Vamos começar pelas contribuições dos camaradas Hélder Sousa e Belarmino Sardinha
2. Hélder Sousa
Caríssimo Zé DinisEnviaste-me um texto sob o título acima indicado e pedes colaboração pela leitura e apreciação do mesmo.
Não me recuso a fazê-lo, embora não alcance o que realmente pretendes.
O que escreves não tem oposição da minha parte.
No início, partes das tuas preocupações familiares para teorizares, e bem, sobre a 'formatação' das mentes, das opiniões, do sentir (ou até da ausência disso tudo), para concluíres sobre a 'perversão do conhecimento'. Nada a opor ao que dizes e te preocupa, a não ser o reforço da tua ideia referindo exemplos do dia-a-dia, até também no Blogue, o que é perfeitamente natural, pelo menos para mim, que teorizo ser o Blogue uma amostra relativamente representativa do universo nacional.
Segues depois com uma frase interessante, sendo até óbvia, e que é: Porque, na verdade, se não sabemos, não temos opinião própria. Apenas reproduzimos opinião, de sentido continuado, ou de sentido contrário. Isto depende de alguns pressupostos enquanto ouvintes, ou leitores, de opiniões. Isto leva-nos a considerar que a formação da opinião deve sempre ter por base uma sólida consistência, obtida por experiência própria ou por busca de conhecimento.
Aqui há um perigo.... que é "se não estavas lá, não podes falar, não tens conhecimento directo, não tens experiência disso que estás a falar", ou também um outro perigo que é o de se questionar sobre as "fontes" onde se vai adquirir o conhecimento 'não-directo'.
Quanto à primeira parte é muitas vezes um 'argumento' para 'calar' o interlocutor, mas é falácia. Então como se pode falar da viagem de Vasco da Gama? 'Não estavas lá'!. E da defenestração do Miguel de Vasconcelos? 'Também não estavas lá'! É claro que se pode 'falar' sobre esses assuntos, o que se tem é de ter a cautela de dizer 'segundo o meu ponto de vista', ou 'segundo a minha opinião', ou ainda 'de acordo com o que li sobre isso'. Torna-se de facto, dessa forma, uma opinião pessoalizada, mesmo tendo por base uma informação recolhida algures.
Quanto à escolha das 'fontes', pois isso é um outro problema. Uma atitude intelectualmente honesta é aquela que tenta fazer a prova do que lê, coloca a dúvida metódica e tem cautelas e reservas em 'enfileirar' desbragadamente na primeira corrente que aparece. Um pequeno exemplo: quantas vezes já lhes apareceu um pretenso (repararam? escrevi 'pretenso'!) documento 'oficial' do Rosa Coutinho a tornar 'público e notório' o seu comprometimento com o MPLA? E questionaram sobre a veracidade dele? Por um bocadinho que fosse? Pois, a tal dúvida metódica...
Calculo que os cuidados que atrás refiro podem ser aqueles que justificam a tua frase, que se segue: E como somos sociais, pode acontecer ocasiões em que, sem termos a sabedoria adquirida sobre certa matéria, apenas o conhecimento que resulta do contacto com ela, sem ocasião para reflectir interpretativamente, apesar disso, somos capazes de tomar posição, defendendo-a, ou atacando-a, com maior ou menor tenacidade. E o essencial, nessas alturas, não passará de uma treva. Mas pode-se formar correntes de opinião e conduzir as pessoas por caminhos errados, daí, que me pareça necessária alguma temperança antes de enfileirar em movimentos.
Segues depois referindo situações que frequentemente se encontram no nosso Blogue e parece-me que propões que nos documentemos o melhor e o mais possível para defender as posições que entendermos tomar.
Parece-me justo! Mas acho que, de um modo geral, é aquilo que fazemos.
Olha, há pelo menos uma questão que é bem notória e que acho se deve ter algum cuidado em abordar. Trata-se do velho 'cavalo de batalha' sobre a alegada tese da 'guerra perdida' e que tem sido sistemática e metodicamente colocado de modo a tentar ganhar cada vez mais adeptos para o combate a essa alegada teoria. Às vezes parece-me que se procura passar do combate à teoria da 'guerra perdida' para a tese da 'guerra praticamente ganha', captando as sensibilidades daqueles que conseguem convencer que estão a ser chamados de cobardes e depois....
Portanto, como vês, para comentar o teu texto acabei por me espraiar por diversas áreas pois não atinei com o teu objectivo concreto. Posso, em resumo, dizer que concordo com a sua substância, que comungo das tuas preocupações e que estou atento às tuas sugestões.
Um abraço
Hélder
3. Belarmino Sardinha
Meu caro Zé Dinis,Respondo ao teu texto, começando por dizer que o vi já tarde e depois de ter lido a resposta que o Hélder enviou, estou assim beneficiado e mais rico na leitura que ambos me proporcionaram e mais ainda na reflexão a que fui obrigado. Ainda bem que existem amigos que nos levam a pensar, pela nossa cabeça evidentemente, caso contrário era uma vida muito menos interessante, digo eu.
Fiquei um pouco como o Hélder, sem perceber concretamente a razão ou o objectivo, mas é um desafio interessante e beneficiando da análise soberba do Hélder, com a qual concordo, parece-me compreender o que dizes e pretendes. Levantas uma questão pertinente, quando alguém fala de coisas que desconhece e/ou faz afirmações sem qualquer base de suporte, mas como já respondeu o Hélder e eu concordei, não vou aqui procurar outras palavras para dizer o mesmo.
Fazendo um pouco a comparação com o teu início de texto, sem querer fazer comparação com o teu neto, maravilhoso estou certo, tenho um pássaro “amigo” (digo amigo porque não é meu e morde ao dono, a mim não), papagaio, que responde ao que ouve, por vezes com elevada certeza, contudo não tem conhecimento, digo eu sem que o possa afirmar, falta-me a base científica para o provar, apenas o digo por que não foi à escola e não aprendeu pela cartilha em que todos aprendemos, mas, também esta afirmação me levanta dúvidas, não sei se fomos todos, afirmação que não posso fazer nem comprovar, mesmo sendo habitual e comum dizer-se isto…
Ficaríamos eternamente com exemplos de afirmações, frases feitas e tudo o mais, “vemos, ouvimos e lemos, não podemos ignorar” podemos tecer opiniões e formular juízos sem, contudo, podermos fazer prova, limitámo-nos a acreditar no que alguém escreveu ou disse e serve de ponto de partida para a intervenção que, dependendo da receptividade, variável com o estado emocional na altura, com a atenção/dedicação dispensada, com a própria capacidade de apreensão/compreensão etc. etc. etc.
Também concordo com o Hélder ao lembrar que esta necessidade de esclarecimento, a que chamo bate-papo escrito, tem como base o blogue, é nele que normalmente comentamos ou escrevemos e onde é susceptível aparecerem coisas difíceis de provar, mas parece-me ter sido mesmo essa a razão da criação do blogue, se não estou errado, cada um contar a sua história para não serem os que nada sabem a contá-la, deturpando ou moldando os factos consoante os interesses. Esse é um risco que se corre, tal como diz o ditado “no melhor pano cai a nódoa”.
Pela minha parte, subscrevendo na quase totalidade o que já havia sido escrito pelo Hélder admito não estar isento de falhas. Mas atenção, não defendo nem reconheço qualquer valor a quem diz ou escreve tudo o que lhe apetece ou vem à cabeça sem uma base mínima de conhecimento ou informação considerada fidedigna.
Finalizo lembrando que o debate de ideias é saudável e salutar, desde que feito com regras de educação, medidas que a idade e experiência de vida nos conferem, sem certezas absolutas ou decisões inalteráveis e respeitando as opiniões divergentes, se não obrigados a segui-las.
É tudo por agora,
Um abraço
BS
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Nota de CV:
Vd. poste de 12 de Outubro de 2010 > Guiné 63/74 - P7117: (Ex)citações (97): Sensatez e rigor no Nosso Blogue (José Manuel Matos Dinis)





















