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sábado, 1 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28233: Os nossos seres, saberes e lazeres (743): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (264): Os jardins cada vez mais admiráveis da Quinta de Recreio dos Marqueses de Pombal, Oeiras (Mário Beja Santos)

Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf
CMDT Pel Caç Nat 52

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 26 de Junho de 2026:

Queridos amigos,
Visitei na década de 1960 nas instalações do palácio dos Marqueses de Pombal, então adquirido, bem como o espaço envolvente, pela Fundação Calouste Gulbenkian, uma mostra do enorme acervo das coleções de arte de Calouste Gulbenkian, era a primeira vez que se mostrava a público o que hoje é patente no museu situado no Parque de Santa Gertrudes. Nada que se comparasse no ajardinamento e mesmo no estado do palácio que se pode ver hoje, ainda só do exterior, o palácio está fechado, seguramente para benfeitorias. A atual proprietária, a autarquia de Oeiras, deu diferentes usos aos jardins, no dia em que os visitei andavam para lá uns senhores a afinar música para um concerto e tenho visto notícias quanto a espetáculos de ópera. São uns bons hectares, posso imaginar o dispêndio para os trabalhos de conservação e restauro. A monografia que me despertara o apetite para esta visita era data de 1987, o autor apresentava queixas sobre aspetos urbanísticos na envolvente, os vários organismos oficiais imiscuídos na resolução dos problemas não tinham travado a desagregação do traçado e geometrismo nas áreas recreativas. Fui ver a diferença, está tudo francamente melhor, deixo aqui o link que mostra os jardins, é o modo de apelar à vossa visita.

Um abraço do
Mário



Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (264):
Os jardins cada vez mais admiráveis da Quinta de Recreio dos Marqueses de Pombal, Oeiras


Mário Beja Santos

Tinha encontrado na Feira da Ladra um livro sobre a chamada Quinta de Recreio dos Marqueses de Pombal, em Oeiras. Admirador que sou daquele espaço e dos trabalhos de requalificação que nele se têm operado, aproveitei uma ida à Galeria Municipal Verney para visitar a exposição Retratos de Guerra, um engenhoso trabalho de Cristina Sampaio sobre tintas-da-china do pintor Neves e Sousa, pus-me ao caminho, já sabedor que o Palácio continua fechado, e fui admirar os jardins criados no século XVIII, tendo como envolvente a estrutura palatina a área agrícola, os jardins com elementos recreativos, caso de fontes, mirantes, cascata, noras, aquedutos e casas de fresco; primava a lógica de aproveitar os recantos do jardim e estar a contemplar ruas arborizadas, ou ouvir o som da água em movimento. O que mais me empolgava nesta visita era levar o livro de Rodrigo Dias comigo, ver como era a quinta em meados da década de 1980 e como se tinha vindo a cuidar de um património que conhecera uma franca decadência nos séculos XIX e XX.

O autor desta monografia chama a atenção para o facto da quinta da família Pombal ter conhecido sucessivas incorporações ao primitivo morgadio e ter beneficiado, nesses acrescentos, de uma amplitude espetacular, em que se aproveita a Ribeira das Lages que atravessa o Jardim, o visitante rapidamente ganha a noção, quando desce do patamar do Palácio e atravessa uma ponte sobre a dita ribeira de que há muito para ver. Para trás, fica a casa dos coches, que é hoje o edifício principal da Câmara Municipal de Oeiras. Desce-se o terraço das araucárias tem-se a perceção dos diferentes níveis, lá em cima fica o Palácio, sente-se que há uma propriedade murada, avista-se mesmo o Instituto Gulbenkian de Ciência (a Fundação Gulbenkian foi proprietária de todo este enorme espaço, aqui apresentou pela primeira vez uma amostra do acervo patrimonial do milionário Arménio, depois vendeu à autarquia o Palácio e os Jardins, importa ainda dizer que na área do palácio funcionou um organismo que teve muito prestigio, o Instituto Nacional de Administração, a autarquia não tem descurado a reabilitação de todo este património, no fundo vim bisbilhotar como o espaço está cuidado, beneficia de ocupação para várias modalidades de lazer, caso dos concertos musicais.

Aprecio imenso os painéis azulejares das escadarias, daí mostrá-los com enorme satisfação. Depois atravesso a ponte e caminho para a Cascata dos Poetas, há para lá trabalho escultórico de Machado de Castro. Como observa o autor da monografia, o traçado dos jardins do Palácio tem um eixo principal: a Rua dos Loureiros, um eixo agregador das duas quintas, a quinta de cima e a quinta de baixo, estão separadas pela estrada real; na quinta de baixo funciona a Estação Agronómica Nacional.

Com o mero intuito de estimular o leitor a visitar este portentoso conjunto paisagístico deixo aqui o link do Guia dos Jardins, há muito para ver para além desta Cascata dos Poetas, irei depois visitar a Fonte das Quatro Estações, mas há muito mais para ver, como a Casa da Pesca, a Cascata da Fonte do Ouro, passeando à volta da adega onde há o dragoeiro, faias, freixo, araucárias e palmeiras.

Um ponto da pequena história era a crítica acerada dos opositores do Marquês de Pombal que diziam que ele se tinha locupletado com dinheiros do horário público para se ter abalançado em tal empreendimento, o Marquês respondia que pagara as despesas com os dinheiros do pão, do vinho e das frutas. E está na hora de partir para a visita lembrando que os jardins estão magníficos, que vale aa pena andar pela estrada real e visitar dentro da Estação Agronómica Nacional o aqueduto e aquela esplêndida alameda. Recomenda-se que ande à volta do palácio, obra de Carlos Mardel, arquiteto e engenheiro militar, era profundo conhecedor daa influência do jardim francês na Europa.

Quando Rodrigo Dias escreveu esta monografia fazemos referência, o autor deplorava a evolução urbana envolvente, os projetos de ocupação agressivos para o conjunto dos jardins e quinta e ia mencionando ponto por ponto as matérias que deviam merecer a maior atenção dos então diferentes intervenientes nesta superestrutura, não esquecendo os elementos decorativos e recreativos dos jardins, a revitalização do sistema hidráulico, o combate à poluição das águas da ribeira, concluindo que ao tempo a monumentalidade do conjunto se perdia e diluía nos pavimentos, no estacionamento maciço, nas cores dissonantes. “A sua desagregação por vários organismos sociais, compromete o traçado e o geometrismo das áreas recreativas”, assim era o seu apelo a uma melhor compreensão e recuperação da Quinta do Recreio integrada na arte paisagista do século XVIII. Felizmente que o seu apelo foi correspondido, basta confrontar as imagens de quatro décadas atrás depois de hoje.

Fachada do palácio. Pátio de acesso.
Belíssimos conjuntos azulejares que decoram as escadarias de acesso ao jardim.
Aspeto da intervenção quer no palácio que no ajardinamento e é visível no lado direito as benfeitorias introduzidas no horto.
Pormenor da Cascata dos Poetas.
Fonte das Quatro Estações, há algo de estranho no enferrujamento da pedra.
Contraste entre o ajardinamento atual e o seu estado anterior, os jardins, no verão, estão cheios de cor e os arruamentos parecem cumprir o traçado inicial.
Uma vista geral do Palácio e Jardim dos Marqueses de Pombal, o leitor interessado encontrará aqui um Guia dos Jardins.
Duas araucárias parecem tutelar o palácio e os jardins.
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Nota do editor

Último post da série de 25 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28212: Os nossos seres, saberes e lazeres (742): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (263): Uma amostra do País das Águias, a Albânia entre Tirana e Butrint/Saranda - 8 (Mário Beja Santos)

Guiné 61/74 - P28232: Verso & reverso (1): Levantamentos de rancho, cozinheiros, vagomestres, jagudis, porradas, contos... sem má-fé, "bonecos" da IA ... (Alberto Branquinho / Carlos Pinheiro / Eduardo Estrela / José Manuel Cancela / Luís Graça / Virgílio Teixeira)


Desde 1955 que era proibido caçar (e comer carniça de) jagudis...na Guiné Portuguesa. (Decreto, nº 40040, de 20 de janeiro de 1955, do Minitério do Ultramar(

Foto: arquivo do Blogue Luís Graça & Camaradas da Guine


1. Felizmente que há o verso & o reverso das coisas e das palavras. Se assim não fora, nunca haveria o "outro lado da lua" nem nunca o homem chegaria um dia à lua (se é que lá chegou, apesar das notícias dos jornais, dizem os céticos).

(i) Tabanca Grande Luís Graça (*)

Nem um comentário, Alberto... Se eu tivesse aranjado outro título (por exemplo, "Hoje há jarroz de agudi no forno"), talvez a malta tivesse curiosidade em ler e comentar o teu conto...

quinta-feira, 30 de julho de 2026 às 11:48:00 WEST 

(ii) Alberto Branquinho (*):


Pois é, Luís, há que ter cuidado com a embalagem e com o aspecto do embrulho do produto (ou serviço) que se queira "vender".

Além disso, tenho um primo que me diz:  "Não me mandes mais livros. Não tenho paciência para ler; demoro três dias para ler a 'Bola' e... não leio tudo".

E quem pouco lê... muito menos escreve.

Título que eu colocaria: "Levantamento de rancho: furriel vaguemestre leva uma porrada e passa a operacional no mato".

quinta-feira, 30 de julho de 2026 às 15:55:00 WEST 

(iii) Eduardo Estrela (*)

Eu li o conto e,  se não o comentei,  foi porque gozei que nem um nababo com o seu conteúdo. A certa altura da leitura lembrei-me: querem ver que o sacana do do vagomestre mandou cozinhar jagudis!?

O homem devia era ser louvado! Praticou o princípio da lei do Lavoisier. Não fossem os cozinheiros e todos ficavam satisfeitos. "O que olhos não veem coração não sente", neste caso o estômago.

quinta-feira, 30 de julho de 2026 às 16:29:00 WEST 

(iv) Alberto Branquinho (*):

Quando, pela primeira vez, li o título que lhe deste, o meu entendimento foi: "Arroz com má-fé"...

sexta-feira, 31 de julho de 2026 às 09:57:00 WEST 

(v) Virgílio Teixeira (**)

Enfim, uma história com cenários que nada têm a ver com os nossos soldados, aquartelamentos, fardas, cantinas e refeitórios, terrenos e tudo...etc.

Já vi outros anteriores e a minha opinião é a mesma, o IA veio estragar tudo.

O autor pode até ter boas ideias, mas francamente, e tenho de ser fiel a mim prõprio, eu não acho piada nenhuma a estas bandas desenhadas, prefiro as de antigamente, dos índios e cowboys, desenhadas por pessoas reais, e não por Extra Terrestres, esta coisa, aqui, cheira a outros cenários, e por mim dou o recado completo, sem complexos.

Acho uma pura perda de tempo com um resultado francamente mau, o conteúdo é lastimável.

Tanta outra coisa para publicar e agora é tudo igual, não gosto definitivamente, mesmo que todos os leitores até possam achar alguma ponta de piada.

Nada tem a ver com as personagens que se querem aqui representar, mas o conteúdo é francamente indescritível.

Desculpem a minha franqueza!

sexta-feira, 31 de julho de 2026 às 21:40:00 WEST 


(vi) José Manuel Cancela (**):

Completamente de acordo... E essa de comer aquelas aves nojentas, não cabe na cabeça de ninguém...

sexta-feira, 31 de julho de 2026 às 23:26:00 WEST 

(vii) Carlos Pinheiro (**):

Pensava que já tinha visto tudo, mas afinal enganei-me. A IA veio complicar isto tudo, quando se pensava que era para facilitar

sábado, 1 de agosto de 2026 às 11:50:00 WEST

(viii) Alberto Branquinho (**):
 
Meus senhores (e ex-camaradas de armas): uma coisa são os factos (ou seja, os acontecimentos vividos, embora "pintados" com cores mais vivas ou mais esbatidas) outra coisa são desenhos (com a ajuda da IA ou não) que possam ou não corresponder ao ambiente militar criado "à portuguesa" naquelas terras, em ambientes tropicais, em zonas de guerrilha/contra-guerrilha.

Portanto, não misturemos a apreciação de um escrito sobre factos ou acontecimentos com a sua representação gráfica segundo um qualquer meio ou estilo (gráfico e/ou informático ou outro), que, eventualmente, não retrate os ambientes tal qual aqueles em que vivíamos no chamado "mato" (que não era, propriamente "mato", mas quartéis no interior).

sábado, 1 de agosto de 2026 às 11:14:27 WEST

(ix) Tabanca Grande Luís Graça (**):

Pois é estamos, aqui a discutir duas coisas distintas ( e, portanto, não devemos confundi-las):

(a) um conto ou microconto, da autoria de um camarada nosso, o Alberto Branquinho, que é um "senhor escritor" , com obra publicada e generosa participação no blogue;

e (b) a ilustração gráfica desse conto , da responsabilidade do editor LG (com recurso,  confesso e declarado, à IA).

Em relação ao conto, já aqui publicado em poste anterior (**), e que passou "despercebido", só vamos relembrar o seguinte: não se sabe nem onde nem quando se passa esta "cena de humor de caserna" (em princípio na Guiné, c. 1967/69) , e que para alguns ou muitos de nós seria "inverosímil"... (Perguntarão, indignados, alguns dos nossos leitores mais sensíveis: quem seria o filho da p*ta do vagomestre que teria a "ideia criminosa" de servir gato por lebre, ou pior, jagudi por frango, aos seus camaradas de armas?!)

Aqui convém lembrar que a imaginação supera a realidade e essa é a magia da literatura... E que o humor é sempre caricatura do real..«

Quanto á BD propriamente dita (ou melhor, aos "bonecos", para não ofender os verdadeiros artistas da BD), podem dar "porrada" á vontade: é um produto tosco, artesanal, feito com boa vontade, "pro bono", espírito de reinação...e recursos técnicos limitados... 

E que, no fundo, "parodia" a IA, que é "americana", sabe pouco ou nada de geografia e de história, a começar por Portugal e a Guiné-Bissau... E nomeadamente sobre a guerra do ultarmar / guerra colonial na Guiné (1961/74)... O que sabe, também vai aprendendo connosco..., como ela própria reconhece, o que muito nos honra.

sábado, 1 de agosto de 2026 às 13:10:00 WEST 
 
(Seleção, revisão/ fixação de texto: LG)
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Notas do editor LG:

(*) Vd. poste de 28 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28220: Humor de caserna (283): "Arroz especial ... com mafé" (um conto magistral de Alberto Branquinho, "Cambança Final", 2013, pp. 85-89)

(**) Vd. poste de 31 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28231: Humor de caserna (286): Os frangos do vagomestre: uma BD inspirada num microconto do Alberto Branquinho (2013)

sexta-feira, 31 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28231: Humor de caserna (286): Os frangos do vagomestre: uma BD inspirada num microconto do Alberto Branquinho (2013)


Os Frangos do Vagomestre

Uma BD inspirada num microconto
 do Alberto Branquinho (2013)



... Que o essencial dos reabastectmentos vinha de barco ou em coluna logística, uma ou duas vezes por mês, conforme a estação do ano ou as necessidades!









... Oh!, homem, come e cala, que amanhã podes perder o  apetite!







... E quem disse que não havia já "chefs" de cozinha,  arrojados, criativos, precursores da comida gourmet, capazes de apresentar pratos  exóticos, fazendo das tripas coração e valendo-se dos recursos locais (como o lagarto, o jagudi, o macaco-cão ou  o leitão do balanta passado a ferro pelo Unimog, etc.) para fazer um arroz especial... com mafé ?!


... Vida dura, a do mato !...

Prompt original e composição editorial: Luís Graça.

Texto : Adapt. de Alberto Branquinho  (2013)

Imagens: Arquivo do Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné

Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.


1. Eu achei o conto "magistral" (*)... Mas, confesso, esperava mais comentários ao poste... O desmérito é do editor, não do autor... De facto, em vez de "Arroz especial... com mafé", eu devia ter optado por um título mais provocatório... "Hoje há arroz de jagudi  no forno"... ou outro título de fazer crescer a água da boca dos camaradas de Baião e do Marco de Canaveses onde se faz o melhor "arroz de anho no forno" ... Em Portugal & arredores.

Recorde-se, para quem leu, que a história começa com um princípio (ou um ameaço) de "levantamento de rancho"... 

Isto passa-se na Guiné, durante a guerra colonial, por volta de 1968, ao tempo em que o Branquinho andava lá  com a sua valorosa companhia de caçadores  (de "turras", presume-se, não era de leões nem de elefantes). 

Uma solução à "chico esperto", expedita, do vagomestre e do cozinheiro, para contornar a falta de víveres (e nomeadamente de carne...) e assim enganar toda a gente, a começar pelo capitão, foi recorrer aos pobres dos "abutres-de-capuz" (vulgo, "jagudis") que rondavam o quartel e se alimentavam nas nossas lixeiras... 

Ora, toda a gente sabia que o repugnante e feio jagudi era um "animal sagrado".. E desde 1955, que era proibida a sua caça... Eram os "almeidas" da Guiné, comiam os bichos mortos, limpavam as carcaças e, quando havia festa nas tabancas (nomeadamente, o "tchoro", por morte de alguém importante), abatiam-se vacas, não faltavam vísceras para os "almeidas" se banquetearem...

Não tenho que lisonjear o autor, como faz a menina da IA que é para a gente ficar "agarrados a ela"... De facto, a IA é uma nova adição, a par do sexo, da pornografia, da droga, da comida, dos ansiolíticos,  do trabalho, do ginásio, do jogo ("gaming"), do telemóvel, do redes sociais, das viagens da Abreu Lopes,  etc..  

O Alberto Branquinho já tem os seus créditos firmados. É uma grande microcontista, a par do "alfero Cabral", de saudosa memória, e de mais uns  talentos literários que se sentam à sombra do nosso poilão. 

A ideia do autor  é excelente e a execução resulta. Tem um daqueles ingredientes que fazem com que as histórias de caserna não morram, como as anedotas, na hora seguinte: é plausível, é absurda e, no fim, toda a gente diz "isto podia perfeitamente ter acontecido na Guiné do meu tempo".

Porque é que o texto  não  suscitou  comentários imediatos ? Esta é a questão que me intriga... Se o conto é "magistral", porque é que não houve comentários "magistrais" ?

Reconheço que o título não provoca "pica", não  tem "sex...apelo". "Arroz especial... com mafé" é um daqueles títulos prosaicos, sensaborões, chatos... E depoiso leitor, desprevenido, confunde "mafé" com "má-fé"... Ora, quem vai "comner" um "arroz especial com má-fé" ?!

De facto, com um tal título (da responsabilidade do editor...) o conto do Alberto Branquinho só pode despertar curiosidade  em quem sabe o que é o "mafé" e se interessa pela culinária da Guiné-Bissau. 

Para muitos leitores, o poste terá sido visto apenas como mais uma história gastronómica da Guiné-Bissau,  mais um poste da série do "Comes & bebes: no céu não disto: sugestões dos 'vagomestres' da Tabanca Grande", com que tapamos às vezes alguns buracos, sobretudo nas férias de verão em que o pessoal vai a águas e tem menos tempo para coloborar no blogue...

O verdadeiro motor narrativo está lá, entretanto,  escondido já na última parte do conto: "...afinal os frangos do vagomestre eram... jagudis."

É aí que o conto explode. O leitor percorre duas ou três páginas sem imaginar o desfecho. É uma boa surpresa literária. Mas o título, de facto,  não convida ninguém a entrar. 

Vamos experimentar agora com outro: "Os frangos do vagomestre"... mas em em banda desenhada.(**)

O autor merece uma boa BD. Esta "estória cabraliana" (neste caso,"branquiana" ?!...) merece uma boa BD. Os nossos leitores também o merecem. 

Digam-nos depois da vossa justiça. Leiam e comentam. À vontade. E também podem rir, se for caso disso. E se vos apetecer rir. Claro, também podem dizer que não tem graça nenhuma (a BD, não o conto)...

No final, não deixamos de fazer uma ressalva: não temos nenhum "parti-pris", sentimento ou ressentimento contra os nossos vagomestres e cozinheiros que nos mataram a fome durante os dois anos de Guiné. Este conto é também uma homenagem a eles. (Ao pessoal da Intendência, fica reservada a vez para outra altura.) (**)
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Notas do editor LG:

(*) 28 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28220: Humor de caserna (283): "Arroz especial ... com mafé" (um conto magistral de Alberto Branquinho, "Cambança Final", 2013, pp. 85-89)

Guiné 61/74 - P28230: Notas de leitura (1945): "Uma História da África Lusófona Pós-Colonial", Edições tinta-da-China, 2026 (3) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 1 de Julho de 2026:

Queridos amigos,
Após dois textos em que se sumariou o pensamento de Patrick Chabal que analisou em grande angular a guerra e a descolonização, a emergência de políticas pós-coloniais, como se tentou construir o socialismo, quais as falhas do Estado de partido único e como se operou a transição para o pluralismo político, segue-se agora o estudo da Guiné-Bissau, trabalho que coube ao renomado investigador Joshua Forrest.
Veremos neste primeiro texto como o PAIGC não se mostrou capaz de atingir os seus objetivos em matéria de construção do sistema político ou do desenvolvimento económico, analisam-se as reformas económicas, como e porque falharam e, igualmente, como a liderança do PAIGC, desprezando o pensamento de Cabral, se foi afastando de auscultar e fazer vingar as aspirações populares.

Um abraço do
Mário



Uma obra historiográfica de referência:
Os primeiros 25 anos das antigas colónias africanas - 3


Mário Beja Santos

É um trabalho magistral, datado de 2002, felizmente agora traduzido com o título "Uma História da África Lusófona Pós-Colonial", Edições tinta-da-China, 2026; o autor principal foi o eminente académico Patrick Chabal, que dirigiu o Departamento de Estudos Portugueses e Brasileiros do King’s College de Londres, acolitado por outros nomes sonantes da investigação, caso de David Birmingham, Joshua Forrest, Malyn Newitt, Gerhard Seibert e Elisa Silva Andrade. Como escreveu o prefaciador António Costa Pinto, trata-se do primeiro estudo substancial sobre os novos regimes políticos africanos surgir com o fim do colonialismo português, tornados independentes em 1974-75. É, pela força das circunstâncias, um trabalho datado, um quarto de século de independências africanas lusófonas.

Como observa no proémio Patrick Chabal, o livro tem o objetivo de superar a perspetiva especificamente lusófona que penaliza a maioria das descrições da África língua portuguesa, a discussão anda em torno do desenvolvimento destes cinco países. Dedicámos dois textos ao estudo que Chabal fez sobre a África lusófona numa perspetiva histórica e comparada: a guerra e os seus efeitos; o nacionalismo e o exercício político pós-colonial: como se criou a nação e quis construir o socialismo; o que falhou nas experiências do partido único e como se transitou, mesmo nos estados de guerra civil para o pluralismo político. Sendo a segunda parte do livro dedicada à análise dos cinco países, obviamente, atendendo à natureza do nosso blogue, socorri-me do estudo da Guiné-Bissau elaborado por um incontestado especialista da região, Joshua Forrest.

A Guiné-Bissau nasce num quase estado de graça, confiava-se no PAIGC pelo seu comportamento durante a luta armada, a liderança de Amílcar Cabral colocara a Guiné com uma enorme visibilidade internacional. Cabral avisara os seus companheiros dos perigos emergentes da independência e da afirmação de comportamentos ingénuos e até imitativos da herança colonial. Foi exatamente o que veio a acontecer, as opções de política económica beneficiaram diretamente as elites do Estado; subavaliaram-se as heranças sociais, políticas e económicas do período colonial e a atividade política do PAIGC tornou-se facciosa, desfasou-se a direção política dos reais interesses da população. As elites políticas tomaram decisões que levaram à explosão da dívida externa; no período de Luís Cabral (1974-1980) alimentou-se a ideia de que o país tinha que acelerar a sua industrialização, o desenvolvimento da agricultura viria depois, isto esquecendo a lição de que a infraestrutura estatal colonial praticamente não é à lei de Bissau, o mesmo é dizer que o Governo não possuía capacidade administrativa para a pôr em prática com êxito. Com empréstimos externos e com a ajuda internacional, sonhou-se na construção de um gigantesco complexo agroindustrial que custou milhões e nunca funcionou; numa fábrica de montagem de automóveis; recebeu-se uma fábrica de refrigerantes pronta a funcionar e não se instituiu um plano de gestão viável, etc. etc. Como observa Forrest, enquanto cresciam as falhas de abastecimento e faltava dinheiro e era bem visível que as elites estavam de costas voltadas para as populações fora dos principais aglomerados, o interior rural onde vivia cerca de 85% da população, as pessoas mantiveram vivas as instituições políticas na dimensão comunitária.

Não se conseguiu romper com este problema existente em toda a África subsariana: a ausência de burocracias bem institucionalizadas e falta de familiaridade com uma cultura política baseada em regras. Problema que se manteve durante a presidência de Nino Vieira, esta agravada pelo personalismo e pelo florescimento da discórdia entre fações. Forrest analisa a reforma económica, seria a trave-mestra para transitar para o socialismo, nacionalizou-se tudo, a economia formal passou a ser gerida através dos Armazéns do Povo, uma cadeia de 120 pontos de venda de mercadorias e da SOCOMIN (Sociedade Comercial Industrial) um organismo governamental de importação-exportação que procurava proporcionar aos guineenses uma troca justa dos seus produtos agrícolas por bens importados. Acontece que se impuseram preços baixos aos produtores, estes procuraram melhores preços fora dos organismos nacionalizados, cresceram as práticas corruptas, como a especulação por parte dos gestores.

As reformas falharam, o Estado tornou-se cada vez mais dependente da ajuda externa e dos projetos internacionais de desenvolvimento. A classe política revelou-se incapaz de criar uma visão rigorosa nos métodos de produção. “Por exemplo, decidiu-se utilizar tratores e vários dispositivos mecânicos modernos em substituição do trabalho normal e da participação local da construção de barragens fluviais, com vista a criar arrozais ou a restaurar os mais antigos. No entanto, tal como sucedera no período colonial, a coordenação múltipla e os erros técnicos produziram resultados insatisfatórios – foi o caso das eclusas dos canais incorretamente instaladas. Como resultado destes e de outros fatores, metade das minibarragens e dos diques modernos teve efeito negativo na produção de arroz.”

O autor recorda que no final da década de 1970 assistia-se a uma paralisia do setor comercial formal, o Governo iniciou reformas de privatização em 1984, apareceu uma linha de crédito do FMI, iniciaram-se programas de ajustamento cultural, que incluíam o incentivo à iniciativa privada, a desvalorização da moeda, a redução da despesa pública, cortes dos subsídios alimentares e o aumento dos preços ao produtor, nomeada no caju e nos óleos.

Estas reformas do ajustamento estrutural e a nova política de privatização teve consequências bem problemáticas. Apareceram em grande quantidade propriedades rurais, as chamadas “pontas”, estas têm uma longa história desde o século XIX. “A expansão destas pontas no final dos anos 80 e no decénio seguinte refletiu a viragem do Estado pós-colonial para a privatização, tendo sido os seus proprietários, os ponteiros quem mais beneficiou de empréstimos a médio e longo prazo. O problema é que a maioria desses ponteiros se compunha de altos funcionários do Governo que não eram comerciantes ou agricultores e, portanto, não possuíam as competências nem o compromisso de transformar as suas novas contas em empresas produtivas. Como consequência, poucos hectares de terra foram efetivamente dedicados à agricultura comercial, apesar de estes ponteiros terem recebido empréstimos favoráveis no âmbito do processo de privatização agrícola.”

Com a dependência do regime de Nino Vieira face às fontes de financiamento externas, acreditou-se no milagre da moeda, integrou-se a Guiné-Bissau na zona do franco CFA, passou a ser a moeda oficial em janeiro de 1997. Alguns comerciantes tiraram proveito da liberalização do comércio. A maior parte dos guineenses continuou a sobreviver à custa dos mercados informais locais e de longa distância. De modo insidioso, o regime no poder deslocava-se confiante para órbitas estrangeiras, completamente indiferente às repercussões mais alargadas das suas decisões para a população em geral.


Patrick Chabal (1951-2014)
Joshua Forrest

(continua)
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Notas do editor:

Vd. post de 24 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28209: Notas de leitura (1943): "Uma História da África Lusófona Pós-Colonial", Edições tinta-da-China, 2026 (2) (Mário Beja Santos)

Último post da série de 27 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28218: Notas de leitura (1944): "Depois da Guerra", de Luís Rosa; edição de autor, 1990 (1) (Mário Beja Santos)

Guiné 61/74 - P28229: Parabéns a você (2511): Manuel Augusto Reis, ex-Alf Mil Cav da CCAV 8350/72 (Guileje, Gadamael, Quinhamel e Cumbijã, 1972/74)

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Nota do editor

Último post da série de 30 de Julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28227: Parabéns a você (2510): Amaral Bernardo, ex-Alf Mil Médico da CCS/BCAÇ 2930 e CCAÇ 6 (Catió e Bedanda, 1970/72); Júlio Costa Abreu, ex-1.º Cabo Comando do Grupo Centuriões (Guiné, 1964/66) e Victor Tavares, ex-1.º Cabo Caçador Paraquedista da CCP 121/BCP 12 (Guiné, 1972/74)

quinta-feira, 30 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28228: Bom dia, desde Bissau (Patrício Ribeiro) (72): A jaca, espécie invasora tropical, que já chegou a Bijante, Bubaque, Bijagós



Foto nº 1 e 1A




Foto nº 2, 2A, 2B

Guiné-Bissau > Arquipélago dos Bijagós > Ilha de Bubaque > Bijana > Quionta feira, 23 de julho de 2026 >  Jaca, uma árvore de fruto tropical invasora

Fotos (e legendas): © Patrício Ribeiro (2026). Todos os direitos reservados, [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné ]


1. Fotos enviadas pelo Patrício Ribeiro, nosso "embaixador em Bissau", empresário (
Impar Lda), que chegou a Bubaque, no dia 10, por volta das 13:55. Apanhou muita chuva. Devido à lentidão da Net, manda-nos sempre uma foto de cada vez. Estas foram tiradas a 23 do corrente, por volta das 14h45. Têm legendas lacónicas

Foto nº 1 - Jaca. Fruto
Foto nº 2 - Árvore da jaca. Imponente
Foto nº 3 - Abastecimento à horta de Bijante, que tem um hectare, para produzir legumes. São os nossos passeios por toda a Guiné, que nos traz a estes lugares.

Publicamos hoje as fotos relativas à árvore da jaca e o seu fruto (invulgar).


2. Comentário do editor LG:

Jaca, substantivo feminino, segundo o Priberam, quer dizer duas coisas, em botânica:

 (i) fruto carnudo, grande e pesado, de cor verde, gomos amarelados, sabor adocicado e cheiro característico; 

(ii) árvore (Artocarpus heterophyllus) da família das moráceas, de grandes dimensões, nativa da Ásia, cultivada pela boa madeira e pelos frutos carnudos comestíveis, grandes e pesados, de cor verde. = Jaqueira

Fonte: "jaca", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2026, https://dicionario.priberam.org/pt-br/jaca.

A Artocarpus heterophyllus, mais conhecida como jaqueira, é uma espécie nativa do sudoeste da Índia, onde cresce em florestas pluviais até cerca de 1000 metros de altitude. 

Esta árvore pode atingir até 20 metros de altura e é amplamente cultivada em várias regiões tropicais do mundo, não só pela sua utilidade alimentar (o fruto, a jaca, é um dos maiores do mundo e muito nutritivo), mas também por usos medicinais e como alimento animal. 

No entanto, a sua introdução em ecossistemas não nativos, como a Mata Atlântica brasileira,  tem levantado preocupações sérias. 

A jaqueira é considerada uma espécie invasora em vários países, incluindo o Brasil, onde estudos demonstram que a sua presença altera significativamente a riqueza de espécies, a diversidade da vegetação e até a composição química dos solos dos locais invadidos. Ou seja, tende a modificar o ambiente de forma a favorecer a sua própria expansão, o que justifica a necessidade do controlo e até da sua remoção em áreas sensíveis.

Na Guiné-Bissau, a sua eventual introdução nas ilhas Bijagós (um arquipélago com uma biodiversidade única e frágil ) pode vir a representar uma ameaça ecológica, uma vez que a jaqueira compete agressivamente com as espécies nativas, alterando o equilíbrio ecológico e reduzindo a diversidade de plantas e animais endémicos. A sua capacidade de se adaptar a diferentes tipos de solo e clima tropical facilita a sua disseminação, tornando-a uma espécie difícil de erradicar uma vez estabelecida. 

Não sabemos se esta jaqueira do Patrício Ribeiro é um caso isolado ou se já  há plantações na ilha, o que seria muito mau.. Achamos que não: aqui, devido às dificuldades de conservação, transporte e armazenamento, a jaca aqui não deve ter valor comercial, embora na Europa possa atingir valores...proibitivos.

Principais produtores mundiais: Índia, Bangladesh, Tailândia, Vietname... mas também Brasil.

Em Portugal, a jaca é considerada uma fruta exótica e rara, encontrada principalmente em pedaços embalados ou enlatada em lojas especializadas e grandes superfícies.

 O seu preço é considerado muito alto devido à importação  e à logística: é um fruto é altamente perecível (apodrece facilmente) e pode custar  frequentemente dezenas largas de euros por porção ou por unidade inteira.

 (Pesquisa: LG + Wikipedia +  IA | Mistral) (Condensação, revisão / fixação de texto: LG)

Guiné 61/74 - P28227: Parabéns a você (2510): Amaral Bernardo, ex-Alf Mil Médico da CCS/BCAÇ 2930 e CCAÇ 6 (Catió e Bedanda, 1970/72); Júlio Costa Abreu, ex-1.º Cabo Comando do Grupo Centuriões (Guiné, 1964/66) e Victor Tavares, ex-1.º Cabo Caçador Paraquedista da CCP 121/BCP 12 (Guiné, 1972/74)



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Nota do editor

Último post da série de 29 de Julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28224: Parabéns a você (2509): 1.º Cabo DFA Manuel Francisco Seleiro; Pel Caç Nat 60 (S. Domingos, Ingoré e Susana, 1968/70)