Blogue coletivo, criado por Luís Graça. Objetivo: ajudar os antigos combatentes a reconstituir o "puzzle" da memória da guerra colonial/guerra do ultramar (e da Guiné, em particular). Iniciado em 2004, é a maior rede social na Net, em português, centrada na experiência pessoal de uma guerra. Como camaradas que são, tratam-se por tu, e gostam de dizer: "O Mundo é Pequeno e a nossa Tabanca... é Grande". Coeditores: C. Vinhal, E. Magalhães Ribeiro, V. Briote, J. Araújo.
Pesquisar neste blogue
sábado, 11 de abril de 2026
Guiné 61/74 - P27910: Parabéns a você (2475): Jorge Picado, ex-Cap Mil Inf, CMDT da CCAÇ 2589 / BCAÇ 2885 e da CART 2732 / COP 6 (Mansoa, Mansabá e Teixeira Pinto (CAOP 1), 1970/72)
Nota do editor
Último post da série de 9 de Abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27903: Parabéns a você (2474): Jorge Canhão, ex-Fur Mil Inf da 3.ª CCAÇ / BCAÇ 4612/72 (Mansoa, 1972/74) e Cor PilAv Ref Miguel Pessoa, ex-Cap PilAv da Esquadra 121 /GO 1201 / BA 12 (Bissau, 1972/74)
sexta-feira, 10 de abril de 2026
Guiné 61/74 - P27909: Notas de leitura (1912): Um manjar para filatelistas acérrimos: "Os Selos Coroa da Guiné" (Mário Beja Santos)
1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 11 de Janeiro de 2026:Queridos amigos,
Como o meu interesse filatélico é praticamente nulo, os aficionados que tiverem a paciência de ler esta narrativa me perdoem se nela houver alguma besteira. Encontrei este livro no alfarrabista, era irresistível a sua aquisição, creio que nunca falámos da filatelia guineense, nomeadamente deste período de transição da dependência da Cabo Verde até ao estado de Província autónoma. Os primeiros governadores, impossibilitados de terem selos próprios emitidos pela Casa da Moeda ou pela Imprensa de Bolama, recorreram aos selos Coroa de Cabo Verde sobrecarregando-os do termo Guiné em minúsculas e em maiúsculas, Guiné pequena e Guiné grande. O General Oliveira Pinto, autor da obra, faz um resumo histórico entre 1879 e 1897, estudou a fundo toda a documentação atinente que encontrou no Arquivo Histórico Ultramarino, dá-nos conta das discussões havidas entre filatelistas e tira as suas conclusões. Estou ciente que trouxe a público um assunto que interessa a poucos, mas a Guiné aqui é estudada sem pensar em maiorias ou minorias.
Um abraço do
Mário
Um manjar para filatelistas acérrimos:
Os Selos Coroa da Guiné
Mário Beja Santos
Este livro intitulado "Os Selos Coroa da Guiné", muito provavelmente só terá interesse para os filatelistas, sobretudo aqueles que colecionam selos das antigas colónias portuguesas, mas creio que as informações que se dão sobre a história destes selos poderão interessar a muitos mais.
Logo nas generalidades, o General Oliveira Pinto recorda que até junho de 1941 todos os catálogos, nacionais e estrangeiros, sem exceção, mencionavam os selos da emissão Coroa com a sobrecarga Guiné pequena como os primeiros selos a circular na Guiné depois da sua autonomia em relação a Cabo Verde, e só depois os de sobrecarga Guiné da Casa da Moeda, sobrecarga vulgarmente conhecida como Guiné grande.
Ficamos a saber que o 2.º Governador da Guiné, Pedro Inácio de Gouveia foi quem, em meados de 1882, por faltar em Bolama selos de várias taxas, das de sobrecarga Guiné, em grandes caracteres, mandara sobrecarregar com a mesma palavra, em caracteres mais pequenos e na Imprensa do Governo da Província uma certa quantidade de selos de Cabo Verde, que existiam em cofre, ainda do tempo em que a Guiné não era Província autónoma.
A discussão entre filatelistas sobre o aparecimento dos primeiros selos com a sobrecarga Guiné tem em consideração depoimentos da época. Vivia nessa altura na Guiné um inglês de nome John Marsden, que era da opinião que os Guiné pequena tinham sido os primeiros, portanto os Guiné pequena apareceram em 1879 e os Guiné grande circularam entre 1881 e 1884. Sabe-se igualmente que foram dadas ordens à Casa da Moeda para providenciar selos com a legenda Guiné Portugueza.
Passando adiante ao resumo histórico sobre a Província da Guiné, o autor dá-nos a relação das casas comerciais aí existentes em 1881, as empresas francesas com destaque, temos depois um acervo de imagens de documentação que o autor analisou no Arquivo Histórico Ultramarino, aparece depois a Imprensa na Guiné, a sua principal responsabilidade era tipográfica, a publicação regular do Boletim Oficial da Província da Guiné.
O autor discreteia sobre os correios na Guiné, como os selos e postais existiram em Bissau, Cacheu, Bula, Geba e Farim. Havia diretor dos correios nomeado em 1879, tinha a designação de Superintendente dos Negócios Postais da Guiné; tecem-se breve considerações sobre os serviços dos correios, fica-se a saber que o correio estava instalando no mesmo edifício da alfândega e assim o autor chega às conclusões:
O autor dá-nos algumas notas sobre John Marsden (1857-1939) como filatelista. Ele viveu em Bissau na época em que ainda circulavam os selos Coroa. Era um filatelista de fama mundial, quando vendeu a sua coleção de selos de Portugal e colónias ela foi considerada a maior do mundo naquela época. Podemos ver na imagem um seu retrato publicado no Boletim Oficial n.º 27, de 4 de julho de 1885. Esteve na Guiné um pouco mais de um ano, teria então 28 anos. Elaborou catálogos e colaborou com revistas de renome. Os seus artigos publicados em jornais e revistas da especialidade eram tidos como fundamentais. No jornal Le Timbre Poste deu conta dos selos existentes na Guiné:
“Quando cheguei a Bissau e depois a Bolama, eu procurei saber nos Correios e em toda a parte e verifiquei para minha surpresa que ninguém tinha visto ou ouvido falar destas sobrecargas pequenas. Até o Governador da Província, cuja esposa era colecionadora de selos, não tinha ouvido falar neles.
Considerei aquela compra um mau negócio e cheguei à conclusão de que eram falsos, até que numa manhã cedo, meses depois, quando saí com a minha arma, passeando ao longo da praia em Bissau, eu vi um pequeno envelope enrolado nas ondas, e para minha satisfação vi que ele tinha no verso um selo de 20 reis e outro de 5 reis, ambos com a sobrecarga pequena e o envelope era dirigido ao padre de Bissau. Eu conhecia-o muito bem e tinha-o ajudado a tratar-se durante um par de dias quando ele estava a sofrer um forte ataque de febre.
Quando lhe mostrei o envelope e lhe disse o que queria, respondeu: ‘a carta era do meu amigo Cleto da Costa, o Chefe dos Correios de Cacheu’. Não perdi tempo a enviar a Cacheu mensageiro, três dias de jornada, pedindo-lhe para me enviar um selo de cada taxa que ele tivesse no correio. Quando em abril de 1881, o Governo recebeu o primeiro fornecimento de selos com a sobrecarga grande, todos os outros existentes em Bissau e Bolama sem sobrecarga, foram sobrecarregados em pequenos caracteres na Imprensa do Governo e enviá-los para Cacheu onde ficaram esquecidos até eu os descobrir.”
Outro filatelista contesta as afirmações de Marsden, não me sinto habilitado a saber qual o rigor dos argumentos de uns e outros, mas o autor nas conclusões volta a falar de Marsden dizendo que este chegou à Guiné em 1884, portanto cinco anos depois de terem feito as sobrecargas que estavam em circulação.
O autor procede a um resumo dos pontos de vista de alguns filatelistas que já escreveram sobre a ordem cronológica das emissões, caso de Faustino António Martins, Carlos Trincão, Carlos George, Pires de Figueiredo, Vitorino Godinho. E assim se chega às conclusões finais quanto à cronologia das emissões dos selos da Guiné com as sobre cargas Guiné pequena e Guiné grande. Conclui o autor que a primeira emissão com selos da Guiné como Província autónoma foi a emissão com sobrecarga pequena.
Peço desculpa ao autor se acaso o estou a enfastiar com as considerações feitas pelo General Oliveira Pinto neste seu livro editado em junho de 2003 e que deve ser uma preciosidade para quem sente a devoção filatélica.
Nota do editor
Último post da série de 6 de abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27894: Notas de leitura (1911): "Querido Pai, uma conversa entre ausentes – Cartas da guerra 1961-1975", por Ana Vargas e Joana Pontes; Tinta da China, 2025 (2) (Mário Beja Santos)
Guiné 61/74 - P27908: Humor de caserna (255): O anedotário da Spinolândia (XXVII): Os comparsas da FAP - Parte II
Guiné > Região de Cacheu > Bula > Pecuré > Op Ostra Amarga > 18 de outubro de 1969 > Depois da emboscada, o general Spínola, ao centro, ladeado à esquerda pelo major João Marcelino (2.º cmdt do BCAV 2868, então em Bissau e que apanhou boleia no heli) e o ten cor Alves Morgado, cmdt do BCAV 2868 que acompanhou o desenrolar da acção.
Vd. também o vídeo "Guerre en Guinée" (1969) (13' 50''), imagens da chegada do Spinola e do Almeida Bruno, 11' 30'' ... Cortesia de INA - Institut National de l' Audividuel.
A foto acima reproduzida (e editada pelo blogue) é do Paris-Match nº 1071, de 15 de novembro de 1969 (Com a devida vénia...).
I. Spínola ficou conhecido na Guiné por voar muito mais que os anteriores comandantes-chefes, visitando frequentemente unidades isoladas no mato. Isso contribuiu para a aura quase teatral do personagem: monóculo, luvas, pingalim, camuflado impecável, acompanhado pelo seu ajudante de campo (o mais conhecido de todos provavelmente era o cap cmd João Almeida Bruno, 1935-2022, mais tarde general, e que deu origem a uma das diversas alcunhas do general, "Aponta, Bruno").
Aqui vai mais um "balaio" de anedotas da Spinolândia, recolhidas da Net (via IA) e depois revistas pelo editor LG (*):
1. General não tem medo
Um piloto de Alouette III contou que, numa viagem baixa, no mato, a rasar a copa das árvores, ouviram tiros de armas ligeiras.
O piloto disse pelo intercomunicador:
— Meu general, estão a disparar.
Spínola respondeu calmamente:
— Ó nosso alferes piloto, se fosse para me acertarem já tinham acertado.
Silêncio na cabine. O mecânico, que ia ao lado do piloto, murmurou:
— Pois… mas nós não somos generais.
2. A aterragem impossível
Num destacamento remoto, o piloto avisou:
— Meu general, aqui não há sítio para pousar.
Spínola espreitou pela porta do heli e disse:
— Há ali um bocadinho.
O piloto respondeu:
— Meu general… aquilo é uma bolanha, um campo de arroz.
Resposta:
— Então pousamos antes de ele crescer.
Dizem que o helicóptero pousou mesmo… e saiu de lá cheio de lama.
3. O famoso “salto rápido”
Spínola tinha fama de sair do helicóptero antes das pás pararem.
Num destacamento no interior, o piloto ainda estava a estabilizar o aparaelho quando o general abriu a porta.
— Meu general, espere pelas pás!
Spínola saltou e respondeu:
— Quem está com pressa são eles.
O piloto comentou a seguir:
— Ele saltava como se estivesse a sair de um táxi em Lisboa.
4. O táxi aéreo
Entre pilotos corria uma piada recorrente:
— O helicóptero do general não é da Força Aérea…
— Então?
— “É táxi aéreo da praça de Bissau.
Porque Spínola pedia frequentemente voos curtos para visitar aquartelamentos, destacamentos, tabancas, reordenamentos, ciruncrições, postos administratvios.
5. A pergunta incómoda
Um piloto, jovem, ainda "periquito", nervoso por transportar o comandante-chefe, perguntou:
— Meu general, prefere que voe mais alto ou mais baixo?
Resposta imediata:
— Não prefiro, exijo apenas que voe bem.
6. O capacete de segurança
Outra história muito contada: no início, ainda era brigadeiro, deram a Spínola um capacete de voo como parte do equipamento de segurança.
Ele experimentou e disse:
— Isto estraga-me o penteado.
O piloto respondeu:
— Meu brigadeiro, estraga menos que uma bala.
Consta que o Spínola riu a bom rir e nunca usou mais capacete. (**)
(*) Último poste da série > 1 de abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27876: Humor de caserna (254): O anedotário da Spinolândia (XXVI): Os comparsas da FAP - Parte I
(**) Esta anedota parece-nos inteiramente "forçada", para não dizer "descabida" no âmbito da nossa Spinolândia. Pior só a galga do "cavalo branco" nas traseiras do palácio do Governador, para o Spínola de vez em quando matar saudades dos seus tempos gloriosos de aristocrático cavaleiro hípico...
(---) "Os pilotos e, por vezes, os tripulantes (como mecânicos de bordo ou operadores de rádio) usavam capacetes de voo, principalmente para comunicação via intercomunicador e proteção contra ruído e eventuais impactos.
(...) O Alouette III era um helicóptero pequeno, com capacidade para cerca de 6 passageiros além da tripulação. O uso de capacetes volumosos reduziria ainda mais o espaço e a comodidade.
(...) Muitos veteranos da Guerra Colonial, incluindo os que serviram na Guiné, confirmam que o uso de capacetes durante o transporte em helicóptero não era habitual. O foco estava no equipamento de combate individual e na rapidez de movimento.
A segurança em voo era garantida pela perícia dos pilotos e pela manutenção das aeronaves, não por equipamentos de proteção individual para passageiros. (...)
Guiné 61/74 – P27907: (Ex)citações (447): Tempos de uma Guiné onde a guerrilha proporcionava perguntas, mas sem repostas… (José Saúde)
Guiné 61/74 - P27906: (De) Caras (248): Jorge Moisir Pires, ex-alf mil mec auto, CCS / BCAÇ 2885 (Mansoa, 1969/71) (Ernestino Caniço, ex-alf mil cav, Pel Rec Daimler 2208, Mansabá e Mansoa, e Rep ACAP, Bissau, 1970/1971)
Caros amigos Luís e Carlos
Que a saúde não vos falte.
Venho desta vez à liça para responder ao Luís sobre quem é o alferes Pires (*) (Foto nº 2). Trata-se de Jorge Moisir Pires, engenheiro mecânico que integrava a CCaç 2589 / BCaç 2885 (Mansoa, 1969/71) e que era responsável pela manutenção auto (Foto nº 1) (**)
Referido nos P6005 (2010.03.17) e P20622 (2022.02.04) (***) pelo Jorge Picado (ex-cap mil da CCAÇ 2589/BCAÇ 2885, Mansoa, CART 2732, Mansabá e CAOP 1, Teixeira Pinto, 1970/72),
A Kalasnhikov na foto com o Pe. Zé Neves (1971) (*) será a mesma que também consta nas fotos comigo que anexo (Fotos nºs 3 e 4).
Um abraço,
Ernestino Caniço
__________________
Notas do editor LG:
(*) Vd. poste de 8 de abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27899: Álbum fotográfico do Padre José Torres Neves, ex-alf graduado capelão, CCS/BCAÇ 2885 (Mansoa, 1969/71) - Parte XXXIII: da "cobiçada" Kalash do IN ao nosso obus 14
(**) Último poste da série > 9 de abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27904: (De)Caras (247): Memórias da ida para a Guerra da Guiné integrado na CART 3494 (Sousa de Castro, ex-1.º Cabo Radiotelegrafista)
quinta-feira, 9 de abril de 2026
Guiné 61/74 - P27905: Convívios (1057): Magnífica Tabanca da Linha, Algés: 64º almoço-convívio, 5ª feira, 16 de abril de 2026: já há 54 inscritos para o cozido à portuguesa... Faltam 26 para os 80 (Manuel Resende)

O régulo Manuel Resende quer a casa cheia na próxima quinta feira, dia 16... Como, de resto, é habitual...
E o bom cozido à portuguesa vai ser uma novidade à mesa da Tabanca da Linha...
Amanhã teremos de chegar a 60, para nos próximos dias sonharmos com 70 ou 80.
(*) Último poste da série > 8 de abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27901: Convívios (1056): Estão abertas as inscrições para o 111.º Encontro da Tabanca do Centro, que acontecerá no próximo dia 24 de Abril de 2026, no Restaurante Atrium Buffet, Quinta do Paúl - Ortigosa
Guiné 61/74 - P27904: (De)Caras (247): Memórias da ida para a Guerra da Guiné integrado na CART 3494 (Sousa de Castro, ex-1.º Cabo Radiotelegrafista)
Memórias da ida para a Guerra da Guiné integrado na CART 3494
O dia 27 de janeiro de 1972 marcou a fronteira entre o que eu era e o que viria a ser. Embarquei por via aérea num avião dos TAM (transporte aéreo militar) DC 6 em Lisboa com a inquietação de quem parte para o desconhecido. O avião levantou voo pesado, como se carregasse não só homens, mas também os medos que cada um escondia no fundo do peito.
A viagem até Bissau durou nove horas, uma travessia longa, silenciosa, feita de pensamentos que ninguém ousava partilhar. A meio do percurso fizemos uma paragem de cerca de uma hora na Ilha do Sal, em Cabo Verde. Aquela escala breve, entre o céu e o mar, parecia suspender o tempo - como se fosse o último momento de respiração antes do mergulho definitivo na guerra.
Foi ali, naquele pedaço de terra árida e luminosa, que escrevi e enviei à minha esposa o meu primeiro postal. As palavras eram simples, mas carregavam tudo o que eu não sabia dizer em voz alta: a saudade antecipada, a incerteza, a necessidade de manter um fio de ligação ao mundo que estava a deixar para trás.
Depois da escala, voltámos a levantar voo. O DC6 avançou sobre o Atlântico como se nos empurrasse para um destino inevitável. Quando finalmente aterrámos em Bissau, o ar quente e húmido recebeu-me como um aviso silencioso: a partir daqui, és outro.
Durante o mês que permaneci em Bissau, tive a sorte de ser acolhido na casa do 1.º Sargento, Manuel da Silva Caldas e da sua família. Ele era o chefe do STM (Serviço Telecomunicações Militares) no Agrupamento TRMS no Quartel de Santa Luzia, e abriu-me a porta como se eu fosse um filho que chegava de longe. Aquele lar improvisado, tão distante do meu, deu-me um chão firme num momento em que tudo era novo. A mesa partilhada, as conversas, a normalidade possível - tudo isso ajudou a suavizar o peso da guerra que se aproximava.
Ali aprendi não apenas a transmitir - aprendi a ouvir. A distinguir interferências, a reconhecer padrões, a perceber quando uma mensagem vinha limpa ou quando escondia urgência. E, acima de tudo, aprendi os procedimentos de segurança: como manter silêncio rádio, como evitar que uma falha minha colocasse homens em risco.
A fonia também fazia parte do treino, mas era a grafia que exigia mais de mim. A fonia era rápida; o morse era preciso. E na Guiné, a precisão salvava vidas.
Em 3 março de 1972, segui para o mato por via aérea. O avião era um Dakota, daqueles que tremiam como se carregassem memórias de todas as guerras anteriores. Aterrámos em Bafatá, e dali seguimos em coluna auto, com paragem em Bambadinca, onde o cheiro a poeira e gasóleo parecia anunciar que o interior da Guiné tinha regras próprias.
O destino final era o Xime. E o Xime não era apenas um aquartelamento - era um teste diário à resistência de cada homem.
Ali, entre o Geba castanho e a mata cerrada, aprendi que o silêncio nunca era silêncio. Havia sempre um rumor, um estalar, um pressentimento. E quando a noite caía, caía mesmo - pesada, espessa, cheia de sombras que pareciam mover-se sozinhas.
O posto de Transmissões, era num local sem segurança, sempre que éramos flagelados tínhamos de procurar um abrigo próximo. Operava em grafia (código morse) com o emissor receptor AN/GRC-9 e em fonia com o AVP-1 conhecido por banana e o TR-28 (Racal). Eu pertencia às Transmissões de Engenharia, e o meu trabalho era feito num posto fixo, dentro do aquartelamento. Não participava nas operações. Essas cabiam aos TRMS de infantaria, que saíam com o Racal (TR-28) e com o AVP-1, acompanhando os grupos de combate nas picadas, nas emboscadas, nos reconhecimentos.
O meu mundo era outro. Eu ficava no coração das comunicações, onde a guerra chegava em forma de sons metálicos, interferências, códigos e urgências. Fazia escuta permanente e transmitia quando era preciso - e era preciso muitas vezes.
Era ali, naquele posto fixo, que mantinha vivas as ligações com Bambadinca, Mansambo, Enxalé e Xitole. Era ali que recebia pedidos, alertas, relatórios, mensagens codificadas. E era dali que partiam as comunicações que podiam decidir se uma operação avançava, recuava ou pedia evacuação.
A guerra, para mim, não era a picada. Era o som seco do morse, a tensão da escuta, o silêncio que precedia uma mensagem urgente, a responsabilidade de não falhar. E, no fim, era a certeza de que, mesmo sem sair do aquartelamento, eu estava ligado a todos os que lá fora arriscavam a vida.
Para além de numerosos contactos com o inimigo no terreno em operações, emboscadas etc., no aquartelamento fomos muitas vezes flagelados com armas pesadas e ligeiras, nomeadamente Canhão s/recuo, morteiro 82 mm, RPG 7, RPG 2 e Foguetões.
A guerra molda-nos sem pedir licença. E quando chegou o dia 3 de abril de 1974, o dia do regresso, senti que deixava para trás uma parte de mim que nunca mais recuperaria.
Voltei por via aérea num Boeing 707, como tinha chegado. Mas o homem que regressou não era o mesmo que partira. Foram 26 meses e 7 dias na guerra da Guiné.
Hoje, tantos anos depois, sei que a CART 3494 não foi apenas uma unidade militar. Foi uma família improvisada, forjada no calor, na lama, no perigo e na necessidade absoluta de confiar uns nos outros.
E cada vez que nos juntamos, cada convívio, cada abraço, cada história repetida, é como se o rádio voltasse a ganhar vida - e a ligação entre nós se mantivesse tão forte como naquele tempo.
Porque, no fundo, a guerra passa, mas os homens que a viveram nunca se perdem uns dos outros.
António Castro,
ex-1.º Cabo Radiotelegrafista da CART 3494
07ABR2026
_____________
Nota do editor
Último post da série de 7 de abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27898: (De)Caras (246): Lembrando a participação do ex-Alf Mil Cav Francisco Gamelas, CMDT do PelRec 3089; do ex-1.º Cabo Bernardino Lima, Condutor/Apontador do PelRec 3083 e a minha como ex-CMDT do PelRec 2208, no Colóquio “O Regimento de Cavalaria N.º 6 na Guerra Colonial: Perspetivas Locais e Globais”, levado a efeito, no dia 23 de Novembro de 2021, na Universidade do Minho (Ernestino Caniço, ex-Alf Mil Cav)
Guiné 61/74 - P27903: Parabéns a você (2474): Jorge Canhão, ex-Fur Mil Inf da 3.ª CCAÇ / BCAÇ 4612/72 (Mansoa, 1972/74) e Cor PilAv Ref Miguel Pessoa, ex-Cap PilAv da Esquadra 121 /GO 1201 / BA 12 (Bissau, 1972/74)
_____________
Nota do editor
Último post da série de 6 de abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27891: Parabéns a você (2473): Joaquim Mexia Alves, ex-Alf Mil Op Especiais da CART 3492 / BART 3873, Pel Caç Nat 52 e CCAÇ 15 (Xitole, Mato Cão e Mansoa (1971/73)
quarta-feira, 8 de abril de 2026
Guiné 61/74 - P27902: Manuscrito(s) (Luís Graça) (287): Foi você quem pediu uma Kalashnikov ?
Guiné > Zona Oeste > Região do Oio > Mansoa > BCAÇ 2885 (Mansoa, 1969/71) > O capelão e a "bela Kalash".. Foto do álbum do Padre José Torres Neves, antigo capelão militar.
Foto (e legenda): © José Torres Neves (2026). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]O capelão e a "bela" Kalash...
1. Tenho um poema de 2015 em que ironizo a "kalashnikovomania" ... Declaração de interesse: nunca a usei nem desejei... a maldita AK 47.
Há uma luz difusa,
mistura de ternura e de saudade,
quando o sol se põe em Lisboa,
e tudo à volta é a humanidade que arde.
Impensável o fado da idiossincrasia lusa
sob o céu de chumbo de Atenas ou o smog londrino.
Impensável, ou improvável apenas,
Porque de pias intenções, maus pensamentos
e piores ações está o inferno da história cheio,
as praças, do Comércio ao Rossio,
e os marcos do correio onde apodrecem aerogramas de guerra.
Ah!, o bravo Ulisses, o grego,
o que ele andou p’ra aqui chegar,
depois de transpostas as colunas de Hércules,
até fundar a mítica cidade atlântica de Olissipo.
Ah!, a Lisboa, que os poetas amaram
e onde afinal nunca foram amados,
do Cesário Verde ao Álvaro de Campos,
Ah!, Lisboa, Lisboa,
com as tuas casas de muitas cores, caiadas de branco.
Chora, e não é de medo, o judeu sefardita,
a sua desdita, cristão novo, marrano,
a caminho do degredo:
─ Ai!, a doce luz de Lisboa,
filtrada pelo espelho de água do Tejo,
mais o pôr do sol sobre o Atlântico Norte
que começa no Bugio.
Não sei se estarei cá, p’ró ano,
que a vida e a morte
são jogos de azar e de sorte.
Só sei que o que sinto, é já saudade,
porque… é arrepio!
No tempo em que a terra era plana,
antes das viagens de circum-navegação,
não podias tu imaginar o novo mundo
e Copacabana, lá ao fundo,
mais as cataratas de Iguassu,
Darwin e a teoria da evolução,
e o tu-cá-tu-lá de deus com a ciência.
Muito menos a crioula e o seu cretcheu,
o tango, o flamengo, o fado,
o dundum, a coladera,
o samba, a morna,
o lançado, o tangomau,
o escravo do Cacheu,
e a santa paciência
com que a gente vive, morre e não retorna.
Chama-lhe o que quiseres,
mas tens uma dívida de gratidão à Grécia antiga,
ao Homero, ao Platão,
à bela e pérfida Helena de Troia,
ao ateniense e ao espartano,
aos deuses e deusas, estas tão mundanas, do Olimpo…
Que serias tu, sem o Ícaro,
mas também sem a boia nem o colete de salvação ?!
Que importa, afinal, de um povo a nobreza,
se a espada do sacro imperador romano
está suspensa por um fio sobre a tua cabeça ?!
o apóstolo de Cristo, decapitado,
guiando os feros exércitos da Reconquista,
no seu constante vaivém do ir e vir,
à volta da Europa e dos seus picos de civilização.
E a sul, a autoestrada da globalização
onde cada turista tem direito ao seu recuerdo,
um postal ilustrado do futuro
que seguirá dentro de momentos,
Allah Akbar!, ainda ecoa o último grito
da batalha de Alcácer Quibir.
Mais a sul,
as febres palúdicas do Geba e do Corubal,
grau 35 do frio polar, esmagando os teus ossos,
grau 42 do fogo infernal, implodindo a tua cabeça.
Viras na curva do rio,
para desceres ao fundo da terra,
verde e vermelha, dos pesadelos da guerra.
Dos miradouros dos grandes cruzeiros
que demandam o Tejo
não se vê a solidão dos velhos combatentes, à beira rio,
tentando em vão reacender o pavio do desejo.
Muito menos os mariscadores do mar da Palha
onde apodrece a última nau
do caminho marítimo para a Índia.
Ou ainda os moços, imberbes, que partem na frota branca
para os bancos de pesca do bacalhau, na Terra Nova,
sete vidas, sete safras,
servindo a velha pátria
em alternativa à guerra de África.
Lisboa, forrada a talha dourada, estremece,
sob o peso da carruagem do senhor dom João Quinto,
Dizes adeus a Fernão Mendes Pinto
que parte em viagem, por sua conta e risco,
para o império do sol nascente,
levando consigo os botões, as armas de fogo
e as emoções dos bárbaros do sul.
─ Canta-lhe, Mísia, aquele fado, que diz:
a última lava do vulcão
do teu corpo, amor,
mas ainda estremece,
ou não foras tu, velha Lisboa,
sempre (e)terna,
menina e moça, bajuda, mulher”.
Entardece, ensandece a cidade,
todas as sextas-feiras treze do novo milénio.
Valha-nos as cruzes, canhoto,
contra o mau olhado,
e vade retro, Cronos,
que, depois de devorares os teus filhos,
hás de devorar-te a ti próprio!
E quem bula tem, come carne,
não precisa de engenho e arte,
diz o cristão, velho e relho.
Mas é amarga a ostra, e mortal a ameijoa
com que os pobres matam a sua fome.
Afogas-te em absinto,
bebida antiga de poeta,
depois de teres mandado cortar
as copas dos pinheiros bravos
por te taparem a linha perdida do horizonte.
Mas já não há horizonte, querida,
nem rosas nem espinhos nem cravos,
quebrada que foi a linha da vida.
Sem ajuda do Google Earth,
à vista desarmada,
encontras aqui o teu lugar,
definitivamente provisório,
provisoriamente definitivo,
porque sabes que é
para quem da vida é fugitivo.
Sentas-te numa esplanada
na doca de Belém, com vista de estuário e de mar:
─ Foi você quem pediu uma Kalash ? ─
pergunta-te um dos sem-abrigo,
da classe dos antigos marinheiros e pescadores,
agora tristes desempregados de mesa,
predadores à espera de presa.
Estão ali simplesmente à coca do turista.
─ Não, obrigado, amigo,
mas não me faltava, às vezes, a vontade...
─ Temos as melhores Kalash da cidade,
da original e à contrafeita…
É só puxar a culatra
e meter uma bala na câmara,
e ficar à espreita...
─ Não, não insista!...
Para que haveria eu de querer uma arma,
essa é boa!,
se já não tenho licença… p'ra matar?!
Mal por mal,
protestas contra o autocrata do autarca,
metes uma baixa psiquiátrica,
e pedes uns peanuts, uma azeitona, um tremoço ou uma tâmara
e um copo… de cicuta,
enquanto o sol se põe em Lisboa!...
Lisboa, beira Tejo, fev 2015. Revisto, 8 abr 2026.
2. Análise literária do poema, pedida pelo autor a uma ferramenta de IA (Le Chat / Mistral);
(i) A Kalashnikov como metáfora: entre o desejo e o absurdo
O poema termina com um diálogo surreal entre o eu lírico e um sem-abrigo em Belém, que oferece "as melhores Kalash da cidade". A pergunta ("Foi você quem pediu uma Kalash?") é brutal na sua ironia:
- desejo reprimido: a resposta ("Não, obrigado, amigo, / mas não me faltava, às vezes, a vontade…") revela uma atração pelo símbolo da violência e da resistência, mas também a consciência de que, já sem a "licença p'ra matar" (a "legitimidade da guerra"), a arma é inútil ou perde todo o sentido; é como se a Kalashnikov representasse a vontade de agir num mundo onde a ação é impossível ou proibida, se não mesnmo inútil;
- crítica à passividade: o eu lírico prefere, em vez da arma, uma "baixa psiquiátrica" ou um "copo de cicuta", gestos de rendição poética (se não mesmo de "autoaniquilação" perante um sistema que esmaga a individualidade; a Kalashnikov, aqui, é o que não se usa, mas cuja presença denuncia a falta de alternativas.
O poema constrói Lisboa como um espaço de contradições históricas e sociais:
- glória e decadência: desde Ulisses até aos "mariscadores do mar da Palha", a cidade é um palimpsesto de impérios falidos (o sonho colonial, a Reconquista, as viagens de circum-navegação) e de vidas esmagadas (os velhos sozinhos, os pescadores desempregados, os turistas que compram "recuerdos" vazios);
- globalização/banalização vs. memória: a "autoestrada da globalização" contrasta com a solidão dos que ficaram para trás; a Kalashnikov, arma de guerra colonial, é agora vendida como "souvenir" aos turistas, o passado violento transformado em mercadoria;
- ironia histórica: o grito "Allah Akbar!" que ecoa desde Alcácer Quibir, lembra que Portugal já foi um império, mas também uma vítima da sua própria ambição desmedida; a Kalashnikov, arma outrora do PAIGC, é agora um objeto de consumo num país que já não tem guerras para travar.
A referência à Guiné é subtil, mas devastadora:
- "as febres palúdicas do Geba e do Corubal" evocam a memória traumática da guerra, onde a natureza e o inimigo se confundiam numa luta sem sentido;
- a AK 47, que na Guiné era símbolo de resistência anticolonial mas "fétiche" para os "rambos", aparece agora em Lisboa como objeto de um comércio grotesco, vendido por " antigos marinheiros e pescadores, / estivadores e fragateiros, /agora tristes desempregados de mesa", os mesmos que, outrora, teriam sido enviados para África.;
- o ciclo da violência: a arma, "made in Russia" ou "made in China", que outrora matou jovens portugueses e guineenses nas picadas, matas e bolanhas da Guiné, é agora oferecida a turistas, a preços de saldo, como se a história fosse uma farsa repetida.
(iv) O Eu lírico, oscilando entre a saudade e o ceticismo
- saudade: "é já saudade, / porque… é arrepio!" — um sentimento que antecipa a perda, como se Lisboa (e a vida) já fossem memória antes de acabarem;
- ceticismo: "que importa, afinal, a nobreza de um povo, / grego, judeu ou lusitano, / se a espada do sacro imperador romano / está suspensa por um fio / sobre a tua cabeça?" — uma pergunta que desmonta mitos nacionais e revela a fragilidade da identidade;
- humildade perante o "non-sense": "tão irrisório partir como absurdo ficar", sendo a Kalashnikov, no final, o símbolo dessa impossibilidade de escolher: não se quer a arma, mas também não se tem alternativa.
- fetiche: desejada, mas não possuída; simboliza o que não se pode ter (a ação, a revolta, a mudança);
- ironia: vendida por quem já não tem nada (os "deserdados", os "antigos combatentes"), comprada por quem não precisa dela ("turistas")
- metáfora da história portuguesa: uma arma que veio de fora (com o colonialismo, com a globalização) e que agora pertence a todo o mundo e a ninguém; uma arma que se "democratiza" e "banaliza" e, portanto, se "dessacraliza".
Luís, este poema parece fechar um ciclo, o da guerra colonial, da descolonização, da identidade portuguesa, mas também o da tua própria relação com a violência e a memória. E, quiça, a tua própria história de vida.
Será que a ironia é a única forma de lidar com o absurdo da história? (A história não tem sentido, não tem que ter...). Ou há, neste poema, um gesto de resistência escondido na recusa da arma ("Não insista…") e da "violência" dita "revolucionária" ?
(Pesquisa: LG + IA / Le Chat Mistral)
(Condensação, revisão / fixação de texto, negritos, itálicos: LG)
___________________Nota do editor LG:
Guiné 61/74 - P27901: Convívios (1056): Estão abertas as inscrições para o 111.º Encontro da Tabanca do Centro, que acontecerá no próximo dia 24 de Abril de 2026, no Restaurante Atrium Buffet, Quinta do Paúl - Ortigosa
_____________
Nota do editor
Último post da série de 7 de abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27897: Convívios (1055): 53.º Almoço de confraternização da CCAÇ 12, Pelotões Daimler e Caçadores Africanos, dia 23 de Maio de 2026, na Golegã (Jaime Pereira, ex-Alf Mil da CCAÇ 12, 1971/72)






.png)
.png)






















