Gaspar Sobral, o luso-timorense, retornado de Angola, casado com a Glória Sobral, natural de Sabugal: foi este casal que meteu o Rui nesta aventura solidária (que, para todos, tem sido gratificante).


III Viagem a Timor-Leste :  2019 (Rui Chamusco, ASTIL)

Parte X:  semana de 7 a 13 de abril: ainda "a arte de negociar no barlaque"  


07.04.2019, domingo  - A alegria de dar e de receber...

Hoje foi dia de entregar os donativos que os padrinhos enviaram para os seus afilhados durante o mês de março.

Acredito que quem dá sente uma alegria enorme de poder partilhar com os outros aquilo que lhes faz falta. Mas gostava que imaginassem a grande alegria de quem recebe, de quem não tendo quase nada se vê com uma nota de dez ou vinte dólares na mão. Até os olhos brilham!... Esta gente agradece profundamente com sorrisos abertos e sinceros. Não há melhor paga para quem dá.

Desta vez, porque estava presente, quis fazer pequenos videos aos afilhados que, em
português, mandaram uma pequena mensagem às madrinhas e aos padrinhos. Espero
que todos os tenham recebido em boas condições.
E, como diz uma canção:

 “Dar do pouco que se tem / Ao que tem menos ainda /
Enriquece o doador / Faz sua alma ‘inda mais linda”. 

“ Fica sempre um pouco de perfume / Nas mãos que oferecem rosas / Nas mãos que sabem ser generosas.” 

Não há palavras mais certas para definir a ação de dar. Agora imaginem o nosso mundo se
cada um doasse um terço daquilo que lhe sobra. Tantas necessidades seriam resolvidas; tantas bocas famintas seriam saciadas.

“Ó Mestre, fazei que eu tenha mais prazer em dar do que em receber; em consolar do
que ser consolado; em amar do que ser amado. Porque é dando que recebemos; é
consolando que se é consolado; é amando que se é amado. E é morrendo que se vive
para a vida eterna.” (São Francisco de Assis)

08.04.2019, segunda feira  - Pontos nos iiis... O programa de "apadrinhamento"

O programa de apadrinhamento tem nos colocado algumas questões, por parte dos beneficiários dos donativos. Embora todos saibam que o dinheiro dos donativos deve ser aplicado no processo escolar das crianças/jovens apadrinhadas, nomeadamente no pagamento das despesas escolares ( material escolar, propinas, fardas, etc.), fica-nos a dúvida o que farão as famílias ao dinheiro remanescente. Será gasto em quê? Em necessidades básicas (alimentação)? Em gastos surperfulos?

Foi por isso que nesta entrega de março fizemos questão de lembrar uma vez mais a da boa aplicação dos donativos em dinheiro que os padrinhos/madrinhas lhes vão enviando, e da obrigação de darem sinal do aproveitamento escolar com a apresentação no final de cada período da caderneta.

Sugerimos-lhes também cada afilhado/a peça a abertura de uma conta jovem, na CGD / BNU, onde possa depositar o dinheiro não gasto, constituindo assim um fundo económico que lhe possa ser útil na sua vida de estudante. Nós próprios nos comprometemos em falar com a gerência da Caixa, a fim de serem criadas as condições para estas contas.

Oxalá que o esforço que todos estamos fazendo por melhorar as condições de vida desta crianças e jovens necessitados se traduzam em aproveitamento real e solução dos seus problemas e necessidades.

ASTIL - Projeto de Solidariedade em Timor Leste
Programa de Apadrinhamento de Crianças Necessitadas

Estimadas madrinhas e padrinhos

Esperamos que estejam todos bem. Nós, cá por Timor. também estamos bem. Antes de mais, queremos agradecer a cossa colaboração e generosidade neste Programa de Apadrinhamento. As(os) vossas(os) afilhadas(os) estão vos profundamente reconhecidos, e pena é que a distância não nos permita um encontro com todos eles. Valem-nos ao menos as novas tecnologias para que, de quando em quando, consigamos comunicar. De nossa parte tudo faremos para que a relação de amizade seja fomentada e fortificada.

Esta circular tem a finalidade de vos darmos conta de como este programa se está a desenvolver e de vos informar das medidas que estamos a tomar em relação aos vossos donativos.

Como sabem, os donativos depositados na conta da Astil, em Portugal / Agência de Sabugal, são transferidos da CGD para a conta solidária criada no BNU Timor /CGD. No final de cada mês é feita a folha mensal de donativos, cuja soma será levantada por quem de direito no BNU, a fim de ser entregue pessoalmente a cada beneficiado.

Podemos informar-vos de que, até hoje, já foram entregues 9.259 dólares.

Como está claramente explicado nas orientações deste programa que foram enviadas a cada madrinha e padrinho, estes donativos têm como prioridade ajudar as famílias nas despesas escolares dos seus filhos. Estamos a ser exigentes com essas famílias, explicando-lhes cada vez que vêm receber os donativos, que o dinheiro recebido deve ser aplicado na educação e material escolar dos apadrinhados. Como não temos meios de controlar essa aplicação, foi sugerido que o dinheiro remanescente dessas despesas seja depositado na conta jovem que a CGD/BNU dispõe, para que se constitua um fundo disponível de modo a permitir a continuidade dos estudos, inclusive os estudos universitários. 

Nós mesmos ficámos de nos encontrar com a gerência desta agência da CGD a fim de facilitarem a abertura da conta jovem para estas crianças/jovens.

Não queremos que fiquem dúvidas sobre a aplicação dos vossos donativos. Este programa foi criado de raíz, e portanto com muitas imperfeições. Mas continuaremos sempre a fazer como melhor sabemos, tentando sempre que a honestidade e transparência sejam o nosso guia.

Acreditem, que nem um cêntimo do dinheiro depositado será retirado ou desviado do fim em vista, sendo entregue na íntegra aos seus destinatários.

Queremos continuar a merecer a vossa confiança e, enquanto pudermos, tudo faremos para que o programa seja bem cumprido e obtenha os resultados esperados. Com estima e consideração por todos vós,
Rui Chamusco / João Moniz / Gaspar Sobral


09.04.2019, terça feira  - “ A ver os aviões!"... A despedida 
do comandante Rui Pedro

Tinha prometido ao amigo Rui Pedro que estaria ao meio dia no aeroporto de Díli para lhe dar um abraço. E assim foi. Sem nada mais combinarmos, chegámos ao mesmo tempo. Depois de eu e o Amali apearmos da mota, e preparando-nos para ir até às portas do chek-in, passa ao nosso lado o automóvel que transportava o nosso viajante. Encontro mais fácil não podia haver.

Passados alguns minutos a ver os aviões e a controlar o tráfego aéreo, chegou a hora de dizer adeus a este amigo que, para além de primo, é um “gajo porreiro”. Sei que este dias que irá passar em família serão bem aproveitados. Cá por mim, até começo já a ter inveja. As saudades já apertam e começam a fazer mossa. Quando será a minha vez? Ainda não sei. Mas sei que ela há-de chegar.

Boa viajem,  meu amigo! Que tudo se passe segundo os teus desejos.

Sei que em Lisboa ou no Algarve todos te esperam ansiosamente. Sei que vão ser muitos os beijos e os abraços: sei que a família e os amigos te vão cobrir de atenções.

Sei que será bom, muito bom.

Cá te esperamos de volta, a estas terras do oriente, a este Timor Lorosae que nos enfeitiçou de tal maneira que já não podemos viver sem ele.

Rui meu homónimo: Faz o favor de seres feliz!...

12.04.2019, sexta feira  - Ver para crer... Cinofagia, carnismo...

Que a carne de cão é consumida e apreciada em países asiáticos e do oriente, já não é novidade nenhuma. Nas II crónicas descrevi o que aconteceu aqui em 2018, em Ailok Laran, com a desgraçada Prety, a cadela cá de casa que, num abrir e fechar de olhos, desapareceu do mapa. Foi chorada a sua sorte como tendo sido vítima de um caçador e comerciante de carne de canídeo, cuja alcunha é “cara de cão”.

Hoje, o que vi, veio confirmar esta crença “ver para acreditar”.

A Umbelina, uma moça da montanha de Liquiçá que vive connosco para estudar na UNTL, veio chamar a atenção que estava ali um cão morto. Verificado o óbito do animal, depressa reconheceram que era o cão do Ti Carlos, um vizinho aqui ao lado, que prontamente o procurou e arrastou até à berma do caminho que passa junto a estas casas. Chamou um rapaz da vizinhança, e apontou para o bicho dizendo: "se vos interessa levai e comei.” 

E assim foi. O jovem pegou no animal e levou não sei para onde a fim de ser chamuscado, lavado e preparado para o petisco. Qual visto e carimbo de veterinário, qual quê?! Está morto, e o seu corpo foi levantado do local sem autorização do delegado de saúde. Sem autópsia que explique a causa da sua morte, sem qualquer outra justificação. Vai ser devorado por apetites desenfreados, que nem sequer pensam que o “cão é o animal mais fiel ao homem.”

E, perante a nossa repugnância por tal facto, ainda gozam connosco convidando-nos para saborear esta iguaria. 

- Ti Rui, quer comer que eu vou comprar?

Não! Não quero que a minha mente e o meu corpo se alimentem de tais afetos e sentimentos. Prefiro ementas saudáveis e sem escrúpulos de consciência. Prefiro guardar memórias daqueles animais de estimação que tanto nos ajudaram brincando connosco, fazendo-nos companhia durante anos, dias e horas. Boas lembranças destes amigos que, mesmo ausentes, nos detectam seja onde for, graças ao seu sentido apurado do olfato.

13.04.2019, sábado - Histórias e mais histórias... Ainda o barlaque

Hoje, ao pequeno almoço, tivemos um suplemento extra: histórias que são ou foram realidades, integradas no contexto cultural deste povo timorense. Ainda enquanto bebíamos o café, uma senhora chamou por alguém da casa, e coube ao Eustáquio atendê-la, pois estava próximo do chamamento. 

Era a mãe de um rapaz que lhe vinha pedir para ser negociador da família, no pedido de casamento. O Eustáquio como já referi noutros relatos, é muito solicitado para tal múnus, e tem por isso uma larga experiência nestas negociações. Não aceitou por sobrecarga de trabalhos em mãos, mas indicou alguém para o fazer.

Foi então que o Eustáquio e o Gaspar começaram a contar histórias e mais histórias
ligadas a este evento que antecede o “Barlak” (ou barlaque, em português). O Gaspar diz que, com 21 anos, foi o negociador do seu irmão Zé, o mais velho dos sete manos. Ele também sabe, mas nada que se compare com o Eustáquio. Dizem eles que nenhuma conversa se faz diretamente. É tudo por metáforas, o que exige do negociador uma agilidade mental vonsiderável. Ele tem de entender o que o outro negociador lhe diz por imagens, assim como o seu interlocutor tem de entender as que ele utiliza. 

Por exemplo: "estando eu a regressar de uma longa viajem, passei por aqui e encontrei uma árvore frondosa, carregada de mangas saborosas, etc, etc...” 

Tudo depende da imaginação e do sentido poético dos negociadores. Tudo podem dizer excepto insinuar ou ofender qualquer das partes envolvidas. É uma verdadeira obra de arte.

Os relatos destas negociações darão matéria suficiente para uma verdadeira obra literária. O Gaspar até disse que um dia iria tentar fazer uma gravação (com a devida autorização), tendo em vista uma publicação escrita.

Normalmente, chega-se sempre a bom termo nestas negociações. Como sempre, pede- se mais do que o que se vai receber. Mas o bom senso dos negociadores encontram sempre uma boa solução, que é o meio termo. O negócio envolve dinheiro e bens.

Aqui em Timor são os kraus (bois), os fahis (porcos), as bibis (cabras e cabritos) e os manus (galos). E muitas famílias criam estes animais quase exclusivamente para estas ocasiões. Há que evitar as multas que podem advir por má negociação, nomeadamente qualquer palavra ou atitude que ofenda a família da futura noiva, e que se podem traduzir no dobro do que têm de pagar ou de dar.

Quem sabe, sabe. E vivam os negociadores!...

(Revisão / fixação de texto, negritos, itálicos,  título: LG)
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Nota do editor LG:

(*) Último poste da série > 23 de junho de 2026 > 23 de junho de 2026 > Guiné 61/74 - P28126 : III Viagem a Timor-Leste: 2019 (Rui Chamusco /ASTIL) - Parte IX : semana de 1 a 7 de abril de 2019: há mais de 40 mil timorenses a pedir a nacionmalidade portuguesa