
Data - sexta, 14/11/2025, 20:56
Caro Luis Graça
Há alguns anos estive inscrito no blogue, mas também não era comum visitá-lo. Prestei serviço como alferes miliciano no Gabinete Militar do Comando-Chefe, de set67 a set69.
Abraço, e espero encontrar-te no próximo almoço da Tabanca da Linha.
Cumprimentos,
Emanuel Ribeiro Fernandes
2. Nova mensagen remetida pelo Formulário de Contacto do Blogger
Data - segunda, 15/06/2026, 21:35
Caro Luis Graça:
Respondendo ao teu desafio sobre a participação de artistas nacionais em visita às NT na Guiné (*), junto este pequeno contributo.
Os actores Francisco Nicholson e Armando Cortez e a actriz Manuela Maria (Alzira) visitaram a Guiné de 28 de setembro e 5 de outubro de 1967.
Deram espetáculos em:
- Nova Lamego (29set),
- Bafatá (30set),
- Tite (1out),
- UBIB/Bissau (1out),
- Teixeira Pinto (?) (2out)
- Mansoa (4o lóut).
Cumprimentos,
Emanuel Ribeiro Fernandes
3. Comentário do editor LG:
Olá, Emanuel. Obrigado pelo teu contributo. Precioso. Quem é que, ao fim destes anos todos, ainda guarda memórias precisas (nomes, datas, locais), da visita ao CTIG de artistas de primeiro plano, conhecidos sobretudo do teatro de revista e da televisão, como os que citas ?
São dados que não constam nas biografias destes atores, infelizmente já falecidos, os dois primeiros:
- Francisco Nicholson (1938-2016)
- Armando Cortez (1928-2002)
- Manuela Maria (n. 1935)
Fico feliz por o nosso apelo não ter caído em saco roto, e que volto aqui a repetir:
"Quem assistiu, no mato, a espetáculos de artistas da metrópole em digressão pela Guiné ? Em que local? Quem atuou? Há fotos, cartazes, programas, autógrafos ?"
Emanuel, tenho-te encontrado na Tabanca da Linha. Sei que és de Mafra. E, se entendi bem, trabalhaste no aeroporto de Lisboa ou na TAP. Para a próxima temos que ficar juntos, à mesa, para me falares com mais pormenor dos teus tempos de Guiné.
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A dupla em "Riso e Ritmo" (RTP, 1969). (Com a devida vénia... |
4. A dupla humorística Armando Cortez / Francisco Nicholson
Bissau: onde se exibiram na União Desportiva Internacional de Bissau (UDIB), o grande polo dinamizador da vida social e desportiva da capital da província, a par da Associação Comercial e Industrial (que ficava perto);
Mansoa, na região do Óio, e a vila do interior mais perto da capital, por estrada (alcatroada); tinha um clube de futebol, ainda hoje famoso, o Clube Futebol Balantas de Mansoa, fundado em 1946, filial (nº 13) do nosso Os Belenenses!
Bafatá e Nova Lamego (Gabu): no Leste, que eram zonas de forte presença militar e eixos estratégicos de circulação; na altura Batafá, outrora próspera graças ao comércio da mancarra, e agora de cara lavada devido ao "patacão ": será elevada a cidade, a segunda, da Guiné, em 1969;
Teixeira Pinto (Canchungo): no Norte, na região do Cacheu, sede de um importante subsetor militar, e do "chão manjaco", e cuja vila tinha um cinema;
Tite: no Sul, região de Quínara, uma das zonas mais fustigadas pelo conflito, mas que disporia de instalações capazes de acolher a comitiva com relativa segurança para a época: estava perto de Bissau, passara a ser sede circunscrição com a decadência e o isolamento de Fulacunda, impostos pela guerra. (Não tenho ideia nenhuma de haver um cine-teatro em Tite, no nosso tempo!)
Tinha um estilo inconfundível: os seus textos focavam-se fortemente na realidade portuguesa e caracterizavam-se por um ritmo acelerado, o que frequentemente resultava em momentos cómicos espontâneos ("gags") durante as gravações. (Veja-se, aqui, na RTP Arquivos, a emissão especial de Natal de 1969, com a duração de 1 hora e c. 15 minutos.)
Essa digressão de Armando Cortez e Francisco Nicholson (mais a Maria Manuela) à Guiné, em 1967, ilustra bem o esforço logístico e psicológico que se fazia na época para elevar o moral das tropas através do entretenimento.
No auge do sucesso do "Riso e Ritmo", os dois atores e autores eram das caras mais conhecidas e queridas do público português, e a sua deslocação ao TO da Guiné teve naturalmente algum impacto junto dos militares (e dos poucos "colonos", que viviam naquelas paragens inóspitas).
Esta digressão foi organizada e patrocinada pelo Movimento Nacional Feminino (MNF), liderado pela carismática e influente Cecília Supico Pinto (conhecida popularmente como "Cilinha"): íntima de Salazar, era então uma mulher poderosa, talvez a mulher mais poderosa do Portugal da época, embora já em fim de época e de regime...
Mas em setembro de 1967, ainda era vivo e temido o "senhor doutor" com quem ela emparceirou diversas vezes, fazendo o papel de "primeira dama" em eventos públicos; recorde-se que Salazar era solteiro; e ela foi uma das últimas pessoas a vê-lo com vida, recorda a sua biógrafa, Sílvia Espírito-Santo).
O MNF terá sido inspirado diretamente na USO (United Service Organizations), criada em 1941, como forma da sociedade civil apoiar moral e psicologicamente os militares norte- americanos e as suas famílias durante a II Guerra Munda. Levava grandes estrelas de Hollywood e da música (o "show business") para os teatros de operações para entreter os soldados envolvidos nesse conflito, e noutros subsequentes (Coreia e Vietname).
A Cecília Supico Pinto percebeu cedo o impacto avassalador que o contacto direto com os artistas em voga na Metrópole exercia sobre o moral dos jovens mobilizados no ultramar, a milhares de quilómetros de casa.
O MNF utilizava a sua enorme influência junto do regime, dos meios empresariais e dos transportes (como a TAP e os TAM) para viabilizar estas "caravanas artísticas", garantindo que as maiores figuras do teatro, da rádio e da televisão estivessem presentes nos palcos possíveis do Ultramar.
Embora o programa "Riso e Ritmo" fosse em formato televisivo de variedades, era complexo, envolvendo orquestra, corpo de baile, vários cantores, etc.. Daí que, na deslocação à Guiné, teve de ser adaptado à realidade de um território em guerra ativa, e com escassez de salas de espetáculos. A dupla Cortez e Nicholson terá apresentado um espetáculo focado sobretudo em sketches de comédia, rábulas humorísticas e sátira social ligeira, permitindo uma montagem rápida, barata e flexível.
A ligação de Armando Cortez e Francisco Nicholson ao esforço de apoio moral aos soldados não se esgotou nesta curta e intensa semana de 1967 na Guiné. Anos mais tarde, em 1971 a dupla voltou a dar a cara por uma das maiores iniciativas do MNF: o célebre LP de vinil "Natal 71" (inserido na Operação Presença).
Com uma tiragem impressionante (para o país e para a época) de 300 mil exemplares distribuídos pelas frentes de combate, esse disco juntava mensagens e participações de figuras maiores da cultura e do desporto nacional (como Amália Rodrigues, Eusébio, Hermínia Silva e os Parodiantes de Lisboa).
Armando Cortez e Francisco Nicholson participaram ativamente na gravação, oferecendo o seu humor como bálsamo para mitigar a solidão e o isolamento dos milhares de jovens que passavam a quadra natalícia no mato.
Embora o disco tenha sido um fiasco e um rombo no cofre do MNF: é que os soldados no mato não tinham gira-discos ,nem eletricidade... Ninguém, no MNF, no "bem bom" de Lisboa, se lembraria destes detalhes...
Pesquisa; LG + IA (Gemini / Google) (Vibe / Mistral )
Nota do editor LG:

17 comentários:
Claro que estes artistas não iam á borla...
... Mas também tinham tudo pago. E a Guiné era um destino exótico ( se bem que pouco ou nada atraente em setembro / outubro de 1969, já quase no fim da época das chuvas, e em plena guerra).
Imagino que recebessem um cachê simbólico. O Movimento Nacional Feminino não boiava em dinheiro ( tinha um orçamento de 10 mil contos, dados com má vontade pelo Ministério da Defesa).
Mas seis espectáculos em seis dias... era uma coisa violenta! Fora de Bissau, não podia ser à noite, porque a FAP não viajava à noite. E no mato não havia hotéis ... Além disso, o clima da Guiné exigia um tempo de adaptação...
10 mil contos... O que representava em 1961, 1967 e 1974 ? C. de 5,3 mil contos, 4,2 mil contos, e menos de 2,0 mil contos, respetivamente. A preços de hoje, em euros. O MNF tinha de fazer espetáculos na metrópole, estender a mão à caridade dos ricos, realizar sorteios (como a Operação Saudade) (cinco milhões de senhas nunmeradas, a cinco escudos cada uma, com um total de 1510 prémios, incluindo 5 andares, 20 automóveis, 5 vaigens de ia e volta a Moçambique, idem a Angola, 10 "scooters", 25 máquinas de lavar, 35 televisores, 5 cavalos de sela, 25 bicicletas motorizadas, 40 máquinas de costura, 35 frigoriíficos, 100 telefonias, 100 aspiradores, etc.).
Se o MNF tivesse vendido os 5 milhões de senhas,a 5 escudos cada uma, teria obtido 5 mil contos (o equivalente hoje a menos de 9,2 milhões de euros).
O operação destinava-se a dar a oportunidade de os militares em serviço nos 3 TO poderem viajar gratuitamente na TAP para passar uns dias com a família: um militar, por dia, durante 365 dias... Não sabemos qual era o critério da escolha do "sortudo"...
5 mil contos de receita bruta...Metade do subsídio do Ministério da Defesa...
Luís
O que o Emanuel não diz é que era ele que ia à frente dos "performers" a indicar o caminho da festa...
E, além disso, o que te poderá dizer em Algés é que o maior "cagufo" da vida dele foi ter sido obrigado a passar uma noite em Gandembel porque o héli bateu com uma pá onde não devia.
Abraço
Alberto, afinal a Guiné era uma Tabanca...Grande. toda a gente se conhecia...
Não é/foi bem assim Luís.
O Emanuel era um dos privilegiados, sediados em Bissau e abancados nos pavilhões junto à piscina da Messe de Oficiais, dos q
... dos quais alguns faziam o acompanhamento de gente estranha à guerra que passava por Bissau (espécie de Rel. Públicas...). Outros estavam colocados nas secretarias do Q.G.. Os alf. milicianos em trânsito por Bissau - ida para férias, baixas médicas, etc. - também ficavam ali em barracões com mais de vinte camas, amontoados de qualquer maneira e ELES, com a música das suas festinhas e outras tropelias , não deixavam descansar quem necessitava. Tudo isto dava lugar a insultos, tropelias e, até, agressões.
Anos mais tarde fui encontrar o Emanuel na TAP.
Afinal, o mundo é pequeno e a nossa Tabanca... é Grande!
Talvez o Emanuel nos possa e queira dizer o que fazia, na época, no gabinete militar do Com-Chefe. De resto, trabalhou com dois, o Arnaldo Schulz e o Antônio Spínola.
Por exemplo, gostava de saber: a) quem organizou estes 6 espetáculos; b) quem pagou; c) quem tratou da logística; d) como se deslocaram os artistas e a sua equipa técnica no interior da Guiné; e) onde ficavam em cada dia; f) a que horas atuavam; g) nem todos os sítios visitados tinham cine-teatro; h) quantos espetadores civis e militares; i) houve algum incidente digno de registo; etc.
Por exemplo, gostava de saber: a) quem organizou estes 6 espetáculos; b) quem pagou; c) quem tratou da logística; d) como se deslocaram os artistas e a sua equipa técnica no interior da Guiné; e) onde ficavam em cada dia; f) a que horas atuavam; g) nem todos os sítios visitados tinham cine-teatro; h) quantos espetadores civis e militares; i) houve algum incidente digno de registo; etc.
Esta dupla humorística deve ter atuado também em Angola e Moçambique... E foram pagos. Que o patriotismo não enche barriga nem paga as contas ao fim do mês...
O que eram estas terras, na altura ? Uma rua principal (que em Bissau se chamava avenida...). E Tire nem isso
O que eram estas terras, na altura ? Uma rua principal (que em Bissau se chamava avenida...). E Tire nem isso
E a gente pergunta: aquela "merda" ( a guerra da Guiné ) valeu o sangue que se verteu ( só do nosso lado c. 3000 militares) ? Foram 13 anos de guerra, não contando com as famigeradas "campanhas de pacificação" desde os fins do séc. XIX...
Não defendo o discurso de vitimização.
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