Foto: © Humberto Reis (2006). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné.]
Pinto Carvalho. Foto LG (2010 |
Além disso, é um poeta de talento. E tem o culto da memória (e da amizade). Adora, por outro lado, conviver. Faz parte da Magnífica Tabanca da Linha e da Tabanca do Centro.
Natural do Cadaval, é advogado, e régulo da Tabanca do Atira-te ao Mar (... e Não Tenhas Medo), Porto das Barcas, Atalaia, Lourinhã.
É autor de uma brochura com a história da unidade, a CCAÇ 3398, distribuída no respetivo XXV Convívio, realizado no Cadaval, em 18/9/2021.
Tem 80 referências no nosso blogue, e é membro nº 633 da Tabanca Grande (desde 7/12/2013).
A Casa Gouveia, com sede em Bissau, servia a totalidade do território devido às suas sucursais que, em 1948, eram 14: Bafatá, Bambadinca, Binta, Bissorã, Bolama, Brames, Cacheu, Teixeira Pinto, Farim, Nova Lamego, Geba, Mansoa, Sonaco e Pelundo. Sucursais em que se vendiam bens adaptados à vida em contexto rural e atmosfera étnica (têxteis, bicicletas, aparelhos de rádio, máquinas de costura, utilidades domésticas e querosene).
Este ano, a 9 de maio, em Águeda, a CCAÇ 3398 / BCAÇ 3852 ("Os Incendiários", Buba, 1971/73) vai realizar o seu XXX Convívio Anual. Achámos por bem, em homenagem a estes "piromaníacos", publicar aqui esta história, "divertida" mas também "edificante" (*), do tempo em que passaram pelo CIM de Bolama: nas andanças da IAO (de 5 de a 31 de julho de 1971), o Joaquim com o seu pelotão entrou, sem dar por isso, numa plantação de coqueiros que tinha dono.
O sr. Gouveiia, abaixo referido, não seria por certo o fundador da Casa Gouveia... Recorde-se o que aqui já dissemos sobre ele o António da Silva Gouveia:
- foi deputado republicano, entre 1911 e 1915;
- era um típico "africanista" do Séc. XIX que se instalara em Bolama justamente em 1879;
- devia ter nascido por volta de 1850;
- em Bolama, capital da província, criara a maior empresa daquela colónia africana, a Casa Gouveia;
- mais tarde, em 1921, a Casa Gouveia é adquirida pela CUF - Companhia União Fabril, que passou a ser o sócio mairitário;
- em 1961, passaria a sociedade anónima, por ações.
De 1911 a 1915, António Silva Gouveia teve assento na Câmara dos Deputados, como representante da Província. Em 1912 aderiu ao Partido Republicano Evolucionista, dirigido por António José de Almeida (considerado de centro-direita, dentro do republicanismo).
(...) Este homem, de que se desconhecem muitos aspectos da sua vida, e que antes de ser empresário e político, foi "moço e marinheiro, piloto e capitão de navios" (sic), orgulhando-se de conhecer toda a África, ocidental e oriental, mereceria muito provavelmente uma boa história, uma boa biografia, um bom filme...
Não sabemos onde nasceu nem onde morreu. Fazia gala de dizer que era "um homem que não tinha o exame de instrução primária" e que acreditava na "iniciativa privada", vociferando contra o estado (lastimável) em que se encontrava a província no início do Séc. XX. (...) (**)
Era a principal empresa da Guiné, e nomeadamente ao nível das exportações:
(...) "reunia e transportava para a metrópole os cultivos locais (mancarra, purgueira, rícino, algodão, mandioca) e as produções espontâneas de palmares, mangais, arrozais, bananais e outras frutas tropicais. Na segunda metade dos anos 1920 a procura internacional de produtos como a borracha e as oleaginosas desceu e bem assim os seus preços, no contexto das dificuldades da Grande Depressão de 1929-1933.” (Fonte: Poste P24235, de 19 de abril de 2023).




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Notas do editor LG:
(*) Último poste da série > 6 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P27991: Humor de caserna (262): O poeta Bocage (que foi oficial da marinha de guerra) e o Café Nicola, no Rossio, em Lisboa
(**) Vd. poste de 10 de outubro de 2010 > Guiné 63/74 - P7109: Historiografia da presença portuguesa em África (38): António da Silva Gouveia, fundador da Casa Gouveia, republicano, representante da colónia na Câmara dos Deputados, na 1ª legislatura (1911-1915) (Parte II) (Carlos Cordeiro)
(*) Último poste da série > 6 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P27991: Humor de caserna (262): O poeta Bocage (que foi oficial da marinha de guerra) e o Café Nicola, no Rossio, em Lisboa
(**) Vd. poste de 10 de outubro de 2010 > Guiné 63/74 - P7109: Historiografia da presença portuguesa em África (38): António da Silva Gouveia, fundador da Casa Gouveia, republicano, representante da colónia na Câmara dos Deputados, na 1ª legislatura (1911-1915) (Parte II) (Carlos Cordeiro)
11 comentários:
Nas muitas e variadas operações em que participei durante a minha comissão, deparei-me com várias tabuletas pregadas em árvores de grande porte, onde se podia ler: " Cuidado com o fogo. Propriedade da CUF"
Abraço
Eduardo Estrela
Meu caro Joaquim: Nunca fui a Bolama nem ao Cumeré (o meu CIM foi Contuboel, junho/julho de 1969), nem sequer me lembro de ver coqueiros por onde andei (mas devia haver, havia "pontas" com manga de frutas tropicais)...
Mas a "cena" foi bem apanhada e descrita por ti...Uma história, de facto, divertida e edificante...
O sr. Gouveia, afinal, era o dono daquilo tudo...E não sabia ler nem escrever, imagina aonde ele poderia ter chegado se tivesse tirado a 4ª classe... Foram estes homens (os Gouveia, os Brandão, os Correia, os Teixeira, os Saad, etc.) os lídimos representantes do nosso império...Sem esquecer os Baldés...
Boa pergunta a tua: o que é que eu faço aqui ?... De facto, um gajo não podia pensar muito, sob pena de entrar em "curto-circuito" com o sistema...
Um abraço, Luís
PS - Não te esqueças do ficheiro que te pedi, com o pdf da brochura com conytributos para a história da CCAÇ 3398...Bom encontro, no sábado. E vê se há "incendiários" com "material pirotécnico" de interesse para o nosso blogue...Tenho lugares livres à sombra do nosso poilão: os nºs 915, 916, 917, etc. (até 1000, ainda cabem 86!)
Joaquim, cinco euros de cocos foi quanto custou a "brincadeira"... 16 escudos na época já era dinheiro...
Também não me lembro de ver coqueiros, mangais,
e outros mais
Bananas vi uma plantação na zona de Nova Lamego.
O Luís refere ali no seu comentário, os anafados que mandavam naquilo tudo.
Consta aí os TEIXEIRA!
Mas não é da minha família, montes e florestas tínhamos na circunvalação, na Asprela, no Monte de S Gens, as margens do rio Leça, Santa Rita e o enorme jardim da Arca de
água, que era de todos!
Abraço e bom momento de humor 🤓
Virgílio Teixeira
Fico tranquilo, Vt, nunca andaste com "más companhias"... O homem chamava-se Fausto da Silva Teixeira (1900-1981). Foi desterrado para a Guiné, nos anos 20, por "razões políticas"... Tornou-se um madeireiro de sucesso...
Tinha serrações modernas, mecânicas, em Bafatá, Fá Mandinga e Banjara, antes da guerra. A sua firma foi fundada logo em 1928. Sabemos que em 1947 já estava plenamente integrado na sociedade guineense, sendo um "empresário respeitável"...
Teria 25 anos quando foi desterrado para a Guiné em 1925, ainda no tempo da República...
Outros companheiros de desventura:
(i) Gabriel Pedro (1898-1972) (igualmente desterrado para a Guiné e depois para o Tarrafal, tal como o seu filho Edmundo Pedro);
(ii) Manuel Viegas Carrascalão (1901-1977) (operário gráfico, anarcossindicalista, preso sob a acusação de bombismo e de pertencer, tal como Fausto Teixeira e Gabriel Pedro, à "Legião Vermelha", acabando por ser desterrado para Timor em abril de 1927, no navio "Pêro de Alenquer", numa viagem que vai demorar 5 meses, com passagem por Cabo Verde, Guiné, onde desembarcam alguns deles e entram outros, e Moçambique onde é rendido o comandante do navio.).
Eu queria dizer: "Fica tranquilo"...
A Guiné tem hoje a abundância de cajueiros que se dá bem naqueles solos vermelhos lateríticos, conhecidos por pouco produtivos para qualquer agricultura, até para lenha de cozinhar é pobre.
Tem as bolanhas que quando bem controladas com os 'trabalhosos diques poderá produzir bastante arroz pelo menos para consumo próprio.
E tem as maravilhosas mangas no seu tempo próprio.
E há ou havia na tradicão colonial a produção da cana em alguns poucos terrenos apropriados para o apreciadíssimo grogue dos caboverdeanos.
Era e é tudo muito pequenas produções, e se alguma coisa seria exportada, no tempo colonial, como amendoim e coconote (oleo de palma) e algum cajú, será que daria para pagar o frete dos barcos da SOGERAL (CUF) subir o Geba até Bissau?
Sem a CUF, sem os seus barcos de cabotagem atravez das colonias e as suas tripulações quase exlusivamente caboverdeana, a Guiné quase nem existiria.
A CUF devia começar a ser pensada por quem passou 24 meses na Guiné, não como se olhássemos para uns quaisquer latifundiários do Alentejo.
A coisa fiava mais fino!
Antonio Duarte (by email)
7 mai 2026 13:45
Fomos uns empregados da CUF durante dois anos, pagos pelo Estado .
Como diz o outro, é a vida….
A Pátria confundia-se com os Mellos …. E agora confunde-se com quem????
Estou velho e ainda não descobri.
Enfim, como dizia o Capitão Gaspar, “Siga a Marinha”.
Abraço a todos.
António Duarte
Cart 3493 e Ccaç 12
Dez 71 a Jan de 74
Gandamalha, António Duarte!
"A Pátria confundia-se com os Mellos".
A custos do Estado e dos fundos da Segurança Social (da Previdência Social, como, então, se designava e que, agora - dizem - está descapitalizada...), que continuam a ser geridos pelo Estado. O que não acontece com a ADSE.
Os cocos do sr. Gouveia!...É um achado, Joaquim. Toda a malta ouvia falar da "Casa Gouveia", mas não sabia da existência nem da história do sr. António da Silva Gouveia, que se gabava de não saber ler nem escrever...e que fez fortuna na Guiné. Foi inclusive deputado, no tempo da República, entre 1911 e 1915. Nessa altura já devia ter mais de 60 anos. Calculo que tenha nascido por volta os anos de 1850. Foi embarcadiço, marinheiro, aventureiro, capitão, até se instalar como colono em Bolama, nos finais dos anos 70, talvez com 30 anos.
Em suma, o sr. Gouveia não podia ser vivo em 1971 quando tu e o teu pelotão andaram a roubar-lhe os cocos, em Bolama...Meio século antes, no início dos anos 20, já o homem, para acautelar a velhice, se tornara sócio minoritário da Casa Gouveia, marca da sociedade por quotas António da Silva Gouveia Lda... O patrão era agora o Alfredo da Silva, o fundador e dono da CUF, que ficou com a quota maioritária.
Julgo que que muita malta nossa associasse a Casa Gouveia ao sr. Gouveia, há muito falecido. Os mais bem informados sabiam que era uma "sucursal" da CUF... e praticamente a dona da Guiné, juntamente com a rival, mas com menos peso na economia, a Sociedade Comercial Ultramarina, do BNU - Banco Nacional Ultramarino.
Um alfabravo. Luis
A Guiné não era a joia da coroa, é verdade...E só dava prejuízo ao Governo Português, queixava-se o "Botas". Mas a CUF tinha muito orgulho no "Óleo Fula".. A mancarra, o coconote e mais uns tantos produtos comprados por tuta e meia ao camponês guineense faziam-lhe jeito nas suas fábricas... E na volta vendiam-se "bugigangas" ao pobre do guineense, que era obrigado a cultivar alguns produtos comerciais para obter patacão e pagar o imposto de palhota...Foi assim que o colonismo europeu quis "civilizar" a África...
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