segunda-feira, 17 de abril de 2023

Guiné 61/74 - P24228: (Ex)citações (426): Recordações dos Comandos Africanos em Paunca, em setembro de 1970 (Valdemar Queiroz e Abílio Duarte, ex-fur mil, CART 11, 1969/70)


 
Guiné > Zona Leste > Regiãod e Gabu > Paunca > CART 11 (1969/70) > Rua principal e quartel, com o Valdemar Queiroz numa das portas de armas, na primeira foto.

Fotos (e legenda): © Valdemar Queiroz (2014). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar. Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. Comentários ao poste P24224 (*), da parte de dois "Lacraus", ex-fur mil, Valdemar Queiroz e Abílio Duarte, da CART 2479 (que em janeiro de 1970 deu origem à CART 11, "Os Lacraus", que por sua vez em junho de 1972 passou a designar-se CCAÇ 11);  os dois passaram por  Contuboel, Nova Lamego, Piche e Paunca, e outros sítios do Leste, 1969/70; sabemos que o Abílio Duarte estava em Paunca na altura do Ramadão de 1970, que nesse ano começou a 31 de outubro e terminou a 30 de novembro; sobre Paunca temos mais de 7 dezenas de referências.


(i) Valdemar Queiroz:

Em Setembro de 1970, eu a minha CART 11 estávamos em Paunca e no destacamento de Guiro Iero Bocari.

Eu não me recordo da Companhia de Comandos Africanos estar no nosso Quartel em Paunca [sem setembro de 1970], talvez por andar numa segurança à vacinação que se efetuou na população das tabancas da zona.

Dentro do triângulo Sara Bacar-Paunca / Sonaco-Pirada havia várias tabancas sem tropa (não sei se em autodefesa) e fazíamos visitas com frequência. Também, com a chegada da nossa CART 11, de soldados fulas, ou com falta de efetivos a partir do Senegal, deixou de haver incursões do IN naquela zona

Calhando, o Abílio Duarte se lembre dessa visita.

Valdemar Queiroz | 15 de abril de 2023 às 16:45 

(ii) Abilio Duarte:

Com certeza... Amigo e camarada Valdemar, como se fosse ontem.

Estava em Paunca, na altura em que a Companhia de Comados do cap Bacar Jaló foi fazer uma operação ao Senegal.

Sem mais nem menos, ninguém sabia de nada, e entra aquela malta toda no nosso aquartelamento em Paunca, e eu digo para mim: "Porra, estes gajos vêm a fugir de onde?!...

Passada a surpresa, vim a saber o que se tinha passado, e o capitão Aniceto  Pinto chamou a nossa malta, e fez um breve briefing: era necessário pôr a malta nas valas e abrigos, pois os comandos tinham a sensação que vinham a ser seguidos pelo PAIGC.

Em seguida , o cap Jaló deu umas coordenadas, e fez-se fogo do obus 140 mm, e de morteiro 80 mm.

Ainda nesse fim de tarde, apareceu uma coluna de Unimogs, que vieram buscar os Comados Africanos, e zarparam, não sei para onde.

Estava tudo combinado, e nem o Aniceto sabia  de alguma coisa. O segredo é a alma do negócio.

Só ouvi falar novamente desta gente, na operação em Conacri, em que o pelotão do ten Januário foi apanhado, e fuzilado.

Recordando a Operação Mar Verde,  eu dormia numa tabanca, e numa manhã, veio o dono da dita, me acordando: "Furiel , tuga está em Conacri !!!"...

Fui ouvir a rádio que ele estava a sintonizar e...tudo de boca aberta, apesar do meu mau francês, lá percebi o que se estava a passar.

Ligando para o PIFAS, e Emissora Nacional, era tudo mentira.

Abraço Valdemar e as tuas melhoras.

Abílio Duarte | 15 de abril de 2023 às 17:25 

(iii) Valdemar Queiroz:

Duarte, ainda bem que te lembras do que aconteceu. Não me lembro de nada, nem sequer de ouvir falar do que tu agora contaste. Até o História da Unidade não refere esse acontecimento.

Devia estar em Guiro Iero Bocari ou com um grande bioxene que limpou o disco rijo.

Abraço e saúde da boa


Último poste da série (Ex)citações: P24227 (**)




Guiné > Zona leste > Região de Gabu > Carta  de Paunca (1957) (Escala 1/50 mil) > Detalhes: posição relativa de Paunca, Paiama, Sinchã Abdulai e Guiro Iero Bocari, junto à fronteira com o Senegal.

Infografia: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2014)

___________

Notas do editor:

(*) vd. poste de 15 de abril de 2023 > Guiné 61/74 - P24224: Recordando o Amadu Bailo Djaló (Bafatá, 1940 - Lisboa, 2015), um luso-guineense com duas pátrias amadas, um valoroso combatente, um homem sábio, um bom muçulmano - Parte XXIV: As previsões agoirentas do adivinho Mamadu Candé que nos via, a mim e ao João Bacar Jaló, a viajar num barco para desembarcarmos numa grande cidade e aí a sofrer muitas baixas (... só não nos disse o nome da cidade: Conacri...)

(**) Último poste da série > 16 de abril de 2023 > Guiné 61/74 - P24227: (Ex)citações (425): o recurso ao pensamento mágico, à superstição, aos amuletos e às artes adivinhatórias, etc., na guerra, de um lado e do outro (Luís Graça)

9 comentários:

Tabanca Grande Luís Graça disse...

Valdemar, não há dúvida que no nosso tempo (1969/71), a presença, na Zona Leste ("chão fula") de 3 companhias do CTIG, da chamada "nova força africana" (a tua CART 11, a minha CCAÇ 12 e ainda a CCAÇ 5,de Canjadude), teve um efeito dissuasor... E, claro, com a presença dos Comandos Africanos (que chagam a ser um batalhão)...

Também é verdade que o Senegal não era a Guiné-Conacri, e as movimentações do PAIGC tinham regras... Em 1973 as coisas alteram-se, Portugal perdeu estupidamente a neutralidade "colaborante" do Senghor... Com a temerária invasão de Conacri e depois o assassinato de Amílcar Cabral, mais a saída de Spínola em meados de 1973, o Portugal de Marcello Caetano tornou-se muito mais odioso aos olhos de África... e o chão fula começou a fragilizar-se, na região de Gabu, com uma série de povoações fronteiriças a ficarem sem defesa e ao alcance da artilharia de 130 mm do Sekou Touré, emprestada ao PAIGC...(Para não falar dos foguetões 122 mm e do morteiro 120...).

Quando tu não consegues dar confiança às populações, elas começam a contar as espingardas...e a deixar-se intimidar pelo outro lado... Bettencourt Rodrigues começou a perder a confiança dos fulas do nordeste... (É a minha leitura, eu e tu já não estávamos lá...).

Valdemar Silva disse...

Luís, a legenda das fotografias "rua principal e quartel" engana.
Noutro poste aparecia a fotografia da rua principal e fotografias do quartel com uma na porta d'armas.
Estas são as duas no Quartel, se assim poderemos chamar, repare-se na porta d'armas. A casa que vemos era secretaria, messe de oficiais e sargentos, posto de rádio e não me lembro se dormitório do Capitão ou algum oficial. Depois vemos, parte de um barracão, que era a cozinha e refeitório das praças. A caserna, antigo celeiro de mancarra (P17028), não aparece nas fotos assim como um grande abrigo geral, o resto é a parada com espaldões do morteiro 81 e de artilharia.
Vendo da rua principal, nota-se perfeitamente, que antes de ser o Quartel, seria a casa e o armazém de mancarra de um comerciante.
Note-se, que por não haver instalações para oficiais e sargentos foram requisitadas casas civis no meio da população o que aconteceu no meu caso.
Havia arame farpado, vala e abrigos no perímetro de toda a tabanca, com tropa nos abrigos e a fazer a segurança todo o dia. Depois do jantar quase toda a tropa ia para vala/abrigos regressando cerca das 11 horas da noite para às respectivas instalações de cada um tratar de assuntos pendentes de alguma garrafa de bioxene.
Corroboro no que diz respeito a várias pequenas tabancas da região sem nenhuma segurança por parte da NT e julgo também da milícia ou autodefesa.
Não havia dúvidas que a nossa CART11, de soldados fulas, deu uma grande segurança na população de toda a zona e toda a gente estava muito contente com toda a NT.
Não sei como se passaram os dias a partir da nossa substituição (Dez/1970) até 1974.

O pior foi quando acabou a guerra, por incrível que pareça. Os soldados fulas não queriam e pegaram em armas a obrigar os "brancos" a não se render ao pessoal bandido.

Saúde da boa
Valdemar Queiroz

Tabanca Grande Luís Graça disse...

Valdemar, ia dando em tragédia essa revolta dos teus soldados, depois do anúncio da extinção da enhtáo Ccaç 11... Houve uma rebelião militar... Ao J. Casimiro Carvalho, o herói de Gadamael, encostaram-lhe a G3 nas costas, deve ter sentido um calafrio de gelar a coluna...
Pensando bem (ou mal, "a quente"), eu, se calhar, faria o mesmo no lugar deles, dos nossos soldados e milícias fulas, a quem o MFA não se dignou explicar o que é que era (ou devia ser) o golpe de Estado do 25 de Abril... Os capitães do MFA, com a pressa, náo tiveram tempo de fazer a "pedagogia" que se impunha... Como explicar aos 13 mil soldados do recrutamento local (incluindo milícias), que agora a guerra tinha acabado, e que o exército português já não ia precisar mais deles ?

Em Bambadincas aconteceu o mesmo, a CCaç 21 do Jamanca e do Amadu Djaló revoltou-se e encostou todos os "tugas" à parede em agosto de 1974... Mas em Lisboa os putos maoistas (e outros democratas do 26 de Abril) gritavam "Nem mais um soldado para as colónias"...( Hoje contam aos netos, na galhofa, as suas proezas "revolucionárias".)

Eu compreendo: toda a gente, afinal, queria acabar depressa com o pesadelo da "guerra dos 100 anos" (que já ia em 13)... a começar por aqueles que já tinham o "bilhete de avião" para Bissalanca... (A guerra, todas as guerras, dá um grande cagufe!).

Hoje dá para perceber até onde podem ir a demagogia e o populismo, sobretudo quando se tem as costas largas, e já não há a PIDE/DGS, a PSP,a GNR para dar porrada e dispersar as manifes... Podem ir até às mais trágicas consequèncias...

Quem ficou na Guiné até ao fim, a "aguentar o barco", merece o nosso profundo respeito... Precisamos de mais testemunhos (serenos...) sobre os nossos últimos seis meses, no TO da Guiné, de abril a outubro de 1974...

Valdemar Silva disse...

Luís, essa dos maoístas teve muita piada.
Essa malta era porreira para lançar a confusão, mas julgo que hoje contam outras coisas aos netos e nem querem ouvir falar de revoluções.

Não havia dúvida que a rapaziada queria ver-se livre daquela guerra o mais rápido possível e regressar a sua terra, embora não tivesse havido nada parecido como em Saigão ou ultimamente como Cabul.

O Cherno Baldé tem uma frase que marca os sentimentos dos vencedores e dos vencidos, que os vencidos parecem ser os vencedores e os vencedores parecem ser os vencidos.
(não me recordo precisamente, e cada vez estou a perder mais a memória)

Valdemar Queiroz


Valdemar Queiroz

Anónimo disse...

Caro Valdemar,

O que eu disse ou escrevi na série das minhas memórias é mais ou menos assim: "Pela primeira vez na história dos conflitos armados, os vencidos estavam mais satisfeitos do que os vencedores".

Foram os meus sentimentos do momento que, todavia só traduzi por escrito durante a nossa guerra de 7 de Junho98, quando estive refugiado em Fajonquito e passava muito passeando no antigo quartel que, também ele consistia em antigos edifícios comerciais do antes da guerra colonial.

Quanto as revoltas dos soldados no período pós 25A74, a sorte que tivemos, se assim o podemos chamar, foi o facto de não existirem nenhumas ligações entre as diversas companhias que permitisse uma organização estruturada e, também, não haver oficiais politizados no seio dos soldados nativos, porque a sua formação tinha sido feita exactamente para que nunca pudessem surgir líderes no seu seio, por isso os seus oficiais eram sempre de origem metropolitana, salvo raras excepções e só a partir de 1971 com o único da formação dos Comandos africanos e mesmo assim,base a minha memória é boa, o posto mais alto foi o do Capitão (João BD). Não fosse isso tínhamos uma verdadeira guerra civil como aconteceu em Angola.

Não sou apologista da guerra, mas acho que a prepotência e os abusos do PAIGC mereciam uma resposta a medida.

Há alguns anos atrás tive uma discussão que terminou em zanga com um antigo combatente, meu amigo, que tinha sido comandante de um pelotão de africanos, pela sua insistência em tentar convencer-nos que o candidato do PAIGC tinha vencido as últimas presidenciais da Guiné, apesar de todos os factos apontarem o contrário. Às vezes é difícil entender os "Tugas".

Um abraço amigo,

Cherno Baldé

Antº Rosinha disse...

Quem ficou mais decepcionado com a desistência de continuar a luta da parte de Portugal, foram todos os velhos africanos e velhos "colon".

Quem era jovem, branco ou preto ou mestiço, até houve entusiasmo, apesar da incerteza do que lá vinha.

Eu com 18 anos em Angola, mas com menos de 40 anos e com saúde, eu vi a desilusão de sobas, eu trabalhava nas estradas que serviam as povoações do interior, e conhecia por muita convivência de anos, gente que trabalhava no meu serviço e gente das sanzalas, e a pergunta mais difícil de responder, era quando me perguntavam se eu me ia embora e porquê.

Quando eu logo no dia 26 de Abril já tinha as malas feitas e fiquei pronto para zarpar, psicologicamente, pois a guerra já não era a minha guerra, dali para a frente.

Mas eu não podia dizer que partia, para não me chamarem traiçoeiro ou cobarde, ou traidor, pois era isso tudo que eu no fundo me achava, ao olhar para gente com quem eu tinha convivido, alguns com muita assiduidade.

Eu imagino o que sentiam os comandos africanos e flexas.

Eu imagino também aqueles africanos que hoje atravessam o deserto do saara e tentam há 40 anos em Ceuta galgar o arame farpado para a europa.

Lembro-me logo dos meus porta-miras que me perguntavam porque me vinha embora, se não serão os filhos deles a galgar o arame.

É que um porta miras meu da Guiné tentou ir para a Espanha num contentor de um barco de Bissau, isto passados 15 anos de eu zarpar (fugir) de Luanda.

A gente mais idosa intuia que que a rotina para a sua geração ia terminar e ia entrar no caos, eles sabiam a incapacidade e irresponsabilidade da "gente do mato".

Valdemar Silva disse...

E essa mesmo Cherno Baldé

"Pela primeira vez na história dos conflitos armados, os vencidos estavam mais satisfeitos do que os vencedores".

Abraço e saúde da boa
Valdemar Queiroz

Anónimo disse...

Caro Valdemar,

E preciso esclarecer e separar as aguas, os vencidos eramos nos, portugueses (Tugas) e seus aliados africanos, principalmente fulas (cachorros dos Tugas), mas os que manifestaram a sua satisfaçao mesmo que de forma contida, foram os soldados metropolitanos que ja estavam cansados (fartos) da guerra, os africanos sabiam que desistir seria submeter-se a uma inevitavel humilhaçao e com risco de vida.

Os vencedores eram os guerrilheiros do PAIGC que, no entanto, nao manifestaram nenhuma atitude de satisfaçao no momento, talvez nao acreditando no que viam e ouviam.

O Rosinha tem toda a razao, se os mais novos estavam expectantes, os mais velhos sabiam que tempos dificeis estariam no horijonte, quando os os homens do mato assumissem os destinos do pais, mas ninguém queria saber da sua opiniao.

Cherno AB

Anónimo disse...

Recorde-se aqui, muityo portunamenmte, o comentário do Manuel Joaquim, em 5 de junho de 2010, ao poste P6526:

https://blogueforanadaevaotres.blogspot.com/2010/06/guine-6374-p6526-notas-de-leitura-112.html

Caro Graça de Abreu

Concordo, totalmente, com o que dizes sobre o chamado "socialismo real", expressão usada para camuflar o termo "comunismo". Criaram-se regimes de terror, as provas são evidentes. Só as não vê quem não quer.

Parece-me, no entanto, que estes comentários não andam por aí mas sim pela "nossa" descolonização.O que me irrita e enoja é o espectáculo dos/das velhas virgens que andam por aí, de hímen reconstruído, a injuriar e a diabolizar a descolonização, a amesquinhar o comportamento militar em combate, a invectivar a "entrega da nossa Pátria aos comunas", a arrotarem "verdades" sobre personagens e situações que, de verdade, só têm as sílabas das palavras ditas.

Não são as vítimas da descolonização que me irritam com as suas queixas furibundas, às vezes injustas, nem sequer aqueles que defendem as asneiras que, politicamente, fizeram quando tiveram de decidir.

Quem me enoja são aqueles que eu vi, logo a partir de Maio/74 (*), com faixas e aos gritos "Nem mais um soldado para as colónias!".

Estas palavras de ordem propagaram-se como fogo em palha seca. Imaginei logo o que iria acontecer: a destruição de todas as hipóteses possíveis de entendimento com o IN, de qualquer energia ainda existente nos nossos combatentes, de qualquer hipótese válida de se formarem contingentes para render tropas no terreno.

Bem recordo alguns, hoje altos expoentes ideológicos de direita, altos cargos políticos, de Lisboa a Bruxelas, altos cargos na comunicação social, a liderarem tais manifestações, quer na rua quer na rádio, na TV, nos jornais.

Hoje vejo-os por aí causticando o modelo descolonizador e, paradoxo, incensados pelas vítimas da descolonização!

Seria muito interessante consultar a imprensa de 1974/75, falada e escrita, e ver como se expressavam sobre este assunto certas "aves raras" que hoje se pavoneiam por aí, "arrotando postas de pescada".
Um abraço

Manuel Joaquim