Pesquisar neste blogue

segunda-feira, 22 de junho de 2026

Guiné 61/74 - P28121: S(C)em Comentários (90): O casamento, hoje, já não é o que era (Cherno Baldé, Bissau)







Prompt original e composição editorial: Luís Graça.

Texto:  Cherno Baldé (2026)

Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.


1. Comentário do nosso colaborador permanente Cherno Baldé (que "firma" em Bissau), ao poste P28089 (*), que passa a ser inserido na série "S(C)em Comentários" (**)

(...) Eu não posso concordar com o humilhante termo “compra” quando se trata de termos de acordo matrimonial entre duas pessoas, um contrato social selado entre as duas famílias, como acontece na tradição fula, que conheço melhor. 

Os termos do contrato, mesmo não sendo escritos, preveem um acordo aceite e garantido entre as duas partes interessadas e mais ou menos equilibrado, na presença de mediadores e testemunhas, no sentido de garantir socialmente os direitos do casal dentro da família do noivo e acautelar as situações em caso de separação/divórcio futura.

Durante a minha infância, talvez por influência externa (convivência com a tropa no quartel e frequência da escola portuguesa), tinha repudiado por completo a prática tradicional e tinha jurado a mim mesmo que não seguiria esta via quando chegasse a altura de o fazer e cumpri o juramento, mas hoje colocado diante da problemática dos meus filhos, acho que nem tudo é a preto e branco.

Os meus filhos nasceram e sempre viveram na cidade, alguns já terminaram (dois) e outros ainda estudam e todos estão no exterior,  entre Portugal, Brasil e Marrocos. O mais velho tem 30 anos e o mais novo 19 anos. Não querem saber de casamento nem de ter filhos, não os posso obrigar e nem eles se decidem a tal, de modo que a probabilidade de não virem a se casar é muito elevada. 

Também tenho sobrinhas que cresceram em minha casa, algumas (duas) já estão acima dos 30 anos e ainda não estão casadas, não porque não querem, mas porque sozinhas não conseguem arrumar um marido e, quanto aos rapazes, cada vez é mais improvável o interesse em contrair matrimónios diante do desemprego e das crises cíclicas que o país e o mundo atravessam.

Nas zonas rurais, embora a vida e as regras costumeiras continuem a ser as mesmas diante da lei, a realidade está a mudar a olhos vistos e cada vez mais as relações sociais e matrimoniais estão a ser condicionadas pelo que se passa no país e no mundo.

Um fenómeno, mais ou menos novo,  que apareceu entretanto, é a preferência por noivos emigrantes “europeus”, que estejam dispostos a levar a sua noiva para o país de emigração ou para as cidades em residências separadas. 

Nesses casos há descontos importantes, as noivas são quase sempre favoráveis e os pais podem dar muitas facilidades, na expetativa de que as filhas tenham a chance de viajar para o “paraíso” europeu. (...)

Cherno AB

2.Comentário do editor LG:
O comentário acima surge como resposta a um pedido nosso, ao Cherno Badlé, para nos falar um pouco de comno vai hoje a instituição "casamento", na sua terra, entre o seu povo,,,

(...) O casamennto (e todos os rituais à volta dele, incluindo o "dote") é um fenómeno que transcende culturas, embora se manifeste de formas muito diferentes, às vezes radicalmente, conforme o contexto social, económico e até histórico.

Os meus camaradas (e eu próprio) pecavam por "eurocentrismo" ou "etnocentrismo", ao ver estas práticas como "exóticas" ou até "atrasadas", quando na realidade eram/são sistemas de trocas sociais profundamente enraizados, com lógicas próprias que nada têm a ver com a nossa visão ocidental de casamento, da mulher e do homem, da família, da sexualidade, da reprodução...

O "barlaque" na Guiné (*) e e especialmente entre os Fulas (que eu conheci melhor) não era/é apenas uma "transação económica", mesmo sob a forma de um pagamento simbólico (em vacas, noz de cola, panos, etc.), era/é sobretudo um "contrato social", uma forma de "aliança entre famílias", e até uma garantia de estabilidade para a mulher (em sociedades camponeses onde não havia/há  as modernas formas de proteção social, na doença, no acidente, na velhice, na morte)

Para os soldados portugueses (e muitos deles vindos de meios rurais onde o "dote" também existia, mas de forma muito menos formalizada) ver os seus camaradas fulas a "comprar mulher", foi de facto um choque cultural enorme.

O que os militares portugues não percebiam (nem foram preparados culturalmente para isso, não havia "psicólogos" quanto mais "antropólogos", em Mafra, nas Caldas da Rainha, em, Tavira,em Santarém, em Vendas Novas, em Lamego) era que, na Guiné, o "barlaque" (ou o "pidi noiva") não era uma transação comercial, mas sim um rito de passagem e um mecanismo de proteção.

Para um fula, o pagamento do "barlaque" validava o casamento perante a comunidade, garantia o estatuto social da mulher (e da sua família),  criava laços de solidariedade entre grupos, clãs, "chãos" e (poucos o sabiam) podia ser reembolsável em caso de divórcio, o que dava, teoricamente, à mulher uma certa segurança económica.

O eurocentrismo e o entrocentrismo faz-nos sempre ou quase sempre julgar (mal) o que não compreendemos ou não conhecemos.

Não sei como é que as coisas estão hoje, na tua terra, meu mano Cherno...(...) (**)

11 comentários:

Tabanca Grande Luís Graça disse...

Também no tempo em que estivemos na Guiné, em Portugal a noiva ia de branco e casava-se aos pés do altar... Hoje (2025) os casamentos não-católicos entre pessoas de sexo oposto são 81,4%... Eram 9,2% em 1960...Pois, Cherno, já nada é como dantes...

Tabanca Grande Luís Graça disse...

Eram de 22,1% em 1976 quando eu me casei, pelo "civil", no Marco de Canaveses...E não houve "barlaque"...

Anónimo disse...

O comentário que anteriormente estava a escrever desapareceu! Não sei o que aconteceu, não sou perito. Mas o principal fica aqui. Continua a exploração da mulher pelo homem. Podem utilizar até a IA para se justificar o crime. Podem adoçar o tema com maravilhosas explicações Socio Politicas. A verdade da exploração da mulher pelo homem só: É duro mas vou dizer: Só uma sociedade retrogada e mentecapta pode aceitar o tratamento de uma mulher como mercadoria. Mário Fitas.

Tabanca Grande Luís Graça disse...

Mário Fitas, a IA não tem "autoridade", não é detentora de "direitos de autor", a única coisa que faz é "copy & paste"...Ou seja, "piratear" os antropólogos, os sociólogos, os psicólogos, os juristas, os historiadores, etc., que têm estudado estas questões do casamento, das desigualdades de género, etc...

Tabanca Grande Luís Graça disse...

Mário, conhecestes bem, em Cufar, no sul da Guiné este problema da subalternização da mulher guineense...E cá também...

Anónimo disse...

O Mario Fitas esta a fazer juizos sobre assuntos que so conheceu superficialmente e a condenar usos e costumes de que nunca procurou conhecer de perto e, sobretudo, parece que o Mario vive num outro planeta e nao sabe que ontem como hoje, com a ascensao do capitalismo, a partir do seculo XIX e sobretudo nos seguintes tudo se transformou em mercadoria, o modo de producao capitalista funciona na base de contratos laborais onde o patrao dita as condicoes da contratacao e o trabalhador eh obrigado a aceitar sob o risco de ficar desempregado. O sector onde estas condicoes vigoram com maior evidencia, hoje em dia, eh no desporto profissional onde o jogador nao passa de uma mercadoria que as equipas negoceiam e compram a seu belo prazer e todos aceitam e batem palmas. No mundo tudo se transformou em mercadoria e a utilizacao das ferramentas de comunicacao digital e nao so amplificou essa realidade numa dimensao que mal conhecemos e dominamos, sendo que as grandes empresas negoceiam nas nossas costas utilizando os nossos dados pessoais sem pedir qualquer autorizacao, inclusive os dados do Sr. Mario Fitas.

Nos contratos matrimoniais a que se fazia alusao a mulher nao eh tratada como mercadoria e quem o entende assim eh porque nao sabe do que esta a falar e ignora por completo as regras de base do funcionamento dessas sociedades.e ainda esta atrelado ao eurocentrismo que caracterizava a mentalidade e as politicas dos paises colonizadores.

Cordialmente,

Cherno AB

Anónimo disse...

PS:
Ainda sobre a mesma questao, gostaria de salientar que a gestao das relacoes sociais entre humanos (e talvez nao so), designadamente as relacoes matrimoniais eh como a problematica da gestao dos lixos urbanos que produzimos. Das duas uma, ou conseguimos geri-los convenientemente e resolvemos os problemas ambiental e demografico ou entao seremos submersos pela abundancia descontrolada do lixo e suas consequencias por um lado e, por outro, seremos obrigados a viver em sociedades dominadas pela prostituicao masculina e feminina. E para o homem africano, nao pode haver nada pior que ver os seus filhos/as, a sua familia, metidos na vida da prostituicao, embora isso pareca normal aos olhos de certas pessoas com outras formas de ver o mundo e de pensar.

Cherno AB

Anónimo disse...

E.... Nao fosse o respeito e a gratidao que devo a muitos portugueses por ai alem, lembrava ao portugues Mario Fitas que durante o comercio negreiro que, lamentavelmente, foi inventado e reinventado por portugueses de muita boa moral e etica profissional, nao se poupavam nem mulheres nem criancas e sabendo de tudo isso.... de onde lhes vem a moral (hipocrita) de falar sobre etica e direitos humanos ?

Cherno AB

Paulo Santiago disse...

O post e comentários do Cherno levam -me a escrever sobre um casal meu amigo.
No Saltinho,conheci o Sado, um miúdo natural de Cansamange,que "trabalhava" na messe/bar de oficiais e sargentos. Quando a CÇAÇ 2701 terminou a comissão,o Cap.Clemente trouxe o Sado para Bissau e arranjou-lhe trabalho na messe de oficiais em Santa Luzia,e à noite estudava concluindo o 7º ano.Após a independência,entrou para a Direcção de Alfândegas e veio para Lisboa onde tirou o curso na Guarda Fiscal.Reformou-se como Ten-Cor da Direcção de Alfândega,
O Sado é Fula, e al Haje após peregrinação a Meca.
Em 2003,por motivos de saúde,esteve vários meses em Portugal,alguns nos HUC,outros em casa com a minha mãe que ele tratava por avó. Tanto na minha mãe,como também na minha casa,ele com bom muçulmano,perguntava onde nascia o Sol.
Em 2005,primeira vez que voltei à Guiné,conheci a mulher do Sado.
No PelCaçNat 53, só dois,militares, 1ºs Cabos (Beafadas) não eram casados,também eram bastante jovens,os restantes eram casados e com mais de uma mulher.
Voltando a 2005,almocei e jantei, no Rest. Padeira com o Sado e levou sempre a mulher.
Ele criticava os que tinham duas ou mais mulheres,alguns eram familiares que eu conhecia.Infelizmente a senhora morreu repentinamente numa das vezes em que o Sado estava em Portugal onde tinha vindo a uma consulta. Fiquei eu,e o meu filho,fora comigo à Guiné,muito chocados com o drama.

Cherno disse...

Caro Paulo Santiago,
Conheço o Sado da Alfândega, aliás, em Bissau, na zona Leste e em Forrêa haverá pouca gente que não o conhece, pela distinção e prestígio da função, pela empatia e boa educação que o caracterizam.
Sobre os casamentos, hoje o mundo mudou e os homens também, de modo que são poucos os que (todos os grupos étnicos somados) se aventuram com mais de uma mulher, porque não há condições nem materiais e muito menos financeiras para esse tal "ronco" que se permitiam as milícias com o patacão da tropa.

Tal como aconteceu no chamado "primeiro mundo" o fenómeno da diminuição dos casamentos, seguido da baixa natalidade em grupos anteriormente bastante dinâmicos em termos de fertilidade, já ganhou contornos visíveis que, dentro de pouco tempo, será a realidade com que seremos confrontados, pois o mundo, em resultado das crises cíclicas que atravessa enfrenta dificuldades partilhadas que o vão moldando dando a cada um a parte que lhe cabe no cenário global, a nossa Guiné não será uma excepção.

Um abraço

Cherno AB

Paulo Santiago disse...

Cherno
O mundo é pequeno, não imaginava o Sado ser um amigo comum.
Como dizes, o Sado é uma pessoa de exceção,uma pessoa muito querida pela minha mulher e os meus filhos. Falamos várias vezes por vídeo-chamada.Imagino teres conhecido o Suleimane,Régulo de Contabane,familiar do Sado,e foi !º Cabo no meu pelotão.Outra pessoa querida pelo meus familiares mais próximos, morreu há meses.Alem da morte da mulher, eu e o meu filho,ficámos chocados com a morte do Cherno ,filho do Sado que conhecemos em 2005,um miúdo cheio de actividade.
Há guineenses que muito me marcaram.

Abraço