29.04.2019, segunda feira - O azeite que vem da andorinha...
Nada acontece por acaso. Nesta manhã de domingo em que alguns até já foram à missa, cada um está entretido como lhe convém. Uns trabalhando na construção civil, outros preparando o almoço, e outros, os “doutores”, com referência ao Gaspar Sobral e a mim, trabalhando nos computadores.
Esta manhã já por três vezes falhou a corrente elétrica. E, como se diz “não há dua sem três”, à terceira foi de vez. Não prevendo o seu restabelecimento, aproveitamospara, juntos, pormos a conversa em dia.
Foi então que eu disse:
− Acabo de publicar uma notícia no facebook sobre a oliveira mais antiga de Portugal. Tem três mil e quinhentos anos e situa-se em Mouriscas, perto de Abrantes.
O anúncio causou muita admiração e alguns comentários. Mais ainda quando souberam que esta oliveira ainda dá azeitonas, o precioso fruto do qual se extrai o saboroso azeite de que os portuguese tanto gostam.
O Aquino, um jovem entre os vinte e os trinta anos, que estava acompanhando a conversa, teve uma reação surpreendente quando ouviu dizer que das azeitonas se extrai o azeite, e disse:
− Ãh?!... O azeite vem das azeitonas? Mas aqui em Timor pensávamos que vem das andorinhas!...”
E conta até que, quando era mais jovem andava pelo arvoredo à procura de andorinhas, pois eram elas que davam o azeite.
Isto tem a sua graça e alguma piada. Ainda hoje podemos encontrar aqui em Dili latas com azeite da marca “Andorinha”.
Uma história ingénua, inocente, mas que nos faz orgulhosos por em Portugal termos tantas oliveiras e tantas andorinhas. E viva o azeite nacional!...
30.04.2019,terça feira - Uhau!... Que coragem!...
Há momentos que passou por aqui, acontece com frequência, a irmã do Tobias, uma senhora de quarenta e seis anos, com boa aparência, casou com um senhor indonésio e geraram doze filhos: dois faleceram e os outros dez estão a viver na Indonésia.
Perante a minha admiração de uma senhora daquela idade ter dado à luz doze filhos, a Aurora prontamente rematou e disse:
− A Romana, filha mais velha do Amari, irmão do Gaspar, tem uma madrinha que teve 18 filhos. Estão todos vivos e habitam em Vilaverde, aqui bem perto de nós.”
Claro que esta notícia tem sido objeto de muitas conversas. Se fosse em Portugal daria logo parangona para o "Correio da Manhã" ou outros jornais do género. Aqui em Timor é normal as famílias serem numerosas. Outrora não havia planeamento familiar, as pessoas casavam cedo e não havia os entretimentos de agora. Por isso compreende-se que perante tantas horas de lazer, o amor e a paixão desembocassem em relações amorosas muito produtivas. Hoje a situação está mais controlada.
E quando eu comento a baixa natalidade nos países de Europa, e particularmente em Portugal, depressa alguém me sugere para levar casais timorenses para repôr o número de habitantes que nos faz falta. Estes timorenses são mesmo “garanhões!...”
Pois é! Fazer filhos pouco custa. O mais difícil é criá-los e educá-los. Ou então, fazer como o Catorze, assim chamado pelo número de filhos que fez que, em terras de França (arredores de Paris) não precisava de trabalhar porque a segurança social superentendia todos os gastos, mais o abono dos filhos. Fazer filhos pode ser uma profissão para alguns. Com uma boa dose de amor, tudo é possível...
30.04.2019 - Galinhas que voam...
Galinhas e galos são os seres vivis que aqui mais abundam, exceptuando as pessoas.
De manhã à noite a sua presença é notória no cacarejar e no piar destas aves. Há rituais diários que elas observam: o despertar matinal, o cantar quando a galinha põe o ovo, as horas da refeição (normalmente ao final da tarde), o empoleirar quando a luz do dia se esvai.
E foi aqui que constatei a perícia destes galos e galinhas que, em vôo direto, arrancavam do chão até qualquer ramo de uma árvore vizinha ou até qualquer telhado de zinco, de mais ou menos de três a quatro metros de altura. Acontece que algumas acabam por não conseguiram superar esta prova diária. Pois é! Têm a sentença traçada: vão ser mortas e depenadas para serem depois cozinhadas. E aí vem uma canjinha de galinha para nosso proveito e regalo.
Os galos mais fortes são para venda, para a luta de galos, onde se fazem grandes apostas e se fazem algumas fortunas. O galo mais bonito cá da casa até já tem comprador. O Carlitos, um vizinho aqui ao lado, já ofereceu cinquenta dólares, preço que o Eustáquio, dono do bicho, considera bom negóciol
É assim. Os grandes e fortes safam-se; os mais pequenos e mais frágeis eliminam-se.
Onde é que eu já ouvi isto?...
01.05.2019, quarta feira - “Vinte ou trinta dólares... e tudo se resolve.”
Temos que ouvir e ver para podermos acreditar.. O Amali, perante a eminência de amanhã termos de viajar em mikrolete, saiu-se comesta:
− Se o Tiu quer, eu levo a carreta”.
E perguntei-lhe:
− Mas tu tens carta de condução?”
− Não − respondeu ele.
− Então como queres conduzir?
− Eu sei − retorquiu, confiante.
− E se a polícia te apanha?!
− Não faz mal! Uma nota de 20 dólares resolve o problema.
Cada vez mais atónito, ouvia os seus comentários.
− Aqui em Timor funciona assim.Havendo dinheiro tudo é possível. Se quer carta de carro dá cem; se quer carta decarro grande (camião) dá duzentos; se...
E continuou com os “se”, coisa que ´já não me é muito estranha. Aqui, como no México onde um polícia depois de me conceder o favor de passar onde estava proibido, me sussurou “não dá propina?”... e lá foram uns euros para o seu bolso.. Muita coisa funciona à base de moeda “ossan”.
Que uma criança te peça uma moeda é compreensível. Mas instalar-se este sistema em serviços de favores que vão até não sabemos onde, é muito grave. Pagam-se os favores e nãoos serviços. E nunca sabemos até aonde poderá chegar esta espiral de negociação.
Possivelmente estamos a caminho da corrupção, este bicho de sete cabeças tão procurado em todo o mundo.
− Não Amali. É preferível irmos de mikrolete!...
01.05.2019 - Maio... maduro Maio!
O mês de Maio chegou como sempre, alegre e contente, cheios de flores, projetos, coisas boas, porque este é o tempo que mais nos agrada, que mais nos convém. É o ciclo do ano a atingir a maioridade, a tomar conta de si próprio.
Em todo o mundo se fala do dia do Trabalhador, do dia da mãe, de festas e romarias.
É o “Maio das Cantigas”. Por todo o lado há manifestações, como que a indicar a esperança de vida nova que gurgita das reinvindicações que os movimentos sociais, políticos e religiosas organizam.
Maio...maduro Maio. Tal e qual como nós, o ano tem o seu percurso, desde o seu nascimento até ao fim. E de certeza que tem algum orgulho neste mês onde tantas coisas acontecem. Como um filho bem amado, que num agregado familiar de doze irmãos se vão sucedendo ao logo dos dias, das horas, dos minutos e dos segundos.
Que tenhas muitos anos de vida!...
01.05.2019 - Estadia ... e regresso
Hoje, dia 2 de Maio, termina o visto de de permanência turística em Timor. Isto tem sido uma baralhada de todo o tamanho. Nós a pensar que a declaração da embaixadora de Timor leste em Lisboa onde está escrito “o cidadão Rui Manuel Fernandes Chamusco viaja para Timor por tempo indeterminado, afim de apoiar edesenvolver os projetos de solidariedade iniciados em 2016, etc, etc...) era legalmentesuficiente para garantir a permanência, e afinal de pouco ou nada serve. De porta em porta, de serviço em serviço, de pessoa em pessoa... e ninguém assume aresponsabilidade de qualquer decisão favorável. O Gaspar bem se tem esforçado parafazer valer os direitos de tal declaração, mas por falta de entendimento ou de coragemninguém assume nada.
Reconheço o incómodo desta situação, e até tenho pena de alguns funcionários que se desfazem em atenções perante este problema. Só que,como eles dizem, têm medo de tomar uma decisão que depois venha a ser contestada pelos superiores. O que eu vos digo, é que já me cansam estas andanças de um lado para o outro.
E, como não se via solução para este imbróglio, não houve outro remédio senão pedir o prolongamento de estadia por mais um mês. Ainda que contrariado, lá tive de pagar trinta e cinco euros. O Gaspar diz que é tempo suficiente para reinvindicar a nossa (minha) posição. Sinceramente, não acredito que se consiga o reconhecimento da declaração da embaixada de Lisboa.
Problemas de estadia e de regresso... Quem puder entender que entenda...
01.05.2019 - Microlete...o transporte do povo
A viagem de hoje a Dili foi em microlete, o transporte do povo. Motores (motorizadas), microletes, táxis, angunas, bis (pequenos autocarros), carretas, carros e aviões são os veículos que, num frenesim constante, circulam pelas estradas, ruas e caminhos deste país, e particularmente de Dili, a capital.
Pela primeira vez durante esta estadia, eu e o Amali viajamos em microlete até ao Serviço de Fronteiras, no Ministério do Interior. Nada de estranhar, pois durante as outras duas estadias bastantes vezes assim eu viajei. Simplesmente quero acentuar que esta carrinha, equivalente em Portugal a uma carrinha de nove lugares, mais parece uma lata de sardinhas, não havendo lotação de lugares. Há sempre lugar; aperta-se até caber. Resultado evidente são os encostos forçados, (alguns até são agradáveis), os suores escorrendo dos rostos, os saltos e ressaltos que as ruas cheias de buracos proporcionam.
O Amali até comentava comigo:
− O Ti Rui tem sorte!
Só porque eu ia encostado a duas moças, uma de cada lado. Esta malta nova não sabe que eu já sou um katuas com 72 anos já bem feitos?!
No fim da viagem de ida e volta, senti-me com o dever cumprido, que é: viajar como a gente mais pobre viaja, partilhar o calor sufocante e o suor, cruzar sorrisos, viver como eles vivem. Isto é encarnar o seus modos de viver. É difícil mas é possível.
(Seleção, revisão/fixcaçáo de texto, negritos, título: LG)
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Nota do editor LG:
Último posted a série > 25 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28294: III Viagem a Timor-Leste: 2019 (Rui Chamusco /ASTIL) - Parte XII : Que futuro para os jovens que, dizem, são o futuro ?!




