1. Mensagem de Mário Beja Santos (ex-Alf Mil, Comandante do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 14 de Julho de 2011:
Queridos amigos,
Desculpem insistir na importância primordial deste livro, não estou preparado para dizer que é a mais importante biografia política de Amílcar Cabral, não hesito em dizer que se trata de um estudo muito acima das conjunturas e das conjecturas, estabelece com rigor o arco histórico entre a evolução dos movimentos independentistas e dá-nos o percurso ímpar de um pensador que não teve rival ao nível das colónias portuguesas.
Por favor, travem conhecimento com esta biografia de Amílcar Cabral
Um abraço do
Mário
"Amílcar Cabral – Vida e Morte de um Revolucionário Africano"
Amílcar Cabral: o revolucionário e o mito
Beja Santos
“Amílcar Cabral, vida e morte de um revolucionário africano”, por Julião Soares Sousa (Nova Vega, 2011), não nos cansamos de opinar, é um livro incontornável para quem se interessa por aprofundar os seus conhecimentos acerca da Guiné em guerra, queira conhecer a personalidade política do mais talentoso dos líderes revolucionários das colónias portuguesas ou quem esteja a investigar, em toda a amplitude, a história da Guiné-Bissau. Amílcar Cabral, por razões sobejamente conhecidas, confunde-se e entranha-se na vida do PAIGC, desde a sua fundação e até mesmo depois da sua morte, arquitectou uma estratégia diplomática para tornar a Guiné-Bissau independente e gizou um plano militar ofensivo que foi desencadeado a partir de Maio de 1973, quando já tinha entrado na lenda.
Julião Soares Sousa analisa exaustivamente a transição para a fase revolucionária à luz das manobras diplomáticas desenvolvidas sobretudo até 1963; aprecia e detalha os preparativos para o início da guerra chamando a atenção, como nenhum autor até hoje, para o conjunto de diligências que efectuou para tentar uma convergência com outros movimentos rebeldes; mostra como a luta armada foi previamente precedida de uma organização ideológica, e que, a despeito de inúmeras dificuldades de armamento, em escassos meses a região Sul desarticulou-se e o sistema económico-colonial entrou no plano inclinado, de onde nunca mais saiu. A par dessas diligências e da organização militar, Cabral continua tenazmente à procura de uma solução pacífica para a independência. Descobre, enfim, que tem apoios políticos em África mas este continente não lhe dá ajuda financeira nem se compromete a uma intervenção militar conjunta. China, URSS e Cuba vão ser os principais doadores. Os óbices, reticências, desconfianças também são enormes, tanto no Senegal como na Guiné Conacri. Cabral não desfalece, supera os escolhos internacionais, prestigia-se em areópagos em vários continentes, redige documentos teóricos ainda hoje dignos de leitura.
Emergem, com o crescimento da guerrilha, os focos de contestação interna, Cabral, longe dos teatros de operações, apercebe-se bastante tarde que a luta armada fez surgir caciques, alguns deles sanguinários, verdadeiros terroristas. Também aqui o autor descreve os antecedentes e as consequências do congresso de Cassacá, que mudaram o curso da história do PAIGC. A conquista da população torna-se um imperativo tanto para o PAIGC como para as tropas portuguesas. A historiografia de ambos os lados é praticamente omissa sob a forma como decorreu a sublevação das populações entre 1962 e os anos subsequentes, como se intimidaram as populações, como estas foram obrigadas a tomar partido e a entrar no chamado “jogo duplo”, a que nenhuma etnia escapou. Exerceram-se muitas formas de repressão brutal, corremos o risco de ficar sem o relato desses acontecimentos. Tanto Vasco Rodrigues como Arnaldo Schulz, os governadores que precederam Spínola, têm sido criticados por favorecer a opção militar em prejuízo das medidas de carácter social. É de facto com Spínola que Cabral e a direcção do PAIGC bem como os comandos militares da guerrilha vão conhecer um confronto sério: Spínola aprofundou a aliança histórica com os chefes islamizados e o seu plano de obras públicas expressa-se em números gordos: entre 1969 e 1973 foram construídas 8313 casas, 61 tabancas conheceram melhoramentos significativos e largos milhares de pessoas foram reagrupadas; em idêntico período foram alcatroados 520 km de estradas comparativamente aos 35 km construídos entre 1960 e 1968; a governação de Spínola também se fez sentir na saúde, na educação, na agricultura e no plano político – administrativo, sobretudo graças a uma instituição que granjeou imensa popularidade, os congressos do povo. Também acerca do número de pessoas controladas, o autor manifesta a sua isenção, chamando a atenção para vários exageros da propaganda, quer para a população fora do controlo das autoridades coloniais quer para os refugiados na Guiné-Conacri e no Senegal. Não obstante, com o evoluir da guerra alguns espaços de controlo passaram inequivocamente para a alçada do PAIGC.
Por exemplo, com o abandono de Béli e Madina do Boé, o PAIGC estendeu a sua influência em direcção à região do Gabu e conseguiu o maior domínio da margem direita do rio Corubal até ao Xitole.
As questões de formação eram primordiais no pensamento de Cabral, ele sempre estabeleceu uma conexão entre as duas componentes de guerra (as acções militares e políticas ou ideológicas) tal como disse em 1969: “Podemos derrotar os tugas em Buba ou em Bula, podemos entrar e tomar Bissau, mas se a nossa população não estiver politicamente bem formada, agarrada à luta como deve ser, perdemos a guerra”.
Noutra vertente, assume em grande peso as lutas internas, as dissidências e a constante tensão entre cabo-verdianos e guineenses, ainda hoje a historiografia guineense é estranhamente omissa sobre as crises de liderança, as tentativas de assassinato, as contestações surdas ou abertas, o que denota o pouco à vontade no tratamento das dificuldades que sempre ocorreram na vida do PAIGC, em todos os sectores.
Julião Soares Sousa deixa-nos também um quadro bastante claro sobre o entendimento que Cabral tinha do socialismo, ele pensava num estado descentralizado, pela manutenção de uma posição de não alinhamento na Guerra Fria, havendo que privilegiar a experiência das zonas libertadas e rejeitar a prevalência do aparelho administrativo colonial. Há muitas dúvidas sobre a solidez do seu pensamento marxista, mas é inegável que ele acreditava convictamente no partido único, seria o PAIGC a vanguarda da libertação nacional, isto sem prejuízo de uma estratégia para a prevenção do neocolonialismo, que também era uma das suas preocupações. Todo o ano de 1972, tempo em que o prestígio de Cabral está no zénite, é da procura do reconhecimento internacional, de eleições internas para se obter um consenso quanto à independência, mesmo que esta fosse declarada unilateralmente, tal como Cabral admitia desde Maio de 1968. A visita de uma missão da ONU aos chamados territórios libertados foi o teste de confiança decisivo para a ofensiva diplomática de Cabral.
E chegamos ao seu assassinato. Julião Soares Sousa sopesa as diferentes teses, aponta os autores materiais, equaciona os diferentes relatos, dá-nos um quadro vigoroso de quem e como actuou naquela noite. Sendo certo que o governo português equacionara a sua eliminação física no passado, naquele momento o seu desaparecimento provocou danos irreversíveis às estratégias de Spínola. Não é de negar a hipótese de que o seu assassinato iria atrasar a data da independência mas ninguém de boa fé pode advogar que as autoridades de Lisboa ou de Bissau iriam encontrar um interlocutor mais capaz, o PAIGC é já uma força incontestavelmente motivada e tem uma vida política com garantias de autonomia mesmo com o desaparecimento do seu líder carismático. E o autor escreve: “A análise dos acontecimentos do dia 20 de Janeiro parece não deixar margens para dúvidas que o assassinato de Cabral foi obra de dissidentes do PAIGC”. Tratou-se de um complot em grande escala e que ultrapassa as fronteiras da Guiné-Conacri, como ele enumera: as muitas contradições do discurso oficial; a história fantasiosa que esse mesmo discurso criou e recriou para, em nossa opinião, continuar a encobrir a verdade e o facto de, até hoje, não se conhecer nenhum relatório das três comissões de inquérito entretanto criadas. Não há nenhum documento que incrimine, directa ou indirectamente a PIDE, há hesitações e nuances em torno de Sekou Turé ou até mesmo de Osvaldo Vieira. E há provas de que a ala guineense do PAIGC projectava não se envolver na questão da independência de Cabo Verde, ficando a luta na Guiné a cargo dos guinéus. É de admitir que nunca se consigam juntar provas que tragam luz sobre quem instigou toda esta trama que levou os descontentes guineenses do PAIGC a liquidarem Cabral.
E muito provavelmente Marcel Niedergang, colunista do jornal Le Monde, teria razão num artigo que li publicou três dias após o assassinato de Cabral: com o seu assassinato era também a esperança de uma colaboração ainda possível entre Portugal e o seu território africano que se afastava abruptamente.
Por todas estas razões, o estudo monumental de Julião Soares Sousa é uma leitura imperdível.
____________
Notas de CV:
Vd. postes anteriores de:
5 de Julho de 2011 >
Guiné 63/74 - P8508: Notas de leitura (253): Amílcar Cabral – Vida e morte de um revolucionário africano, por Julião Soares Sousa (1) (Mário Beja Santos)
13 de Julho de 2011 >
Guiné 63/74 - P8549: Notas de leitura (256): Amílcar Cabral – Vida e morte de um revolucionário africano, por Julião Soares Sousa (2) (Mário Beja Santos)
e
19 de Julho de 2011 >
Guiné 63/74 - P8570: Notas de leitura (257): Amílcar Cabral – Vida e morte de um revolucionário africano, por Julião Soares Sousa (3) (Mário Beja Santos)
Vd. último poste da série de 29 de Julho de 2011 >
Guiné 63/74 - P8616: Notas de leitura (260): Costa Gomes, o último Marechal, por Maria Manuela Cruzeiro (Mário Beja Santos)