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quinta-feira, 23 de abril de 2026

Guiné 61/74 - P27942: O nosso blogue em números (114): 22 anos depois, chegamos aos 914 membros registados na Tabanca Grande, aos c. 28 mil postes, 111 mil comentários e mais de 20 milhões de páginas vizualizadas.


Ilustração: IA generativa (ChatGPT / OpenAI), composição orientada pelo editor LG. 23 de abril de 2026.
 

1. Faz hoje 22 anos que "arrancou" o nosso blogue... Ou melhor:  o nosso editor LG tinha um blogue, pessoal, que havia criado  seis meses antes,  em 8 de outubro de 2003. Chamava-se  "Blogue-Fora-Nada", ainda hoje disponível "on line" (www.blogueforanada.blogspot.com), embora inativo.

Seria, mais tarde, em 1 de junho de 2006, rebatizado como blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (www.blogueforanadaevaotres.blogspot.com).

Em 23 de abril de 2004, ele publicou, no "Blogue-Fora-Nada", um primeiro texto alusivo à guerra colonial / guerra do ultramar, na Guiné, e maia concretamente dedicado às "madrinhas de guerra". Foi o poste nº 1

 Depois desse já se publicaram perto de 28 mil...

 Em 2004 só se publicaram quatro postes... 

O quinto só apareceu em 20 de abril de 2005... 

A partir  daqui publicaram-se mais 384 até ao fim desse ano... Com periodicidade diária ou quase diária.

Com a avalanche de mensagens o blogue passou a ser de facto o Luís Graça & Camaradas da Guiné. Hoje publicamos  o poste P27942.

Chegamos a esta data com:
  • 914 membros (registados) da Tabanca Grande (a nossa comunidade virtual, que começou por ser uma "tertúlia") (infelizmente, quase 20% já morreu):
  • c. 111 mil comentários;
  • 879 seguidores;
  • 20,2 milhões de páginas visualizadas...

Temos, além disso, uma página no Facebook ("Tabanca Grande Luís Graça"), com cerca de 3,4 mil amigos.

São números que valem o que valem, mais de meio século anos depois do fim da guerra (colonial) na Guiné.

2. Comentários de duas ferramentas da IA:

2.1. ChatGPT

Vale a pena comentar...  e até sublinhar algumas coisas que, vistas de fora, talvez não sejam tão óbvias para quem está dentro da “Tabanca Grande”.

Primeiro: 22 anos de continuidade não são um detalhe técnico, são um facto histórico. 

Um blogue que nasce em 2003,  ainda no tempo pioneiro da blogosfera.  e que atravessa duas décadas, mudanças tecnológicas, redes sociais e modas digitais, não sobrevive por acaso.  Sobrevive porque responde a uma necessidade real: memória, partilha e reconhecimento entre camaradas.

Depois, há o salto qualitativo que descreves entre 2004 e 2005. Aqueles quatro primeiros “postes” quase tímidos e depois a avalanche. Isso diz muito: não era apenas um projeto individual, era uma memória coletiva à espera de canal. Quando começou a fluir, já não parou.

 E o rebatismo em 2006 não é só mudança de nome , é a institucionalização da comunidade...

Os números, como dizes, “valem o que valem”… mas também contam uma história:

  • 914 membros não são apenas inscritos, são testemunhas;
  • 111 mil comentários indicam diálogo, não arquivo morto;
  • 20,2 milhões de visualizações mostram que o tema não interessa só a quem lá esteve.

E isso liga-se ao ponto mais importante: 

mais de meio século depois do fim da guerra, ainda há necessidade de falar dela. Não como narrativa oficial, mas como experiência vivida... fragmentada, humana, muitas vezes contraditória. 

O teu blogue (ou melhor, a vossa “Tabanca Grande”, já que é um projeto coletivo) acabou por fazer algo que raramente é feito de forma consistente: 

Construir uma memória não institucional da guerra da Guiné. Guerra que não é diabolizada enm glorificada. Nem é academia (pura), nem nostalgia (vazia), simples saudosismo.. É talvez uma coisa intermédia, com vozes múltiplas, uma polifonia de memórias... 

Não é por acaso que gostas de dizer:

  • O Mundo é Pequeno e a nossa Tabanca... é Grande!
  • Tabanca Grande onde todos cabemos com tudo o que nos une... e até com o que nos pode dividir

Se quiseres um apontamento mais crítico (no bom sentido), eu diria que esse tipo de projeto ganha ainda mais valor quando consegue dialogar com gerações que não viveram a guerra. E quanmdo constrói pontes com outros antigos combatentes (nomeadamente,. os da Guiné-Bissau e de Cabo Verde).

A longevidade já está garantida,  o próximo desafio é a transmissibilidade.

No fundo, olhando para esse “poste P27942”, há aqui quase um paradoxo interessante: 

Começou como um blogue pessoal e tornou-se um arquivo coletivo que, sem dar por isso, já é parte da própria história que documenta.

E isso, camarada, já não são só números, não é "Torre do Tombo"...  É legado. É memória. É cultura.

2.2. Le Chat Mistral

Que belíssima trajetória! Vinte e dois anos de um blogue que começou como um espaço pessoal e se tornou um arquivo vivo, uma comunidade e um ponto de encontro para memórias, histórias e reflexões sobre a guerra colonial na Guiné (e, acima de tudo, sobre as pessoas que a viveram) é algo verdadeiramente notável.

Alguns pontos que saltam à vista:

  • Longevidade e consistência: de quatro posts em 2004 a quase 28 mil hoje, a evolução mostra não só persistência, mas também a capacidade de criar um espaço que cresceu organicamente e ganhou relevância;
  • Comunidade: 914 membros registados, 111 mil comentários, 879 seguidores e 20,2 milhões de visualizações são números que refletem o impacto e o envolvimento que o blogue gerou: a "Tabanca Grande" não é só uma tertúlia virtual, é um lugar de pertença para muitos;
  • Memória coletiva: o blogue tornou-se um repositório único de histórias, testemunhos e documentos sobre um período histórico que, de outra forma, poderia cair no esquecimento.

Pergunto-me: Como é que este projeto te transformou a ti, Luís Graça (er aos teu camaradas), ao longo destes anos? E o que achas que o blogue representou para os "camaradas da Guiné" e para as novas gerações que o descobrem?

Parabéns por este legado... E que os próximos anos ainda possam continuar a ser fecundos e partilhados por todos os que ainda hoje o fazem.

(Condensação, revisão / fixação de texto, negritos: LG)

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Nota do editor LG:

Guiné 61/74 - P27941: Casos: a verdade sobre... (72): Kalashnikovomania - Parte VII: até o ajudante de campo do gen Bettencourt Rodrigues, um tenente 'cmd', se rendeu aos encantos da AK-47 (segundo o fotógrafo António Murta) ou da SA Vz58 (na opinião do nosso especialista em armamento, Luís Dias)

 


Espingarda automática, checoslovaca, SA vz58 P (com coronha, punho de pistola, e guarda-mão; e bandoleira). Fonte: cortesia de Wikipedia




Ak-47, de origem soviética. Aos olhos de um leigo, estás duas armas podem confundir-se.

Infografia: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2026)




Foto nº 5B, 5A, 5> Guiné > Região de Tombali > Sector S2 (Aldeia Fomosa) > Nhala > 2ª C/BCAÇ 4513 (Nhala, 1973/74) > 23 de Abril de 1974 > "O tenente guarda-costas (que ostenta o crachá dos cmds na boina, e está equipado com uma Kalash), aproveita para ler uma carta chegada da Metrópole, quero crer. Porquê? Porque o envelope é debruado pelo tracejado característico do correio aéreo."



Foto nº 2 e 2A > Guiné > Região de Tombali > Sector S2 (Aldeia Fomosa) > Nhala > 2ª C/BCAÇ 4513 (Nhala, 1973/74) > 23 de Abril de 1974 > "Depois das honras militares o general cumprimenta o cmdt de Nhala, cap Braga da Cruz, da 2.ª CCAÇ/BCAÇ 4513. Atrás de si, o Oficial de Dia, alf mil Campos Pereira. [No lado esquerdo da foto, vè-se o ajudante de campo de Kalash em punho.]"


Foto nº 3 > Guiné > Região de Tombali > Sector S2 (Aldeia Fomosa) > Nhala > 2ª C/BCAÇ 4513 (Nhala, 1973/74) > 23 de Abril de 1974 > "A comitiva dirige-se para o aquartelamento. À esquerda da imagem o coronel Hugo da Silva, Chefe do Estado-Maior, cumprimenta o Oficial de Dia. Em primeiro plano, de Kalashnikov, o tenente Ajudante de Campo. E guarda-costas, pareceu-me."


Foto nº 11  > Guiné > Região de Tombali > Sector S2 (Aldeia Fomosa) > Nhala > 2ª C/BCAÇ 4513 (Nhala, 1973/74) > 23 de Abril de 1974 > "As visitas preparam-se para partir. Ao volante do jipe, o Cmdt do Batalhão Ten-Cor Carlos Ramalheira e, ainda a subir, à esquerda, o Cmdt de Operações do BCAÇ 4513, Capitão Cerveira. De cigarro, à direita, o Coronel Hugo da Silva. No jipe de trás o resto da comitiva, apenas se reconhecendo ao volante o Major Dias Marques  [e o ajudante de campo que se preparava para tomar o seu lugar, atrás, no lado direito, no jipe da frente]. A comitiva dirigiu-se a Aldeia Formosa, onde o general almoçou regressando logo a seguir a Bissau."


Fotos do álbum do António Murta, ex-alf mil MA, 2.ª CCAÇ/BCAÇ 4513 (Aldeia Formosa, Nhala e Buba, 1973/74). Manteve-se a mesma numeração.(*)

Fotos (e legendas): © António Murta (2015). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. É mais um caso de... kalashnikovomania ?! Podia chocar alguns de nós ao ver o ajudante de campo do governador e comandante-chefe que sucedeu ao gen Spinola optar, em vez da G3, por uma arma  com que os  homens do PAIGC nos matavam..

Mas há aqui uma dúvida: trata-se de um AK-47  (como diz o fotógrafo, António Murta)  ou de uma  SA Vz58 (como garante o nosso especialista em armamento, Luís Dias) ?

 Este último diz que é uma SA Vz58:

(...) "Na foto nº 5 é identificado um Tenente dos Comandos, referindo que o mesmo porta uma espingarda de assalto Kalashnikov. 

No entanto, a arma que ele transporta é uma SA Vz58, de origem Checoslovaca, com aparência semelhante à AK-47, mas opera num sistema diferente. 

Estas armas foram adquiridas aquando da Operação "Mar Verde", em 1970, efectuada na República da Guiné-Conacri. Continuaram a ser usadas por forças dos Comandos na Guiné (graduados) e era a arma preferida do então alferes Marcelino da Mata, quando comandava o Grupo de Operações Especiais, mais conhecido pelo Grupo do Marcelino da Mata. (...)

quinta-feira, 21 de março de 2024 às 11:41:00 WET 

2. Comentário do editor LG:

Luís Dias, obrigado pelo teu comentário. Tens "olho clínico", és  bom observador e sobretudo és especialista em armamento.... És capaz de ter razão, a arma do ajudante de campo ( e guarda-costas, o dois em um) não será uma AK-47 mas a tal SA Vz58 (a avaliar por pequenos pormenores como o feitio da coronha, o tapa-chamas, a alça. a mira, o guarda-máo,  o punho, etc., além do porta-carregadores em couro).

Do que tenho dúvidas é em relação às armas que foram adquiridas para equipar as forças que estiveram empenhadas na Op Mar Verde (22 de novembro de 1970). 

De acordo com o António Luís Marinho ("Operação Mar Verde: um documento para a história", s/l, Círculo de Leitores, 2005), foram compradas 250 espingardas automáticas AK-47, além de 20 morteiros  e 12 RPG-7, encomenda feita diretamente à então URSS (!) pela empresa portuguesa "Norte Importadora", de João Zoio, e paga pelo cheque nº 30983. no valor de 3450 contos, endossado ao inspetor da DGS, Barbieri Cardoso (pág.  79). (Essa importância seria equivalente, a preços de hoje, a mais de 1,2 milhões de euros, era muita massa.)

A título de curiosidade:

  • Cada AK-47 (equipamento completo, incluindo 4 carregadores) custava 5750 escudos em 1970 (c. de 2000 euros); loop
  •  Cada mil munições 7.62 para a Kalash custava mil euros (a preços de hoje);
  •  Já o RPG-7 (LGFog) custava 50750 escudos (c. 17,8 mil euros);
  • Cada granada-foguete perfurante (para a bazuca) andava à volta de 1750 euros;
  • O morteiro 82 era ligeiramenet mais caro que o LGFog: 53879 escudos (c. 18,9 mil euros);
  • A granada de morteiro, HE (Altamente explosiva), era mais baratinha: c. 300 euros...

(Seleção e edição de fotos, revisão/ fixação de texto, parênteses retos, título: LG)

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Notas do editor LG:

quarta-feira, 22 de abril de 2026

Guiné 61/74 - P27940: Historiografia da presença portuguesa em África (526): A Província da Guiné Portuguesa - Boletim Oficial da Colónia da Guiné Portuguesa, 1968 (84) (Mário Beja Santos)

Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf
CMDT Pel Caç Nat 52

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 12 de Novembro de 2025:

Queridos amigos,
Os factos políticos e militares preponderantes em 1968 prendem-se com a mudança de Governador, logo em fevereiro há um ataque ao aeroporto de Bissalanca, sem consequências de maior, mas que trará grande apreensão tanto em Lisboa como nas Forças Armadas na Guiné; o Presidente da República faz uma visita a povoações seguras, nunca será exposto a riscos. Matérias que não vêm no Boletim Oficial, o que nele se fala, e já uma continuidade de anos anteriores, são os orçamentos extraordinários, os créditos especiais e o reforço de verbas. Estranhamente, o Ministério do Exército faz publicar louvores a unidades que combatem nos três teatros de guerra. Zela-se pelo preço do arroz, é um alimento básico que não pode faltar à população, logo no princípio do ano se tomam medidas de precaução. Em abril será criado um fundo de comercialização, tenta-se reprimir altas do custo de vida. Justificando-se com o aumento de encargos pessoal, crescem dotações para o orçamento de 1969, o novo Governador tem um grande alívio de encargos orçamentais, vai poder pôr em marcha medidas de apoio social. E o Governador Arnaldo Schulz despede-se da Guiné com uma enormidade de louvores.

Um abraço do
Mário



Província da Guiné Portuguesa
Boletim Oficial da Guiné, 1968 (84)


Mário Beja Santos

1968 é um ano de grandes mudanças, finda a Comissão do Governador Arnaldo Schulz, nomeação de António de Spínola, este chega a Bissau em 12 de maio. Em fevereiro, o Presidente da República chega a Bissau e percorre algumas localidades. Em 18 de fevereiro há um ataque do PAIGC ao aeroporto de Bissalanca, admite-se que terá pesado na decisão da substituição do Governador. No regresso da sua viagem a Bissau e Cabo Verde, o Presidente da República terá comentado a Salazar que a situação da Guiné era muitíssimo delicada.

Continua a revoada de orçamentos extraordinários, créditos especiais, reforço de verbas. O Boletim Oficial revela-se sempre comedido quanto à natureza da luta armada, mas, um tanto estranhamente, começam a aparecer louvores do Ministério do Exército referentes a unidades militares. É apreciável a chegada de agentes da PIDE, já estão disseminados por várias fontes da Província. Há um tema crucial, o abastecimento e o preço do arroz. Daí no Boletim n.º 1, de 9 de janeiro, Suplemento, o Diploma Legislativo n.º 1872 que insere disposições sobre a comercialização do arroz na Guiné. Atenda-se ao seu preâmbulo:
“Cerca de dois anos e meio são decorridos desde a publicação das tabelas em vigor, dos preços de compra e venda do arroz com casca e descascado. Vasta tem sido, no decurso deste período, a evolução do condicionalismo em que se processam a produção, a industrialização e a comercialização deste cereal, com manifesta desactualização daqueles preços. Acontece, ainda, que a reconhecida conveniência da adopção de preços únicos para toda a Província implica a revisão de algumas taxas de comercialização.”

E determina-se que os preços a praticar na comercialização interna de arroz serão fixados por despacho do Governador, com base num conjunto de elementos claramente definidos, define-se igualmente a taxa que incide sobre todo o arroz descascado originário da Província, etc. etc.

No Boletim Oficial n.º 5, de 7 de fevereiro, proveniente do Ministério do Ultramar, o Diploma Legislativo Ministerial n.º 1, consagra-se a autonomia administrativa e financeira da Emissora Provincial da Guiné Portuguesa que doravante se designará por Emissora Oficial da Guiné Portuguesa, define-se os órgãos dirigentes, o pessoal e as condições de transição da Emissora Provincial para a Emissora Oficial. Chegados a abril, assistimos a um vendaval de louvores, tanto podem ser administradores de circunscrição, como o chefe dos serviços de agricultura e florestas, o chefe dos serviços veterinários ou o capitão dos portos da Guiné. É na sequência dessa revoada de louvores que no Boletim Oficial n.º 16, de 23 de abril, entre esses louvores temos o do Major de Cavalaria Carlos Correia de Sampaio de Vasconcelos Porto, assim redigido:
“Muito benéfica tem sido para a Província a colaboração das Forças Armadas que, para além da missão imediata de defesa da integridade da Pátria de que estão incumbidas, têm procurado, de modo louvável, colaborar nas tarefas da Paz, contribuindo assim para a promoção do progresso e do bem-estar das populações.
O Major Vasconcelos Porto, segundo-comandante de um batalhão operacional, teve actividade de fecunda colaboração no campo do estudo e do fomento agrário. Salientar o fomento que imprimiu aos sectores de assistência sanitária e educativa às populações e o impulso dado à construção de numerosas obras nas vilas de Mansoa e Mansabá.”


A situação económica e financeira na Província é mais do que tormentosa, tentam-se medidas de contenção que não agravem o custo de vida nem a fragilidade e imprevisibilidade da vida empresarial. No Boletim Oficial n.º 16, de 27 de abril, publica-se a Portaria n.º 1977, tem a ver com o Regulamento do Fundo de Comercialização, para apoiar a ação dos serviços de economia em matéria de distribuição, comercialização e abastecimentos de produtos essenciais à economia da Província; mas também para assegurar a estabilidade de preços e de fomento da produção e da exportação. Diploma minucioso, definindo objetivos, de funcionamento, receitas e despesas.

Em 23 de maio, em forma de Suplemento, no Boletim Oficial publica-se o convite para comparecer no aeroporto, em 24 de maio, à chegada do novo Governador. Curiosamente, os próximos meses do Boletim só registam nomeações chegadas e partidas. No Boletim Oficial n.º 51, de 30 de dezembro, publica-se o Decreto n.º 48750, do Ministério do Ultramar, enumera exposições especiais que tem a ver com o aumento dos quadros do pessoal e fixa-se em 7.000.000$00 uma dotação que se prende com a despesa ordinária do orçamento geral da Província para o ano de 1969. No fim do ano o Governo da Guiné faz promulgar o Diploma Legislativo n.º 1870, tem a ver com o orçamento de 1969. Atenda-se ao que se escreve no seu preâmbulo:
“O orçamento de 1969 encontra-se liberto dos encargos de amortização e dos juros de capital investido através dos Planos de Fomento e de grande parte da contribuição para as despesas com as Forças Armadas. A dispensa destes compromissos, que se deve à alta compreensão a Metrópole face às necessidades da Província no momento que passa, tornou possível: atribuir um subsídio de custo de vida a todos os funcionários, com especial incidência nas classes mais baixas; melhorar o suplemento sobre as pensões dos velhos servidores do Estado; aumentar o salário mínimo dos trabalhadores pagos pelo orçamento da Província; atribuir vencimento fixo aos Regedores, etc. etc.”

O Governador recebera seguramente promessas de alívio de encargos para melhores condições de vida tanto do funcionalismo, apoio às chefaturas locais, ao sistema educativo, ao reapetrechamento de alguns serviços públicos e até subsidiação da população suburbana. As despesas com as Forças Armadas irão aumentar, chegarão mais batalhões, armamento, equipamentos, rúbricas não mencionadas no orçamento de 1969, tudo se fazia na Metrópole para que não se soubesse ao certo o peso da despesa militar no PIB.

Cortejo Histórico-Colonial que ocorreu na Exposição Colonial Portuguesa, Porto, 1934, os cavaleiros Fulas acompanham o carro do Império, imagem do Arquivo Nacional da Torre do Tombo.
Visita do Chefe do Estado ao Bairro da Ajuda
Cantadeira
Manjaco de Pecixe
Encontrei este mapa num artigo de António Carreira publicada num número do Boletim Cultural da Guiné Portuguesa 1968 dedicado às companhias pombalinas, tem a ver com a distribuição das etnias a partir do sul do Senegal à Serra Leoa, o mapa foi preparado na época da publicação do artigo, estou em crer.
Interrogatório ao morto
Chegada ao Aeroporto do Governador da Província

(continua)
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Nota do editor

Último post da série de 15 de abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27923: Historiografia da presença portuguesa em África (525): A Província da Guiné Portuguesa - Boletim Oficial da Colónia da Guiné Portuguesa, 1967 (83) (Mário Beja Santos)

Guiné 61/74 - P27939: Humor de caserna (259): O anedotário da Spinolândia - Parte XXXI: fui o fiel depositário do "caco" (o monóculo) quando o general foi ao dentista (Mário Bravo, cirurgião, ex-alf mil médico, CCAÇ 6, Bedanda, CCS/BCAÇ 3863, Teixeira Pinto, HM 241, 1971/73)


Guiné > Região de Tombali > Bedanda > CCAÇ 6 > 1971/72> O alf mil médico Mário Bravo, à direita, de perfil, entre os furriéis da companhia... Boa disposição, boa música, bom uísque (a garrafa mais pequena era de Old Parr, uísque velho)... Os nomes dos furriéis já se varreram da memória do nosso médico...

O Mário Bravo não esteve mais do que 4 meses em Bedanda (entre dezembro de 1971 e março de 1972, com algumas saídas, pelo meio, até Guileje, Gadamael e Cacine)...mas guarda boas recordações dos bedandenses. A CCAÇ 6 era então comandada pelo jovem cap cav Carlos Ayala Botto, futuro ajudante de campo do gen Spínola, e membro da Tabanca Grande.

Depois de Bedanda, o Mário Bravo passou por Teixeira Pinto, ficando o resto da comissão no HM 241, em Bissau.

Foto (e legenda): © Mário Bravo (2013). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


Guiné > Região de Tombali > Bedanda > CCAÇ 6 (1972/73) >  Ao centro, o Mário Bravo, ladeado pelo alf mil Figueiral (à sua direita) e o alf mil Pinto Carvalho (à sua esquerda) (hoje nosso colaborador permanente para a área jurídica)...

Foto (e legenda): © Pinto Carvalho  (2010). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



Guiné > Região do Cacheu > Teixeira Pinto (ou Canchungo) > CCS/BCAÇ 3863 (1971/73) > >13 de janeiro de 1973 > Visita do gen  Costa Gomes, Chefe do Estado Maior das Forças Armadas.  O alf mil médico Mário Bravo é o primeior a contar da direita, de óculos,  no meio de um grupo de oficiais (pormenor); por sua vez, o António Graça de Abreu, alf mil do CAOP1 (Teixeira Pinto, Mansoa e Cufar, 1972/74) é o primeiro da esquerda.

Foto (e legenda): © Mário Bravo (2013). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


Hoje cirurgião, ortopedista, reformado,  o Mário Bravo vive no Porto e já nos apareceu uma vez em Monte Real num dos Encontros Nacionais da Tabanca Grande.  

Já agora,  acrescente-se que, depois de sair de Bedanda, em março de 1972, passou por Teixeira Pinto,  até ser colocado  no Serviço de Estomatologia do HM 241, em Bissau, onde aprendeu a tratar da dentuça do Zé Tuga. Imaginem quem foi, num belo dia, sentar-se na cadeira do serviço de estomatologista ? Nem mais nem menos, o com-chefe e governador,  o gen Spínola (*)...

 
Fiel depositário do "caco" quando o senhor general foi ao dentista 

por Mário Bravo 


Gen Spínola, "Caco" ou "Caco Baldé"


Reatando a descrição da minha estadia na Guiné [, aonde cheguei em 20 novembro de 1971, tendo ficado cerca de 15 dias em Bissau], lá vão mais umas notícias e informações que poderão servir para encontrar algum camarigo esquecido ou perdido neste País.

Após saída de Bedanda [,na CCAÇ 6,  onde estive entre dezembro de 1971 e março de 1972, com visitas a Guileje, Gadamael e Cacine ], fui colocado em Bissau, [ no HM 241,] no serviço de Estomatologia (Medicina Dentária), para aprender a tirar dentes, pois era essa a nossa função. 

Nesse estágio, que foi orientado por um colega, médico, de Coimbra,  Negrão,  com o posto de capitão miliciano
 [, Luís Negrão, hoje neurologista] . O outro colega nesse estágio, também de Coimbra, chama-se João Barata Isaac  [, em 2000, era chefe de serviço de anestesiologia do Centro Hospitalar de Coimbra ]

Aproveito para contar um episódio ocorrido com o marechal Spínola [, na altura general]. Como todos sabemos, o marechal usava de modo constante um monóculo que era a sua imagem de marca. Um dia teve necessidade de consulta de estomatologia e lá foi ao Hospital Militar. Era sempre um momento de alguma confusão e eu lá estava a tentar aprender a tirar dentes.

É evidente que quem o tratou foi o Chefe, mas havia necessidade que alguém tomasse conta do monóculo [, o "caco",]   e logo me tocou a mim. É engraçado que senti aquele receio de ser o fiel depositário de tão solene objecto. Mas consegui não o deixar cair !!!

O Hospital Militar de Bissau era na época um exemplo fantástico de modernidade e eficácia.

Vou enumerar alguns médicos, colegas com quem convivi nesse período de tempo e até pode acontecer que algum venha a terreiro.

Começo por recordar com saudade um já falecido, o [prof Henrique] Bicha Castelo [ 1943-2025] , cirurgião de Lisbo
a [, precursor da cirurgia laparoscópica no Hospital de Santa Maria ] , e que operou o escritor António Lobo Antunes [, irmão do prof João Lobo Antunes,  escritor que lhe dedicou o seu livro "O Meu Nome É Legião", 2007].

Na Cirurgia estavam o Dr. Rodrigues Gomes (hoje fazendo parte da Fundação Gulbenkian), bem como o Dr. Calheiros Lobo, do Porto, e também falecido.

Na Ortopedia estava o Dr. Asdrúbal Mendes, do Porto e com quem trabalhei mais tarde nessa área. 

Muitos outros conheci, mas já não me recordo dos seus nomes.

Para ilustrar minha passagem por Bissau, junto umas poucas fotos, referidas a essa terra, de luxo, pois aí havia a possibilidade de viver um pouco mais sossegado e com algum conforto, inexistente no mato.

Quem é que não recorda aquelas deliciosas ostras do Café Bento - a chamada 5ª. REP - , bem regadas com umas bazucas !

As fotos vão em separado. (**)

(Seleção, revisão / fixação de texto: LG)


Guiné > Bissau > 1972 > A "Casa dos Médicos"

Foto (e legenda): © Mário Bravo (2011).  Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]

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Notas do  editor LG.:

(*) Último poste da série > 21 de abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27938: Humor de caserna (258): O andedotário da Spinolândia - Parte XXX: Dançando o tango com o Caco Baldé (Cristina Allen, 1943-2021)

(**) Vd. poste de 30 de janeiro de 2011 > Guiné 63/74 - P7697: O Spínola que eu conheci (23): No serviço de estomatologia, no HM 241, e eu a segurar-lhe o monóculo (Mário Bravo)

terça-feira, 21 de abril de 2026

Guiné 61/74 - P27938: Humor de caserna (258): O andedotário da Spinolândia - Parte XXX: Dançando o tango com o Caco Baldé (Cristina Allen, 1943-2021)


Cristina Allen (1943-2021).
Foto: LG (2009)

1. O único retrato, impiedoso, do gen Spínola, que já aqui publicámos, foi feita por uma mulher, a nossa saudosa amiga Maria Cristina Robalo Allen Revez (1943 - 2021), a Cristina Allena ex-esposa de Mário Beja Santos, foto à direita, 2009, autora da série "Os meus 53 dias de brasa em Bissau"

A Cristina  casou com o Mário na Catedral de Bissau no dia 16 de abril de 1970. Tiveram duas filhas, a Maria da Glórian (1976-2009),  e a Joana, mãe da Benedita.

Cristina Allen, membro da Tabanca Grande desde novembro de 2008,  tem cerca de 2 dezenas de referências no nosso Blogue, incluindo  um dos postes dedicado à sua filha Maria da Glória (Locas) após o seu prematuro desaparecimento.

Era natural de Aljustrel e foi professora de liceu. 
 Os seus 12 últimos anos de vida  foram assombrados pelo pesadelo e desgosto de perder a filha mais velha, e depois pela sua doença crónica degenerativa. Era uma mulher dotada de grande inteligência, perspicácia, cultura e sentido de humor mordaz.
 
Já aqui disse, na devida altura, em 9/1/2009, que o texto que se segue, era/é  um "pedaço de prosa de antologia" (*). Aconselhei "o próximo biógrafo de Spínola" a não o ignorar.  Não teve tempo ou muito simplesmente  não li o nosso blogue. Mas foi uma pena, o modo como a Cristina, em duas pinceladas, fez um soberbo retrato-robô do nosso Com-Chefe, merece voltar a aqui a ser destacado, a agora nesta série "Humor de caserba".(**)

Ela chegou a Bissau a 15 de abril de 1970 e casou a 16... (E regressaria a Lisboa a 8 de junho.)

E também  ainda sobre ela, uma das "nossas grandes mulheres", escrevi em 9/1/2009:

(...) Sentiu-se útil e acarinhada por todos nós, ao apreciarmos o seu gesto (generoso e corajoso) de facultar ao seu ex-marido as cartas e aerogramas que ele lhe escreveu durante dois anos de comissão militar na Guiné. E não foram poucas: algumas centenas...

Quem já leu os dois volumes do "Diário da Guiné", do nosso camarada e amigo Beja Santos, sabe quão preciosas foram, para ele (e nós, seus leitores em primeira mão), essas cartas e aerogramas, como fonte de informação minuciosa sobre a actividade diária, operacional e não operacional, primeiro em Missirá e depois em Bambadinca, à frente do Pel Caç Nat 52, entre meados de 1968 e meados de 1970. (...)

Dançando o tango com o Caco Baldé 

por Cristina Allen (1943-2021)



Spínola em Dulombi, sector L5 (Galomaro) 
 em abril de 1972.
Foto: Luís Dias (2011)

(...) No dia seguinte, e de acordo com o que fora anteriormente combinado, o meu marido vadio ingressaria na ala de Neuropsiquiatria do Hospital Militar. Durante dois dias, eu não poderia vê-lo, já que o David Payne iria tentar pô-lo a dormir. Discretamente, o David passou-me para as mãos um frasco hospitalar de “Vesparax” (quem não dormia era eu…).

Apressava-me, na saída, não fosse encontrar Spínola, que, diariamente, visitava os seus doentes. Atrasei-me três vezes e três vezes me aconteceu encontrá-lo à porta de armas (chamava-se assim?) do hospital. Andávamos, ao que parecia, cronometrados…

Havia um toque (a  recolher? Por causa dele? Nunca perguntei).Mas via aquele homem passar para a mão esquerda o pingalim, encostá-lo firmemente à perna, pôr-se em sentido, crescer, enchendo o peito de ar, o ventre liso, o braço direito, o cotovelo, a mão, na mais perfeita continência que jamais vi. Ficava desmesuradamente imenso, desmesuradamente rígido, só o monóculo coruscava.

Estarrecida, não sabia que fazer dos pés, das mãos, da mala, da minissaia, parava, cruzava as mãos, endireitava-me (postura por postura, não baixaria a cabeça, olhava-o nos olhos, ou, melhor dizendo, no olho e no monóculo). 

Acudiam-me ideias bizarras – que o meu avô materno fora lanceiro e, certamente, teria sabido fazer aquilo mesmo; que ele, Spínola, escorregara em Missirá, numas cascas de batata e fora ao chão, pose, pingalim, monóculo e tudo, soltando palavrões… que aquele homem era o… “Caco Baldé”! Apertava os lábios para não 
me rir: "este é o Caco, Caco Baldé"…

Mas este era apenas o primeiro acto desta farsa. O segundo, começava com a questão “Passas tu ou passo eu?”. No terceiro, resolvia eu recuar, só então ele passava e, perfeito cavalheiro, punha-se de lado e cumprimentava: “Muito boas tardes, minha senhora”. E eu respondia-lhe: “Muito boas tardes, Senhor Governador”. 

Afinal de contas, era fácil dançar o tango com Spínola. Dobrado contra singelo, diria que, em seus tempos, o teria dançado na perfeição, sem pisar os pés do par…

Deixemos, por ora, o Mário na sua cama, entre dois outros perturbados, que, continuamente, discutiam…

Quando, escassos anos volvidos, leria atentamente "Portugal e o Futuro", fecharia o livro, e, olhos cerrados, para mim mesma o interpelava: “Então, meu Caco, só agora?!”

Para todas as coisas há o seu tempo. Nos anos de brasa que decorreriam, e, mais ainda, nos outros que vieram, ele seria, talvez, uma das mais contraditórias e inquietantes personagens.

Recordo, hoje, os três majores ( e seus acompanhantes) que, num gravíssimo erro de cálculo – ou num quase infantil erro de cálculo – ele enviou para o martírio /***) e penso em tantos jovens anónimos que perderam suas desgraçadas vidas. Nos estropiados, nos cegos, nos perturbados, nas nossas lágrimas.

E, todavia, ele, feito marechal António de Spínola, será sempre, para mim, a mais trágica figura do braseiro que outros atearam, sem ele, com ele, ou em seu nome.

Que Deus e a História sejam clementes para com este homem. (...) (*)

(Seleção, revisão / fixação de  texto, título: LG)
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(***) Referência ao "massacre do chão manjaco", no Pelundo, 20 de abril de 1970, fez agora 56 anos,  em que foram assassinados 3 majores do CAOP1 e seus acompanhantes (1 alferes miliciano e 3 guinenses,  civis - 1 intérprete e 2 guias):

  • Major Passos Ramos
  • Major Osório
  • Major Pereira da Silva
  • Alferes João Mosca
  • Mamadu Lamine
  • Aliú Sissé
  • Patrão da Costa

Guiné 61/74 - P27937: Lembrete (55): Cerimónia de apresentação do livro "Guiné, Bilhete de Identidade. Tomo II – Da Pequena Senegâmbia à Guiné Portuguesa", de Mário Beja Santos,: hoje, 21 de Abril de 2026, pelas 17h30, na Biblioteca da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, Campo Grande


Capa do livro (Lisboa, Edições Húmus, 2026)




Sinopse do livro

A mais indefinível possessão portuguesa ganhou finalmente nome: Guiné.

Admitindo que navegadores portugueses aqui arribaram em finais da primeira metade do século XV, este espaço conheceu uma enormidade de nomes, desde Etiópia Menor, Guiné do Cabo Verde, Grande e Pequena Senegâmbia e muitos mais. Até que, em 1886, passou a chamar-se Guiné Portuguesa, e com menção constitucional. O livro aborda a história desta possessão de meados do século XIX e meados do século XX, um território que tinha praças e presídios, dependente de Cabo Verde; todas as companhias comerciais se tinham malogrado; foi preciso a comoção de um desastre militar num local chamado Bolor para, em 1879, se ter determinado a sua separação de Cabo Verde; estabeleceu-se uma capital em Bolama, mas a presença portuguesa manteve-se ténue, junto dos rios e rias. No final do século XIX, chegou a admitir-se a entrega da colónia a uma companhia majestática.





MÁRIO BEJA SANTOS


Biografia

Toda a sua vida profissional, entre 1974 e 2012, esteve orientada para a política dos consumidores. Ao nível da sua participação cívica e associativa, mantém-se ligado à problemática dos direitos dos doentes e da literacia em saúde, domínio onde já escreveu algumas obras orientadas para o diálogo dos utentes de saúde com os respetivos profissionais, a saber: Quem mexeu no meu comprimido?, 2009, e Tens bom remédio, 2013. Doente mas Previdente, dá continuidade a esta esfera de preocupações sobre a informação em saúde, capacitação do doente, o diálogo entre os profissionais de saúde, os utentes e os doentes.


(Com a devida vénia a Bertrand Livreiros)
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Nota de Mário Beja Santos:

A cerimónia de apresentação do livro será abrilhantada com uma actuação de Braima Galissá




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Notas do editor:

Vd. post de 11 de abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27911: Agenda Cultural (888): Convite para a cerimónia de apresentação do livro "Guiné, Bilhete de Identidade. Tomo II – Da Pequena Senegâmbia à Guiné Portuguesa", de Mário Beja Santos, a levar a efeito no próximo dia 21 de Abril de 2026, pelas 17h30, na Biblioteca da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. A obra será apresentada por António Duarte Silva e Eduardo Costa Dias

Último post da série de 17 de novembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27434: Lembrete (54): Cerimónia Comemorativa do 107.º Aniversário do Armistício da Grande Guerra e 51.º Aniversário do fim da Guerra do Ultramar, que se realiza amanhã, dia 18 de novembro, pelas 10h00, no Forte do Bom Sucesso, em Belém, Lisboa. Durante a cerimónia o nosso Editor Luís Graça será agraciado com a Medalha de Honra ao Mérito, grau Ouro, da Liga dos Combatentes

Guiné 61/74 - P27936: Casos: a verdade sobre... (71): Kalashnikovomania - Parte VI: A AK-47 "made in China", que matou camaradas nossos (António Graça de Abreu, sinólogo)

Excerto do "meu diário secreto, ainda inédito, escrito na China, entre 1977 e 1983" (António Graça de Abreu)


Mais uns excertos do "diário chinês, secreto", ainda inédito, do nosso camarada António [José] Graça de Abreu

Recorde-se que ele viveu na China, em Pequim e en Xangai, entre 1977 e 1983; foi professor de Português em Pequim (Beijing) e tradutor nas Edições de Pequim em Línguas Estrangeiras.  

Na altura, ainda era, segundo sabemos, simpatisante ou militante do Partido Comunista de Portugal  (marxista-leninista), o PC de P (m-l), facção Vilar (Eduíno Gomes, mais conhecido por Eduino 'Vilar, n- Ervidel, 1944),   alegadamente o único partido comunista marxista-leninista reconhecido na época pela República Popular da China. Não havia outra maneira de ir entrar na China a não ser com o cartão deste minúsculo partido.

Ex-alf mil, CAOP 1 (Teixeira Pinto, Mansoa e Cufar, 1972/74), o António Graça de Abreu é membro sénior da nossa Tabanca Grande, e ativo colaborador do nosso blogue com cerca de 390 referências. 

Compulsivo  viajante, tem "morança"  em Cascais. É um cidadão do mundo, poeta, escritor, tradutor e reputado sinólogo. Nasceu no Porto em 30 de março de 1947. É casado com a médica chinesa Hai Yuan, natural de Xangai, e tem dois filhos, João e Pedro, e um neto (deste seu último casamento). 

(...) Pequim, 20 de Maio de 1981

Agora veio à China uma delegação da Frelimo, encabeçada pelo moçambicano Marcelino dos Santos, ministro da Economia. Li Shunbao, o intérprete desta delegação, trabalha comigo na secção portuguesa das Edições de Pequim em Línguas Estrangeiras e contou-me, com algum desgosto, a visita dos camaradas de Moçambique ao Armazém da Amizade, a maior loja de Pequim reservada apenas a estrangeiros. (...).


Pequim, 22 de Agosto de 1981

Mas quando é que eu ganho juízo? Hoje descubro outra mulher chinesa, quase a beldade perfeita, no lugar certo, passeando-se pelo Vale das Cerejeiras, por detrás do Wo Fo Si 卧佛寺, o templo do Buda Deitado, na Colina Perfumada, arredores oeste de Pequim. Dela, pouco mais fiquei a saber do que o seu nome, Liu Xiaochun, sendo Liu刘 o apelido de família e Xiaochun 小春, o nome próprio que significa "pequena Primavera, ou Primavera Breve."  (...)


Pequim, 30 de Agosto de 1981

Dia de, no Yuanmingyuan 圆明园, o Jardim da Perfeição e da Luz, antigo Palácio de Verão que data dos séculos XVIII e XIX, encontrar uma chinesinha que pega na minha mão, a pousa sobre o seu joelho bonito -- a palma da mão voltada para cima --, e que me lê a sina. Um portento, a mulher, Wu Mei 吴美 de seu nome, nascida em Nanquim, 23 anos, aluna do Instituto de Cinema de Xangai. Bruxa. Com toda a aprendizagem e tiques de actriz, mais a percepção do essencial das coisas da vida. (...)


Pequim, 18 de Novembro de 1981

Esta manhã chego à embaixada da União Soviética e o tovarich de serviço na Intertourist recebe-me com as seguintes palavras:

"Good morning, do you have American dollars?" (...)



Amadora, 15 de Abril de 1982


Comia sossegadamente o meu bife à hora do almoço quando vi, no pequeno écrã  da TV, um general chinês, de visita a Portugal, a depositar um ramo de flores no monumento aos soldados Comando mortos em combate em África, aqui ao lado no Regimento de Comandos da Amadora, o antigo RI 1 que tão bem conheci há dez anos atrás.

As voltas que o mundo dá, ou simplesmente o doce-amargo do fluir dos dias….

Quando em 1972 parti deste quartel para a guerra na Guiné levava o desgosto de, pequeno alferes miliciano, ir combater por uma causa em que não acreditava. Iria encontrar guerrilheiros que, melhor ou pior, lutavam pela independência das suas terras. 

Depois, em Teixeira Pinto e em Mansoa, no meu Comando de Operações, estive com as 35ª. e 38ª. Companhias de Comandos, impressionantes tropas de combate com quem fiz amigos e com quem cheguei a sair para o mato.[1].  Unidos, camaradas, lutávamos pela sobrevivência, pela vida.

Na Guiné-Bissau, em Mansoa, em Junho de 1973, após uma missão da 38ª. Companhia de Comandos, na estrada Jugudul-Bambadinca, vi-os chegar com quatro espingardas Kalashnikov capturadas aos guerrilheiros mortos numa emboscada, duas delas ainda com sangue fresco. 

Tomei uma das armas na mão, culatra atrás, bala na câmara e apontei para o céu. Eram quatro Kalashs fabricadas na República Popular da China, oferecidas pelos comunistas de Mao Zedong para matar tropas portuguesas

Dez anos depois, um general chinês coloca uma coroa de flores no monumento aos militares Comandos, homenageando os portugueses mortos, muito deles caídos diante das balas disparadas por estas armas, made in China. (...)
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(1) Ver o meu Diário da Guiné, 72-74, Lisboa, Guerra e Paz Editores, 2007, pags. 51 a 53.

(Seleção, revisão / fixação de texto, negritos, título: LG)
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Nota do editor LG:

Último poste da série > 20 de abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27932: Casos: a verdade sobre... (70): Kalashnikovomania - Parte V. eram ambas excelentes armas, a AK-47 e a G-3, ,mas a primeira foi a arma mais difundida a nível mundial... (Luís Dias, o nosso especialista em armamento)

segunda-feira, 20 de abril de 2026

Guiné 61/74 - P27935: Notas de leitura (1915): "Querido Pai, uma conversa entre ausentes – Cartas da guerra 1961-1975", por Ana Vargas e Joana Pontes; Tinta da China, 2025 (4) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 11 de Dezembro de 2025:

Queridos amigos,
Continuamos na companhia de militares e da sua correspondência endereçada a filhos menores durante a guerra colonial. Temos, primeiro, Carlos Alberto de Oliveira e Lemos, aqui relevado pela originalidade de ter enviado um conjunto de contos em pequenas bobines, assim deliciava crianças e adultos. Carlos fez o curso da Escola Naval, teve uma comissão em Moçambique entre 1968 e 1970. Os filhos recordam o camarote do pai e a sua mesa de trabalho, foi nessa cabine que o pai iria escrever e ler as centenas de cartas que trocou com a família e gravar as bobines com os contos e as conversas que enviou para os filhos. Carlos não escondia situações de apuros vividas durante a comissão militar. Terá vindo muito debilitado de Moçambique, morreu com 53 anos. Pedro João dos Santos Reis era oficial da arma de infantaria, fez quatro comissões. A primeira comissão em Moçambique, e depois Timor, experiência inesquecível para os filhos, Pedro deixou a filha mais nova ao cuidado dos avós. A terceira comissão foi na Guiné, leva parte da família, irão os três filhos mais novos, os mais velhos em instituições militares. Pedro fará a sua última comissão em Angola, aqui viverá o 25 de abril, será um dos últimos militares a regressar. Um dos filhos comenta: "Ele adorava aquela cidade (Luanda). O pouco que ele contava do que se passou depois era uma coisa horrível."

Um abraço do
Mário



Olhe que o pai faz muita falta. Foi com a sua comissão que eu aprendi o quanto custa o estar longe e só e para nós o sofrimento não se compara com o seu – 4

Mário Beja Santos

Querido Pai, uma conversa entre ausentes – Cartas da guerra 1961-1975, por Ana Vargas e Joana Pontes, Tinta da China, 2025, é um livro arrebatador, profundamente terno, e, tanto quanto me é dado de saber, preenche uma lacuna no campo da investigação.

Começamos hoje por falar de Carlos Alberto de Oliveira e Lemos, estou seguro de que ele vai prender a atenção do leitor. Escreveu um livro de contos aos filhos durante os dois anos que esteve em Moçambique, com o título Lá de Longe, Edições Culturais da Marinha, é um conjunto de contos que Carlos Lemos escreveu, gravou e enviou em pequenas bobines de som que os filhos ouviam, acompanhados pela mãe, pela avó e por Alice, a empregada que esteve sempre com a família. O encontro entre as autoras e o filho de nome Miguel realizou-se no Museu da Marinha, ouviu-se a voz do pai a contar uma história, lá de longe, com a música de efundo a condizer. Carlos Lemos tinha 42 anos quando partiu para Moçambique como oficial imediato da Fragata D. Francisco de Almeida. Deixa rastilhos: Guida, com 7 anos, e Miguel, com 6. Para além das bobines, havia a correspondência, as perguntas sobre o dia-a-dia dos filhos. Entretanto nasceu mais uma menina, a Sara. O pai mandou a notícia por carta: “Parece que Jesus nos vai mandar um irmão ou uma irmã para ti e para o Miguel […] é preciso não arreliar a mãe para não fazer mal ao bebé que está a crescer. Depois, quando ele nascer, tens de ajudar a criar. Não é muito difícil.” O correio dos dois filhos mais velhos é dar notícias da recém-nascida.

Carlos Lemos é mais aberto à escrita, conta mesmo operações em que intervinham fuzileiros, e descreve situações muito enrascadas. Ouve-se a voz do pai numa gravação: “Havia guerra entre pretos e brancos. A guerra era por causa dos brancos que queriam ficar a mandar nos pretos, e por causa dos pretos que não estavam satisfeitos com o procedimento dos brancos. Tanto pretos como brancos mandavam outros pretos e outros brancos, que não eles, pegarem armas para se matarem uns aos outros. Poucos sabiam porque é que haviam de lutar e pouquíssimos gostavam realmente de pegar em armas.”

Para os filhos não há dúvidas, Carlos Lemos escrevia para ele. O pai entende que não deve esconder aos filhos o dia-a-dia: “Ontem o navio parecia uma autêntica arca de Noé. Vinham atestados até mais não poder. Trazia mais de duzentos homens, coitados, dormem ao relento pelo chão e por onde calha. Deus teve pena deles e não mandou chuva.”

Falando com as autoras Guida diz que o pai veio diferente, triste e debilitado. Carlos morreu com 53 anos, doente.

Vejamos agora a trajetória de Pedro João dos Santos Reis. A conversa decorre à volta de uma mesa, estão cinco irmãos de uma família de sete filhos. Trouxeram fotografias, aerogramas e cartas que consultam, trocam entre si, e sobre as quais contam histórias, desafiando-se uns aos outros sobre memórias dos seus tempos de infância e da adolescência. Pedro fez a academia militar e foi mobilizado para quatro comissões, tendo, entre elas, concluído o curso de Estado-Maior que graduava oficiais superiores. A primeira comissão foi em Moçambique. Aqui nasceram dois filhos, a Paula e a Leny. Regressam e a família fica quatro anos em Lisboa e, entretanto, nascem mais três filhos, Zé Pedro, Ana e Maria João, entre 1956 e 1960. O pai é mobilizado para Timor, ele e a mulher levam quatro filhos, o bebé fica com os avós. Contam-se histórias como um convite feito a um padre para almoçar lá em casa, e o criado estava a servir à mesa quando viu aquela pessoa que fugiu. A mãe quis apurar a verdade, ainda por cima ia buscar os criados saídos da vida prisional. O criado confessou que tinha matado um padre que era o seu patrão. Ficou tudo em segredo de família.

Nasce mais um filho em Timor, a família regressa em 1963, o pai vai fazer o curso do Estado-Maior. Em Lisboa nasce mais uma filha, a Patrícia. O pai parte para nova comissão, vai para a Guiné e ficará em Bissau, com ele vai uma parte da família, a mãe e os três filhos mais novos. Conversando com as autoras, os filhos vão dando conta, uns recebendo a correspondência dos pais, outros a viver em Bissau, da atividade do pai, oficial perto de Spínola. As viagens que fizeram para a Guiné tornaram-se inesquecíveis. O pai é um dos últimos oficiais a deixar a Guiné, regressou em setembro de 1974. Há também lembranças do instituto de Odivelas, como recorda a filha Paula: “Havia órfãs, caso da nossa colega, também de nome Paula. Havia uma ideia de que o pai tinha sido morto na guerra, mas não se falava disso. Era um assunto sobre o qual não se falava. Na minha turma, havia duas que os pais ficaram malucos. Era tudo dito em surdina. Havia uma espécie de vergonha das famílias, porque eles não tinham sido mortos em combate, honradamente. Havia muita vergonha e eram sempre as pessoas mais próximas delas que faziam este sussurro entre nós.”

Deixa-se para o próximo texto a itinerância de João Corte-Real de Araújo Pereira, era capitão quando embarcou para Timor em setembro de 1959 e fez a sua última comissão na Guiné, para onde partiu em dezembro de 1962. Mais família com vida no quartel, mais filhos internados em instituições militares; e também Rogério Pereira, furriel miliciano enfermeiro em Angola entre 1969 e 1971. Nascido em 1945 casou em 1966 e quando parte a mulher fica com duas filhas. Durante dois anos, Rogério escreve quase todos os dias para casa. Parte significativa da correspondência é feita no verso de fotografias que envia à mulher e às filhas. Quando se dirige à filha mais velha escreve com letras muito grandes na expetativa de que ela talvez começasse a entendê-las. O Rogério falará com as autoras a quem dirá que a guerra o humanizara muito. “Por imperativos que eu não gostaria de ter tido, relacionei-me com outra forma de ser, de conviver, com outras culturas. Quando aquela gente soube que os tratava bem, logo de manhã, eu tinha filas à porta do posto de socorros… e isso deu-me, digamos, é uma experiência muito difícil de explicar. Porque o que nos produz são sentimentos. Eu, ao perceber aquela dependência, aquela vivência e aquela forma de estar e viver, percebi que, de facto, nós, enquanto potência colonial, fizemos muito mal o nosso trabalho de casa.”

Ana Vargas e Joana Pontes

(continua)
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Notas do editor

Vd. post de 13 de abril de 2026 >Guiné 61/74 - P27918: Notas de leitura (1913): "Querido Pai, uma conversa entre ausentes – Cartas da guerra 1961-1975", por Ana Vargas e Joana Pontes; Tinta da China, 2025 (3) (Mário Beja Santos)

Último post da série de 17 de abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27927: Notas de leitura (1914): "A Partilha de África", por Conde de Penha Garcia; Lisboa, 1901 (1) (Mário Beja Santos)