Ainda de acordo com a mesma fonte, foi graduado em alferes capelão em 1961, tenente em 1963, capitão em 1965 e major em 1973. De 1975 a 1981 foi ainda capelão no Regimento de Comandos da Amadora e depois no Instituto dos Pupilos do Exército, tendo-se reformado como major do Exército em 1981. Vive hoje em Vila do Conde. É natural de Santo Tirso.Na realidade, o próprio autor define o propósito e delimita o âmbito do livro: não é propriamente a sua história de vida, embora contenha notas autobiográficas, é essencialmente "um livro sobre o perfil e o múnus do Capelão Militar, destacado para o conflito", ou seja, para a "guerra colonial" (sic), mas em que também se fala de lembranças e de amizades, de pessoas que ele foi conhecendo, "quando servi o Exército, em África", durante a guerra colonial e em tempo de paz" (pág. 87)...
No cap 5 (Pessoas & Acontecimentos, pp. 87 e ss.), o padre Bártolo evoca militares que são figuras públicas (do Carlos Matos Gomes ao Jaime Neves, do Otelo ao Salgueiro Maia, do Spínola ao Costa Gomes), todas já falecidas com exceção do gen Ramalho Eanes. Pelo menos os três primeiros (Matos Gomes, Jaime Neves e Otelo), ele conheceu-os, foi capelão deles.
Também evoca (e traça o perfil de) 10 dos capelães militares, seus pares, alguns dos quais seus subordinados, entre os quais o conhecido Padre Mário da Lixa, já falecido: "Viveu comigo na Guiné, na Chefia do Serviço, cumprindo os dias de prisão a que foi submetido" (pág. 57).
Numa primeira leitura, rápida e agradável, o livro pareceu-me desigual e fragmentado. É um homem lido, culto, vivido oriundo de uma diocese como a de Braga (reconhece "a diferença de mentalidade e cultura" entre a sua diocese e a de Lisboa, ao tempo do Cardeal Cerejeira)...
Enfim, é um padre que serviu duas "senhoras", duas instituições poderosas, a Igreja e o Exército, a Cruz e a Espada, e de quem, aos 90 anos, não se pode esperar um livro abertamente crítico. Para já, pretende colmatar uma lacuna: há centenas e centenas de livros sobre a guerra colonial, e tão poucos são os que falam do papel do capelão militar, queixa-se ele (pág. 39).
É um livro de afetos e de doutrina (sobre a pastoral castrense). Mas, com a sua vasta experiência de vida, de 90 anos, como homem, cidadão, sacerdote e capelão militar, ainda é de esperar que ele publique a sua autobiografia, ou pelo menos um livro com as suas memórias mais pessoais. Tem, além disso, 30 anos passados na Suíça, como sacerdote, no seio da comunidade lusófona, emigrante.
2. Curiosamente o autor é mais crítico em relação à figura do António Salazar e à elite política do Estado Novo: (...) "o Salazarismo não acordou para a descolonização, cometendo o erro irreparável duma guerra perdida" (pág. 32).
Mais: Salazar terá ignorado todos os sinais de alerta em relação a Angola... "Esse silêncio de Salazar é sinal do início da guerra" (pág. 33).
(...) "Angola possuía muito e produzia bastante, exportava pouco e roubavam tudo. A sua riqueza (...) serviu para uma desumana exploração do povo, anos a fio. (...) (pág. 32).
É interessante a análise que o autor faz sobre os antecentes, as causas próximas e as causas remotas da guerra. No se coíbe de afirmar que "em Angola, a guerra começa no coração avarento da burguesia austral", isto é, na sua subordinação "aos interesses do capital financeiro" (pág. 34).
Mas onde está o seu coração ?... Sem sombra de dúvidas, na sua "3ª família", a família miliar, que vem a seguir à família consanguínia e da família do seminário...
Para já, o que mais gostei foi o seu primeiro apontamento, a sua partida para Angola, aonde chega numa manhã de Todos-os-Santos, 1 de novembro de 1961.
A bordo do T/T Vera Cruz,com "muita festa", com ele a tocar ao piano, a contragosto, a canção "Angola é nossa", vão três batalhões de infantaria (pelo que sabemos, o BCAÇ 317 e o BCAÇ 325, além do BCAÇ 321, que o autor, certamente por lapso, contabiliza em 3 mil homens, o que excedia em muito a lotação normal do Vera Cruz, que era de c. 1250 passageiros + mais 300/350 tripulantes).
Tomamos a liberdade, e com a sua autorização, de reproduzir alguns excertos em próximo poste. (**)