
1. Estamos a reproduzir excertos da dissertação de mestrado em ciências da educação, pela Faculdade de Psicologia e Ciências das Educação da Universidade do Porto (1995), da autoria do Horácio Fernandes, que durante a guerra colonial será capelão militar,
No capº IV daquele trabalho académico, ele narra e comenta em 3 dezenas de páginas a história de vida de Francisco Caboz, o mesmo é dizer, a sua autobiografia.
Nos dois postes anteriores (*), ele apresentou-nos. sucintamente, a sua terra, "Arribas do Mar" [leia-se Ribamar, da Lourinhã], bem como as 3 figuras da família que o marcaram: o pai (José Fernandes Nazaré), a mãe (Elvira Neto) e o avô materno (nascido por volta de 1875/80, o sacristão da freguesia o Ti João das Velas de Santa Bárbara)...
O avô e a professora primária acabaram por ser as pessoas que mais pesaram na sua decisão de "quer ser padre".
É uma história de vida, sofrida bem dura, em tempos muito difíceis (antes, durante e depoois da II Guerra Mundial), que merece ser conhecida dos nossos leitores. O Horácio nasceu em 1935. Em 1945/46, completou a 4ª classe e seguiu para o seminário dos franciscanos (em Montariol, em Braga).
A maior parte de nós, que nasceu já 10 ou mais anos depois do Horácio, ainda se reconhece nesta narrativa autobiográfica
Foi a partir deste trabalho académico que, 14 anos depois, ele publicaria o seu livro de memórias "Francisco Caboz: a construção e a desconstrução de um padre" [ Porto: Papiro Editora, 2009, 185, (7) pp. ISBN 978-989-636-446-5].(O livro está esgotado.)
O Horácio Fernandes seria ordenado padre em 1959. Foi alferes graduado capelão, em rendição individual, no BART 1913 (Catió, setembro de 1967 - maio de 1969) e no BCAÇ 2852 (Bambadinca, no 2º semestre de 1969), tendo terminado a sua comissão no HM 241 com uma crise de paludismo.
A ideia de ser padre começou a ganhar vulto, quando se repercutiram à volta de mim calorosos incentivos. Era a professora que repetia que gostava de que algum aluno seu fosse padre e o meu avô, para quem a sua maior dita era ter um neto padre.
Este «sim» mobiliza imediatamente em redor de mim todas as atenções, não só da minha família, como das devotas da terra.
A domesticação de Francisco, embora operada dia a dia, obedecia a rituais próprios e estava centrada em quatro cenários:
- o refeitório,
- a camarata,
- o salão de estudo
- e a sala de aulas.
Panopticamente situados, os Prefeitos tudo comandavam e vigiavam: comandavam através de gestos ou sinais sonoros, como apito, campainha, sineta, palmas, e vigiavam todas as conversas, passos e procedimentos dos alunos.
Desde que Francisco entrou no Colégio Angélico, uma cortina panóptica correu-se sobre o seu quotidiano. A partir daqui, é barro para ser moldado, já não por uma professora catequista, mas pelos oleiros sagrados.
O «mandato» do sistema de ensino salazarista para o subsistema de ensino convencional (ver cap. II da dissertação), resulta num aniquilamento do corpo e alma do Francisco e a inculcação de um habitus que o transforme num ser passivo, obediente, conformado, interiormente reconstruído, para ser administrador do sagrado. Tem de deixar de ser Francisco e converter-se numa caricatura de «fradinho» e «padrezinho», traçado pelas hierarquias eclesiásticas, em conúbio com o regime salazarista.
Esta moldagem consistia em cortar com todas as amarras que o ligavam ao mundo, e fazer de cada angélico um eterno devedor do subsistema.
- era proibido falar com os padres ou irmãos;
- era proibido andar apenas dois alunos;
- era proibido sair campo de recreio;
- era proibido gozar a bela sombra das árvores da mata;
- era proibido ir buscar as bolas, quando estas passavam a rede para os castanheiros do fundo;
- era proibido ir à camarata ou ao sótão, durante o dia;
- era proibido ficar muito tempo a tomar banho,
- e, até se vigiava o tempo que o aluno demorava na casa de banho.
As salas de aula, de inverno, viradas a norte, eram outro suplício. Desconfortáveis, com pavimento de cimento e sem qualquer aquecimento, largas janelas mal calafetadas e que deixavam entrar o frio e a chuva gélida vinda dos lados da serra da Espinheira.
Mas não foi tudo. Em lugar dos sapatos pretos do uniforme, tinha trazido apenas dois pares de botas pretas, dadas pelo meu padrinho, sapateiro, que me recomendou que as engraxasse para passarem por sapatos.
Fonte: Excertos da dissertação de mestrado do Horácio Neto Fernandes, "Francisco Caboz: do angélico ao trânsfuga, uma autobiografia". Porto: Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto. 1995, pp. 109-114 (A dissertação, orientada pelo Prof Doutor Stephen R. Stoer, já falecido, está aqui disponível em formato pdf).
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