quinta-feira, 28 de julho de 2022

Guiné 61/74 - P23465: Paz & Guerra: memórias de um Tigre do Cumbijã (Joaquim Costa, ex-furriel mil arm pes inf, CCAV 8351, 1972/74) - Parte XXVIII: Em 1976, uma viagem pela velha Europa para esquecer a guerra e espairecer do PREC


Itália > Veneza > 1976 >  De gôndola, com pose de turista



Países Baixos> Amesterdão > s/d > ... Numa outra viagem


Fotos (e legendas) © Joaquim Costa (2022). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]






Joaquim Costa, ontem e hoje. Natural de V. N. Famalicão,
vive em Fânzeres, Gondomar, perto da Tabanca dos Melros.
É engenheiro técnico reformado. Foi também professor do ensino secundário 
(os últimos 20 anos em Gondomar).




Já saiu o seu livro de memórias (parte da história da sua  vida),
de que temos estado a editar largos excertos, por cortesia sua (*): 
“Memórias de Guerra de um Tigre Azul” (Rio Tinto, Lugar da Palavra, 2021, 179 pp)
Tem um pósfácio da autoria do nosso editor Luís Graça (**). 

O livro pode ser pedido diretamente ao autor, através do email jscosta68@gmail.com .
O valor é de 10 € (livro + custas de envio), a transferir para o seu NIB que será enviado juntamente com o livro. Não esquecer de indicar o endereço postal.

 

Paz & Guerra: memórias de um Tigre do Cumbijã (Joaquim Costa, ex-Furriel mil arm pes inf, CCAV 8351, 1972/74) - Parte XXVIII:  Em 1976,  uma viagem pela velha Europa para esquecer a guerra e espairecer do PREC   



O encontro improvável, em Veneza, de três “Morcões” do Norte 
e  de um "Alfacinha", especialista em Matacanhas

  

Nos primeiro anos depois da Guiné vivi sofregamente os dias, “engasgando-me” aqui e ali na ânsia de agarrar o mundo todo num só dia. Fui à  procura de resgatar os três anos “roubados” da minha juventude, até hoje ainda não devolvidos.

No ano de 1976 , eu e mais dois companheiros, o Gil Marques, jovem empresário da indústria têxtil e o Miguel, professor de economia e contabilidade, decidimos, depois de mais uma noite de copos na tasca do “Pega”, hoje um restaurante com nome no “Evasões” e “Boa Cama Boa Mesa” (à nossa custa), decidimos aproveitar as férias (e espairecer um pouco da loucura do PREC ) numa viagem (de 30 dias) pela Europa, numa das nossas Dianes,

Num dia se decidiu e no outro abalamos (já tinha na minha posse o famoso “Salvo conduto” inexplicavelmente, já sem guerra e em democracia, ainda obrigatória para passar a fronteira) , com partida junto ao nosso café das tertúlias e “jogatanas” de bilhar diárias, o “Pica Pau” com todos os presentes e amigos desejando boa viagem, na Diane do Gil.

Lá consegui meter num pequeno saco umas peças de roupa, um mapa e uma tenda que nunca havia montado. Decidida a primeira paragem em Madrid, como pessoa mais sensata do grupo [???], lá fui pensando em programar minimamente o itinerário de toda a viagem até à capital espanhola.

Já em França, a caminho de Nice, com um amortecedor a queixar-se do peso, surgem na estrada muitos jovens a pedir boleia (muito comum na época em Portugal e em toda a Europa). Eis quando aparece uma jovem no meio do caminho, quase nos obrigando a parar, com o Miguel aos gritos, pára, pára ... mas o Gil não parou. Ficamos furiosos , mas ele, com a sua calma, de quem não foi à guerra e tem ainda toda a sua juventude pela frente (pois muitas mais lhe vão aparecer à frente), chama os dois “velhos” à razão:

−  Não vamos passar o tempo nisto! 

Dois dias já gastos (talvez ganhos ?) com as lindas catalãs (professoras primárias a trabalhar em Barcelona) desrespeitando o programa minuciosamente elaborado pelo Costa (apenas uma tarde em Madrid), e para além do mais o amortecedor não ia aguentar. 

 −  Oh Gil ! Aguenta, aguenta! 

Tanto insistimos que ele que deu a volta, passou novamente pelo local onde ainda se encontrava a miúda e lá paramos para dar boleia à donzela (que confirmava todos os atributos conhecidos do “mito urbano” sobre as Suecas!). Enquanto o Miguel abria gentilmente a porta, surge por detrás de um arbusto (estilo David Attenborough) um rapaz com dois metros de altura, com a miúda sorrindo dizendo: 

  Não se importam de levar também o meu namorado?     empurrando-o para dentro do carro antes que dissessemos que não.

Durante a viagem o Gil, preocupado com o amortecedor, passou o tempo a chamar nomes ao gigante Sueco, utilizando todo o vocabulário vernáculo do norte que tinha mais à mão, enquanto o rapaz olhava para ele, divertido, sempre com um sorriso nos lábios.

Este incidente foi motivo de conversa até Veneza, onde montámos (tentamos montar ), pela primeira vez,  a tenda num parque de campismo (até Veneza sempre dormimos ao relento apenas com o saco cama).

Começámos a montar a tenda mas não atinávamos com a quantidade de ferros. Já desesperados, diz o Gil:

 
  Não és tu engenheiro? Então trata tu disso,  que eu vou tomar banho. 

O Miguel aproveitou a deixa e fez o mesmo.

Ainda não refeitos da boleia dada ao gigante Sueco, durante o banho continuaram os insultos ao rapaz em

voz alta que se se ouviam em todo o parque. Até eu, que também não atinava com a tenda (ou faltava ferros ou faltava pano), estava a ficar incomodado com os palavrões (afinal sou professor,  “carago”...).

Entretanto, sinto uma mão no meu ombro, viro-me, e vejo um homem lourinho, de olhos claros dizendo, em bom português: já uma pessoa não pode estar com a família sossegada no parque de campismo, sem estar sujeita a ouvir este chorrilho de palavrões. 

Este lourinho era o grande amigo Caetano (Furriel enfermeiro da companhia), o mesmo que me tirou uma matacanha do dedo grande do pé (com a sua faca do mato?) no Cumbijã (Guiné) de boas e más memórias.

Queria eu fugir das lembranças da guerra, mas nem aqui, no norte de Itália estava a salvo... nem do PREC pois que na altura o PCI (Partido Comunista Italiano) e a DC (Democracia Cristã) mediam forças taco a taco, com governos que não duravam 1 mês... E sempre carregados com um saco de notas, pois só para pagar uma fatia de melancia era um molhe de notas (vinte e cinco mil liras!)

Foram umas belíssimas férias: baratas, com muita adrenalina, poucos banhos e ... ???

___________

Notas do editor:

(*) 8 de junho de 2022 > Guiné 61/74 - P23336: Paz & Guerra: memórias de um Tigre do Cumbijã (Joaquim Costa, ex-Furriel mil arm pes inf, CCAV 8351, 1972/74) - Parte XXVII: O "meu" regresso à Guiné (3): Os Bijagós que muitos de nós nunca vimos - II (e última) Parte

(**) Vd. poste de 8 de maio de 2022 > Guiné 61/74 - P23245: Agenda cultural (811): Tabanca dos Melros, Fânzeres, Gondomar, 11 de junho de 2022, sábado, 11h00: Luís Graça apresenta o livro do Joaquim Costa, "Memórias de Guerra de um Tigre Azul"

12 comentários:

Tabanca Grande Luís Graça disse...

Meu caro Joaquim, também andei por esses lados, uns anos depois, em 1982, fiz todo a Itália do Norte, da Toscânia ao vale da Aosta, durante um mês... Claro, em campismo, num Fiat 127 que fez cerca de 6 mil tal / 7 mil quilómetros, com dois casais...

Estive agora recalcular os valores em dinheiro que levei: comprei aqui um milhão de liras... Havia restrições à compra de moeda estrangeira, e ficava registado no passaporte as quantias levantadas... Em 1982 um milhão de liras equivalia hoje a 1.768,61 euros, o que convertido em escudos seria cerca de 13 contos e meio (13,643.73 escudos)...

Nessa altura a lira italiana sofria desvalorizações brutais... Eu sei que quando a Itália o meu milhão de liras valia dois milhões... Para além do calor brutal (43º quando cheguei a Florença), e do trânsito infernal do mês de agosto, foram férias memoráveis, um banho de história, arte e cultura... Nunca vi tantas igrejas na vida...

Mss também me recordo da complicação que era par nós lidar com as liras: era tudo às 100 grama e aos milhares de liras...

Tabanca Grande Luís Graça disse...

Se a memória não me trai, comprei em meados de 1982 um milhão de liras por 50 contos (, o que, aos valores de hoje, equivaleriam a 1.923.96 €). Não consigo saber a taxa de câmbio da lira nessa altura9, mas grosso modo andaria perto das 20 liras um escudo... Não ?

Tabanca Grande Luís Graça disse...

Lembro-me da "loucura" que foi esse verão em Itália, tricampeã do Campeonato Mundial de Futebol... Lembro-me, no lago do Como, de ser testemunha do "chauvinismo" italiano, depois da vitória sobre o Brasil e, na final, sobre a Alemanha Ocidental (3-1), em 11 de julho de 1982.
________

(...) 5 de julho de 1982: o dia que o encanto do Brasil caiu para a Itália no Sarriá
Em um episódio que ficou conhecido como Tragédia do Sarriá, o Brasil de Zico e Sócrates caiu para a Itália de Paolo Rossi, um trauma eterno de uma seleção que não conquistou a Copa, mas conquistou o mundo.

https://trivela.com.br/copa-do-mundo/5-de-julho-de-1982-o-dia-que-o-encanto-do-brasil-caiu-para-a-italia-no-sarria/

(...) A final da Copa do Mundo FIFA de 1982 foi disputada em 11 de julho no Estádio Santiago Bernabéu, em Madrid.

A Itália venceu a Alemanha Ocidental por 3–1 e se tornou tricampeã do mundo, empatando em número de conquistas de Copa do Mundo com o Brasil. O italiano Paolo Rossi venceu a Chuteira de Ouro como melhor marcador do torneio e a Bola de Ouro como o melhor jogador do torneio (premiado pela primeira vez). O goleiro e capitão de 40 anos da Itália, Dino Zoff, se tornou o jogador mais velho a vencer a Copa do Mundo. (...)

https://pt.wikipedia.org/wiki/Final_da_Copa_do_Mundo_FIFA_de_1982

Tabanca Grande Luís Graça disse...

Meu caro Joaquim, em 1982, a taxa de inflação em Portugal era de 21.7% e em Itália mais baixa, mas ainda assim elevada (16,5%)... Tempos desgraçados em que um salário dos dois (casal) ia para pagar o empréstimo bancário da casa (as prestações eram então semanais)... E passavam-se semanas sem pegar no carro...

Já não tenho ideia dos preços correntes em Itália, em 1982 (voltaria à Itália, mais dua sou três vezes)... Compravam-se pernas de rã e camarão nas margens do rio Pó... Lembro-me que fizemos uma magnífica caldeirada de marisco e dançámos na margem direita do rio ("fiume") Pó que vai desaguar a 50 km a sul de Veneza... Bons tempos... em que eu, pé de chumbo, ainda dansava...

Valdemar Silva disse...

Costa, isso é que foi.
Sem quereres saber do PREC, ala que se faz tarde dar uma volta pela velha Europa.
Pois, naquele tempo sair da tropa não era fácil ainda tínhamos que ficar uns anos na RESERVA
e por isso o tal documento militar para sair do país.
Eu, passados alguns anos, conheci bem o moinho do fotografia de Amesterdão.
O moinho é junto da Ponte do rio IJ, é a Brouwerij't IJ (brauwerai)=Cervejaria sempre com centenas de bicicletas nas proximidades.

Saúde da boa
Valdemar Queiroz

Carlos Vinhal disse...

Caro Valdemar, os militares milicianos ao fim do seu tempo de serviço obrigatório na "defesa da Pátria", passavam à situação de disponibilidade e não de reserva.
Quanto a tirar passaportes, em 1976 já era coisa normalíssima, eu próprio tirei o meu, com a minha mulher lá "pendurada" por opção, sem me terem perguntado nada sobre a situação militar, talvez atendendo à minha idade "avançada".
Da tropa, naquele tempo, só precisei de fazer uns requerimentos a pedir cópia da folha de assentos para efeitos de diuturnidades e contagem de tempo de serviço para efeitos de reforma.
Os fervorosos votos de que te encontres operacional.
Abraço
Carlos

Tabanca Grande Luís Graça disse...

Sei que o Valdemar ainda felicíssimo por estes dias, tem cá a família holandesa a passar férias: o filho, portuga, a esposa, holandesa (ou neerlandesa (já não sei qual a designação oficial para a Holanda ou a Neerlândia...) e uma neta, que joga à bola e deve ser multilingue...

Com tudo isto, o blogue não o pode distrair... A família é o mais importante de tudo.

Valdemar Silva disse...

Meu caro Carlos Vinhal
Julgo que o passar à Disponibilidade não ficávamos 'uff já chegaram quase 4 anos', ainda se passava à Reserva Territorial (?)
Não sei se aconteceu contigo, ou com outros furriéis mil., passados uns tempos recebi um Ofício da tropa para eu enviar o Registo Criminal por causa da promoção a 2º. Sargento Miliciano. Com certeza não era para por numa moldura dourada, era por passar à Reserva Territorial ou Tropas Licenciadas, não sei ao certo, por mais quase 10 anos o que dava o limite no ano de 1981 (?) e por isso, julgo, ser exigido o tal documento militar para sair do país. Não sei se era pedido a todos ou havia vista grossa nalgumas Alfândegas.

Luís, a minha família luso-neerlandesa deve chegar na próxima 2ª. feira, mas antes de chegar a Agualva City vão andar por outras paragens de Portugal.
Quanto à questão holandesa e neerlandesa a explicação é simples.
A minha neta é natural dos Países Baixos, da Província de Barbante Norte, por isso ela é uma brabantina. Os holandeses são os habitantes dos Países Baixos, das Províncias da Holanda do Norte e do Sul.
'Tá bem que por cá é Lisboa e o resto é paisagem, mas vai chamar lisboeta a todos os portugueses que muito provavelmente ouvirás dizer 'vai-te f... ó moço'.

Pois, é mais difícil dizer neerlandês que holandês, por isso as autoridades dos Países Baixos, ainda não dizemos Neerlândia, andam com grandes campanhas para os estrangeiros se corrigirem.
Bom, agora estou ansiosamente à espera deles.

Boas férias e saúde da boa
Valdemar Queiroz

Anónimo disse...

Luís
Sempre que viajamos geralmente (ou sempre), somos levados pelas fotos sempre maravilhosas que vemos nas brochuras das agências de viagem. Chegados ao destino nem sempre (ou nunca) o que vimos corresponda às expectativas criadas.
Tenho duas exceções: As três vezes que fui aos Açores e as duas que fui a Itália que ultrapassaram largamente as expectativas criadas.
Fiz Itália de Veneza a Nápoles e aqui dei um salto de barco até Capri. Roma, Florença, Siena, Assis, Verona, etc, etc., Confesso que, nãos obstante imponente e de grande beleza, a minha pequena frustação foi a Fontana di Trevi.
Quanto aos Açores, não tem explicação. Confirmei nas três viagens que o paraíso afinal existe mesmo.

Quanto ao “Salvo conduto”, meus amigos, de Quintanilha a Valença, de Badajoz a Vila Real de Santo Santo António, só com o papelinho assinado.

Valdemar,
Gostei de Amesterdão, cidade com tudo na medida certa, exceto as bicicletas, que nos aparecem de todo o lado. Desejo-te, muito sinceramente, umas férias reconfortantes no seio da família.
Abraço e boas férias
Joaquim Costa

Valdemar Silva disse...

Queria dizer: Brabante Norte


Valdemar Queiroz

Carlos Vinhal disse...

Caro Valdemar, na página 5 da minha caderneta militar diz que passei à Disponibilidade em 11/4/1972 por ter terminado a obrigação normal de serviço.
Quanto à promoção a sargento, não tinha direito a ela por não ter completado os 36 meses de tropa necessários, faltaram-me exactamente 10 dias, já que fui incorporado em 21 de Abril de 1969.
Recebi sim um ofício a propor-me a frequência num curso para sargentos a expensas minhas. Mandei logo uma declaração num papel azul de 25 (ou 35?) linhas a manifestar o meu desinteresse.
As minhas felicitações pela visita dos teus herdeiros neerlandeses. Disfruta porque esta vida são 3 dias como o carnaval.
A melhor saúde.
Carlos

Carlos Vinhal disse...

Venho rectificar a minha afirmação de há pouco. O Curso que me foi proposto, em Outubro de 1973, era para Furriel do Q.P., aberto aos Furriéis e Sargentos Milicianos na situação de disponibilidade. Confirmo que o Curso era sem dispêndio para a F.N. (Fazenda Nacional).
Mais uma curiosidade na nossa atribulada vida de civis armados.
Carlos Vinhal