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domingo, 20 de setembro de 2026

Guiné 61/74 - P28361: Humor de caserna (292: Em Bissau, bebia-se "Cuba Livre", e em Lisboa, no Cais do Sodré, ..."uísque de Sacavém"






















Prompt original e orientação editorial: Luís Graça.
Textos  Jorge Golias (2024) | Luís Graça (2026)
Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.


1. Excerto do texto "Memórias do Agrupamento de Transmissões e Histórias de Guerra na Guiné – 1972/74", da autoria do cor eng trms ref Jorge Golias, publicado em 24/9/2024, no sítio "História das Transmssões Militares" (reproduzido com a devida vénia...):



(...) 12. À margem da guerra


Por vezes alguém se lembra de um episódio, ou anedota, passada na Guiné e que, pela sua graça, aqui deixo alguns registos.

Um Comandante de uma Unidade de Artilharia, o major Gaspar [maj art José Joaquim Vilares Gaspar, mais conhecido na tropa por Gasparinho, na altura 2ª cmdt do GA7 - Grupo de Artilharianº 7 ] (*) enviou a seguinte mensagem Imediato para o Comando-Chefe:

– Info impossível cumprir missão por falta de mat rádio. Solicito envio urgente de meios rádio.

Resposta do Com-Chefe:

– Ref v/ msg info não haver rádios disponíveis; Mais info Teixeira Pinto pacificou Guiné sem rádios.

Réplica do major Gaspar com mensagem Relâmpago:

– Ref v/ msg solicito envio urgente de Teixeira Pinto.

Há quem atribua o protagonismo deste episódio ao ten-coronel Sanches da Gama, comandante das trms, e ao major Gaspar, de artilharia, ambos muito conhecidos pelo seu bom humor.

O major Gaspar, aliás, viria a tornar-se num mito, pelas deliciosas histórias que se contam da sua autoria. Relatarei apenas mais duas: quando um dia ao aproximar-se um heli com o general Spínola a caminho da sede do CAOP (**) ele enviou mensagem ao escalão superior dizendo: "Info Vexa que Sexa passou na mexa!"

Conta-se que a partir daqui foi proibido o uso destes termos em mensagens.

Era proverbial a aversão do major Gaspar aos papéis e à burocracia. Dizia-se que dependurava todas as notas vindas do QG/CTIG em cordões por cima da sua mesa de trabalho. E, quando vinha alguém de Bissau e indagava sobre um processo qualquer, ele, passando a mão pela nota dependurada e abanando-a, respondia:

– Está pendente!

À medida que o tempo ia passando, as pessoas iam ficando “apanhadas do clima”. Era o efeito do cacimbo em terra de extremos!

A propósito do passar do tempo, era prática corrente encher o calendário de cruzes à medida que os dias iam passando, e os que não confessavam esta prática eram traídos quando sabiam sempre os dias certos que estavam em falta para o regresso.

Mas, a partir de certa altura, quando se constatou que na messe se comia sempre uma banana de sobremesa (durante o ano de 1973 foi sempre assim), então começaram a aparecer os que mediam o tempo de comissão pelos km de bananas que tinham comido, ou o tempo em falta pelos km de bananas que faltava comer!

Coisas de apanhados! Ficou célebre o dito dos que iam acabando a sua comissão:

– Está na mala!

Apanhados e não, depois das refeições, nomeadamente à noite, saboreavamos um bom velho uísque, Martins20, Swing, Old Parr, com água “Perrier” ou um bom brandy Napoleón ou Curvoisier ou uma boa aguardente Carvalho Ribeiro & Ferreira.

Não fazíamos a coisa por menos porque estas excelentes bebidas eram baratas. Os mais modernaços iam para a coca-cola, bebida proibida em Portugal antes da revolução! E assim se descobriu a "Cuba-Livre" (***) que, na Guiné, era a mistura da coca-cola com uísque.

(Revisão / fixação de texto, negritos, títulos, notas de rodapé: LG) (****)
_______________________

Notas do editor LG:

(*) Mas antes, foi cap art, o primeiro de 3 comandantes da CART 3330 (Nhamate e Bula, dez 1970/dez 1972); Comandente do COP 6 (Mansabá) e 2º cmdt do GA7.

(**) Mais provavelmente COP6

(***) Variante do cocktail "Cuba-libre" (que junta rum, coca-cola e sumo de lima, simbolizando historicamente a transição da independência cubana e a influência dos Estados Unidos no Caribe da viragem do séc. XIX para o séc. XX); a criação do cocktail remonta ao contexto da Guerra Hispano-Americana (1898) e aos primeiros anos da ocupação militar norte-americana em Cuba; o brado de guerra das forças libertadoras cubanas contra o domínio colonial espanhol era "¡Cuba Libre!" (Cuba Livre).

9 comentários:

Tabanca Grande Luís Graça disse...

Confesso que não gosto nem nunca gostei de coca-cola. Nem de rum. E de uísque, só com gelo... Logo, nunca provei esse tal cocktail "Cuba Livre" (não confundir com o "Cuba-Libre"). Na Guiné havia estas "originalidades"...A verdade é que a maior parte de nós (99%) teve acesso a bebibas alcoólicas (mas também refrigerantes enlatados) que nunca tinham passado pelo nosso "estreito". Os "senhores da guerra" bem sabiam, das outras guerras, que não havia guerra sem álcool... Daí o paradoxo: na Lisboa "chungosa", bebia-se o "uísque marado", em Bissau (e no mato) bebia-se do bom e do melhor...

Anónimo disse...

Oh maltosa, com tanta publicidade ao álcool (ou alooóis), este blog devia ser interdito aos djubis...

Tabanca Grande Luís Graça disse...

Por acaso o plural de "álcool" é "álcoois"... E e o leitor anónimo deve a(ssa)ssinar o comentário.

Tabanca Grande Luís Graça disse...

Por acaso o plural de "álcool" é "álcoois"... E e o leitor anónimo deve a(ssa)ssinar o comentário.

Tabanca Grande Luís Graça disse...

E por acaso também não me lembro de ver coca-cola (passe a publicidade) em garrafa, mas a lata...A IA é inteligente mas não andou na guerra de mil novecentos e sessenta e troca o passo.

Anónimo disse...

A coca-cola, 1972 em diante, era de lata. Bebiam-na, misturada com uísque, sobretudo os graduados, porque um copo dessa mistura era bem mais cara do que uma cerveja.
Fui um consumidor habitual dessa bebida, sobretudo nas noites de angústia, quando repetia as doses não sei quantas vezes.
Carvalho de Mampatá

Anónimo disse...

A propósito do major Gaspar recordo um episódio verdadeiro, que já terei enviado para o blogue. Trata-se de uma msg (que ficou na minha posse) enviada à ACAP pelo então cap. Gaspar cmdt da Cart 3330, que transcrevo :
MAIOR RESPEITO BOA VONTADE VEXA VERIFICO TODO PEIXE ESTRAGADO OVOS
> C/PINTOS ETC. IR BUSCAR ESTES IMPLICA RISCO VIDA. OU MONTO AVIÁRIO OU ENTRE ACORDO.
> PRONTO COLABORAR TODO SACRIFÍCIO. ESTOU COMO PESSOAL DESTRUÍDO
> MORALMENTE JULGO COMPREENDEU CAP. GASPAR.

Ernestino Caniço

Tabanca Grande Luís Graça disse...

A "coca-cola" (passe a publicidade...) tem uma história insólita ou pelo menos peculiar em Portugal. Segundo pesquisei, na Net, a marca chegou a ter actividade publicitária portuguesa, Ficou célebre o slogan atribuído a Fernando Pessoa, “Primeiro estranha-se, depois entranha-se”... A introdução da bebida acabou, no entanto, por ser proibida pelo Estado Novo.

A própria Coca-Cola Portugal confirma que a primeira garrafa só foi vendida em Lisboa em 4 de Julho de 1977, já depois do 25 de Abril.

A questão, ao que parece, não foi simplesmente uma proibição comercial por causa da indústria nacional de refrigerantes (a laranjina C, a compal, a sumol, etc.). A documentação histórica mostra que havia também uma dimensão económica, proteccionista, cultural e até política... Salazar via na Coca-Cola um símbolo do modernismo. do consumismo, e da influência americana, enfim, do "capitalismo liberal", que ele detestava (tal como o Mussolini)...

Numa carta ao responsável europeu da companhia, terá manifestado precisamente o receio de que ela viesse alterar a “paisagem moral” portuguesa.

E houve mesmo uma longa batalha administrativa: uma tentativa de fabricar Coca-Cola em Portugal na década de 1950 acabou bloqueada, e o Supremo Tribunal Administrativo confirmou em 1961 que a circulação e consumo do produto não estavam autorizados.

Mas em Bissau, Luanda ou Lourenço Marques, a realidade (colonial) criava uma situação quase surreal. As Forças Armadas Portuguesas estavam ali em territórios onde circulavam produtos que em Lisboa eram difíceis de encontrar, proibidos ou simplesmente inacessíveis.

De acordo com a nossa experiência, na Guiné, nos bares e cantinhas da tropa (Exército, Marinha, Força Aérea) podiam faltar as batatas, o peixe, os ovos ou até a farinha para o pão, mas não a cerveja (nacional) a par dos bons uísques escoceses e os excelentes conhaques franceses... Sem esquecer a Coca-Cola (que, segundo creio, era fabricada na África do Sul; vinha em lata).

Tabanca Grande Luís Graça disse...

A "Fanta", em lata, foi outra marca da Coca-Cola, igualmente importada da Áfrcia do Sul, que começámos por conhecer em Bissau. A sede era tanta, quando desembarcámos em Bissau, em finais de maio de 1969 (já início do tempo das chuvas) que parávamos em todos os estaminés que vendessem Fanta fresca (dce preferência geldfa, o que era difícil)...

Foi uma "barrigada" de Fantas que apanhei, até descobrir que aquela merda açucarada só fazia mais sede...

Verdadeiro "suplício de Tântalo, aquela terra nos ou três primeiros dias...