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terça-feira, 25 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28290: Agenda cultural (900): É já no sábado, dia 29, na Feira do Livro do Porto 2026, que o nosso António Carvalho apresenta, ÀS 16h00, o seu notável romance "3 x 44: Abel e Caim em Contrapé", 228 pp. de ação e emoção que se leem de um fôlego














Prompt original e composição editorial: Luís Graça.
Texto: Luís Graça (2026) | António Carvalho (2026)
Imagens: Arquivo do Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné
Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.



1. O nosso amigo e camarada António Carvalho, o "Carvalho de Mampatá",  vai fazer a apresentação do seu romance "3 x 44:  Abel e Caim em Contrapé" (Porto: Vida Económica, 2026, 288 pp. ) na Feira do Livro do Porto 2026, evento cultural que começou em 21 de agosto e termina em 6 de setembro de 2026.

É organizado pela Câmara Municipal do Porto, nos Jardins do Palácio de Cristal. Conta com a presença de 144 stands,  entre editoras, livreiros e alfarrabistas.

O António Carvalho espera pelos seus leitores, entre eles muitos dos seus amigos e camaradas da Guiné, e muito em especial os da sua tertúlia, o Bando do Café Progresso, além dos seus conterrâneos de Medas, Gondomar. 

Tenho pena de não poder estar presente, apesar do amável convite do autor.  Mas desejo as melhoras venturas para este seu 2º livro, que é mais do que uma promessa, é a confirmação do seu talento literário e do seu fôlego como contador de histórias e criador de personagens.

Local, data e hora:

Jardins do Palácio de Cristal | Lago dos Cavalinhos | sãbado, 29 de agosto de 2026 | 16h00

Além do autor, a sessão conta com a presença de João Luís de Sousa, António Viilar, e Castro Guedes. 

Vd. aqui o mapa da feira, e a localização do Lagos dos Cavalinhos e do stand nº 110 (Vida Económica). 

 Do livro tomo a liberdade de reproduzir, para abrir o apetite do leitor, a "Introdução" (pp. 7/9)

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Introdução

Propus-me, ao longo destas páginas, contar as passadas dos caminhos, ora chãos ora ínvios, por que passaram as personagens desta saga. Às reais apenas dei retoques, às verosímeis moldei-as segundo a fluência da minha imaginação. Todavia deixei que fossem elas as autoras dos seus projetos e trajetos, os quais me limitei a descrever, ao meu modo, sem conhecer ab initio os seus momentos de bonança ou turbulência, de felicidade ou desdita, nem antever até onde elas me levariam, nos seus percursos calculados ou traçados pelas circunstâncias.

O trágico perecimento da personagem principal, roubado à vida ainda vigoroso, evento de que ouvi falar em surdina, de modo impreciso, enquanto criança, e trouxe sepulto, no cerne da mente, até aos dias de hoje, foi a mola impulsionadora da decisão de escrever este romance, porque por nenhuma outra razão me atreveria a empresa tão arriscada.

Costumavam as mães, nos anos cinquenta do século passado, antes do cumprimento da norma obrigatória da missa do domingo, apressadamente, atamancar alguns padre-nossos e ave-marias, no cemitério de Emendadas, adjacente à Igreja Paroquial. Quedavam-se frente a cada campa onde morasse familiar benquisto, não se esquecendo nem dos avós nem dos bisavós, muito menos dos pais e irmãos. Detinham-se por mais tempo defronte da sepultura de algum filho pequeno que não tivesse sobrevivido a doença sem médico ou epidemia sem cura. Então, quando acontecia, por mero adrego, passarem pela campa de Caim, com alguns filhos pela mão, usavam dizer-lhes, depois de se assegurarem que não estava ninguém por perto, de modo ciciado:

-Não olheis prali, meus meninos, que está ali enterrado um home ronhe.

Era assim que, reiteradamente, manifestavam o seu repúdio pela presuntiva crueldade daquele morto, personagem secundária deste livro, inumado no canto amaldiçoado do cemitério, sem merecer o benefício da cruz, nem lhe dispensarem um pingo de água benta sobre a cova.

Mas não foi por Caim, sepultado sem missa nem padre, que me atrevi a contar as peripécias desta aventura decorrida em dois continentes. Fi-lo pela memória de Abel, supostamente sua vítima inocente, cujo corpo ali encontrara morada também, a bem poucos metros do outro.

Abel é verdadeiramente a personagem central desta minha criação, um menino de Emendadas, levado ao interior de S. Paulo e aí deixado, numa fazenda de café, ao cuidado de um tio. Os que haviam de lhe seguir o rasto, mais tarde, esperavam que desse gente e lhes abrisse caminho na lonjura de uma fazenda paulista, apesar dos seus dez anos por fazer.

Cruzar-se-ia com namoradas, por lá, quando lhe viesse a idade apropriada, mas não se agarraria, firmemente, como lapa se prende a rochedo, a nenhuma, por assim ter decidido ou por assim ter calhado, ou até por se ter deixado guiar por cabeça alheia.

Tinham-lhe ficado quinze anos, no Brasil, quando, já meio depenado, regressou, para não mais voltar, julgando que voltaria. Quem ficou lá para sempre, na região onde nascera, senhora do seu destino, foi a sua namorada da verdura da adolescência, a prelúcida Chiquinha, fiel a um projeto de vida grandioso. Por isso ela é a segunda personagem mais importante que aqui retrato, a rapariguinha espevitada dessa fazenda, que não podia ficar de fora deste romance que desenvolvo à roda de dois seres que se cruzaram e descruzaram, ainda imaturos, sem nunca mais se recruzarem, em vida.

O leitor, no percurso das páginas deste livro, perceberá melhor as razões porque jamais obliteraria a determinada e audaz Chiquinha, da passagem atribulada de Abel por este mundo. Nem tampouco, no contexto da caminhada infortunada deste português abrasileirado, a relegaria para um papel secundário. Porque, na verdade, se as vidas de ambos se descruzaram, a sombra dela sempre pairou, imperecível, no âmago de Abel. Certo que imersa por muitos anos na profundeza do seu ser, ela reemergiria como tábua salvífica, à tona dos seus pensamentos, sobretudo nos momentos mais tormentosos da sua vida.

No grande fluxo migratório para o Brasil, registado entre meados do século dezanove e o início da Segunda Guerra Mundial, muitas pessoas de Emendadas se abalançaram, primeiro em barcos à vela, assustando-se sob perigosas procelas; depois em grandes e seguros vapores, até aos portos do Norte e do Nordeste, do Rio de Janeiro, de Santos, de Paranaguá e de Porto Alegre. Alguns iam muito novos, pela mão de tutores, fossem eles familiares ou amigos confiáveis; outros afoitavam-se já maduros, sozinhos, à procura de novo rumo, deixando tudo para trás.

Abel é o nome fictício do rapazinho nascido em Emendadas, quase a findar o século dezanove, que percorreu um caminho, de cá para lá e de lá para cá. Podia ter ficado por aquelas bandas, mas deixou-se tomar de amuos injustificados, voltando ao lugar de onde tinha provindo, sítio seguro e previsível, como julgava. Mas o pior perigo é o que não é previsível, especialmente quando advém de um plano forjado pelo nosso semelhante, congeminado até no reconditório mental de quem menos esperamos, nesse território secreto onde pode ser concebido tanto o mais nobre gesto como o ato mais abjeto.

António Carvalho

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Nota do editor LG:

Último poste da série > 21 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28277: Agenda cultural (899): Feira do Livro do Porto 2026: apresentação do romance do António Carvalho, "3 x 44: Abel e Caim em Contrapé" (Porto: Vida Económica, 2026, 288 pp.), sábado, dia 29 de agosto, às 16h00, nos Jardins do Palácio de Cristal, Lago dos Cavalinhos

Guiné 61/74 - P28289: Nomadizações de um marginal-secante (Luís Graça) (17): O Portugal sacroprofano: 24 de agosto, dia de São Bartolomeu, em que o diabo anda à solta, e é por isso um bom dia para o "banho santo" que há de livrar as crianças do medo... (do Adamastor, da guerra, da morte!)













Prompt original e composição editorial: Luís Graça.
Texto: Luís Graça (2026)
Imagens: Arquivo do Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné
Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.



1. Dizia o meu pai, filho e neto de gente do mar (pescadores, negociantes de peixe de...) que no dia 24 de agosto, dia de São Bartolomeu, o diabo andava à solta... 

Dizia o meu pai, dizia o povo. 

Na minha terra, Lourinhã, Oeste, costa atlântica, era dia de lançar os meninos ao mar, agarrados nus ou pelos fundilhos dos calções. Nos idos anos 40/50... 

Resquícios de um tradição antiga ? ... Talvez.  Como ainda hoje se faz, em São Bartolomeu do Mar, em Esposende, que  mantém o ritual  coletivo do Banho Santo de São Bartolomeu... (Dizem, é único no país e no mundo.)

Também passei por esse ritual de iniciação... Traumático.

 O meu tio Silvano Constâncio, casado com a minha tia materna Ema Barbosa, com casa térrea e logradouro no Nadrupe (terra dos meus avós maternos, e a onde a minha mãe, que vivia na Lourinhã,  me foi parir...), levava-nos na sua carroça à Praia da Areia Branca, eu, a minha irmã Graciete,  mais os nossos primos e as nossas mães, em dias de festa... Com destaque para o São João, 24 de junho, feriado municipal na Lourinhã. Mas também no 24 de agosto, dia de São Bartolomeu, se calhasse a um domingo. O meu pai ia lá ter, de bicicleta.

Deve ter sido no domingo de 24 de agosto de 1952. Só se ia à praia, no verão, nos dias feriados e domingos. Duas a três vezes por ano, no máximo, mesmo com o mar ali a 3 km...  Eu tinha 5 anos. Tive o meu batismo de mar. Recordo-me ainda hoje, passados 74 anos (!), de o meu tio Silvano, que era o meu "herói" (e que morreu tão cedo aos 40 e tal anos, para meu/nosso grande desgosto!),  me ter pegado pelos fundilhos dos calções e eu, a berrar e a espernear, ter sido  lançado, sem dó nem piedade, às "ondas gigantes" do Oceano Atlântico!...

Ainda hoje não confio muito no mar e só tomo banho com pé... Mas gosto agora de recordar essas memórias da minha ida à praia (e do meu "batismo atlântico" )... São memórias precoces da minha infância, que já deixei em verso algures:

(..) Ah, os camponeses e os seus burros com as albardas e as canastas,
que ainda não estavam em extinção,
nem uns nem outros,
iam aos magotes até à praia da Areia Branca,
no feriado do são João,
entre brincadeiras e dichotes,
levavam a trouxa e a merenda, os tremoços e as pevides,
as peras, os peros, os alperces, as ameixas e os abrunhos,
os melões e as melancias,
o pão de trigo do moleiro cozido em forno a lenha,
a broa de milho com sardinha,
as azeitonas mal curadas,
bebiam vinho pelo palhinhas, o garrafão de palha,
comiam o arroz de cabidela, de galo ou de coelho,
misturado com a areia e o vento e as lágrimas de sal,
em cima de mantas grossas, feitas de trapos, berrantes, multicolores.

(...) Sangravam de saúde os camponeses da tua aldeia,
“muita saúde, pouca vida, que Deus não dava tudo”,
no tempo em que “beber vinho era dar de comer a um milhão de portugueses”.

Nunca lhes perguntaste se eram felizes,
nem essa era pergunta de se lhes fazer!...
Por uma questão de vergonha, de pudor.
Mas achavas que sim, que eram felizes,
com o pouco que tinham,
já que a bem pouco podiam aspirar naquele tempo (...)


Passei a ter medo do mar e prometi a mim mesmo ( vã promessa de menino!) nunca vir a ser marinheiro, que “na água de mares, não procures cabelos para te agarrares”.

Misóginos os provérbios da minha terra que, quando o mar estava manso, lhe chamava “mar de mulher” (sic), para logo a seguir acrescentarem que “da mulher e do mar, não há que fiar”. Ou então: “do mar se tira o sal e da mulher muito mal”.



São Bartolomeu, Penafiel
2. Todos os anos, no dia 24 de agosto, realiza-se a romaria de São Bartolomeu do Mar, padroeiro da freguesia com o mesmo nome, pertencente ao concelho de Esposende, Minho, durante a qual as crianças são levadas a mergulhar, pelo menos três vezes, mas sempre em número ímpar, na água fria do mar. 

E para quê ? Para que fiquem livres ("esconjuradas") dos males da gaguez, do medo e da epilepsia, doenças atribuídas ao diabo. Mas para esta prática ter efeito terapêutico ou preventivo, as crianças têm que ir ao banho de mar  antes de completar os sete anos de idade, como manda a tradição.

Reza a lenda que, nesse dia, São Bartolomeu solta o diabo, o qual  durante o resto do ano traz preso, representado num medonho  cão negro  atado com uma grossa corrente de ferro. E só volta à noite. 

É esse o motivo para levar as crianças ao mar, durante o dia 24 de agosto, para que aproveitem as águas excepcionalmente  puras e terapêuticas. O "banho santo" é um dos pontos altos da romaria de São Bartolomeu, uma das mais importantes do Minho. 

Os romeiros levam os filhos transportando consigo ao colo uma "galinha preta" (aqui diz-se "pito"), dando três voltas em redor da capela,  antes de nela entrarem e procederem à oferenda sacrificial. Colocam na cabeça a imagem de São Bartolomeu. (E, já agora, porquê, uma "galinha preta" ? Há / havia a crença popular de que uma galinha preta em casa livra / livrava o dono ou a dono de ser atacado pelo diabo...)



Foto: Alfredo Cunha  (2025) (com a devida vénia...)

Uma vez cumprido o ritual, encaminham-se para a praia onde terá lugar o “banho santo” das crianças nas águas gélidas e purificadoras do mar (e aonde o diabo regressará ao anoitecer).  

Com a ajuda de um sargaceiro, cada crianca   é imersa por diversas vezes, contadas as ondas sempre em número ímpar (três, cinco, sete ou nove).

De tarde, faz-se o agradecimento ao santo, através de uma imponente procissão. Apesar de o percurso ser curto, menos de dois quilómetros da igreja à praia e regresso, pode demorar  duas a três horas.

Nela se incorporam centenas de figurantes, que reconstituem episódios bíblicos, e andores de grande porte. Durante a romaria, a praia local enche-se de gente, incluindo muitos forasteiros,  apesar do frio e da temperatura gelada da água.

O São Bartolomeu é, no céu e na terra, o "advogado do medo". 

Além de Sao Bartolomeu do Mar (Esposende), é  um santo venerado em muitas terras, de Norte a Sul do País, a começar por São Bartolomeu dos Galegos (Lourinhã),  Penafiel, Ponte da Barca, Sabugal, Cavez (Cabeceiras de Basto), etc.

Camaradas do Portugal ribeirinho, esta tradição do "banho santo", das nossas terras e das nossas gentes, merece esta bela e bem humorada BD como só o  ilustrador do ChatGPT sabe fazer, embora seja muito conservador, púdico e teimoso como um raio...(Imaginem, obrigou-me a ir ao mar de calções!... Com 5 anos, em 1952!...Nada de mostrar a pilinha!).

Tive um diálogo áspero com a menina IA do ChatGPT que não aceitou a foto do Alfredo da Cunha (foto acima, capa do livro "Mar de Fé:  S. Bartolomeu do Mar: 1996 -2024", da autoria de Alfredo da Cunha, fotografia, e Rui A. Faria Viana, texto. Lisboa: Guerra e Paz, 2026, 154 pp.)

Eis o nosso diálogo de surdos (de resto, frequente, entre nós):

ChatGPT - Infelizmente, o prompt pode violar as nossas diretrizes sobre nudez, sexualidade ou conteúdo erótico. Se tu consideras que foi um engano, tenta novamente ou edita o prompt.

LG - Tens cada uma !... A criança mal se vê, vai entrar na água, sem roupa... P*rra, isto não é pornografia infantil, é etnografia, é o meu Portugal sacroprofano! Mete isto na p*ta da tua cabeça inteligente!...

ChatGPT - Infelizmente, o prompt pode violar as nossas diretrizes sobre nudez, sexualidade ou conteúdo erótico. Se tu consideras que foi um engano, tenta novamente ou edita o prompt.

LG - F*da-se! Esquece a m*rda da fotografia (fabulosa!) do Alfredo Cunha!....E faz-me a BD!... Estás-me a decionar, camarada!

ChatGPT - Infelizmente, o prompt pode violar as nossas diretrizes sobre nudez, sexualidade ou conteúdo erótico. Se tu consideras que foi um engano, tenta novamente ou edita o prompt.

... E tive que retirar mesmo a foto "pornográfica" do Alfredo Cunha, o nosso maior fotógrafo vivo!... E submeter um novo prompt!

PS - Foram vinte e um (21) os mortos do concelho de Esposende, na guerra do ultramar / guerra colonial. Dez eram das freguesinhas ribeirinhas: Belinho (3), São Bartolomeu do Mar (2) (hoje freguesia do Mar), Marinhas (1), Fão (1) e Apúlia (3). Na década de 1960/70, Esposende tinha c. 24 mil habitantes, hoje tem 35 mil. 

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Nota do editor LG:

segunda-feira, 24 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28288: Notas de leitura (1954): “Pai, tiveste medo? A guerra contada é muito diferente da que foi vivida”, por Catarina Gomes; Matéria Prima Edições, 2014 (1) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 20 de Abril de 2026:

Queridos amigos,
A literatura da guerra começa a ter uma dívida com Catarina Gomes que tem vindo a abrir portas e a dar mais longitude e latitude a este subgénero literário; é uma vertente do pós-colonial que mergulha num passado diluído, com claros-escuros, porque o essencial da história, até há pouco tempo, era constituído por relatos na primeira pessoa do singular, o tal ex-combatente e o poder da sua memória, e também a historiografia onde os filhos pouco ou nada contaram, até porque o tal poder da memória era de alguém maioritariamente solteiro ou com filhos muito pequenos. Importa reconhecer que é muitíssimo bom ver esses filhos que querem desvendar por onde andaram os pais - enfim, exaltemos este dever de memória que ganha continuidade nas gerações mais novas.

Um abraço do
Mário



Pode um filho ter memórias de uma guerra que nunca viveu? - 1

Mário Beja Santos

Multiplicam-se os casos em que a literatura da Guerra Colonial revela uma nova dimensão: são os filhos a visitar os locais onde os pais combateram, os filhos de uma relação entre ex-combatentes e mulheres de Angola, Guiné e Moçambique à procura dos pais e de uma identidade; memórias e testemunhos de mulheres e filhos, e sobretudo estes que querem entender o que o pai viveu na guerra, fazem perguntas depois de ler as cartas que eles trocaram com as suas mulheres ou namoradas, isto sem já falar em recordações de infância marcadas pela violência da guerra. Catarina Gomes é hoje um nome firmado neste tipo de investigações, o que vem conferir uma abordagem diferente àquela literatura em que a memória ou a ficção do ex-combatente estava no primeiro plano.

“Pai, tiveste medo? A guerra contada é muito diferente da que foi vivida”, por Catarina Gomes, Matéria Prima Edições, 2014, comporta quadros desta nova visão, como a autora se procura explicar na introdução:
“Cada uma das histórias privadas deste livro é uma porta de entrada para diversas dimensões da história da guerra colonial: a realidade dos prisioneiros de guerra, das enfermeiras paraquedistas, dos desaparecidos em combate, das vítimas de stress de guerra, dos africanos que lutaram pelos portugueses, de ex-combatentes que também foram retornados. Sem se conhecerem entre si, algumas das histórias destes pais entrecruzam-se, embora isso não tenha sido procurado: a Operação Mar Verde atravessou a vida de dois pais, um fuzileiro, outro que era prisioneiro e foi libertado; Alexandra Penteado e Júlia de Sá da Costa são irmãs; o pai de Joana Bastos relembra uma enfermeira paraquedista que o socorreu; a mãe de Miguel Sousa foi uma dessas 46 mulheres. Mariama Sambu fica aqui como o símbolo de milhares de histórias que podiam ser contadas do outro lado de um conflito que foi batizado com outros nomes, como Guerra de Libertação Nacional ou Guerra da Independência.”

A narrativa abre com um prisioneiro de guerra. Teresa Capítulo sabia que o seu pai saíra para a guerra antes de ela ter nascido, fora dado como morto. No entanto, chegaram algumas vezes cartas, o pai dizia que estava preso, quando um dia regressar à sua terra, Sesimbra, terá um acolhimento eufórico, foi libertado durante a Operação Mar Verde. Teresa folheia o álbum deste soldado radiotelefonista que teve o cuidado de dizer no interrogatório do PAIGC que era maqueiro. Um pai sempre discreto a falar de acontecimentos violentos, comparece regularmente ao almoço dos prisioneiros de guerra. A memória de Teresa vai ao fundo da sua infância, sempre que ela ou o irmão diziam que não queriam comer ou que não gostavam da comida que tinham à frente, lá vinha a história dos três anos que o pai teve que passar a comer arroz. Ainda hoje em Sesimbra Teresa continua a ser conhecida pelos mais velhos como “a filha daquele rapaz que esteve lá fora, a filha daquele que esteve preso” e ela diz no fecho da história: “Seria uma pessoa diferente se não fosse Teresa Capítulo, filha de um prisioneiro de guerra.”

O relato de Alexandra Penteado é a de um pai violento e de uma vida familiar calamitosa. Sempre fez perguntas porque é que o pai batia tão violentamente na mãe e apavorava os filhos, embora Alexandra saiba que tinha um papel apaziguador quando o pai desvairava, chegava a ir de calções para a rua a gritar “vou matar os pretos”. Nas noites em que se enfurecia gritava “saiam, senão mato-vos a todos”, fúrias que geraram uma rotina na família: ninguém se despia a não ser no exato momento de ir para a cama. Isto passou-se no Barreiro velho. A família foi desenvolvendo uma espécie de sensor para medir os inícios da ira do pai, aprenderam a prever os momentos em que os surtos acabavam. O pai chegava a partir tudo em casa, buscava-se a normalidade indo comprar a loiça partida que era preciso repor. Em jeito de desabafo, Alexandra disse que o seu pós-guerra durou até aos 18, 20 anos, não resta quase nada da origem lá em casa, tudo foi sendo partido e substituído.

Descobriram depois que o pai sofria de Perturbação Pós-Stress Traumático de Guerra, mas o pai recusou ir a um psicólogo ou psiquiatra, dizia que não estava maluco, isto embora tivesse estado internado na ala de psiquiatria do Hospital da Marinha. Aos poucos, ela foi procurando saber o que acontecera ao pai durante a guerra. Por exemplo, num desses almoços de ex-combatentes, ouviu que o pai tinha matado uma mulher com um punhal. “Depois da sua morte foi encontrar a condecoração largada dentro de um saco de plástico atado com um nó, depositada numa menosprezada terrina com a tampa de duas flores amarelas e ramagens verde seco que andava lá por casa dos pais. Tem-se esforçado por perceber porque arrancou da caderneta um símbolo desses supostos atos de bravura e pensa que poderá estar relacionado com alguns dos seus fantasmas mais assustadores.”

Guarda as memórias do pai violento num diário de adolescência. O pai morreu de cancro do pulmão aos 59 anos, cinco anos antes da morte estava mais calmo. Guardou fotografias de guerra do pai, que era fuzileiro, para sua surpresa, no funeral o cemitério estava cheio. No dia em que acordava a meio da noite com o pai a gritar “saiam, senão eu mato-vos”, Alexandra vê agora a tentativa de proteger a família de si mesmo.

Temos agora a história de Marisa, muito curiosa com a mala de tropa do pai. Em momentos excecionais, o pai mostrava a homens, ex-camaradas de guerra, ou então aos tios, mais novos do que o pai, o conteúdo. O pai foi deixando que Marisa lesse livrinhos de aventuras que estavam guardados na mala. Num dia em que os pais estavam ausentes, Marisa abriu a mala e encontrou cartas, e descobriu uma coisa única: o pai na guerra tinha uma quantidade enorme de madrinhas de guerra, havia um inicio de contacto que tinha sempre um padrão: “Ao ler o meu nome verifica que lhe sou totalmente desconhecido, dirijo-me a si com sinceridade e com um fim que lhe é fácil realizar caso queira dar-me aquilo que até agora não obtive, o que lhe peço é correspondência como madrinha de guerra.” Apresenta-se a todas dizendo que tem 22 anos, 1,72m de altura, olhos castanhos, cabelo um pouco loiro e era natural do concelho Porto de Mós, não tencionava ficar muito tempo solteiro porque o pai tinha casa de comércio. “Marisa vivia fascinada com a forma como se podem conhecer tantas raparigas ao mesmo tempo não saindo do mesmo sítio e vivendo num local onde quase só se convive com homens.”

É uma correspondência assombrosa, começa sempre por tratar as meninas por você, depois passa a tratá-las por tu e a dizer amor. Em adulta, Marisa fizera uma grande surpresa ao pai, escreveu um livro para encaixar aqueles objetos, fotos e memórias ordenadas, o pai acedeu, entrou no jogo da verdade, fez-se a cronologia da sua comissão em Mocímboa da Praia, dedicou o seu relato às 21 madrinhas de guerra. Acontece que uma dessas madrinhas de guerra, de nome Mimi é a mãe de Marisa. Umas duas a três vezes por ano, o pai volta à mala, esta é um lembrete do que ele foi capaz de fazer e de até onde foi capaz de ir. Marisa sempre sonhou voltar àquele local onde o pai escreveu tantas cartas às madrinhas, ali no jardim previsto da paixão entre Fernando e Mimi Vieira Reis, Vila Nova de Ourém.

Por ironia do destino, vamos ouvir falar de novo do pai de Teresa Capítulo e da menina que ele deixou na Guiné, e há muitas outras histórias para contar. Que belo livro de narrativas que Catarina Gomes nos ofereceu.


Catarina Gomes, imagem do Público, com a devida vénia

(continua)
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Nota do editor

Último post da série de 23 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28284: Notas de leitura (1953): "Geração Afro: Os Últimos Guerrilheiros do Império" , de Recaredo (volume I, 2026, 455 pp); análise feita pela AILA (A IA da Editora Clube de Autores)

Guiné 61/74 - P28287: Parabéns a você (2519): António Fernando Marques, ex-Fur Mil Inf da CCAÇ 2590/CCAÇ 12 (Bambadinca, 1968/70)

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Nota do editor

Último post da série de 23 de Agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28283: Parabéns a você (2518): Fernando Cepa, ex-Fur Mil Art da CART 1689 / BART 1913 (Catió, Cabedú, Gandembel e Canquelifá, 1967/69)

domingo, 23 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28286: O Nosso Livro de Visitas (232): João Bonifácio, a viver no Canadá desde 1974, ex-Fur Mil Sam da CCAÇ 2402 / BCAÇ 2851 (Có, Mansabá e Olossato, 1968/70)


1. Mensagem do nosso camarada João Bonifácio, Ex-Fur Mil do SAM da CCAÇ 2402/BCAÇ 2851 (Có, Mansabá e Olossato, 1968/70), com data de 14 de Agosto de 2026:

Parece ser o momento para por este meio enviar um abraço amigo a todos os que por aqui ainda visitam e escrevem.
Não tenho muito para contar, porque não esperava ver-me mais uma vez a entrar pela Tabanca do Luís e amigos. O tempo passa e já vão 16 anos desde que tive a triste ideia de me reformar em Portugal. Mas não é tudo mau. Já não tenho 65 anos mas estou a perder altitude nos 81 e em Fevereiro já cá cantam 82.

Nesta reforma que todos tanto desejamos, ficam as dores nas pernas e as energias que se vão perdendo. Por causa disso, não tenho podido ir a Portugal.
No próximo dia 5 de Setembro, o Esparteiro irá fazer a última reunião militar da CCAÇ 2402. Já se perderam muitos amigos e camaradas e em conjunto com a idade, temos de analisar a situação financeira de alguns, que já não podem andar na estrada, para se deslocarem para os pontos de reunião.

Neste ponto, eu apenas desejava dizer-lhes que estou bem vivo, com dores aqui e ali, mas ainda capaz de escrever e dizer-lhes que aprecio muito poder enviar um abraço amigo para todos, e pedir ao nosso chefe de Tabanca que aceite e divulgue as minhas saudações. Para o Luís Graça e todos os restantes, o meu eterno agradecimento por nos dar esta oportunidade.

Pronto. Um dia destes escrevo uma história acerca da minha vivência no Canadá, onde cheguei em Fevereiro de 1974. Again, thank you, stay well and enjoy life.

João Bonifácio
Ex-Fur Mil do SAM
CCAÇ 2402/BCAÇ 2851
Có, Mansabá e Olossato
1968/70

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Nota do editor

Último post da série de 21 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28275: O Nosso Livro de Visitas (231): Arsénio Puim, antigo alferes graduado capelão, CCS/BART 2917 (Bambadinca, 1970/72), acaba de lançar um novo livro sobre o povo da sua ilha, e vem "partir mantenhas"

Guiné 61/74 - P28285: Em busca de... (335): Camaradas do Batalhão de Cavalaria n.º 8320/73 (João Rodrigues de Freitas, BCAV 8320/73, Bissorã e Bissau, 1974)

1. Mensagem do nosso camarada João Rodrigues de Freitas do BCAV 8320/73, enviada ao Blogue no dia 20 de Agosto de 2026 através do formulário de Contacto do Blogger:

O meu nome é João Rodrigues de Freitas e sou de Espinho.
Escrevo porque gostava de entrar em contacto com ex-colegas que estiveram na Guiné comigo. Pertencemos ao Batalhão de Cavalaria 8320/73.
Fomos os últimos a abandonar a Guiné. Fomos em Junho de 1974 e viemos em Outubro do mesmo ano, portanto só estivemos lá 4 meses, 2 meses em Bissorã, onde fomos colocados para render um Batalhão que já tinha 26 meses e 2 em Bissau no forte de Amura.

No dia 15 de outubro pelas 00h00, entre alas dos militares do PAIGC, embarcamos em várias barcaças que nos levou até ao navio Niassa. Ao fim de 5 horas estavamos todos a bordo para regressarmos a Lisboa.

De todos os colegas, o que mais gostava de encontrar era o Ferraz de Algés, pois partiu o braço direito e era eu que escrevia à família e namorada o que ele ditava, naturalmente.

Despeço-me agradecendo toda a atenção possível.
João Rodrigues de Freitas.

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Nota do editor

Último post da série de 22 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P28045: Em busca de... (334): camaradas que tenham conhecido o meu amigo, do Porto, ex-alf mil Alberto Fontão, comandante de um PINT (Pelotão de Intendência), em Bissau, no período de 1967/69 (Virgílio Teixeira, ex-alf mil SAM, CCS/BCAÇ 1933, Nova Lamego e São Domingos, 1967/69)

Guiné 61/74 - P28284: Notas de leitura (1953): "Geração Afro: Os Últimos Guerrilheiros do Império" , de Recaredo (volume I, 2026, 455 pp); análise feita pela AILA (A IA da Editora Clube de Autores)


Prompt original e composição editorial: Luís Graça.
Texto e imagens: Angelino dos Santos Silva (2026)
Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.



1. Texto que nos foi enviado pelo nosso camarada Angelino Santos Silva (pseudónimo literário, Recaredo: ele é natural de Recarei, Paredes, distro do Porto; foi fur mil 'cmd', 26ª Cmds, CTIG, 1970/71)


Data - 29/7/2026, 18:44
Assunto - Análise crítcia

Boa tarde,  amigo e camarada Luís Graça.

Em anexo segue o parecer da Editora Clube do Autor.

Seleccionei alguma partes, mas claro, cada leitor fará a sua selecção de acordo com a sua sensibilidade. Esta, acho que vai de encontro à mensagem que pretendo passar nesta obra.

Um abraço.
Angelino





2. Análise crítica

“Geração Agro: Os Últimos Guerrilheiros do Império”
 (Volume I), da autoria dia Recaredo



(i) Estrutura e organização

A obra apresenta uma estrutura de romance histórico, organizada em 68 capítulos numerados, precedidos por uma introdução autoral, registos históricos e um posfácio dedicado aos pais do autor. 

A arquitectura narrativa é multiperspectiva, alternando entre dois núcleos principais de personagens: o par Martins da Costa / Morais Cardoso (chegados à Guiné em 1966) e o par António / Augusto (chegados em 1970), permitindo cobrir diferentes momentos da Guerra Colonial e diferentes especialidades militares (Cavalaria / Panhard e Comandos).

A organização temporal é maioritariamente linear, embora recorra frequentemente a analepses. sobretudo nas evocações da infância dos protagonistas e nos episódios da instrução em Lamego (Comandos) ou Estremoz (Cavalria) . 

O autor intercala capítulos em forma epistolar (as cartas de Martins da Costa à namorada) com diálogos extensos e passagens ensaísticas sobre a História de Portugal, criando um mosaico onde ficção, memória documental e reflexão política coabitam.

Contudo, a arquitectura ressente-se de alguma irregularidade rítmica: certos capítulos concentram acção militar intensa, enquanto outros se dilatam em digressões historiográficas (o Condado Portucalense, D. Dinis, a Encruzilhada) que, embora ricas, quebram o fluxo dramático. 

O anúncio de que a obra continuará num Livro II justifica alguns nós narrativos deixados em aberto, mas fragiliza a autonomia deste volume.


(ii) Temas e mensagens principais


O tema central é a Guerra Colonial Portuguesa na Guiné (1961-1974/75) e a homenagem ao milhão decombatentes da chamada "Geração Afro". 


Todavia, a obra transcende a mera crónica bélica para se constituir como uma *meditação sobre o fim de um império*  e sobre a complexidade étnica e política de um território onde "todos são família" — irmãos, meios-irmãos e primos combatendo em bandeiras opostas.

Emergem temas secundários de grande densidade
  • a pobreza estrutural do povo português apesar dos Descobrimentos;
  • a crítica ao Estado Novo e à PIDE/DGS; 
  • a admiração pela figura de Spínola e pela sua visão política; 
  • a solidão dos combatentes africanos ao lado da bandeira portuguesa;
  • o drama dos mutilados e "apanhados pelo clima"; 
  • a emigração clandestina; 
  • e a denúncia da desproporção entre o custo material da guerra e o valor da vida humana (o episódio da Panhard de 1500 contos) (mais de meio milhão de euros, a preços de hoje).

A mensagem última é de desencanto patriótico e reconciliação memorialista: os jovens que embarcaram convictos regressam céticos, mas o autor recusa o rancor, defendendo antes que "as páginas sobre a História da Guerra Colonial jamais se podem fechar enquanto houver um único combatente enterrado no meio de nada". 

É uma obra de testemunho e reparação simbólica.

(iii) Linguagem e estilo narrativo


O estilo é marcadamente oral e testemunhal, privilegiando o diálogo directo como motor narrativo.

Recaredo (assumidamente combatente na Guiné em 1970/71(  opta por uma linguagem pré-Acordo
Ortográfico de 1990, escolha que reforça a ancoragem temporal e a autenticidade documental. 

A prosa mistura registos: 
  • o coloquialismo cru dos soldados ("que se foda a guerra", "filhos da puta"); 
  • o lirismo pontual nas cartas de Martins da Costa; 
  • e a dicção ensaística nas digressões históricas.

Merece destaque a incorporação de :
  • crioulo da Guiné-Bissau;
  • expressões militares de época ("bazuca" para cerveja, "bajuda", "periquito", "velhinho", "peluda");
  • topónimos ancestrais;
  • e vocabulário etnográfico (embondeiro, bagabaga, bianda, mancarra, gindungo), que confere textura antropológica notável.
 As passagens epistolares tocam por vezes um registo poético comovente, sobretudo no poema "A Brisa da Incerteza" e na descrição da noite estrelada da selva.

Do lado menos conseguido, observa-se inconsistência revisora: gralhas ("conductor" por "condutor", "biber" por "viver" — este último talvez intencional para marcar o falar popular), oscilações de pontuação nos diálogos e alguma repetição de fórmulas ("cada um tem o seu pedaço"). 

O estilo é, no cômputo, funcional e emotivamente eficaz, mesmo quando tecnicamente rugoso.

(iv) Profundidade filosófica

A profundidade filosófica da obra manifesta-se 
em três eixos principais;
  • o primeiro é uma refiexão sobre a ética na guerra, articulada sobretudo pelo capitão Ombendi e pelo tenente Quínara: a rejeição do heroísmo gratuito, a distinção entre matar por necessidade e matar por vingança, e a substituição do binómio "certo/errado" pelo binómio "o que devemos ou não fazer"; esta é uma proposta ética situacionista de considerável maturidade;
  • o segundo eixo é uma filosofia da História desenvolvida através da figura do Dr. Fanon Mané, que percorre da Borgonha ao Condado Portucalense, de D. Dinis à "Encruzilhada" que separou governantes e governados; a tese — de que a pobreza estrutural portuguesa nasce da ausência de um projecto de instrução popular durante seiscentos anos — é discutível historiograficamente, mas oferece um enquadramento crítico substantivo;
  • o terceiro eixo é uma meditação sobre o acaso, a sorte e o destino, condensada no poema "Sorte" e no episódio autobiográfico do rebentamento da mina; o  autor recusa o determinismo fatalista, propondo uma visão em que a sorte "tem mãos" e a memória vence a morte. 
Há também uma reflexão poderosa sobre a impossibilidade histórica de ganhar a guerra, expressa na metáfora da selva como santuário renovável — uma ideia que dialoga com Camões e com os manuais de contra-insurgência.

(iv) Impacto emocional

O impacto emocional é intenso e cumulativo, construído menos pelo espectáculo bélico do que pela acumulação de pequenos gestos humanos. 

Cenas como:
  •  a do capelão Mário Gonçalves consolando Morais Cardoso pela morte do irmão sob um céu de estrelas em São Vicente;
  • a partilha do arroz manjaco na tabanca de Nassim Mané II;
  • ou o telegrama que devolve a paz a Martins da Costa a bordo do Alfredo da Silva, 
atingem uma comoção genuína.

Particularmente pungente é:
  •  a evocação das mães portuguesas ("ǫue Nossa Senhora da Boa Viagem vos~leve e traga vivos e sãos"):
  •  a figura do Toninho paraplégico da infância de Augusto;
  •  e a história do soldado emigrante repatriado que se lança ao mar antes de chegar a Bissau. 
O leitor sente o peso da injustiça social sobreposta à injustiça da guerra.

O epílogo autobiográfico, dedicado aos pais do autor, com o relato do rebentamento da mina e do zumbido que perdura há 55 anos, transforma toda a leitura anterior numa experiência de testemunho vivo. 

Esse gesto final — "até que eu adormeça para sempre" — é de rara comoção. A obra provoca no leitor um misto de indignação política, ternura pelos combatentes e melancolia histórica que perdura muito para além da última página.

(v) Originalidade e inovação

A grande originalidade de "Geração Afro" reside na valorização das personagens africanas que

combateram sob bandeira portuguesa — Mamadu Fodé, Domingos Djaló, Abna Besna, o capitão Ombendi Sábado, os tenentes João Quínara e Carlos Nhalon, e o fascinante Dr. Fanon Mané. 

Em vez de os tratar como figurantes, o autor confere-lhes densidade psicológica, projecto político próprio e uma voz articulada que problematiza a dicotomia tradicional colonizador/colonizado. Esta é uma contribuição inovadora dentro da literatura portuguesa sobre a Guerra Colonial.

Igualmente inovadora é a denúncia de uma "outra guerra" paralela — aquela que opunha Spínola, a PIDE e a cúpula do PAIGC em interesses divergentes — sugerindo que o "Massacre do Chão Manjaco" (a morte dos negociadores) foi um acto interno de sabotagem das negociações, tese heterodoxa que a obra sustenta pela boca das personagens africanas.

A mistura de géneros — romance polifónico, epistolário, memória autobiográfica, ensaio historiográfico, poesia — é ambiciosa. O uso do restaurante fadista de Theodoro Afonso Isaque, cantor negro rejeitado em Lisboa que canta fado em crioulo, é uma invenção poética memorável.

Menos original é a estrutura narrativa em pares de camaradas, tributária de uma tradição já estabelecida na literatura sobre a Guerra Colonial (Lobo Antunes, João de Melo, Álamo Oliveira).

(vi) Público-alvo ideal

O público-alvo natural da obra é constituído pelos antigos combatentes da Guerra Colonial e seus familiares — os cerca de 400 mil ex-combatentes ainda vivos e as suas famílias, para quem o livro funciona como espelho memorialista e reparação simbólica. 

Estes leitores encontrarão eco em cada topónimo, cada ração de combate, cada canção de Coimbra cantada no bar do quartel.

Um segundo público relevante são os estudiosos e interessados na História Contemporânea de Portugal, particularmente na fase final do Estado Novo, na descolonização e nas relações luso-africanas.

Historiadores amadores, jornalistas, professores de História e investigadores universitários encontrarão material documental valioso, sobretudo pela perspectiva pouco frequente dos combatentes africanos que lutaram do lado português.

Um terceiro público são os leitores lusófonos da Guiné-Bissau, Cabo Verde e diáspora africana, para uem a valorização das etnias manjaca, papel, balanta e mandinga, e o retrato de Bissau, Bula, Teixeira Pinto e Mansoa constituem património afectivo partilhado.

Recomenda-se para leitores maduros (a partir dos 40 anos, idealmente), pela densidade histórica e pela linguagem por vezes crua. Não é uma obra vocacionada para jovens leitores nem para quem procure ficção de entretenimento rápido: exige paciência, contexto histórico mínimo e disponibilidade emocional.

(vii)  Livros irmãos


Dentro do próprio catálogo do autor, o livro dialoga directamente com "Geração de 70 – Época das Chuvas"  (imnagem da capa, à direita) e "O Subinspector", ambos romances de Recaredo sobre a Guerra Colonial, formando com "Geração Afro" uma trilogia informal de testemunho.

Na literatura portuguesa sobre a Guerra Colonial, "Geração Afro" inscreve-se numa tradição rica que inclui: 
  • António Lobo Antunes ("Os Cus de Judas", "Fado Alexandrino") — com o qual partilha o desencanto patriótico, ainda que Recaredo opte por uma prosa muito menos experimental; 
  • João de Melo ("Autópsia de um Mar de Ruínas") — com quem comunga a dimensão coral; 
  • Álamo Oliveira ("Já não gosto de chocolates");
  •  Manuel Alegre ("Jornada de África"); 
  • e Lídia Jorge ("A Costa dos Murmúrios") — embora esta última numa chave feminina e moçambicana.

Pela valorização das personagens africanas e pela reflexão sobre a complexidade étnica da Guiné, o livro aproxima-se também de obras dos escritores guineenses Abdulai Silá ("Eterna Paixão") e Filinto de Barros ("Kikia Matcho"), bem como do angolano Pepetela ("Mayombe"), com o qual partilha a atenção à guerrilha no interior da selva.

Do ponto de vista memorialístico, remete para "Guiné 1963/1974" do general Spínola e para os testemunhos reunidos em "A Guerra" de Manuel Amaro Bernardo.

(viii) Faixa de preço

Trata-se de um romance histórico de nicho, com forte apelo ao mercado lusófono ex-combatente e à diáspora, mas com alcance internacional limitado pela especificidade temática e pela ausência (por enquanto) de tradução. 

O volume é substancial (Livro I de uma série), o que justifica um preço médio-alto no mercado português e brasileiro, e um preço mais elevado nos mercados europeus não-lusófonos, onde funcionará sobretudo como importação especializada.

Faixa de Preço Recomendada
  • Estados Unidos USD 22 - 32
  • Reino Unido GBP 18 - 26
  • Alemanha EUR 20 - 28
  • Itália EUR 19 - 27
  • Espanha EUR 18 - 25
  • Portugal EUR 18 - 24
  • França EUR 20 - 28
  • Brasil BRL 65 - 95
  • Austrália AUD 32 - 45

(ix) Recomendações de divulgação

A estratégia de divulgação deve articular-se em torno de três eixos principais:

Em primeiro lugar, uma campanha dirigida às associações de ex-combatentes (Liga dos Combatentes, ADFA - Associação dos Deficientes das Forças Armadas, APVG - Associação Portuguesa dos Veteranos de Guerra), com sessões de apresentação em núcleos locais, feiras de veteranos e comemorações do 25 de Abril e do Dia do Combatente (9 de Abril); estas sessões devem incluir leituras dramatizadas de excertos e testemunhos vivos.

Em segundo lugar, uma abordagem académica e mediática: envio de exemplares a centros de investigação em História Contemporânea (IHC-UNL, CEIS20-Coimbra, CH-ULisboa), programas culturais da RTP2, Antena 2 e revistas especializadas ("História", "National Geographic Portugal"); a entrevista imaginada com João Paulo Diniz no PIFAS (referida na própria obra) sugere um filão de comunicação retro-radiofónica interessante.

Em terceiro lugar, uma projecção lusófona sistemática: contactos com livrarias e feiras do livro em Bissau, Praia, Luanda, Maputo, Rio de Janeiro e São Paulo, além das comunidades emigrantes em Paris, Toronto, Newark e Joanesburgo; as redes sociais dedicadas à Guerra Colonial no Facebook (grupos como "Combatentes da Guiné") são vias de divulgação de custo reduzido e alto impacto.

Sugere-se ainda a produção de um documentário complementar com o autor a percorrer os locais reais do romance, o que multiplicaria o interesse comercial e memorialístico.

(Revisão / fixação de texto, negritos: LG)


3. Aviso  ao leitor: 

Certamente por lapso, o nosso grão.tabanqueiro Angelino Santos Silva (escritor, já com vários livros publicados) não mencionou o facto desta análise literária acima publicada (com revisão e fixação de texto feita por um dos editores do blogue)  ter sido  produzida por uma ferramenta de  IA (AILA, a IA do Clube de Autores, que é uma plataforma de autopublicação). 

O Clube de Autores (não confundir com a puquena editora independente Clube do Autor) oferece um serviço de análise literária por IA por 19 euros (por cada manuscrito de 150/200 páginas), com entrega do relatório no prazo de 24 horas, o que é muito mais rápido e barato do que a média de mercado (c. 236 euros  e entrega entre 6 a 10 semanas, segundo a publicidade que o Clube de Autores faz). 

Isso é um ponto forte para autores que entram agora nas lides literárias, querem publicar o seu primeiro livro ou ter um primeiro "feedback"  do seu trabalho e não têm recursos financeiros para  investir em análises humanas detalhadas. 

Portanto, este é um ponto positivo do recurso à AILA (a IA do Clube de Autores), que, além disso, faz uma abordagem relativamente abrangente,  focando  14 dimensões do manuscrito:

(...) 1. Estrutura e organização: fluidez e lógica da sua narrativa | 2. Livros irmãos: sugestão de livros semelhantes para referência de mercado. | 3.  Temas e mensagens principais: claridade das ideias centrais do livro. | 4. Faixa de preço recomendado: indicação de valor para otimizar as vendas (no mercado interno e externo). |5.  Linguagem e estilo narrativo: avaliação da "voz" do autor e do ritmo da leitura. | 6. Recomendações de divulgação:  dicas práticas para promover o livro. | 7. Profundidade filosófica: a dimensão das reflexões presentes no livro. | 8. Pontos fortes: o que há de melhor e mais impactante em escrita do autor | 9. Impacto emocional: capacidade da história de envolver e comover o leitor. | 10. Oportunidades de melhoria: sugestões para aprimorar a qualidade do livro. | 11. Originalidade e inovação: "o quão único" é  o livro no cenário literário português. | 12.  Parecer final: uma conclusão clara sobre o potencial do  livro; pontuação (de 1 a 5) da  IA sobre o manuscrito. | 13. Público-alvo ideal: quem são os leitores perfeitos para o livro. | 14. A AILA sugere  ainda a produção de um documentário complementar com o autor a percorrer o cenário ou os lugares da ação. (...)

Mas as limitações da análise literária da AILA (ou outras ferramentas de IA) são óbvias: 

  • falta de sensibilidade humana, incapacidade para entender, em profundidade,   o contexto cultural, histórico ou emocional  da ação e dos personagens; 
  • falta de criatividade e subjetividade, análise superficial, baseada em fórmulas pré-definidas, sem profundidade crítica;  
  • não-personalização (a AILA não dialoga com o autor, não tem empatia, etc.)... 
Mas por 10 cêntimos a página, não se pode pedir muito mais ao "crítico literário" dos pobrezinhos...

Em resumo, o Clube de Autores é uma plataforma de autopublicação, oferecendo um serviço de análise "baratucho" , e que serve como "engodo" para atrair clientes para os outros serviços (edição, impressão, tradução, divulgação, etc.).  

E não é preciso, mas convem dizê-lo: a AILA ainda não chega aos calcanhares do nosso crítico literário, o Mário Beja Santos.

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Nota do editor LG:

Último poste da série > 22 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28280: Notas de leitura (1952): "Geração Afro: Os Últimos Guerrilheiros do Império" (volume I, 2026, 455 pp sinopse feita pelo autor, Recaredo (pseudónimo literário de Angelino Santos Silva, ex-fur mil 'cmd', 26ª Cmds, CTIG, 1970/71)

Guiné 61/74 - P28283: Parabéns a você (2518): Fernando Cepa, ex-Fur Mil Art da CART 1689 / BART 1913 (Catió, Cabedú, Gandembel e Canquelifá, 1967/69)

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Nota do editor

Último post da série de 22 de Agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28279: Parabéns a você (2517): José Luís Vacas de Carvalho, ex-Alf Mil Cav, CMDT do Pel Rec Daimler 2206 (Bambadinca, 1969/71)