sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Guiné 63/74 - P14017: Manuscrito(s) (Luís Graça) (40): Maresias, Lisboa, Tejo, memórias, amnésias... Parte I: Lisboa, como é bom rever-te, Tejo e tudo...


Lisboa > Museu de Lisboa > Torreão Poente da Praça do Comércio > Exposição "Maresias: "Maresias: Lisboa e o Tejo, 1850-2014" (de 14 julho a 19 dezembro de 2014) (*) > "Praça do Comércio". Litografia colorida. A Editora. Século XIX (finais). Museu da Cidade.

[Foto: Luís Graça (2014). Imagem reproduzida com a devida vénia, e para fins informativos]

Como é bom rever-te, Lisboa, Tejo e tudo

por Luís Graça (**)


Lisboa, sete colinas, o rio, uma paixão,
que deram origem
à arte e à ciência de fazer cocktails
de cores, sabores e sentimentos.
E tu, querida, 
eras uma das meninas que ficava bem,
à janela, recortada,
em pórtico manuelino da Casa dos Bicos
ou no laranjal da estória da Nau Catrineta,
desenhando frágeis castelos de Espanha
nas areias movediças de Portugal.

Lisboa, menina e moça,
cidade de memórias e de afetos,.
tu podias não saber nada de geografia,
nem da didática da educação de adultos,
nem da fisiologia do coração,
nem de macroeconomia,
nem de desenho a três dimensões,
nem do risco sísmico,
nem sequer do simples risco de existir e de estar viva.
Mas sempre tiveste por perto
o estúpido pirata de perna de pau,
vesgo e maneta,
irrompendo os teus sonhos
com o pesadelo do sentimento de um ocidental
na ponta mais fina de uma espada,
guardada na Torre de Belém.

Lisboa,
o casario, o castelo, a mouraria,
e, rente ao chão, a devoção,
a procissão da Senhora da Saúde,
que nos valia nos anos de peste,
nos meses de guerra,
nas semanas de fome
e nos dias de depressão,
a depressão funda, cavada,
do vale de Alcântara até Xabregas.

Lisboa, a Torre do Tombo,
os livros, os incunábulos, os alfarrabistas,
as pedras, as cantarias, as traves mestras
que nos falam da cidade em construção,
dos arquitetos, dos trolhas, dos estucadores,
das gaiolas pombalinas,
dos tristes, 
dos saudosos da partida,
dos pintores de tabuletas e de retábulos dourados das igrejas,
dos aguadeiros, 
do poço do mouros e do poço dos negros,
dos almoxarifes, 
dos vedores, 
dos provedores,
dos coveiros da pátria,
dos enfermeiros-mores,
dos físicos e dos tísicos,
do Carmo e da Trindade, outrora de pedra e cal,
dos agiotas, das tenças e das mercês,
dos engenheiros hidráulicos, 
dos agrónomos, 
dos agrimensores,
dos silvicultores do pinhal d’el-rei,
dos santos inquisidores,
das freiras e das frieiras 
que é coçá-las e deixá-las
no cemitério de todos os prazeres.
Ah, aí onde a vida acaba
na ponta de uma naifa no Bairro Alto das fadistas
e na Baixa Chiado dos seus chulos.

Mas não de tédio, minha querida,
diz o pregão da varina,
nem de desesperança,
que ainda a noite é uma criança,
e enquanto houver o 28 para a (Des)Graça
com bilhete de ida e volta,
as Escadinhas do Duque
ou a Calçada do Combro
e os escombros do terramoto
por subir, trepar ou escalar.
E os filetes de alfaquique ou peixe-galo 
com açorda de ovas
que não vão à mesa do rei.
E os pastéis de Belém com IVA
e o bife dos ricos à Marrare
e as iscas, dos pobres, com elas
nas carvoarias dos galegos
e o cheiro a carvão e a sardinha,
linda que tresanda,
nas ruelas e vielas dos bairros impopulares,
por fim reordenados,
e livres do tifo, da febre amarela,
da cólera, do bacilo de Koch
e das paixões cegas da alma.
E o Portugal very tipical do António de Ferro,
descalço e de barrete encarnado,
com que te quiseram tramar;
e as sécias e os peraltas da Belle Époque
que a Avenida da Liberdade
acaba na rotunda das edificantes públicas virtudes
e no beco dos mais torpes vícios privados.

Tu, terna, eterna, Olissipo,
onde o azul do céu é único,
diz o ofício do turismo,
e nos leva a todos os caminhos do infinito.
Ulisses sabia-o e bem guardado estava o segredo
do mais fundo do tempo.
E por isso fundeou no estuário do teu Tejo,
e te fundou e fecundou,
e trouxe com ele a caixinha de Pandora,
e os perfumes inebriantes das mais belas:
troianas, fenícias, gregas,
cartaginesas, romanas,
celtas, ibericíssimas,
godas, visigóticas,
mouras encantadas,
berberes, azenegues, 
judias sefarditas,
futa-fulas, mandingas, 
pretas da Senegâmbia,
crioulas de carapinha e olhos verdes,
ameríndias, guaranis,
bárbaras, belas, pérfidas, ubérrimas,
santas e peregrinas, 
errantes e penitentes,
místicas, algures perdidas,
loucamente perdidas
nos caminhos marítimos para as Índias.

Que te importa, amor,
se Lisboa já não é uma praça forte,
uma bolsa contra os valores
daqui d’el-rei
que o paço e o terreiro,
o trono e a régia cabeça,
tremem e estremecem,
entre o Martinho e a Arcádia,
na iminência de um ataque terrorista
ou da implosão do euro.
Dantes chamava-se anarquista, à bomba regicida,
quando a palavra de ordem era
a bolsa ou a vida, abaixo o Estado!
E não havia as avenidas novas, do Ressano Garcia,
nem o risco dos engenheiros,
nem o cordão sanitário,
nem a construção a custos controlados,
nem o prémio Valmor,
nem o Siza nem o Moura,
nem o fundo de mão de obra,
nem o Dow Jones ou o NASDAK.
Nem a apagada e vil tristeza
que te matou, 
meu irmão Luís de Camões.

E estavas tu, querida, 
postada à janela,
descalça e de xaile preto,
em sossego e bom recato,
com vistas largas para o casario, a sé, o castelo,
o mar da palha, 
o mundo vário,
a rua do ouro e a da prata,
o augusto senhor dom José a mata-cavalos,
a serra, a arrábida fóssil,
a armada outrora invencível,
a ribeira das naus,
e as iscas com elas a cinco paus,
o turista, o voyeurista,
o motorista
do senhor ministro sem pasta
nem forragem para o gado na canícula do verão,
nem para os puros sangues lusitanos da alcáçova,
nem sangue nem soro para os heróis menores, anónimos,
da guerra colonial
que vieram morrer na praia do 10 de junho,
o velho do Restelo,
que já foi praia sem bandeira azul nem glória,
o velho do Restelo agora ainda mais velho
e mais estupidamente lúcido e cruel,
o Cesário e a sua idiossincrasia,
o Cesário, verde e rubro, nos estádios dos eurofutebois,
mais o Eça de Queiroz, o estrangeirado,
que te amava à maneira dele,
a Sofia, a deusa, a olímpica,
o Almada e os seus marinheiros sem futuro,
o Bocage e o seu filho, Ary, debochados, panfletários,
mais o O'Neil, que era tão louco quanto irlandês,
e o luminoso Eugénio mais o Andrade,
e ainda a Amália e a nossa estranha forma de vida,
e tantos outros poetas que te cantaram,
e que morreram de amores e desamores por ti,
entre o Cais das Colunas e o Cais do Sodré.
Ah, e o Pessoa,
subindo e descendo o Chiado,
de braço dado contigo,
recitando-te o heterónimo:
A rapariga inglesa, tão loura, tão jovem, tão boa
Que queria casar comigo…
Que pena eu não ter casado com ela…
Teria sido feliz.
Mas como é que eu sei se teria sido feliz ?


Esquece o Álvaro, o Campos, o sedutor,
e deixa-me pôr-te a caminhar
pelos caminhos ínvios e íngremes
desta cidade-sortilégio,
que nós amamos no singular
e maltratamos no plural…
E se, contudo, há um privilégio,
é sempre o da amizade e do amor,
é esse de poder ter-te
ao alcance da mão e do coração dos amantes,
entre  o Rossio e o Terreiro do Paço,
ou de permeio, a Rua Augusta,
entre a liberdade sem rua nem abrigo
e os segredos de polichinelo da tua caixa de correio.

É, enfim, esse privilégio de poder dizer-te,
no regresso da última nau do império:
Como é bom rever-te,
Lisboa, Tejo e tudo.


Lisboa, Terreiro do Paço, 20 de maio de 2006

2 comentários:

José Botelho Colaço disse...

Um dia o João ou a Joana vão de certeza ocupar muitas horas a recuperar o que o pai deixou esquecido na prateleira ou arquivo x ou y.
Um abraço.

Mário Vasconcelos disse...

Um roteiro de vida, da vida lisboeta. Vamos nas ruas e becos, cruzamos as raças, vivemos a história, comemos petiscos. Se não está aqui a Lisboa destas e de outras eras, pouco lhe faltará. Apreciei imenso. Fico, ficamos, grato(s).