segunda-feira, 25 de março de 2019

Guiné 61/74 - P19620: Voluntário em Bissau, na Escola Privada Humberto Braima Sambu - Crónicas de Luís Oliveira (7): O futebol e não só... O futebol faz parar a cidade... E se as mulheres guineenses parassem ?... Mais de metade da população morreria de fome.






Guiné-Bissau > Bissau > Março de 2019 >  As alegrias e as tristezas do futebol...


Fotos (e legendas): © Luís Oliveira (2019) . Todos os direitos reservados. (Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné).

1. Sétima crónica do Luís Mourato Oliveira, nosso grã-tabanqueiro nº 730, que foi alf mil inf, de rendição individual, na açoriana CCAÇ 4740 (Cufar, 1973, até agosto) e, no resto da comissão, o último comandante do Pel Caç Nat 52 (Setor L1 , Bambadinca, Mato Cão e Missirá, 1973/74): é lisboeta,fezo Liceu Pedro Nunes, é bancário reformado, foi praticante e treinador de andebol, tem fortes ligações à minha terra natal, onde agora vivo, Lourinhã, Oeste, Estremadura...

Chegou a Bissau, a 2 de março de 2019, e aqui vai estar 3 meses como voluntário na Escola Privada Humberto Braima Sambu, no âmbito de um projeto da associação sem fins lucrativos ParaOnde, que promove o voluntariado em Portugal e no resto do Mundo.


Data - 21/03/2019, 12:57

Olá Luís

Mais uma crónica do futebol que partilhei contigo na Google Drive.

As fotos que seguiram sem qualquer legenda representam o naming do estádio Bom Fim, a mulher festejando o golo feminino e a baliza do estádio.

O Salinas também está representado tal como a programação.

Grande abraço,

Luís Oliveira
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Voluntário em Bissau, na Escola Privada Humberto Braima Sambu - Crónicas de Luís Oliveira (7): Guiné-Bissau e o Futebol...e não só


Não sendo o desporto da minha preferência, uma das coisas que iria abdicar quando decidi vir em missão de voluntariado seriam as visitas futeboleiras ao Estádio de Alvalade para ver o meu Sporting. 


Mais que o jogo, vale o convívio com amigos de longa data, as imperiais sempre frescas e a expectativa de uma grande exibição o que infelizmente para nós, sportinguistas, há muito tempo vai faltando.

Como será na Guiné? Num café à semelhança de Lisboa, porque com tantos aficionados do futebol, os guineenses de certeza que acompanham as diversas ligas da Europa, mas aqui não há os tais cafés ou tascas que proliferam em Portugal e em certas alturas tanto jeito dão. 

Perguntei ao Abubacar onde se podia ver futebol, pois o Sporting defrontava o Boavista e era uma boa forma de passar o serão melhor ainda se o meu clube sacasse os três pontitos que tanta falta estão a fazer.
Convidou-me imediatamente para o acompanhar ao “salon” porque também ele, sportinguista, não perdia o jogo por nada. Combinámos o encontro à porta do contentor e quinze minutos antes do jogo, à hora marcada o Abubacar apresentou-se tal como eu e sem prévia combinação com a lindíssima camisola de riscas verdes que é a cor da esperança.
” Para o ano é que é !”.

“Salon” I


O “salon” é apenas um armazém com cerca de cento e cinquenta metros quadrados. Cem Francos CFA para entrar e lá dentro uns bancos corridos, um mega LCD na parede e umas engenhocas estranhas onde estava incluída uma ventoinha apontada às box não fosse o jogo aquecer e aquilo dar para o torto.
Lá começou o jogo e logo no início da transmissão uma primeira paragem. Não se deveu por excesso de velocidade dos jogadores do Sporting, porque após a acção bem direcionada da ventoinha e das manobras mágicas do técnico, acompanhadas de pancadinhas na box, quando voltamos a ter imagem o Sporting já perdia por 1-0.
Como em todas as tascas em Portugal, um dos espectadores, certamente já precavido com as interrupções que aqui não são da responsabilidade do VAR, de banana no ouvido não perdia uma! Até deu com antecedência a noticia do invisível para nós golo Boavisteiro.

Jogo morno de pouca qualidade que finalmente chegou ao intervalo empatado. Em substituição da bica ou do gelado em Alvalade, o Abubakar brindou-nos com laranjas descascadas que uma mulher grande vendia à porta do “salon”.
Final do Jogo, 2-1 para o Sporting com pontapé de penalty polémico contestado por uns justificado por outros e semelhança do que acontece no estádio todos comentámos o jogo e as suas contingências. Não faltaram as críticas ao árbitro, ao posicionamento e empenho dos jogadores, às opções do mister Kaiser… Éramos todos treinadores de “salon” .

“Salon” 2

Dia de jogo da Champions que parecia estar a entusiasmar os guineenses e eu não percebia bem porquê, jogavam a Juventus versus Atlético de Madrid.

Confesso que em Espanha a equipa que mais admiro é o Atlético de Madrid, para além de ser o clube do povo republicano e inicialmente achincalhada pela elite aristocrática madrilena pelo seu equipamento às riscas se assemelhar ao colchões da época (colchoneros), rendo-me à garra, à ausência de galácticos e à personalidade combativa inspirada por Diego Simeone. Mas sendo o adversário a Juventus, agora a reboque do nosso Ronaldo, a minha escolha está feita porque nisto de futebol é impossível não tomar partido.


A Silvia e Nôno são aficionadas do futebol, a Silvia, filha de um brilhante futebolista, Pedro Barny, que jogou no Boavista e no meu Sporting na posição de central e chegou à Selecção Nacional de Portugal, também quiseram assistir ao jogo mas desta vez fomos acompanhados pelos nossos vizinhos do lado, familiares da Maia, proprietária da casa dos voluntários.

Os nossos companheiros atrasam-se, ou até já teriam partido sem nos chamar, mas um telefonema da Maia fez com que rapidamente nos viessem buscar e encaminharam-nos para outro “salon”. 

Dia de grandes jogos dois mega LCD (um para transmissão do Manchester City) mas o seu interior não diferia do primeiro onde estive, só que em dia de Champions e com Ronaldo a jogar, a coisa pia mais fino e a entrada aumentou para duzentos e cinquenta Francos.
O Salão estava a abarrotar já não havia lugares sentados e o “peão” era em qualquer lugar desde que houvesse uma nesga para espreitar o jogo. Ronaldo, muito mais do que acontece em Portugal, era o único responsável por toda aquela agitação que nos contagiava e elevava o nosso entusiasmo a níveis que nem todos as claques juntas de Portugal teriam capacidade.

A temperatura ultrapassava em muito os quarenta graus, transpirávamos por todos os poros e toda a gente cabeceava a bolas imaginárias tentando assim empurrar mais alto o Cristiano para que conseguisse por a “teimosa” dentro da baliza mas infelizmente o primeiro golo não valeu! 

À segunda foi de vez ...Gól!, Gól! Gól! Duzentas gargantas a gritar talvez quatrocentas pernas aos saltos, uma festa. Um ruído ensurdecedor.

Ao intervalo toda a gente veio para a rua onde os trinta graus da altura sabiam a frescura. Todos os espectadores receberam um bilhete de prova de pagamento para voltar a entrar, sendo nós (os voluntários) dispensados deste formalidade de segurança, não pelo facto de sermos voluntários, mas facilmente identificados por sermos os únicos brancos no “sálon”.

No grupo que se abeirou de nós para a conversa havia um adepto de Ronaldo especialmente entusiasmado que lamentava a ausência de jogo interior pela Juventus, fazia falta um dez como Modric, mas mesmo sem um dez Ronaldo é o maior e se ele fosse para Angola, jurava que passaria a ser angolano.
Lá recomeçou a partida e toda a gente sem ponta de cansaço. Incentivos permanentes e graças a eles, Gól! Gól!, Gól!. Ronaldo tinha marcado o segundo e passei a ver apenas metade do ecrã porque o movimento daquela massa humana já não me permitia ver mais. Dois golos eram insuficientes e eu já pedia a todos os santinhos que o Cristiano marcasse mais um porque não ia aguentar o prolongamento e devo ter sido ouvido porque mesmo no final do encontro uma falta para pontapé de penalty a favor da Juventus.

Ronaldo avança para o local da marcação. Vai ser mais um hat trick, afiancei às voluntárias e a bola entrou mesmo! Loucura total, apesar da falta de espaço toda a gente aos saltos, cânticos de aves que nunca tinha ouvido, uma alegria enorme, contagiante e pacifica que não me recordo de alguma vez ter vivido num estádio.

Concluí que Ronaldo é o nosso maior embaixador e devemos-lhe respeito e gratidão e encontrei naquele “salon” a verdadeira alegria do futebol que talvez apenas aqui tenha direito ao titulo de Desporto Rei.


“Katem salon” (Não há salão)

No dia da mulher, também celebrado na Guiné-Bissau, no Bairro Militar zona de Santa Clara, as mulheres resolveram mostrar su valor e desafiaram os homens para um jogo de futebol. O prélio não se disputou no Estádio Bom Fim, mas junto às tabancas onde moram e num terreiro que apesar dos buracos e outras irregularidades oferece espaço para a diversão e, a partir das quatro, quando o calor perda a força avançou a força da Mulher.

Duas pedras a fazer a marcação das balizas, equipamento ká tem e o que distingue os jogadores é o género e aqui não há supremacia, elas lutam com garra de igual para igual ignorando as normas sociais e a própria regulamentação do Estado que as condiciona e humilha.

Só assisti ao jogo até que a equipa da mulher marcou golo. GÓL!, GÓL! GÓL! Fiquei para assistir à festa do golo e após esta pequena vitória afastei-me para guardar a alegria com que elas me contagiaram. Para mim este resultado foi o final.

O jogo vai prolongar-se muito para além dos noventa minutos, talvez anos mas o desporto, neste caso o futebol, é um dos veículos de integração e que pode contribuir na via para a igualdade de género em todas as áreas da sociedade.

P.S. - O Sociólogo guineense Miguel Barros, investigador da ONG Guineense Tiniguena venceu o Prémio Humanitário Pan Africano em pesquisa de grande impacto social, neste refere a importância da mulher guineense na economia da família e do próprio País.
Alguns dados:

-30% das mulheres menores de idade escolar não frequentam o ensino.

-São as mulheres que trabalham no campo e quase tudo o que se consome na Guiné Bissau é produzido por elas. Trabalham em terras emprestadas ou concessionadas temporariamente. 

-Não têm acesso à propriedade, a própria lei do Estado não permite e mesmo no casamento quando a família oferece um dote, este ficará para sempre na posse do marido e na morte deste e na ausência de filhos a propriedade é herdada pelo irmão do falecido.(#)

Se as mulheres guineenses parassem, mais de metade da população morreria de fome.

(#) A religião muçulmana tem regras próprias que permitem à viúva a posse da propriedade, tratando-se de um dote, mas são frequentemente desrespeitadas.
Bissau, 21/3/2019 
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5 comentários:

Tabanca Grande Luís Graça disse...

Belíssima crónica. Luís!... Estás atento a tudo...E admiro a tua sensibilidade sociocultural!...

Por aqui, está verão. Há malta a tomar banho na Praia da Areia Branca!... Aquele abraço. Luís Graça

Cherno Baldé disse...

Caros amigos,

Sempre que leio estas ideias muito modernas, europeicentristas e pseudo-cientificas fico preocupado, pois parece que a maior preocupaçao daqueles que encomendam e/ou fazem estes estudos pseudo-cientificos é desvirtuar e perverter a verdade historica, a cultura e realidade africanas e mostrar o que os moralistas europeus querem ver nas estampas a fim de sossegar alguma ma consciencia do passado recente das relaçoes pouco humanas e nada amistosas entre os dois continentes.

A realidade social e economica em Africa encontra-se em constante evoluçao e, a semelhança do que aconteceu nos outros continentes, a situaçao da mulher, também, esta a evoluir no sentido de se adaptar as novas realidades e as novas necessidades. Sempre foi assim e a Africa nao sera uma excepçao no mundo.

O problema da proprieade da terra é um fenomeno recente e tem muito a ver com o facto de que o principal produto e factor de subsistencia e de riqueza familiar é o Caju e por isso todos querem ter a sua ponta de caju.


Na regiao da Africa ocidental, o dominio da mulher eram as terras baixas (bolanhas) onde ela era a verdadeira e unica proprietaria e onde se produzia o arroz. A bolanha era dividida em duas parcelas em que uma delas revertia a favor da familia (Maru em fula) e a outra era da mulher (Kamanhan) cuja produçao ela podia utilizar como quisesse, a seu bel prazer. O dominio do homem eram as terras altas onde se produziam os cereais para o sutento familiar tais como milho, sorgo, fundo e a produçao para o Mercado (mancarra ou amendoim) para obtençao de recursos financeiros a fim de fazer face aos impostos e a aquisiçao de bens do Mercado para satisfaçao das necessidades diarias da familia. A ideia de que é a mulher que trabalha e sustenta a familia so pode ter algum sentido nas cidades, onde, por falta de iniciativa e alienaçao cultural, muitos homens estao a espera que o nosso estado, moribundo e em crise permanente crie os postos de trabalho para eles. A verdade é que, com a mudança da realidade socio-economica e o aparecimento das mudanças climaticas que estao a afectar e a destruir o nosso meio e recursos de subsistencia (sobretudo nas terras baixas), os conflitos estao a mudar de terreno, passando para o dominio onde o homem era o dono e proprietario e nao a mulher, pelo que requere uma gestao mais equilibrada no seio das familias.


Em qualquer parte do mundo o homem e a mulher sempre terao a necessidade de se unir para construir o futuro melhor e interagir contra os imponderaveis da vida, do meio ambiente e das mudanças que acontecem no mundo e nao acho que seja bom criar teorias conspirativas e socialmente destruidoras que confundem e desorientam as pessoas com argumentos que nao sao nem viaveis nem sustentaveis a longo prazo.


Com um abraço amigo,


Cherno Baldé

Luís Mourato Oliveira disse...

Caro Cherno
Tenho o maior respeito pelo teu conhecimento da história do continente africano e como até pessoalmente já to reconheci quando te manifestas é sempre uma oportunidade de aprendizagem e de debate.
Não tendo eu competências nem dados para efectuar qualquer estudo ou mesmo análise sumária sobre a condição da mulher na Guiné Bissau,, apoiei-me em informação sobre o trabalho do Dr Miguel Barros, reconhecido em toda a Africa para deixar alguns dados que sendo verdadeiros são importantes para análise e referi-me á situação na Guiné Bissau porque as crónicas são locais. Poderia falar de Portugal com dados semelhantes e até mais cruéis. Em 2019 foram assassinadas 19 mulheres por violencia doméstica. Como bem dizes é necessário a união mulher/homem para construção de um Mundo mais justo e pacifico sem supremacia de género ou poder que o permita
Grande abraço

Valdemar Silva disse...

As fotografias relacionadas com futebol, mereciam ser a apresentadas na cerimónia anual da FIFA. Um mosquiteiro a servir de rede duma tosca baliza e um cinema com matinées/soirées a dar transmissões de jogos de futebol, é para 'Bola de Ouro'.

Quanto ao resto, são os habituais acertados comentários de Cherno Baldé.
Por cá, também, com excepção das grandes ceifas do Alentejo e dos 'ratinhos' da Beira-Baixa, sempre foram as mulheres a trabalhar nas veigas e noutros terrenos de cultivo.

Valdemar Queiroz

Tabanca Grande Luís Graça disse...

Cherno, vou publicar o teu comenta´rio... É muito importante que haja "contraditório" no nosso blogue. As tuas críticas ao Miguel Barros, segundo entendi, teriam a ver com o "eurocentrismo": como tu dizes: "Sempre que leio estas ideias muito modernas, europeicentristas e pseudo-cientificas fico preocupado"... Se me permites a correção, é "eurocêntrico" e não "europeicentrista", salvo melhor opinião dos nossos lexicógrafos. Um abração, mantenhas. LG

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eurocêntrico | adj. s. m.

eu·ro·cên·tri·co
(inglês eurocentric)
adjectivo e substantivo masculino
Que ou aquele que se centra na Europa ou nos europeus.

Palavras relacionadas: eurocentricamente, eurocentrismo.

"eurocêntrico", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, https://dicionario.priberam.org/euroc%C3%AAntrico [consultado em 26-03-2019].