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quinta-feira, 21 de maio de 2026

Guiné 61/74 - P28044: Humor de caserna (268): o anedotário da Spinolândia - Parte XXXVI: mais uma alucinação da IA, "o general do cavalo branco"




Guiné > Região de Gabu > Canquelifá >  s/d (c. 1960)  > Um dos cavalos brancos (uma pileca...) do régulo Sene Sané, tenente de 2ª linha, e o seu tratador. Foto oferecida às filhas do empresário Manuel Joaquim dos Prazeres, o mítico homem do cinema ambulante... Foto do álbum de Lucinda Aranha, autora de "O homem do cinema: a la Manel Djoquim i na bim", Alcochete, Alfarroba, 2018, 165 pp.

No verso da foto  lê-se, em português corretíssimo, e com uma boa caligrafia: "Oferta para (as) meninas: Esta fotografia é do meu cavalo e o seu tratador. Tem presentemente 7 anos e custou 11.000$00. É uma oferta aliada ao interesse que os metropoliatanos tem ao gado 'cavalar' africano. Do amigo Sene Sané, régulo e tenente."  ( A oferta era da foto, não do cavalo...)

Este homem, poderoso, régulo, tenente de 2ª linha, aliado dos portugueses, inimigo mortal do PAIGC, era vogal do Conselho Legislativo da província. Morreu  em 1969, escapou pelo menos ao pelotão de fuzilamento que o esperaria em 1975.


Foto (e legenda): © Lucinda Aranha (2021). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



António de Spínola, Guiné,
 s/d. (c. 1968/73).
Fonte: cortesia de
CM Lisboa (2010)

1. Uma das anedotas "mais divertidas" que correm na Net, repetidas "ad nauseam" pelas ferramentas de  IA  (do ChatGPT ao Gemini), é a do "general do cavalo branco":

Diz a ferramenta de IA | ChatGPT Open AI):

(...) "Ela ilustra perfeitamente o estilo exuberante, o pendor teatral e a vaidade de oficial de cavalaria que caracterizavam o general António de Spínola durante o seu mandato como Governador e Comandante-Chefe (1968–1973)"...

Reza assim (citamos "ipsis verbis"... a "menina IA" que ma quis vender):

(...) Diz-se que o General Spínola, com a sua costumada farda impecável, o monóculo cravado no olho, as luvas de pelica branca e o inseparável pingalim na mão, decidiu que a melhor forma de afirmar a soberania portuguesa e a sua própria presença pacificadora nas ruas de Bissau era passear-se montado num majestoso cavalo branco.

O cavalo, trazido expressamente para o efeito, brilhava tanto  
quanto as botas do general. Spínola cavalgava de peito feito, distribuindo acenos à população local, convencido de que aquela demonstração de altivez e "ação psicossocial" impressionaria tudo e todos.

Acontece que, a dada altura do passeio, o belo cavalo branco — que não estava habituado ao calor húmido da Guiné, muito menos à barulheira dos jipes, das Berliets e da azáfama do mercado — assusta-se com um barulho qualquer, perde a compostura e desata num galope descontrolado pela avenida da República, a artéria principal da cidadezinha colonial.

O general, apesar de ser um cavaleiro exímio e antigo instrutor de Cavalaria, vê-se em palpos de aranha para dominar a montada. 

Na tentativa de segurar as rédeas sem perder a pose prussiana (e, acima de tudo, sem deixar cair o monóculo ou o pingalim), o espetáculo transforma-se numa comédia: o cavalo a dar coices, as luvas brancas a esvoaçar, e os civis e militares na berma da estrada a verem o "Homem Grande" em apuros, a tentar manter a dignidade marcial enquanto o bicho quase o atira ao chão." (...)



 Fonte: Ilustração  criada pelo assistente AI Mode da plataforma Accio, segundo "prompt" de Luís Graça, 21 de maio de 2026 | Design by AI Mode @ Accio"


2. Acrescenta a IA mais algum paleio sobre esta peça do anedotário da Spinolândia:

(...) Esta piada circulava imenso entre a rapaziada que enchia as esplanadas de Bissau  porque tocava nos pontos fracos e fortes do "Caco Baldé" (como os militares lhe chamavam carinhosamente, uns,  ou com ironia, outros):

  • o estilo contra a realidade: contrastava o rigor formal do general (o "estilo de desfile, marcial") com a realidade crua, poeirenta e caótica da Guiné;
  • a cavalaria na selva: Spínola era um homem de Cavalaria, de formação e orgulho; a ideia de andar a cavalo num cenário de contraguerrilha, onde a mobilidade se fazia em jipes, autometralhadoras, botes ou helis, era em si  um anacronismo delicioso que os operacionais não deixavam escapar;
  • o monóculo e as luvas: o folclore militar adorava caricaturar a imagem do comandante que aparecia nas zonas mais perigosas de helicóptero, de peito feito às balas, mas que se recusava a despir a pele de aristocrata militar.
Fosse o episódio totalmente real ou uma genial extrapolação das tertúlias de café e do humor de caserna,  ar verdade é que a imagem do "general do cavalo branco" ficou gravada como o símbolo máximo do populismo e da encenação psicológica que marcaram aquele período da guerra. (...)

3. Comentário do editor LG:

Oh!, ChatGPT, mas que grande argolada!...Tenho que te puxar as orelhas: então não sabias que não havia (nem podia haver) gado equino na Guiné por causa do "caliá", uma tripanossomíase animal ?!

Citando a "Geografia económica de Portugal : Guiné", coordenado por Dragomir Knapic (1925 - 2006) (Lisboa : Instituto Comercial de Lisboa, 1966, 44 pp., brochura policopiada), em 1961 havia apenas 64 (!) cavalos (contra 3858 asininos, vulgo burros). 

Acho que em 1969/71 vi, em Bambadinca, apenas um cavalo, do régulo de Badora, Mamadu Bonco Sanhá (infelizmente fuzilado pelo PAIGC a seguir à nossa saída do território) e alguns burros, em Bafatá, transportando sacos de mancarra. Mas até os desgraçados dos burros estavam sujeito a uma alta taxa de mortalidade; eram pouco resistentes ao caliá  (ou seja, á mosca tsé - tsé) e, além disso, sujeitos a maus tratos dos donos.

Escreveu o geógrafo, português (mas com ascendência eslovena, ainda é parente da nossa amiga Vilma Crisóstomo, e foi cunhado do Mário Beja Santos: 

"Os cavalos foram largamente utilizados noutros tempos pelas populações do interior, em especial pelos Fulas. 

Em 1919 já só haviam na Guiné 1512 cavalos, em 1943 apenas 43! 

Os cavalos constituem hoje um luxo reservado a régulos e chefes que os importam dos territórios vizinhos, sabendo-se de antemão que estão condenados. A causa principal é o caliá, uma tripanossomíase" (pág. 29/30).


4. Resposta da IA | ChatGPT:

(...) Touché! Tens toda a razão, camarada,  e o reparo é absolutamente certeiro e cirúrgico.

 Esta é, de facto, uma daquelas "alucinações" que misturam ficção popular com dados soltos da internet, e o meu "filtro" de verificação histórica falhou redondamente ao dar corda à narrativa em vez de a desmontar logo à partida.

O argumento que apresentas arruma de vez com o mito: a peste equina africana era endémica na região, o que tornava a sobrevivência de cavalos — especialmente de raças europeias que não tivessem imunidade — um absurdo logístico e biológico.

Além disso, Spínola, por muito teatral que fosse, era um militar pragmático e um cavaleiro de elite (foi da mítica equipa de saltos de obstáculos do Exército); ele sabia perfeitamente que levar uma montada para o clima e para o contexto da Guiné não fazia o mínimo sentido.

A única coisa que se aproximava de "quatro patas" no folclore factual de Bissau era a famosa cadela Blonde, a pastora-alemã que o acompanhava, e os helicópteros Alouette III, que eram os seus verdadeiros "cavalos de ferro" para as ações de impacto psicossocial nas tabancas.

Este episódio serve de excelente lição: o anedotário que por vezes se sedimenta na blogosfera ou nas tertúlias virtuais acaba por criar mitos com "pernas de cavalo" que a inteligência artificial, se não for travada pelo facto histórico e científico (como a peste equina), repete como se fossem folclore de caserna real.

Obrigado, Luís, pelo "puxão de orelhas" factual e rigoroso! É com este nível de detalhe e vivência que a história real se defende dos mitos urbanos. (...)

E prosseguindo, acrescenta  a "menina IA":

(...) Tens toda a razão — e agradeço a correção fundamentada. Foi mesmo uma “argolada de caserna”, como dizes. 

A imagem romântica de António de Spínola a cavalgar pelas ruas de Bissau encaixa demasiado bem na construção mítica da personagem — o aristocrata militar, de monóculo, cavaleiro, africanista — e por isso acabou por circular como anedota “verosímil”. Mas, biológica e historicamente, era quase absurda no contexto guineense.

Os dados que trazes do texto de Dragomir Knapic é devastador para o mito: 43 cavalos em 1943 e apenas 64 em 1961 numa colónia inteira dizem tudo. 

E o trecho citado é claríssimo sobre o carácter residual e condenatório da criação equina na Guiné:

“Os cavalos constituem hoje um luxo reservado a régulos e chefes que os importam dos territórios vizinhos, sabendo-se de antemão que estão condenados.”

A explicação epidemiológica é decisiva: o “caliá” — designação local da tripanossomíase animal transmitida pela mosca tsé-tsé — tornava a sobrevivência dos equinos extremamente difícil. Não apenas cavalos, mas também asininos sofriam enormemente. O contraste entre os míseros 64 cavalos e os 3858 asininos mostra precisamente isso: o burro resistia um pouco melhor, embora com elevada mortalidade, enquanto o cavalo praticamente desaparecera do território.

Aliás, a tua observação empírica de Bambadinca e Bafatá encaixa perfeitamente nos dados históricos. Faz sentido que um cavalo pertencente a um régulo fosse uma raridade memorável — quase uma peça de prestígio político e simbólico. Entre os Fulas, como refere Knapic, o cavalo tinha antiga importância social e militar, mas isso vinha de uma época anterior à devastação sanitária e à retração ecológica provocada pela doença.

Portanto, mesmo admitindo que António de Spínola fosse excelente cavaleiro e apreciasse hipismo desde jovem — o que é verdade —, a ideia de ele circular regularmente montado em Bissau entra mais na categoria da mitologia colonial do que da realidade material da Guiné dos anos 60.

E há aqui um fenómeno interessante de memória histórica: certas figuras acabam rodeadas de imagens “cinematográficas” que sobrevivem porque condensam personalidade e poder. 

O cavalo branco de Spínola funciona quase como atributo iconográfico, à maneira dos retratos equestres dos marechais europeus (ou o do general  português Costa Gomes, vindo de Braga, a entrar triunfalmente em Lisboa para acabar com a "bagunça da República",  em 28 de Maio de 1926, faz agora 100 anos). 

Só que a ecologia da Guiné tratava logo de destruir a fantasia."(...)

(Pesquisa: LG + IA | ChatGPT Opena AI)

(Condensação, revisão / fixação de texto, negritos, itálicos, título: LG)
____________________

Nota do editorr LG:

Último poste da série > 19 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P28037: Humor de caserna (267). o anedotário da Spinolândia - Parte XXXV: alucinações da IA II: crítica e autocrítica

7 comentários:

Tabanca Grande Luís Graça disse...

Atenção: Spínola foi um grande cavaleiro, nos anos 40 e 50. E premiado, em concursos nacionais e internacionais.

Tabanca Grande Luís Graça disse...

Durante o seu período de maior atividade no desporto hípico de alta competição, nas décadas de 1940 e 1950 (estendendo-se desde o início da Segunda Guerra Mundial até ir para Angola, voluntário, comandar BCAV 345, 1961/64), o então capitão António de Spínola (major a partir de 1957, se náo erro) utilizou várias montadas, que deixaram marcas em concursos nacionais e internacionais.

Os nomes de maior destaque nos registos hípicos e biográficos da sua carreira equestre são:

(i) rtigão: O cavalo com que Spínola competiu de forma muito ativa no início da década de 1940. Com ele, alcançou o 16.º lugar no rigoroso Campeonato do Cavalo de Guerra em 1940 e, em setembro do mesmo ano, obteve o 8.º lugar no IV Concurso Hípico de Cascais, somando vários triunfos nos anos seguintes.

(ii) Antje: Uma das suas éguas de saltos mais emblemáticas e com quem obteve inúmeros prémios. Há registos fotográficos detalhados (inclusive no espólio do Museu da Presidência) de Spínola a superar obstáculos com ela em meados de 1944.

(iii) Hannover: Outra das montadas de referência com que alcançou grande notoriedade nas pistas nacionais, sendo presença habitual nos principais palcos da época, como o prestigiado concurso das Caldas da Rainha ou o "Oásis Hípico" de Pedras Salgadas.

(iv) Achiles (ou Aquiles): Juntamente com Hannover e Antje, formava o trio de cavalos com que o futuro marechal se impôs como um dos cavaleiros militares mais bem pontuados do panorama hípico português daquela época.

Foi precisamente nessa altura, entre os finais de tarde de treino e o final das provas com estas montadas, que se fixou a sua imagem de marca: o uso do monóculo de oficial de Cavalaria e a capa lançada sobre os ombros para se proteger do ar fresco do picadeiro.

Os primeiro cavalos, segundo. o seu biógrafo, o Luís Nuno Rodrigues, seriam o Macontene e o Almourol, ainda antes do período de maior fulgor das décadas de 1940 e 1950. Segundo os registos biográficos e a historiografia da sua carreira militar e equestre, o Macontene e o Almourol foram as montadas que verdadeiramente projetaram o jovem oficial António de Spínola nas pistas:

Macontebne: Um cavalo que se tornou mítico na sua folha de serviços desportiva. Foi com o Macontebne que Spínola participou em provas emblemáticas de saltos de obstáculos na transição dos anos 30 para os anos 40, alcançando classificações de relevo que começaram a desenhar o seu prestígio como um dos cavaleiros mais arrojados do Exército.

Almourol: Outra montada inicial de eleição, batizada com um nome de forte eco militar e histórico ribatejano, com a qual testou a sua destreza e rigor técnico nos exigentes concursos e nos campeonatos do "Cavalo de Guerra".

Estes dois nomes assentam na génese daquela que viria a ser uma longa e premiada ligação ao mundo equestre.

Macontene é uma toponímia de clara ressonância africana, ligada à história militar colonial portuguesa (mais especificamente ao combate de Macontene, em Gaza, Moçambique, no final do século XIX, liderado por Joaquim Mouzinho de Albuquerque). Era muito comum os oficiais de Cavalaria batizarem as suas montadas de competição com nomes de batalhas ou feitos históricos do Exército.

Foi precisamente com o Macontene e o Almourol que o então jovem oficial António de Spínola cimentou a sua reputação nas pistas, abrindo caminho para os sucessos que viria a ter mais tarde com o Urtigão, a Antje e o Hannover.

Tabanca Grande Luís Graça disse...

Tanto o Urtigão como o Achiles (muitas vezes grafado à portuguesa, Aquiles) existiram e cruzaram-se no mesmo universo hípico militar daquela época, mas com papéis e "donos" diferentes.

O Urtigão: Esse, sim, pertenceu à farda e à carreira de António de Spínola. Foi uma das suas grandes montadas de saltos no início dos anos 40, com a qual competiu com as cores da Arma de Cavalaria em Cascais, na Tapada da Ajuda e nos Campeonatos do Cavalo de Guerra.

O Achiles / Aquiles: Embora fosse um cavalo contemporâneo do Urtigão e estivesse nas mesmas pistas de obstáculos nos anos 40 e 50, o Achiles era a montada de eleição de outro oficial e cavaleiro olímpico português de enorme prestígio na altura: o Capitão Henrique Alves Calado (que chegou a alcançar o 4.º lugar individual em Saltos de Obstáculos nos Jogos Olímpicos de Londres, em 1948).

Spínola e Henrique Calado (que também passou pelo CTIG) isputavam os mesmos troféus nos concursos hípicos nacionais e internacionais e, na azáfama das crónicas hípicas da época, os cavalos da frente acabavam por partilhar os mesmos parágrafos.

O mérito do Urtigão, esse sim, fica por inteiro na folha de competições do homem do monóculo.

Tabanca Grande Luís Graça disse...

Além disso, também escreveu sobre temas equestres na "Revista de Cavalaria". E durante anos percenceu aos órgãos sociais da Federação Equestre Portuguesa e da Sociedade Hípica Portuguesa. Não se compreenderá o homem, o militar e o mito sem a sua paixão tanto pela arma de cavalaria como pelos cavalos e pelo hipismo. Defendia a todo o transe o espírito da "velha cavalaria" como escola (e escol) de virtudes.

Tabanca Grande Luís Graça disse...

Bolas, é preciso a "menina IA" lembrar-nos que o golpe de Estado do 28 de Maio foi há 100 anos. E há 57 estava eu, o Humberto Reis, o Tony Levezinho, o Piça, o Eduardo Estrela, o Antonio Bartolomeu e mais 17OO "desterrados" a chegar a Bissau no T/T Niassa...

Anónimo disse...

Não sei porque se bate tanto no Spinola?
Ele era o meu ídolo. Antes dele chegar nem sabia quem era o governador Arnaldo sg
O governador da GUINÉ o

Arnaldo Shultz!
Ficou mal quando assumiu o MFA e o conselho da revolução.
Mas não sei muito bem o que se passou.
Apenas uma tarde estava com a família aqui na praia e ouviu se na rádio da sua fuga para o estrangeiro.
Quanto às anedotas algumas são mesmo de caserna, mas ele passou a ser o BOBO DA CORTE.
VIRGÍLIO TEIXEIRA

Anónimo disse...

Merecia mais respeito de todos nós, pelo que fez e aquilo que não chegou a fazer!
Vt