Pesquisar neste blogue

terça-feira, 23 de dezembro de 2025

Guiné 61/74 - P27564: (In)citações (283): Em louvor dos Postos Escolares Militares e do Cherno Rachide (Cherno Baldé, Bissau)




Guiné > Zona Leste > Setor L1 > Bambadinca > BCAÇ 2852 (1968/70) e CCAÇ 12 (1969/71) > Visita que o Cherno Rachide fez a Bambadinca, no início de janeiro de 1970... 

Foto do álbum do ex-fur mil at inf Arlindo Roda, da CCAÇ 12 . Sem legenda. Infelizmente as fotos do meu camarada Arlindo Roda não trazem legendas (local, data, etc.)... A personagem central, vestida de branco e "gorro" preto, que parece estar a presidir a uma cerimónia religiosa islâmica, é, seguramente, o Cherno Rachide que eu conheci em Bambadinca nessa altura... 

Recordo-me de as NT lhe terem armado uma tenda, no recinto do quartel de Bambadinca, para ele receber condignamente não só as autoridades locais, civis e militares, como também os seus fieis...  

Ele virá a falecer, em Aldeia Formosa, onde residia, em setembro de 1973. Na altura, o comandante do BART 3873 (Bambadinca, 1972/74) organizou uma coluna de transporte  para os seus fiéis poderem ir prestar-lhe a última homenagem em Aldeia Formosa.

  No meu tempo, o troço Saltinho- Contabane - Aldeia Formosa estava interdito, logo a partir da Ponte do Saltinho, sobre o rio Corubal... O transporte até Aldeia Formosa teria que ter segurança militar.

Foto: © Arlindo Roda (2010). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


 


Cherno Baldé: Nasceu em Fajonquito, setor de Contuboel, região de Bafatá, zona leste  no início dos anos 60. Fula e guineense, aprendeu a ler e a escrever com a NT. Tem formação superior universitária (Kiev e Lisboa). É gestor de projetos, consultor independente. Vive em Bissau. Muçulmano, é casado com uma nalu, cristã. tem 4 filhos. É nosso colaborador permanente para as questões etno-linguísticas.

1. Comentário do Cherno Rachide ao poste P27559 (*)









Antes de tudo, quero saudar o ex-Furriel e Professor Manuel Amaro e expressar a minha gratidao e respeito pelo trabalho realizado, em tempos, ao servico das criançaas da Guiné-Bissau, colmatando assim um vazio e um atraso de muitos séculos, relativamente à educação e formação da nossa juventude rumo à modernidade. 

É importante salientar a grande surpresa que o partido "libertador' teve, logo a seguir à independência, da avalanche de jovens que, literalmente, invadiram os centros urbanos vindos das tabancas (antigos aquartelamentos) para continuação dos estudos, não era nada do que estariam à espera, pois é preciso desmistificar que a guerra do PAIGC  não foi para libertar ninguém, mas de substituir os agentes da administração colonial, aproveitar-se do espólio colonial e continuar a subjugar o resto da população, sobretudo, rural, pobre e não alfabetizada.

Na sequência da visita que fez ao Cherno Rachide a fim de esclarecer um mal entendido, o Manuel Amaro escreveu: 

"Regressei ao Quartel, mas pelo caminho uma dúvida permanecia no meu espírito. Alguma coisa não estava certa. Um chefe religioso, mesmo ali, naquele sítio, naquela situação de guerra, não tem aquele comportamento".

Não sei, ao certo, o que quereria dizer com estas palavras de desabafo, mas gostaria de esclarecer que, de lado a lado, entre o regime colonial português (não confundir com o exército português no terreno constituído principalmente de milicianos mobilizados à força) e a elite muçulmana do território, de maioria Sunita, predominava um relacionamento cordial e de mútuo respeito e colaboração, mas ao mesmo tempo, de mútua desconfiança no campo religioso, pois os dois lados actuavam em campos diametralmente opostos e de guerra fria permanente, mesmo se, no fundo, as diferenças não fossem muito grandes, tendo em conta as suas origens e princípios dogmáticos.

Eu, pessoalmente, pertencente à comunidade muçulmana por nascença, só fui admitido a continuar na escola portuguesa porque um Marabu mandinga (chefe religioso), amigo do meu pai, garantiu que não havia qualquer incompatibilidade entre a confissão muçulmana (religião) e a escola portuguesa (conhecimento técnico-profissional) desde que não incluisse a doutrinação (catequese) cristã.

Tambem, é preciso dizer, sem ambiguidades que, a política e a preferência portuguesa nas suas colónias era claramente a favor da doutrinação religiosa e a assimilação social e cultural, mas ainda assim era preciso ter os meios, a capacidade e a disponibilidade para o realizar no terreno.

Quanto a uma eventual ligação e "duplo jogo" com a guerrilha, eu não acredito de todo, tendo em conta a forte ligação com o poder colonial através dos seus representantes na província que era pública e conhecida de todos,  especialmente com o gen Spinola, mas também, mesmo que houvesse eventuais contatos com o PAIGC, seria um sinal da sua importância enquanto chefe religioso, cuja influência ia para além das fronteiras da Guiné (dita portuguesa). 

O reconhecimento da sua importância e inteligência intelectual dão-lhe a liberdade, mesmo que condicionada, de viver no seu tempo e espaço, feito de mudanças radicais, de violência e de guerras permanentes e a sua, relativamente, curta longevidade reflecte o fardo social e a enorme pressão psicológica a que estavam submetidos, actuando entre duas frentes irreconciliáveis e um misto de guerra política e religiosa. 

De certa forma, a realidade política da Guiné ainda carrega essas dualidades e ambivalências que não foram resolvidas com a independência, pelo contrário, agudizaram-se no meio da proliferação da miséria e do obscurantismo em que o país mergulhou,  fruto da má gestão e incúria dos sucessivos governos responsáveis pela governação e gestão do país. (**)

Cherno AB

segunda-feira, 22 de dezembro de 2025 às 11:09:42 WET 

(Revisão / fixação de texto, negritos: LG)


2. Comentário do editor LG:

O Cherno Rachide era imã ou califa ? Qual a distinção ?

(i) Califa (do árabe "khalīfa", sucessor): 

Originalmente, refere-se ao líder político e religioso da comunidade muçulmana ("ummah"), após a morte do Profeta Maomé.  Tradicionalmente, o califa é considerado o "sucessor do profeta Maomé", não como profeta, mas  na liderança  da comunidade.

A sua função principal é governar, aplicar a lei islâmica ("sharia") e proteger e expandir o Islão. É uma figura mais associada ao Islão sunita.

O califado teve grande importância histórica (Omíadas, Abássidas, Otomanos), mas não existe oficialmente hoje (vd. No passado Califa de Bagdade, Califa de Córdova). 

Em contextos locais, como na África Ocidental, o termo pode ser usado para designar um líder espiritual ou político de uma comunidade islâmica, muitas vezes com autoridade sobre uma região ou grupo étnico.

Na Guiné-Bissau, califa era um título atribuído a líderes religiosos e políticos influentes, como Cherno Rachid Jaló, que exercia autoridade sobre uma vasta área e população (Quebo-Forreá, incluindo parte da Guiné-Conacri e Senegal).


(ii) Imã (do árabe "imām", líder, guia): 

É o líder religioso que conduz a oração na mesquita e pode também ser uma referência espiritual para a comunidade. O imã não tem necessariamente poder político, embora em alguns contextos possa exercer influência social e moral.

No caso de Cherno Rachid Jaló, ele era chamado de califa porque era um líder espiritual e político, com autoridade sobre uma região e população, não apenas um guia religioso. O título reflete a sua influência e poder, que iam além do domínio religioso, abrangendo também a dimensão social e política.

No Islão xiita, o imã tem um significado muito mais profundo: é um líder religioso supremo, considerado escolhido por Deus; possui autoridade espiritual infalível (segundo a doutrina xiita); os xiitas reconhecem uma linha específica de imãs, descendentes de Ali (genro de Maomé).

Sobre as correntes do Islão que predominam na Guiné-Bissau / África Ocidental, vd. poste P23362 (***), também da autoria do Cherno Badé.

Acrescente-se ainda  que  no islão sunita da Guiné-Bissau, há 2 comfrarias:  (i) a confraria quadriyya,  seguido pela maior parte dos mandingas e biafadas  da Guiné,  tem o seu centro de influência em Jabicunda, a sul de Contuboel, região de Bafatá;  (ii) a outra é a confraria tidjania,. seguida pela maior parte dos fulas.

As confrarias sunitas são, com mais propriedade, chamadas  sufis ("ṭuruq", singular "ṭarīqa"). Trata-se de ordens religiosas místicas que existem dentro do Islão sunita (embora também haja sufis xiitas, em menor número).

São comunidades espirituais organizadas em torno de um mestre religioso ("sheikh" ou "shaykh"), cujo objetivo principal é a aproximação espiritual a Deus (Alá): a purificação interior; o exercício da piedade, disciplina e devoção.

O sufismo representa a dimensão mística do Islão, focada na experiência interior da fé, mais do que apenas no cumprimento formal da lei religiosa.

Cada confraria segue um caminho espiritual específico ("ṭarīqa"); a relação entre mestre e discípulo é central; praticam o "dhikr" (recordação de Deus), que pode incluir: repetição de nomes divinos; orações rítmicas; canto, música ou movimentos corporais (dependendo da ordem); valorizam a ascese, a humildade e o amor divino.

A confraria Qadiriyya é uma das mais importantes e antigas, difundida no Médio Oriente e África.

_________________

Notas do editor LG:

(*) Vd. poste de 22 de dezembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27559: Não-estórias de guerra (6): O Cherno Rachide que eu conheci (Manuel Amaro, ex-fur mil enf, CCAÇ 2615 / BCAÇ 2892, Nhacra, Aldeia Fomosa e Nhala, 1969/71)


(**) Último poste da série > 14 de dezembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27528: (in)citações (282): Reflexão entre dois copos de tintol (Adão Cruz, ex-Alf Mil Médico da CCAÇ 1547 / BCAÇ 1887 (Canquelifá e Bigene, 1966/68)

(***) Vd. poste de 18 de junho de 2022 > Guiné 61/74 - P23362: (Ex)citaçõs (410): O islão na Guiné-Bissau, país laico e tolerante: correntes moderadas e radicais (Cherno Baldé, Bissau)

(...) Se nos anos 60/70 os mais cotados representantes eram, em grande maioria, da etnia fula (ver Futa-Fula) que professavam a corrente Sunita da Tidjania, bem moderada, com ligações às correntes religiosas do Magreb e do Egipto (escolas islâmicas de Fez e do Cairo, nomeadamente Universidade de Al-Qarawiyyin e Al-Azhar) que formavam os nossos estudantes em matéria islâmica, actualmente a etnia mandinga/biafada apoderou-se da iniciativa do proselitismo religioso com ligações ao movimento Salafista - Wahabita do Médio Oriente (países do Golfo liderados por Qatar e Arábia Saudita) beneficiando de importantes fundos (doações) para esse efeito.

Durante os últimos anos houve uma espécie de braço de ferro das duas correntes pela liderança das comunidades em Bissau e nas principais cidades do interior, com destaque no Norte e Leste do país, mas, pelos vistos a nova corrente está a levar a melhor e com isso, também, a presença cada vez maior de jovens discípulos desta corrente é Salafista-Wahabita nas mesquitas também por eles construidas tanto nos subúrbios da capital como no resto do país.

Apesar de tudo, ainda não passa de um fenómeno novo e pouco expressivo, tendo em conta a resistência das correntes mais antigas e tradicionais (Tidjania e Quadryya) na região Oeste africana. (...).

A confraria Xiita (com ligações ao Irão) não tem muitos adeptos na nossa subregião (África do Oeste) e mesmo a nivel do continente é pouco expressivo. Mas, eu não falei desta corrente religiosa e sim da competição dentro da corrente Sunita, onde existem orientações moderadas (mais antigas) e outras mais radicais (Salafistas / Wahabitas) originárias do Médio Oriente cuja influência é cada vez mais sentida nas comunidades muçulmanas do país e da subregião. (...)










segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

Guiné 61/74 - P27563: Prova de vida e votos de boas festas 2025/26 (15): Equipa do Arquivo.pt e Manuel Fonseca da Guerra e Paz Editora



1. Mensagem de 'Contacto Arquivo' via divulgArquivo.pt
Data: 19/12/2025
Assuntot: Votos de Boas Festas

A equipa do Arquivo.pt deseja a todos um Feliz Natal e um Bom Ano de 2026.
Obrigado pelo apoio e interesse manifestados em tantos momentos.


********************

E só para lembrar: está ali, deitado num pano, o Menino que acaba de nascer.
Depois cresceu e, aos 30 anos, subiu à Montanha e falou à multidão.
Disse que se devia amar tanto os inimigos como os amigos, e que à ofensa se devia oferecer a outra face, jurando que bem-aventurados são os perseguidos, os que choram, os humildes, os pobres em espírito.
Às vezes esquecemo-nos, mas é isso, uma gloriosa utopia, que estamos a celebrar.
Boas Festas

Manuel Fonseca
Guerra e Paz Editora

_____________

Nota do editor

Último post da série de 22 de Dezembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27561: Prova de vida e votos de boas festas 2025/26 (14): Virgílio Teixeira, ex-alf mil SAM, CCS/BCAÇ 1933 (Nova Lamego e São Domingos, 1967/69)

Guiné 61/74 - P27562: Notas de leitura (1877): A Polícia Militar na Guiné (1959-1974) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 20 de Março de 2025

Queridos amigos,
Enquanto folheava esta publicação da Associação de Lanceiros veio-me à memória a história de um médico natural de Gaia, Joaquim Vidal Saraiva, desembarcado em Bissalanca, nem teve tempo de tomar os ares de Bissau, foi transferido para Guileje, experiência que, contava ele em Bambadinca, como médico do BCAÇ 2852, lhe deixou profundas marcas, nunca lhe passara pela cabeça aquela permanência de flagelações, com o perigo sempre à espreita. O Vidal teve que ir a Bissau, conversava amenamente depois de um jantar com outro médico à porta de um restaurante, chegou a Polícia Militar e, sem mais nem menos, espetou-o toda a noite no calabouço, ficou-lhe uma raiva de todo o tamanho. Não sei se o leitor recorda a conversa que tive com o antigo secretário-geral do PCP, Jerónimo de Sousa, também ele esteve na PM em Bissau. Em entrevista à revista Visão fez declarações que considerei totalmente despropositadas, escrevi-lhe um mail para o grupo parlamentar, teve a delicadeza de me convidar para uma conversa na sede do seu partido, tenho muita admiração pela sua dignidade, mas não lhe perdoo ter dito que aterrara em Bambadinca completamente destruída, isto quando Bambadinca sofreu ligeiros arranhões na primeira das duas flagelações que teve, uns fios elétricos que foram a baixo. Creio que o nosso confrade José Martins, se acaso não conhece esta publicação da Associação de Lanceiros, vai ficar contente. E mais não digo.

Um abraço do
Mário



A Polícia Militar na Guiné (1959-1974)

Mário Beja Santos

Com data de setembro de 2024, a Associação de Lanceiros publicou a presença da Polícia Militar (PM) na Guiné. Foi graças ao empréstimo que fez o Dr. João Horta, da Biblioteca da Liga dos Combatentes, que tive conhecimento desta publicação. Logo se explicita a ligação entre o Regimento de Lanceiros 2 e a Polícia Militar: era a unidade formadora e mobilizadora da quase totalidade das subunidades da Polícia Militar que atuaram no Ultramar, envolvendo um total de 68 companhias e 53 pelotões independentes, correspondendo ao efetivo aproximado de 8500 homens, cuja atividade era de policiamento, patrulhamentos e rusgas, captura de desertores e criminosos, policiamento em portos e aeroportos, quartéis generais e outros pontos sensíveis, incluindo escoltas a comboios de reabastecimento às zonas de intervenção.

Há a presença de um pelotão expedicionário de PM na Guiné logo em setembro de 1959, isto devido aos acontecimentos do 3 de agosto, as autoridades decidiram que a tropa mais adequada para reforço da Guiné era a PM, mobilizou-se um pelotão. A missão foi dada ao Regimento de Cavalaria 6 e não ao Regimento de Lanceiros 2, o comando foi assumido pelo alferes Ruy Anselmo de Oliveira Soares, embarque por via aérea, as viaturas, armamento e restante material seguiram no Alfredo da Silva. Esta unidade da PM ficou aquartelada no forte de Amura. A missão que lhe foi atribuída tinha a ver fundamentalmente com o patrulhamento motorizado e apeado da zona urbana e suburbana de Bissau. Regressa em outubro de 1961, em sua substituição chegará à Guiné um pelotão designado por PPM 1. A publicação lista as unidades e subunidades, quem as comandava, embarque e regresso, o seu teatro de operações foi sempre Bissau.

Publicação profusamente ilustrada, explicando detalhadamente a história dessas unidades, serviços e atividades e ações diversas. Faz-se igualmente a listagem de efetivos obtidas a partir das Ordens de Serviço que estão em arquivo no Regimento de Lanceiros 2, diz-se na publicação que pode haver algumas imprecisões e incorreções. Deixam-se os contactos da publicação para eventuais interessados.

_____________

Nota do editor

Úlltimo post da série de 21 de dezembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27557: Notas de leitura (1876): "Os Có Boys (Nos Trilhos da Memória)", de Luís da Cruz Ferreira, ex-1º cabo aux enf, 2ª C/BART 6521/72 (Có, 1972/74) - Parte VII: A chega a Có, com a praxe do costume

Guiné 61/74 - P27561: Prova de vida e votos de boas festas 2025/26 (14): Virgílio Teixeira, ex-alf mil SAM, CCS/BCAÇ 1933 (Nova Lamego e São Domingos, 1967/69)


Fonte: Gemini (Modelo Flash 2.5). [Boas festas 2025/26] Imagem gerada por Inteligência Artificial, 22 dez 2025, sob orientação do editor LG.


‪‪‪‪1. Mensagem natalícia  de Virgílio Teixeira‬‬‬‬, Vila do Conde:


Data - segunda feira, 22 de dezembro de 2025, 10:38 
Assunto - Boas festas

Luis,  bom dia.
 
Junto a minha mensagem e prova de vida nesta época natalícia.

Tenho visto diariamente as bonitas e sentidas mensagens de outros nossos grão-tabanqueiros, com espírito e habilidades poéticas e uso de tecnologias. Não comento porque no meu PC dá sempre erro.
Mas acompanho tudo.

Não sou grande cliente das festas Natalícias e de Ano Novo, mas vou tentando manter as tradições.
É uma época de grande consumismo e isso contribuiu para a minha descrença. 

Em tudo o que é comunicação social, milhões de anúncios com grandes ofertas Natalícias. E aqueles que sofrem, que não têm família, doentes, abandonados sem teto, como esse que hoje vi,  de um homem sem abrigo no primeiro dia de inverno a dormir debaixo de uma ponte à margem do Rio Nabão. em Tomar.

No meu tempo de criança havia o Menino Jesus e o presépio feito com musgo apanhado nos campos ou nas paredes frias e húmidas, com peças baratas dos Reis Magos.

Hoje a toda a hora somos doentiamente torturados com 'peças Televisivas com caras de gente sem vergonha mostrando e ostentando aquilo que só alguns conseguem atingir! E os seres humanos sem abrigo, sozinhos como este que reportei que é uma amostra dos cerca de 15000 que existem segundo um estudo publicado?

Por isso, eu prescindo cada vez mais desta época de consumismo exarcebante que dá dó ver a cada minuto.

Lamento esta forma de pensar, mas é assim que vejo as coisas.

Para todos um Bom Natal e um próximo Bom Ano para aqueles que lá chegarem.

Saúde acima de tudo com amor e paz.
Virgílio Teixeira

PS- Porque não tenho grandes habilidades para construir um postal, pego na imagem da Lua cheia em novembro de 1968 em São Domingos, que mandei à minha namorada de então e hoje minha mulher. E uma imagem fotográfica que recebi de um familiar numa viagem ontem na zona de Trás os Montes, a primeira neve, nevão (e uma saraivada que apanhei em Vila do Conde que não via há décadas).
____________________

Guiné 61/74 - P27560: Prova de vida e votos de boas festas 2025/26 (13): Ramiro Jesus, ex-fur mil cmd, 35.ª CComandos (Teixeira Pinto, Bula e Bissau, 1971/73) e José Carlos Mussá Biai, amigo Grã-Tabanqueiro


1. Mensagem de Ramiro Jesus (ex-fur mil cmd, 35.ª CComandos, Teixeira Pinto, Bula e Bissau, 1971/73), transformada em cartão natalício. 

Fonte: Gemini (Modelo Flash 2.5). [Prova de vida e votos de boas festas 2025/26] Imagem gerada por Inteligência Artificial, 22 dez 2025, sob orientação do editor LG.

********************

2. Mensagem natalícia do nosso amigo Grã-Tabanqueiro José Carlos Mussá Biai, um dos nossos meninos do Xime, com data de 22 de Dezembro de 2025:

Bom dia, Meu Caro Dr. Luís
Serve a presente mensagem para endereçar a todos os Camaradas deste nosso blog um Santo e Feliz Natal e um Próspero Ano 2026 e com muita saúde.

Um abraço,
José C. Mussá Biai

________________

Nota do editor LG:

Último poste da série >21 de dezembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27558: Prova de vida e votos de boas festas 2025/26 (12): Sousa de Castro, ex-1.º Cabo Radiotelegrafista da CART 3494/BART 3873; Joaquim Fernandes Alves, ex-Fur Mil da CART 1659 e Albino Silva, ex-Soldado Maqueiro da CCS/BCAÇ 2845

Guiné 61/74 - P27559: Não-estórias de guerra (6): O Cherno Rachide que eu conheci (Manuel Amaro, ex-fur mil enf, CCAÇ 2615 / BCAÇ 2892, Nhacra, Aldeia Fomosa e Nhala, 1969/71)


Guiné > Região de Tombali >  Aldeia Formosa (hoje, Quebo) > Janeiro de 1973 > Tabaski ou festa do carneiro > O Cherno Rachide, acompanhado de um dos seus filhos (possivelmente o seu futuro sucessor, Aliu),  presidiu à cerimónia, ele próprio degolou (ou ajudou a degolar) o carneiro. Viria a morrer nesse ano, em setembro. 

Em segundo plano,   o cap mil (e nosso grão-tabanqueiro) Vasco da Gama, cmdt da CCAV 8351, "Os Tigres do Cumbijã" ( Cumbijã, 1972/74). 

Foto (e legenda): © Vasco da Gama (2008). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



Guiné > Região de Tombali > Cumbijã > Janeiro de 1974 > Da esquerda para a direita, (i) Califa, o homem mais velho de Aldeia Formosa com 83 anos de idade; (ii)  Aliú, chefe da antiga Tabanca do Cumbijã; (iii)  cap mil cav, Vasco da Gama (cmdt da CCAV 8351, Cumbijá, 1972/74); (iv) Sekúna (filho do Cherno Rachide,  falecido, em setembro de 1973, e seu herdeiro como imã) e  (v) o Cherno da República do Senegal (irmão do falecido Cherno Rachide).


Guiné > Região de Tombali > Aldeia Formosa > Janeiro de 1973 >  A população,  na sua maioria constituída por "homens grandes",  segue a leitura do alcorão pelo Cherno Rachide. Os fatos que envergam não os usam habitualmente mas só em dias festivos como o "Ramadão" ou "Festa do Carneiro", que significa para eles o início de um Novo Ano. 

Fotos do álbum do Vasco da Gama (ex-cap mil cav,  CCAV  8351, Cumbijã, 1972/74), disponibilizadas ao Pepito (1949-2012) e, através deste,  ao seu amigo Califa Aliu Djaló, filho do falecido Cherno Rachide).

Fotos (e legendas): © Vasco da Gama (2011). Todos os Direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]

  
Não-estórias de guerra (6):
 O Cherno Rachide que eu conheci  

por Manuel Amaro

1. Mensagem de Manuel Amaro (ex-Fur Mil Enf, CCAÇ 2615/BCAÇ 2892, Nhacra, Aldeia Formosa e Nhala, 1969/71), já publicada em 28/10/2008 (*), e que é agora recuperada como poste da sua série "Não-estórias de guerra" (**). Vem a propósito do poste P27547 (***). 

Tem-se aqui discutido, no nosso blogue, qual o posicionamento político
do Cherno Rachide (1906-1973), na altura da guerra colonial. Seria um "agente duplo" ?  O Manuel Amaro, em 2008, achava que sim.

Eu conheci pessoalmente o Cherno Rachide Djaló, chefe dos muçulmanos, em Aldeia Formosa [Califa do Quebo-Forreá, chamava-lhe o Pepito]

E confirmo que este grande marabu era amigo do General Spínola e de mais alguém em S. Bento, Lisboa, que lhe pagava as viagens para Meca.

Em dezembro de 1969, era eu professor do Posto Escolar Militar de Aldeia Formosa. Já tinha ouvido algumas histórias sobre a influência, o poder e os "poderes" do Cherno.

Um dia fui abordado por um milícia, com ar preocupado, porque o filho (ou sobrinho?) do Cherno queria falar comigo, mas como não falava português, então ele, o milícia, seria o intérprete.

Recebi o visitante, que estava nervoso, mãos a tremer, que não falava português, mas percebia perfeitamente as minhas respostas. 

A preocupação do Cherno centrava-se na possibilidade de as cerca de trinta crianças que frequentavam a escola, serem aliciadas com o ensino da religião católica.

— Nada disso... zero... zero... — resp
ondi, gesticulando. — E mais, se necessário, eu próprio vou falar com o Cherno, para garantir que não será ensinada religião católica.

Proposta aceite. Reunião marcada. No dia seguinte, lá fui à morança grande do Cherno Rachide Djaló.

Primeira surpresa, agradável, o aspecto luxuoso dos tapetes que cobriam aquele chão.Tirei as botas e sentei-me. 

Segunda surpresa, desagradável. Tinha na minha frente um homem abatido, com ar doente, olhar distante, que nem as vestas brancas, debruadas de amarelo torrado, conseguiam amenizar. O grande marabu estava mesmo preocupado.

Falei-lhe em voz baixa, pausadamente, reafirmando o que já tinha dito ao ajudante. Apenas ia ensinar os alunos a ler, escrever e contar. Fora da Escola, ao ar livre, faríamos educação física, jogos e canções. Mas nada de religião.

Enquanto o milícia traduzia, o Cherno fazia pequenos gestos de concordância. Depois, fez uma pausa e disse que,  se era assim, os meninos podiam frequentar a Escola.

Ficou tranquilo. Menos tenso, mas nunca sorriu. Despediu-se afetuosamente, como se estivesse a abençoar-me. Agradeci, por mim e pelos alunos.

Regressei ao Quartel, mas pelo caminho uma dúvida permanecia no meu espírito. Alguma coisa não estava certa. Um chefe religioso, mesmo ali, naquele sítio, naquela situação de guerra, não tem aquele comportamento. 

E ao ler o poste do Luis Graça (***), fez-se luz. Era isso, um  "agente duplo".

O Cherno Rachid Djaló era um homem de confiança do PAIGC, pois embora estivesse no terreno ocupado por Portugal, tinha muita influência na população e não deixaria avançar a difusão da cultura e muito menos da religião dos portugueses. Aliás, nos ataques a Aldeia Formosa, os danos civis são quase nulos.

Manuel Amaro

(Revisão / fixação de texto, negritos, título: LG)
_________________


(***) Vd. postye de 19 de dezembro de 2025  > Guiné 61/74 - P27547: Documentos (47): O Cherno Rachide terá feito, em 1969, uma aproximação ao gen Spínola, o que terá irritado o PAIGC...

domingo, 21 de dezembro de 2025

Guiné 61/74 - P27558: Prova de vida e votos de boas festas 2025/26 (12): Sousa de Castro, ex-1.º Cabo Radiotelegrafista da CART 3494/BART 3873; Joaquim Fernandes Alves, ex-Fur Mil da CART 1659 e Albino Silva, ex-Soldado Maqueiro da CCS/BCAÇ 2845


1. Mensagem natalícia do nosso amigo e camarada Sousa de Castro, ex-1.º Cabo Radiotelegrafista da CART 3494 / BART 3873, Xime e Mansambo, 1971/74, com data de 20 de Dezembro de 2025.

********************

2. Mensagem natalícia do nosso camarada Joaquim Fernandes Alves, ex-Fur Mil da CART 1659 (Gadamael e Ganturé, 1967/68), com data de 20 de Dezembro de 2025:

Prova de vida e votos de um feliz NATAL e um ANO NOVO com muita saúde, para todos e seus familiares.

Um grande abraço
Joaquim Fernandes Alves
Ex-Furriel Mil Art 
CART 1659 (ZORBA)


********************


3. Mensagem do nosso camarada Albino Silva, ex-Soldado Maqueiro da CCS/BCAÇ 2845, Teixeira Pinto, 1968/70) com data de 21 de Dezembro de 2025:

Para a Tabanca Grande, Votos de Boas Festas, Feliz Natal e Bom Ano 2026

Vai um bom abraço
Albino Silva

_____________

Nota do editor

Último post da série de 20 de dezembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27554: Prova de vida e votos de boas festas 2025/26 (11): O Natal de 25 na Graça, na Rua da Senhora do Monte (O editor LG, e a "chef" Alice, com uma ajudinha das netas, que lhes dão amor e inspiração): "P'rós meninos de toda a terra, / Desejo saúde e paz, / Saibam dizer não à guerra, / E nunca ficar p'ra trás./

Guiné 61/74 - P27557: Notas de leitura (1876): "Os Có Boys (Nos Trilhos da Memória)", de Luís da Cruz Ferreira, ex-1º cabo aux enf, 2ª C/BART 6521/72 (Có, 1972/74) - Parte VII: A chegada a Có, com a praxe do costume (Luís Graça)


Guiné > Região de Cacheu > Có > c. 1972/74 > Vista parcial do aquartelamento: edifício central (secretaria, messe e enfermaria

Foto (e legenda): © Luís da Cruz Ferreira (2025). Todos os Direitos reservados. [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


~
Crachá da 2ª C/BART 6521/72
(Có, 1972/74)
1. Prosseguindo  a nossa leitura do livro do Luís da Cruz Ferreira, "Os Có Boys: nos trilhas da memória" (edição de autor, 2025, il., 184 pp,) (ISBN 978-989 -33.7982-0) (*). (Revisão / fixação de texto: J. Pinto de Carvalho.)

Com a especialidade de 1º cabo auxiliar de enfermeiro feita em Coimbra, no RSS (Regimento de Serviços de Saúde) (jan/mai 1972), o Luís,  de alcunha o "Beatle",  empregado de hotelaria e restauração, nascido na Benedita, Alcobaça,  é mobilizado para a Guiné, indo formar batalhão, o BART 6521/72, no RAL 5, Penafiel (jun / set 1972). 

Daqui parte para o CTIG, por via aérea (TAM), em 22/9/1972. No CIM de Bolama, faz a IAO - Instrução de Aperfeiçoamento Operacional. O tom que neste livrinho de memórias é irónico, e às vezes burlesco, a raiar o absurdo. Vêmo-lo em Bolama, outrora capital, ultrapassada por Bissau e em 1972, já completamente decadente. Decididamente não gosta da CUF nem da Casa Gouveia, que para ele são os donos daquilo tudo. 

Após a realização da IAO, a 2ª C/ BART 6521/72 seguiu, em 290ut72 para Có, sector do Pelundo,  a fim de efectuar o treino operacional e a sobreposição com a CCaç 3308. 

É do cais de Bolama que o Luís e os "có boys" partem para  o seu novo destino, Có, "cháo manacanha", via Bissau e João Landim. 


pág. 5

A viagem foi feita de manhã, em LDG (lancha de desembarque grande, da nossa Marinha), aproveitando a maré. 

Chegados a Bissau, foram em coluna para o Cumeré onde pernoitaram. No dia seguinte dirigiram-se para João Landim, para a cambança do rio  Mansoa. Aqui começam a aperceber-se que estão já às portas da guerra. Teoricamente podia viajar.se sem escolta até Mansoa. Mas já não era aconselhável. 

Do outro lado do rio, estavam já os "velhinhos" que os iriam escoltar até Có, a 25 km dali, Foram precisas 3 viagens da jangada para transportaer os 160 homens, as suas bagagens e as suas viaturas (Berliets e outros veículos).



pp. 60/61




Luís da Cruz Ferreira 
(n. 1950,
Benedita, Alcobaça). 
É membro da Magnífica 
Tabanca da Linha. 
E vai aceitar, por certo,  o
 nosso convite para se sentar, 
connosco,
à sombra do poilão 
da Tabanca Grande

Demorou cerca de 1 hora a cambança do rio. A coluna prosseguiu até Có, sem problemas de maior. Â chegada ao quartel, tiveram una "apoteótica receção". Os "velhinhos" tinham um grande números de miúdos da tabanca que, a troco de uma coca-cola, se dispuseram a cantar em coro, a plenos pulmões, o clássico hino de bons vindas à "periquitagem":


"Periquito vai no mato,,,olé, lé, lé.
a velhice vai nos Lisboa... olaria, ló, lé".


Enfim, um filme que se repetia em toda Guiné, na rendição de tropas. entre "periquitos" e "velhinhos".

Antes de uma primeira descrição do quartel, o autor fala-nos da tabanca de Có:

"A aldeia de Có era um aglomerado artificial que foi 
projetado e executado pelas forças armadas portuguesas, através do programaa de reordenamento posto em prática no tempo do general António Spínola (...)"


Com cerca de 4 mil habitantes, predominava a etnia Mancanha, tinha um posto escolar miliar (PEM nº 20), onde era minitrado o ensino primária: havia um "profesor de raça branca" para a 3ª e 4ª classes, e três professores civis, jovens, de raça negra".

Além disso, "tinha um posto médico. Não tinha mercearia nem taberna"(sic). Os habitantes "viviam na sustentabilidade possível com os produtos que ainda granjeavam" (pp. 63/64).


Fonte: Excertos de Luís da Cruz Ferreira, "Os Có Boys" (edição de autor, 2025), pp. 59-63

(Contimua)



Guiné >  Região de Cacheu > Carta de Pelundo (1953) (Escala 1/50 mil)  > Posição relativa de Rio Mansoa, Pelundo Jolmete e Có.

Infografia: Blogue Luís Grça & Camaradas da Guiné (2025)

(Revisão / fixação de texto: LG)
_________________

Notas do editor LG:

Último poste anterior da série : 19 de dezembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27548: Notas de leitura (1875): Uma publicação guineense de consulta obrigatória: O Boletim da Associação Comercial, Industrial e Agrícola da Guiné (5) (Mário Beja Santos)

Guiné 61/74 - P27556: Quem foi obrigado a fazer a guerra, não a esquece: eu não esqueci... (Jaime Silva, ex-alf mil pqdt, BCP 21, Angola, 1970/72) (9): a última operação do 1º cabo LAntónio José Lourenço



 Estudo prévio  para ,onumento  em emória dos combatentes da guerra cvolonial (2005). Arquiteti Augusto Vasdconcelos (Fafe)

Foto (e legenda): © Jaime Bonifácio Marques da Silva (2025). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



Tabanca de Porto Dinheiro / Lourinhã:
4 de agosto de 2012 > Jaime Silva

Jaime Silva (ex-alf mil pqdt, cmdt 3ª Pel /1ª CCP / BCP 21, Angola, 1970/72, membro da nossa Tabanca Grande, nº 643, desde 31/1/2014, tendo já 130 de referências, no nosso blogue; reside na Lourinhã, é professor de educação física, reformado, foi autraca em Fafe, com o pelouro de "Desporto e Cultura": residiu lá durante cerca de 4 décadas): Tem página pessoal do Facebook


Quem foi obrigado a fazer a guerra, não a esquece: eu não esqueci (9):  a última operação do 1º cabo Lourenço

por Jaime Silva



Não esqueci o que aconteceu ao 1º Cabo Lourenço, apontador da metralhadora HK 21, pertencente ao 4.º Pelotão,  comandado pelo meu amigo, alferes miliciano Francisco Cruz dos Santos 
[Foto à esquerda. página pessoal do Facebook]
 .

A 1ª CCP / BCP 21 estava destacada no Leste de Angola, sediada na vila de Léua (*) e o Comandante de Companhia nomeou o 3º e o 4º pelotões (o meu e o do meu amigo) para efetuar um assalto a uma base do MPLA, na zona de Kamgama – Chimbila.

Lembro, como se fosse hoje, o momento em que os dois grupos de combate saíam do quartel na direção dos Helicópteros que nos transportariam rumo ao objetivo. Lembro, de forma especial, o momento em que o Cabo Lourenço, caminhando ao meu lado me disse:

 
– Ai, meu alferes, isto nunca mais acaba! Esta é a minha última operação, já terminei a comissão. Quando chegarmos a Luanda,  vou-me embora para o “Puto”. Já chegou quem me vem render.

Lembro de ter dito palavras de circunstância, talvez do género:

– Vai correr tudo bem e daqui a poucos dias já estarás na “peluda”, livre, junto da tua família.

Depois, os dois grupos são lançados próximo do objetivo, mas em pontos distintos, tendo um rio de permeio a separá-los. 

Minutos, depois, do lançamento, somos confrontados com um intenso tiroteio e rebentamento de granadas. O grupo do Cruz dos Santos havia detetado a Base IN, mas, no assalto a esta, confrontou-se com enorme resistência e fogo intenso. 

Nesse tiroteio, o Cabo Lourenço foi atingido e perde a vida… Na sua última missão…

Fonte: excerto de Jaime Bonifácio Marques da Silva, "Não esquecemos os jovens militares do concelho da Lourinhã mortos na guerra colonial" (Lourinhã: Câmara Municipal de Lourinhã, 2025, 235 pp., ISBN: 978-989-95787-9-1), pp. 90-91 (**)

(Revisão / fixação de texto, parênteses retos, notas, edição de imagem: LG)



1º Cabo Pqdt António José Lourenço  (1948-1971)

(i) morto em combate em Angola (na ZML - região de Chimbila-Cazage-Luatxe-Lumeje), no decorrer da Operação CALCAR IH”, no dia 18 de novembro de 1971;

(ii) nasceu a 21 de Outubro de 1948, na então freguesia de São João Baptista, concelho de Tomar, distrito de Santarém;

(iii) frequentou o Curso de Pára-quedismo nº 56, tem o Brevet nº 7871. 



__________________

Notas do editor LG:

(*) Na altura, a vila de Léua (um município e comuna na província do Moxico, Angola) não tinha um nome colonial distinto, uma vez que a localidade de referência na região com um nome colonial alterado é a capital da província.

A capital da província do Moxico, a cidade do Luena, era anteriormente conhecida como Vila Luso durante o período colonial português. O nome foi alterado após a independência de Angola em 1975.

(**) Último poste da série : 15 de dezembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27531: Quem foi obrigado a fazer a guerra, não a esquece: eu não esqueci... (Jaime Silva, ex-alf mil pqdt, BCP 21, Angola, 1970/72) (8): escapei à terceira mina... mas o sold pqdt Lamas apanhou com um 'balázio' no braço


sábado, 20 de dezembro de 2025

Guiné 63/74 – P27555: (Ex)citações (446): De uma juventude saudável a um envelhecer agridoce (José Saúde)


1. O nosso Camarada José Saúde, ex-Fur Mil Op Esp/RANGER da CCS do BART 6523 (Nova Lamego, Gabu) - 1973/74, enviou-nos a seguinte mensagem. 

Camaradas, conterrâneos e amigos, permitam-me mais uma viagem pelo tempo já sem tempo  

De uma juventude saudável a um envelhecer agridoce

 

 

Porra! Desculpem-me por esta dicotomia de palavreado porque sou cidadão do Baixo Alentejo, natural da freguesia de Aldeia Nova de São Bento e oriundo de famílias humildes. Gentes que, modestamente, souberam laborar, com precisão, o” pão que o diabo amassou”. Não foram pessoas letradas, mas gentes que souberam, com o seu erudito conhecimento, distinguir “o trigo do joio” e colocar-me em patamares jamais imaginados. 

Na percepção de um antigo combatente, eu de carne e osso, fui fruto oriundo de excelentes pomares, mas estes polvilhados de estrume de animais que deram vida à humanidade e que foi ganhando alicerces que me permitiram chegar à idade presente, 75 anos, e ser quem hoje o sou. O meu saudoso pai, Francisco Saúde, foi um dos militares que “guardaram” a fronteira entre Portugal e Espanha no tempo da guerra civil espanhola (1936). Dele, meu pai, recolhi excelentes ensinamentos que guardarei para sempre neste já débil corpinho. 

 

Estamos em pleno século XXI, onde a voraz notícia se transmite facilmente com os meios tecnológicos de que facilmente cada um de nós dispomos. O tempo de irmos aos correios para contactarmos alguém telefonicamente, e que estava longe, era do tipo em que a telefonista lá colocava uma “cavilha” no seu “painel” telefónico, sendo que ouvir do outro lado da linha alguém, entretanto solicitado, obedecia a um demasiado tempo de espera. Ou enviar um telegrama, ou quando a notícia chegava através de uma telefonia, a pilhas, ou a chegada da televisão a preto e branco. Recordo, desses tempos, ouvir aquela trova do antigo regime quando a guerra rebentou em território angolano e que dizia: “Angola é nossa!”. Ora, eis que anos mais tarde o meu destino militar passou por conhecer uma das antigas províncias ultramarinas. 

Hoje, porém, todo esse voraz passado dissipou-se nas auréolas do tempo, sabendo nós o quão difícil fora chegar ao momento presente, onde o poder tecnológico permite examinar o Mundo de uma outra forma pronta, ou seja, de fio a pavio, ou conhecer conteúdos de uma outra guerra, ou de guerras globais que sabemos existirem, mas em cima do acontecimento. 

Sento-me ao meu computador portátil e lá vou debitando ideias que o meu coração suscita, um coração que teima em bater, não obstante as delinquências sofridas ao logo da vida, mormente como protagonista de um antigo combatente numa Guiné a ferro e fogo. Sim, porque na verdade a vida, em toda a sua extensão, é uma ligeira passagem por este cosmo terrestre e o final irreversivelmente certo. 

 

Presentemente, a minha “máquina” acusa irreparáveis falhas que o tempo jamais recuperará, dado que as peças incriminam desgaste, o que é normal, e não usufruírem do deleite de uma retificação, ou da sua oportuna substituição. A tal “máquina” que sempre correspondeu aos imperecíveis desejos, mesmo quando fui um dos muitos camaradas da guerrilha em território guineense. Aquela velha “máquina” humana nunca recuou perante as adversidades surgidas. Ficaram as imagens que detenho e que viajarão comigo para a perpetuidade.  

De uma juventude saudável a um envelhecer agridoce tudo foi rápido. Mas, fica para a história a nossa passagem por este planeta de onde colhemos excelentes momentos, sendo que existiram ainda outros piores, sendo o caso específico, e em particular, alguns dos instantes constatados na guerra de além-mar. Tudo, no fundo, fez parte das nossas vivências. Regressámos a solo lusitano vivos e sãos, sendo que os nossos corpos regressaram tal como partiram. Outros, infelizmente, não poderão partilhar da mesma filosofia de uma vida. 

Pessoalmente parti, muito novo, da minha aldeia, Beja recebeu-me e conheci a algazarra de uma Lisboa deveras eletrizante. Nasci, após o fim da 2ª Guerra Mundial, à beira das searas e de um campo essencialmente marcado pelo prisma do literalmente saudável. Pelas ruas da minha aldeia, umas empedradas outras em terra batida, delineei os meus primeiros passos de vida. Vi mulheres com xailes pretos a lhes tapar o rosto e parte do corpo, ou conterrâneas cujos xailes tinham um preceito que anunciava a presença de um filho na guerra colonial, os ranchos de homens que aos domingos percorriam o povoado parando às portas das tabernas e lá seguia o voluntário a caminho do taberneiro a comprar uma garrafa de vinho, trazendo consigo um copo por onde todos bebiam, enquanto os outros lá se lançavam em mais uma moda. 

Assisti, ainda, ao abrir de valas cujas canalizações tinha como efeito que água canalizada chegasse a casa de quem o requestasse, ou a ida à bica comunitária situada no rossio, ou ao poço lobo. Recordo, com nostalgia, o tempo das matanças do porco. Da construção do depósito da água. O barulho de uma carroça a deslocar-se sobre as ruas empedradas. As aleluias com os moços, sempre em correria, andarem de loja em loja em busca de rebuçados, ou figos, de entre tantas outras brincadeiras de criança. Das profissões de então, sendo muitas delas agrestes. A luta das classes sociais. De homens que deixaram história. Do tempo que eu, com quatro ou cinco anos, fui “abarroado” pelos cães galgos do “Galdrapas” quando ao sair da taberna do meu tio Zé Torrão, rua do Sobral, se atiraram a mim e me “sacaram” uma sande que, entretanto, comia, ou da azáfama dos homens nas debulhas nas eiras do rossio. 

 

Dos jogos de futebol dos rapazes e do jogo com um ringue das moças. O saltar aos “aviões”, do pau da lua ou do eixo. Memórias, embora sintéticas, que nos fazem viajar no tempo e que nos enviam para a nossa juventude. Ou uma ida aos ninhos lá para as bandas do monte do campinho onde o montado imperava e um barranco no qual as mulheres lavavam a roupa, ou uma ida para as califórnias, uma zona onde havia figos de qualidade. Beber água do poço do “tio” Matias e com a rapaziada exausta pelo calor que se sentia. Poço do “tio” Matias que ao lado tinha um forno onde se coziam os tijolos. E tantas as vezes o fiz com o Chico do Toril. 

Da feira anual de setembro, 1, 2 e 3, na minha/nossa aldeia, e das romarias que nos enchiam de prazer e orgulho. A Festa das Santas Cruzes é disso um exemplo óbvio. O dia de São Sebastião, 20 de janeiro, a sua procissão e a venda de ramos de laranjas, com o João Lucas, sempre ativo, a anunciar “quem dá mais por este raminho”. E tão bem que o nosso João Lucas o fazia. Descansa em paz, grande amigo. 

Saudades de um tempo que se definhou enquanto o “diabo” esfregou os olhos. Do Bairro Alto ao Algés, nas baixas, passando pela malta da rua da Atafona, do Rossio, do Bairrinho, do Rabo Toureiro, de entre muitos outros, todas essas “guerrilhas” futebolísticas amigáveis o tempo queimou. Ou, dos jovens que partiam para a guerra do Ultramar e o presumível “luto” de ausência que os pais e irmãos assumiam. 

Hoje, encostado, não a um cajado, mas a uma bengala, lá vou prosseguindo o meu viver, “queimando” as pestanas dos meus olhos, tendo como finalidade deixar memórias para as gerações presentes e futuras poderem observar desde que o interesse lhes desperte a atenção. Testemunhos onde fui mais um dos camaradas que se depararam com tal conflito.  

O meu AVC que leva praticamente 18 anos de “convívio” com a minha pessoa e que data a 27 de julho de 2006, uma madrugada que nunca esquecerei, não me derrubou, pelo contrário deu-me ganas que me trouxeram eloquentes prazeres. 

Um dia partirei para um outro mundo, ficando, porém, a certeza que repousarei para a eternidade na terra que me viu nascer: Aldeia Nova de São Bento. Restos de uma saudade que se definha no tempo, ou seja, de uma juventude saudável a um envelhecer agridoce, sabendo, no entanto, que naquele recanto lá descansam camaradas e amigos infância, da minha geração, que perderam a vida nas então três frentes da guerra colonial. 

Ficará, porém, no meu cardápio uma passagem pela guerrilha na Guiné, território onde conheci o quão difícil fora assumir de um conflito onde os poderes das armas impunham, obviamente, respeito. Mas, jamais me sairá da minha memória a despedida dos jovens mancebos que eram enviados para as frentes de guerra. Na minha aldeia, a exemplo daquilo que passava em quase todo o nosso território, era comum as famílias e amigos se juntarem para prestarem ânimo a quem partia. Ou, os regressos daqueles que chegavam aparentemente bons de saúde, ou daqueles que faziam essa viagem de regresso, mas “embrulhados” em quatro tábuas de madeira.  

 

Retratos de uma vida que ficarão eternamente no meu mero historial! 

Agora é Natal, neste contexto felicito-vos com um Santo Natal e um Ano Novo, 2026, cheio de paz e amor. De resto todos estamos cansados de guerras cuja finalidade é o poder dos homens, onde a soberba da superioridade ganha cada vez mais força. 

Abraço, camaradas, conterrâneos e amigos.  

José Saúde  

Fur Mil Op Esp/RANGER da CCS do BART 6523

___________

Nota de M.R.:

Vd. último poste desta série em: 

16 de dezembro de 2025 > Guiné 61/74 – P27537: (Ex)citações (445): Literatura da Guerra Colonial? (Alberto Branquinho, ex-Alf Mil Art da CART 1689/BART 1913)

Guiné 61/74 - P27554: Prova de vida e votos de boas festas 2025/26 (11): O Natal de 25 na Graça, na Rua da Senhora do Monte (O editor LG, e a "chef" Alice, com uma ajudinha das netas, que lhes dão amor e inspiração): "P'rós meninos de toda a terra, / Desejo saúde e paz, / Saibam dizer não à guerra, / E nunca ficar p'ra trás./


Lisboa > Bairro da Graça > Rua da Sra. do Monte > Casa da Clara e da Rosa >  18 de dezembro de 2025 > Presépio qie elas montaram


Lisboa > Bairro da Graça > Rua da Sra. do Monte > Casa da Clara e da Rosa > 18 de dezembro de 2025 > O Pai Natal que chegou mais cedo, do Polo Norte...


Fotos (e legendas): © Luís Graça (2025). Todos os Direitos reservados. [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]

Ilustração: IA generativa (ChatGPT / OpenAI), composição orientada pelo editor LG


O Natal de 25 na Graça


Em vinte e cinco o Natal
Tem mais graça na Graça,
O primeiro que a gente passa,
C'a Rosa, e na capital.

Na capital que é Lisboa,
Desta terra que é do papá,
Quase todos são de cá,
Só a mamã é que voa.

Tem de passar o Natal
Na terra que a viu nascer,
E p'ra quem não o souber
Essa terra é o Funchal.

Lá o Natal tem mais encanto,
Digo eu, a filha, Clara,
Pois é coisa muito rara,
Nascer-se num dia tão santo.

A mamã e o Jesus
São de vinte cinco de dezembro,
De mais ninguém eu me lembro,
Com direito a tanta luz.

Mas com ela também voa
O papá, e nós, as filhas,
Vamos todos lá para as ilhas,
Qu' o clima é coisa boa.

O avô é da Lourinhã,
E ao Natal não liga nada,
Mais a titi, tão calada,
E a Rosinha, a minha irmã.

A avó Chita é de Candoz,
Onde também gosto d'ir,
E não se fica a rir,
Cozinha p'ra todos nós.

O Natal é trabalheira,
Muita freima, confusão,
Pode ser bom, mas não
P'ra escrava da cozinheira.

Mas quem é mais lambareira,
Nesta noite de consoada,
Lambe tudo, não deixa nada ?
A nossa flor da roseira!

Se lhe tiram o bacalhau,
Muito grosso e lascudo,
O meu papá, que é barbudo,
Diz que o Natal foi... mau.


Eu só quero é chicletes,
Se não houver, tanto faz,
Pai Natal, qu' és bom rapaz,
Podes trocar por bandoletes.


E a titi, mascarada,
Prega um susto à Rosa,
Que só fica furiosa,
Quando o prato não tem nada.

É um espectáculo de garota,
P'ró ano vai p'ró beliche,
E eu, Clara, que me lixe,
Tenho de aturar a marota!

Não houve prenda melhor,
Neste ano de vinte cinco,
Tenho mana com quem brinco,
Um mano era pior.

Ficamos muito felizes
De cá termos a Joana,
Que é uma titi bem bacana,
Faz de nós umas atrizes.

P'rós meninos de toda a terra,
Desejo saúde e paz,
Saibam dizer não à guerra,
E nunca ficar p'ra trás.


E pr'ós versos acabar,
Desejo a todos boas festas,
E eu, Clara, gosto destas,
Vamos lá todos... cantar.


  CANÇÃO DE NATAL 

(refrão, musiquinha conhecida)


A todos um bom Natal,
A todos um bom Natal,
Que seja um bom Natal
Para todos vós.
Que seja um bom Natal
Para todos vós.


Lisboa, Graça, Rua Senhora do Monte, 18 de dezembro de 2025,
Casa da Clara (6 anos) e da Rosa (11 meses),
que são as netas dos avós Luís & Chita (Alice)
E fica feita a prova de vida destes dois tabanqueiros
que anteciparam o Natal,
porque as "grutas de Belém" (ou as "capelinhas") são muitas...

____________________


Nota do editor LG:

Útimo poste da série > 19 de dezembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27549: Prova de vida e votos de boas festas 2025/26 (10): Vilma e João Crisóstomo, ex-Alf Mil da CCAÇ 1439

Guiné 61/74 - P27553: Os nossos seres, saberes e lazeres (715): "Soldado do Ultramar", poema do nosso camarada Albino Silva (ex-Soldado Maqueiro da CCS/BCAÇ 2845), publicado no youtube, com música gerada por IA e adaptação de Pedro Alexandre



1. Há muitos anos que conhecemos os dotes poéticos do nosso camarada e amigo Albino Silva. Agora, um dos seus poemas foi musicado pela IA e interpretado pela cantora Mónica Pires, com adaptação de Pedro Alexandre, filho de um camarada de Companhia do Albino Silva e que de há muito participa com o pai nos convívios dos antigos combatentes.

Vale a pena ouvir no youtube e deixar um like a este trabalho do Bino Silva


Carlos Vinhal
_____________

Nota do editor

Último post da série de 20 de dezembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27552: Os nossos seres, saberes e lazeres (714): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (235): A Sevilha de um viajante apressado, nem pode acudir à Sevilha essencial: La Giralda, o Parque de María Luísa, Torre del Oro e algo mais; a caminho de Granada - 2