
Muita honra e pouca glória...
por Luís Graça
A pátria fora-lhe ingrata. Falava dela como se fosse uma mãe. Que abria o regaço. Que acolhia "filhos e enteados" . No meio da confusão. Dos tiros, dos golpes de Estado, das greves, das revoluções, das guerras. Uma mãe nem sempre atenta, serena, lúcida, justa. Metendo por vezes todos no mesmo saco, "os bons e os maus".
E continuava o seu solilóquio: mãe que retribuía com amor, com bonomia, com "benesses e tabefes" (sic), os sacrifícios que faziam por ela. Incluindo o supremo sacrifício da vida. Até à última gota de sangue.
Sim, jurara perante a "nossa bandeira verde-rubra", mesmo sendo "monárquico" ... Rituais que hoje se perderam, já não havia serviço militar obrigatório, juramento de bandeira... Nem verdadeiro patriotismo. Podiam julgá-lo antiquado mas ele ainda dava valor a esses símbolos. E "à palavra dada".
Fora educado por professores e capelães, desde o Colégio Militar à Escola do Exército, segunda a velha máxima: "É doce morrer pela pátria!"...
Doce ?!... Diziam que sim mas era coisa que a "alegre mocidade" do seu tempo não levava muito a sério. Aos 10, 15, 20 anos ninguém pensava na morte.
− "Dulce et decorum est pro patria mori"... É a divisa do brasão de armas da Academia Militar que sucedeu à Escola do Exército...
− Ah!, sim, doce e honroso − repetiu o coronel com um sorriso amargo.
− Teríamos que saber o que pensam os mortos de todas as guerras.
− Não pensam nada, meu caro.
E quis mostrar este ponto de vista com a sua experiência, justamente de antigo combatente da "guerra de África".
A... , oitenta e tal anos. Feitas as contas por alto devia ter nascido por volta de 1933 ou 32. "Monárquico mas liberal", por tradição familiar. Alentejano do Alto Alentejo (fazia questão de frisar). Descendente do Visconde de V...
Coronel de cavalaria, tirocinado, na situação da reforma. Cruz de guerra de terceira classe por feitos em combate no teatro de operações da Guiné. Viúvo, pai de um filho, avô de dois netos (que ele mal conhecia) .
− O primeiro soldado que vi morrer na Guiné, e logo nos meus braços, só me balbuciou entre golfadas de sangue: 'Ai, meu ca...pi...tão, ... qu' eu... es...tou fo...di...do! '
Hoje, concluia o coronel, havia várias formas de morte para um antigo combatente. Tudo menos doce e honroso. A sua (e da sua geração) era também a da amargura, da ingratidão, do abandono e do esquecimento.
Falava de si e dos seus homens que "morreram para nada" e que iam morrendo todos os dias, um pouco por toda a parte, em Portugal, na diáspora lusófona, na Guiné, em Angola, em Moçambique e por aí fora.
- Sinto-me órfão da Pátria!... Sofro de claustrofobia... Afinal fui criado no Portugal do Minho a Tiimor.
O seu filho (o único que tinha) nunca o compreendera nem aceitara a sua opção de vida, a carreira militar. Pouco conviveu com ele. Fizera-lhe falta o pai nos anos mais decisivos da formação da sua personalidade.
Quando o filho nasceu, em 1958, estava o pai em Goa na sua primeira comissão de serviço no Ultramar. Como alferes. Faria mais três comissões, duas como capitão e outra como como major.
E quando o filho arranjou uma bolsa de estudo em 1976 para ir frequentar uma universidade nos EUA, o pai tinha acabado de regressar de Moçambique, uns meses antes. (Fora um dos "últimos soldados do império", fez questão de lembrar, já com o posto de major, desempenhando funções de oficial de informações e operações, num batalhão, cargo em que já não saía para o mato.)
O filho acabou por ficar lá, nos EUA. "Até hoje" . E lá casara "com uma americana, rica, de origem nipónica" .
Tinha um grande desgosto: os seus netos não falavam português. Tinham vindo a Portugal todos juntos uma única vez, por ocasião da morte da mãe, sogra e avó.
− Eu era um estranho para eles... E, como pai, fiquei com a certeza de que tinha perdido o meu único filho para sempre.
De facto, não voltaria a visitar o pai em Portugal. Foi ele que os foi visitar à Califórnia. Os netos nada sabiam sobre Portugal, um pequeno país que ficava completamente fora do seu radar, dos seus interesses e das suas preocupações.
E confirmava o seu pessimismo com o facto de, a partir de 1975, "termos ficado reduzidos à geografia do início do século XV, antes da conquista de Ceuta em 1415".
Agora o que mais lhe gostava era sobretudo a solidão da viuvez e da velhice. Uma vez por ano juntava-se aos "seus rapazes", com quem lutara na Guiné durante mais de 2 anos (contando com o tempo inicial de formação da companhia, em Estremoz).
Adorava a sua "família militar" com quase o mesmo amor que tinha pela sua família biológica.
− Juntos chorámos os nossos mortos e cuidámos dos nossos feridos.
Faziam um encontro anual todos os anos desde o início de 90 mas, duas décadas depois, faltava-lhe já o ânimo e as pernas começavam a claudicar, obrigando-o a arranjar desculpas de mau pagador para não comparecer. Invocava a saúde ou a falta dela, "cada vez mais remendada".
Confidenciou-te que, sobretudo, não queria perder o seu orgulho, a sua dignidade, a sua pose de "oficial e cavalheiro" que sempre cultivara. Já não se gostava de se ver ao espelho. E muito menos fardado. LP
− Não me leve a mal se lhe disser que sempre tive sorte com as mulheres...
− Não de todo, coronel. Como se costuma dizer, a sorte dá muito trabalho.
Mas o contrário não era verdadeiro : as mulheres nunca terão tido sorte com ele. Casou tarde, não teve um casamento feliz e enviuvou cedo.
Gabava-se de nesse tempo de nunca ter dado uma "porrada" em nenhum dos seus homens. Soubera sempre resolver os conflitos, mesmo os mais graves, do foro disciplinar, com frontalidade e bom senso, contrariamente à tradição da sua arma, a cavalaria. Tinha camaradas que ainda usavam, na Guiné, o "murro da ordem" para prevenir males maiores.
− Mais valia um bom murro nos queixos do que uma nódoa na caderneta, achavam eles. E, se calhar, pensando bem, hoje até teriam razão.
E lembrava-se de uma situação, grave, em que, passados mais de quarenta anos, reconhecia que agira mal. Um dos seus cabos fora acusado de violar a sobrinha do régulo e comandante do pelotão de milícias. Era a rapariga mais linda da tabanca.
O então capitão fez tudo o que sabia e podia para que a "bronca" não chegasse aos ouvidos do general Spínola, o "Homem Grande de Bissau". O cabo era um dos seus melhores homens como operacional e inclusive tinha chegado a ser proposto como candidato ao Prémio Governador da Guiné.
− Tive uma conversa séria com ele... Comecei por lhe enumerar as virtudes , acabando nos defeitos e na "borrada" que lhe ia estragar o resto da vida.... Acabou por dar-se como culpado, com a desculpa esfarrapada de que "ela era linda de morrer" e que "um homem não era de pau"...Além disso, era a sua lavadeira e teria havido livre consentimento... Encostei-o à parede: "Põe-te no teu lugar: e se ela fosse tua irmã ?"... Não tugiu nem mugiu...
O então capitão castigou o cabo, obrigando-o a pagar uma reparação à família da bajuda, uma vaca que lhe custou um mês de pré. E retirou-lhe, obviamente, a candidatura ao Prémio Governador da Guiné...
Ao régulo calou-lhe a boca com a oferta, por parte da companhia, de uns valentes sacos de arroz para o pelotão de milícias. Fora-lhe sempre leal. Soube mais tarde que também ele fora, infelizmente, fuzilado pelo PAIGC.
− Quanto ao cabo, ficámos amigos para a vida.
Na sua casa em Oeiras, aonde ele te convidara um dia para te mostrar o seu "velho álbum das glórias", ficarás a conhecer um pouco melhor a sua história de vida e a sua origem sociofamíliar.
Sim, fora preparado para defender a pátria numa época em que o patriotismo ainda estava na ordem do dia. Tinha treze anos quando a II Guerra mundial acabara. "Lá em casa eram todos anglófilos" . Depois veio a Guerra Fria, passaram todos a ser anticomunistas.
Era da geração do "Deus, Pátria e Família". A "Santissima Trindade" do Estado Novo. Nunca fora homem (nem miliitar) de ligar à política. Nem nunca questionara o beco sem saída da guerra em África.
− Infelizmente, só sabia obedecer aos meus superiores hierárquicos, e dar ordens aos meus homens.
Por outro lado, a sua família sempre fora de proprietários e militares, que serviram três regimes (Monarquia constitucional, República e Estado Novo).
No passado tinham chegado a ser grandes produtores de trigo e cortiça. Mas eram sempre mais os filhos e as filhas do que as mães. Para os descendentes do Visconde de V... , a solução de vida terá sido "Coimbra, o seminário e a carreira de armas".
Gostava de falar do passado da família paterna, mas havia ali uma relação de amor-ódio ancestral que tu não te achavas no direito de esmiuçar, nas conversas que mantiveras com ele antes da pandemia. Uma das ocupações do coronel era então a da reconstituição da árvore genealógica da família.
Tinha especial prazer em falar do "passado de luz e sombra" (sic) do Visconde de V..., o patriarca da família, onde começava a "primeira geração": dali para trás não se sabia mais nada, havia o "silêncio dos arquivos" , restava apenas uma fita de seda azul, "sinal de exposto" na Misericórdia de Lisboa.
Mas tivera sorte, esse enjeitado, para viver e sobreviver numa época tão conturbada como a das invasões francesas, a da fuga da corte para o Brasil, a do fim da sociedade senhorial, e a das guerras civis liberais.
Na casa oitocentista de Paço d' Arcos, de piso térreo, ainda estava dependurado da parede, um mau quadro, a óleo, com o retrato do futuro Visconde. Daqueles que ainda se encomendavam a pintores académicos antes da chegada do "daguerreótipo". Ostentava já alguns sinais de riqueza, os botões dos punhos de renda e o relógio de bolso, com um grosso cordão, tudo em ouro de lei.
Havia enriquecido o seu património com a compra em leilão de "bens de mão morta" . Ninguém sabia como, ainda jovem, conseguira arranjar os "cabedais, para poder licitar uma tão vasta propriedade no Alto Alentejo. Foi dos primeiros a modernizar um latifúndio que até então só dava "caça e sobro".
Sabe-se que fora um bravo soldado de Dom Pedro IV e correligionário de Dona Maria II. Ter-se-á afastado da política com a Patuleia, onde foi um feroz opositor dos Cabrais. Foi nobilitado já no tempo de Dom Luís. Filantropo, abriu uma escola na sede do concelho, no Alto Alentejo, ainda antes das escolas do Conde Ferreira.
O coronel falava com mais conhecimento de causa da 4ª geração, do seu avô , que era bisneto do Visconde, e que terá sido um dos que mais ajudaram a delapidar o património familiar, com o vício do jogo, das amantes e dos cavalos.
− O meu pai, nascido uns anos antes da República, não teve outro remédio se não seguir a tropa. E eu, idem, aspas...
Fez questão de ir buscar uma garrafa de uísque velho, uma preciosidade ainda do tempo da Guiné. Agora raramente bebia. Era para abrir na festa dos 90 anos. Com o seu filho e netos. Se lá chegasse... Mas já não tinha qualquer esperança de que eles se quisessem associar a essa efeméride, e ter a maçada de vir de propósito, de tão longe, da Califórnia.
− O que vale um herói da Pátria aos 90 anos ?!... Se nem sequer a família mais próxima se lembra dele ?!
Fizeste um "tchim-tchim" com o dono da casa, cada um longe de imaginar que aquele seria o seu último encontro. Umas semanas depois veio a pandemia e o confinamento... E o coronel A..., morreria uns meses depois. Ia fazer 87 anos. Ainda se falaram ao telefone. Recordas as suas últimas palavras:
− Fui de cavalaria mas nunca gostei de cavalos... Fui spinolista, na Guiné, por conveniência mas também por convicção... Fui partidário da sua política "Por uma Guiné Melhor"... O senhor marechal, que eu conheci em Angola, já coronel, fez o favor de ser meu amigo, deu-me apoio a nível moral, operacional e logístico. Visitou-me duas vezes, na Guiné. Não esqueço esses favores. Como não esqueço o seu papel no 25 de Abril.
Como não esquecera a cena, caricata, do general Spínola escangalhado a rir, com o monóculo na mão (o que era raro nele), e a chamar-lhe "grande nabo" quando ele, ingenuamente, lhe contou que tivera uma queda desastrada e desastrosa de cavalo na Escola Prática de Santarém.
− Sou coronel tirocinado mas fiquei às portas do generalato. Desconheço as razões. Mas considero-me injustiçado. Nunca fui militar político.
E esclareceu-te que no 25 de Abril ("notícia completamente inesperada", recebida no norte de Moçambique) estivera "de bico calado", à espera que a ordem regressasse aos quartéis, depois de restituída a liberdade aos portugueses.
− Como regressa sempre. O meu pai esteve envolvido no 28 de maio de 1926. Ainda era um jovem cadete imberbe. E arrependeu-se. Não beneficiou nada com isso. O golpe de Estado acabou por ir contra as suas ideias de monárquico liberal. Mas eu sempre me considerei um simples servidor da Pátria, como o Salgueiro Maia, a quem cheguei a dar instrução, e a quem não posso deixar de bater a pala, mesmo que eu não tenha aderido ao Movimento.... Pela sua coragem (que eu não tive) e pelo seu papel na História. E a minha vida resume-se a isso, tal como a dele, que também foi mal tratado em vida: Muita honra e pouca glória!...
Luís Graça, agosto de 2026
Aviso legal: Os factos aqui narrados são verdadeiros. Mas qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência.
__________________
























24 comentários:
Excelente texto.
Antonio Graça de Abreu
António, obrigado. São histórias, as dos oficiais do quadro, que também fazem parte da nossa história...
Luís
Este teu escrito é uma análise excelente de uma personagem-tipo (embora pareça ser um caso real) que, na geração seguinte, já não "empurrou" os seus descendentes para a Escola de Guerra/Academia Militar, porque a sua "Guerra do Ultramar" cada vez mais se complicava e punha em risco sério a integridade física dos militares que a tinha que fazer e que, além disso... nunca mais acabava. A partir daí a Academia militar foi "aberta" e passou a ser quase exclusivamente frequentada pelos filhos de uma classe média ou, mais propriamente, média-baixa, que constituem a grande maioria dos que, ainda, são vivos e... aposentados.
Por outro lado faz um bom enquadramento político e social de toda uma geração e... dos seus "arredores".
Abraço.
Esqueci-me de dizer que os desenhos , embora explícitos e realistas, nada acrescentam (DESCULPA!) ao texto e que pode acontecer que haja quem os veja e pense que (já) "não vale a pena ler o texto".
Não há grandes "acrescentos" aos comentários antecedentes.
Na realidade, o que o Graça de Abreu e o Branquinho escreveram é perfeitamente ajustado. Além disso, o conteúdo em si, possui um encanto-desencanto que pode-nos levar a pensar que tudo foi em vão, que o que foi o futuro desses homens está repassado de amargura, mas também a pensar que o dever foi cumprido e que só as vicissitudes da vida não permitiram mais e melhor.
Em todo o caso, muito bom e oportuno.
Boas férias!
O texto é manifestamente magnífico, como também o é o primeiro comentário do Alberto Branquinho . No início, os mais bem posicionados na sociedade ainda mandavam os seus descendentes para a Academia Militar. Dava status sem correr muitos riscos.
O pior aconteceu a seguir , quando houve que pôr a integridade física à prova. Mesmo assim ainda houve quem teve a coragem de o fazer ao nosso lado. Terá sido o protagonista do texto um desses casos.
Abraço
Eduardo Estrela
João Rodrigues Lobo (by email)
16 agosto 2026 10:57
Bom dia,
Acompanhando sempre diariamente o "nosso" Blog, aprecio os teus desenhos e histórias com a ajuda da IA. Também gosto de brincar com a IA mas apenas com a gratuita. Pondo-a nas várias apps em confronto e complemento, tenho obtido resultados interessantes mas muito limitados por serem as versões gratuitas.
Hoje consegui apenas mudar as fardas dos teus desenhos para fardas mais portuguesas, ainda que com falhas, só que fazer isso para todos deve potenciar em muito o trabalho e tempo que lhes dedicas. Continua com as interessantes histórias animadas. Anexo três mudanças de farda.
Grande abraço e muita saúde.
Luís Graça (by email)
16 agosto 2026 11:06
Obrigado, João, vou aproveitar as tuas imagens...Que estão ótimas...Bem sabes, como tudo isto dá imenso trabalho... Eu também uso (criticamente...) a IA dos pobrezinhos... Se tiveres tempo e pachorra, faz o resto do trabalho... E depois associo o teu nome ao poste na direção editorial... Será mais do que justo. Luis
João, aproveitei as tuas e corrigi mais uma ou outra. Luis
Já perdi a paciência a explicar, à estúpida da IA, que a noss arma era a G3... A gaja não atina, nnem com a G3, nem com as nossas fardas... Espantoso foi, a partir de uma foto nossa, não tapar as maminhas da bajuda...
Branquinho, és capaz de ter razão, mas temos dois tipos de leitores: (i) os que "não sabem ler" (ou não têm pachorra para ler), e só veem os "bonecos"; (ii) e os que gostam de BD mas também de perceber o texto e o contexto...
João Rodrigues Lobo (by ermail)
16 agosto 2026 11:18 (
É preciso tempo e paciência, as IA mudam sempre pormenores que não pedimos, e para colocar os que queremos muitas vezes não percebem. Já com a imagem onde está a guineense desnuda, foi preciso enganá-las só para mudar a farda, pois diziam que as regras não permitiam. Vou brincando.
Grande abraço.
Pois é, João, a IA não é certa da bola, de vez em quando tem uns ataques de "pudor" e de "falsa moralidade", desesperantes... Mas tens que lhe dar luta...
Luís Graça (by email)
16 ago 2026 11:48
Força, João, faz o que puderes precisamos da tua colaboração no blogue!... Ab, Luís
Ó Luís!!! Luís!
Já agora, peçam à IA ou à AI (tanto se me dá...) para dar um jeitinho no texto...
Embora não seja muito relevante para a história do nosso coronel tirocinado, a referência aos "bens-de-mão morta" precisariam, talvez, de uma nota de rodapé... Tal como outras expressões como "sinais de expostos"...
Mas vamos os "bens de mão-morta" eram propriedades (prédios rústicos e urbanos, como diríamos hoje) pertencentes a entidades coletivas, como a Igreja Católica, ordens religiosas ou instituições assistencais, sujeitos ao direito canónico (como misericórdias, hospitais, hospícios, "mercearias", etc.) que não podiam ser "alienadas" (vendidas, divididas. trocadas ou dadas). Estavam fora do mercado imobiliário (como se diz hoje), livres de impostos por tempo indefinido (não pagacam IMI!).
De facto, os bens não podiam sair da posse da instituição religiosa ou corporativa, sendo regulados pelo direito canónico. Eram privilégios exorbitantes que a Igreja acumulou ao longo de séculos...
Em Portugal, monarcas como D. Afonso II e D. Dinis tentaram limitar estas aquisições através chamadas leis de amortização.
Por "desamortização", deve entender-se o processo político e jurídico feito mais tarde para confiscar ou vender estas terras, devolvendo-as ao comércio livre e à propriedade privada. Foi o que aconteceu, no tempo de Dom José, cvom a extinção e a expulsão dos jesuitas, por ordem do todo poderoso Marquês de Pombal. Edifícios como o atual Hospital de São José (antigo Colégio de Santo Antão) foram então "nacionalizados"...
O desfecho deste processo, em Portugal, dividiu-se em vários momentos marcantes:
(i) O passo mais decisivo aconteceu em maio de 1834, no final das Guerras Liberais. Pelas mãos do ministro Joaquim António de Aguiar (apelidado de "O Mata-Frades"), foi assinado o decreto que determinou a extinção das ordens religiosas masculinas em Portugal;
(ii) Todos os conventos, mosteiros, colégios e terras pertencentes a estas ordens foram confiscados pelo Estado e convertidos em "bens nacionais";
(iii) Grande parte destas propriedades foi vendida a burgueses e proprietários privados, endinheirados, com o objetivo de pagar a enorme dívida pública gerada pela guerra e criar uma nova classe de proprietários rurais ligados ao liberalismo;
(iv) esta nova classe de proprietários estava "sequiosa de terra" para poder ser "nobilitada" e substitiuir a antiga nobreza agrária;
(v) embora as ordens religisoas masculinas tivessem sido extintas em 1834, muitas outras corporações com bens-de mão-morta continuaram a deter terras inalienáveis: uma nova vaga de leis liberais, a partir de 1861, estendeu a extinção aos bens restantes: conventos femininos e mitras (1861): Integraram o património estatal à medida que as comunidades religiosas envelhecendo e morrendo; misericórdias, hospitais e paróquias (1866): os seus foros e propriedades perpétuas foram alienado; bens de instrução pública e baldios (1869): quase todas as restantes terras corporativas foram privatizadas.
Tudo isto teve um grande impacto, económico, social e político: infelizmente náo deu origen a uma verdadeira reforma agrária (cmo noutros países, França, etc.); mas, em casos como o citado nesta história, as terras, antes subaproveitadas (que antes só davam "caça e sobro"), passaram a ser geridas por proprietários privados (como o Visconde de V...) focados no lucro e na produção agrícola moderna.
Com o liberalismo, há uma burguesia que ascende, económica, social e politicamente. Com as "desamortizações" dos bens-de-mão-morta o poder económico passou da Igreja e da nobreza tradicional para a burguesia liberal, criano as bases para o nascimento e o desnecvolvimento capitalismo em Portugal, na II metade do séc. XIX:
É certo que muitos mosteiros e conventos foram abandonados, vandalizados, vendidos como ruínas ou transformados em quartéis, repartições públicas e palacetes privados. Mas isso é outra história.
Alberto, para tua informação, já ando às votas com este "conto" (?) há mais de 3 meses...Começo sempre por escrever em blocos de notas, portanto, à mão... Muitasd vezes, na esplanada da praia, ou no café.. Ou quando tenhho insónias...Escrevo, reescrevo, tenho diversas versões, mais curtas, mais compridas... Título original: "Ingratidão"...
Talvez até por reveio do juízo dos pares, não vejo os oficiais (e sargentos) do qadro a escrever as suas "memórias"...O que é pena... Muitos destes nossos camaradas têm muitas histórias, pequenas histórias, para partilhar. A maior parte desce à terra, e leva com eles pequenos segredos como este que aqui é contado, o da "justiça de Salomão". O que aconteceria a este cabo (possivelmente casado, não sei) se tivesse levado uma "porrada" publicada na Ordem de Serviço ? Seria agravada sucessivamente pela hierarquia (batalhão, CAOP, Comandante-chefe)... Acabaria na prisão e no tribunal militar...
Não julgo o capitão, que quis ser (e foi) juiz... No fim, ele reconhece que terá precedido mal... Na Guiné, tenho ideia que nos protegíamos uns aos outros...Cá está um tema que daria pano para mangas: a justiça militar...no CTIG.
Estou-me a lembrar de um camarada nosso, sargento do quadro, à beira dos quarenta anos, que já no fim da comissão pegou num jipe, sob efeito do álcool, e foi uma dar uma volta até ao rio... Ia carregado de putos, "djubis"... Numa curva foram todos projetados pela viatura fora... Felizmente nenhum morreu. Castigo do capitão: indemnizou as famílias dpos putos feridos, levou uma rabecada, teve que alinhar numa operação no subsector do Xime, teve o seu batismo de fogo, aos 20 meses (embora operacional, ele tinha ficado todo o tempo na secretaria..:). E no final levou um louvor... Se tivesse levado uma porrada, por escrito, o capitão tinha-lhe estragado a vida e a carreira...
"MUITA HONRA E POUCA GLORIA" ou a história de Portugal colonial resumida em 3 palavras chave. Gostaria de acrescentar que, também, os valentes perdem as guerras.
Na Guiné, o soldado português foi bom e firme, enquanto pode, enquanto os meios a sua disposição o permitiram. Eu testemunhei a firmeza, a bravura desses soldados por mais de 10 anos, em fases e companhias diferentes e desses poucos eram profissionais ou permanentes e a partir de 70 quase todos eram Milicianos uma categoria, ligeiramente, um pouco acima das nossas milicias, voluntárias da sua própria desgraça.
Mas, os valentes também perdem as guerras. Eu testemunhei o paradoxo de uma guerra perdida por homens valentes, transformada em vitória efémera a fim de permitir, no máximo gossi-gossi o regresso a casa, com medalhas, muita honra e pouca glória.
Com um abraço amigo,
Cherno AB
PS: Na Guiné do pós-25A74, poucos sabem dessa verdade histórica pós-colonial, pois o Paigc encarregou-se (brilhantemente) de reescrever a história em cujos cenários eles eram os únicos e verdadeiros "Cabras-Machos" e que a tropa "Tuga" não passava de espantalhos para inglês ver. Eu, pessoalmente, sabia que não era a verdadeira história, fazendo despertar em mim os primeiros sinais de desconfiança em relação a um partido-estado que se tinha apoderado de tudo e todos, prometendo mel e mana do céu ao povo e as suas ovelhas obedientes.
Cherno AB
PS: Na Guiné do pós-25A74, poucos sabem dessa verdade histórica pós-colonial, pois o Paigc encarregou-se (brilhantemente) de reescrever a história em cujos cenários eles eram os únicos e verdadeiros "Cabras-Machos" e que a tropa "Tuga" não passava de espantalhos para inglês ver. Eu, pessoalmente, sabia que não era a verdadeira história, fazendo despertar em mim os primeiros sinais de desconfiança em relação a um partido-estado que se tinha apoderado de tudo e todos, prometendo mel e mana do céu ao povo e as suas ovelhas obedientes.
Cherno AB
Eu assisti (Cambaju 1965/66) ao regresso dos homens do Alferes Maia (CCAÇ 674), de fardas encharcadas depois de 5 dias de emboscadas e nomadizacão na fronteira com o Senegal, entre Solucocum e Cuntima (Colina do Norte).
Estava em Fajonquito a quando do ataque devastador a Cantacunda em 1968 e o sequestro dos 11 soldados do pelotão de metropolitanos da companhia sediada em Geba e assistimos a pronta reação da companhia de Fajonquito do Cap. Alcino de Jesus Raiano com o envio de tropas a regiões abandonadas de Caresse e Cola, na tentativa de uma intercessão sos guerrilheiros que será em vão.
Eu convivi na minha terra com o soldado (comando) Almeida que quando havia um ataque numa localidade próxima não esperava por ordens ou colunas e corria a pé para não perder a festa do chumbo e da pólvora. Eu conheci os intrépidos Capitães do Quadro permanente, o Carvalho (CCAÇ 2435) e o Patrocínio (CCAÇ 3549), todos eles grandes homens e soldados que honraram o nome de Portugal em África.
Cherno AB
Eu assisti (Cambaju 1965/66) ao regresso dos homens do Alferes Maia (CCAÇ 674), de fardas encharcadas depois de 5 dias de emboscadas e nomadizacão na fronteira com o Senegal, entre Solucocum e Cuntima (Colina do Norte).
Estava em Fajonquito a quando do ataque devastador a Cantacunda em 1968 e o sequestro dos 11 soldados do pelotão de metropolitanos da companhia sediada em Geba e assistimos a pronta reação da companhia de Fajonquito do Cap. Alcino de Jesus Raiano com o envio de tropas a regiões abandonadas de Caresse e Cola, na tentativa de uma intercessão sos guerrilheiros que será em vão.
Eu convivi na minha terra com o soldado (comando) Almeida que quando havia um ataque numa localidade próxima não esperava por ordens ou colunas e corria a pé para não perder a festa do chumbo e da pólvora. Eu conheci os intrépidos Capitães do Quadro permanente, o Carvalho (CCAÇ 2435) e o Patrocínio (CCAÇ 3549), todos eles grandes homens e soldados que honraram o nome de Portugal em África.
Cherno AB
Enviar um comentário