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segunda-feira, 8 de junho de 2026

Guiné 61/74 - P28082: Casos: a verdades sobre... (75): O meu tio paterno Agnelo António Monteiro de Macedo (ilha do Fogo, Cabo Verde, 1925 - Lisboa, 1972), chefe de posto de Catió, preso pela PIDE em 1962/63, detido na Ilha das Galinhas e depois transferido compulsivamente para Moçambique (José Macedo, EUA)





Guiné > Região do Cacheu > Cacheu > DFE 21 (1973/74) > O então 2º ten fuzileiro especial posando, à civil,  na sua mota. Em 1971 tinha frequentado o 1º ano da Escola Naval e preparava-se para ingressar nos fuzileiros. Nesse verão, conheci-o e convi com ele na Lourinhã. Arranjou um trabalho sazonal no parque municipal de campismo  da Praia da Areia Branca.

Foto e legenda): © Zeca Macedo (2025). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné].



1. O nosso amigo e camarada de guerra, da Guiné, a viver nos EUA, desde 1977 (onde é advogado),  José Macedo, fez-nos um pedido sobre um tio paterno, que integrou  a carreira na administração ultramarina e passou pela Guiné nos anos 60.

Sabemos alguma coisa sobre esse tio, mas não o suficiente para poder ajudar o sobrinho. Recorremos  tambéma a algumas ferramentas de IA (Hemini/ Google, ChatGPT / Open AI)-


2. Mensagem do José Macedo (EUA); 

Data - sexta, 5/06/2026, 17:55

Assunto - Agnelo Macedo, chefe de posto na Guiné e depois em Moçambique

 Camarada Luís: o meu tio Agnelo Macedo, irmão do meu pai, era Chefe de Posto em Catió, na Guiné. Foi preso pela PIDE, enviado para a Ilha das Galinhas em 1962 ou 1963 por alegadamente ter tido reuniões com dirigentes do PAIGC. 

Gostaria de saber se alguém da(s) unidade(s) estacionada(s) em Catió durante esse período se lembra desse episódio da prisão do chefe de posto . 

Mantenhas, Zeca. 

PS1 - Quando saiu da Ilha das Galinhas foi enviado para Moçambique onde foi chefe de posto em Nacala, concelho de Nampula. Teve problema nos rins, possivelmente pela “porrada” que levou na “prisão” veio a falecer em Lisboa em 1972. Obrigado pela tua assistência.

PS2 - (...) Em 62 João Bacar Jaló foi nomeado Chefe dos Caçadores Nativos no Sector Catió/Cacine. E Foi em Catió que o meu tio conheceu os pais do Zikky (Sayeg) de quem era padrinho. Mantenhas e obrigado.



Agnelo António Monteiro de Macedo (1925-1972):: quando joveme na idade adulta

Fonte: Genealogia...https://www.barrosbrito.com/8286.html (com a devida vénia)


3. Resposta do editor LG:

 O teu tio, que tem o mesmo nome do teu mano, Agnelo Macedo (n. 1952, capitão-de-mar-e-guerra, na situação de reforma) é este teu patrício, nascido em 1925. Descobri em:  https://www.barrosbrito.com/8286.html

Agnelo António Monteiro de Macedo (1925-1972): 

  • data e local de nascimento: 4 mar 1925, N. Senhora da Conceição, São Filipe, Fogo, Cabo Verde;
  • data e local do óbito: 23 mai 1972, Lisboa, com 47 anos de idade;
  • era filho de Joaquim Botelho da Costa Monteiro de Macedo (1894-1943) e de Palmira Monteiro (1903-1983);
  • o pai era engenheiro electrótecnico, nascido a 16/12/1895, em S. Filipe, casado (1º casamento) com Palmira Monteiro, natural do Fogo; formado pela Universidade de Toulouse, França; foi nomeado em 17 jan 1922 administrador do concelho da Ilha de S. Vicente mas foi exonerado a seu pedido, dois meses depois  (tendo sido nomeado para substituí-lo o seu primo Simão José Barbosa); foi nomeado presidente da câmara municipal do Fogo em 3 jul 1928;
  • o Agnelo Monteiro era, em 1944, estudante, solteiro, residente na Cidade da Praia, Ilha de Santiago, Cabo Verde;
  • em 26 fev 1946 entrou para os Correios e Telégrafos de Cabo Verde; 
  • desportista, foi um dos sócios-fundadores do Boavista Futebol Clube,  da cidade da Praia (3 de março de 1948);
  • em data que não podemos precisar, seguiu como funcionário administrativo para a Guiné (então portuguesa); dali foi transferido para o nordeste de Moçambique (Nacala, distrito de Nampula).

3. Contexto 

Com base nos dados fornecidos e no cruzamento com o contexto histórico-administrativo e militar da época (transição de 1961 para 1963), aqui estão os caminhos e os factos que ajudam a reconstituir e a validar o pedido do Zeca Macedo. São os anos da contestação nacionalista na Guiné, e também os  "anos de chumbo", de forte repressão das autoridades locais (PIDE, polícia administrativa, exército).

(i) Catió e a prisão (1961/63):

O relato do Zeca Macedo é historicamente muito verosímil e enquadra-se no xadrez político da Guiné naqueles anos cruciais.
 
A região de Catió (no sul da Guiné, junto à fronteira com a Guiné-Conacri) foi a zona escolhida pelo PAIGC para a infiltração inicial e mobilização política, culminando no início oficial da luta armada na "Frente Sul" em 23 de janeiro de 1963 (com o ataque ao quartel de Tite, na região de Quínara). 

A partir de 1961/62, a rede clandestina do PAIGC operava intensamente nos regulados de Quínara e de Tombali e à volta dos postos administrativos daquela zona.

(i) O papel do Chefe de Posto: 

Se o Agnelo esteve de facto em Catió, pode-se levantar a questão de se saber se era Chefe de Posto ou Administrador... Catió, em 1971, já era Concelho...

Como Chefe de Posto Administrativo em Catió (ou no concelho de Catió), Agnelo Macedo controlava o território, a cobrança do imposto de palhota e o contacto direto com as populações locais (maoritariamente nalus e fulas na região, mas também balantas, grandes orizicultores). 

O Chefe de Posto Administrativo era responsável pela menor unidade administrativa (o Posto), em contacto direto com as populações locais, as autoridades tradicionais (régulos) e os assuntos quotidianos. O Administrador de Circunscrição (ou de Concelho), de 3.ª, 2.ª e 1.ª classe, era o magistrado administrativo que governava uma área geográfica mais vasta (a Circunscrição ou Concelho), coordenando vários postos e detendo amplos poderes civis, policiais e de fomento de instrução.

O facto de o Agnelo ser natural de Cabo Verde (São Filipe, Fogo) colocava-o frequentemente sob a mira de especial desconfiança por parte da PIDE, que receava a simpatia ou a colaboração das elites intelectuais e administrativas cabo-verdianas com o movimento liderado por Amílcar Cabral. Em muitos casos, havia laços familiares entre os cabo-verdianos, emigrados na Guiné e os militantes do PAIGC (que rapidamente se transformou em partido armado).

(ii) A Colónia Penal da Ilha das Galinhas: 

Situada no arquipélago dos Bijagós, funcionava precisamente como o destino principal para os presos políticos na Guiné (tanto guineenses como cabo-verdianos),  acusados de subversão ou cumplicidade com o PAIGC, antes e durante os primeiros anos da guerra (e até ao fim da guerra). 

A detenção por "alegadas reuniões com dirigentes do PAIGC" era o modus operandi clássico da delegação da PIDE em Bissau para neutralizar funcionários suspeitos de passar informações ou facilitar a logística nacionalista.

Mas tudo indica que o "suspeito" esteve detido (quanto tempo ?) na Ilha das Galinhas sem culpa formada e sem nunca ter sido julgado. Não se tendo provado que era "militante" ou "simpatizante" do PAIGC, terá sido deixado em paz mas transferido para longe, compulsivamente, para Moçambique. Caso contrário, poderia ter ido parar, no mínino, ao Tarrafal.

(iii) As unidades militares em Catió 

Para responder à dúvida do Zeca sobre quem se poderá lembrar desse episódio, seria fundamental identificar as subunidades militares que estavam estacionadas ou operavam em Catió no biénio de 1962/1963. Tarefa que é muito difícil ou praticamente impossível: em meados de 1962, haveria apenas uma secção a guarnecer Catió, segundo as nossas contas. 

Em todo o Sul (que abrangia as regiões de Qínara e Tombali), havia apenas, já em 1963,  um batalhão, o BCAÇ 237 (sem unidades orgânicas) (jul 61/out 63), com o comando sediado em Tite, e tendo sob o seu dispositivo e manobra  a CCAÇ 152 (em Buba) e CCAÇ 153 (em Aldeia Formosa) (mai 61/jul 63). 

Esta  última, comandada pelo cap inf José dos Santos Carreto Curto, manteve  "forças destacadas em Cufar, Catió e Bolama, por períodos variáveis" (forças essas que podiam ser de 1 secção, 1 secção reforçada, menos de 1 pelotão, 1 pelotão ou 1 pelotão reforçado, nunca uma companhia). E havia em Bedanda a 4ª CCAÇ Indígena (a partir de abril de 1967, CCAÇ 6).


Dispositivo das NT em 8 de agosto de 1962, assinalando-se com uma seta a vermelho Catió (que devia ter uma secção)

Fonte:  Excerto de: Estado-Maior do Exército; Comissão para o Estudo das Campanhas de África (1961-1974). Resenha Histórico-Militar das Campanhas de África; 6.º Volume; Aspectos da Actividade Operacional; Tomo II; Guiné; Livro I; 1.ª Edição; Lisboa (2014),  pág. 61.
 

Em 7/2/1963, a CCAÇ 153 foi rendida pela CCaç 274 (jan 62/ jan 64) e colocada em Bissau.  Esta fez operações no sector de Catió.

Sabemos por informações recolhidas pelo PAIGC, que Catió  tinha uma delegação da PIDE e ainda  "poucos soldados", por esta altura (c. 1962/63).

É hoje praticamente impossível encontrar  algum militar, ainda vivo, que tenha passado em 1962/63 por Catió e que se lembre de "ter ouvido falar desta história"... o desaparecimento ou a detenção abrupta do Chefe de Posto Agnelo Macedo pela PIDE. 

(iv) A Transferência para Moçambique e o fim prematuro de vida

A transferência de funcionários públicos "sob suspeita" ou após cumprirem períodos de detenção e inquirição  administrativa era uma prática comum do Ministério do Ultramar para afastar, dos palcos de conflito,  
os elementos ativos sem necessariamente os demitir de imediato (o que criaria mais contestação local).

O Agnelo Macedo morreu em maio de 1972, então o alegado episódio da prisão pela PIDE em Catió, em 1962 ou 1963, ocorreu cerca de dez anos antes da sua morte. Isso significa que ainda teria tido uma década de vida após esse acontecimento.

Ora, em muitos casos semelhantes da administração colonial, funcionários suspeitos de "simpatias nacionalistas" eram:

  • presos preventivamente pela PIDE;
  • sujeitos a inquérito;
  • transferidos compulsivamente para outro território ultramarino;
  • afastados de determinadas funções;
  • ou então demitidos da função pública.

A PIDE, apesar de tudo, não terá conseguido "provar" que o Agnelo Macedo era "turra"... O envio para Moçambique (um território imenso e, até 1964, ainda sem frente de guerra ativa) servia como uma espécie de "exílio administrativo". Agnelo Macedo terá continuado a sua carreira   na Administração Civil de Moçambique, como chefe de posto em Nacala,  no nordeste de Moçambique, durante a década de 1960.

O facto de ser cabo-verdiano é relevante. Nos anos que antecederam a guerra, vários funcionários cabo-verdianos da administração colonial mantinham relações pessoais e familiares com quadros nacionalistas da Guiné e de Cabo Verde. Isso não significa que fossem militantes do PAIGC, mas explica por que motivo alguns ficaram sob vigilância da PIDE.

Aliás, Catió era uma zona particularmente sensível. Mais tarde tornar-se-ia um dos principais teatros de operações do sul da Guiné. A partir do início da década de 1960, a polícia política observava atentamente funcionários administrativos, comerciantes e professores suspeitos de contactos com o movimento nacionalista.

O seu  óbito, registado em Lisboa a 23 de maio de 1972, com apenas 47 anos, sugere uma evacuação médica de Moçambique para a metrópole,  possivelmente devido a doença prolongada, uma realidade que afetava muitos dos funcionários que serviam em postos de isolamento e clima insalubre no Ultramar (com a agravante, neste caso, de ter sido preso e muito provavelmente torturado pela PIDE e internado na Colónia Penal da Ilha das Galinhas).

(v) Pistas para investigação adicional

Para robustecer  esta pesquisa e trazer respostas mais concretas ao Zeca Macedo, os caminhos documentais mais eficazes em Portugal são:

  • Arquivo Histórico Ultramarino (AHU): onde repousa o processo individual de Agnelo António Monteiro de Macedo enquanto funcionário do Quadro Administrativo Comum do Ultramar (Guiné e Moçambique); ali constam as nomeações, louvores, licenças e as notas de transferência;  seria importante saber, aqui, quem foram os administradores e chefes de posto de Catió entre 1958 e 1964, por exemplo;
  • Arquivo da PIDE/DGS (no Arquivo Nacional da Torre do Tombo): a consulta pelo nome completo no índice da PIDE/DGS poderá revelar a existência da ficha de cadastro político, o auto de detenção em Bissau e a ordem de internamento na Ilha das Galinhas entre 1962 e 1963;
  • Através do Digitarq 2026 (Direção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas (DGLAB), descobri que o processo deste antigo funcionário público ultramarino está na Torre do Tombo (ANTT): código de referência: PT/TT/DGAP-DIA/001/014275; pasta em papel, não está tratado arquivisticamente; produção: 1963 (?) - 1974 (?).
  • Condições de acesso: Não é comunicável. O acesso da documentação é regido pelo disposto no Decreto-Lei n.º 16/93, de 21 de Janeiro, tendo sido considerado que em matéria de comunicabilidade nos termos do ponto n.º 2 do artigo 17.º "não são comunicáveis os documentos que contenham dados pessoais de caráter judicial, policial ou clínico, bem como os que contenham dados pessoais que não sejam públicos, ou de qualquer índole que possa afetar a segurança das pessoas, a sua honra ou a intimidade da sua vida privada e familiar e a sua própria imagem, salvo se os dados pessoais puderem ser expurgados do documento que os contém, sem perigo de fácil identificação, se houver consentimento unânime dos titulares dos interesses legítimos a salvaguardar ou desde que decorridos 50 anos sobre a data da morte da pessoa a que respeitam os documentos ou, não sendo esta data conhecida, decorridos 75 anos sobre a data dos documentos"; e nos termos do ponto n.º 3 do artigo 17.º estabelece que "os dados sensíveis respeitante a pessoas colectivas, como tal definidos por lei, gozam de proteção prevista no número anterior, sendo comunicáveis decorridos 50 anos sobre a data da extinção da pessoa coletiva, caso a lei não determine prazo mais curto".
  • Veremos, em poste a seguir, que tendo o Agnelo morrido em 1972, portanto há mais de 50 anos, os familiares podem pedir o acesso ao processo.
No portal Casa Comum, da Fundação Mário Soares e Maria Barroso, não aencontrámos, numa pesquisa rápida,  nenhuma referência ao nome do Agnelo Macedo.

(Pesquisa: LG + Página de Barros Brito + Digitarq «  IA (Gemini IA / Google)
(Condensação, revisão/fixação de texto, itálicos, negritos, título: LG)
___________________

Nota do editor LG:

Último poste da série > 6 de junho de 2026 > Guiné 61/74 - P28077: Casos: a verdade sobre ...(74): A tragédia de Fajonquito, o "Dia Negro" de 2 de abril de 1972, domingo de Páscoa: evocandio duas das suas vítimas, oc ap art Carlos Borges de Figueiredo e o sold Pedro José Aleixo de Almeida (Cherno Baldé, o "Chico de Fajonquito)

Guiné 61/74 - P28081: Movimento Nacional Feminino: as tournées de artistas conhecidos, com apoio dos meios empresariais do espectáculo




Florbela Queiroz (nb. 1943): em 1967, em Mocimboa do Rovuma, Moçambique.(Fonte: "Guerra Colonial: fotobiografia", de Renato Monteiro e Luís Farinha. Lisboa: Dom Quixote e Círculo de Leitores, 1990, pág, 226, com a devida vénia).


A popular artista, atriz (de cinema e teatro de revista) e canconetista (a partir de 1966), aqui retratada na capa da revista quizenal "Plateia", nº 104 (15 de novembro de 1961). A Brigute Bardot portuguesa, como já era conhecida, tinha entáo 18 anos (nasceu em Lisboa em 1943). Cortesia de Instragam > florbela.queiroz


Raul Solnado (1929-2009): entre militares em Zala, Angola. S/d.
.(Fonte: "Guerra Colonial: fotobiografia", de Renato Monteiro e Luís Farinha. Lisboa: Dom Quixote e Círculo de Leitores, 1990, pág, 226, com a devida vénia).


Raul Solnado (1929-2009): ator, apresentador de televisão, humorista (um dos génios do humor português do sec. XX). Capa da revista "Nova Antena", 1 de  novembro de 1968. Fonte: Wikipedia, com a devia vénia.



Guiné >: Região de Tombali > Guileje > 10 de novembro de 1969 > CART 2410, "Os Dráculas"  (Gadamael e Guileje, 1968/70) >  "Duo Ouro Negro" .(Fonte: "Guerra Colonial: fotobiografia", de Renato Monteiro e Luís Farinha. Lisboa: Dom Quixote e Círculo de Leitores, 1990, pág, 227, com a devida vénia).





Guiné > Zona Leste > Região de Bafatá > Sector L2 > Fajonquito > CART 2742 > 1971 >  Atuação de um grupo de cançonetistas que vieram da Metrópole com o apoio do Movimento Naciuonal Feminino. O Zé Turra, embora não gostasse de fado nem do nacional-cançonetismo, também aparecia, nestes espetáculos no mato, disfarçado com a população local...(Sabe-se que preferia, naturalmente,  a coladera, o gumbé, etc., os ritmos de Cabo Verde e da Guiné.)

Prompt original e composição editorial: Luís Graça.
Imagen: José Bebiano (2010)
Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.


1. Alguns/algumas artistas de variedades, fadistas, cançonetistas, actores do teatro de revista, humoristas, apresentadores de televisão,  radialistas, etc., atuaram,  nos três teatros de operações, em plena guerra do ultramar / colonial, entre 1961 e 1974, incluindo na Guiné. 

"Seguindo um modelo experimentado noutros palcos de guerra, o Movimento Nacional Feminino, com apoio dos meios empresariais do espectáculo,  organizava tournées,  às três frentes de combate, com os artistas mais conhecidos do teatro e da música ligeira" (in: "Guerra Colonial: fotobiografia", de Renato Monteiro e Luís Farinha. Lisboa: Dom Quixote e Círculo de Leitores, 1990, pág, 227; foto da capa à direita). (Recorde-se que o meu querido amigo e camarada e  saudoso grão-tabanqueiro Renato Monteiro (1946-2021) foi fur mil art, CART 2479 / CART 11, Contuboel, Nova Lamego e Piche, 1969; e CART 2520, Xime e Enxalé, 1969/70).

A TAP e o Exército asseguravam o apoio logístico aos artistas em "tournée" (transportes, alojamento, alimentação,  segurança, etc.). 

O tema está mal documentado no nosso blogue, com exceção das atuações do Conjunto Académico João Paulo e pouco mais. Temos 12 referências ao Marco Paulo.

È difícil (se não impossível) reconstituir com rigor o elenco exato de artistas que passaram pelo TO da Guiné, por exemplo,  mas  sabe-se que as Forças Armadas, o Movimento Nacional Feminino e outras entidades organizavam regularmente "tournées" (sic), ou digressões,  de artistas, uns mais conhecidos do que outros. Atuaram em povoações, aquartelamentos, destacamentos,  bases aéreas. navios da marinha, etc.

Entre os artistas que, em diferentes momentos da Guerra Colonial, passaram pelo Ultramar ou participaram em espetáculos para as tropas ou colaboraram noutras iniciativas do MNF (como os discos de Natal, 1971,1973...) contam-se:
  • Madalena Iglésias
  • Simone de Oliveira
  • António Calvário
  • Artur Garcia
  • Maria José Valério
  • Hermínia Silva
  • Tony de Matos
  • Marco Paulo (estava na Guiné, em 1968, a cumprir o serviço militar, ainda no início da sua carreira musical) (vd. aqui vídeo da RTP)
  • Paco Bandeira (atuou em Angola, onde cumpriu a sua comissão)
  • Duo Ouro Negro (formado pelos angolanos Raúl Indipwo e Milo MacMahon) (vd. aqui um vídeo da RTP Aqruivos, de 1967).
  • Florbela Queiroz (vd., aqui vídeo de 1972, da RTP Arquivos)
  • Armando Cortez
  • Parodiantes de Lisboa
  • Francisco Nicholson
  • Raul Solnado (vd,. aqui um vídeo da RTP Arquivos, de 1978)
  • etc.

2. Facto desconhecido para muitos dos nossos leitores, foi a Cecília Supico Pinto  quem "conseguiu que os músicos do 'Conjunto João Paulo' cumprissem o serviço militar actuando no mato em digressões pelas 'províncias' ", revelação feita na sua biografia, escrita por Sílvia Espírito Santo ("Cecília Espírito Santo,o rosto do Movimento Nacional Feminino, Lisboa, A Esfera dos Livros, 2008, pp. 144). 

Ela sabia, de resto, da experiência norte-americana na II Guerra Mundial (e depois na Coreia e no Vietname), da importância que podia ter, sobre o moral das tropas em África, as atividades de natureza lúdica, como os espetáculos musicais ao vivo, feitos por artistas em voga, vindos da metrópole. 
 
Houve muito boa gente, do mundo do espectáculo, incluindo a nossa "diva", a  Amália Rodrigues, que colaborou com o Movimento Nacional Feminino, quer na edição dos famosos discos de Natal (1971 e 1973), quer participando inclusive em digressões pelos quartéis do mato ou em concertos na metrópole para angariação de fundos.

Além dos músicos do Conjunto Académico João Paulo, talvez o caso mais conhecido terá sido o da  actriz de teatro de revista e cinema (mas também cançonetista, a partir de 1966) Florbela Queiroz.

A Florbela Queiroz (nascida em Lisboa, em 1943) não sei se passou pela Guiné, mas diz ela que andou no mato 8 meses, em 1967 e 1968. 

"Nunca fui tão respeitada por toda a gente. Eu era nova, tinha 21 anos, era uma miúda gira, e andava lá no mato no meio dos soldados, comi da ração deles. Foi a época em que mais me realizei" (cit. por Sílvia Espírito Santo - "Cecília Supico Pinto: o rosto do Movimento Nacional Feminino". Lisboa, A Esfera do Livro, 2008, pág. 144)


Isabel Amora
(1946-.2020)

O célebre disco "Natal 71", enviado aos militares destacados no Ultramar, incluía mensagens e participações de vários destes artistas e figuras públicas, refletindo a forte ligação então existente entre o meio artístico, os empresários do "show business", o MNF  e as campanhas de "apoio moral" aos soldados. 

A elite do Estado Novo queria mostrar que os "rapazes" que defendiam   os seus interesses em África, não estavam esquecidos nem eram abandonados. Em especial em datas sensíveis como o Natal.

No caso específico da Guiné, há também referências dispersas a atuações de vários conjuntos musicais militares que faziam circuitos por Bissau, Bambadinca, Bafatá, Nova Lamego, Teixeira Pinto e outros aquartelamentos, em geral nas sedes de circunscrição e de batalhão  locais mais acessíveis.
 
Em abril de 1971 houve uma grande "Noite das Forças Armadas", na Associação Comercial, Industrial e Agrícola, em Bissau. Mas o espetáculo foi assegurado exclusivamente por artistas, que cumpriam serviço no CTIG,  com números musicais, humorísticos e de variedades. Isto mostra que nem toda a animação dependia de artistas vindos da metrópole.

Muitos camaradas da Guiné recordam-se mais facilmente dos nomes das vedetas femininas do que dos cantores. Foi o caso da desconhecida Isabel Amora (1946-2020), 

 Muitos espetáculos na Guiné eram organizados localmente e incluíam:conjuntos musicais militares, oriundos da metrópole como o Conjunto Académico João Paulo (6 referências no blogue), ou formados "ad hoc", como o Conjunto Musical das Forças Armadas (4 referências) ou o Conjunto Os Bambas D'Incas (5 referências).


3. Fica aqui um apelo aos nossos leitores: 

"Quem assistiu, no mato, a espetáculos de artistas da metrópole em digressão pela Guiné ? Em que local? Quem atuou? Há fotos, cartazes, programas, autógrafos ?"

A memória (individual e grupal)  dos antigos combatentes costuma revelar programas de espetáculo, fotografias e até autógrafos esquecidos em baús e malas no sótão ou nas gavetas das velharias (material que irá, para o lixo, sem dó nem piedade, quando à gente der o trângulo-mango, isto é, lerpar)...

Pesquisa: LG + Net + Wikipedia ´+  IA (ChatGPT / OpenAI| Vibe Mistral AI| Gemini AI / Google)

(Condensação, revisão / fixação de texto, negritos, links, título:  LG)

Guiné 61/74 - P28080: Notas de leitura (1926): "Coragem, Altruísmo e Fé", por Rosalina Coelho Vaqueiro; Chiado Books, 2025 (1) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 4 de Dezembro de 2025:

Queridos amigos,
É uma tocante biografia, a Eugénia do Espírito Santo Sousa, falecida este ano, com 89 anos, possuía um poder memorial incomum que seguramente facilitou a vida da biógrafa, que nos dá um quadro vivacissimo do viver na ilha de Santo Antão naquelas décadas de 1930, 1940 e 1950. Estudante aplicada, preparou-se no Porto e em Lisboa, em 1961 predispôs-se a ir ajudar quem sofria na guerra. Percorrerá os três teatros de operações, estará presente na Guiné em três momentos diferentes. Foi uma vida de serviço. Eu só lamento que a Rosalina Vaqueiro não tenha pedido auxílio para a revisão, há por ali alguns dislates e incorreções que facilmente se supriam, oxalá que haja segunda edição e humildade da escritora para pôr tudo num brinco.

Um abraço do
Mário



Capitão Paraquedista Eugénia do Espírito Santo, de Santo Antão para as guerras de África: esteve na Guiné em 1962, 1969, 1972 e 1973, temos aqui uma biografia tocante - 1

Mário Beja Santos

O que a biógrafa Rosalina Coelho Vaqueiro aqui nos apresenta, e seguramente surpreendendo toda a gente, é a infância e a juventude de uma menina em Santo Antão, primeiro, a narrativa arrebatadora, pois a memória daquela octogenária guardara tudo ao pormenor; temos depois a paraquedista que vemos na capa, esbelta, de farta cabeleira, com olhos castanho-verdes, em pose informal para o fotógrafo, não disfarçando cansaço. Como todos os anjos do céu, assim passámos a designar aquelas enfermeiras que confortavam os combatentes sinistrados, sabe-se lá a tristeza com que ela vinha daquela missão e que a imagem não revela. Uma biografia que releva a imagem de uma rapariga crente, crente ficará toda a vida, fez-se enfermeira, preparou-se em Tancos, tem a sua primeira missão em 1961, percorrerá todos os teatros de operações, manter-se-á firme e proativa na reforma, abala-nos, desperta-nos para a exemplaridade daquele altruísmo que era o timbre de todas estas mulheres, sempre solícitas, a recuperar militares e civis em situação crítica. Falamos de "Coragem, Altruísmo e Fé", por Rosalina Coelho Vaqueiro, Chiado Books, 2025.

Tive o privilégio de visitar a ilha de Santo Antão, embrenhei-me prontamente na terra natal da enfermeira Eugénia, e entender perfeitamente o que aqui se escreve sobre a fé que nos salva, a vida duríssima dessa ilha escarpada, onde também se espera a chuva e se teme a seca. “Tanto ano sem pingo de água, queira Deus que, quando essas nuvens enganadoras descarregarem não seja desgraça maior, inundando tudo o que é chão, com enxurradas que derramam e arrastam à sua frente qual lava de vulcão da ilha do fogo – árvores, casas, bicho e até gente, por todo o nosso Santo Antão, numa fúria desaustinada.” E também: “Sempre que as águas secam e a fome aperta, acabam-se os pastoreios e os homens dos rebanhos de cabras, os pastores de ovelhas mortas e a gente de côdea incerta, esgueiram-se, sorrateiramente, morro abaixo, esfomeados, cobertos de lã de cordeiro ou de pele de cabra, na calada da noite e, num ultimo rasgo de força, saltam muros e assaltam quintais onde adivinham reservas de milho ou feijão, algo que possam levar à boca para aplacar a agonia dos ventos ocos e, varando capoeiras como um bicho bravo, tiram o pão que resta da boca de outros esfomeados.”

A mãe de Eugénia chamava-se Cristina, haverá uma primeira filha, Maria de Fátima, com quem Eugénia se relacionará até ao fim da sua vida. Cristina era bordadeira, morrerá de tuberculose quando Eugénia tem dois anos. Nada se sabe do pai de Eugénia, dizia-se que era um tenente que se apaixonou pela jovem Cristina. Mergulhamos na vida da Ribeira Grande de Santo Antão, a tia Nininha tomará conta de Maria de Fátima, as meninas Sequeiras educaram Eugénia. É uma ternura o que ela vai contar das três mães, o seu dia-a-dia, a preferência pela mãe Rosáia, a vivacidade da descrição da vida daa criadagem, o trabalho dos homens e o trabalho das criadas, a vida agrícola, o papel crucial dos animais, o universo das crianças, as traquinices, o trapiche, o alambique onde faz a aguardente, o grogue. Eugénia recorda aquela cana-de-açúcar plantada nas encostas íngremes da ilha, o transporte pelos bois, as canas a prensar entre os ferros do engenho.

A menina vai à escola em Ponta do Sol, dez quilómetros ida e volta, mas Eugénia ficava em casa da professora e a criada Antónia ia lá todos os dias fazer cachupa guisada com ovo estrelado para pequeno-almoço. Eugénia foi educada por três irmãs muito tementes a Deus, muitas rezas e muitos santinhos, pede-se socorro nas horas de aflição, a fé é uma dádiva do céu, impossível não acompanhar toda esta memória da sua juventude em Santo Antão sem comoção, o sentimento genuíno de quem tudo recorda com lufadas de gratidão, o que nos conta de bruxaria e superstições, aquelas crenças com dedos em cruz atrás das costas, as figas, à noite não passar perto de uma pocilga de porcos, as almas penadas.

A menina cresce, interessava-se por tudo o que tinha a ver com feridas, ligaduras, queixas disto ou daquilo, gostava de ajudar. Entre os 10 e os 15 anos, Santo Antão enfrentou anos de seca extrema, anos de dor e morte. Eugénia vai a São Vicente para fazer o exame do segundo ano, joga-se então o seu futuro, vai para um curso de enfermagem numa escola no Porto, lembra-se muito bem da sua passagem por Lisboa. É no Porto que é admitida no Curso Geral de Enfermagem, na escola D. Ana Guedes da Costa, começa pelo Curso de Auxiliar de Enfermagem, tem 21 anos quando acabou a primeira fase do estudo. Foi colocada no Hospital de S. António para estagiar. Fim do curso, inscreveu-se no Curso Geral de Enfermagem, no Hospital de Santa Maria. Fez o curso prático na Propedêutica Cirúrgica. Lembra a todo o momento as pessoas a quem deve atenções.

E assim chegamos a 1961. Eugénia candidata-se no serviço de saúde no Estado-Maior da Força Aérea. Fará parte do curso de paraquedismo, em Tancos, conta ao detalhe a sua preparação. A biógrafa não perde oportunidade de recordar que no decorrer dos vários cursos, entre 1961 e 1974, viriam a ser formadas 47 enfermeiras paraquedistas, elencam-se as perdas e diz-se que a última missão delas viria a ser na evacuação de civis de Timor para Lisboa, via Honalulu e Bali, em 1975. Em 1962 está na Guiné, formalmente a guerra de guerrilhas ainda não começou. Eugénia acabara o segundo curso de paraquedistas em junho e foi colocada na Guiné em setembro, já lá estava a Maria Arminda. O seu posto é de tenente, tem 28 anos. Jamais esqueceu as experiências dolorosas que viver na Guiné.

Uma história que ela conta à biógrafa:
“Quando transportava feridos para o Hospital Militar de Bissau aconteceu ter de socorrer dois feridos ao mesmo tempo, um soldado guineense e um furriel branco, estavam a sofrer devido à explosão de uma mina. Enquanto preparava a injeção para ajudá-los, dentro do helicóptero, sentia que nenhum deles podia esperar pelo outro.
O soldado guineense puxava-me pelo camuflado, o furriel era mais paciente olhava-me com sofrimento e suplica. Senti-me tão preocupada com a expressão angustiante de ambos que, pela primeira e última vez na minha vida de enfermeira, usei a mesma seringa e a mesma agulha para lhes injetar a droga que os iria aliviar daquele sofrimento tão intenso. Infelizmente o furriel não suportou a anestesia:
‘Ainda me vem ao pensamento a visão daquele furriel a olhar para mim, sem um lamento, que no dia seguinte fui visitar ao hospital e já lá não estava. Isso ainda hoje me faz vir as lágrimas aos olhos’.”


Autora da biografia, Rosalina Vaqueiro
Eugénia do Espírito Santo Sousa, Cap. Enf. Pqdt. (Ribeira Grande, Santo Antão, Cabo Verde, 1935 - Sesimbra, 2025)
A Eugénia do Espírito Santo Sousa um bonito sorriso na sua idade maior, imagem retirada da Associação Portuguesa de Enfermagem Militar, com a devida vénia.

(continua)
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Nota do editor

Último post da série de 18 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P28035: Notas de leitura (1925): "Estranha Guerra de Uso Comum" de Paulo Faria; Ítaca, 2016 (Mário Beja Santos)

Guiné 61/74 - P28079: Parabéns a você (2494): João Gabriel Sacoto, ex-Alf Mil Inf da CCAÇ 617/BCAÇ 619 (Bissau, Catió e Cachil, 1964/66)

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Nota do editor

Último post da série de 6 de Junho de 2026 > Guiné 61/74 - P28074: Parabéns a você (2493): Belarmino Sardinha, ex-1.º Cabo Radiotelegrafista STM/CTIG (Mansoa, Bolama, Aldeia Formosa e Bissau, 1972/74)

domingo, 7 de junho de 2026

Guiné 61/74 - P28078: Humor de caserna (272): As minhas "turras" com a menina IA que não tem um pingo de sentido de humor... A propósito da cantora ié-ié de Jabadá, que não era... "careca" (Luís Graça)


Guiné > Região de Quínara > Jabadá > CCAV 2484 (1969/70) , Os Dragões de Jabadá" >  A cantora ié-ié Isabel Amora (1946-2020), atuando para os militares do aquartelamento, que ficava na margem esquerda do Rio Geba. 

Representação artística, livre,  desse espetáculo. Tudo indica que, nesse dia e local,  a jovem artista, em princípio de carreira (e infelizmente já falecida),   tenha aparecido com duas indumentárias diferentes: vestido curto, mas de manga comprida e minissaia, e na segunda parte  blusa de manga curta e calça à boca de sino. A foto (inspiradora...) é do Manuel Antunes, ex-sold cond auto (CCAV 2484, "Os Dragões de Jabadá"), que vive no Canadá


Prompt original e composição editorial: Luís Graça.
Foto: Manuel Antunes (2022)
Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.

1.  Falar com máquinas pode até ser divertido mas também às vezes exasperante... Divertido, por enquanto... Um dia pode vir a ser um pesadelo, como foram durante 48 anos na Ditadura Militar e no Estado Novo os coronéis da censura (que não eram máquinas, eram pior, eram "calhaus")... 

De vez em quando tenho as minhas "turras" com a IA. Recusa-se a fazer a ilustração que lhe peço, alegando que o meu prompt "pode violar as suas  politicas de conteúdo" (sic). 

Nunca diz quais são. É preciso então contestar, uma, duas,  três vezes. Às vezes, falo mal:  "P*rra, a foto de uma jovem cantora ié-ié, de minissaia, que vem de Portugal e vai atuar no mato, na Guiné, para os soldados portugueses e a população local... é material pornográfico ou tem conotação sexual?!... A minissaia também chegou depressa ao Portugal de finais dos anos 60!...

"E depois tens que perceber que quem está na guerra, lá no cu de Judas, a 4 mil km de casa, o que mais quer ver é um belo par de...pernas de uma jovem da sua idade!... Não lhe mandem uma matrona de média idade, fadista, como a Cilinha, mas uma garota estouvada da música ié-ié!"...

Resposta, sensata e conciliadora, por fim, da ferramenta da IA (ChatGPT / Open AI): 

(....) "Camarada, pelo que descreves, não vejo nenhum problema de política em mostrar uma cantora jovem de 1969/70, de minissaia, a atuar perante soldados num quartel da Guiné. Mostrar pernas, minissaias ou moda da época não tem nada de problemático.

O que provavelmente aconteceu foi outra coisa: o sistema automático pode ter interpretado a combinação de fatores como:

  • imagem de uma pessoa real;
  • pedido de recriação baseada numa fotografia histórica;
  • referência à atratividade física ("bom par de pernas");
  • contexto militar.

Por excesso de cautela, alguns filtros automáticos bloqueiam pedidos perfeitamente legítimos. Isso acontece ocasionalmente.

Para ser claro: uma ilustração histórica ou humorística de uma cantora dos finais dos anos 60/início dos 70, de minissaia, a atuar num quartel da Guiné, não tem nada de sexual explícito nem de impróprio. E o teu objetivo é manifestamente documental e de reconstituição de ambiente.



Isabel Amora em Jabadá ,c. 1969/70
Foto: 
Manuel Antunes (2022)

Aliás, a fotografia que mostras de Jabadá é interessante 
por outra razão: ela transmite muito bem o que era o ambiente desses espetáculos improvisados. Não havia necessariamente 
um palco. Muitas vezes a artista cantava num terreiro, com um microfone ligado a uma aparelhagem rudimentar, rodeada por militares sentados em bancos, bidões ou simplesmente no chão. O centro das atenções era a novidade da visita, a quebra da rotina e o contacto com alguém vindo da metrópole". (...)

E mais adiante, a púdica da menina da IA continua a desculpar-se, depois de "engolir os insultos":

"Também concordo contigo num ponto histórico: em 1969/70 a minissaia já estava perfeitamente instalada em Portugal, sobretudo entre as artistas de variedades e cançonetistas mais jovens. 

Uma reconstituição fiel da época teria muito mais provavelmente vestidos curtos, penteados da moda e botas ou sapatos de salto baixo do que os vestidos compridos que apareceram na primeira imagem.

Quanto ao 'humor de caserna', faz parte da memória da guerra  e não me escandaliza nada que o Zé Soldado apreciasse a música... e também um bom par de... pernas".

"Á falta de melhor, camarada", acrescento eu, com ironia...Afinal,  quem lê os aerogramas, os jornais de unidade e as memórias dos antigos combatentes como no meu blogue, incluindo a decoração dos "bunkers" (ou buracos onde dormiam)  com fotos de meninas de mama ao léu, encontra isso a cada passo.

2. Bom, lá acabámos, por fim, por chegar a um acordo mutuamente satisfatório. E a menina da IA, que não tem sentido de humor (nem muito menos "sex appeal")  mas agora "mais meiguinha" vem então com a sua contraproposta:

"Se quiseres voltar a tentar uma ilustração, eu sugeriria descrevê-la em termos históricos: Jabadá,  Guiné Portuguesa, 1969/70. Jovem cantora portuguesa em início de carreira, com vestido curto, típico da moda da época, a atuar ao ar livre perante militares da CCAV 2484 e alguns habitantes locais. Ambiente descontraído de espetáculo de variedades no mato, fotografia de época, realista, sem identificação de pessoas concretas."

Muito bem, concluimos os dois que esse pedido, formulado assim, é perfeitamente compatível com uma reconstituição histórica, asséptica, neutra, sem ofensa para a moral pública no séc. XXI nem muito menos para a "bons costumes" da pátria do Tio Sam.

E eu, diplomaticamente, encerrei o assunto, tratando-a também por "camarada" (imaginem!) (ela gosta destas "cumplicidades", ou "ligações perigosas", dirão alguns dos nossos leitores):

"Assim, está bem, acabamos por nos entender os dois, camarada!... Faz lá essa ilustração, há poucas fotos dessa época com artistas da Metrópole a atuar para as Forças Armadas na Guiné (que era um sítio feio, perigoso, pouco recomendável para meninas cantoras de minissaia, etc.)".


Pesquisa: LG + IA (ChatGPT / OPen AI)
(Condensação, revisão/fixação de texto, negritos, itálicos, título: LG)

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Nota do editor LG:

Último poste da série > 5 de junho de 2026 > Guiné 61/74 - P28072: Humor de caserna (271): "Poema para o meu irmão branco" (ou... a única cor que não muda é a da hipocrisia)

sábado, 6 de junho de 2026

Guiné 61/74 - P28077: Casos: a verdade sobre ...(74): A tragédia de Fajonquito, o "Dia Negro" de 2 de abril de 1972, domingo de Páscoa: evocandio duas das suas vítimas, oc ap art Carlos Borges de Figueiredo e o sold Pedro José Aleixo de Almeida (Cherno Baldé, o "Chico de Fajonquito)




Guiné > Zona Leste > Região de Bafatá >( Sector L2 (Bafatá) >  Fajonquito > 1971 > CART 2742 (1970/72) > "Fajonquito em festa... Com a CART 2742 (1970-72), o ambiente entre a tropa e a população melhorou bastante, atingindo níveis nunca antes vistos. 
.
A foto de 1971 (amigavelmente enviada pelo ex-fur mil José Bebiano) mostra uma calorosa receção de um grupo de artistas vindos da metrópole para animar a malta. Ao meio e ao lado de uma das artistas pode-se ver o nosso saudoso Cap Carlos Borges de Figueiredo. 

O rapazinho nas mãos do homem dos óculos escuros é o Carlitos, filho de um soldado português. (Mais tarde, iria à procura do pai, tendo aquele recusado o encontro à última da hora.)

 O ex-furriel José Bebiano, que era de rendição individual, tendo feito toda a sua comissão em Fajonquito poderia, eventualmente, identificar os soldados que acompanham o seu Comandante nesta foto." (Foto de José Bebiano; legenda de Cherno Baldé).




Guiné > Zona Leste > Região de Bafatá >( Sector L2 (Bafatá) >  Fajonquito > 1971 > CART 2742 (1970/72) > Dois furriéis milicianos, à esquerda o Alcino Franco Jorge da Silva (da CART 2742, morto em 2/4/1972, juntamente com o cap art Carlos Borges de Figueiredo, o alf mil José Fernando Félix, e o sold Pedro José Aleixo de Almeida) e o José Bebiano, à direita (era de Informações & Operações, de rendição individual,  e esteve  ainda uns meses em Fajonquito, com o José Cortes,  ex-fur mil at inf  CCAÇ 3549/BCAÇ 3884, Fajonquito, 1972/74, a companhia que foi render a CART 2742 ). 

 A CART 2742 pertencia ao BART 2920 (Bafatá, 1970/72). (O José Bebiano, em 2010, era ex-professor de Educação Física em Moura, aposentado desde 30/11/2009; nunca respondeu ao nosso  convite para integrar a Tabanca Grande; tem página no Instagram)
 
Fotos (e legenda): © José Bebiano (2010). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagemcom'plementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné].
 

1. Comentário de Cherno Baldé na página do Facebook da Tabanca Grande, 5 de junho de 2026 17:42, com referência ao poste P28073 (*)


O Chico de Fajonquito,
com 14 anos (c. 1974)
(...) Quando falei deste caso no Blogue (**), referi que estava, no momento do rebentamento da granada, a uns 100 metros, na verdade, após verificação, constatei que estávamos, eu e um colega, a menos de 50 metros do local. A nossa sorte foi que tudo aconteceu dentro do edificio que servia de secretaria geral e escritório do capitão da companhia. 

Ouvimos o rebentamento e a seguir uma nuvem de poeira se levantou acima da cobertura de zinco, estávamos na época seca. A seguir, fugimos do local a sete pés e só voltámos quando a população se reuniu, à distância, para se inteirar do ocorrido e partilhar o sentimento de pesar e de luto. 

Foi um dia triste para todos os presentes, sem exceção. De facto, o depoimento do ex-furriel Rui Osório Oliveira (*)  é verídico e oferece-nos detalhes importantes que fazem toda a diferença sobre este caso e, a meu ver, a tese do acidente ganha vulto, afastando a de homicídio premeditado. 

Também, ficamos a saber que, o que estava em causa seria a possibilidade de continuar na tropa e não, necessariamente, na Guiné. 

2. Comentários anteriores do Cherno Baldé sobre esta tragédia (homicídio ? acidente ?) e duas das suas vítimas, o cap art Carlos Borges de Figueiredo, natural de Vila Pouca de Aguiar, e o sold Pedro José Aleixo de Almeida, natural de Portel- (Já agora acrescente-se o concelho da naturalidade das outras duas vítimas deste "acidente com arma de fogo": o fur mil Alcino Franco Jorge da Silva era de Cascais;  o alf mil José Fernando Félix era de Moimenta da Beira.)


Cherno Baldé
(c. 2009)

(...) Pela versão que prevaleceu entre nós, alegadamente, o soldado Almeida estava revoltado por não poder voltar à sua terra após várias comissões de serviço, em virtude de um castigo a que estava sujeito e tinha decidido acabar com a sua vida e com ele, também, a do comandante da companhia. 

Claro que isto faz parte dos rumores que circularam, na ausência de informações oficiais, na altura.

Quero dizer a quem me quiser ouvir, e isto por minha conta, que o Almeida era um soldado "profissional", muito aguerrido,  que dificilmente poderia levar uma vida civil pacata no meio indígena ou gerindo uma lojeca ou um restaurante para servir a malta europeia numa cidade qualquer da Guiné. 

O Almeida não era um soldado vulgar e via-se claramente que não se tinha integrado na companhia dos restantes soldados e milicianos pelos quais  quais ele nutria muita pouca consideração e/ou respeito.

Tão pouco se podia integrar no meio dos pretos,  embora se identificasse com eles. Penso que, antes de mais, o nosso amigo Ameida (ele era de facto um amigo e defensor das crianças que frequentavam o aquartelamento, ai de quem se atrevesse a fazer mal a uma criançaa na sua presença!) deve ter sido mais uma das inúmeras vitimas daquela guerra terrível. (..) (**)


(...) "O que vou dizer pode parecer paradoxal se não incongruente. O sr. Carlos Borges de Figueiredo, ao contrário de muitos outros, foi um capitão pacifista pois ele tinha-se distinguido, sobretudo, pela promoção da educação entre as crianças nativas (o número de alunos na escola local tinha aumentado significativamente facto que poderia estar ligado ao ambiente de paz criado e uma grande sensibilidade pelos problemas sociais da população) e organização de eventos sócio-culturais que, não só afastavam, por algumas horas, o espectro da guerra e da morte entre a tropa mas eram também muito úteis e importantes na construção de relações de aproximação e de confiança com a populaçã local, tão prezada por general Spínola.

Foi nessa altura que, pela primeira vez, recebemos a visita de grupos musicais vindos da metrópole. Numa dessas visitas, lembro-me da presença de uma ou mais mulheres cantavam o Fado. A música era muito morna, lenta demais para o nosso gosto temperado na ritmada, quase violenta dança de tambor mandinga. 

No meio de tudo isso, não nos escapou um detalhe importante. Notámos a deferença e o extremo respeito com que todos a(s) tratavam. O respeito dado àquela(s) mulher(res) contrastava de forma flagrante com a maneira como habitualmente lidavam com as nossas mulheres, fossem elas grandes ou pequenas. E não estou a referir-me, claro a esta, à esposa do capitão que, também, deve ter visitado Fajonquito.

Ele ficou conhecido no meio da populacao local com o nome de Capiton Lelö Dahdè, o que na lingua fula significa o Capitão Cabeça inclinada. Talvez aqueles que o conheceram de perto me possam corrigir, parece que ele tinha o hábito de inclinar ligeiramente a cabeça para um dos lados, daí o nome com que o baptizaram e que fica para a história." (...) (***)

Guiné 61/74 - P28076: Fichas de unidades (41): BART 2920 (Sector L2, Bafatá, 1970/72), CART 2741 (Contuboel), CART 2742 (Fajonquito) e CART 2743 (Geba)


Batalhão de Artilharia n." 2920 (tem 8 referêncvias no blogue)


Identificação BArt 2920

Unidade Mob: RAP 5 - Penafiel

Crndt: TCor Art Fernando de Melo Macedo Cabral | 2º Crndt: Maj Art Álvaro Nuno Miranda Furtado | OInfOp/Adj: Maj Art Rui Folhadela Macedo Rebelo

Crndts Cornp:

  • CCS: Cap Art Eduardo da Conceição Santos
  • CArt 2741: Cap Art João Maria Clímaco de Sousa Brito
  • CArt 2742: Cap Art Carlos Borges de Figueiredo | Alf Mil Art Baltazar Gomes da Silva
  • CArt 2743: Cap Mil Art Ilídio do Rosário dos Santos Moreira

Divisa: -

Partida: Embarque em 18Ju170; desembarque em 24Ju170 | Regresso: Embarque em 21 Set72 (CArt 2741), 22Set72 (CArt 2742) e 23Set72 (Cmd, CCS e CArt 2743)

Síntese da Actividade Operacional

Em 03Ag070 seguiu para Bafatá, a fim de efectuar a sobreposição e render o BCaç 2856, assumindo, em 13Ago70, a responsabilidade do Sector L2, com sede em Bafatá e abrangendo os subsectores de Geba, Fajonquito, Contuboel e Bafatá e, a partir de 29Ag070, o de Sare Bacar. As suas subunidades mantiveram-se sempre integradas no dispositivo e manobra do batalhão.

Desenvolveu intensa actividade operacional orientada para a contra-penetração e segurança e protecção das populações, efectuando numerosas acções e operações, patrulhamento, emboscadas, reconhecimentos ofensivos e reacções a ataques inimigos, em especial contra Ualicunda, Sare Bacar, Sumbundo e Cantacunda e outras povoações em autodefesa.

Dentre o material capturado mais significativo, refere-se: 3 espingardas, 2 lança-granadas foguete, 21 granadas de armas pesadas e a detecção e levantamento de 20 minas.

Em 28Mai72, foi rendido no subsector de Bafatá pelo BCaç 3884 e recolheu 
seguidamente a Bissau, a fim de aguardar o embarque de regresso.

***

A CArt 2741 seguiu em 03Ag070 para Contuboel, a fim de efectuar a sobreposição e render a CCaç 2435, seguindo um pelotão para Sare Bacar, em 05Ag070 e outro para Sare Aliú Sene, em 12Ag070.

Em 13Ag070, assumiu a responsabilidade do subsector de Contuboel, com forças destacadas na ponte do rio Geba, Sora, Sare Bacar e Sare Aliú Sene.

Em 20Ag070, por criação, ainda com carácter temporário, do subsector de Sare Bacar, passou a ter três pelotões destacados neste novo subsector e instalados em Sare Bacar, Sare Aliú Sene e Sora, onde se mantiveram até à chegada da CCaç 2636, entre 20 e 24Set70. 

A partir de 24Set70, mantendo efectivos na ponte do rio Geba, passou a ter destacados dois pelotões em Sare Uale e Sumbundo, no subsector de Fajonquito, onde permaneceram até finais de Jun71. 

Seguidamente destacou efectivos para reforço temporário do subsector de Bafatá e, deslocou um pelotão para Sonaco, mantendo sempre o destacamento da ponte do rio Geba.

Em 28Mai72, foi rendida no subsector de Contuboel pela CCaç 3547 e recolheu seguidamente a Bissau, a fim de efectuar o embarque de regresso.

***

A CArt 2742
seguiu em 03Ag070 para Fajonquito, a fim de efectuar a sobreposição e render a CCaç 2436, assumindo, em 13Ag070, a responsabilidade do respectivo subsector, com forças destacadas em Cambajú, Sumbundo, até 24Set70 e Ualicunda, de 24Set70 a Jul71 e Sare Uale, a partir de finais de Jun71.

Em 21Mai72, foi rendida no subsector de Fajonquito pela CCaç 3549 e recolheu seguidamente a Bissau, a fim de efectuar o embarque de regresso.

***

A CArt 2743 seguiu em 03Ag070 para Geba, a fim de efectuar a sobreposição e render a CCaç 2437, assumindo, em 13Ag070, a responsabilidade do respectivo subsector, com pelotões destacados em Cantacunda e Sare Banda.

Em 27Mai72, foi rendida no subsector de Geba, pela CCaç 3548 e recolheu seguidamente a Bissau, a fim de efectuar o embarque de regresso.

Observações - Tem História da Unidade (Caixa n." 98 - 2ª Div/4ª Sec, do AHM).

Fonte: Excertos de Portugal. Estado-Maior do Exército. Comissão para o Estudo das Campanhas de África, 1961-1974 [CECA] - Resenha Histórico-Militar das Campanhas de África (1961-1974). 7.º volume: Fichas das Unidades. Tomo II: Guiné. Lisboa: 2002, pp. 230- 231.

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Guiné 61/74 - P28075: Guiné-Bissau, hoje: factos e números (9): caju, a nova "semente do diabo" ? - Parte III


1. Na sua página do Facebook, Tita Pipoka (ativista e empreendedora social,a viver em Bissau,  e que tem mais de 200 mil seguidores!), esvreveu em 24 de março de 2026, 16:15:

Eu sou Tita Pipoka… filha da terra. Cresci numa família de agricultores, onde o som da campanha de caju não é apenas trabalho, é sobrevivência.

A castanha de caju representa cerca de 90% das exportações do país. Um saco de caju… por um saco de arroz. E assim passa mais um ano.

Mas será justo? Como é que um país que exporta quase toda a sua riqueza agrícola… continua dependente para se alimentar? Como é que quem produz tanto… vive com tão pouco?

A verdade é dura: o agricultor é a base de tudo… mas é quem menos ganha.

2. Recordemos aqui alguns dados económicos e fianneeiros respeotantes ao caju (ou castanha de caju) na Guiné-Bissau

É, reconhecidamente, e de há muito (há 30/40 anos) a principal riqueza da Guiné-Bissau E ttem um forte potencial de desenvolvimento. Com esceção do arquipélago dos Bijagós e demais ilhas,  o caju é produzido em todas as regiões do país, e muito em esepcial presente em todas as terras secas. 

  • Podução: c. 300 mil toneladas (2021) de castanha "in natura";
  • Área: c. 513,5 mil hectares;
  • Nº de produtores: mais de 650 mil (2,5% dos quais são mulheres);
  • Produtividade (baixa): entre 500 e 600 kg/ha. 
  • A grande maioria dos agricultores da Guiné-Bissau está envolvida e vive na produção de caju;
  • O país exportou um volume de 231 2 mil toneladas em 2021 e 235 mil  toneladas em 2022;
  • 14 unidades de processamento estão registadas em 2022, das quais 12 unidades estão operacionais para uma média de 20.000 toneladas de castanhas "in natura"  processadas, ou menos de 10% da produção;
  • constitui a maior fonte de receitas fiscais do Estado;
  • funciona como  principal motor da balança comercial e da entrada de divisas.
De acordo com dados da Agência Nacional do Caju da Guiné-Bissau, citados pelo Fórum para a Cooperação Económica e Comercial entre a China e os Países de Língua Portuguesa (Macau) a produção (=200 mil toneladas, em 2022) repartiu-se assim pelas zonas do país:

  • Zona Norte (regiões de Biombo, Cacheu e Oio) > 54,6%
  • Zona Leste (regiões de Bafatá e Gabu) > 28,5%
  • Zona Sul (regiões de Quínara, Bolama e Tombali) > 16,9 %
Total= 100,0%

A Guiné-Bissau exporta praticamente toda a produção de caju em casca, por que não tem capacidade para o processar. O ano de 2022 foi favorável. O preço médio pago aos produtores  variou entre 450 e 600 Francos CFA por kg (1 EUR ≈ 655 FCFA em 2022; isso equivale a aproximadamente 0,69 a 0,92 EUR/kg).


(1) Impacto económico e financeiro: o caju representa:
  • 18% do PIB;
  • 90% das receitas de exportação;
  •  33% do rendimento familiar;
  • a  taxa de utilização das unidades instaladas no país gira em torno de 25%;
  • o preço ao produtor das nozes cruas está entre 375 e 500 farncos CFA/kg em 2022;
  •  o valor dos impostos de exportação é de 15 FCFA/kg para nozes cruas e 8 FCFA/kg para amêndoas.


(2)  
Já ouvimos  chamar ao caju, ou melhor, à castanha de caju, o "petróleo" ou
o "ouro branco" da Guiné-Bissau. É uma metáfora, que tem diferentes leituras. 

Toda a economia (cabeça, tronco e membros) depende um único corpo, que é produção e a comercialização deste produto. 

Poucos países do mundo dependem tanto de um único produto agrícola, que ainda por cima não fazia  propriamente parte da dieta tradicional dos guineenses.

Será o caju uma nova "semente do diabo", tal como a "mancarra", deixada pelos "tugas" antes de se irem embora ? Uma nova "maldição" ?


(3) Em termos sociais, estima-se que:

  • mais de 80% da população ativa rural esteja ligada direta ou indiretamente à fileira do caju;
  • e que cerca de  40% a 50%  das pessoas dependam dele para sobreviver, num país com pouco mais de dois milhões de habitantes.

(4) A campanha do caju é, na prática, “a estação económica” do país. 

Quando a campanha corre bem:
  • há mais circulação de dinheiro nos tabancas e mercados;
  • aumenta o comércio informal;
  • sobem as importações de arroz e bens de consumo;
  • o Estado respira melhor financeiramente.

Quando a campanha corre mal (c0mo vai acontecer provavelmente este ano): 
  • toda a economia guineense abana;
  • sendo isso devido sobretudo a factores exógenos,  portanto fora do contro dos produtores (como o caso das secas, chuvas fora de tempo, pragas, crise política ou queda do preço internacional) 

Há muito que o próprio Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial insistem na necessidade urgente de diversificação económica, precisamente por causa desta btrutal dependência extrema.

Há ainda um problema estrutural importante: a Guiné-Bissau exporta sobretudo castanha em bruto, praticamemnte sem qualquer transformação industrial local. 

Quem ganha com o negócio0mais dinheiro são os países que a processam (a Índia e o Vietname)   transformando-a em amêndoa de caju para exportação mundial. E, claro, os intermediários locais.

Ou seja: o camponês guineense produz a matéria-prima; mas o maior valor acrescentado, emprego industrial e lucro ficam fora do país.

É um velho problema de economia colonial ou neoextrativa: exportar produto bruto e importar quase tudo o resto.

(5) Apesar disso, o cajueiro tem uma importância "quase civilizacional"  na Guiné-Bissau contemporânea:

  • fixa populações no interior;
  • gera rendimento monetário onde há pouco emprego no sector formal;
  • permite pagar escola, arroz, roupa, medicamentos, telecomunicações;
  • e sustenta grande parte da economia informal das “bideras”, comerciantes e pequenos transportadores.

Curiosamente, o “falso fruto” do caju (a maçã de caju) continua subaproveitado. Há produção artesanal de vinho, sumos e aguardente (“cana de caju”), mas em escala reduzida. O "ouro" económico continua a ser a castanha com casca!

E há, de facto,  um paradoxo desconcertante, como diz a Tita Pipoka, troca-se caju por arroz... Até quando ? A 
Guiné-Bissau é um dos maiores produtores mundiais de castanha de caju "per capita"… mas continua entre os países mais pobres do mundo. E pior: depende dos outros para se alimnentar...

Isso mostra bem como produzir uma mercadoria  agrícola não basta para criar desenvolvimento sólido sem:
  • transformação industrial;
  • infraestruturas (incluindo rede rodoviária);
  • crédito;
  • apoio técnico;
  • estabilidade política;
  • e capacidade do Estado.

(Pesquisa: LG +   Fórum Macau +  ChaGPT / Open AI + Vibe / Mistral AI)
(Condensação, revisão/ fixação de texto, negritos, links, título: LG)

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Nota do editor LG:

Último poste da série >  3 de junho de 2026 > Guiné 61/74 - P28067: Guine-Bissau, hoje: factos e números (8): caju, a nova "semente do diabo" ? - Parte II

Guiné 61/74 - P28074: Parabéns a você (2493): Belarmino Sardinha, ex-1.º Cabo Radiotelegrafista STM/CTIG (Mansoa, Bolama, Aldeia Formosa e Bissau, 1972/74)

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Nota do editor

Último post da série de 5 de junho de 2026 >Guiné 61/74 - P28070: Parabéns a você (2492): João Moreira, ex-Fur Mil Cav da CCAV 2721 (Olossato e Nhacra, 1970/72)