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sábado, 6 de junho de 2026

Guiné 61/74 - P28078: Casos: a verdade sobre ...(74): A tragédia de Fajonquito, o "Dia Negro" de 2 de abril de 1972, domingo de Páscoa: evocandio duas das suas vítimas, oc ap art Carlos Borges de Figueiredo e o sold Pedro José Aleixo de Almeida (Cherno Baldé, o "Chico de Fajonquito)




Guiné > Zona Leste > Região de Bafatá >( Sector L2 (Bafatá) >  Fajonquito > 1971 > CART 2742 (1970/72) > "Fajonquito em festa... Com a CART 2742 (1970-72), o ambiente entre a tropa e a população melhorou bastante, atingindo níveis nunca antes vistos. 
.
A foto de 1971 (amigavelmente enviada pelo ex-fur mil José Bebiano) mostra uma calorosa receção de um grupo de artistas vindos da metrópole para animar a malta. Ao meio e ao lado de uma das artistas pode-se ver o nosso saudoso Cap Carlos Borges de Figueiredo. 

O rapazinho nas mãos do homem dos óculos escuros é o Carlitos, filho de um soldado português. (Mais tarde, iria à procura do pai, tendo aquele recusado o encontro à última da hora.)

 O ex-furriel José Bebiano, que era de rendição individual, tendo feito toda a sua comissão em Fajonquito poderia, eventualmente, identificar os soldados que acompanham o seu Comandante nesta foto." (Foto de José Bebiano; legenda de Cherno Baldé).




Guiné > Zona Leste > Região de Bafatá >( Sector L2 (Bafatá) >  Fajonquito > 1971 > CART 2742 (1970/72) > Dois furriéis milicianos, à esquerda o Alcino Franco Jorge da Silva (da CART 2742, morto em 2/4/1972, juntamente com o cap art Carlos Borges de Figueiredo, o alf mil José Fernando Félix, e o sold Pedro José Aleixo de Almeida) e o José Bebiano, à direita (era de Informações & Operações, de rendição individual,  e esteve  ainda uns meses em Fajonquito, com o José Cortes,  ex-fur mil at inf  CCAÇ 3549/BCAÇ 3884, Fajonquito, 1972/74, a companhia que foi render a CART 2742 ). 

 A CART 2742 pertencia ao BART 2920 (Bafatá, 1970/72). (O José Bebiano, em 2010, era ex-professor de Educação Física em Moura, aposentado desde 30/11/2009; nunca respondeu ao nosso  convite para integrar a Tabanca Grande; tem página no Instagram)
 
Fotos (e legenda): © José Bebiano (2010). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagemcom'plementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné].
 

1. Comentário de Cherno Baldé na página do Facebook da Tabanca Grande, 5 de junho de 2026 17:42, com referência ao poste P28073 (*)


O Chico de Fajonquito,
com 14 anos (c. 1974)
(...) Quando falei deste caso no Blogue (**), referi que estava, no momento do rebentamento da granada, a uns 100 metros, na verdade, após verificação, constatei que estávamos, eu e um colega, a menos de 50 metros do local. A nossa sorte foi que tudo aconteceu dentro do edificio que servia de secretaria geral e escritório do capitão da companhia. 

Ouvimos o rebentamento e a seguir uma nuvem de poeira se levantou acima da cobertura de zinco, estávamos na época seca. A seguir, fugimos do local a sete pés e só voltámos quando a população se reuniu, à distância, para se inteirar do ocorrido e partilhar o sentimento de pesar e de luto. 

Foi um dia triste para todos os presentes, sem exceção. De facto, o depoimento do ex-furriel Rui Osório Oliveira (*)  é verídico e oferece-nos detalhes importantes que fazem toda a diferença sobre este caso e, a meu ver, a tese do acidente ganha vulto, afastando a de homicídio premeditado. 

Também, ficamos a saber que, o que estava em causa seria a possibilidade de continuar na tropa e não, necessariamente, na Guiné. 

2. Comentários anteriores do Cherno Baldé sobre esta tragédia (homicídio ? acidente ?) e duas das suas vítimas, o cap art Carlos Borges de Figueiredo, natural de Vila Pouca de Aguiar, e o sold Pedro José Aleixo de Almeida, natural de Portel- (Já agora acrescente-se o concelho da naturalidade das outras duas vítimas deste "acidente com arma de fogo": o fur mil Alcino Franco Jorge da Silva era de Cascais;  o alf mil José Fernando Félix era de Moimenta da Beira.)


Cherno Baldé
(c. 2009)

(...) Pela versão que prevaleceu entre nós, alegadamente, o soldado Almeida estava revoltado por não poder voltar à sua terra após várias comissões de serviço, em virtude de um castigo a que estava sujeito e tinha decidido acabar com a sua vida e com ele, também, a do comandante da companhia. 

Claro que isto faz parte dos rumores que circularam, na ausência de informações oficiais, na altura.

Quero dizer a quem me quiser ouvir, e isto por minha conta, que o Almeida era um soldado "profissional", muito aguerrido,  que dificilmente poderia levar uma vida civil pacata no meio indígena ou gerindo uma lojeca ou um restaurante para servir a malta europeia numa cidade qualquer da Guiné. 

O Almeida não era um soldado vulgar e via-se claramente que não se tinha integrado na companhia dos restantes soldados e milicianos pelos quais  quais ele nutria muita pouca consideração e/ou respeito.

Tão pouco se podia integrar no meio dos pretos,  embora se identificasse com eles. Penso que, antes de mais, o nosso amigo Ameida (ele era de facto um amigo e defensor das crianças que frequentavam o aquartelamento, ai de quem se atrevesse a fazer mal a uma criançaa na sua presença!) deve ter sido mais uma das inúmeras vitimas daquela guerra terrível. (..) (**)


(...) "O que vou dizer pode parecer paradoxal se não incongruente. O sr. Carlos Borges de Figueiredo, ao contrário de muitos outros, foi um capitão pacifista pois ele tinha-se distinguido, sobretudo, pela promoção da educação entre as crianças nativas (o número de alunos na escola local tinha aumentado significativamente facto que poderia estar ligado ao ambiente de paz criado e uma grande sensibilidade pelos problemas sociais da população) e organização de eventos sócio-culturais que, não só afastavam, por algumas horas, o espectro da guerra e da morte entre a tropa mas eram também muito úteis e importantes na construção de relações de aproximação e de confiança com a populaçã local, tão prezada por general Spínola.

Foi nessa altura que, pela primeira vez, recebemos a visita de grupos musicais vindos da metrópole. Numa dessas visitas, lembro-me da presença de uma ou mais mulheres cantavam o Fado. A música era muito morna, lenta demais para o nosso gosto temperado na ritmada, quase violenta dança de tambor mandinga. 

No meio de tudo isso, não nos escapou um detalhe importante. Notámos a deferença e o extremo respeito com que todos a(s) tratavam. O respeito dado àquela(s) mulher(res) contrastava de forma flagrante com a maneira como habitualmente lidavam com as nossas mulheres, fossem elas grandes ou pequenas. E não estou a referir-me, claro a esta, à esposa do capitão que, também, deve ter visitado Fajonquito.

Ele ficou conhecido no meio da populacao local com o nome de Capiton Lelö Dahdè, o que na lingua fula significa o Capitão Cabeça inclinada. Talvez aqueles que o conheceram de perto me possam corrigir, parece que ele tinha o hábito de inclinar ligeiramente a cabeça para um dos lados, daí o nome com que o baptizaram e que fica para a história." (...) (***)

Guiné 61/74 - P28077: Fichas de unidades (41): BART 2920 (Sector L2, Bafatá, 1970/72), CART 2741 (Contuboel), CART 2742 (Fajonquito) e CART 2743 (Geba)


Batalhão de Artilharia n." 2920 (tem 8 referêncvias no blogue)


Identificação BArt 2920

Unidade Mob: RAP 5 - Penafiel

Crndt: TCor Art Fernando de Melo Macedo Cabral | 2º Crndt: Maj Art Álvaro Nuno Miranda Furtado | OInfOp/Adj: Maj Art Rui Folhadela Macedo Rebelo

Crndts Cornp:

  • CCS: Cap Art Eduardo da Conceição Santos
  • CArt 2741: Cap Art João Maria Clímaco de Sousa Brito
  • CArt 2742: Cap Art Carlos Borges de Figueiredo | Alf Mil Art Baltazar Gomes da Silva
  • CArt 2743: Cap Mil Art Ilídio do Rosário dos Santos Moreira

Divisa: -

Partida: Embarque em 18Ju170; desembarque em 24Ju170 | Regresso: Embarque em 21 Set72 (CArt 2741), 22Set72 (CArt 2742) e 23Set72 (Cmd, CCS e CArt 2743)

Síntese da Actividade Operacional

Em 03Ag070 seguiu para Bafatá, a fim de efectuar a sobreposição e render o BCaç 2856, assumindo, em 13Ago70, a responsabilidade do Sector L2, com sede em Bafatá e abrangendo os subsectores de Geba, Fajonquito, Contuboel e Bafatá e, a partir de 29Ag070, o de Sare Bacar. As suas subunidades mantiveram-se sempre integradas no dispositivo e manobra do batalhão.

Desenvolveu intensa actividade operacional orientada para a contra-penetração e segurança e protecção das populações, efectuando numerosas acções e operações, patrulhamento, emboscadas, reconhecimentos ofensivos e reacções a ataques inimigos, em especial contra Ualicunda, Sare Bacar, Sumbundo e Cantacunda e outras povoações em autodefesa.

Dentre o material capturado mais significativo, refere-se: 3 espingardas, 2 lança-granadas foguete, 21 granadas de armas pesadas e a detecção e levantamento de 20 minas.

Em 28Mai72, foi rendido no subsector de Bafatá pelo BCaç 3884 e recolheu 
seguidamente a Bissau, a fim de aguardar o embarque de regresso.

***

A CArt 2741 seguiu em 03Ag070 para Contuboel, a fim de efectuar a sobreposição e render a CCaç 2435, seguindo um pelotão para Sare Bacar, em 05Ag070 e outro para Sare Aliú Sene, em 12Ag070.

Em 13Ag070, assumiu a responsabilidade do subsector de Contuboel, com forças destacadas na ponte do rio Geba, Sora, Sare Bacar e Sare Aliú Sene.

Em 20Ag070, por criação, ainda com carácter temporário, do subsector de Sare Bacar, passou a ter três pelotões destacados neste novo subsector e instalados em Sare Bacar, Sare Aliú Sene e Sora, onde se mantiveram até à chegada da CCaç 2636, entre 20 e 24Set70. 

A partir de 24Set70, mantendo efectivos na ponte do rio Geba, passou a ter destacados dois pelotões em Sare Uale e Sumbundo, no subsector de Fajonquito, onde permaneceram até finais de Jun71. 

Seguidamente destacou efectivos para reforço temporário do subsector de Bafatá e, deslocou um pelotão para Sonaco, mantendo sempre o destacamento da ponte do rio Geba.

Em 28Mai72, foi rendida no subsector de Contuboel pela CCaç 3547 e recolheu seguidamente a Bissau, a fim de efectuar o embarque de regresso.

***

A CArt 2742
seguiu em 03Ag070 para Fajonquito, a fim de efectuar a sobreposição e render a CCaç 2436, assumindo, em 13Ag070, a responsabilidade do respectivo subsector, com forças destacadas em Cambajú, Sumbundo, até 24Set70 e Ualicunda, de 24Set70 a Jul71 e Sare Uale, a partir de finais de Jun71.

Em 21Mai72, foi rendida no subsector de Fajonquito pela CCaç 3549 e recolheu seguidamente a Bissau, a fim de efectuar o embarque de regresso.

***

A CArt 2743 seguiu em 03Ag070 para Geba, a fim de efectuar a sobreposição e render a CCaç 2437, assumindo, em 13Ag070, a responsabilidade do respectivo subsector, com pelotões destacados em Cantacunda e Sare Banda.

Em 27Mai72, foi rendida no subsector de Geba, pela CCaç 3548 e recolheu seguidamente a Bissau, a fim de efectuar o embarque de regresso.

Observações - Tem História da Unidade (Caixa n." 98 - 2ª Div/4ª Sec, do AHM).

Fonte: Excertos de Portugal. Estado-Maior do Exército. Comissão para o Estudo das Campanhas de África, 1961-1974 [CECA] - Resenha Histórico-Militar das Campanhas de África (1961-1974). 7.º volume: Fichas das Unidades. Tomo II: Guiné. Lisboa: 2002, pp. 230- 231.

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Guiné 61/74 - P28076: Guine-Bissau, hoje: factos e números (9): caju, a nova "semente do diabo" ? - Parte III


1. Na sua página do Facebook, Tita Pipoka (ativista e empreendedora social,a viver em Bissau,  e que tem mais de 200 mil seguidores!), esvreveu em 24 de março de 2026, 16:15:

Eu sou Tita Pipoka… filha da terra. Cresci numa família de agricultores, onde o som da campanha de caju não é apenas trabalho, é sobrevivência.

A castanha de caju representa cerca de 90% das exportações do país. Um saco de caju… por um saco de arroz. E assim passa mais um ano.

Mas será justo? Como é que um país que exporta quase toda a sua riqueza agrícola… continua dependente para se alimentar? Como é que quem produz tanto… vive com tão pouco?

A verdade é dura: o agricultor é a base de tudo… mas é quem menos ganha.

2. Recordemos aqui alguns dados económicos e fianneeiros respeotantes ao caju (ou castanha de caju) na Guiné-Bissau

É, reconhecidamente, e de há muito (há 30/40 anos) a principal riqueza da Guiné-Bissau E ttem um forte potencial de desenvolvimento. Com esceção do arquipélago dos Bijagós e demais ilhas,  o caju é produzido em todas as regiões do país, e muito em esepcial presente em todas as terras secas. 

  • Podução: c. 300 mil toneladas (2021) de castanha "in natura";
  • Área: c. 513,5 mil hectares;
  • Nº de produtores: mais de 650 mil (2,5% dos quais são mulheres);
  • Produtividade (baixa): entre 500 e 600 kg/ha. 
  • A grande maioria dos agricultores da Guiné-Bissau está envolvida e vive na produção de caju;
  • O país exportou um volume de 231 2 mil toneladas em 2021 e 235 mil  toneladas em 2022;
  • 14 unidades de processamento estão registadas em 2022, das quais 12 unidades estão operacionais para uma média de 20.000 toneladas de castanhas "in natura"  processadas, ou menos de 10% da produção;
  • constitui a maior fonte de receitas fiscais do Estado;
  • funciona como  principal motor da balança comercial e da entrada de divisas.
De acordo com dados da Agência Nacional do Caju da Guiné-Bissau, citados pelo Fórum para a Cooperação Económica e Comercial entre a China e os Países de Língua Portuguesa (Macau) a produção (=200 mil toneladas, em 2022) repartiu-se assim pelas zonas do país:

  • Zona Norte (regiões de Biombo, Cacheu e Oio) > 54,6%
  • Zona Leste (regiões de Bafatá e Gabu) > 28,5%
  • Zona Sul (regiões de Quínara, Bolama e Tombali) > 16,9 %
Total= 100,0%

A Guiné-Bissau exporta praticamente toda a produção de caju em casca, por que não tem capacidade para o processar. O ano de 2022 foi favorável. O preço médio pago aos produtores  variou entre 450 e 600 Francos CFA por kg (1 EUR ≈ 655 FCFA em 2022; isso equivale a aproximadamente 0,69 a 0,92 EUR/kg).


(1) Impacto económico e financeiro: o caju representa:
  • 18% do PIB;
  • 90% das receitas de exportação;
  •  33% do rendimento familiar;
  • a  taxa de utilização das unidades instaladas no país gira em torno de 25%;
  • o preço ao produtor das nozes cruas está entre 375 e 500 farncos CFA/kg em 2022;
  •  o valor dos impostos de exportação é de 15 FCFA/kg para nozes cruas e 8 FCFA/kg para amêndoas.


(2)  
Já ouvimos  chamar ao caju, ou melhor, à castanha de caju, o "petróleo" ou
o "ouro branco" da Guiné-Bissau. É uma metáfora, que tem diferentes leituras. 

Toda a economia (cabeça, tronco e membros) depende um único corpo, que é produção e a comercialização deste produto. 

Poucos países do mundo dependem tanto de um único produto agrícola, que ainda por cima não fazia  propriamente parte da dieta tradicional dos guineenses.

Será o caju uma nova "semente do diabo", tal como a "mancarra", deixada pelos "tugas" antes de se irem embora ? Uma nova "maldição" ?


(3) Em termos sociais, estima-se que:

  • mais de 80% da população ativa rural esteja ligada direta ou indiretamente à fileira do caju;
  • e que cerca de  40% a 50%  das pessoas dependam dele para sobreviver, num país com pouco mais de dois milhões de habitantes.

(4) A campanha do caju é, na prática, “a estação económica” do país. 

Quando a campanha corre bem:
  • há mais circulação de dinheiro nos tabancas e mercados;
  • aumenta o comércio informal;
  • sobem as importações de arroz e bens de consumo;
  • o Estado respira melhor financeiramente.

Quando a campanha corre mal (c0mo vai acontecer provavelmente este ano): 
  • toda a economia guineense abana;
  • sendo isso devido sobretudo a factores exógenos,  portanto fora do contro dos produtores (como o caso das secas, chuvas fora de tempo, pragas, crise política ou queda do preço internacional) 

Há muito que o próprio Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial insistem na necessidade urgente de diversificação económica, precisamente por causa desta btrutal dependência extrema.

Há ainda um problema estrutural importante: a Guiné-Bissau exporta sobretudo castanha em bruto, praticamemnte sem qualquer transformação industrial local. 

Quem ganha com o negócio0mais dinheiro são os países que a processam (a Índia e o Vietname)   transformando-a em amêndoa de caju para exportação mundial. E, claro, os intermediários locais.

Ou seja: o camponês guineense produz a matéria-prima; mas o maior valor acrescentado, emprego industrial e lucro ficam fora do país.

É um velho problema de economia colonial ou neoextrativa: exportar produto bruto e importar quase tudo o resto.

(5) Apesar disso, o cajueiro tem uma importância "quase civilizacional"  na Guiné-Bissau contemporânea:

  • fixa populações no interior;
  • gera rendimento monetário onde há pouco emprego no sector formal;
  • permite pagar escola, arroz, roupa, medicamentos, telecomunicações;
  • e sustenta grande parte da economia informal das “bideras”, comerciantes e pequenos transportadores.

Curiosamente, o “falso fruto” do caju (a maçã de caju) continua subaproveitado. Há produção artesanal de vinho, sumos e aguardente (“cana de caju”), mas em escala reduzida. O "ouro" económico continua a ser a castanha com casca!

E há, de facto,  um paradoxo desconcertante, como diz a Tita Pipoka, troca-se caju por arroz... Até quando ? A 
Guiné-Bissau é um dos maiores produtores mundiais de castanha de caju "per capita"… mas continua entre os países mais pobres do mundo. E pior: depende dos outros para se alimnentar...

Isso mostra bem como produzir uma mercadoria  agrícola não basta para criar desenvolvimento sólido sem:
  • transformação industrial;
  • infraestruturas (incluindo rede rodoviária);
  • crédito;
  • apoio técnico;
  • estabilidade política;
  • e capacidade do Estado.

(Pesquisa: LG +   Fórum Macau +  ChaGPT / Open AI + Vibe / Mistral AI)
(Condensação, revisão/ fixação de texto, negritos, links, título: LG)

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Nota do editor LG:

Último poste da série >  3 de junho de 2026 > Guiné 61/74 - P28067: Guine-Bissau, hoje: factos e números (8): caju, a nova "semente do diabo" ? - Parte II

Guiné 61/74 - P28075: Parabéns a você (2493): Belarmino Sardinha, ex-1.º Cabo Radiotelegrafista STM/CTIG (Mansoa, Bolama, Aldeia Formosa e Bissau, 1972/74)

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Nota do editor

Último post da série de

sexta-feira, 5 de junho de 2026

Guiné 61/74 - P28074: Retratos humanos da Guiné-Bissau de hoje (5): Vendedeiras de bananas, no antigo estacionamento do aeroporto internacional Osvaldo Vieira, Bissalanca, agora requalificado (João Melo, ex-1º cabo cripto, CCAV 8351/72, Cumbijã, 1972/74)




 
Guiné-Bissau > Bissau > Bissalanca > 3 de maio de 2025 >  Jovens vendedeiras de bananas... Lindas bajudas!...E bela froto!... " Tirada no estacionamento do aeroporto Osvaldo Vieira, atualmente em remodelação e ampliação por uma firma turca". (Depois das obras de requalificação, foi inaugurado em março de 2026: vd. aqui vídeo da pãgina da famosa  Tita Pipoka, ativista e empreendedora social).


Foto da página no Facebook (João Reis Melo)


1. João Melo (ou João Reis de Melo), ex-1º cabo op cripto, CCAV 8351, "Os Tigres do Cumbijã" (Cumbijã, 1972/74): 

(i)  é profissional de seguros, vive em Alquerubim, Albergaria-a-Velha; 

(ii) viaja regularmente, desde 2017,  para a Guiné-Bissau, em "turismo de saudade e de solidariedade" (em que distribui material pelas escolas de Cumbijã, e apoia também, mais recentemente,  o clube de futebol local); 

(iii) regressou há pouco tempo da sua viagem desde último ano (2026); 

(iv)   tem já  cerca de meia centena de  referências no nosso blogue para o qual entrou em 1 de março de 2009.


2. Na sua página do Facebook, em 3 de junho, 18:12, escreveu a sguinte nota sobre as estas e outras fotos de gente anónima de Bissau;

(...) Eu vou quase todos os anos à Guiné. Tiro imensas fotos daquele belo povo e NÃO TIRO E NÃO PUBLICO uma foto que não tenha a autorização das pessoas que aparecem nas mesmas! 

Tenho muito respeito por toda a gente e, em especial para com o Povo da Guiné que merece de tudo menos de ser "usado".  Nunca existiu, nem nunca existirá, de minha parte, qualquer outra intenção (...) senão  a vontade de transmitir a beleza que a mulher Guineense tem! (...)
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Guiné 61/74 - P28073: Casos: a verdade sobre ...(73): A tragédia de Fajonquito, o "Dia Negro" de 2 de abril de 1972, domingo de Páscoa (Rui Oliveira, ex-fur mil trms, CART 2742 / BART 2920, 1970/72)




Guiné > Zona Leste > Região de Bafatá > Sector L2 > Fajonquito > CART 2742 > Domingo de Páscoa, 2 de abril de 1972. Os momentos dramáticos que antecederam a tragédia.

Prompt original e composição editorial: Luís Graça.
Texto: Rui Osório Oliveira
Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.



1. Mensagem recebida através do  Formulário de Contacto do Blogger 

Data - 4 de junho de 2026 11:22 

Assunto - Narrativa da morte de vários elementos da CART 2742, em  02/04/1972

1.1. Era furriel de transmissões na CART 2742 e gostaria de enviar um documento com a realidade do que presenciei detalhadamente no trágico dia de 2 de Abril de 1972 onde morreram o capitão Borges de Figueiredo, o alferes Félix, o furriel Alcino Silva, e o soldado Almeida que originou o acidente.

Muito do que consta no blog sobre o trágico dia é FALSO (*)

Gostaria rectificar o evento com a minha narrativa (**).

Cumprimentos,

Rui Osório Oliveira, F.N. 07486708  | 
Endereço de email: (...)

Rui Osório  Oliveira 
IT Remote Worker
Vive na Murtosa
(Foto no Linkedin)

AC 101 517 505
ICT System Engeneering
ICT Functional Analysis
WEB.3 - Blockchain
New Business Development
UN Online Volunteer 2010 AWARD

1.2. BART 2920 – CART 2742 - O DIA NEGRO – Dia 2 de Abril de 1972, Domingo de Páscoa


Era habitual aos domingos jogarmos Poker de Dados, éramos 5 habitualmente, o capitão
 [Carlos Borges Figueiredo ], o sargento Moura, o alferes Félix, o furriel Alcino Silva e eu.

Já tinha decorrido algum tempo de jogo quando abruptamente a porta do bar foi aberta com violência. Era o já referido soldado Pedro Almeida, ex-comando, tinha sido expulso da sua unidade e colocado na nossa companhia, para seu castigo e nossa desgraça. 

Na sua mão esquerda tinha uma granada defensiva sem cavilha de segurança. De imediato nos levantámos e o Almeida só dizia: “Quero falar com o nosso capitão”, frase que repetia constantemente, sem uma palavra trocada entre nós, que estávamos a jogar. 

Fomos tentando acalmar o Almeida e instintivamente tentado nos afastar do bar e aproximar de uma saída, estávamos no meio dos corredores na posição que mostro no esquema que segue.


[ Infografia: Rui Osório Oliveira, 2026]


Quando da passagem pedonal se ouviu a voz de um soldado: "É preciso alguma coisa, meu  capitão ?". 

O Almeida, sem mover do sítio os pés, torceu o seu tronco em direcção à voz que se tinha ouvido, apontando com o seu braço esquerdo que segurava a granada e disse: "Ide embora que isto não é convosco, mas com o nosso capitão". 

Neste preciso momento, em que acabou a frase, deu-se a explosão da granada que ele, devido ao seu gesto. deve ter aliviado a alavanca de segurança provocando o seu despoletar. 

Após o primeiro impacto vi o capitão, o Félix, o Alcino e o Almeida por terra tendo tido morte instantânea, os corpos estavam completamente dilacerados, o sangue jorrava por todos os lados. 

No corpo do soldado Almeida havia um buraco em forma de semicírculo que ia da axila esquerda à anca esquerda curvando até á coluna vertebral. Foi este facto que salvou o sargento Moura, que teve unicamente escoriações, e a mim que tive escoriações também, mas em menor grau. Um estilhaço ainda permanece incrustado num osso na base esquerda da minha mão direita, outros tive no braço e na cabeça, mas desapareceram com o tempo.

Fiquei em estado catatónico, e a primeira pessoa a chegar foi o Cabrita Martins que, vendo o meu estado,  me deu um estalo e gritou: "Vai para o rádio e pede socorro". Assim fiz.

Não passou muito tempo quando chegou o general Spínola, de helicóptero, com a sua comitiva entre os quais um médico, que após uma rápida vista dos corpos, viu o sargento Moura e depois a mim, mandou-me tomar um Valium 10mg, só foi pena não me ter dito para não tomar bebidas alcoólicas, o que fiz até voltar para casa.

O general Spínola reuniu os que estavam presentes numa grande roda disse umas palavras de circunstância, alertou para o sucedido, agradeceu o nosso esforço e despediu-se, voltou para o helicóptero e foi embora com a comitiva.

Vi umas mensagens que, entretanto, tinham chegado e fui ao local do acidente onde se encontravam os enfermeiros,  ajudados por outros militares a transportarem o que restava
dos corpos para a enfermaria e posteriormente seguirem para Bissau.

Sei perfeitamente o que o soldado Pedro Almeida queria dizer ao acpitão, era que o deixasse ficar na tropa quando acabasse a comissão, por mais de uma vez o tinha feito anteriormente, mas o capitão nada podia fazer, após o que lhe tinha acontecido em Viana do Castelo, que levou o Almeida a ser expulso dos comandos e vir para a CART 2742. Com tal evento registado jamais poderia permanecer nas forças armadas.

Também sempre senti na pele que, pelo facto de dormir fora, numa moradia, com outro furriel, ter um laboratório de fotografia, e o capitão falar isoladamente comigo, criou um certo mal-estar, quanto à minha pessoa. Sentia-se constantemente algo no ar, no entanto realço que nunca senti qualquer diferença da amizade que me tinham e eu tinha por eles ou diferença de tratamento.

Ao fim da tarde desse dia fui para o bar do sr. Avelino, sentei-me numa mesa que estava num canto, virado para esse mesmo canto, pedi ao ajudante do sr. Avelino uma garrafa de whisky e bebi-a até ficar sem gota, não falei com ninguém, só me fui embora já era de madrugada e ninguém a não ser o sr. Avelino se encontrava no bar, nem na rua. 

Desde esse dia nunca mais consegui entrar à noite no quarto que partilhava com o Alcino Silva, passei a dormir em casa da Cristina, mulher de idade avançada, que me tratava da roupa, onde vivia também a Mimi, mulher linda, com quem eu ficava. 

Quando o acidente ocorreu faltavam cerca de 2 meses para o fim da comissão de serviço e regresso à metrópole. Foi um acidente que me traumatizou para toda a vida e que ainda hoje me vem frequentemente à memória e em pesadelos. 

Este acidente foi ainda mais penoso para mim, pelo simples facto de que o capitão, quando foi de férias pela primeira vez, chamou-me ao gabinete, e disse-me: "Dá-me o endereço de teus pais, porque  quero visitá-los". 

E assim fez, acompanhado de sua esposa, a dra.  Rosa Figueiredo, esta falava frequentemente com a minha mãe, dando notícias minhas, pois eu detestava escrever aerogramas, a tal ponto de alguém ter comunicado o facto ao comando militar de Bissau, tendo eu recebido uma missiva a mandarem-me escrever para a família, e continuar a fazê-lo regularmente sob pena de sanção disciplinar. 

Havia imensas hipóteses de contacto, para provocarem esta reacção, a minha família conhecia a família dos 2 majores do Batalhão  [BART 2920], e uma grande amiga de minha mãe conhecia o comandante do Batalhão, factos que só vim a constatar na altura em que vim férias, no Carnaval de 1971.

Há um hiato de tempo que permanece completamente em branco na minha mente, um período que vai desde este acidente e o já estarmos em Bissau para regressar à Metrópole.

Estava eu e o sargento Moura no Hotel que fica à esquerda de quem desce pela avenida
[da República, hoje av Amílcar Cabral], frente ao Palácio do Governador. Em dois quartos frente um ao outro, e de o Moura me ter pedido para o ajudar a conferir as contas da companhia, dado que conhecia os meus conhecimentos de contabilidade e já o tinha ajudado por diversas vezes anteriormente, dado que existia um erro no balanço final. Ajudei-o e não me lembro da continuação.

Recordo, sim, que eu me sentia mal da minha cabeça, descuidando por vezes a minha aparência. A última recordação da Guiné é de eu estar na 5ª Rep [ Café Bento]. a beber uma cerveja,  quando chegou ao meu lado um polícia militar, era periquito, notava-se pela farda e branquinho de pele, que me disse: “Meu Furriel,  peço-lhe que se recomponha e aperte os botões da camisa e endireite a gravata, senão sou obrigado a dar-lhe ordem de prisão”. 

Eu não disse nada, fiquei a olhar para ele, talvez com cara de parvo, quando vi alguém, um major do  [BART 2920] , chegar ao meu lado e dizer ao PM: “Você vai sair daqui imediatamente ou quem lhe dá ordem de prisão sou eu”. Recordo que ainda houve uma troca de palavras, mas o PM pôs-se na alheta.

O próximo facto de que me recordo, foi já no aeroporto de Figo Maduro, chegar ao pé da família e primos(as) Amaral, de Lisboa, lembro-me de ter entregado à Nanducha um ceptro
dos nativos guineenses. Fomos para um quartel junto ao aeroporto, desfardarmo-nos, vestimos a roupa civil e fui ter com a família, voltei para casa no Porto.

Passado uma prima disse-me: “Ó rapaz quando chegaste ao pé de mim, parecias um Zombie!”.

Este evento mudou completamente o meu mundo, e durante muitos anos ninguém notou, reparou ou analisou o que se passava. Quando tentava falar do que se passava comigo,
acusavam-se de ser solitário, “doido”, “maluco”, “parvo” e "deixa-te disso".

Certo dia numa visita de rotina à médica de família, a mesma notou que algo se passava comigo e perguntou-me o que se passava e o que se tinha passado na Guiné. Receitou-me
um calmante e sem me dizer nada enviou um pedido de agendamento de consulta de psiquiatria no Hospital Magalhães Lemos
 [HML].

Passadas umas semanas,  recebo um convocatória para me apresentar numa consulta no HML, estava nesse momento internado no Hospital Joaquim Urbano, nas infecto-contagiosas com um abcesso de 7 cm no fígado, tendo aí permanecido 1 mês e meio.

Levaram-me à consulta numa cadeira de rodas numa ambulância. No final da consulta receitaram-me Efexor e o psiquiatra comunicou-me que iam iniciar um processo de Stress Pós-Traumático de Guerra, e para avisar quando tivesse alta do Joaquim Urbano.

Assim fiz. Permaneci no HML em regime Ambulatório durante 11 meses e fui acompanhado durante 13 anos com consultas periódicas. 

Passados uns tempos e, após várias consultas no Hospital Militar e  Juntas Médicas, foi-me reconhecida em 29 de outubro de 2008  Deficiência de 39% das minhas capacidades de saúde mental, tendo como tal direito a uma Pensão de Deficiência do Exército via CGA  [Caixa Geral de Aposentações].

Passaram-se 10 anos e, em todas as tentativas do obter a situação do processo, sempre recebi a resposta de ainda não se encontrar finalizado. Nesta altura estava completamente
desaustinado e resolvi apresentar a minha situação no Portal da Internet do Provedor de Justiça, lembro-me do último parágrafo: “Penso que estão à espera de que eu morra para
não pagarem a Pensão a que tenho direito...”

Estávamos em outubro de 2018, no dia seguinte recebi um email do secretariado a comunicarem-me que sido iniciada a análise expedita do meu processo. Tendo na altura
recebido o conteúdo de uma cópia do processo da morte do capitão Borges de Figueiredo, alferes Félix, furriel Alcino Silva e soldado Almeida.

O que mais me custou foi ver os falsos testemunhos dados por vários elementos da companhia, nomeadamente sargento Moura, alferes Baltasar Gomes da Silva e mais um soldado de que não me recordo do nome, afirmando que eu não estava presente durante o acidente. 

Valeu o relatório efectuado por um membro da comitiva em que estava exarado que estava presente no momento acidente, tendo saído ileso unicamente com alguns estilhaços no braço direito que estava estendido, milagrosamente, devido ao facto de o corpo do soldado Almeida, dado que se tinha virado para o soldado que tinha falado, ter absorvido o impacto da granada, salvando igualmente o sargento Moura e  tendo este sofrido mais escoriações.

No dia 18 de novembro estava em Lisboa, dado que a minha irmã se tinha suicidado atirando-se para a Linha do Metro quando este ia a passar, tendo sido trucidada. Estávamos em casa de um familiar, e após os trâmites legais, identificação do corpo, levantamento dos seus pertences e cremação no cemitério de São João. 

Na viagem de regresso ao Porto no Alfa Pendular,  em determinada altura resolvi ligar o telemóvel e ver os emails recebidos, entre eles encontrava-se um da CGA, a dizer  que o processo tinha sido aprovado e que iria receber os retroactivos que tinha direito desde o início do processo até à data, passando a partir desse momento a receber a Pensão de Deficiente mensalmente via CGA.

Rui Osório Oliveira

(Revisão / fixação de texto, parênteses retos, links: LG)

___________________

Notas do editor LG:

(*) Vd. postes de:

16 de agosto de 2014 > Guiné 63/74 - P13505: Quem era, afinal, o cap art Carlos Borges de Figueiredo, cmdt da CART 2742 (Fajonquito, 1970/72), morto em 2/4/1972, num sangrento domingo de Páscoa? Bem como o infeliz sold Pedro José Aleixo de Almeida? (José Cortes / Luís Graça / Carlos 'Gomes' / Cherno Baldé / António Bernardo)

14 de Novembro de 2011 > Guiné 63/74 - P9041: Memórias do Chico, menino e moço (30): A propósito do poema K3, de Nuno Dempster: Relembrando dois malogrados capitães de Fajonquito, Carlos Borges Figueiredo (CART 2742) e José Eduardo Marques Patrocínio (CCAÇ 3549) (Cherno Baldé)


Guiné 61/74 - P28072: Humor de caserna (271): "Poema para o meu irmão branco" (ou... a única cor que não muda é a da hipocrisia)






Prompt original e composição editorial: Luís Graça.
Texto: António Rosinha 
Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.


1. Foi pelas mãos do 'colón' (como ele gosta de chamar-se a si próprio) António Rosinha  que chegou ao blogue este pequena obra-prima de humor poético.  

Escreveu o nosso camarada (que conheceu bem "a Angola-é- nossa",  que foi retornado em Portugal e no Brasil, e cooperante na Guiné-Bissau), em comentário ao poste P19654 (*): 

"A pátria de Leopold Senghor que, para além de ter sido chefe de Estado, foi também filósofo, poeta e um ideólogo que sempre entendeu e valorizou a negritude tendo combatido os milenares preconceitos racistas, só podem vir reflexões elevadas que consolam a alma, como por exemplo este significativo poema que transcrevo"...

 E acrescentou em nota de rodapé: "Venderam-me esta, e achei graça!".

Tratava-se da versão, em português do Brasil, do "Poème à mon frère blanc". Fui à procura da versão francesa (**), que traduzi e adaptei para português de Portugal. Aqui vai:

Poema para o meu irmão branco

Meu querido irmão branco...
Quando eu nasci, era negro,
Quando eu cresci, era negro,
Quando eu me exponho ao sol, sou negro,
Quando eu estou doente, sou negro,
Quando eu estou com medo, sou negro,
Quando eu estou doente, sou negro,
Quando eu morrer, serei negro.

Quanto a ti, homem branco...
Quando tu nasceste, eras cor de rosa,
Quando tu cresceste, eras branco,
Quando te expões ao sol, ficas vermelho,
Quando estás com frio, ficas roxo,
Quando estás com medo, ficas verde,
Quando estás doente, ficas esverdeado,
Quando tu morreres, serás cinza.

Depois de tudo isto, Homem Branco,
E, já  que tu és  tão inteligente,
Diz-me por que é que me chamas
... Homem de cor?


Léopold Sédar Senghor (1906-2001) 
(atribuição errónea, mas simbólica) (**)


2. Comentário do editor LG (com a colaboração da menina Vibe, a nova ferramenta de IA da francesa  Mistral AI):

Há pequenos textos, como este poema,  que são como "granadas de mão":  parecem brinquedos, inocentes, inócuos, engraçados, mas explodem na mão de quem os lê. 

Este é um deles. Circula amplamente na Net,  até em sítios institucionais,  como sendo da autoria de Léopold Sédar Senghor. 

Recorde-se quem foi o senhor: o  primeiro presidente do Senegal, e grande poeta, de língua francesa, cujo apelido evoca, e se calhar não é por acaso, uma ancestralidade lusitana (Senghor = Senhor) (o que alguns autores, de resto, contestam).

Se qualquer modo, a autoria do poema é incerta ou duvidosa... O que, por si só, já é irónico. Afinal, não há melhor forma de "desmontar o racismo" do que com um texto como este que, por ser anónimo, pertence a todos, em geral, e a não pertence a ninguém, em particular... Como se a voz do outro, historicamente oprimido,  fosse, ela própria, uma criação coletiva!...

Este poema não é, propriamente,  no meu entender, uma diatribe, um panfleto,  contra o racismo. Tem subtileza, tem inteligência emocional, tem humor... 

Vejo-o sobretudo como uma espécie de carta aberta, de ironia fina, dirigida por uma "pessoa de cor" (um "negro") a um seu semelhante, "de cor branca", a quem trata por "querido irmão". 

Imagino-o entregue, fechado, em envelope cor de rosa, quiçá lacrado, por uma mão, negra, vestida de veludo branco, a um "tuga", no Café Bento, a famosa 5ª Rep, em Bissau. Ou talvez antes, em Luanda ou em Lourenço Marques (onde se diz que  o racismo era "menos português suave").

Num tom de falsa ingenuidade, o autor repete, uma e outra vez, a lista de situações em que o "homem negro" é sempre negro, enquanto o "homem branco" muda de cor,  conforme os quatro humores,  a saúde, a idade, o clima, as situações.

A pergunta final ("Por que é que me chamas...homem de cor?") é uma estocada, um  golpe de ironia: afinal, quem tem uma identidade cromática instável é o "branco", não o "negro". E no entanto, é este último que é rotulado, classificado, categorizado, reduzido a um adjetivo.

Este poema fica bem na série "Humor de caserna" (***).

Na guerra colonial, como em qualquer contexto de violência, o racismo era (e é) muitas vezes normalizado sob a forma de piadas, estereótipos, rótulos, praxes, "brincadeiras de mau gosto"... Este poema usa a mesma estrutura do discurso colonizador (a repetição, a classificação, a categorização, o supremacismo, mesmo subtil),   para o desmontar por dentro. 

É o humor como arma crítica: uma crítica disfarçada de conversa amigável e tratamento afetuoso  ("meu querido irmão branco"), e que só no fim se revela como "granada de mão",  com a "cavilha de segurança" à vista, pronta a saltar, e  quando já é tarde para recuar.

Na caserna, nas tabancas, ou nas esplanadas de Bissau, ouvia-se de tudo: "barrote queimado", "nharro", "preto", "baldé",  "turra", "mulato", "escurinho", "tuga", "portuga", "branco", "verdiano"... Mas, afinal, quem é que, no fundo, tinha cor? E quem é que, no fundo, era transparente, ou seja, "invisível na sua humanidade"?

Por fim, a ironia da autoria (ou o mito do "Senghor / Senhor"): que este poema seja atribuído a Senghor também não é de todo inocente. Senghor = Senhor: um africano com um nome que soa a herança portuguesa, um intelectual que foi um dos pais do movimento da negritude (que celebrava a identidade negra), e que, ironicamente, se vê associado a um texto que desconstói a própria ideia de raça como falso conceito científico, desenvolvido no século XIX  e primeira metade do século XX.

Tudo indica que o poema é de autor desconhecido. Trata-se de um "meme" literário que ganhou força justamente por não ter dono. Como se o racismo fosse tão óbvio que até a sua crítica fosse obra de todos.

Dá para refletir, camaradas, brancos, negros, crioulos,  amarelos... Para refletir, e até rir e chorar... Se o "homem branco" muda de cor conforme o estado de espírito, o ciclo de vida, a condição de saúde, etc., por que razão então é o "homem negro" é que  é "de cor"?

Será que a única cor que não muda é a da hipocrisia? E se, no fundo, o verdadeiro "homem de cor" fosse aquele que se recusa a ver as cores dos outros? 

Curiosamente, o "preto" é a única "cor" que, dizem, não existe na paleta do arco-íris.

(Revisão / fixação de texto, negritos, título, links: LG)
__________________

Notas do editor LG:
 

(**) Vd. o sítio, em francês,  Un Jour Un Poeme:

Poème à mon frère blanc

Cher frère blanc,

Quand je suis né, j’étais noir,
Quand j’ai grandi, j’étais noir,
Quand je suis au soleil, je suis noir,
Quand je suis malade, je suis noir,
Quand je mourrai, je serai noir.

Tandis que toi, homme blanc,
Quand tu es né, tu étais rose,
Quand tu as grandi, tu étais blanc,
Quand tu vas au soleil, tu es rouge,
Quand tu as froid, tu es bleu,
Quand tu as peur, tu es vert,
Quand tu es malade, tu es jaune,
Quand tu mourras, tu seras gris.

Alors, homme blanc,
Si tu es si intelligent,
Dis-moi pourquoi tu m’appelles
« homme  de couleur » ?

(***) Último poste da série > 24 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P28050: Humor de caserna (270): o anedotário da Spinolândia - Parte XXXVII: Oh, homem, cale-se! (Alberto Branquinho, ex-alf mil art OE, CART 1689 / BART 1913, Fá, Catió, Cabedu, Gandembel e Canquelifá, 1967/69)

Guiné 61/74 - P28071: Parabéns a você (2492): João Moreira, ex-Fur Mil Cav da CCAV 2721 (Olossato e Nhacra, 1970/72)

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Nota do editor

Último post da série de 31 de maio de 2026 >
Guiné 61/74 - P28061: Parabéns a você (2491): Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52 (Missirá e Bambadinca, 1968/70)

quarta-feira, 3 de junho de 2026

Guiné 61/74 - P28069: Efemérides (395): Há 57 anos, a 24 de maio de 1969, partiu o T/T Niassa para o CTIG - Parte VI: CCAÇ 2591/CCAç 13, "Os Leões Negros" (1969/71)

Guiné > Região do Oio > Binar > Nhamate > 1970 > CCAÇ 13 > Spínola de visita ao reordenamento de Nhamate, cumprimenta o cap mil inf Álvaro Alberto Durão, o primeiro capitão da CCAÇ 13 (1969/71).

Foto do álbum de Adriano Silva, ex-fur mil, CCaç 13 (a companhia passou por Bissau, Bolama, Bissorã, Encheia, Binar e Biambi;foi substituída, em Binar, em finais de março de 1970, pela CCAÇ 2658, que terá mais tarde, numa coluna de Nhamate a Binar, 8 mortos.

Foto: Cortesia de Carlos Fortunato, ex-fur mil,  CCAÇ 13 (1969/71), o melhor sítio na Net sobre companhias individuais que estuveram no CTIG > Guerra na Guiné - Os Leões Negros > CCAÇ 13, Binar, 1970


1. Uma das companhias que seguiu connosco (CCAÇ 2590 /CCAÇ 12) no T/T Niassa, com destino à Guiné,  em 24 de maio de 1969 (fez agora 57 anos), foi a CCAÇ 2591 (será extinta em 18 de janeiro de 1970, dando origem à CCAÇ 13). 

Infelizmente temos escassas referências à CCAÇ 2591.  Alguma informação estava disponível no sítio criado e administrado pelo nosso amigo e camarada Carlos Fortunato:  CCAÇ 13 -Os Leões Negros: Memórias da Guerra na Guiné (1969/71), já há muito descontinuado. Felizmente foi recuperado, como arquivo morto, podendo ser consultado aqui, no  Arquivo.pt:

https://arquivo.pt/wayback/20100531194155/http://leoesnegros.com.sapo.pt/index.html

Tal como a CART 11, CCAÇ 12, CCAÇ 14, etc., esta subunidade passou a fazer parte da "nova força africana", tão cara ao gen Spínola.


2. Comecemos pelas fichas de unidade das CCAÇ 2591 e CCAÇ 13


Carlos Fortunato
 : tem cerca
de uma centena de referências


Companhia de Caçadores n.º 2591


Identificação: CCaç. 2591

Unidade Mob: RI 16, Évora

Cmdt: Cap Mil Art Álvaro Alberto Durão

Divisa: "Conduta brava e em tudo distinta"

Partida: Embarque em 24Mai69;  desembarque em 30Mai69 | Extinção em l8Jan70

Síntese da Actividade Operacional

A subunidade foi constituída com quadros e especialistas metropolitanos e enquadrou pessoal natural da Guiné, da etnia Balanta, tendo efectuado a 2ª fase da instrução de formação no CIM, em Bolama, 
 e sido utilizado em patrulhamentos, reconhecimentos e contactos com as populações da região.

Em 05Nov69, foi colocado em Bissorã, como força de intervenção e reserva do BCaç 2861, tendo sido empregada em várias acções, patrulhamentos e emboscadas nas regiões de Namedão, Cate e Camã.

Em Jan70, destacou dois pelotões para Binar, a fim de efectuar a segurança e protecção dos trabalhos da estrada Binar-Nhamate.

Em 14Jan70, a subunidade foi colocada em Binar, a fim de colaborar nos trabalhos de recuperação das populações da área da península de Encherte e na instalação e autodefesa dos reordenamentos.

Em 18Jan70, a subunidade passou a designar-se CCaç 13, sendo subunidade de guarnição normal, a partir daquela data.

Observações - Não tem História da Unidade.

Fonte: livro Resenha histórico militar das Campanhas de África, 7º Volume, Fichas das Unidades, Tomo II - Guiné


Companhia de Caçadores n.º 13


Carlos Prata, membro da Tabanca Grande
desde  24/11/2011

Identificação: CCaç 13

Cmdts:
  • Cap Mil Inf Álvaro Alberto Durão
  • Alf Mil Inf (Ranger) Adelino Manuel de Almeida Pimenta Correia
  • Cap Mil Inf João Carlos Carvalho de Castro
  • Cap Mil Cav (Ranger) Carlos Matos de Oliveira - 06/72 a 03/74
  • Cap Cav Carlos Alberto Duarte Prata - 03/74 a 04/74(?)
  • Cap Mil Inf Humberto Manuel Teixeira Gonçalves de Figueiredo - 05/74(?) a 08/74
Início: 18Jan70 (por alteração da anterior designação de CCaç 2591) | Extinção: 20Ago74


Síntese da Actividade Operacional




Em 18Jan70, foi criada por alteração da sua designação anterior, integrando os quadros e praças especialistas metropolitanos e pessoal natural da Guiné, predominantemente da etnia Balanta, que constituíam, anteriormente, a CCac 2591.

Continuou instalada em Binar, então orientada para a segurança e protecção dos trabalhos dos reordenamentos da península do Enxerte, tendo estabelecido o seu estacionamento em Nhamate, a partir de 02Fev70, com os seus pelotões disseminados por Manga, Encherte e Unche.

Em 14Mar70, substituída no subsector de Nhamate pela CCaç 2658, foi colocada em Bíambe, passando então à dependência directa do CAOP l como subunidade de intervenção e reserva daquele comando e, a partir de 30Mai70, do BCaç 2861., tendo tomado parte em diversas operações realizadas nas regiões de Encherte, Queré, Chaté-Inquida e Mores, entre outras.

Em 12Jun70, foi deslocada para Bissorã, a fim de assumir a responsabilidade do respectivo subsector, em. substituição da CCaç 2.444, ficando integrada no dispositivo e manobra do BCaç 2861 e sucessivamente do BCaç 2927, do BCaç 4610/72 e do BCav 8320/73.

Em 20Ago74, foi desactivada e extinta.

Obs - Tem História da Unidade a partir de OlMar72 (Caixa n." 128 - 2.ª Div/ 4ª Sec,
do AHM).

Fonte: Excertos de Portugal. Estado-Maior do Exército. Comissão para o Estudo das Campanhas de África, 1961-1974 [CECA] - Resenha Histórico-Militar das Campanhas de África (1961-1974). 7.º volume: Fichas das Unidades. Tomo II: Guiné. Lisboa: 2002, pág. 633

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Nota do editor LG:

Guiné 61/74 - P28068: S(C)em comentários (89): O "ouro branco" do caju e a "Suiça Africana (Cherno Baldé / António Rosinha)





Prompt original e composição editorial: Luís Graça.
Textos: Cherno Baldé / António Rosinha
Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.


1. Comentários ao poste P28066 (*):


1.1. Cherno Baldé:


O autor e editor do texto (LG) fala da produção do caju pós-colonial como se tratasse de uma visão e orientação económica bem construída e aplicada no terreno.  Não há nada mais errado.

A ideia apareceu na época colonial, provavelmente nos anos 40/50, a década da visão abrangente de longo prazo e de todas as obras de infraestruturas no território iniciadas com o consulado do Sarmento Rodrigues. 

A política da promoção do caju continuou ainda nos anos 60/70, sem conseguir, todavia, uma aceitação geral no seio da população, sobretudo no Leste do território, mas já dominava em largos espaços no litoral Oeste (Biombo), Norte (Bissorã) e algumas partes do Sul (Tite e Fulacunda).

O que aconteceu no pós-25A74 é uma completa desordem na economia. O PAIGC não tinha uma política económica definida, o regime do Luís Cabral, um grande sonhador e voluntarista, quis transformar um país recém-independente, agrário, desprovido de quadros técnicos e de especialistas e sem infraestruturas,  num país industrializado, com fábricas e numa aventura de substituição de importações.

Os camponeses,  que eram o pilar da economia colonial, foram completamente ignorados, o sistema produtivo, de fomento e captação vs distribuição através da rede de lojas e armazéns no mato em que se apoiavam, foi desmantelado na tentativa forçada de criação de uma nova rede controlada pelo Estado (Armazéns do Povo), o que desincentivou a produção do amendoim em larga escala. 

As famílias camponesas, desorientadas e sem apoio moral nem material, pegaram naquilo que podiam e/ou tinham em mão e, foi assim que, rapidamente, sem qualquer decisão superior, aconteceu a corrida ao caju como meio de salvação e substituto dos anteriores produtos de renda,  combinando-se com um período de forte procura desse produto no mercado internacional.

Como uma desgraça nunca vem só, então a facilidade da sua produção, aliada ao volume das receitas, acabou por conquistar a totalidade do território e familias,  e com isso levar ao abandono das outras culturas, inclusive alimentícias como os campos de arroz e milho. 


1.2. António Rosinha:


"Os camponeses, que eram o pilar da economia colonial, foram completamente ignorados", diz o Cherno.

Claro que para o PAIGC de Luís Cabral, bem como para todos os "portugueses" do Ultramar que formaram os movimentos nacionalistas nas diversas colónias, foram anos e anos a sonhar nas riquezas que "tínhamos debaixo dos pés".

A lavoura salazarista do azeitinho, da corticinha,  da sardinhinha... termos que atiravam à cara dos transmontanos, beirões, minhotos, algarvios e madeirenses,  não era para eles.

Isso do óleo de palma, amendoim, caju...isso não era para eles.

O Luís Cabral e seus irmãos das outras colónias sonhavam mais alto. Luís Cabral queria industrializar, mesmo depois dele ainda ficou aquela de que a Guiné ia ser a "Suíça africana",

Só mesmo os barcos da Sogeral (CUF) com tripulação cabo-verdiana, gastava gasóleo para se desviar da rota de Luanda e subir o Geba até Bissau para levar uns tantos barris de vinho e aproveitava e carregava uns tantos tambores de chabéu para as suas fábricas de sabão do Barreiro.

Sem CUF e sem cabo-verdeanos não havia ânimo para uma segunda Guiné. (**).

quarta-feira, 3 de junho de 2026 às 00:14:00 WEST

(Revisão / fixação de texto, título: LG)
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