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terça-feira, 13 de outubro de 2026

Guiné 61/74 - P28432: Humor de caserna (297) : O anedotário da Spinolândia - Parte XL: Retrato satírico do brigadeiro António Spínola: oito sextilhas em redondilha maior, recolhidas pelo ex-alf mil médico Alberto Lema Santos (BCAÇ 1933, 1967/69)




Foto nº 1


Foto nº 2

Foto nº 1 > Foto histórica de Spínola (e do seu ajudante de campo) > Guiné > Região de Cacheu > Bula > Pecuré > Op Ostra Amarga > 18 de outubro de 1969 > Depois da emboscada do IN, o general Spínola (1910-1996) (acabado de ser promovido em julho desse ano de 1969, já com um ano no TO da Guiné), com o seu ajudante de campo, o cap cav cmd João Almeida Bruno (1935-2022), mais tarde general (e que deu origem a uma das diversas alcunhas do governador e comandante-chefe, "Aponta, Bruno").

Na foto, o então cap Almeida Bruno está de luvas e óculos Ray-Ban, empunhando a sua G3. O com-chefe, por sua vez, está também de luvas, e com o seu aristocrático monóculo. Estavam ambos em pleno local, onde se deu a emboscada, de que resultaram 2 mortos entre as NT (CCAV 2487 / BCAV 2868). Estão camuflado e quico na cabeça.

A foto original, a preto e branco, é do "Paris-Match" nº 1071, de 15 de novembro de 1969 (Com a devida vénia...). Resconstituição, melhoria técnica e colorização: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné + IA (ChatGPT / Open AI).  O rosto dos dois oficiais foi reconstituído pela geração de imagem (foto nº1), pelo que não podemos garantir uma reprodução facial fiel à fotografia documental original. Para efeitos do nosso arquivo histórico, convém sempre preservar essa distinção entre "restauro" e "reconstituição".




"Retrato satírico do brigadeiro António Spínola"
(recolha de Alberto Lema Santos / Manuel Lema Santos)


1. Por um feliz acaso, deparei-me com estes versos, no blogue Reserva Naval, do nosso saudoso Manuel Lema Santos (1943- 2025). Mas já antes tinham sido publicados por ele  no blogue Especialistas da Base Aérea 12, Guiné 65/74 > 13 de novembro de 2011 > Voo 2574: Uma Visão Satírica do Brigadeiro António de Spínola. 


São oito estrofes, em sextilha (seis versos) e em redondilha maior (=sete sílabas poéticas),  muito usada pela poesia popular mas também pelos nossos maiores poetas do séc. XVI, como Camões.
Nas tradicionais cantigas à desgarrada, ao som da concertina, tão típicas do nosso Minho, a sextilha em redondilha é muio utilizada. O esquema métrico usado é geralmente este: AAB CCB (o 1º verso rima com o 2º, o 4º com o 5º, e o 3º com o 6º).
Estas 8 sextilhas em redondilha maior, que passamos a reproduzir, são de autor desconhecido, mas feitos por alguém que "sabia da poda"... Seria provavelmente algum oficial miliciano, eventualmente oriundo de Coimbra.  E devem datar de 1968/69~.

Lembra o nosso camarada da Marinha que o BCaç 1933 embarcou para a Guiné em 27Set67 e regressou em 20Ago69. Esteve em Nova Lamego em São Domingos.

(...) "Integrado neste batalhão, seguiu também para aquele território o alf mil médico Alberto Lema Santos". 

Desempenhou funções de clínico em quase todos os subsectores  do setor de Nova Lamego, "vindo a ser destacado mais tarde, em final de abril de 1968, para a CCaç 1801 (Cap Inf José Daniel Barros Adão/Cap Inf António Manuel Pacheco Rosa) responsável pelo subsector do Ingoré, com um pelotão no Sedengal e outras forças igualmente destacadas nos reordenamentos de Antotinha e Apilho, ainda que mantendo-se integrada no BCaç 1933". /...) 

E ainda sobre o seu irmão, mais velho (de que ele me chegou a falar: em 2003  era chefe do serviço de cardiologia do Hospital de São Francisco Xavier), diz o Manel:

(...) Num percurso de muitas localidades, consultas, tratamentos, conselhos e confidências, ficou também o insubstituível humor militar de caserna na forma de missivas, descrições, relatos e poesias.

 Neste caso particular, estes versos satíricos, policopiados no papel da época, já envelhecido pelo tempo, visando o “Homem Grande de Bissau” ou “Caco Baldé”, como ficou conhecido o então Brigadeiro António de Spínola." (...)

Faremos proximamente uma análise literária deste documento que pode ser descrito como um retrato satírico do brigadeiro António Spínola, acabado de chegar ao CTIG em meados de 1968.  São uma obra-prima de "humor de caserna" (*)  que vai enriquecer também o "Cancioneiro da Nossa Guerra". Quem os quiser cantarolar, pode encaixá-los no conhecido fado "Canoas do Tejo", imortalizado pelo Carlos do Carmo, com música de Frederico Brito.

A letra foi revista e fixada por nós. Tinha pequeno erros  (de datilografia) que corrigi. Tal como melhorei a pontuação. O maior é "arreiro": deve ler-se "arrieiro". 

 Aproveito para saudar o dr. Alberto Lema Santos, e agradecer-lhe a preservação desta relíquia, de grande valor documental para a historiografia da guerra da Guiné e para a socioantropologia do nosso quotidiano.  Faço votos para que se encontre bem e de boa saúde, e convido-o simultanemante a sentar-se aqui, connosco,  à sombra do nosso poilão.  (LG)


1
Caco de olho vidrado,
Perfil de gato assanhado
Com ferraduras no pé,
Mais do que bom cavaleiro,
Eu sou o maior arrieiro
Cá das terras da Guiné.

2

Trago tudo apavorado,
Dou barraca em todo o lado,
Volto tudo do avesso,
Mal ou bem há que mudar!
O que eu pretendo é roncar
Por qualquer que seja o preço.

3

Digo mal do que está feito,
Condeno todos a eito,
Com fúria de paranóico.
Mesmo quando faço asneiras,
Nunca perco as peneiras
Nem quebro o meu ar heróico.


4

Entre os chefes mundiais,
Como eu, há poucos mais,
Capazes de fazer obra,
Meto galgas colossais,
Faço charlas passionais
Com muita banha da cobra.


5

Irmãos d'armas, meus rapazes,
Vós de tudo sois capazes,
Vós dais lições aos que mandam!
Se a missão não é cumprida,
A falta só é devida
Àqueles que vos comandam

6

Vós não procurais favores,
Nem medalhas, nem louvores,
Por nada vos dais por quites.
É o porte valoroso
Do bom povo generoso
Qu' afronta as falsas elites.

7

Eu conheço-vos a todos;
Convosco lutei a rodos,
Lá p'lo Norte de Angola;
Andei convosco no mato,
Continuo o mesmo chato
Quando meto o pé n'argola,

8

Sou, como vós, um soldado;
Estou sempre do vosso lado
P'ra punir oficiais.
Faço heróis dos cavaleiros,
Fabrico chefes guerreiros,
Só eu mando, ninguém mais!






Texto e arranjo gráfico do autor do blogue Reserva Naval, o Manuel Lema Santos (. O documento original foi cedido por Alberto Lema Santos, ex-alf mil médico, BCaç 1933, 1967/69, e irmão do autor do blogue).


Font: Adapt de blogue Especialistas da Base Aérea 12, Guiné 65/74 > 13 de novembro de 2011 > Voo 2574: Uma Visão Satírica do Brigadeiro António de Spínola, por Manuel Lema Santos, oficial da Reserva Naval, Algueirão, Sintra.

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Guiné 61/74 - P28431: Humor de caserna (296) : O anedotário da Spinolândia - Parte XXXIX: "O Grande Spínola" (Vitor Oliveira, ex-1º cabo melec, BA 12, Bissalanca, 1967/69)


Mensagem do Vitor Oliveira, ex-1º cabo melec
(BA 12, Bissalanca, 1967/69); membro da nossa Tabanca Grande desde 13/5/2009; vive em Caneças:



Data -terça, 29/10/2013, 09:58 (*)

Assunto: O grande Spínola

Estávamos em Nova Lamego, e eis que um dia, perto da hora de almoço, aparecem dois helis em que vinha o general Spínola e o piloto era o falecido cap Rodrigues, que nos pediu para abastecermos os helis enquanto eles almoçavam porque o iam voar novamente e que ligássemos para a messe de sargentos do exército para nos trazerem o almoço.

Assim foi, tínhamos um telefone no posto de rádio em que o radiotelegrafista da Força Aérea era o Pires. Resposta:

─ Os doutores, se quiserem, venham cá abaixo comer!

Eu disse logo:

─ Não vamos lá, isto vai dar caldeirada.

Isto porque a maioria dos sargentos do exército não aceitava que fossemos os primeiros a ser servidos e, mais, ao jantar nós íamos comer à civil e eles não.

Assim foi, não fomos almoçar. Eis que chega o cap Rodrigues, juntamente com cap Almeida Bruno, ajudante de campo do general Spínola e atrás vinha este com um major e o tenente coronel. Um era o 2º comandante e o outro o 1º do quartel.

Fui logo falar com o cap Rodrigues e disse-lhe que não tínhamos almoçado. Eis que o Spinola apercebeu-se que havia merda, como se costuma dizer, e vai daí chama o Almeida Bruno e ele diz-lhe o que se passou. Ele vira-se então para o major e o tenente-coronel e diz-lhes para mandar o oficial e o sargento da messe para São Domingos, que era onde havia mais combates.

O major e o tenente coronel só diziam:

─ Ó Sr. Governador, pedimos desculpa!..

E o Spínola dizia:

─ Isto não pode acontecer, os rapazes estão fartos de trabalhar!

O abastecimento era feito com bombas manuais, a tirar de bidões de 200 litros. Depois mandaram buscar sandes e cervejas, e assim foi o nosso almoço.

A partir desta cena, quando entrávamos na messe, o sargento punha logo os faxinas a servir-nos-

Vitor Oliveira ("Pichas")

1º Cabo Melec
(BA 12, Bissalanca.1967/69)

(Revisão / fixação de texto, negritos, itálicos, título: LG)


2. Comentário do editor LG:

Não pomos em causa a veracidade do relato do Vitor. De qualquer modo, não há "contraditório", como na maior das vezes...  Nem  sabemos em que data se passou esta "cena" que também tem o seu lado pícaro (**)... E que por isso merece ser de novo aqui reproduzida, mas agora na série "Humor de caserna"... 

Anedota não é necessaraimente "piada". Vem do grego anekdoton, que significa "não publicado", "inédito". É o relato de situações situações curiosas que aconteceram com alguém, e que são não necessariamente engraçadas. Por exemplo, um comandante de batalhão tratar o general Spínola por "senhor governador"... É credível ?... Ou os sargentos do exército tratarem os "camaradas da FAP", os "mecânicos" como "senhores doutores"...

Não sabemos em que mês e ano o Vitor esteve destacado em Nova Lamego, que era, então, o maior aeródromo do CTIG, fora de Bissalanca.  Os 1ºs cabos especialistas (bem com os pilotos) da BA 12, Bissalanca, podiam ser destacados para Nova Lamego por períodos relativamente curtos.

No ano de 1968 o Vitor Oliveira voava muito com o sargento Honório, em missões de proteção de colunas de Lamego para Beli (destacamento cuja guarnição é mandada retirar por Spínola, em 15/7/1968), e para Madina do Boé (retirado em 6/2/1969). 

Nem sabemos exatamente em que data o Vitor terminou a sua comissão; só sabemos que foi em 1969. Em meados desse ano (julho) Spínola é promovido a general.

Que batalhão é que estava em Nova Lamego nessa altura ? Sabemos que o BCAÇ 2825 em 21Fev68 assumiu a responsabilidade do Sector L3, com sede em Nova Lamego e abrangendo os subsectores de
Canquelifá, Piche, Pirada, Buruntuma, Bajocunda, Madina do Boé e Nova Lamego, onde rendeu o BCaç 1933. 

Em 14Ju168, com a atribuição de novas subunidades, foram criados os subsectores de Canjadude e Cabuca. 

Em 24Nov68, por criação do Sector L4, a sua zona de acção foi reduzida dos subsectores de Piche, Canquelifá, Buruntuma e Bajocunda. 

Em 04Fev69, o sector foi ainda reduzido do subsector de Madina do Boé, após evacuação da área pelas NT, sendo em 250ut69 criado o subsector de Madina Mandinga.

De 15Mar69 a 110ut69, integrou, com as suas forças, o dispositivo do COP 5, então criado.

Em 29Nov69, foi rendido no sector L3 pelo BCaç 2893, recolhendo a Bissau, a fim de aguardar o embarque de regresso.

Comando do BCAÇ 2825: 

Cmdt: TCor Inf Joaquim Esteves Correia | Maj Inf Cristiano Henrique da Silveira e Lorena | TCor Inf Manuel Maria Pimentel Bastos;
2.° Cmdt: Maj Inf Cristiano Henrique da Silveira e Lorena | Maj Inf Fernando Luís Guimarães da Costa | Maj Inf Cristiano Henrique da Silveira e Lorena;
OInfOp/Adj: Maj Inf Fernando Luís Guimarães da Costa.
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Notas do editor LG:

segunda-feira, 31 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28307: Casos: a verdade sobre... (77): a pastora-alemã "Blonde" e o general Spínola: os dois inseparáveis, mas... só na Banda Desenhada

 














Prompt original e composição editorial: Luís Graça.,  João Rodrigues Lobo e Ramiro Jesus
Texto: Luís Graça (2026) 
Imagens: Arquivo do Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné
Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.



1. Convém desmentir aqui, de uma vez por todas, a "anedota da Spinolândia" que, à força de ser repetida, corre o risco de transformar-se em "facto verídico": o general Spínola não tinha nem nunca teve, em Bissau, nenhuma cadela de raça "pastor-alemão", no palácio do Governador como "animal de estimação" (*)... Tal como não tinha nenhum "cavalho branco" (**)...E muito menos  uma cadela chamada  "Blonde". E muito menos ainda, que viajasse com ele de helicóptero. 

É uma invenção da 6ª Rep (a IA...), agora em competição com a 5ª Rep (Café Bento, Bissau)...E que desafia a nossa fraca e nebulosa memória... (a sofrer com a perda de neurónios todos os dias, há mais de meio século).

Por razões de segurança, e de bom senso, a segunda hipótese (uma cadela a viajar com o governador e com-chefe, de heli, AL III ou até de DO-27) era de todo inverosímel, dada a falta de helicópteros e de espaço nos helis...

Não existe qualquer fundamento histórico, documental ou fotográfico que sustente que Spínola tivesse uma cadela, da raça pastor-alemão,  no Palácio do Governo em Bissau ou que a fizesse acompanhar nas suas deslocações aéreas na Guiné.

Vamos aos factos...

Pode haver aqui uma confusão com os cães militares que eram usados para fazer a ronda, nocturna, ao Palácio do Governador... Outra coisa, completamente diferente, é Spínola ter uma cadela particular, de estimação, chamada "Blonde", e eventualmente levá-la consigo "by air" .... as suas viagens ao "mato"...

Encontrámos uma fonte particularmente interessante: uma entrevista, a propósito do 25 de Abril,  com Joaquim Oliveira, natural de Lousada, ex-soldado paraquedista, do BCP 12:

(...) "Em 1950, nascia Joaquim Oliveira que, com 21 anos viria a fazer parte do Regimento de Paraquedista de Tancos. 

Em 1971, com a 4.ª classe, foi escolhido para ser treinador de cães de guerra da raça Pastor Alemão e foi mobilizado para a Guiné onde, com os seus cães, fazia a ronda ao Palácio onde residia o General António de Spínola. "(...)

Vd. O Louzadense > 24 de abril de 2021 > As histórias da liberdade

Sabemos, por outro lado, pelo nosso camarada José Câmara (açoriano,  da diáspora lusitana, a viver na terra do Tio Sam, ex-fur mil at inf CCAÇ 3327, e Pel Caç Nat 56, Bissau, Mata dos Madeiros, Teixeira Pinto, Bassarel, Bolama, São João, Tite, 1971/73), que do dispositivo de segurança montada no Palácio do Governador em Bissau (Praça do Império). fazia também parte o Batalhão de Caçadores Paraquedistas n.º 12 (BCP 12)... 

Competia-lhe fazer o patrulhamento móvel noturno no interior do jardim, a cargo  de um soldado paraquedista e do seu cão de guerra (Pastor-alemão) (****). 

Aliás, a utilização de cães de guerra pelo Exército português na Guiné (e pela FAP) está documentada  no nosso blogue. Há, por exemplo, o testemunho publicado por Mário Fitas  sobre a criação de uma Secção de Cães de Guerra na CCAÇ 763, em 1964-66, com vários Pastores Alemães, chefiados pelo "Cadete" (***).

Portanto, temos aqui já uma primeira explicação, muito plausível, para a memória da  alegada "pastora-alemã do Spínola": havia um ou mais pastores-alemães no próprio perímetro do Palácio, mas eram cães militares, não necessariamente propriedade pessoal do Governador, animal de estimação seu ou da esposa Helena.

 Foi porventura essa rotina diária que acabou por gerar, na memória visual de quem passava na zona ou em relatos posteriores mal informados, a associação direta entre o "Pastor-alemão do Palácio" e a figura do próprio Governador Spínola.

Ver o animal nas imediações da residência oficial do Comandante-Chefe levou a que a sabedoria popular, ou a narrativa romantizada da guerra,  transformasse o cão de patrulha do BCP 12 num "bicho de estimação do General".

Os testemunhos e registos em primeira mão devidamente documentados pelos camaradas no blogue repõem o rigor que a história exige: era um cão de guerra em serviço operacional de guarda, pertença do BCP 12, ou seja da FAP,
 não um animal pessoal de Spínola.

2. E a tal "Blonde"?

Aqui está o pomo da discórida A referência à  suposta "cadela Blonde" aparece, de forma muito explícita, no  nosso próprio blogue, num texto publicado em maio de 2026. Aí se refere "a famosa cadela Blonde, a pastora-alemã que o acompanhava" (**).

Mas há aqui um pequeno  "problema metodológico": não encontrámos, com a ajuda da IA,  nenhuma fonte independente anterior que sustente essa afirmação.

Pior: o texto do blogue é precisamente uma passagem em que uma resposta de IA (mais precisamente do ChatGPT) está a ser criticada por misturar factos, folclore e invenção. Ou seja, a frase sobre a "Blonde" aparece dentro desse material gerado/reproduzido, não como resultado de uma fonte primária ou de um testemunho identificável.

Logo a "Blonde" não pode ser dada como "facto histórico". Mais importante ainda: há vários registos fotográficos e cinematográficos de Spínola a chegar e partir de helicóptero,  inclusive imagens da RTP Arquivos  e do Museu da Presidência. Os registos descrevem minuciosamente quem o acompanha. Não se encontra uma única referência a uma cadela a bordo.
 
Mais: não há nenhum piloto, a começar pelo Jorge Félix, que tenha referido ter transportado um cão ou cadela, ao lado do Spínola.

Sabemos que os voos de Spínola eram frequentemente deslocações operacionais ou político-militares, com o Governador e Comandante-Chefe (acumulava os dois cargos) acompanhado pelo ajudante de campo (Almeida Bruno, por exemplo), oficiais, eventualmente outras individualidades e até jornalistas. 

Além do  testemunho do piloto Jorge Félix sobre os voos com Spínola, temos també  também imagens RTP Arquivos em que o percurso é bastante claro: helicóptero → Spínola → receção militar → visita → helicóptero.

Uma cadela de estimação não teria qualquer função nesses voos e ocuparia um lugar num aparelho cujo espaço era precioso (e disputado, quer por militares: feridos, por exemplo; quer por civis: mulheres grávidas, etc.).

Além disso, se fosse uma presença habitual, seria extraordinariamente provável que algum dos fotógrafos, operadores de fotocine, pilotos ou militares que conviveram com Spínola, tivesse deixado uma fotografia ou um testemunho escrito.
 
Mas há uma coisa que pode explicar a história, como já sugerimos acima. Temos três elementos reais que podem ter-se misturado na memória oral:

(i) Spínola tinha cães militares à sua porta, no Palácio;

(ii) esses cães eram pastores-alemães; 

(iii) Spínola deslocava-se constantemente de Alouette III, e existem muitas fotografias dele nos helicópteros.

Da combinação dos três elementos pode muito facilmente ter nascido a história: o Spínola tinha uma pastora-alemã que andava sempre com ele, logo "seu animal de estimação".  E, posteriormente, alguém acrescentou-lhe o nome "Blonde" (loura, em inglês).

3. A ausência de fontes e de registo fotográfico

O período de Spínola na Guiné é provav o mais fotografado e filmado de todo o conflito ultramarino (com registos diários de operadores de fotocine,  reportagens da RTP, jornalistas nacionais e estrangeiros).

Não há imagens nem testemunhos: (i) não existe uma única fotografia conhecida na bibliografia da Guerra Colonial, no arquivo da RTP, na hemerotecas, no Arquivo Histórico Militar ou no acervo da Presidência que mostre o general acompanhado por um pastor-alemão (nem no Palácio, nem junto a aeronaves, a descolar ou a pousar no mato, em AL III ou DO-27); (ii)  e nas memórias de ajudantes de campo, oficiais do seu estado-maior, pilotos ou outros camaradas que serviram em Bissau, não há nenhuma referência,     que saibamso,  à presença de tal animal de estimação ao lado do Governador.
 
4. Por outro lado, durante o período do comando de Spínola (1968–1973), a frota de helicópteros Alouette III da FAP no CTIG  na Guiné era um recurso extremamente escasso, gerido com rigor obsessivo. Os "hélios" (com o dizia a malta...) eram prioritários para:

  • eacuações médicas (de feridos em estadio grave, para o HM 241, em Bissau);
  • operações de assalto de tropas especiais (fuzileiros, comandos, paraquedistas); 
  • helicanhão;
  • apoio tático direto e reabastecimento urgente em tabancas e postos isolados;
  • deslocações do Governador e Comandante-Chefe às tabancas, aquartelamentos e destacamentos (fazendo-se, por norma, acompanhadas pela sua comitiva militar: ajudantes de campo, oficiais de ligação, convidados, jornalistas, etc.)

O espaço a bordo de um Alouette III era contadíssimo e condicionado ao limite do peso e da segurança de voo num território de clima tropicale e, para mais, em guerra. Reservar lugar para um animal de grande porte num meio de transporte militar crítico seria absolutamente  inacreditável, impraticável e inaceitavel. Havia combatentes que morriam no mato por insufuciência de apoio aéreo.

5. Mas não deixa de ter a sua "graça" ou a sua "piada" a suposta existência de um cadela "Blonde" que, na nossa imaginação (e com acumnmplicidade da IA...)  até era capaz de substituir o Jorge Félix aos comandos do heli AL III... 

Daí, finalmente, e ao fim de meia dúzia de tentativas e muitos insultos (!), consumnidores de tempo, paciência e recursos, eu tenha conseguido "produzido" esta BD, em que entram o nosso general, a "Blonde"e o ajudante de campo, o "Aponta, Bruno"... Com a ajuda da IA e, mais uma vez,  do nosso camarada João Rodrigues Lobo.

Spínola tem o seu lugar na Histtória. A "Blonde" só na Banda Desenhada...

 
(Pesquisa: LG + Blogue + IA (Gemini IA / Google | ChatGPT / Open AI)
(Condensação, revisão / fixação de textio, itálicos, nebritos, título: LG)
________________


(**) Vd. poste de 21 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P28044: Humor de caserna (268): o anedotário da Spinolândia - Parte XXXVI: mais uma alucinação da IA, "o general do cavalo branco"

(...) Resposta da IA | ChatGPT:

(...) Touché! Tens toda a razão, camarada, e o reparo é absolutamente certeiro e cirúrgico.

Esta é, de facto, uma daquelas "alucinações" que misturam ficção popular com dados soltos da internet, e o meu "filtro" de verificação histórica falhou redondamente ao dar corda à narrativa em vez de a desmontar logo à partida.

O argumento que apresentas arruma de vez com o mito: a peste equina africana era endémica na região, o que tornava a sobrevivência de cavalos — especialmente de raças europeias que não tivessem imunidade — um absurdo logístico e biológico.

Além disso, Spínola, por muito teatral que fosse, era um militar pragmático e um cavaleiro de elite (foi da mítica equipa de saltos de obstáculos do Exército); ele sabia perfeitamente que levar uma montada para o clima e para o contexto da Guiné não fazia o mínimo sentido.

A única coisa que se aproximava de "quatro patas" no folclore factual de Bissau era a famosa cadela Blonde, a pastora-alemã que o acompanhava, e os helicópteros Alouette III, que eram os seus verdadeiros "cavalos de ferro" para as ações de impacto psicossocial nas tabancas. (...)

 Vd. também poste de  19 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P28037: Humor de caserna (267). o anedotário da Spinolândia - Parte XXXV: alucinações da IA II: crítica e autocrítica

(***) Vd. psote 18 de março de 2008 > Guiné 63/74 - P2664: Os Cães de Guerra (Mário Fitas e Carlos Filipe, ex-Fur Mil, CCaç 763, Cufar, 1965/66)


(****) Vd. poste de 23 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P28047: Humor de caserna (269) : O anedotário da Spinolàndia - Parte XXXVI: o que faz o sargento de guarda ao palácio do Governador com uma mensagem relâmpago ("zulu") num domingo, já noite dentro ? Se necessário, faz o Governador saltar da cama...

(...) O sistema de segurança que era então montado ao Palácio do Governador, sito na Praça do Império, no início da Av da República, englobava as seguintes forças essenciais (**):

(i) uma secção de tropa regular, comandada por um Sargento da Guarda, que tinha a seu cargo os postos de sentinela ao fundo do jardim e ainda um posto de sentinela ao lado direito do jardim; a segurança era feita durante o dia do lado de fora do jardim; com o render dos postos de sentinela às seis horas da tarde a segurança passava a ser feita do lado de dentro dos muros;


(ii) uma secção da Polícia Militar, incluindo um sargento e um oficial, que tinha a seu cargo o pórtico principal do Palácio e o portão lateral de serviço geral;

(iii) durante a noite, entre as dezoito da noite e as seis horas do dia seguinte, a segurança era reforçada com um elemento da Polícia de Segurança Pública (PSP), que ficava encarregado do espaço entre a casa da guarda e do pessoal civil servente do Palácio e o edifício principal;

(iv) também durante a noite, a segurança era ainda reforçada com um cão treinado em segurança e respectivo tratador, na altura um paraquedista, que tinha a seu cargo o patrulhamento do interior do jardim.


(*****) Último poste da série > 20 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28272: Casos: A verdade sobre... (76): O soldado básico que era médico, e que eu conheci no Campo Militar de Santa Margarida, entre 23 de fevereiro e 24 de abril de 1970 (António Tavares, ex-fur mil SAM, CCS/BCAÇ 2912, 1970/72)

quarta-feira, 24 de junho de 2026

Guiné 61/74 - P28129: Historiografia da presença portuguesa em África (532): A Província da Guiné Portuguesa - Boletim Oficial da Colónia da Guiné Portuguesa, 1974, depois do 25 de abril (91) (Mário Beja Santos)

Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf
CMDT Pel Caç Nat 52

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 8 de Janeiro de 2026:

Queridos amigos,
Faltava a narrativa do Boletim Oficial após o 25 de abril, são estes os elementos que julguei mais relevantes, pensando não só no leitor como igualmente atrativos para investigações subsequentes. Chamo a atenção para a ambiguidade da tomada de medidas pelo encarregado do Governo num tempo em que claramente as negociações iam apontando para o reconhecimento da independência da República da Guiné-Bissau por Portugal, não deixa de ser curioso que dentro desse quadro de ambiguidade se concedesse terrenos a particulares e a firmas, por vezes a título definitivo, se criassem escolas de artes e ofícios, isto a par de louvores inequivocamente relacionados com a situação político-militar e continuam a fazer-se reforço de verbas, nomeações e tudo o mais que dimana da rotina administrativa como se não houvesse um novo normal.

Um abraço do
Mário



Província da Guiné Portuguesa
Boletim Oficial da Guiné, 1974, depois do 25 de abril (91)


Mário Beja Santos

Os dados que agora se reportam têm como arco cronológico os meses que vão de junho a setembro, publica-se a imagem do último Boletim Oficial com data de 9 de setembro, foi o que pude encontrar na documentação existente na Biblioteca da Sociedade de Geografia de Lisboa. Feito o crivo, considerei como mais relevantes para estudos posteriores as seguintes informações. No Boletim Oficial n.º 24, de 11 de junho, o Encarregado do Governo, Carlos Fabião, Brigadeiro Graduado assina uma Portaria em que louva o Tenente-Coronel Engenheiro António Eduardo Mateus da Silva pela forma altamente eficiente como se houve durante o período de cerca de um ano em que desempenhou cumulativamente com as suas obrigações militares, as funções de Engenheiro-Chefe da Repartição Provincial dos Serviços das Obras Públicas e Transportes. “Na altura em que todos os esforços das Forças Armadas, em coordenação com o povo português, se conjugaram para, por derrube do regime de opção, instalar a democracia em todo o país, também o Tenente-Coronel Mateus da Silva respondeu presente, liderando o movimento das Forças Armadas da Guiné simbolizando a esperança de reconduzir a Guiné a uma Guiné Melhor por toda a população desejada.”

No Boletim Oficial n.º 26, de 25 de junho, temos o Decreto Provincial n.º 8/74, que não deixa de suscitar curiosidade, pois revela a ambiguidade de uma administração colonial em pleno funcionamento enquanto já decorriam conversações que iriam inevitavelmente conduzir ao reconhecimento da independência da República da Guiné-Bissau. O texto reza o seguinte:
“1. A dinâmica do trabalho moderno reclama a existência de mão-de-obra qualificada, para que sejam aproveitados, ao máximo, os constantes e renovados benefícios da Técnica. Ao operário já não basta a força da experiência tradicional laborial. Exige-se-lhe a par de uma cultura básica geral, uma adequada preparação profissional e um apurado sentido de adaptação às mais evoluídas técnicas do trabalho.
Ora, é precisamente esta a razão de existir das Escolas de Artes e Ofícios: ministrar ao futuro artífice a cultura básica geral que lhe faculte a possibilidade de eventual promoção a escalões sociais mais amplos e, simultaneamente, iniciá-lo nas técnicas da profissão que escolheu.
2. O Governo da Província, dentro do vasto programa que se impôs de valorização social e cultural das suas gentes, não podia deixar de ativar a formação profissional, como fator do progresso que é.”


E com estes termos era criada na cidade Teixeira Pinto uma Escola de Artes e Ofícios para o sexo masculino.

No Boletim Oficial n.º 26, de 25 de junho, assiste-se à concessão provisória de terrenos: a Joaquim Morais Pereira é concedido, por aforamento, 1940 m2 em Mansabá; a Valentim João Manuel Pinto é concedido, por aforamento, 1900 m2 na povoação de Porto Gole; a Barbosas & Comandita é concedido definitivamente um terreno com uma área próxima de 1430 m2 na povoação de Galomaro; e à mesma firma comercial faz-se a concessão definitiva de um terreno com uma área próxima de 2800 m2 na povoação de Bambadinca.

No Boletim Oficial n.º 27, de 2 de julho, o Alferes Miliciano Duarte Rodrigues Pires é nomeado para desempenhar, por acumulação, as funções de Chefe da Repartição Provincial dos Serviços de Agricultura e Florestas. No mesmo Boletim Oficial o Brigadeiro Graduado Carlos Fabião assina a seguinte Portaria:
“A povoação de Pirada foi flagelada no dia 25 de abril findo tendo falecido a auxiliar de enfermagem de 2.ª classe, dos Serviços de Saúde e Assistência, Margarida de Pina Araújo, em consequência dos ferimentos que foi vítima, enquanto prestava assistência aos doentes, tendo falecido horas depois.
A auxiliar de enfermagem, apesar de jovem, revelava grande espírito de sacrifício, zelo e dedicação pelos doentes o que a evidenciava como um dos melhores elementos dos Serviços de Saúde, prestando valioso contributo como única encarregada de um Posto Sanitário situado na zona fronteiriça de muito movimento e de risco considerável, tratando desveladamente todos os doentes que procuravam assistência, muitos de nacionalidade diferente, pois são numerosos os estrangeiros que aí acorrem a procurar cuidados médicos, gozando de consideração não só dos militares do Batalhão como da população de Pirada.”


E louva-se auxiliar de enfermagem a título póstumo referindo a sua dedicação com que assistia todos a que procuravam no Posto Sanitário e até em sua própria casa, fora das horas de consulta de tratamento.

No Boletim Oficial n.º 32, de 6 de agosto, temos o Decreto Provincial n.º 11/74, esclarece-se que já está completamente posto de parte o uso obrigatório de boné para os condutores de veículos automóveis ligeiros de aluguer de passageiros. E na Guiné mais razões havia para que fossem abandonadas tais imposições. E sem mais explicações promulga-se que os condutores dos veículos automóveis ligeiros devem apresentar-se decentemente vestidos e que a contravenção será punida com uma multa de 200 escudos. E temos também, no mesmo Boletim Oficial, uma Portaria assinada pelo Brigadeiro Graduado Carlos Fabião louvando o Alferes Miliciano António Eduardo Sobral Mendes pela forma altamente meritória como serviu na Província da Guiné, durante cerca de dois anos, quer como comandante operacional e tropas no interior do teatro de operações quer desempenhando funções na Repartição do Gabinete do Governo. Como é timbre destes louvores faz-se alusão ao seu desembaraço dotes de comando, muito senso, lhaneza de trato e isenção, bem como as suas qualidades de carácter, a sua cultura e alto espírito de bem servir e como um elemento perfeitamente integrado no Programa do Movimento das Forças Armadas.

E deste modo se dá por concluído o levantamento que se procurou fazer de mais de um século da vida desta colónia, desde os tempos do Boletim Oficial de Cabo Verde e da Costa da Guiné até ao período aproximado de um mês antes da chegada dos dirigentes do PAIGC a Bissau.

Encontro de Aristides Pereira, Secretário-Geral do PAIGC, e Mário Soares, Ministro dos Negócios Estrangeiros, em Londres, na presença de Abdou Diouf, Primeiro-Ministro do Senegal, e de Almeida Bruno. Maio de 1974. Fonte: Fundação Mário Soares, Arquivo Amílcar Cabral, Pasta 10078.001.009.
Fotografia publicada no Diário de Notícias em 27 de agosto de 1974
O General António de Spínola e Major Carlos Fabião num campo de instrução de milícias na Guiné, 12 de janeiro de 1972. Fonte: ANTT, DME.
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Nota do editor

Último post da série de 17 de junho de 2026 > Guiné 61/74 - P28108: Historiografia da presença portuguesa em África (531): A Província da Guiné Portuguesa - Boletim Oficial da Colónia da Guiné Portuguesa, 1974, até ao 25 de Abril (90) (Mário Beja Santos)

sábado, 18 de abril de 2026

Guiné 61/74 - P27929: Humor de caserna (257): O anedotário da Spinolândia - Parte XXix Ainda a origem das alcunhas "Caco Baldé" (grafada pelos fulas...) e "Aponta, Bruno" (fixada pelos "tugas") (António J. Pereira da Costa / Cherno Baldé)

1. "Aponta, Bruno!"... era outra das alcunhas do general Spínola, na Guiné Portuguesa, no tempo em que foi governador e comandante-chefe (1968/73) (*)... Embora fosse mais conhecido, dentro e fora da  caserna, por  "Caco Baldé" ou simplesmente "Caco". (Os oficiais do QP  chamavam-lhe o "Velho", o seu nome de guerra era o "Bispo").

Bruno foi o seu primeiro ajudante de campo, o capitão de cavalaria 'comando' João Almeida Bruno (1935-2022) (morreu como general reformado).

António Spínola (1910-1996) quando foi para a Guiné em meados de 1968, escolheu a dedo os elementos da sua equipa, diz o seu biógrafo, o historiador Luís Nuno Rodrigues ("Spínola: biografia", Lisboa:  A Esfera dos livros, 2010, 
 pág. 106).

Uns vieram de unidades e subunidades de cavalaria com provas dadas em Angola: 

  • como Almeida Bruno (que foi cap cav, of inf op / adj, BCAV 745 , Angola, jan 1965/ fev 1967); 
  • ou  como Henrique Bernardino Godinho (cap cav, of op / inf ( adj), e Rui Mamede Monteiro Pereira (cap cav, cmdt da CCAV 295) oficiais que pertenceram ao célebre BCAV 345, que o Spínola comandou em Angola, como tenente-coronel e depois coronel, entre dezembro de 1961 e fevereiro de 1964.

Além de pertencerem à arma de cavalaria, outro critério era terem sido alunos do Colégio Militar, como ele (que foi o nº 33, no período de 1920 a 1928).

Independentemente da arma de origem e/ou da passagem pelo Colégio Militar, pesava muito a  "competência técnico-militar", que ele reconheceu em militares como Firmino Miguel, Belchior Vieira, Lemos Pires, Pereira da Costa, Ramalho Eanes, Otelo Saraiva de Carvalho, Carlos Fabião.

A alcunha "Aponta, Bruno!”, associada ao António de Spínola, faz parte da Spinolândia, aquele universo meio mítico, meio pícaro, de humor caserna, que se criou à volta da sua figura (e da sua "entourage") durante a guerra colonial na Guiné,  e mais exatamente no período em que foi governador e comandante-chefe (maio de 1968 / agosto de 1973).

A expressão ficou célebre porque, segundo relatos de militares da época, Spínola tinha o hábito de mandar , ao seu ajudante de campo, o capitão Bruno, “apontar” (registar, tomar nota, ou até preparar algo com rapidez), muitas vezes em tom perentório. 

A frase acabou por se transformar em refrão ou bordão de caserna.

Quanto às anedotas, elas circulam sobretudo na tradição oral e variam bastante, mas seguem quase sempre o mesmo padrão: brincar com a autoridade do general e a prontidão do Bruno.

A expressão nasce, pois,  da presença constante, quase obsessiva,  do seu primeiro ajudante de campo (1968/69), o então capitão de cavalaria 'comando' João Almeida Bruno:  andava sempre próximo dele, quase como uma extensão operacional.

Os outros dois ajudantes de campo, que sucederam ao Almeida Bruno,  também eram de cavalaria:

  • Cap cav Lourenço Fernandes Tomás (1969/72) ;
  • Cap Cav Carlos Domingos de Oliveira Ayala Botto (1972/73) (nosso grão-tabanqueiro).

2. A imagem que ficou (muito alimentada pelo humor de caserna e pelas memórias de antigos combantentes, além da documentação fotográfica) era a de um Spínola teatral, de monóculo, pingalim, luvas e postura aristocrática, de “cavaleiro”, sempre impecável no seu uniforme, e que apontava alvos, reais ou figurados, com determinação e dramatismo. O Almeida Bruno não lhe ficava atrás na pose.


(i) A anedota típica (em várias versões): circulavam versões diferentes, mas o núcleo era mais ou menos este:

Spínola, em visita a uma posição no mato, observa o horizonte com o monóculo e diz, com ar solene:

— Inimigo à vista!...

Pausa teatral.

— Aponta, Bruno!

O Bruno, sempre pronto, apontava…

E alguém murmurava atrás, meio a sério, meio na galhofa:

— Já está apontado, meu general… agora só falta aparecer o inimigo…


(ii) Ou noutra variante mais mordaz:


— Aponta, Bruno!

— P'ra onde, meu general?

— P'ra qualquer lado, homem! O importante é manter a iniciativa!


(iii) A solução para tudo

Entre soldados, qualquer problema,  desde a merda da comida até à falta de material, era resolvido com a frase milagrosa:

— Não te preocupes, caga nisso… aponta, Bruno!

Ou seja, tornou-se também sinónimo de “deixa andar” ou “alguém há de tratar disso”.


(iv)  A pontaria na carreira de tiro:

Noutra versão mais caricatural, durante a IAO ou na carreira de tiro, se alguém falhava um alvo, um outro gritava:

— Ó pá, isso não é nada!... Aponta, Bruno!

Como se o Bruno resolvesse até as falhas da pontaria dos "tugas".


(v) O apontar… tudo!

Dizia-se que o Bruno levava a ordem tão à letra que, se o general comentasse algo banal tipo “uff!, que calor”, ele pegava logo no famoso  bloco 
“Aponta, Bruno!”...  e lá ficava registado o desafo do comandante-chefe como se fosse uma ordem operacional. 

A piada acabou por evoluir para qualquer coisa como : “Põe-te a pau com o que dizes perto deles, as tuas bocas ainda vão parar ao QG.”


(vi) O milagre  impossível

Numa versão mais absurda, Spínola teria pedido algo completamente irrealista (tipo ter determinado material de engenharia  “para amanhã de manhã” ).

Resposta típica da tropa:

— Não há problema… aponta, Bruno, que há de aparecer, a tempo e horas!”

Era uma forma de gozar com  ordens impossíveis ou absurdas "vindas de cima".


(vii) A cunha:

Entre oficiais mais novos (onde Spínola, de resto, era popular), dizia-se:

— Queres subir na carreira? Não te chateies, não estudes… Aponta, Bruno!

Ou seja, bastava estar perto de quem mandava e cair nas suas boas graças, e ir dizendo ámen (isto é, “sim, meu general”).


(viii) A versão mais atrevida, pícara, brejeira  se não mesmo pornográfica:

Em linguagem de calão, quando alguém se gabava demais,  dava ordens sem sentido ou "se armava em carapau de corrida" (sic), corria o risco de  ouvir:

— Olha,  este!… Pensa que é o Aponta, Bruno, mas vê lá para onde é que apontas! — e virava o traseiro.

Aqui o humor já descambava para o duplo sentido, como era comum na caserna.


(x)  Omnipotência:

Havia ainda a ideia de que o Bruno resolvia tudo:

—  Falta cerveja ?!

— Aponta, Bruno!

— Faltam granadas de obus ?!

— Aponta, Bruno!

— Não há gajas?!

— Aponta, Bruno!

— Porra, nunca mais chega a peluda ?!

— Eh,  pá… essa já nem o Bruno aponta!


3. O que está por trás da graça ?

A piada joga com três traços atribuídos , mal ou bem, a Spínola:

  • encenação e estilo pessoal: ele cultivava uma imagem muito forte, quase cinematográfica (embora, curiosamente, não costumasse andar com fotógrafos atrás, até por que o heli AL III tinha limitações de espaço);
  • comando muito próximo da frente: visitava posições das NT, aparecia de helicóptero quando menos se esperava,  marcava presença no mato junto dos seus soldados;
  • dependência funcional e simbólica do ajudante de campo:  o “Bruno” transformou-se numa personagem, quase como um escudeiro, um verdadeiro "cromo" (secretário, que tomava notas, mas também era guarda-costas, andando sempre armado).

Este tipo de piadas funcionava quase sempre4 como uma válvula de escape. Num contexto duro como a guerra da Guiné, brincar com figuras de autoridade, mesmo que de forma exagerada, caricatural  ou irreverente, ajudava a aliviar a tensão ou de sublimar a revolta.


António de Spínola, governador e comandante-chefe das Forças Armadas da Guiné, à direita, durante o discurso de um líder guineense, à esquerda (c. 1968/69).  Spínola promoveu o diálogo sob o lema: «Por uma Guiné melhor». O deputado ou futuro deputado James Pinto Bull (1913-1970) é visível, em segundo plano, entre o lider guineense que discurs e o Spínola. Possivelmente a foto, de autor desconhecida, foi tirada durante a campanha para as elieções legislativas (para a Assembelia Nacional) de 26 de outubro de 1969. Pinto Bull era o único candidato para o círculo eleitoral da Guiné, proposto pela União Nacional.

Fonte: Adapt de Museu da Presidência da República (com a devida vénia...)


4. Origem da alcunha "Caco Baldé”


A outra alcunha,"Caco" ou  "Caco Baldé, é diferente, mas a sua origem é mais controversa: mas, dizem,  viria  sobretudo do contacto com o meio guineense (os "guinéus") e da forma como os africanos reinterpretavam nomes e figuras portuguesas, muitas vezes com humor muito próprio. Caco seria o monóculo; Baldé, um apelido fula vulgar (como o nosso Silva)... 

Ficamos sem saber se a alcunha lhe foi dada pelos "guinéus", se pelos "tugas". O "Aponta, Bruno" é claramente castrense... Já o "Caco Baldé" teria sido uma expressão grafada pelos fulas, segundo a intuição do Cherno Baldé,

Também aí há histórias, mas são mais difusas e menos padronizadas do que o “Aponta, Bruno!”


António J. Pereira da Costa: 
nosso grão-tabanqueiro desde 12/12/2007, coronel art ref 

 (i) ex-alf art, CART 1692/BART 1914, Cacine, 1968/69; (ii) ex-cap art, cmdt da Btr AAA 3434, Bissau;  (iii) cmdr CART 3494/BART 3873, Xime e Mansambo;  (iv) cmdt CART 3567, Mansabá, 1972/74.








4.1. O António J. Pereira da Costa fez uma leitura interessante sobre esta alcunha, mais recorrente e popular, o "Caco Baldé" (**)

(...) O Caco Baldé acaba por ser um nome carinhoso para materializar a popularidade o prestígio de um chefe. 

Sabemos bem que essa alcunha casa o monóculo (Caco) com um apelido frequente na Guiné (um espécie de Silva ou Oliveira) e nada mais. 

Creio que ele realizou uma aprendizagem e aproximação lúcida à vida do seu tempo. O seu modo de pensar terá evoluído desde o BCAV 345, em Angola (1961/64)  até à Guiné 73 que só poderia desembocar no 25Abril74.

Tenho para mim que era um dos melhores generais dos exércitos europeus. Ele tinha mais de 30.000 homens sob o seu comando e mais de meio milhão de civis à sua responsabilidade. 

Se tomarmos como referência os países da NATO não vejo nenhum que tivesse algo para lhe ensinar, na prática (bem entendido). Exceptuando os americanos que, riquíssimos em meios, perdiam a guerra do Vietname e os franceses que também não ganharam a da Argélia, todos andavam a "brincar aos soldados" em cenários hipotéticos em que o "insidioso, ardiloso e mauzinho In" vinha de Leste a correr pela Europa fora com uma foice numa mão, um martelo na outra e uma estrelinha no alto da cabeça.

Enquanto que ele tinha operações todos os dias (de todos os tipos e formas); logística (má e insuficiente) todos os dias; gestão de pessoal (insuficiente) todos os dias e todo o resto... e era tudo par ter efeitos ontem, porque amanhã já era outro dia com novos problemas. 

Depois veio o período mais conturbado que nenhum dos estrangeiros atravessou, mesmo os que poderiam ter tido intervenção na condução da política dos seus países. Andou mal. Poderia ter andado melhor. Talvez, mas os homens que não fazem asneiras normalmente também não fazem mais nada.

Um Ab.
António J. P. Costa


quarta-feira, 30 de janeiro de 2013 às 18:14:00 WET


4.2. Não menos original  (e seguramente mais surpreendente e etnocêntrica)  é a leitura que faz o nosso amigo Cherno Baldé [foto à direita] (***), que se orgulha da sua origem fula:


(...) Caco Baldé tem origens no meio e língua fulas, é uma alcunha bem conseguida e duplamente interessante.

 Caco, khaco ou haco, originalmente, quer dizer cor castanha (a cor das folhas secas), na língua fula, e servia inicialmente para designar a cor da farda das autoridades administrativas e/ou da tropa colonial.

Mais tarde, para simplificar, este termo seria simplesmente utilizado para designar, de forma disfarçada e caricatural, as autoridades coloniais ou seus representantes.

O apelido Baldé seria lindamente encaixado em acréscimo, certamente, seguindo a lógica da brincadeira muito habitual entre grupos que se consideram primos por afinidade (sanguínea ou territorial), a  “sanencuia”.

Por exemplo, os Djaló são primos dos Baldé por afinidade sanguínea, da mesma forma que o grupo fula, na sua generalidade, é primo do grupo etnolinguístico mandinga que abrange Saracolés, Soninqués, Bambaras etc., por afinidade territorial.

Também é bastante lógico se tivermos em conta que a maior parte dos chefes tradicionais fulas (régulos) e colaboradores das autoridades coloniais, no chão fula, ou pertenciam a esta linhagem ou tinham este apelido, de modo que é uma homenagem e, ao mesmo tempo, uma caricatura dirigida a linhagem dos Baldé, na minha opinião bem conseguida, por um primo, resultante da brincadeira entre grupos de afinidade, usando a figura da maior autoridade portuguesa, de então, no território da Guiné.

Não tenho a certeza e trata-se de uma conjectura da minha parte como pista para uma pesquisa mais aprofundada. (...)

(Revisão / fixação de texto, títulos: LG)

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