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domingo, 6 de setembro de 2026

Guiné 61/74 - P28325: Humor de caserna (268): Afinal, tão básicos que nós éramos... (Alberto Branquinho)



Prompt original e composição editorial: Luís Graça.
Texto: Alberto Branquinho  (2010)

Imagens: Arquivo do Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné


O escritor Alberto Branquinho


1.  Não haverá muitos postes no nosso blogue (já com mais de 22 anos de existência, na Net, quase uma eternidade!) com cerca de 4 dezenas de comentários e tantos comentadores...

Foi há 16 anos, alguns dos comentadores já não estão cá entre nós (Carlos Cordeiro, Jorge Cabral, Torcato Mendonça, José Manuel Dinis)...

Talvez valha a pena a gente tentar obter uma explicação para esta quantidade, diversidade e até riqueza de comentários a um texto de humor de caserna, publicado pelo Alberto Branquinho, na sua série "Contraponto" (*)...

O título nem sequer era apelativo ou chamativo, "Assinatura ilegível"... Mas o texto do nosso camarada Alberto Branquinho (ex-alf mil op esp, CART 1689, Fá, Catió, Cabedu, Gandembel e Canquelifá, 1967/69) tinha uma coisa que talvez explique tudo: era uma pequena bomba-relógio humorística.

Começava por parecer uma simples caricatura de um “soldado básico” que trocava os "bês" pelos "vês" (pronúncia típica do Norte, ou melhor, do Porto / Região do Porto).  

Este texto (humorístico), de um soldado básico, na guerra da Guiné (c. 1967/69), era delirante e acabava por abrir uma dúzia de portas e janelas: os básicos, os oficiais (do QP e milicianos), as lavadeiras, as cuecas, os sotaques, os nortenhos, os sulistas, as memórias da Guiné, a linguagem popular, o humor de caserna, a própria identidade dos comentadores (alguns dis quais se escudaram no anonimato)...

E há uma coisa extraordinariamente reveladora nos comentários: a história não ficou encerrada no texto do Branquinho. Cada comentador pegou numa ponta e puxou por ela.

Achamos que o mais interessante neste poste é a qualidade, a diversidade e, sobretudo, a progressiva transformação do próprio poste num acontecimento coletivo.

Vamos republicar o poste P7144 (*) e repescar, em prõximo poste, o essencial dos comentários, alguns dos quais não assinados (mas cuja identidade foi reconhecida e recuperada).

Vamos republicar o poste P7144 e repescar, em prõximo poste,  o essencial dos comentários, alguns dos quais  não assinados (mas cuja identidade foi reconhecida e recuperada).


2. Mensagem de Alberto Branquinho (ex-Alf Mil de Op Esp da CART 1689, 1968/70),  

Data - 17 de outubro de 2010
Assunto - Contraponto

Caro Carlos Vinhal

Estou a reenviar um texto que te é dirigido e que caiu na minha caixa de correio... Pensei várias vezes se deveria enviá-lo para o blogue ou não.

Sinceramente, se entenderes que pode vir a ferir alguém devido ao tipo de escrita e à ortografia (apesar do 'post-.scriotum' que vai no final), não publiques.

Um abraço
Alberto Branquinho


 3. Sobre o autor:

Para os leitores "mais novos no blogue:  o Alberto Branquinho (n. 1944, Vila Foz Coa), advogado a viver em Lisboa desde 1970, foi alf mil, CART 1689 / BART 1913, Fá, Catió, Cabedu, Gandembel e Canquelifá, 1967/69).  Foi jurista na TAP, está reformado.

"Por Portugal, um por todos, todos por um", era a divisa do seu batalhão. Chegaram a Bissau a 1 de maio de 1967 e regressaram a casa em 2 de março de 1969. Portanto, ainda "trabalharam" com o Spínola nove meses... Tem 170 referências no nosso blogue, é autor das notáveis séries "Contraponto" e "Não venho falar de mim... nem do meu umbigo".  

Escritor, especialista no contom (e microcconto), tem uma dúzia de títulos publicados.


Contraponto (16) > Assinatura ilegível

por Alberto Branquinho

Senhor Carlos Binhal

Eu era o soldado básico que tratava das cóisas dos ufissiais da nossa Cumpanhia.

Bossemessê num creia em tudo o qum ufissial da nossa Cumpanhia escrébe prái. Ele num é de cunfiar de todo. Não era má pessua mas aí faz muntas inbenções. Olhe que rasgaba o musquiteiro de raiba à noute e despois dezia quera eu. Andaba sempre a précurar pelas cuecas que faltabam as cuécas que faltabam as cuécas que faltabam as cuécas. Inté tinha alguma razão porqueu um dia puchei o pano pra baicho à labadeira e a gaija tinha umas cuécas dele bestidas.

Embora tibesse alguma razõm às bêses ele num é de cunfiar de todo. Sou eu que o está a abisar. Sabe lá cuantas beses eu tibe capanhar os cacos das cerbeijas quêle partia contrá parede do quarto. Dábamle aquelas ráibas e despois dezia que lhe faltabam os cumpremidos pra durmir que lhe roubavam os compremidos pra durmir. Cal comprimidos pra durmir aquilo era prá doudice. Gastábaos êle e num fazia contas a eles.

Mas olhe cus outros ufissiais tamém não eram milhores. Eram cuase todos das ilhas. Esses nunca os bi aí do seu computador.

Um um dia disse que cando chegasse da operação queria um copo de leite cum milho. Sabe lá bossemessê o queu passei prá arranjar o milho no quartel e quêle ficasse molinho pra pôr dentro do leite. Despois chateou-se comigo cu quêle queria era o leite com um pó castanho que tinha dentro duma lata chamada MILO.(**)

Outro tinha à cabeceira futugrafias da namurada ou da mulher ou lá o que era e cando eu entrava era de arrecuas porquêle se chateava se eu olhasse prás futugrafias.

O outro deles às bêses berrava comigo e quando eu lhe précuraba alguma coisa ou falaba cum ele nem oubia passaba o tempo a olhar pró chão ápertar o cinto dos calções a dezapertar o cinto dos calções e só dezia carássas carássas carássas.

Talbez estibessem apanhados du clima mas eu é que num tinha culpa nenhuma disso. O que me balia era o nosso capitão quéra munto bôa pessôa.

Nunca fui pró mato mas sabe deus o queu passei por causa deles.

Com muntos comprimentos pra bossemessê e para toda a sua família mas num creia em tudo o que esse ufissial escrebe prài porque é quase tudo inbenções.

Assinasse este que num manda as futugrafias que bossemessê pede sempre queu num quero quê-les saibam.

(assinatura ilegível)


***************

Alberto Branquinho

PS – Não se entenda o texto acima como sendo de menos consideração pelo soldado “imaginado” ou pela “sua” escrita. É só um ensaio para fazer um retrato.

(Seleção, revisão / fixação de texto, itálicos, negritos, título: CV/LG) (***)

 ______________________

Notas do editor LG:

(*) Vd. poste de 18 de outubro de 2010 > Guiné 63/74 - P7144: Contraponto (Alberto Branquinho) (16): Assinatura ilegível


(**) Vd. página do Facebook > Portugal Antigo, de Isabel Antunes Mourinho > 6 de janeiro de 2024 ·

(...) Milo, leite achocolatado, que fazia as delícias dos nossos pequenos-almoços, antes da corrida para a escola primária. Claro que nem todos, pois, apesar de tudo, nos anos 70 tomar Milo era um luxo, ao alcance de poucas famílias.
 
Milo é um produto da conhecida marca Nestlé, mas teve origem na Austrália (onde ainda se fabrica e é extremamente popular), desenvolvido por Thomas Mayne, em 1934. O nome deriva do lendário Milo de Creta. (...) 

4 comentários:

JOAO CRISOSTOMO… disse...

Mesmo sem tempo para nada, (vejam as razões em "post" separado que, espero, o Luís Graca vai fazer o favor de publicar ) tive de dar uma espreitadela ao nosso blogue... e deparo com coisas destas ... parti-me a rir. Continuem, caramba!, que assim até a velhice é mais fácil .

João Crisóstomo, Nova Iorque

Tabanca Grande Luís Graça disse...

João, realmente, é uma pequena obra-prima de humor de caserna. Faz-me lembrar o estilo da Guidinha, a criatura inventada pelo escritor, dramaturgo e jornalista do "Diário de Lisboa", Stau Monteiro... para fintar a censura dos senhores coronéis. (Há gente com memória curta que já não se lembra deste Portugal da nossa juventude.)

E cá está mais um achado, o trocadilho "Milho / Milo"...

Eu lembro-me bem de ver as latas de "Milo" nas mercearias, quando era puto, mas não de o beber, o leite achocolatado da Nestlé, que era só para os meninos ricos da vila...

Estamos a falar dos anos 50/60/70: tomar Milo ainda era um luxo, só ao alcance das famílías da classe média, classe média alta e classe alta, que era uma franja a população portuguesa. Não sei enm que ano a marca chegou a Portugal...

Quando muito, comia-se, nas vilas e pequenas cidades da provínica, as papas feitas com Farinha Predilecta e Farinha Amparo: estas farinhas de cereais marcaram toda uma época. Tinham de ser cozidas no tacho com leite e açúcar até engrossarem, exigindo que se mexesse constantemente para não criar os temidos grumos.

Mas zonas mais rurais , de Norte a Sul, comia-se com muito as papas de carolo ou de milho: o pequeno-almoço tradicional, não direi de mutas, mas de algumas famílias numerosas, passava por cozer a farinha de milho ou o carolo em leite gordo de vaca ou cabra (às vezes misturado com água), produto já de si um luxo... (chegou tarde à nossa mesa, quando nos comparamos com a Europa do Norte).

O nosso soldado básico, filho de rendeiros ou cabaneiros do Marco de Cana..beses, quando muito, comia uma côdea de pão de milho, ao "mata-bicho"...

Carlos Vinhal disse...

Essa do Milo e do "milho", na Madeira, quando lá cheguei, também me tocou pela porta. Um dia um dos recrutas dizia-me que punha "milho" no leite, o que eu estranhei, mas como cada terra tem seu uso...
A princípio também me fazia confusão como eles cosiam os rasgões das fardas com "lenha", até que descobri que alguns deles, os de mais longe do Funchal, pronunciavam o "i" de modo a que suava a qualquer coisa entre o "a" e o "e".
Para mim, o sotaque mais bonito que conheço é o medeirense, ao ponto de ainda hoje, quando ouço na televisão, principalmente, uma madeirense, me deixar enlevar por aqueles sons tão melodiosos.
Sem dúvida que Portugal é um país riquíssimo no que toca a sotaques.
Carlos Vinhal

Tabanca Grande Luís Graça disse...

Armindo Monteiro (1896-1955), um colaboradores próximos mas também um dos rivais de Salazar...