1. Nunca vi o chefe de posto de Bambadinca. Diziam que era cabo-verdiano. Tal como a professora primária, Dona Violete. E provalmente o encarregado da Casa Gouveia. Sei que havia uma pequena comunidade cabo-verdiana em Bambadinca. E que era cristã. Também havia, pelo menos, uma família de origem sírio-libanesa. Civis, "paisanos". Comerciantes, incluindo o Fernando Rendeiro (casado com uma guineense, mandinga, e pai de uma ranchada de filhos) e o Zé Maria (que a tropa dizia que era "turra"). De origem metropolitana, estes dois últimos. Mas todos apartados da hierarquia militar. Havia 7 casas comerciais em Bambadinca mas eu nunca as contei. Também nunca vi o administrador de Bafatá (Guerra Ribeiro, transmontano de Chaves; será depois promovido a intendente).
Nunca vi o chefe de posto nem a professora, que viviam connosco dentro do perímetro de arame farpado, serem convidados para cerimónias militares ou festas no quartel (Natal, por exemplo).
Racismo, segregação, discriminação ?... Temos de ser cautelosos com as palavras e sobretudo evitar os "chavões" e o "sociologuês"...Na metrópole, militares e civis também não conviviam... Como eu costumo dizer, simplificando a realidade, éramos os "três estados": clero, nobreza e povo...Na minha terra, eu também nao convivia com a elite local, encontrávamo-nos apenas na igreja, mesmo assim enm espaços segregados...
Na Guiné, os oficiais e os sargentos milicianos e as praças eram mais abertos e conviviam, informalmente, com os civis. Nalguns casos, poderia haver afinidades (pessoas da mesma terra ou região). Falo de Bambadinca, onde estive, de julho de 1969 a março de 1971.
O Rodrigo Rendeiro, que estava na Guiné desde os 17 anos, e que era natural da Murtosa, convidava alguns de nós, milicianos, para comer o seu famoso "chabéu de galinha". Mas nunca nos apresentou a cozinheira, que era a mãe dos seus filhos. Teve uma aventura rocambolesca que já aqui contámos, quando se conseguiu evadir dos "libertadores" do PAIGC... Já faleceu. Mais recentemente ficámos a saber que tinha sido "informador" da PIDE/DGS e que teve problemas aind a na Guiné a seguir ao 25 de Abril. (Tal como Anjos de Carvalho que, em 1973, aparece em listas dos colaboradores militares, remunerados, da censura para as obras literárias...).
2. As fotos acima mostram uma cena, que já em tempos cataloguei, há dez anos atrás (*), como "algo insólita", no TO da Guiné, numa zona de guerra, em Bambadinca, uma festa de batizado para a qual (tal como para a boda), como se costuma dizer, só vão os convidados...
Mas, como todas as "fotos de família", estas têm algo de comovente... Perguntei-me na altura: quem serian estas pessoas, por onde andanriam então (em 2016) ... Algumas , eu conhecia-as, tinham sido meus camaradas... E dos civis, meus vizinhos, nem sequer tinha uma vaga lembrança...
Afinal, morávamos perto, uns dos outros, durante, quase dois anos... Espantoso: eu vivia a 100 metros da escola, nunca vi, "ao vivo", a professora dona Violete (nem a sua mãe, que vivia com ela, na "casa da professora", anexa à escola primária). Tal como nunca vi o chefe de posto, nem me lembro de ter entrado no seu "estaminé"...
O Fernando Andrade Sousa (ex-1º cabo aux enf da CCAÇ 12, 1969/71), que vive na Trofa (e que está doente, infelizmente, ele que foi uma dos mais entusiásticos participantes e organizadores dos convivios anuais do pessoal de Bambadinca desde os anos 90), já não se lembrava bem de toda a gente, muito menos dos civis.
Disse-me ao telefone que;
(i) ele e o alferes Carlão eram os únicos representantes da CCAÇ 12;
(ii) o Carlão foi convidado para padrinho possivelmente por ser da terra ou da região (Trás -os-Montes) de alguém da família da criança;
(iii) a criancinha batizada era da "Casa Libanesa", de Bambadinca;
(iv) ele, Fernando, "caiu lá de paraquedas", foi convidado poque fazia parte do pessoal do serviço de saúde, cujo chefe era o alf mil médico Joaquim Vidal Saraiva, da CCS/BCAÇ 2852 (que de ter feito o parto, e que acabaria a comissão em maio de 1970) (**);
(v) o Silvino Aires Lopes Carvalhal (fur mil, SAM, CCS/BCAÇ 2852) também esteve presente;
(vi) ficou de me mandar (mas não mandou...) maia fotos deste "batizo"
O casal libanês (ou ela, de origem libanesa, e o pai, português da metrópole, transmontano) que vivia em Bambadinca, moravam possivelmente numa das casas junto à rampa de acesso ao quartel, do lado direito, talvez em frente à casa e loja do Fernando Rendeiro (que ficava do lado esquerdo), e que eu frequentava com alguma regularidade, tal como o bar / tasco do Zé Maria...
Os Rendeiro não aperecem aqui. Possivelmente o jovem casal, os pais da criança, aparecem, na foto nº 1 B, ao centro, tendo a atrás os avós e possivelmente um tio (o mais forte).
A cerimónia religiosa foi em Bafatá, onde a foto de grupo (nº 1) é tirada. Quer dizer que não havia padre em Bambadinca. O padre era missionário, posssivelmente italiano (foto nº 1 B). Os missionáriso católicos italianos tiveram uma relação difícil com as autoridades portuguesas. Alguns foram presos ou expulsos (o missionário de Catió, o de Samba Silate....).
Os padrinhos da criança foram o alf mil António Manuel Carlão (Mirandela, 1947 - Esposende, 2018), ainda solteirinho, sem a sua Helena que há de vir depois morar para Bambadinca, e a única professora, branca, que lá havia, a Dona Violete da Silva Aires (que segura a criança, e que era solteira, nascida em Cabo Verde; vivia no edifício da escola, com a mãe). (Foto nº 1 D).
O Fernando lembra-se de ter sido convidado, mesmo sem conhecer (nem privar com) a família. Dos militares, da CCS/BCAÇ 2852 (incluindo Carvalhal) e da CCAÇ 12 (o Fernando), terão sido convidados o pessoal dos serviços de saúde e do reabastecimento.
O fur mil enf João Carreiro Martins não aparece aqui, o que não admira: ele recusava-se a sair do arame farpado... Aparece o alf mil médico Joaquim António Vidal Saraiva (1936-2015), acabado de chegar de Guileje em novembro de 1969 (foto nº 1 C) e que seguramente terá feito o parto da mamã libanesa...
As fotos devem ser de finais de 1969. E eu achava que deviam merecer generosos comentários. Se o Vidal Saraiva não tivesse morrido em 2015 (**), possivelmente estes fotos iriam ficar esquecidas no álbum do Fernando Sousa que pediu, a instâncias minhas, a um sobrinho para as digitalizar...
3. Estamos a falar de cosias que a historiografia académica não tem abordado... E que são delicados como a "estigmatização" dos civis, comerciantes, metropolitanos, cabo-verdianos ou libaneses, bem como a administraçáo ultramarina onde os cabo-verdianos estavam sobrerrepresentados, uns e outros "mal vistos" pela PIDE e pela tropa... ( Mas quem é que queria ir viver e trabalhar para a Guiné?!)
Mal vistos, e depois marginalizados, com Spínola e a sua política de africanização da guerra e da administração. O slogan "A Guiné para os guinéus" era também uma provocação para o PAIGC de Amílcar Cabral.
Durante a fase final da guerra da Guiné, a política de Spínola procurou, de facto, promover uma elite política, militar e administrativa guineense, reduzindo o peso relativo das tradicionais elites cabo-verdianas na administração do território. (Administração que praticamente foi substituida por quadros militares.)
Como muitos cabo-verdianos eram vistos pelos serviços de informação e pela tropa como potenciais simpatizantes do PAIGC, desenvolveram-se atitudes de desconfiança e, por vezes, de estigmatização.
Contudo, essa realidade deve ser entendida mais como uma estratégia política de reequilíbrio de poderes e de conquista das populações guineenses do que como uma política oficial de discriminação racial contra os cabo-verdianos (que eram minorias relativamente influentes na administração, tal como os libaneses, no pequeno comércio).
Foto nº 6 > Guiné > Zona Leste > Sector L1 > Bambadinca > CCS/BART 2917 (1970/72) > Festa de anos do 1º srgt Fernando Brito. Convívio no bar de sargentos, em meados de 1970: ainda estávamos em "lua de mel", os "velhinhos" da CCAÇ 12, e os "piras" do BART 2917, aqui representados pelo 2º Comandante, maj art José António Anjos de Carvalho, sempre fardado, sempre "militarista", amante do fado de Coimbra (já falecido, no posto de cor art ref), e o 1º srgt art Fernando Brito (1932-2014) (falecido no posto de major, depois de ter feito a Escola Central de Sargentos)...
À direita do Brito, a Helena, mulher do falecido alf mil at inf António Manuel Carlão, do 2º Gr Comb da CCAÇ 12 (o casal vivia em Fão, Esposende): à direita do Anjos de Carvalho, a esposa do major art, Jorge Vieira de Barros e Bastos (mais familiarmente conhecido por Bê Bê, era o major de operações do comando do BART 2917; mais tarde cor art ref); e à sua direita, a Isabel, a esposa do José Alberto Coelho, o fur mil enf da CCS/BART 2917 (o casal vive hoje, ou vivia até há uns anos, em Beja). Eram as únicas "três mulheres brancas", esposas de militares, que viviam no "quartel".
Em Bambadinca, mesmo dentro do perímetro de arame farpado onde viviam a professora, branca, cabo-verdiana (e a sua mãe), e o chefe de posto, também cabo-verdiano, os espaços de convívios eram socialmente segregados. Os oficiais vinham ao bar e messe de sargentos, os sargentos não podiam frequenta o bar e a messe de oficiais, os civis também não conviviam com a tropa dentro do "quartel"...E as praças tinham o seu "refeitório e cantina"...
Foto: © Vitor Raposeiro (2009). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]
(***) Último poste da série > 21 de junho de 2026 > Guiné 61/74 - P28118: Nomadizações de um marginal-secante (Luís Graça) (7): duas "retiradas finais": Bissau (15/10/1974) e Saigão (29-30/4/1975): (dis)semelhanças