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sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27707: Foi há... (7): 57 anos, o desastre do Cheche, na retirada de Madina do Boé (Op Mabecos Bravios, 6/2/1969)... Só em 19 foi decidido realizar uma operação com fuzileiros especiais e mergulhadores-sapadores da Armada para resgatar os corpos... O brigadeiro António Spínola fez questão de estar presente pessoalmente, com um capelão e coroas de flores com a frase "A Pátria agradecida"






Guiné > Região de Gabu > Cheche > Rio Corubal > "A jangada da morte">  s/d 

© Foto de José Azevedo Oliveira, com a devida vénia / Ediçã0: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné



1. O maior número de vítimas, de uma só vez, no TO da Guiné, aconteceu em 6 de fevereiro de 1969 (*), na sequência da Op Mabecos Bravios. 

Temos cerca de 4 dezenas referências com este descritor, o desastre de Cheche. Morreram 2 furriéis milicianos, 7 cabos, 37 soldados e 1 civil, pertencentes a duas subunidades, a CCAÇ 1790 e a CCAÇ 2405 (**).

Desastre na Guiné": a  notícia chegou tarde às redações dos jornais. O "Diário de Lisboa", que era vespertino, conotado com a "oposiçáo democrática", deu-a em título de caixa alta só na 2ª edição, dia 8 de fevereiro de 1969, que era um sábado. Fez ainda uma 3ª edição.  E limitou-se a reproduzir a "peça" transmitida pela agência oficiosa L [Lusitânia], com proveniência de Bissau e data  8 de fevereiro... 

(...) "Na passagem do rio Corubal, na estrada para Nova Lamego, afundou-se a jangada que transportava uma força militar, havendo a lamentar, em consequência deste acidente, a morte, por afogamento, de 47 militares.(...) 


2. Já "quase tudo" se disse mas ainda fomos descobrir, nos livro da CECA (2015), mais algumas referências ao "desastre do Cheche", que transcrevemos:


(...) Dispositivo (Zona Sul)

Em 08Jun68 é elaborada a Directiva n° 1/68 com vista à remodelação do dispositivo na região do Boé. 

Determina a transferência do aquartelamento de Madina do Boé para local mais adequado, na região do Ché Che. 

Ordena a recolha imediata a Madina do Boé do Destacamento de Béli, devendo ser destruídas as instalações e material que não fosse recuperável. 

No ponto nº 3 refere:

"O CTIG e o CZACVG procederão imediatamente a um reconhecimento da região do Ché Che, em ordem a escolher o local do novo aquartelamento; deverá satisfazer às seguintes condições:

- Situar-se em "área-chave" da região de Ché Che, que permita o lançamento de acções dinâmicas na região do Boé e na margem norte do rio Corubal, e, se possível, que dê garantias de segurança à passagem deste rio no Ché Che (jangada);

- ter uma boa pista de aterragem para aviões "Dakota";

- oferecer boas condições de defesa do aquartelamento, que deve ser planeada com vista a transformar-se numa grande base operacional. "


 CECA (2015), 
pag. 175


(...) Operação "Mabecos Bravios" - 02 a 07Fev69

Forças da CCaç 1790, CArt 2338 (-), CCaç 2383, 2403, 2405 e 2436, CArt 2440, 1 GComb/CCaç 5, Pel Mil 161, Pel AMetr "Daimler" 1258 (...), Pel Sap do BCaç 2835, com APAR (apoio aéreo), efectuaram uma escolta no itinerário Nova Lamego - Madina do Boé - Nova Lamego, L3.

Accionada min a A/C  no cruzamento de Beli, sem consequências; detectadas e destruídas 2 minas A/C  entre Ché Che e Canjadude. Durante a operação, Madina foi flagelada 4 vezes sem consequências. No regresso, na travessia do rio Corubal, um acidente com a  jangada que transportava forças de segurança da retaguarda provocou a morte de 47 militares das NT (2 sargentos, 43 praças e 2 Milícias).



CECA (2015), pág. 353

(...) Em 19fev69, através de Directiva n.º 16/69, foi entregue ao CDMG e ao CZAGCV a realização da Operação no rio Corubal:

"1. Confirmando a ordem verbal dada em reunião de Comandos, determino a realização de uma operação no rio Corubal, com o fim de recuperar os corpos dos militares mortos no trágico acidente de 6fev69, que se encontram à superfície das águas.

2. A operação deve realizar-se na base do helitransporte de uma vaga de "Fuzileiros Especiais",  fortemente apoiada por meios aéreos.

3. Os corpos devem ser agrupados e enterrados no local, devendo as campas ser assinaladas com cruzes de ferro.

4. Desejo ser helitransportado ao local, conjuntamente com um capelão para assistir à cerimónia fúnebre, e colocar nas campas e lançar ao rio coroas de flores com a legenda "A Pátria agradecida". [...]". (***)

CECA (2015), pag. 317


Fonte: Excertos de: CECA - Comissão para Estudo das Campanhas de África: Resenha Histórico-Militar das Campanhas de África (1961-1974) : 6.º Volume - Aspectos da Actividade Operacional: Tomo II - Guiné - Livro I (1.ª edição, Lisboa, Estado Maior do Exército, 2014), pp. 175, 317, 353.



2. Falta-nos, entretanto, o  testemunho do ex-alf mil José Luís Dumas Dinis, da CCAÇ 2338, então comandante da força que guarnecia o destacamento de Cheche.


Recorde-se aqui um excerto do testemunho do então cap inf José Aparício, hoje cor inf ref, na altura cmdt da infortunada CCAÇ 1790, que sofreu o maior número de vítimas:

(... ) Chegados à margem direita, ao proceder-se à contagem constatou-se a falta de 47 militares das duas Companhias.

O Comandante da Operação 
[, cor inf Hélio Felgas,] não permitiu que as duas Companhias [, CCAÇ 1790 e CCAÇ 2405, ] permanecessem no Ché Che para tentarem recuperar o maior número de corpos possíveis, seguindo por isso logo para Nova Lamego.

O acidente em causa deu origem de imediato a um Auto de Corpo de Delito, e a longas e complexas averiguações, incluindo todos os aspectos da operação, que em 1970 terminaram em julgamento em Lisboa no 3.° Tribunal Militar Territorial, que durou várias sessões e que terminou com a absolvição do único réu, o alferes miliciano comandante do Destacamento estacionado no Ché Che [pertencente à CART 2338, Fá Mandinga, Nova Lamego, Canjadude, Buruntuma, Pirada, 1968/69] ". (...) (****)


Ainda continua por realizar o prometido encontro, há anos, do nosso editor Luís Graça com o ex-alf mil José Luís Dumas Diniz (da CART 2338), responsável pela segurança da jangada que fazia a travessia do rio Corubal, em Cheche, aquando da retirada de Madina do Boé.

Uma peça fundamental para eventual encontro será ou seria o ex-alf mil trms, Fernando Calado, da CCS/BCAÇ 2852 (Bambadinca, 1968/70), membro da nossa Tabanca Grande, e meu contemporâneo da Guiné (estivemos juntos, em Bambadinca, entre julho de 1969 e maio de 1970), e amigo do Dumas Diniz.

Foi o Fernando Calado que me pôs em contacto com o José Luís Dumas Diniz, que vivia a maior parte do tempo em Coruche. Infelizmente o Fernando morreu o ano passado, em 24 de junho.

Guiné > Região de Gabu > Carta de Jábia (1961) > Escala 1/50 mil > Posição relativa de Ché Ché, na margem esquerda do Rio Corubal.

Infografia: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2025)

_____________

Notas do editor LG:


(**) Vd. poste de  6 de fevereiro de 2022 > Guiné 61/74 - P22974: In Memoriam (426): Paz para a alma de todos os nossos camaradas que morreram no desastre de Cheche, faz hoje 53 anos...Foram 47 vidas ceifadas na flor da idade... Estupidamente!... (Virgílio Teixeira, ex-alf mil SAM, CCS / BCAÇ 1933, Nova Lamego e São Domingos, 1967/69)(*) 

(***) No dia 20 de fevereiro de 1969, uma equipa de mergulhadores-sapadores da armada, após várias operações de busca, a cerca de 400 m a  jusante do local do acidente,  conseguir resgatar  os restos mortais de 11 militares (irreconhecíveis), seguidamente helitransportados para Bissau e sepultados no cemitério municipal, no talhão dos combatentes.

Náo sabemos se o comandante-chefe chegou a estar presente, como era sua intenção.

10 comentários:

Tabanca Grande Luís Graça disse...

Nunca é demais lembrar esta trágica efeméride e honrar a memória dos nossos camaradas que lá ficaram, nas águas e nas margens do rio Corubal. Foram vítimas inocentes de uma guerra que não tinha fim à vista.

"Desastre", em contexto de guerra, é sempre um eufemismo. A verdade é que estes nossos camarada não morreram por ação direta do inimigo. Em combate. Mas morreram pela Pátria.

57 anos depois, a vida continua, a Pátria continua... E alguém sabe lá onde era esse sítio de cambança do Rio Corubal, que uns chamavam Cheche, outros Ché-Ché... (Na carta de Jábia, o cartógrafo grafou "Ché-Ché" e a gente devida seguir a sabedoria dos nossos cartógrafos...).

A vida é curta, e a memória ainda mais. Cabe-nos honrar a memória dos que morreram.

Anónimo disse...


Carlos Pinheiro (comentário, Tabanca Grande | 6 fev 2026, 11h30)~

Eu estava lá e devo ter sido dos primeiros a receber a triste notícia porque estava no STM no QG. Dois sobreviventes, da CACÇ 1790. vieram parar ao meu serviço como estafetas. Um era um Soldado normal mas o outro era analfabeto e mal sabia falar. Estiveram meses a viver debaixo do chão mas um senhor de muitos galões insistiu que o abandono de Madina do Boé se realizasse nas jangadas constituídas sobre três canoas.

Ao princípio a operação corria bem mas na última travessia uma das canoas estava partida e a jangada, com tanto peso mal arrumado, afundou-se. Foi uma grande tragédia. Mas o Coronel que estava ao longe a comandar a operação, no 10 de Junho a seguir foi condecorado no Terreiro do Paço. Era assim...

Tabanca Grande Luís Graça disse...

Carlos, eu não estava lá, mas conheci a malta do BCAÇ 2852 a que pertencia a CCaç 2405... Temos, de resto, vários camaradas dessa subunidade que integram a Tabanca Grande...Quando cheguei à Guiné, em finais de maio, ainda se falava, com comoção, do desastre do Cheche...

É "humano" arranjar um bode expiatório...

A teoria do bode expiatório é um dos mecanismos psicológicos e sociais mais persistentes da história da humanidade. É extremamente perigosa porque tende a simplificar o que é altamente complexo (o "caos", para o homem comum: terramotos e desastres naturais, pandemias, por exemplo, mas também outras catástrofes como a guerra, incêndios, acidentes brutais de comboio ou avião, naufrágios, etc.) convertendo uma "culpa coletiva" (?) ou um "azar sistémico" (?) num alvo individualizado.

No caso da Op Mabecos Bravios, seria o seu comandante, ocor Hélio Felgas, que de facto no ano seguinte foi ao 10 de junho receber a sua "Torre e Espada" (o galardão mais cobiçado por militar português).

Quando a "desgraça" nos bate à porta, como nos dias de hoje (de Leiria a Alcácer do Sal), o "homem comum" raramente busca as causas complexas ou assume a quota-parte (mesmo ínfima) de responsabilidade que lhe cabe, enquanto cidadão, munícipe, consumidor, predador, poluidor, etc..

A nossa tendência, é arranjar logo um rosto para culpar e odiar. Em geral, alguém (ou algum grupo) fora do nosso "círculo" de influência, conforto, território... No passado, os bárbaros, os hunos, os mouros, os judeus, os cristãos-novos... Agora há muitos mais...

Será assim uma tendência ""tão" instintiva ? Afinal, somos "primatas", dizem os zoólogos... Como explicar as "desgraças" de que somos vítimas ?

Talvez estas pistas da área da psicologia social ajudem: (i) redução da ansiedade; (ii) sentimento de controlo (mesmo falso); (iii) coesão grupal e (iv) mecânica da desgraça.

A incerteza é insuportável. É mais reconfortante acreditar que existe um "vilão" específico causando o problema do que aceitar que o sistema (sociotécnico, socioetal, o Estado e a socieade, a economia) falhou ou que o azar (o "fatum") é aleatório.

Se há um culpado, a solução é fácil: basta eliminá-lo, puni-lo, isolá-lo (os "terroristas", os "insurgentes", as "minorias", etc.) para que a "normalidade" seja restabelecida. Quase por magia.

Nada une tanto um grupo quanto a existência um "inimigo comum" (cristãos 'versus' mouros, brancos 'versus' pretos, puros 'versus' impuros, etc.). Apontar o dedo (ou a arma) para "o outro" , fortalece o "espírito de grupo" e desvaloriza as nossas próprias fissuras internas, as nossas divergências, as nossas fraquezas, etc.
(Continua)

Tabanca Grande Luís Graça disse...

Teoria do bode expiatório

(Continuação)

Há ainda o mecanismo da "desgraça": isso tem a ver com a nossa cultura judaico-cristã...O termo tem origem bíblica (o ritual do Levítico, onde um animal carregava simbolicamente os pecados do povo para o deserto).

Transposto para os dias de hoje, esse mecanismo opera em várias escalas:

(i) a família: o "filho problema" (drogado, psicótico, vagabundo, falhado, etc.) absorve as tensões de um casamento infeliz.

(ii) empresa / organização / grupo empresarial: o gestor ou o CEO demitido pelos "maus resultados" imputáveis à "crise económica (ou, exemplo mais comezinho, o treinador de futebol...que "paga as favas" dos maus resultados da equipa);

(iii) sociedade / Estado / Nação: minorias ou estrangeiros que são culpados por crises económicas, derrotas militares, pandemias, etc. (veja-se o que se passou com a ascensão de Hitler ao poder).

É mais fácil usar o chicote (num desgraçado) (fisica e metaforicamente falando) do que sentarmo-nos à mesa para aprender com a análise de um problema (causas próximas e remotas, processo, consequências) de modo a prevenir ou atenuar os efeitos de problemas mais graves no futuro...

A onda de populismo, negacionismo, irracionalidade, autoritarismo, ódio (contra a ciência, a arte, a cultura, as elites), etc. que varre hoje o mundo (de Portugal aos EUA, da Rússia à China, etc.), tem muito a ver com essa teoria do bode expiatório.

Carlos, recuso-me, por isso, em entrar na tentação de procurar um "culpado" para o desastre do Cheche... Ainda falei com o major-general Hélio Felgas antes de morrer...

Anónimo disse...

Como sempre lembro esta tragédia.
Porque convivo com a cc1790 em Santa Margarida no IAO,
Porque convivi com eles em Nova Lamego,
Porque os vi partir para Madina e assisti à chegada chegada da CC1589,que regressou depois de um ano naquele ambiente.
Porque o alf Loureiro do pelotão de BELI era meu amigo,
Por tudo e por aquilo que aconteceu, só temos uma palavra
Que Deus os tenha em eterno descanso.
VT

Anónimo disse...

Átila O HUNO, o flagelo de DEUS.
HUMOS SINÓNIMO DE GUERREIRO E SELVAGEM.
Eu era fã destes CROMOS!
JÁ não me lembro de muitos, mas lia tudo.
Na juventude claro
Ab
Virgílio Teixeira

Anónimo disse...

Conheci uma mulher que em conversa disse que o seu pai, caçador de sempre, estava na jangada e que depois de ser dado como morto apareceu.
Livrou se dos pesos e sobreviveu!
Pedi lhe para nos pôr em contacto, mas nada após tentativas várias
Era da CC1790!
Eu expliquei que era uma companhia do meu batalhão.
Deu os pormenores todos, mas não me disse mais nada!!
Será ficção?
Alguém pode dar uma ajuda?
Não conheço casos desses
Quem souber pode dar alguns butaites.
VT

Victor Costa disse...

Conheci um dos sobreviventes, era soldado atirador natural da Ortigosa. Quando regressou, casou com uma rapariga da terra e depois emigrou para a Alemanha. Em 2020, antes de falecer(2022), falou-me da tragédia. Passados todos aqueles, ainda se recordava de pormenores difíceis de acreditar. Só quem passa por elas, pode avaliar e compreender, porque os filmes reais nunca esquecem.

Anónimo disse...

Virgílio Teixeira
Claro Víctor Costa,
nada esquece, em especial esta situação.
Concerteza há sobreviventes, mas ser dado como morto vários dias e depois aparece?
Esta versão que me contaram não acredito muito, é dada a ausência de contactos....
Até

Paulo Santiago disse...

Virgilio
Não sei se nesta tragédia do Corubal,houve alguém dado como morto e,passados dias apareceu vivo.
Deves conhecer a história do António Batista,dado como morto numa emboscada em 17/04/72.Funeral com as devidas Honras em Julho daquele ano, em Setembro/74 chegou a Lisboa,vindo da Guiné.A história está no blogue.