Um dos meus amigos fixes desse tempo era um furriel miliciano, destacado no Cacheu, que sempre que conseguia desenfiava-se e aparecia em Bissau, quase sempre de madrugada.
Abreviadamente, era o A. T....Vinha bater a porta do meu quarto sempre com a burra e o mesmo grito:
- Zé, acorda vamos pró Pilão que as meninas estão à MINHA espera...
Ora bem, quase sempre durante a minha estadia em Bissau conseguia que o "nosso primeiro", responsável pela distribuição de alojamentos, se esquecesse de que no meu quarto havia duas camas. Portanto, quando os meus amigos vinham a Bissau, sabiam que tinham onde ficar...
Numa dessas visitas o A.T. comprou um pingalim de pau santo, igual ao meu, que usava quando eu ia ao Pilão. Era uma exelente arma de defesa porquanto se ouvesse necessidade partia-se com o joelho e tinhamos dois punhais improvisados...(Lamego).
Como eu ia dizendo, numa dessa visitas depois de se recompor e depois do jantar, era da ordem a visita ao Pilão,depois de o A.T. ter feito, durante o dia, o respectivo reconhecimento. Dizia ele então:
-Ó Zé, descobri estas meninas e temos que lá ir hoje à noite, pá. (O A.T. estava convencido que era o Adónis de toda a Guiné, não só do Pilão).
Nessa noite parece que o estou a ver vestido a rigor, todo de calças e camisa branca e de pingalim debaixo do braço. Arrancámos pró Pilão e fomos para uma área que eu desconhecia, o que me preocupava e perguntava-lhe:
- Ó pá, tu sabes para onde vais ? Parece-me bem que não...
O A.T. respondia-me:
-Sei, sei, é por aqui...
E lá íamos cada vez mais embrenhados em território inimigo... Noite de lua nova, escuro como breu, a única coisa que eu via era o branco do A.T.... De repente o A.T. desaparece da minha vista (ia vários passos à minha frente) e, antes que eu pudesse falar, ouvi-o vociferar:
- Ah, f...-se!| Porra! C... Ó Ze, ajuda-me!...
- Porra, onde é que estás ? - pergunto eu...
- Aqui, pá!
Acendi o isqueiro e com a pouca luz que dava vi que o A. T. tinha caído numa fossa de merda, atascando-se até ao peito e de pingalim na mão a gesticular... Parecia o maestro dos cagalhões!...
- Ó Zé, ajuda-me! F...-se!...
Tirei o meu cinto, passei-lhe uma ponta e ajudei-o a vir para terra firme... Ah, meu Deus, e o cheiro...poça!
E aí fomos os dois andando em busca de lugares conhecidos com o A.T., caminhando de pernas abertas, e deixando um rasto de merda... E os dois, às gargalhadas. Lá chegámos ao pé do quartel da PSP onde entrei para chamar um táxi para o levar para o hospital militar onde recebeu um banho de antibióticos e mais não sei quantos medicamentos.
O resto deste acidente: o taxista que chegou quando viu o estado em que estava o A. T., disse logo:
- Não senhor, não entra no carro, nunca mais tiro esse cheiro do assento!
Por sua vez, os cabrões da PSP não deixaram o A. T. usar os seus chuveiros. Lá consegui uma mangeira da PSP. O A.T. despiu-se e eu de mangeira na mão a dar-lhe um duche como se estivesse a lavar um cavalo...
Já mais limpo e tremer de frio, lá o meti no táxi e toca ir pró hospital... Arrancámos, e agora imaginem a malta do hospital quando aí chegámos, de táxi, com um passageiro nu em pelota e a tremer de frio... Disse o médico que o viu:
- Teve muita sorte e lavar-se foi muito boa ideia...
- OK, o que não sabe é que, sem essa lavagem, tínhamos que vir à pata para o hospital.
Graças a Deus o A.T. nÃo só sobreviveu a este acidente como recuperou a sua saúde. Em 1974 quando levei a minha então esposa a Portugal para conhecer o resto da minha família e amigos, tive o prazer de o convidar para vir jantar comnosco e estivemos noite fora à conversa:
- E lembras-te disto... e lembras-te daquilo ?...
Sinto enormes saudades desse AMIGO e camarada.
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Nota do editor
Último poste da série > 25 de Novembro de 2011 > Guiné 63/74 - P9095: Se bem me lembro... O baú de memórias do Zé Ferraz (6): Não matem a bajudinha...



























