Prompt original e composição editorial: Luís Graça.
Textos: António Rosinha e Luís Graça (2026)
Imagens: Arquivo do Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné
Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.
Guiné > Zona Leste > Bafatá > c. 1931 > "Jangada no Rio Geba. Passagem entre Bafatá e Contuboel"... Imagem reproduzida em "O Missionário Católico" , Boletim mensal dos Colégios das Missões Religiosas Ultramarinas dos Padres Seculares Portugueses, Ano VIII, n.º 81, Abril de 1931, p. 169 (Exemplar oferecido ao nosso blogue por Mário Beja Santos).
Digitalização, edição e legendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2018)
1. Comentário de António Rosinha ao poste P27379 (*)
Tenho dúvidas sobre o que dizes, que o Marcello Caetano "conhecia bem o ultramar"...
Luis Graça, de facto ninguém conhecia o Ultramar africano, no que diz respeito a governantes portugueses, desde ministros, caso de Marcelo que até foi ministro das colónias, aos governadores gerais, que faziam papel de mangas de alpaca em comissões de 4 anos.
Até ao Estado Novo não nos entendíamos aqui no retângulo, como depreciativamente chamavam à metrópole os estudantes do império, quanto mais sabermos navegar de jangada no Geba, no Quanza ou no Zambeze.
Mas tenho uma ideia que criei em Angola com colonialistas que gostavam dos inimigos do Salazar, e que admiravam as ideias de Henrique Galvão, Norton de Matos, e até o Marcello e outros turistas, por exemplo, e com estudantes do império, e seus pais, que conheci muitos e trabalhei com vários.
Essa ideia, em que fui acreditando, e mais tarde acreditei ser verdade, Salazar aguentou-se "até cair da cadeira", porque em 1961 deu o grito, "Para Angola, rapidamente e em força".
Mas esses colonialistas, e entre eles imensos militares, continuavam a acusar Salazar que ele não os deixava desenvolver, no caso, Angola, nossa terra, riquiiiiíssima!
Só que Salazar, não conhecendo África, e nem gostando de África, vista como uma maldita herança, ele sabia ou adivinhava, como ninguém, que quanto mais investisse maior seria o transtorno.
E viajar de jangada era bom, fabulosa aquela foto da jangada de Bafatá até Contubuel, lembrei-me do Governador refastelado em Bolama, conheci muitos jangadeiros em Angola, sempre sem pressa, como Salazar gostaria "se visse" ao vivo (ao longe, mas invisível, a partir de São Bento) os turistas a passearem-se de fato e gravata nas aguas cristalinas do Gega, e nas picadas de Angola.
Em 1961, em milhares de quilómetros, havia 60 km de asfalto, imagine-se em 1935!
Salazar não levava o império a sério, nem sequer as ilhas adjacentes, a Madeira e os Açores.
Pessoalmente tive uma prova do pouco que representava o ultramar para o Salazar. Eu como funcionário dos Serviços Geográficos, mandou-me, a mim e a vários colegas, mapear Angola, e no meu espólio, além do equipamento indispensável, ia uma injeção antiofídica vários anos caducada e uma bússula avariada, e tinha que devolver tudo integral como recebi, caso contrário tinha comprar novo.
Assim, como na tropa, de armas pesadas dei apenas 3 tiros de Mauser, e 3 tiros de pistola Parabelum, de treino na recruta. Até que rebentou o terrorismo e tive que comprar farda de furriel, e tudo mudou um pouco.
terça-feira, 4 de novembro de 2025 às 00:52:00 WET
2. Comentário de Luís Graça: conhecer ou não conhecer, eis a questão ?!
Rosinha, eu é que te disse: "Tenho dúvidas sobre o que dizes, que Marcelo Caetano 'conhecia bem o ultramar' "...
De qualquer modo, Rosinha, a pergunta é pertinente: "conhecer ou não conhecer bem o ultramar, eis a questão"...
E já não digo a Guiné ou Timor, mas Angola e Moçambique, as únicas colónias que tinham potencialidades para serem grandes "colónias de povoamento", que era aquilo que interessava às "potências colonizadoras"... Mas parecia não interressar a Salazar nem à meia-dúzia de grandes famílias que dominavam a econonia (a abundância de mão de obra, os baixos salários e a repressão não as obrigavam a modernizar as empresas e os latifúndios).
A questão que levantaste, tu e o Alberto Branquinho, é importante para se compreender as diferenças de visão, pensamento e ação entre Salazar e Marcelo Caetano, especialmente no que toca ao "fim do império" e ao modo como o Estado Novo enfrentou a descolonização e a guerra do ultramar/ guerra colonial... que foi aquela em que tu, eu e o Branquinho participámos. (Na Academia Militar, prefere-se falar em "Guerra de África", esquecendo-se a Índia Portuguesa, Timor...)
Disseste tu, Rosinha: "Caetano foi ministro das colónias, com visita prolongada às colónias, e tinha ideias bem claras, e opostas ao pensamento de Salazar"...
Eu sei que és um leitor apaixonado da história do nosso país, e atento ao que se escreve e se publica sobre o período do Estado Novo e em especial sobre a colonização e a descolonização da "menina dos teus olhos", que era Angola... (Descolonização que foi, estamos os dois inteiramente de acordo, uma tragédia imensa, para todos; a história poderia e deveria ter sido escrita de outra maneira.)
Claro que entre Salazar e o seu sucessor político (e que chegou a ser o seu "delfim") havia diferenças substanciais na maneira de ser, pensar, sentir, estar, falar e fazer... Substanciais mas não antagónicas...
Um era ruralista, provinciano, nacionalista, conservador, autoritário-paternalista, admirador e Mussolini; o outro era industralista, tecnocrata, luso-tropicalista, europeizante, paternalista-autoritário...
Ambos eram professores, brilhantes, um de Coimbra, outro de Lisboa, um "fiscalista", outro "administrativista"... Ambos governaram em ditadura, obrigaram-nos a fazer uma guerra
inútil, desgastante e estúpida e perderam o comboio da História...
Afinal, "a solução na continuidade", com Marcello Caetano, acabou por nos levar a um beco sem saída, com o regime alienando o apoio (que era lhe vital) das Forças Armadas.
Eu também tenho dúvidas quando alguém me diz que Marcello Caetano "conhecia bem o ultramar"...
Seguramente que conhecia melhor que o Salazar, o qual que nunca sujou as botas de elástico com a terra vermelha de África, nunca lá foi, de resto, nunca saiu praticamente do país.
Caetano fez um périplo pelo Império (África Ocidental) em 1935 com estudantes, um cruzeiro turístico-cultural; foi comissário nacional da Mocidade Portuguesa (1940–1944); em 1945, realizou uma longa viagem a África, visitando territórios como Angola e Moçambique, além de se deslocar à então União Sul-Africana, na qualidade de minisro das Colónias (1944–1947); em 1969, fez uma visita oficial aos territórios em guerra (Guiné, Angola e Moçambique).
Marcello Caetano tinha a obrigação de conhecer melhor o Ultramar português, e nomeadamente África... Muito melhor do que Salazar, por muito bem "informado" que este pudesse estar através da leitura de dossiês, relatórios, reportagens, da audição de testemunhos, do visionamento de filmes (embora fosse pouco cinéfilo), etc.
De facto, a relação pessoal, afetiva, emocional e intelectual de cada um com o Ultramar é uma chave interpretativa fundamental.
Salazar não era um "africanista", como tu, Rosinha, o foste... E tantos outros a que mais tarde chamaremos, impropriamente, "retornados" (porque já nascidos em África ou lá crescidos e educados, desde pequeninos).
Tenho amigos/as nascidos/as em Angola... Angola continua a ser a sua "pele", a sua "idiossincrasia", a sua" cultura", a sua "musiquinha", as suas "comidinhas", etc.... independentemente da sua cor... Temo-los aqui no Blogue, a começar por ti, pelo Patrício Ribeiro, etc.
Marcello, intelectualmente, sim, era um "africanista" (o termo é extramente ambíguo), mesmo nunca lá tendo vivido... E mais: era um adepto do luso-tropicalismo, formulado pelo sociólogo brasileiro Gilberto Freire...
Era um "académico", que veio do "downstairs" (pai sargento), apanhou o ascensor social... Por mérito próprio, sem dúvida. Tal como os seminaristas Salazar e Cerejeira. Nenhum deles nasceu em berço de ouro. E, no fundo, os três desprezavam as elites (económicas e sociais).
Vejamos algumas diferenças entre os dois homens a quem calhou a "batata quente" da gestão do fim do império (ou fim de "ciclo histórico") mas que fizeram como a avestruz, enterraram a cabeça na areia. Física e simbolicamente. Julgo que é assim que a História os irá julgar, daqui a 50, 100 anos... (No fundo, líderes cegos que conduziram um povo de cegos quase até ao abismo, tal como o Dom Sebastião ...)
(i) Salazar: o império “abstrato”, com a cabeça,
tronco e até membros (!)... no Terreiro do Paço
(e no Palácio de São Bento)
O facto de nunca ter saído de Portugal continental (com exceção de algumas deslocações curtas dentro da Península) diz muito... E de Portugal, o que é que ele conhecia ? Nem sequer a Madeira ou os Açores... E nunca foi ao Pulo do Lobo, como o prof Cavaco Silva.
É verdade que no seu tempo, no seu auge, ainda as viagens não eram rápidas nem cómodas...E as estradas mal começavam a ser alcatroadas.
E depois, bolas, o raio do império ficava longe, bem longe: do Minho a Timor eram 20 mil quilómetros de distância, um mês de barco... Tudo somado eram mais de dois milhões de quilómetros quadrados, coisa que fazia bem ao ego do Zé Povinho (mesmo que este não soubesse nada de geografia, onde ficava Buruntuma, o rio Quanza ou a ilha de Ataúro, etc).
O império era uma construção abstrata, ideológica e simbólica, não uma experiência vivida. Para Salazar, Angola e Moçambique não tinham cheiros, sabores, cores, lama, sangue, mijo, esperma, suor, lágrimas, drama, comédia, tragédia... Só as conhecia do mapa dos geógrafos (e dos mapas da contabilidade publica).
Salazar via o império como um "instrumento de legitimação nacional", um "desígnio da providência" (logo, do domínio do sagrado, inalienável), um eixo da “unidade pluricontinental e plurirracial" que dava grandeza ao Estado Novo e a Portugal no seio das Nações.
Era, todavia, uma "herança histórica", um "património", cuja manutenção era dispendiosa, para a sua contabilidade de perito em finanças... Era um "luxo", caro... Era uma "amante", cara...
Daí a política colonial de Salazar ser "fortemente doutrinária, ideológica e centralizadora", reforçando-se, com a propaganda, a falsa ideia da "missão civilizadora", fazendo -se tábua rasa do passado das civilizações africanas (e outras), recusando-se quaisquer concessões à autonomia dos povos, índigenas, colonos e assimilados...
A Exposição do Mundo Português, em 1940, foi a sua coroa de glória. E depois do que viu, não precisava mais de ter a maçada de ir a África e à Ásia, "perder tempo e dinheiro"...
O branco de Angola, como o Rosinha, seria sempre um português de 2ª... Tal como os portugueses da metróple, tirando a elite dirigente e a classe dominante, eram cidadãos de 2ª classe (e as mulheres de 3ª classe).
Salazar nunca viu, ao vivo, "in situ", uma roça de cacau, uma fazenda de café, um plantação de algodão ou de chá, um campo de mancarra, uma bolanha, uma tabanca, uma bajuda de mama firme, um régulo, um soba ou um liurai, um doente de paludismo ou da doença do sono, uma mina da África do Sul (para onde se mandavam os desgraçados dos moçambicanos)...
Salazar nunca viu, ao vivo, "in situ", uma roça de cacau, uma fazenda de café, um plantação de algodão ou de chá, um campo de mancarra, uma bolanha, uma tabanca, uma bajuda de mama firme, um régulo, um soba ou um liurai, um doente de paludismo ou da doença do sono, uma mina da África do Sul (para onde se mandavam os desgraçados dos moçambicanos)...
Nem sequer um leão ou um elefante ao vivo (a menos que tenha ido ao Jardim Zoolófgco de Lisboa, o que eu até duvido...).
Salazar era um ruralista de Santa Comba Dão, um provinciano de Coimbra, e, aqui, enquanto pôde, travou os impulsos de modernização e industrialização dos "tecnocratas" do regime, de Lisboa, como Ferreira Dias, Marcello Caetano, etc.
(ii) Marcelo Caetano e a experiência
direta ou indireta do Ultramar
Marcello, além da sua viagem turístico-cultural em 1935 às colónias do "Ocidente" (e repare-se que até 1951 a palavra "colónias" fazia parte do discurso dominante, da realidade económica, jurídica, administrativa e política, sem quaisquer complexos!), foi ele próprio Ministro das Colónias (1944–1947), num período ainda marcado pela Segunda Guerra Mundial e pelo início do fim dos "impérios coloniais", tal como eles foram brutalmente desenhados, a régua e esquadro, na Conferência de Berlim, 60 anos antes, pelos ingleses, franceses, alemães, esses, sim, os verdeiros colonialistas, as três grandes potências europeias da 1ª era do capitalismo industrial. Conhecia relativamente bem Angola e Moçambique.
Caetanto era um jurista e, como tal, interessou-se pelo direito colonial, fez trabalhos sobre a administração colonial, etc. Mas estava habituado a "mudar por decreto". Como os colonialistas europeus que desenhavam territórios a régua e esquadro.
Estava informado, e no início da década de 1960 era um dos intelectuais ("orgânicos") do regime que percebia a inevitabilidade das mudanças... e também conhecia as vulnerabilidades do império e do Portugal macrocéfalo, em vias de desenvolvimento acelerado.
Deve ter feito uma análise de tipo SWAT, dos pontos fortes e fracos de Portugal e do império de pés de barro, ameaças e oportunidades...As ameaças eram muitas, e não apenas exógenas, vindas de fora, mas também endógenas, vindas de dentro...
As eleições de 1958 (e o "terrorismo" em Angola, em março de 1961, e depois o "desastre" da Índia Portuguesa, em dezembro desse ano horrível para todos nós) fizeram soar as campainhas para os homens do Estado Novo (pelos menos para os mais lúcidos, como Marcello Caetano, Adriano Moreira, Correia de Oliveira, Teotónio Pereira; e do lados dos militares, Botelho Moniz, Costa Gomes...).
E nada seria depois como dantes, quando Portugal se abre, economicamente, ao exterior, com a adesão, ainda em 1960, à EFTA (a Associação Europeia do Comércio Livre). Aí Salazar, que tinha horror, não apenas ao "comunismo" soviético como ao "capitalismo" americano e à sua "democracia liberal", perdeu o controlo dos acontecimentos...(se é que não perdera já antes, em 1945, com a vitória dos Aliados ).
(iii) O pós-salazarismo e a "evolução
na continuidade"
A partir de 1968, sentado na cadeira de São Bento, manietado pela extrema-direita do regime e com um guerra cada vez mais "feia" e impopular em Angola, Guiné e Moçambique, Caetano inventou a política de “evolução na continuidade”, as "conversas em família" e a "cosmética reformista", mantendo embora o fomentismo, o desenvolvimentismo, enfim, o esforço da modernização da economia e da sociedade portuguesas... O país crescia a um ritmo que dava para ir pagando a guerra...até 1973 (a par das remessas dos emigrantes em França e na Alemanha).
Em África, a palavra de ordem era:
(i) manter a defesa do império, a todo o custo;
(ii) desenvolver demográfica e economicamente os territórios;
(iii) abrir-se ao capital estrangeiro; (iv) modernizar a administração ultramarina...
Demasiado tarde: o falhanço das tímidas reformas políticas do marcelismo (a fugaz "primavera política") e o contexto internacional (ONU, OUA, guerra fria, luta armada na Áfria Austral, apartheid, crise petrololífera de 1973, a primeira grande crise do capitalismo pós-guerra, etc....), vieram condenar-nos definitivamente "ao orgulhosamente sós", ao ostracismo internacional, e inviabilizar qualquer experiência de descolonização gradual dentro do quadro do regime (como se viu na Guiné, com Spínola)...
Acredito que ele, Marcello Caetano, tinha também uma relação emocional e intelectual forte ao "Ultramar português"... O que terá também contribuido para bloquear, a par do travão da extrema direita do regime, qualquer tentativa de ensaiar ou apoiar soluções políticas que levassem a médio e longo prazo a uma progressiva autonomia dos territórios ultramarinos (como pretendia Spínola em "Portugal e o Futuro") e depois a uma verdadeira descolonização em que todos ganhassem...
Prisioneiro dos mitos imperiais, paralisado pelos constrangimentos da realidade, preferindo o suicídio coletivo do exército na Guiné à perda das"joias da coroa" (Angola e Moçambique), Marcello Caetano revelou-se um líder fraco, deixou-se cair, não fisicamente da cadeira, mas politicamente na secretária da inércia trágica, esticando a corda da guerra até 1974 (o seu annus horribilis). Morreu no exílio, no Brasil, a fazer aquilo de que gostava, que era dar aulas de "direito administrativo".
Reconhecido como o "pai" do direito administrativo moderno portugues, importou e adaptou as metodologias da ciência jurídica europeia (sobretudo francesa, alemã e italiana) para erguer um edifício conceptual lógico, claro e articulado. Crou uma escola, deixou discípulos.
Mas o seu direito administrativo não deixou de refletir formalmente a matriz ideológica do regime corporativo e autoritário, que ele serviu, de alma e corção. Mais: foi útil para enquadrar legal e ideologicamente a administração colonial e o conceito de "Portugal pluricontinental e multirracial", sustentando juridicamente a presença portuguesa em África e a negação da autodeterminação dos territórios e povos ultramarinos. (**)
____________________
Notas do editor LG:
(*) Vd. poste de 2 de novembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27379: 1º Cruzeiro de Férias às Colónias do Ocidente (Cabo Verde, Guiné, S. Tomé e Príncipe e Angola, 10 de agosto - 3 de outubro de 1935), de que foi diretor cultural o jovem e brilhante professor Marcello Caetano - Parte I: um grande evento social e político
(**) Último poste da série > 27 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28301: Verso & reverso (3): quando era o pai que decidia o futuro dos filhos (e filhas): "tu vais para a Academia Militar, tu vais para o Seminário "... (Virgínio Briote)
Demasiado tarde: o falhanço das tímidas reformas políticas do marcelismo (a fugaz "primavera política") e o contexto internacional (ONU, OUA, guerra fria, luta armada na Áfria Austral, apartheid, crise petrololífera de 1973, a primeira grande crise do capitalismo pós-guerra, etc....), vieram condenar-nos definitivamente "ao orgulhosamente sós", ao ostracismo internacional, e inviabilizar qualquer experiência de descolonização gradual dentro do quadro do regime (como se viu na Guiné, com Spínola)...
Acredito que ele, Marcello Caetano, tinha também uma relação emocional e intelectual forte ao "Ultramar português"... O que terá também contribuido para bloquear, a par do travão da extrema direita do regime, qualquer tentativa de ensaiar ou apoiar soluções políticas que levassem a médio e longo prazo a uma progressiva autonomia dos territórios ultramarinos (como pretendia Spínola em "Portugal e o Futuro") e depois a uma verdadeira descolonização em que todos ganhassem...
Prisioneiro dos mitos imperiais, paralisado pelos constrangimentos da realidade, preferindo o suicídio coletivo do exército na Guiné à perda das"joias da coroa" (Angola e Moçambique), Marcello Caetano revelou-se um líder fraco, deixou-se cair, não fisicamente da cadeira, mas politicamente na secretária da inércia trágica, esticando a corda da guerra até 1974 (o seu annus horribilis). Morreu no exílio, no Brasil, a fazer aquilo de que gostava, que era dar aulas de "direito administrativo".
Reconhecido como o "pai" do direito administrativo moderno portugues, importou e adaptou as metodologias da ciência jurídica europeia (sobretudo francesa, alemã e italiana) para erguer um edifício conceptual lógico, claro e articulado. Crou uma escola, deixou discípulos.
Mas o seu direito administrativo não deixou de refletir formalmente a matriz ideológica do regime corporativo e autoritário, que ele serviu, de alma e corção. Mais: foi útil para enquadrar legal e ideologicamente a administração colonial e o conceito de "Portugal pluricontinental e multirracial", sustentando juridicamente a presença portuguesa em África e a negação da autodeterminação dos territórios e povos ultramarinos. (**)
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Notas do editor LG:
(*) Vd. poste de 2 de novembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27379: 1º Cruzeiro de Férias às Colónias do Ocidente (Cabo Verde, Guiné, S. Tomé e Príncipe e Angola, 10 de agosto - 3 de outubro de 1935), de que foi diretor cultural o jovem e brilhante professor Marcello Caetano - Parte I: um grande evento social e político
(**) Último poste da série > 27 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28301: Verso & reverso (3): quando era o pai que decidia o futuro dos filhos (e filhas): "tu vais para a Academia Militar, tu vais para o Seminário "... (Virgínio Briote)



2 comentários:
A última jangada que utilizei na minha vida não foi nem no Quanza, nem no Cunene nem no Cacheu nem no Mansoa.
Foi nas festas da Senhora de Alcamé há uns 5 ou 6 anos.
Vila Franca mantem essa relíquia a funcionar no Tejo, nessa festa, junto â Ponte Carmona.
Antº Rosinha
Luis Graça, o meu ponto vista, muito diferente do teu, estamos muito longe do ponto de vista de quem saiu por cima, nesta guerra de 13 anos.
Os adeptos dos movimentos vitoriosos, ou melhor, dos dirigentes vitoriosos, houve muitos dirigentes que não foram vitoriosos, esses adeptos estão tão felizes, que não se dão ao trabalho de nos transmitir se ouviram falar em Marcelo ou Salazar e quem eram eles.
Para esses felizes adeptos dos seus dirigentes, muitos com BI e passaporte português, não entendem bem a diferença entre um Salazar, com um Nuno Tristão, ou um Norton de Matos ou qualquer um que tenha estátuas armazenadas por lá.
De facto, enquanto por cá fazemos a história por mais que um ponto de vista, por lá, com vários movimentos por cada ex-colónia, aquela guerra está apenas a ser escrita pelos vencedores.
O Mpla em Angola, a Frelimo em Moçambique e o PAIGC na Guiné. e penso que em Caboverde o PAICV.
Antº Rosinha
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